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  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

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    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado, De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóes queimado. Tenho proprio casal, e nelle assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite, Das brancas ovelhinas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n’uma fonte, Dos annos inda não está cortado: Os Pastores, que habitão este monte, Respeitão o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o proprio Alceste: Ao som della concerto a voz celeste; Nem canto letra que não seja minha. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura, Só aprêço lhes dou, gentil Pastora, Depois que o teu affecto me segura, Que queres do que tenho ser Senhora. He bom, minha Marilia, he bom ser dono De hum rebanho, que cubra monte, e prado Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve: Papoila, ou rosa delicada, e fina, Te cobre as faces, que são côr da neve. Os teus cabellos são huns fios d’ouro; Teu lindo corpo balsamos vapora. Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora, Para gloria de Amor igual Thesouro. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora O rio sobre os campos levantado: Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar huma rez, o nedeo gado. Já destes bens, Marilia, não preciso: Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta, Para viver feliz, Marilia, basta Que os olhos movas, e me dês hum riso. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marilia, no meu braço; Aqui descançarei a quente sésta, Dormindo num leve somno em teu regaço: Era quanto a luta jogão os Pastores, E emparelhados correm nas campinas, Toucarei teus cabellos de boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte Ou seja neste monte, ou n’outra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dous a mesma terra. Na campa, rodeada de cyprestes, Leráõ estas palavras os Pastores: “Quem quizer ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos que nos derão estes” Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas A hum menino vendado, Com huma aljava de settas, Arco empunhado na mão: Ligeiras azas nos hombros, O tenro corpo despido; E de Amor, ou de Cupido São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego, Que assim seja Amor; pois elle Nem he moço, nem he cégo, Nem settas, nem azas tem, Ora pois, eu vou formar-lhe Hum retrato mais perfeito, Que elle já ferio meu peito; Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos; Que sobre as costas ondeão, São que os de Apollo mais bellos; Mas de loura côr não são. Tem a côr da negra noite; E com o branco do rosto Fazem, Marilia, hum composto Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa; Arqueadas sobrancelhas; A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são huns sóes, Aqui vence Amor ao Ceo, Que no dia luminoso O Ceo tem hum Sol formoso, E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa, Marilia, estão misturadas Purpureas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim. Dos rubins mais preciosos Os seus beiços são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito Dei logo hum suspiro, e elle Conheceo haver-me feito Estrago no coração. Punha em mim os olhos, quando Entendia eu não olhava: Vendo que o via, baixava A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso; Elle ouvindo os seus louvores Com hum modo desdenhoso, Se surrio, e não fallou. Pintei-lhe outra vez o estado, Em que estava esta alma posta; Não me deo tambem resposta, Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo Animado da esperança, Busco dar hum desaffogo Ao cansado coração. Pégo em seus dedos nevados, E querendo dar-lhe hum beijo, Cubrio-se todo de pejo, E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo De Amor o lindo retrato, Comtigo estarás dizendo, Que he este o retrato teu. Sim, Marilia, a copia he tua, Que Cupido he Deos supposto: Se ha Cupido he só teu rosto, Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura Não se podem livrar humanos peitos. Adorão os Heróes, e os mesmos brutos Aos grilhões de Cupido estão sujeitos. Quem, Marilia, despreza huma belleza, A luz da razão precisa, E se tem discurso, pisa A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove Huma vez se mudou em chuva de ouro: Outras vezes tomou as varias fórmas De General de Thebas, velha, e touro, O proprio Deos da Guerra deshumano Não viveo de amor illeso; Quiz a Venus, e foi prezo Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa Em quem ao proprio Ceo, e terra move; Qual he a minha gloria, pois igualo, Ou excedo no amor ao mesmo Jove? Amou o Pai dos Deoses Soberano Hum semblante peregrino: Eu adoro o teu divino, O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos São réos, e culpados, Que soffra, e que beije Os ferros pezados De injusto Senhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto, O sangue gelou-se, A lingoa prendeo-se, Tremi, e mudou-se Das faces a côr. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    A vista furtiva, O risco imperfeito, Fizerão a chaga, Que abriste no peito Mais funda, e maior. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te; Levava o teu gado Á fonte mais clara, Á vargem, e prado De relva melhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade, Trazia nos ninhos As aves nascidas, Abrindo os biquinhos De fome ou temor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava De gosto me enchia; Mas sempre o ciume No rosto accendia Hum vivo calor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre, Dirceo se alegrava; Se estavas sentida, Dirceo suspirava Á força da dor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura, Marilia dizia; Surria-se aquella, E eu conhecia O erro de amor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia, De tanta ternura, Nos braços me déste, Da tua fé pura Hum doce penhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste Que tudo podia Mudar de figura; Mas nunca seria Teu peito traidor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste; E a Olaia frondoza, Aonde escreveste A jura horrorosa, Tem todo o vigor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo, Que o fado tyranno Te obriga a deixar-me; Pois busca o meu damno Da sorte, que for. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes Os sitios formosos, Aonde passava Os annos gostosos? São estes os prados, Aonde brincava, Em quanto pastava O manso rebanho, Que Alceo me deixou? São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco Hum rio cahia, Ao som do sussurro Que vezes dormia! Agora não cobrem Espumas nevadas As pedras quebradas: Parece que o rio O curso voltou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Meus versos alegre Aqui repetia: O Eco as palavras Tres vezes dizia. Se chamo por elle Já não me responde; Parece se esconde, Cansado de dar-me Os ais que lhe dou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou. Aqui hum regato Corria sereno, Por marg[~e]s cobertas De flores, e feno: Á esquerda se erguia Hum bosque fechado; E o tempo apressado, Que nada respeita, Já tudo mudou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Mas como discorro? Acaso podia Já tudo mudar-se No espaço de hum dia? Existem as fontes, E os freixos copados; Dão flores os prados, E corre a cascata, Que nunca seccou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha Liberta a vontade, Agora já sente Amor, e saudade. Os sitios formosos, Que já me agradárão, Ah! não se mudárão! Mudárão-se os olhos, De triste que estou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella! Que diversos que são os genios nossos! Qual solta a branca vélla, E affronta sobre o pinho os mares grossos. Qual cinge com a malha o peito duro; E marchando na frente das cohortes, Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha, Que possa o filho entrar no seu Thesouro. Aqui fechado estende Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro. Sacode o jogador da copo os dados; E n’uma noite só, que ao somno rouba, Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora Da lauta meza os prazeres fia. E o terno Alceste chora Ao som dos versos a que o genio o guia. O sabio Gallileo toma o compasso, E sem voar ao Ceo, calcula, e mede Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente, Se deixa conduzir do proprio gosto; Passo as horas contente Notando as graças do teu lindo rosto. Sem cansar-me a saber se o Sol se móve, Ou se a terra voltea, assim conheço. Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos; E noto as faces de Jasmins, e rosas: Noto os teus olhos bellos; Os brancos dentes, e as feições mimosas. Quem fez huma obra tão perfeita, e linda, Minha bella Marilia, tambem póde Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia, A Marilia meus amores; Porém como, se eu não vejo Quem me empreste as finas cores! Dar-mas a terra não póde; Não que a sua côr mimosa Vence o lyrio, vence a rosa: O jasmim, e as outras flores. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo; Busquemos hum pouco mais; Nos mares talvez se encontrem Cores que sejão iguaes. Porém não, que em parallelo Da minha Ninfa adorada Perolas não valem nada, Não valem nada os coraes. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem Taes bellezas, como aquellas, Que Marilia tem nos olhos, E que tem nas faces bellas. Mas ás faces graciosas, Aos negros olhos, que matão, Não imitão, não retratão Nem Auroras, nem Estrellas. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos, Entremos na mesma Esfera. Venha Pallas, Venha Juno, Venha a Deosa de Cithera. Porém não, que se Marilia No certame antigo entrasse, Bem que a Paris não peitasse, A todas as tres vencera. Vai-te, Amor, em vão soccorres Ao mais grato empenho meu: Para formar-lhe o retrato Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas? De que te roube Dirceo O sincero coração? Não te deo tambem o seu? E tu, Marilia, primeiro Não lhe lançaste o grilhão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas Não rulão ternos pombinhos? E rulão, Marilia, em vão? Não se afagão c’os biquinhos? E a provas de mais ternura Não os arrasta a paixão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia, Avezinhas, que não fação Os seus ninhos no verão? Aquellas com quem se enlação Não vão cantar-lhe defronte Do molle pouzo em que estão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão Nos bravos mares, e rios, Tudo effeitos de Amor são. Amão os brutos impios, A serpente venenosa, A Onça, o Tigre, o Leão. Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo, Sentem a setta tyranna Da amorosa inclinação. Diana, com ser Diana, Não se abrasa, não suspira Pelo amor de Endymão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella, De huma queixa sustentada Só na altiva opinião. Esta chamma he inspirada Pelo Ceo; pois nella assenta A nossa conservação. Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo, Porém não me venceo a mão armada De ferro, e de furor: Huma alma sobre todas elevada Não cede a outra força que não seja Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora Cadêas nas bigornas trabalhadas Com pezados martellos: Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas Com duros ferros não, com fios d’ouro, Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos Cupido a tudo faz tyranna guerra: Sacode a setta ardente; E sendo despedida cá da terra, As nuvens rompe, chega ao alto Impirio, E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas Tirão, Marilia, os succos saborosos Das orvalhadas flores: Pendentes dos teus beiços graciosos Ambrosias chupão, chupão mil feitiços Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas As folhas, que menêa com brandura; A fonte crystallina, Que sobre as pedras cáe de immensa altura; Não fórma hum som tão doce, como fórma A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão; Exalão mil suspiros desvelados Enchames de desejos; Se encontrão os teus olhos descuidados, Por mais que se atropelem, voão, chegão, E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago, Erguendo as brancas azas, e o pescoço; A Náo que ao longe passa, Quando o vento lhe infuna o panno grosso; O teu garbo não tem, minha Marilia, Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade: Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo Á mão de Amor impia: Honro a virtude, e os teus dotes amo: Tambem o grande Achilles veste a saia Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito, Que izento viva Da chamma activa, Que accende Amor. Ah! não habite Neste montado; Fuja apressado Do vil traidor.

    Corra, que o Impio Aqui se esconde: Não sei aonde; Mas sei o que vi. Traz novas settas, Arco robusto; Tremi de susto; Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos, Tristes mortaes, Quantos signaes O Impio tem. Oh! como he justo, Que todo o humano Hum tal tyranno Conheça bem!

    No corpo ainda Menino existe: Mas quem resiste Ao braço seu? Ao negro Inferno Levou a guerra: Vencêo a terra, Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem Seus membros bellos; E os seus cabellos Que lindos são! Vendados olhos, Que tudo alcanção, E já mais lanção A setta em vão.

    As suas faces São côr da neve; E a bocca breve Só rizos tem. Mas, ah! respira Negros venenos, Que nem ao menos Os olhos vem.

    Aljava grande Dependurada, Sempre atacada De bons farpões. Fere com estas Agudas lanças, Pombinhas mansas, Bravos leões.

    Se a setta falta Tem outra prompta, Que a dura ponta Já mais torcêo. Ninguem resiste Aos golpes della: Marilia bella Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente Dura peleija, O que deseja Ser vencedor. Fuja, e não olhe, Que só fugindo De hum rosto lindo, Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques Na sonorosa Lyra, Que ás almas, como a minha, namoradas Doces Canções inspira: Assopra no clarim, que apenas sôa Enche de assombro a terra; Naquelle, a cujo som cantou Homero, Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma Cupido o seu thesouro: Vivos olhos, e faces côr da neve, Com crespos fios de ouro; Meus olhos só vem gramas, e loureiros; Vem carvalhos, e palmas; Vem os ramos honrosos, que destinguem As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço As Serpes despedaça; Que fere os Cácos, que destronca as Hidras, Mais os leões que abraça. Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra Dos Tritães, e Tyféos, Que arrancão as montanhas, e atrevidos Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento, Que a voz tambem levanto; Porém tu déste muito assima o ponto, Dirceo não póde tanto: Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste; Eu já, eu já te sigo. Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_, E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.

    Feres as cordas d’ouro? Ah! sim, agora Meu canto já se afina; E a huma voz, parece que ao som dellas Se faz tambem divina. O mesmo que cercou de muro a Thebas Não canta assim tão terno; Nem póde competir comigo aquelle, Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves Mostrão signaes de espanto, Erguem os collos, voltão as cabeças, Parão o ledo canto; Move-se o tronco, o vento se suspende Pasma o gado, e não come: Quanto podem meus versos! Quanto póde Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa, Empreza maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia Ao Deos vendado, Que descuidado Não tinha as settas Na impia mão. Mal o conheço, Me sóbe logo Ao rosto o fogo, Que a raiva accende No coração.

    _Morre, Tyranno, Morre, inimigo_! Mal isto digo, Raivoso o apérto Nos braços meus. Tanto que o moço Sente apertar-se, Para salvar-se Tambem me aperta Nos braços seus.

    O leve corpo Ao ar levanto, Ah! e com quanto Impulso o trago Do ar ao chão! Poude suster-se A vez primeira; Mas á terceira Nos pés, que alarga, Se firma em vão.

    Mal o derrubo, Ferro aguçado No já cançado Peito, que arqueja, Mil golpes deo. Suou seu corpo; Tremêo gemendo; E á côr perdendo, Batêo as azas; Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides, Que a hirsuta pelle Vestio daquelle Grenhoso bruto, A quem matou. Para que próve A empreza honrada, C’o a mão manchada Recolho as settas, Que me deixou.

    Ouvio Marilia Que Amor gritava, E como estava Vizinha ao sitio Valer-lhe vem. Mas quando chega Espavorida, Nem já de vida O féro monstro Indicio tem.

    Então Marilia, Que o vê de perto De pó cuberto, E todo involto No sangue seu; As mãos aperta No peito brando, E afflicta dando Hum ai, os olhos Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle Compadecida; Lava a ferida C’o pranto amargo, Que deramou. Então o monstro Dando hum suspiro, Fazendo hum gyro C’o a baça vista, Resuscitou.

    Respira a Deosa; E vem o gosto Fazer no rosto O mesmo effeito, Que fez a dôr. Que louca idéa Foi a que tive! Em quanto vive Marilia bella, Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos, Marilia bella, Não atropella Quem cégo arrasta Grilhões de Amor! Hum peito forte, De acordo falto, Zomba do assalto Do vil traidor.

    O amante de Hero Da luz guiado, C’o peito ousado Na escura noite Rompia o mar, Se o Helesponto Se encapellava, Ah! não deixava De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio A heroicidade Esta verdade, Minha Marilia, Prova tambem. Cheio de esfôrço Vai ao Cocyto Buscar afflito Seu doce bem.

    Que acção tão grande Nunca intentada! Ao pé da entrada Já tudo assusta O coração! Pendentes rochas, Campos adustos, Que nem arbustos Nem hervas dão.

    Na funda fralda De calvo monte, Corre Acheronte, Rio de ardente Mortal licor. Tem o barqueiro Testa enrugada, Vista inflammada, Que mete horror.

    Que seguranças! Que fechaduras! As portas duras Não são de lenhos; De ferro são. Por tres gargantas, Quando alguem bate, Raivoso late O negro cão.

    Dentro da cova Soão lamentos; E que tormentos Não mostra aos olhos A escassa luz! Minos a pena Manda se intime Igual ao crime, Que alli conduz.

    Grande penedo Este carrega; E apenas chega Do monte ao cume, O faz rolar. A pedra sempre Ao valle desce, Sem que elle cesse De a ir buscar.

    Nas limpas aguas Habita aquelle: Por cima delle Verdejão ramos, Que pomos dão. Debalde a bocca Molhar pertende; De balde estende Faminta mão.

    Tem outro o peito Despedaçado: Monstro esfaimado Já mais descança De lho roêr. A rôxa carne, Que o abutre come, Não se consome, Torna a crescer.

    Mas bem que tudo Pavor inspira, Tocando a lyra Desce ao Averno O bom Cantor. Não se entorpece A lingua, e braço; Não treme o passo, Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto Dirceo obrára, Se precisára, Marilia bella, Do esforço seu! Rompêra os mares C’o peito terno, Fôra ao Inferno, Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes De Thracia, e Abydo Não deo Cupido Do que aos mais todos Maior valor. Por seus vassallos Forças reparte, Como lhes parte Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa; A sorte deste mundo he mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deoses Sujeitos ao poder do impio Fado: Apollo já fugio do Ceo brilhante, Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulchro, Que seus a vós erguêrão, descançando: Qual no campo, e lhe arranca os frios casos Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos Não voltão contra nós a face irada, Façamos, sim façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Hum coração que frouxo A grata posse de seu bem difere, A si, Marilia, a si proprio rouba, E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores, E façamos de feno hum brando leito, Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possão deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta, E se entorpece o corpo já cançado; Triste o velho cordeiro está deitado, E o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura He dote, que só goza a mocidade: Rugão-se as faces, o cabello alveja, Mal chega a longa idade.

    Que havemos d’esperar, Marilia bella? Que vão passando os florecentes dias? As glorias, que vem tarde, já vem frias; E póde em fim mudar-se a nossa estrella. Ah! não, minha Marilia, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia Tem de seu hum bom thesouro, Não he, doce Alceo, formado Do buscado Metal louro. He feito de huns alvos dentes, He feito de huns olhos bellos, De humas faces graciosas, De crespos, finos cabellos; E de outras graças maiores, Que a natureza lhe dêo: Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes, Dar ás correntes desvios, Pôr cercados espaçosos Nos caudosos Turvos rios. Posso emendar a ventura Ganhando astuto a riqueza; Mas, ah! charo Alceo, quem póde Ganhar huma só belleza Das bellezas, que Marilia No seu thesouro metêo? Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico Entre o fausto alegremente, Vive o guardador de gado Apoucado, Mas contente. Beije pois torpe avarento As arcas de barras chêas: Eu não beijo os vís thesouros; Beijo as douradas cadêas, Beijo as settas, beijo as armas Com que o cego Amor vencêo: Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte, Ama, Alceo, o mesmo Jove: Não he, não, a vã riqueza, Sim belleza, Quem os move. Posto ao lado de Marilia Mais que mortal me contemplo: Deixo os bens, que aos homens cegão, Sigo dos Deoses o exemplo: Amo virtudes, e dotes; Amo em fim, prezado Alceo, Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido Ser a tua Eulina amada Pastora formosa, Pastora engraçada. Vejo a sua côr de rosa, Vejo o seu olhar divino, Vejo os seus purpùreos beiços, Vejo o peito crystallino; Nem ha cousa, que assemelhe Ao crespo cabello louro. Ah! que a tua Eulina vale, Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito Á laranjeira copada, Estando de flores, E frutos ornada. He, Glauceste, os teus Amores; E nem por outra Pastora, Que menos dotes tivera, Ou que menos bella fôra, O meu Glauceste cançára As divinas cordas de ouro. Ah! que a tua Eulina vale, Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa; Mas anîma a formosura De huma alma de féra, Ou inda mais dura. Ah! quando Alceo pondéra Que o seu Glauceste suspira, Perde, perde o soffrimento, E qual enfermo delira! Tenha embora brancas faces, Meigos olhos, fios de ouro, A tua Eulina não vale, Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra, Tambem aos olhos he bello; Mas quando alumêa, Tu tremes de velo. Que importa se mostre chêa De mil bellezas a ingrata? Não se julga formosura A formosura, que mata. Evita, Glauceste, evita O teu estrago, e desdouro; A tua Eulina não vale, Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto Á natureza não deve! Tem divino rosto, E tem mãos de neve. Se mostro na face o gôsto, Ri-se Marilia contente: Se canto, canta comigo; E apenas triste me sente, Limpa os olhos com as tranças Do fino cabello louro. A minha Marilia vale, Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia, Tu enfadada? Que mão ousada Perturbar póde A paz sagrada Do peito teu?

    Porém que muito Que irado esteja O teu semblante Tambem troveja O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia, Que outra Pastora A toda a hora, Em toda a parte, Céga namora Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo Aonde ha fogo; Assim, Marilia, Ha zelos, logo Que existe amor.

    Olha, Marilia, Na fonte pura A tua alvura, A tua bocca, E a compostura Das mais feições. Quem tem teu rosto, Ah! não receia, Que terno amante Solte a cadeia, Quebre os grilhões.

    Não anda Laura Nestas campinas Sem as boninas No seu cabello, Sem pelles finas No seu jubão.

    Porém que importa? O rico aceio Não dá, Marilia, Ao rosto feio A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel, Que á moleta encostado, Apenas mal se move, e mal se arrasta? Oh quanto estrago não lhe fez o tempo? O tempo arrebatado, Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão Seus olhos a viveza; Voltou-se o seu cabello em branca neve: Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo; Nem tem huma belleza Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia Daqui a poucos annos; Que o impio tempo para todos corre. Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos. Ah! sentirei os damnos, Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice Muito menos penoza. Não trarei a moleta carregada: Descançarei o já vergado corpo Na tua mão piedoza, Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem Os chuveiros não lance, Irei comtigo ao prado florescente: Aqui me buscarás hum sitio ameno, Onde os membros descance, E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo Os olhos por aquella Vistoza parte, que ficar fronteira; Apontando direi: _Alli fallámos, Alli, ó minha bella, Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes, Nascidas de alegria: Farão teus olhos ternos outro tanto: Então darei, Marilia, frios beijos, Na mão formosa, e pia, Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente Meu corpo supportando Do tempo deshumano a dura guerra. Contente morrerei, por ser Marilia Quem sentida chorando, Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado, Minha bella Marilia, nos sentemos Á sombra deste cedro levantado. Hum pouco meditemos Na regular belleza, Que em tudo quanto vive, nos descobre A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta O novilhino seu dos mais separa, E o lambe, em quanto chupa a liza teta. Attende mais, ó chara, Como a ruiva cadella Supporta que lhe morda o filho o corpo; E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura Entre as azas ao filho essa ave aquenta: Como aquella esgravata a terra dura, E os seus assim sustenta; Como se encoleriza, E salta sem receio a todo o vulto, Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante Quando der ao filhinho o peito brando, E reflectir então no seu semblante! Quando, Marilia, quando Disser comigo: _he esta De teu querido pai a mesma barba, A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca, Quando o tem nos seus braços, c’o dedinho Nas faces graciosas, e na bocca Do innocente filhinho! Quando, Marilia bella, O tenro infante já com risos mudos Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem Com as mãis hum dos filhos abraçados; Jogar outros a luta, outros correrem Nos cordeiros montados! Que estado de ventura! Que até naquillo, que de pezo serve, Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa Roseira se abria Hum negro botão. Marilia adorada O pê lhe torcia Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas Á abelha inraivada O corpo escondêo. Tocou-lhe Marilia, Na mão descuidada A fera mordêo.

    A penas lhe morde, Marilia gritando, C’o dedo fugio. Amor, que nos bosques Estava brincando, Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura, E o sangue espargido, Que a Deoza mostrou; Rizonho beijando O dedo offendido, Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco O pranto desatas, Ah! dá-me attençaõ; E como daquelle, Que feres, e matas, Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho, Depois que vi o teu rosto; Pois quanto não he Marilia, Já não posso ver com gosto. Noutra idade me alegrava, Até quando conversava Com o mais rude vaqueiro: Hoje, ó bella, me aborrece Inda o trato lizongeiro Do mais discreto pastor. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana Sem reparar no que faço; Busco o sitio aonde moras, Suspendo defronte o passo. Fito os olhos na janella, Aonde, Marilia bella, Tu chegas ao fim do dia; Se alguem passa, e te saúda, Bem que seja cortezia, Se accende na face a côr. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo, Não tenho hum leve cuidado; Nem me lembra, se são horas De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante, Ao minuto, ao breve instante, Finge hum dia o meu desgosto: Já mais, Pastora, te vejo Que em teu semblante composto Não veja graça maior. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo; Marilia, tão perturbado, Que no mesmo aberto sulco Metto de novo o arado. Aqui no centêo pégo, Noutra parte em vão o cégo: Se alguem comigo conversa, Ou não respondo, ou respondo Noutra coiza tão diversa, Que nexo tão tem menor. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro Só Marilia me desvella: Enche-se o peito de magoa, E não sei a causa della. Mal durmo, Marilia, sonho, Que féro leão medonho Te devora nos meus braços: Gella-se o sangue nas veias. E sólto do somno os laços Á força da immensa dor. Ah! que os effeitos que sinto Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora Outra belleza, que não seja a tua, Com a vermelha roda, a seis puxada, Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita Adorne a seda, e o tremó dourado; Pendão largas cortinas, penda o lustre Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes, Nem andarás nos coches voadores; Porém terás hum Vate, que te preze, Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura; E da palida morte a mão tyranna Arraza os edificios dos Augustos, E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão De quem nem se quer temos a memoria? Só podem conservar hum nome eterno Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha, Por mais que qualquer dellas fosse linda, Já não sabia o mundo, se existirão Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada Por quantos hão de vir sabios humanos, Que ter urcos, ter coches, e thesouros, Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N’um sitio ameno Cheio de rosas, De brancos lyrios, Murtas viçosas;

    Dos seus amores Na companhia Dirceo passava Alegre o dia.

    Em tom de graça, Ao terno amante Manda Marilia Que toque, e cante.

    Péga na lyra, Sem que a tempere, A voz levanta, E as cordas fere.

    C’os doces pontos A mão atina, E a voz iguala A voz divina.

    Ella, que teve De rir-se a idéa, Nem move os olhos De assombro chêa.

    Então Cupido Apparecendo, Á bella falla Assim dizendo:

    _Do teu amado A lyra fias, Só porque delle Zombando rias_?

    _Quando n’um peito Assento faço, Do peito subo Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro Estylo tome, Sendo eu o mestre, A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove De immensos animaes de toda a especie As terras, mais os ares, O grande espaço dos salobros rios, Dos negros, fundos mares. Para sua defeza, A todos dêo as armas, que convinha; Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros; Dêo ao peixe escamoso as barbatanas: Dêo veneno á serpente, Ao membrudo Elefante a enorme tromba, E ao Javali o dente. Coube ao leão a garra: Com leve pé saltando o servo foge; E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso Que valem muito mais que as outras armas: Dêo-lhe dedos ligeiros, Que podem converter em seu serviço Os ferros, e os madeiros; Que tecem fortes laços, E forjão raios com que aos brutos cortão Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão Outras armas, que tem dobrada força: Dêo-lhes a Natureza Além do entendimento, além dos braços As armas da belleza. Só ella ao Ceo se atreve, Só ella mudar póde o gello em fogo, Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura Quem arrancou da mão de Coriolano A cortadora espada. Vejo que foi de Helena o lindo rosto Quem pôz em campo armada Toda a força de Grecia. E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma, Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão, O braço desarmar do mesmo Achilles; Se estes rostos irados Podem soprar o fogo da descordia Em póvos alliados; Hes arbitra da terra; Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia Com os seus Genios fallava, Do modo que lhe restava De captivar a Dirceo. Depois de larga disputa, Hum dos Genios mais sagazes Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas, Como se em roxa batessem, Dão nos seus peitos, e descem Todas quebradas ao chão. Só as graças de Marilia Podem vencer hum tão duro, Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza Consiste em armar-se o laço, Sem que sinta ser o braço, Que lho prepara, de Amor. Que elle vive como as aves, Que já deixárão as pennas No visco do Caçador.

    Na força deste conselho O raivoso Deos socega, E á tropa a honra entrega De o fazer executar. Todos pertendem ganhá-la, Batem as azas ligeiros, E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão Da Deosa nos olhos bellos; Qual se enlaçou nos cabellos; Qual ás faces se prendêo. Hum amorinho cansado Cahio dos labios ao seio, E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto Este novo ardil alcança, Muda-se n’uma criança De divino parecer. Esconde as azas, e a venda; Esconde as settas, e quanto Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino Todo de graças cuberto, Tão risonho, e tão esperto Alli sózinho brincar. A elle endireita os passos; Finge Amor ter medo, e a Deosa Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando; Elle fugia, e chorava: Assim forão onde estava O descuidado Pastor. Este, mal vio a belleza, E o gentil menino, entende A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos, Cerra os olhos, e constante Não quer ver o seu semblante, Não o quer ouvir fallar. Qual Ulysses n’outra idade Para illudir as Serêas Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via, Julga o intento frustrado, E de raiva transportado O corpo no chão lançou. Traçou a lingoa nos dentes; Mettêo as unas no rosto, E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia Entre os peitos da Pastora, Erguêo a cabeça fóra, E o successo conhecêo. Deixa o socego em que estava, E vai ligeiro metter-se No peito do bom Dirceo.

    Apenas c’o brando peito Lhe tocou a neve fria, Com o calor que trazia Lhe abrazou o coração. Dá o Pastor hum suspiro, Abre os seus olhos, e sólta Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios Ao triste Pastor disposto Para ver o lindo rosto, Para as palavras ouvir. Cada hum as armas toma, Cada hum com ellas busca Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa Lhe fórma hum Cupido laços, Que lhe segurão os braços, Como se fossem grilhões. O Pastor já não resiste; Antes beija satisfeito As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia Extrahio mimosas cores De frescos lyros, e rosas, De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas Usa de huma, e de outra tinta, E nos angulos do cobre A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos No seu lizo centro escreve Hum letreiro, que pergunta: _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura, E lêo a letra engenhosa, Pôz por baixo: _Eu delle cedo; Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio Que engrossando no Inverno tudo arraza; Na frente das cohortes Cérca, vence, abraza As Cidades mais fortes. Foi na gloria das armas o primeiro, Morrêo na flor dos annos, e já tinha Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome Não ha poder algum, que não abata, Foi, Marilia, sómente Hum ditozo pirata, Hum salteador valente. Se não tem huma fama baixa, e escura; Foi por se pôr ao lado da injustiça A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa, Á sua mesma Patria a fé quebranta; Na mão a espada toma, Opprime-lhe a garganta, Dá Senhores a Roma. Consegue ser heróe por hum delicto; Se acaso não vencesse então seria Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste Em queimar os Imperios: move a guerra, Espalha o sangue humano, E despovoa a terra Tambem o máo tyranno. Consiste o ser heróe em viver justo: E tanto póde ser heróe o pobre, Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella, Seguindo da virtude a honroza estrada. Ganhei, ganhei hum throno. Ah! não manchei a espada, Não a roubei ao dono. Ergui-o no teu peito, e nos teus braços: E valem muito mais que o mundo inteiro Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores Atormentão remorsos, e cuidados; Nem descanção seguros Nos Palacios cercados De tropa, e de altos muros. E a quantos nos não mostra a sabia historia A quem mudou o fado em negro opprobrio A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo Nos braços do descanço, e mais do gosto: Quando estou acordado, Contemplo no teu rosto De graças adornado; Se durmo logo sonho, e alli te vejo. Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando Dos hombros a aljava, N’um campo de flores Contente brincava.

    E o corpo tenrinho Depois enfadado, Incauto reclina Na relva do prado.

    Marilia formosa, Que ao Deos conhecia, Occulta espreitava Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme Se chega contente, As armas lhe furta, E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão As armas roubadas, Sahirão das grutas Soltando rizadas.

    Acorda Cupido, E a causa sabendo, A quantos o insultão Responde, dizendo:

    _Temieis as settas Nas minhas mãos cruas? Vereis o que podem Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho Me apparece, e me convida Para que seu jugo acceite; E quer que eu passe em deleite O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_ (Astuto o moço dizia) _Já perto da morte estava, Inda de amores cantava; Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares Não resiste hum peito fraco, Se Amor o não fortalece: O mesmo Jove carece De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro Nada creio ao que dizes; Porque já te fui sujeito, Inda conservo no peito Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta Algum apreço não faço, Me diz affoito que trate De ir com elle a combate Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas; Cinjo primeiro que tudo O brilhante arnêz, e á pressa Ponho hum elmo na cabeça, Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento, Marilia (oh Ceos!) me apparece: Logo os olhos me fita, O meu coração palpita, A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno: _Confessa louco o teu erro; Contra as armas da belleza Não vale a externa defeza. Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte A mãi de Amor se sentou: Encostou na mão o rosto, No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe, Contente ao lugar corrêo; Cuidando que era Marilia Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada: Amor a conhece; e então Da ousadia, que teve, Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa, Foi facil o engano meu; Que o semblante de Marilia He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia, Se tens belleza, Da natureza He hum favor. Mas se aos vindouros Teu nome passa, He só por graça Do Deos de amor, Que terno inflamma A mente, o peito Do teu Pastor.

    Em vão se virão Perlas mimosas, Jasmins, e rosas No rosto teu. Em vão terias Essas estrellas, E as tranças bellas Que o Ceo te dêo; Se em doce verso Não as cantasse O bom Dirceo.

    O voraz tempo Ligeiro corre: Com elle morre A perfeição. Essa, que o Egypto Sábia modera, De Marco impera No coração; Mas já Octavio Não sente a força Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella, E o teu querido Ao Deos Cupido Louvores dar; Pois faz que todos Com igual sorte Do tempo, e morte Possão zombar: Tu por formosa, E elle, Marilia, Por te cantar.

    Mas ai! Marilia, Que de hum amante, Por mais que cante, Gloria não vem! Amor se pinta Menino, e cego: No doce emprêgo Do charo bem Não vê defeitos, E augmenta, quantas Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates, Em teu conceito, Nutrio no peito Nescia paixão? Todas aquellas, Que vês cantadas, Forão dotadas De perfeição? Forão queridas; Porém formosas Talvez que não.

    Porém que importa Não valha nada Seres cantada Do teu Dirceo? Tu tens, Marilia, Cantor celeste; O meu Glauceste A voz ergueo; Irá teu nome Aos fins da Terra, E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas Do leve vento Ao Firmamento Teu nome for: Mostrando Jove Graça extremosa, Mudando a Esposa De inveja a côr; De todos ha-de, Voltando o rosto, Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche Teu brando peito Do vil defeito Da ingratidão: Os versos beija, Gentil Pastora, A penna adora, Respeita a mão, A mão discreta, Que te segura A duração.

    LYRA XXXII.

    N’uma noite socegado Velhos papeis revolvia, E por ver de que tratavão Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas De quantos versos melhores Eu compuz na tenra idade A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas Contra a ventura formadas, Leio excessos mal acceitos, Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas Eu exclamo transportado: _Que finezas tão mal feitas! Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n’hum grande monte Os soltos papeis, e logo, Porque reliquias não fiquem, Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego Com semblante carregado Assim me falla, e crimina O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos? Dize, Pastor attrevido, Essas Lyras não te forão Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores Não deve existir memoria? Sepultando esses triunfos, Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla, Nos seus hombros a mão pondo, Com hum semblante sereno Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares A minha Marilia bella, Devo guardar humas Lyras, Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa Que a estes papeis destrua; Se he tua esta maõ; que os rasga, Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta Manda que os lance nas brazas; E ergue a chamma c’o vento, Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora, Péga meu charo Glauceste; E ferindo as cordas de ouro, Mostra aos rusticos Pastores A formosura celeste De Marilia, meus amores. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste, Que concurso tão ditoso! Tu és digno de cantares O seu semblante divino; E o teu canto sonoroso Tambem do seu rosto he dino. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Para pintares ao vivo As suas faces mimosas, A discreta Natureza Que providencia não teve! Creou no jardim as rosas, Fez o lyro, e fez a neve. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    A pintar as negras tranças Peço que mais te desvelles: Pinta chusmas de amorinhos Pelos seus fios trepando; Huns tecendo cordas delles, Outros com elles brincando. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste, Os seus beiços graciosos, Entre as flores tens o cravo, Entre as pedras a granada; E para os olhos formosos, A estrella da madrugada. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Mal retratares do rosto Quanto julgares preciso, Não dês a cópia por feita; Passa a outros dotes, passa, Pinta da vista, e do riso A modestia, mais a graça. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto Com expressões delicadas; Os seus pés, quando passeão, Pizando ternos amores; E as mesmas plantas calcadas Brotando viçosas flores. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo, Hum terno amante beijando Suas douradas cadeias; E em doce pranto desfeito, Ao monte, e valle ensinando O nome, que tem no peito. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto, Inda que, Pastor, se veja Que a minha bocca suspira, Que se banha em pranto o rosto; Que os outros chorão de inveja, E chora Dirceo de gosto. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa, Nem sonoras Canções o Deos me inspira: Ah! que nem me resta Huma já quebrada, Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo, Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te: Cumpro o seu desejo; E ao que resta supra A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa, Que a molhada parede ou çuja, ou pinta; Bem que tosca, e fêa, Agora me póde Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta: Elle me diz, que faça no pé de huma Má laranja ponta, E delle me sirva Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo Verás, Marilia, huma idéa nova: Sim, eu já te escrevo, Do que esta alma dita Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura, Nada obra em te adorar, que assombro faça: Mostra mais ternura Quem te estima, e morre Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa Ainda vendo estou teus olhos bellos, A testa formosa, Os dentes nevados, Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda A chusma dos Cupidos, que pendentes Dessa bôcca linda, Nos ares espalhão Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo, Responderei–no peito–que huns Amores De casto desejo Aqui te pintárão, E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora Teu Retrato fizerão, e tão forte, Que entendo, que agora Só póde apagallo O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo! Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro. Ah! dá-lhes hum beijo, E diz-me que valem Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora Entre as mãos denegridas, e insolentes Os venenos das plantas, E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto Não has-de ver, Marilia, o modo escrito; O medo perturbado, Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito, As Furias infernaes, que Pluto move; Mas póde mais que todas Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa; A quem seu nome derão, a Narciso, Fêz d’ muitos os Astros, Qu’ inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias Do nescio, do atrevido ingrato povo; Em nova flor mudar me, Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos Em tão tyranno mal me não soccorrem, Verás então, que os sabios, Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo. Tu, formosa Marilia, bem o sabes: Hum coração, e basta, Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella, Á medonha noite o dia: A estação chuvosa e fria, Á quente secca estação. Muda-se a sorte dos tempos; Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras, Brotão em flores viçosos; Nos Invernos escabrosos Largão as folhas no chão. Muda-se a sorte dos troncos; Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão Armadas redes os passos; Rompem depois os seus laços, Fogem da dura prisão. Muda-se a sorte dos brutos; Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva Alegre sempre o seu rosto; Depois das penas vem gosto, Depois do gosto afflicção. Muda-se a sorte dos homens; Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão Soberbos Gigantes guerra; No mais tempo o Ceo, e a Terra Lhes tributa adoração. Muda-se a sorte dos Deoses; Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se Do destino a inclemencia: Tenho por mim a innocencia, Tenho por mim a razão. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta Os troncos, pedras, e o cobre, O véo rompe, com que encobre Á verdade a vil traição. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo, Mais me dará do que eu tinha, Tornarei a ver-te minha. Que feliz consolação! Não ha de tudo mudar-se, Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando Loiro cabello, que circúla a testa. Este mesmo, que alveja, vai cahindo, E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres, E vão-se sobre os ossos enrugando, Vai fugindo a viveza dos meus olhos; Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão; As forças dos meus membros já se gastão, Vou a dar pela casa huns curtos passos, Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte, Vê que assim me não pôz a mão dos annos: Os trabalhos, Marilia, os sentimentos, Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias, A minha mocidade o doce gosto; Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se, Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão, Na Primavera, que aos mortaes encanta, Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho, Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece; Mas logo que a doença fez seu termo, Torna, Marilia, a ser quem era d’antes, O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta, No meio da desgraça, que me altera: Eu tambem te supponho qual saude, Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores; Que effeitos não farão, em quem por elles Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem; O brando Norte assopra, nem diviso Huma nuvem sequer na Esfera toda, O destro Nauta aqui não he preciso; Eu só conduzo a náo, eu só modéro Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla, Rasga-se a véla, o mastaréo se parte! Qualquer varão prudente aqui já teme Não tenho a necessaria força, e arte. Corra o sabio Piloto, corra, e venha Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede Aos homens na ventura, e na desgraça: Basta ao feliz não ter total demencia, Mas quem de venturoso a triste passa, Deve entregar o leme do discurso Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem; E esta alma, em tanta pena consternada, Nem sabe aonde possa achar conforto. Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada, Toma o leme da náo, marêa o panno, Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes: Elle me diz que soffra se não morro; E perco então se morro huns doces laços. Não quero já, Marilia, mais soccorro, Oh ditoso soffrer, que lucrar póde A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas, Lingua importuna? De que a Fortuna Roubar-te queira, O que te deu? Este foi sempre O genio seu.

    Levou, Marilia, A impia sorte Catoens á morte; Nem sepultura Lhes concedeu. Este foi sempre O genio seu.

    A outros muitos, Que vís nascêrão, Nem merecêrão, A grandes thronos A impia ergueu. Este foi sempre O genio seu.

    Espalha a cega Sobre os humanos Os bens, e os damnos; E a quem se devão Nunca escolheu. Este foi sempre O genio seu.

    A quanto he justo, Já mais se dobra; Nem igual obra C’os mesmos Deoses Do cáro Ceo. Este foi sempre O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus N’hum carro ufano; E cahe Vulcano Da pura esfera, Em que nasceu. Este foi sempre O genio seu.

    Mas não me rouba, Bem que se mude, Honra, e virtude: Que o mais he della, Mas isto he meu. Este foi sempre O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste, Se fazes o conceito, Que bem que réo abrigo A candida virtude no meu peito. Se julgas, digo, que mereço ainda Da tua mão soccorro; Ah! vem dar-m’o agora, Agora sim que morro.

    Não quero, que montado No Pegaso fogoso, Venhas com dura lança Ao monstro infame traspassar raivoso. Deixa que viva a perfida calumnia, E forge o meu tormento: Com menos, meu Glauceste, Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada, E toca hum pouco nella: Levanta a vóz celeste Em parte que te escute a minha bella; Enche todo o contorno de alegria; Não soffras, que o desgosto Affogue em pranto amargo O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste, Que hum bom Cantor havia, Que os brutos amansava; Que os troncos, e os penedos attrahia. De outro destro Cantor tambem affirma; A sábia Antiguidade, Que as muralhas erguêra De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere; O som delgado, e terno Ao Rei Plutão abranda, E o deixa que penetre o fundo Averno. Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste; Na lyra, e mais no canto: Podes fazer prodigios; Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes: Que mais, que mais esperas? Consola hum peito afflito; Que he menos inda, que domar as féras. Com isto me darás no meu tormento Hum doce lenitivo, Que em quanto a bella vive, Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen, A quem o nome derão de Fortuna, Pega-me pelo braço, E com voz importuna Me diz que mova o passo; Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra, Quanto o destino manda, Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro! Eu vejo a pobre fundação de Roma, Vejo-a queimar Carthago; Vejo que as gentes doma; E vejo o seu estrago. Lá florece o poder do Assyrio Povo: Aqui os Medos crescem E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes? Todas estas Medalhas vêr agora? Ah! não, não sejas louco! Espaço de annos fôra Para isto ainda pouco. Deixo estranhos successos; vem comigo, Verás quanto inda deve Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia, Que toda me explicou com medo, e arte. _Tirei-te libras de oiro_ Me diz, _e quero dar-te Todo aquelle thesoiro. Não suspira por bens hum peito nobre_: Sevéro lhe respondo. _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa; E fica sem fallar hum breve espaço. _Alegra, alegra o rosto_, Prosegue, _alli te faço Restituir o posto_. Respondo com ar de mofa, e tom sereno. _Conheço-te, Fortuna, Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_. Então me banho todo de alegria _Cuidei_, me torna a cega, _Que essa alma não queria Nem esta mesma entrega. He esse o bem_, respondo, _que me move; Mas este bem he santo, Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido Desta maneira rompo os seus accentos: _Basta, Fortuna, basta; Estes breves momentos Lá noutras coizas gasta; Da minha sorte nada mais contemplo_. E chamando Marilia Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas Eu procurava Os meus Amores; Tinhão-me inveja Os mais Pastores.

    A porta abria, Inda esfregando Os olhos bellos, Sem flor, nem fitta Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo Sem compostura, He mais formosa, Que a estrella d’alva; Que a fresca rosa.

    Mal eu a via, Hum ar mais leve, (Que doce effeito!) Já respirava Meu terno peito.

    Do cerco apenas Soltava o gado, Eu lhe amimava Aquella ovelha Que mais amava.

    Dava-lhe sempre No rio, e fonte, No prado, e selva, Agua mais clara, Mais branda relva.

    No cóllo a punha, Então brincando A mim a unia; Mil coizas ternas Aqui dizia.

    Marilia vendo Que eu só com ella He que fallava; Ria-se a furto, E disfarçava.

    Desta maneira Nos castos peitos, De dia, em dia A nossa chamma Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes No chão sentado, Eu lhe lavrava As finas rócas, Em que fiava?

    Da mesma sorte Que á sua amada, Que está no ninho, Fronteiro canta O passarinho.

    Na quente sésta, Della defronte, Eu me entretinha Movendo o ferro Da sanfoninha.

    Ella por dar-me De ouvir o gosto, Mais se chegava: Então vaidoso Assim cantava:

    Não ha Pastora, Que chegar possa Á minha bella; Nem quem me iguale Tambem na estrella:

    Se Amor concede Que eu me recline No branco peito, Eu não invejo De Jove o leito:

    Ornão seu peito As sãs virtudes, Que nos namorão; No seu semblante As Graças morão.

    Assim vivia: Hoje em suspiros O canto mudo: Assim, Marilia, Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça, Em honra de João na larga rua; O credulo Mortal agora indaga, Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue, E nella orvalhe o Ceo de madrugada, Para ver se rebentão novas folhas, Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje Dentro de hum cópo d’agua, e possa nella Fingir Palacios grandes, altas Torres, E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido Que na boca hum bochecho d’agoa tome, E atráz de qualquer porta attento esteja, Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse O nome, que ha de ter a minha amada: Pode verdade ser, se fôr mentira, Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente Ouvi dizer o nome de Filena: Despejo logo a boca: ah! não sei como Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando Em ar de zombaria huma risada. E que tal, me pergunta, esteve a peça? Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua: Tu fazes do meu dito tanta conta, Que vais acreditar, o que te ensina Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo Do açoite da Fortuna afflito geme, Nas mesmas coisas, que só são brinquedos, Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno Padece, ó minha bella, sim padece O peito amante, e terno, As afflições tyrannas, que os Preceitos Arbîtra Rhadamantho em justa pena Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes Com a mão descarnada não me applicão As raivosas serpentes. Mas cercão-me outros monstros mais irados: Mordem-me sem cessar as bravas serpes De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda Em lançar o penedo da montanha; Ou em mover a roda. Mas tenho ainda mais cruel tormento: Por coisas que me affligem, roda, e gyra Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado Ás tepidas entranhas não me come Hum abutre esfaimado. Mas sinto de outro monstro a crueldade: Devora o coração, que mal palpita, O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo, Que de mim se retirão, quando busco Fartar o meu desejo; Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato, Que lograr-te não possa, estando vendo Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella; E n’huma coisa só he mais humana A minha dura estrella: Huns não podem mover do Inferno os passos; Eu pertendo vôar, e vôar cedo Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento Não tens de sentir saudosa! Não podem ver os teus olhos A campina deleitosa, Nem a tua mesma Aldêa, Que tyrannos não proponhão Á inda inquieta idéa Huma imagem de afflição. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia, Teu ledo rebanho ao prado Tu dirás: aqui trazia Dirceo tambem o seu gado. Verás os sitios ditosos Onde, Marilia, te dava, Doces beijos amorosos Nos dedos da branca mão. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires Sem quereres, descuidada, Tu verás, Marilia, a minha E minha pobre morada. Tu dirás então comtigo: Alli Dirceo esperava Para me levar comsigo: E alli soffreo a prisão. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente Do caro Glauceste a choça, Onde alegre se juntavão Os pouco da escolha nossa, Pondo os olhos na varanda Tu dirás, de mágoa chêa: Todo o congresso alli anda, Só o meu Amado não. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua O meu companheiro honrado, Sem que me vejas com elle Caminhar emparelhado, Tu dirás: não foi tyranna Sómente comigo a sorte; Tambem cortou deshumana A mais fiel união. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    N’uma masmorra mettido Eu não vejo imagens destas, Imagens, que são por certo A quem adora funestas. Mas se existem separadas Dos inchados rôxos olhos, Estão, que he mais, retratadas No fundo do coração. Tambem mando aos surdos Deoses Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro De flores enramado, Como alegre caminha A ser sacrificado? O Povo para o Templo já concorre: A Pyra sacro-santa já se accende: O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho, A quem segura o laço: No chão as mãos especa: Nem quer mover hum passo: Não conhece que sahe de hum máo terreno; Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, O conduz a viver n’um campo ameno.

    Ignora o bruto, como Lhe dispomos a sorte: Hum vai forçado á vida, Vai outro alegre á morte, Nós temos, minha bella, igual demencia: Não sabemos os fins, com que nos move A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho Os máos matar quizerão: De conselho mudárão, Como escravo o vendêrão: José não corre a ser hum servo afflito: Vai subindo os degráos, por onde chega A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino Hoje, ó bella, me prende, Só porque nisto de outros Mais damnos me defende? Póde inda raiar hum claro dia. Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro; E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos! Tu sentes, tu soluças Ao ver cahir os justos; Honras as santas leis da Humanidade: E aos teus exemplos deve Gravar com letras de oiro no seu Templo A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte, Que vê com rosto enchuto No seu igual a morte. Não he tambem de Heróe hum peito duro, Que a sua gloria firma, Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo, Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora, Quando vê a cabeça Do bom Pompeo, e chora! He grande para mim, quem move os passos, E de Dario aos filhos, Que como escravos seus tratar podéra, Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso, Entre os Heróes do Mundo Hum nome glorioso, Não he, porque levanta huma cidade; He sim, porque nos hombros Salvou do incendio ao Pai a quem detinha A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira; Eu mesmo, sim, da morte Aos hombros o remira: Inda por elle muito mais obrára: E se nada servisse, Fizera então, Amigo, o que fizeste, Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas De huma amizade, quando Se dão iguaes idéas! Se a pezar dos estorvos se sustinha Nossa união sincera, Foi por ser a minha alma igual á tua, E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto, Lá lhe fica a sua alma, Limpa-lhe o terno pranto. De quem eu fallo, és tu, Marilia bella. Ah! sim, honrado Amigo, Se enxugar não poderes os seus olhos; Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro; Fui honrado Pastor da tua Aldêa; Vestia finas lãns, e tinha sempre A minha chóça do preciso chêa. Tirarão-me o casal, e o manso gado, Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria De mór rebanho ainda ser o dono; Prezava o teu semblante, os teus cabellos Ainda muito mais que hum grande Throno. Agora que te offerte já não vejo Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava Levando a sementeira prejuiso, Eu alegre ficava apenas via Na tua breve boca hum ar de riso. Tudo agora perdi; nem tenho o gosto De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço As quentes horas da comprida sésta, Escrever teus louvores nos olmeiros, Toucar-te de papoilas na floresta. Julgou o justo Ceo, que não covinha Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta, Se o bem que já perdi alcanço, e provo; Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer hum homem novo; Romper a nuvem que os meus olhos cerra, Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas, Que pagarei dos poucos do meu ganho; E dentro em pouco tempo nos veremos Senhores outra vez de hum bom rebanho. Para o contagio lhe não dar sobeja Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas, Podem mui bem cobrir as carnes nossas As pelles dos cordeiros mal cortidas, E os pannos feitos com as lans mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta Com canas, e com cêstos os peixinhos: Nós iremos caçar nas manhãs frias Com a vara envisgada os passarinhos; Para nos divertir faremos quanto Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos C’os filhos se os tivermos á fogueira; Entre as falsas historias, que contares, Lhes contarás a minha verdadeira: Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua Nos mostraráõ c’o dedo os mais Pastores, Dizendo huns para os outros: olha os nossos Exemplos da desgraça, e sãos amores. Contentes viviremos desta sorte, Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia, Que o nédeo gado Anda disperso No monte, e prado; Que assim succede Ao desgraçado, Que a perder chega O seu Pastor. Mas inda soffro A viva dôr.

    Tambem conheço, Que os Pegureiros, Que apascentavão Os meus cordeiros, Darão suspiros E verdadeiros; Porque perdêrão Hum pai no amor. Mas inda soffro A viva dôr.

    Eu mais alcanço; Que a minha herdade Estando eu prezo, Soffrer não ha-de Nem a charrua, E nem a grade; Que a mão lhe falta Do Lavrador. Mas inda soffro A viva dôr.

    Mas quando sobe Á minha idéa, Que tu ficaste Lá nessa Aldêa. De mil cuidados E mágoa cheia; Das paixões minhas Não sou senhor. Eu já não soffro A viva dôr.

    A quanto chega A pena forte! Peza-me a vida, Desejo a morte, A Jove accuso, Maldigo a sorte, Trato a Cupido Por hum traidor. Eu já não soffro A viva dôr.

    Mas este excesso Perdão merece, E delle Jove Se compadece; Que Jove, ó bella, Mui bem conhece, Aonde chega Paixão de amor. Eu já não soffro A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella, De padecer cançado: Frio suor já banha Seu rosto descórado; O sangue já não gyra pela vêa, Seus pulsos já não batem; E a clara luz dos olhos se bacêa: A lagrima sentida já lhe corre; Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega Onde se pune o erro: Late o cão, e se lhe abrem Grossos portões de ferro. Aos severos Juizes se apresenta; E com sentidas vozes Toda a sua tragedia representa: Enche-se de ternura, e novo espanto O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca, E a pedra não despede; Outro já não se lembra Da fome, e mais da sede: Descança o curvo bico, e a garra impia Negro abutre esfaimado: Nem a roca medonha a Parca fia, Até as mesmas Furias inclementes Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes; E o Rei Plutão lhe ordena Deixe o sitio, em que ficão Almas dignas de pena. Já sahe do escuro Reino, e da memoria Lhe passa tudo quanto Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria. Só, bem que o gosto as turvas agoas tome, Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios Campinas venturosas, Que mansos rios cortão, Que cobrem sempre as rosas. Escuta o canto das sonoras aves, E bebe as agoas puras, Que o mel, e de que o leite mais suaves. Aqui, diz elle, espero a minha bella, Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde Me leva a dôr activa? He illusão desta alma. Jove inda quer que eu viva. Eu devo sim gosar teus doces laços; E em paga dos meus males Devo morrer, Marilia, nos teus braços. Então eu passarei ao Reino amigo; E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia, De pranto a masmorra Que o terno Cupido Não vôe, e não corra, A hilo apanhar. Estende-o nas azas Sobre elle suspira, Por fim se retira, E vai-to levar.

    Se o moço não mente, Aos tristes gemidos, Aos ais lastimosos Não guardes unidos, Marilia, c’os teus: As lagrimas nossas No seio amontôa Fórma azas, e vôa, Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa, Que amava aos Troianos, Livra-los querendo De riscos, e damnos A Jove buscou. As aguas, que o rosto Da Deosa banhárão, A Jove abrandárão, E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella, Confia-te em Jove; Ainda se abranda, Ainda se move Com ancias de amor. O pranto de Venus, Que obrou no Pai tanto, Não tem que o teu pranto Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra, De hum semivivo corpo sepultura, Inda, Marilia, adoro A tua formosura. Amor na minha idéa te retrata, Busca extremoso, que eu assim resista Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero, Então mais vivamente te diviso: Vejo o teu rosto, e escuto A tua voz, e riso. Movo ligeiro para o vulto os passos: Eu beijo a tibia luz em vez de face; E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha; A violencia da mágoa não supporto; Foge-me a vista, e caio Não sei se vivo, ou morto. Enternece-se Amor de estrago tanto; Reclina-me no peito, e com mão terna Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento Por largo espaço a imagem de hum defunto, Movo os membros, suspiro, E onde estou pergunto. Conheço então que Amor me tem comsigo; Ergo a cabeça, que inda mal sustento, E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso, Procura o sitio em que Marilia móra, Pinta-lhe o meu estrago, E vê, Amor, se chora. Se as lagrimas verter a dôr a arrasta, Huma dellas me traze sobre as pennas, E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos Nesta masmorra mettido; De mil idéas funestas, E cuidados combatido: Qual seria, ó minha bella, Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra; E nem estaria vivo, Se o menino Deos vendado, Extremoso, e compassivo, Com o nome de Marilia Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d’alva; O meio dia tem dado, E o cabello inda flutua Pelas costas desgrenhado. Não tenho valor, não tenho; Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia; Não estima esse cabello? Se o deixas perder de todo Não se ha de enfadar ao vêllo? Suspiro pego no pente, Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando De varios manjares cheio, Põe-se na meza a toalha, E eu pensativo passeio: De todo o comer esfria, Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te, Diz Amor, te tens proposto; Fazes bem: terá Marilia Desgosto sobre desgosto. Qual enfermo c’o remedio Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia, Em que o Sol já se tem posto, Vem-me á memoria que nellas Via á janella o teu rosto: Reclino na mão a face E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta, Já basta, Dirceo, de pranto; Em obsequio de Marilia Vai erguer teu doce canto. Pendem as fontes dos olhos, Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me A velha çuja candêa; Fica, Marilia, a masmorra Inda mais triste, e mais fêa. Nem mais canto, nem mais posso Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas De escrever-se o que está feito; Do azeite, e da fumaça Huma nova tinta ageito, Tomo o páo, que penna finge, Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono Canta o Gallo a vez terceira; Eu digo ao Amor; que fico Sem deitar-me a noite inteira: Faço mimos, e promessas Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide, Que hei-de ver Marilia em sonho; Não respondo huma palavra, A dura cama componho, Apago a triste candêa, E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados Risistir, ó minha Bella, Quem não tem de Amor a graça? Se eu que vivo á sombra della Inda vivo desta sorte, Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas Que passo na masmorra immunda, e fêa, Dessas horas felizes, já passadas Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste; E á sombra de alto Cédro na Campina Eu versos te compunha, e elle os compunha Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva; De exceder hum ao outro qualquer trata O ecco agora diz: _Marilia terna_; E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas: Hum para nós ligeiro move os passos; Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta C’os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece Da ternissima Marilia a formosura. E aonde, clama o outro, quer Eulina Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho, Em quanto em nós durava esta porfia. E ella, ó minha amada, só findava Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana Os versos, que de tarde havia feito; Mal tos dava, e os lias, os guardavas No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa, Banhados com as lagrimas do gosto, Jurava não cantar mais outras graças Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento. Eu agora, Marilia, não as canto; Mas inda vale mais que os doces versos A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia, Aqui me reputo: Mil vezes escuto O som do arrastado, E duro grilhão. Mas, ah! que não treme, Não treme de susto O meu coração.

    A chave lá sôa Na porta segura: Abre-se a escura, Infame masmorra Da minha prizão. Mas, ah! que não treme; Não treme de susto O meu coração.

    Eu vejo, Marilia, A mil innocentes Nas Cruzes pendentes, Por falsos delictos, Que os homens lhes dão. Mas, ah! que não treme, Não treme de susto O meu coração.

    Se penso que posso Perder o gozar-te A gloria de dar-te Abraços honestos, E beijos na mão. Marilia, já treme, Já treme de susto O meu coração.

    Repára, Marilia, O quanto he mais forte Ainda que a morte, N’um peito esforçado De amor a paixão. Marilia, já treme, Já treme de susto O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes A justiceira mão que lança os ferros: Não traz de balde a vingadora espada; Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem As mãos se derão, e em seu peito morão. Mandão prender ao Réo austera a boca, Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia Que culpa aquelle tem que applica a penna. Não he o Julgador, he o processo, E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem Accusação, nem prova de outro humano; Aqui todos confessão suas culpas, Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes: Huma o fogo chega, outra as serpes move; Todos maldizem sim a sua estrella, Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe, Bem que a prizão me dá que eu não mereço. Qual eu sou, minha bella, não me trata, Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune Ao vassallo que julga delinquente; Que gosto não terá podendo dar-lhe As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co’ as feras: Huma soltárão, eu lhe sinto os passos, Aqui aqui a espero Nestes despidos braços. He hum malhado tigre; a mim já corre, Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas, Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha, Com faminta paixão a mim se lança; Venha embora, que o pulso Ainda não se cança. Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira, O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão, Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas? Entendes que os destinos inhumanos Expoem a minha vida No cêrco dos Romanos? Com ursos, e com onças eu não luto. Luto c’o bravo monstro que me accusa; Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima Da vil calumnia a cortadora espada; Huma alma, qual eu tenho, Não se recêa a nada. Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia, Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito Co’ as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo Mando que desça ao Tartaro profundo Hei-de com mão honrada Erguer-lhe o corpo immundo. Eu então lhe direi: Infame, indîno, Obras como costuma o vil humano; Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia, O passarinho, A quem roubárão Ovos, e ninho, Mil vezes pousa No seu raminho, Piando finge Que anda a chorar. Mas logo vôa Pela espessura, Nem mais procura Este lugar.

    Se acaso a vacca Perde a vitéla, Tambem nos mostra, Que se desvéla, O pasto deixa, Muge por ella, Até na estrada A vem buscar. Em poucos dias, Ao que parece, Della se esquece, E vai pastar.

    O voraz Tempo, Que o ferro come, Que aos mesmos Reinos Devora o nome, Tambem, Marilia, Tambem consome Dentro do peito Qualquer pezar. Ah só não póde Ao meu tormento Por hum momento Allivio dar.

    Tambem, ó bella, Não ha quem viva Instantes breves Na chamma activa; Derrete ao bronze Sendo excessiva Ao mesmo seixo Faz estalar. Mas do amianto A fêbra dura Na chamma atura Sem se queimar.

    Tambem, Marilia, Não ha quem negue, Que bem que o fogo Nos oleos pegue, Que bem que em lingoas Ás nuvens chegue, Á força d’agoa Se ha de apagar. Se a negra pedra Nós accendemos, Com agoa a vemos Mais s’inflammar.

    O meu discurso, Marilia, he resto: A pena iguala Ao meu affecto. O amor que nutro Ao teu aspecto, E o teu semblante He singular. Ah! nem o tempo, Nem inda a morte A dôr tão forte Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza, C’o bordão apalpa, e aos que vem pergunta; Ainda se despenha muitas vezes, E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo; Sim me queixo de que má céga seja Céga que nem pergunta, nem apalpa, He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima, Entrega as grossas chaves de hum thesoiro; E lança na miseria a quem conhece Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa Que a traz do vicio em liberdade corra, Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime N’esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa Co’ a sólida razão se não coaduna, Como me queixo da Fortuna tanto, Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa Que os Sábios fingem que huma roda move He só a occulta mão da Providencia, A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos; A que fins nos conduz por estes modos; Por torcidas estradas, ruins varedas Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas; C’o seu merecimento o virtuoso; Parecer desgraçado, ó minha bella, He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada He mais formosa Que branco lyrio, Dobrada rosa, Que o cinnamomo, Quando matiza Co’ a folha a flor. Venus não chega Ao meu Amor.

    Vasta campina De trigo chêa, Quando na sésta C’o vento ondêa, Ao seu cabello Quando flutua Não he igual. Tem a côr negra: Mas quanto val!

    Os astros, que andão Na esfera pura, Quando scintilão Na noite escura, Não são humanos, Tão lindos, como Seus olhos são. Que ao Sol excedem Na luz que dão.

    Ás brancas faces, Ah! não se atreve Jasmis de Italia, Nem inda a neve, Quando a desata O Sol brilhante Com seu calôr. São neve, e causão No peito ardôr.

    Na breve boca Vejo enlaçadas As finas per’las Com as granadas; A par dos beiços Rubins da India Tem preço vil. Nelles se agarrão Amores mil.

    Se não lhe désse Compadecido Tanto soccorro O Deos Cupido; Se não vivêra Huma esperança No peito seu; Já morto estava O bom Dirceo.

    Vê quanto póde Teu bello rosto; E de goza-lo O vivo gosto! Que sobmergido Em hum tormento Quasi infernal, Porqu’ inda espero Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano, Não espremas cicutas Para fazer-me damno. O çumo que ellas dão he pouco forte, Procura outras bebidas, Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo, Ajunta ahi venenos, Que nunca visse o mundo; Traze o negro licôr, que tem nos dentes, Nos dentes retorcidos As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado, Que pôz a Natureza, Dentro no Mar salgado, Não se abala no meio da tormenta, Bem que huma onda, e outra onda Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra Ás robustas raizes, Buscando o centro, afferra, Não teme ao furacão mais violento; E menos se se deixa Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella, Que açoita o Sul que brama, E o Mar, que se encapella: Não temas que do rosto a côr se mude: Vence as róchas, e os troncos A sólida Virtude.

    A maior desventura He sempre a que nos lança No horror da sepultura: O cobarde a morrer tambem caminha; Com que males não póde Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me Gentil mancebo, e loiro, Trazia a testa adornada Com folhas de verde loiro. Vejo ser o Pai das Musas, E me entrega a lyra d’oiro.

    Já basta, me diz, ó filho, Já basta de sentimento; O cançado peixe exige Hum breve contentamento. Louva a formosa Marilia Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa? A dôr não socega em tanto. Ergo a voz, então reparo Que quanto mais corre o pranto He mais doce, e mais sonoro Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos Na mão, que regía o braço; E depois de estar suspenso, De me houvir hum largo espaço; Assim diz: _o Deos Cupido Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra, Louva, louva a tua Bella; Porém vê que ta concedo Com condição, e cautella_… Eu lhe corto a voz, dizendo, Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas, O Pastor loiro Deo-me, Marilia, Para cantar-te A lyra de oiro.

    As cordas firo, O brando vento Teus dotes leva Nas brancas azas Ao firmamento.

    O teu cabello Vale hum thesoiro; Hum só me adorna A sabia frente Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos Amor assiste; Delles faz guerra; Ninguem lhe foge; Ninguem resiste.

    Algumas vezes Eu o diviso Tão bem occulto Nas lindas cóvas, Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos Tem os seus ninhos Destros Amores, Nelles se gerão Os Cupidinhos.

    Vences a Venus, Quando com arte As armas toma, Porque mais prenda Ao fero Marte.

    Eu produzia Estas idéas, Quando, Marilia; O som escuto Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro. Corre o meu pranto; E inda bebendo Lagrimas tristes, De novo canto.

    Sou da constancia Hum vivo exemplo. E vós, ó ferros, Honrareis inda De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía, Quanto de meu gosava N’um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa, Fertil, extensa herdade, Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura, Que he sepulcro sem honras, Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo, Venha outro desgraçado Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço; Os Deoses me dão outra, Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo; Tu mesma me acompanhas; Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas, Os teus soltos cabellos, As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera, Bem que subira ao Porto, Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas, Com ardentes suspiros Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas; Huma por hum beijo, E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino; Que o teu amor na ausencia Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto, De novo a molha o pranto Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado; A tudo quanto tenho Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe, Com tanto, ó minha cara, Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão, Os que te amão, sómente Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga; Que eu tenho aquella gloria, Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella, E na rócha em flor rebenta, Grossa náo, q’ não tem léme, Em vão sustentar-se intenta; Até que naufraga, e corre Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza, Em que ponha o seu cuidado, Se o Ceo se cobre de nuvens, E se assopra o vento irado, Não tem forças que resistão Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra, Aonde, Marilia, vivo, Encosto na mão o rosto, Fico ás vezes pensativo. Ah! que imagens tão funestas Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra, Marilia, toda enlutada, A face de hum pai rugosa, N’um mar de pranto banhada, Os amigos mascilentos, E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos Para outro diverso lado, Vejo n’uã grande Praça Hum Theatro levantado. Vejo as Cruzes, vejo os Potros, Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre, Lação-se os membros, suspiro, Busco allivio ás minhas ancias, Não o descubro, deliro. Já, meu Bem, já me parece, Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento A tua testa nevada, Os teus meigos, vivos olhos, A tua face rosada, Os teus dentes crystallinos, A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d’alva, Que a negra noite affugenta, Qual o Sol, que a nevoa espalha Apenas a terra aquenta, Ou qual Iris, que o Ceo limpa, Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro Triste illusão, e demencia; Faz de novo o seu officio, A razão, e a prudencia; E firmo esperanças doces Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas, Sóbe a viva côr ao rosto; Gyra o sangue pela vêa, E bate o pulso composto. Vê, Marilia, o quanto póde Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo O cego Cupido hum dia; Encheo-se de gosto o peito, Fiz deste Deos hum conceito Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados Os ternissimos amantes Entre as cadêas gemerem; Vejo nas piras arderem As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_, (Diz Cupido) _não aterra: Quem quer cingir o loureiro, Tambem vai soffrer primeiro Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates Neste sitio não convenho; Deixa a estancia lastimosa, Vem vêr a Salla formosa, Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n’outro grande Templo: Que perspectiva tão grata! Tudo quanto nelle vejo Passa além do meu desejo, E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe O soberbo frontespicio: He todo por dentro d’ouro, E a hum tão rico tesouro Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão De sedas de finas côres: Em lugar de cortinados Estão prezos, e enlaçados Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta Ardem dourados brazeiros; Queimão rezinas, que estalão, E postas em fumo exalão Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios Alegres hymnos entoão: Danção as Graças formosas; E aqui as horas gostosas Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento, Igualmente reclinados Nos collos de seus amores, Os grandes Reis, e Pastores De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro, (Me diz, o Moço risonho:) _Como ainda não reparas Em tantas cousas tão raras, De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove? Aqui tens o manso Touro; Tens o Cisne decantado; A Velha em que foi mudado, Com a grossa chuva d’ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora Os olhos para esta parte: Aqui tens o verde Louro, Que inda estima o Pastor louro, E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente De branco marfim ornado? Á Casta Deosa servia, E o perdêo quando dormia Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella Tira Orpheo ao bem querido Dos infernos aonde estava. Vês este Faról? guiava Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas Ainda de sangue cheias? A Thysbe, e a Dido matárão; E os fortes pulsos armárão De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio, Que nesse mar se levanta? He Theseo. Vês esse Pomo? He de Cydippe, assim como São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos, Que destros pinceis fizerão: Ah! que pinturas divinas! Todos são das Heroinas, Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante, He o semblante de Helena: Lá se avista a Grega Armada, E aqui de Troya abrazada Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est’outra_ formosura? _He a bella Deidamía_; _Lá_ tem Achilles ao lado, _De huma saia disfarçado Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue: Alli tens lançando a linha Marco Antonio socegado, Ao tempo em que Augusto irado, Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura: Vê hum Sabio dos maiores, Qual infame delinquente, Ir desterrado sómente Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato: Aqui tens (quem o diria!) Ao grande Hercules sentado Com as mais damas no estrado, Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est’outra parte: Conheces, Dirceo, aquella_? Onde váes? (lhe digo:) explica, Que belleza aqui nos fica, Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista Na imagem não explicada, Ó quanto he digna de appreço! Mal exclamo assim, conheço Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos Em terno pranto sahia, E no meu peito saltava: Disfarçado Amor, olhava Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo, A mim se chega, e me aballa; Desperto de tanto assombro: Elle bate no meu hombro, E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta A divina formosura, Que te destina Cupido; Aqui tens o laço urdido Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen Que aos trabalhos de hum humano Desta sorte felicita, Não he, como se accredita, Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna De tudo quanto se cria, Ou nos mares, ou na terra, Em o seu thesouro encerra Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa, Brancos dentes, olhos bellos, Grossos beiços encarnados, Pescoço, e peitos nevados, Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires Co’ braço de sangue immundo Na cabeça o verde louro? Do que teres montes d’ouro? Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina Ao vil mortal atrevido, E ao peito que adora terno, Que tem para hum Inferno, Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida; Eu chorando a mão lhe beijo: E lhe digo, Amor, perdôa Não seguir-te; pois não vôa A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado Filho que foge, Venus quer hoje Noticias ter.

    Sagaz, e astuto Elle se esconde Em parte aonde Ninguem o vê.

    Dos signaes dados Bem se conhece, Que elle aborrece A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos Ella publíca, Razão lhe fica De se offender.

    Foge o Menino, E disfarçado Vive abrigado N’uma cruel.

    Com mil caricias A impia o trata; Nem o desata Do peito seu.

    Se a semelhança Sempre amor gera, Deve huma fera Outra accolher.

    Ah! se o teu nome, Marilia, calo, Que de ti fallo Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos Tirarem o cascalho, e a rica terra, Ou dos cercos dos rios caudelosos, Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro Do pezado esmeril a grossa arêa; E já brilharem os granetes de ouro, No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos, Queimar as capoeiras inda novas, Servir de adubo á terra a fertil cinza, Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes Das secas folhas do cheiroso fumo; Nem espremer entre as dentadas rodas Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza Altos volumes de enredados feitos; Ver-me-has folhear os grandes livros, E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos, Tu me farás gostosa companhia Lendo os fastos da sabia, mestra Historia, Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella; Eu vendo que lhe dás o justo appreço; Gostoso tornarei a lêr de novo O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza, Marilia, não lhe envejes a ventura, Que tens quem leve á mais remota idade A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso A hum pouso chegava, Aonde accolhida A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres Os braços se dérão, E as armas unidas N’um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas Cansados já vinhão, E em larga conversa A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco A seta aguçada Em huma belleza Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas Cravára no peito De hum grande, que teve O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças Cada hum persumia, Seus membros já laços O somno rendia.

    Dormindo tranquillos A noite passárão, E inda antes da Aurora Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito Deixemos, ó Morte_; Amor, já erguido Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta A morte repete, _Que á nossa fadiga Dormir não compete_.

    _As armas colhamos, Voltemos ao giro: Cada hum a seu gosto Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c’os olhos Em somno turbados, Ao sitio em que os ferros Estão pendurados.

    Amor para as setas Da morte se enclina: De amor logo a Morte C’o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos! Oh mãos homicidas! São tiros da Morte De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto, Marilia conhece, Se amor, ou se morte Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro, Que viva de guardar alhêo gado; Nem sou pastor grosseiro Dos frios gêlos, e do Sol queimado, Que veste as pardas lãs do seu cordeiro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro: Mas deo-me a Sorte com que honrado viva. Não cinjo corôa d’ouro; Mas Póvos mando, e na testa altiva Verdeja a Corôa do Sagrado Louro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata De contar escondido a vil riqueza! Que cego se arrebata Em buscar nos Avós a vã nobreza, Com que aos mais homens seus iguaes abata. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo, Por falsos bens que enganão não reputo; Mas antes mais desejo, Não para me voltar soberbo em bruto Por vêr-me grande quando a mão te beijo. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro, O grande Deos Apollo não delira? Jove mudado em Touro, E já mudado em Velha não suspira? Seguir aos Deoses nunca foi desdouro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia, E cinjão com a mão de sangue chêa Os louros da victoria. Eu revolvo os teus dons na minha idéa: Só dons que vem do Ceo são minha gloria. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos Ligeiro movia, Por mil embaraços Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena Com brando raminho; E logo me ordena Que siga o caminho.

    Por entre a espessura Do bosque me avanço: E a traz da ventura Incauto me lanço.

    Já tinha calcado Os montes mais duros: C’o peito rasgado Os rios escuros.

    Eis que huma serpente A lingua vibrando, Me crava o seu dente, Me deixa espirando.

    Então surprendida Da dôr que a traspassa, Minha alma ferida Aos beiços se passa.

    As iras detesta Amor isto vendo, E as azas na testa Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes Da Serpe tocado, E o braço não temes De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste Com teus olhos ditosas as campinas, Do turvo Ribeirão em que nasceste: Deixa, Marilia, agora As já lavradas terras; Anda affoita romper os grossos mares, Anda encher de alegria estranhas terras. Ah! que por ti suspírão Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura Em seguimento de hum cruel ingrato, Que não sede aos encantos da ternura: Segues a hum fino amante, Que a perder-te morria. Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella; Tu já foste no Sul a minha guia. Ah! deves ser no Norte Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado Aplainar co’ tridente as crespas ondas; Ficar como dormindo o mar salgado. Verás, verás d’ alheta Soprar o brando vento, Mover-se o léme, disrinzar-se o linho, Seguirem os Delfins o movimento, Que leva na carreira O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando Converte em branca espuma as negras ondas E as talha, e corta com murmurio brando. Verás, verás Marilia Da janella dourada, Que huma comprida estrada representa A linfa cristalina, que pizada Pela poupa que foge Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso, Tornar ao torto anzol depois de o terem Pela rasgada boca ao ar suspenso: Os pequenos peixinhos Quaes passaros voarem: De toninhas verás o mar coalhado, Ora surgirem, ora mergulharem, Fingindo ao longe as ondas Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta Hum repuxo formando com as aguas, Que ao ar espalha da robusta venta. Verás em fim, Marilia, As nuvens levantadas Humas de côr azul, ou mais escuras, Outras de côr de rosa, ou prateadas Fazerem no Orizonte Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo, Apenas elle vir o teu semblante Dará no léme do baixel hum beijo. Eu lhe direi vaidoso: Não trago, não comigo Nem pedras de valor, nem montes d’ouro, Roubei as aureas Minas, e consigo Trazer para os teus cofres Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados As verdes dormideiras espremia, Os mentirosos sonhos me cercavão. Na vaga fantasia Ao vivo me pintavão As glorias, que disperto Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante Nos braços conduzindo a minha bella; Voltêa a grande roda, e a grossa amarra Se enlêa em torno della: Já ponho a prôa á barra, Já cáhe ao som do apito Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem: A longa praia ao longe não branqueija; E já se vão sumindo os altos montes. Já não ha que se veja Nos claros Orizontes, Que não sejão vapores, Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas, E o pinho qual rochedo estar parado: Ergue-se a onda, vem á Náo direita E quebra no costado: O Navio se deita, E ella finge a ladeira Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes; Cahir do Láes a linha, que os engana: Hum dourado no anzol está pendente, Soffre morte tyranna; Entre tanto que a sente Ao tombadilho açoita A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça De formosas conchinhas enfeitada; Delfins a movem, e vem Thetis nella: Na popa está parada: Nem póde a Deosa bella Tirar os brandos olhos Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia Co’ rouco som dos buzios retorcidos. Recrêa, sim recrêa Meus attentos ouvidos O canto sonoroso Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro; Descobre arrumação, e grita terra: Á murada caminha alegre a gente; Alguns entendem que erra: Pelo immovel sómente Conheço não ser nuvem, Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres; (E que nova alegria me arrebata!) De Cascaes a muleta já vem perto, Já de abordar-nos trata: Já o piloro esperto Inda debaixo manda Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra: A grossa artilheria já me atrôa. Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira. Já corre pela prôa Huma amarra ligeira; E a Náo já fica surta Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero Renovar da amizade antigos laços: Eu vejo ao velho Pai, que lentamente Arrasta a mim os passos: Ah como vem contente! De longe mal me avista Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto, E manda que dos pés ao peito passe: Marilia quanto eu fiz fazer intenta; Antes que os pés lhe abrace Nos braços a sustenta; Dá-lhe de filha o nome, Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo, Conheço não estar no claro Tejo. Abro os olhos, procuro a minha amada, E nem se quer a vejo. Venha a hora affortunada, Em que não fique em sonhos Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste, Que o dia da morte fêa: Cahi do throno Dircéa, Do throno dos braços teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde Os doces laços quebrar-me, Por vingança quer levar-me Distante dos olhos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te, Que neste fatal instante, Ha de ser o teu semblante Mui funesto aos olhos meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem Vêr meus olhos penduradas Tristes lagrimas salgadas Correrem dos olhos teus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados, Que podérão piedosos, De tristes em venturosos Converter os dias meus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos, Que ternos, e socegados, Enchem de flores os prados, Enchem de luzes os Ceos? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim, Que domão Tigres valentes? Que nem rigidas Serpentes Resistem aos tiros seus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião Em não vêr-te criminosos Em quanto forão ditosos, Agora serião réos. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella, Rasgando os ares cinzentos; Virão nas azas dos ventos Buscar-te os suspiros meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada, Que os duros Fados me neguem A gloria de que elles cheguem Aos ternos ouvidos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem, Pois os sólto a teu respeito; Dá-lhes abrigo no peito, Junta-os c’os suspiros teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te Ajuntando rosto, a rosto, Entre os que dérmos de gosto; Restitue-me então os meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira, Os teus divinos cabellos, Esses vivos olhos bellos, Que invéja dos astros são, Foi-se, Elvira, foi-se embora Toda a paz do coração. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta A meus olhos teu semblante, Hum minuto, hum breve instante Parece que fim não tem. Se alcanço de vêr-te a gloria, Então vôa o tempo bem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso Para outro qualquer sugeito, Estala dentro do peito De ciume o coração: Se me pões os olhos julgo Que zombas de mim então. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta, E a divina Olaia canta, O mesmo gado levanta A cabeça para ouvir. Só por mais que Alceo forceje Não póde o prazer fingir. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte O rebanho do meu gado, Cáhe-me da mão o cajado, E com ella á testa vou: Fico pasmado, e ignoro O lugar aonde estou. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo, (Olha bem como ando cego.) N’uma parte nelle pego, Metto n’outra a fouce em vão; Dos que vem alguns se riem, Outros mostrão compaixão. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo, Sempre sonho que te vejo, Que te fallo, e que te beijo A branca nevada mão. Acórdo, Pastora, e foges: Eu fico mais triste então. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta, Bem que seja a vez primeira, Rompo ainda que não queira O segredo sem saber. O teu nome, Elvira, digo, Quando devo o seu dizer. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores, Para hum bosque me retiro; Com desafogo suspiro, E chamo por ti meu bem. Os valles que se enternecem Chamão-te ao longe tambem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho A gemer no meu telhado, Qualquer mal excogitado Não me deve algum temor: Só receio que me agoure Máo successo ao meu amor. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão Com o dedo já me apontão, E á roda do fogo contão Da maneira que me vem. Sou o exemplo dos amantes Que esta nossa Aldêa tem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa; As graças, a modestia do seu rosto Inspírão no meu peito maior gosto, Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa A nova sugeição me vejo exposto; Ah! que he mais engraçado, mais composto, Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos He huma acção (ó Deoses!) inconstante, Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante, Ou fórma de Lorino dous sugeitos, Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N’um fertil campo do soberbo Douro, Dormindo sobre a relva descançava, Quando vi que a Fortuna me mostrava Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro Com pedras de valor o chão curvava; Aqui hum sceptro, alli hum trono estava, Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura: De quantos bens te exponho qual te agrada, Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada: Commigo assentei logo que a ventura Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia; Accreditei as vozes, cri, Ormia, Que a tua singeleza igualaria Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia; Ao menos conheci que não devia, Pôr nas mãos de huma externa galhardia O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante, E nada me admiro de faltares, Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares; Que tu não acharás hum firme amante, E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente, Ha de a chama durar no peito amante; Que existe retratado o seu semblante, Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente Abraço a sombra vã; só nesse instante Conheço que ella está de mim distante, Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista; Porque minha paixão, que aos Ceos he grata, Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata, Debuxa os dotes com que prende vista, Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado: Sobre o Altar hum Cofre se firmava, Em cujo seio cada qual buscava Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado! Com quanta causa o coração pulsava: Este duro Decreto escrito estava, Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia, Sem della conseguir a recompensa, Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença Tres vezes o levando á boca impía, Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria, Que os muros banha a Lusitana Athenas, Mostra-me as desmaiadas assucenas Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia Ceder de amor ás lastimosas scenas; Q’entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro, Une ao cadaver a truncada testa, Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta Fazer a gloria da defunta Castro; A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D. Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia, Ao terno peito minha mão levando, Conjurem-se em meu mal os Astros, quando Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia, Por firme seu amor acreditando; Ah! que em movendo os olhos suspirando Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora Mostrou que era mulher: a natureza Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza, Que depois de faltar á fé, Lidora, Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia, Que fez do grande Henrique a invicta espada, Procurou dos Destinos a morada, Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via, Que exaltão de Furtado a estirpe honrada, E na serie, que adora dilatada, O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d’ouro, Este penhor, que o tempo não consome, Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome De lhe buscar sequer mais outro agoiro, O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena, Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza, De palmas, e de louros rodeado, Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado, Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza O dom que o nobre sangue trás herdado Pela propria virtude sustentado, Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia; Une Francisco a par de seus maiores Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora Por quem mil vezes fé me foi jurada; Que vos detem (ó Ceos!) que castigada Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora A dita sem remedio em mal trocada; Pois se assim não succede, fica ousada Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo? Que maltrateis Lidora? o sentimento Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento; Pois sei que a compaixão do seu castigo, Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado, Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo: A Deos doce rabil, neste alto freixo Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado, Não declares rabil de quem me queixo; Não quero que se saiba vive Aleixo Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido, Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora, Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora De rosto bello, coração fingido, Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado, Ás vozes da razão insurdecido, Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado Cõ dar de quando em quando algum gemido: Ah tempo! que sómente reflectido Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade De Laura me tornou n’um breve dia Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia: Ó feliz de quem gosa a liberdade! Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava; Ouvi os Sabios quando errar temia: Aos bons no gabinete o peito abria; Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava Mais duro, ou pio do que a Lei pedia; Mas podendo salvar o justo ria, E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos Metter em ferreo cofre copia d’ouro, Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro: Ganhei saudades, adquiri affectos, Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava Terror no aspecto ao Portuguez sisudo, Quando sem pó, nem oleo o pente agudo Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava O forte Nuno oppondo escudo, a escudo; Quando a palavra que perfere a tudo Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido Tremer se via: quando a Lei prudente Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente Era de Luso o Reino: oh bem perdido! Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos, Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia; Vós que do Elysio na região sombria Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos Louros cingis, que egregia companhia Fazeis aos Mazzarinos, eu queria Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria; Por vós hoje he feliz a humanidade: Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade; Que basta a escurecer vossa memoria Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa Entre as palhas o tenro passarinho, E largos dias por deixar o ninho Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa, Já se firma no pé, já no biquinho, Nas folhas se tem, passa ao raminho Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento Deixa os arbustos vaga pelos ares, E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares Em que a vossa virtude anime o alento, Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido Ás Regiões alheas Manda que em doce metro reppetido Hoje o teu Nome leve, Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja De ira morder-se, e as serpes sacudindo Por se tragar forceja: De pejo, e de vergonha em vão cobrindo Co’ as frias mãos o rosto, Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados, Que do Templo da Gloria honrais a estancia, Os meritos sagrados Cantai do bom Ministro: He a constancia, A sabia fortaleza He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares Da Idumeya consulto; o bravo Noto Os tormentosos ares Não podem mais dobralos: zomba immoto, Nem ás ondas tem medo Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua Em meio foi dos perfidos rumores; A verdade, que nua Derramava em teu rosto as vivas côres, Sobre as aras decentes Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo, A rectidão do espirito; elevada Ao gráo mais rico, e bello, Essa virtude, que nos traz provada Em meio dos Thesouros A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece Sabio Ministro da victoria ao lado; Athenas, que me offerece No seu público Erario accreditado Aristides, o Justo, Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa Negra calumnia o seu desterro tenta; A virtude preciosa Contra o fero Themistocles sustenta. Não ha força que baste, Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo, Feliz tambem de Themis a ballança; De hum modo raro, e novo Nas tuas mãos eu vejo, que descança: Aos premios, ao castigo Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade De hum sangue illustre, de hum talento raro A próvida igualdade! Melhor do que nos marmores de Pharo, Em memoria nos vindouros T’ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio, De Lustros dez o fatigado termo; E já meu corpo enfermo Se avisinha da morte ao duro officio: Que cedo o meu destino me promette Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente A ver os Manes dos Avós amados; Que bem aventurados, Se outro mundo tratarão, se outra gente! Não virão elles, como eu triste vejo, O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia Pela candida estrada os pés levando; Inda a fera violencia Não corrompia da Justiça o mando; Praticava-se a próvida igualdade Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo, Renovava de Orestes a memoria: Commum era o perigo, Reciproca tambem a pena, a gloria: Que traições, e que enganos tem disposto Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado Nesta idade fatal em que de ferro O Idolo adorado Torpemente protege o crime, o erro: Como de susto, e de vergonha cheia Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços Deve ao pezo gemer, ó mundo cego? Rotos em mil pedaços Os teus grilhões a pendurar já chego; Não mais os teus encantos me deleitem, Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas Já me finjo habitar! Os brandos ares, Que tu Zefiro, animas Que prazeres me inspirão! Dos pezares, Das magoas, do desgosto, e do tormento Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto Cuido que o centro dos Elysios piso! Oh quanto he bella, quanto A margem deste Lago! Em fresco riso Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora, Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia, Que encheste as noites, e esgotaste os dias, Da humana intelligencia, Agora sei quam longe te desvias! Este o seio da luz, aonde tudo Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro: Noto a eterna constancia Do Planeta da Luz; observo o giro Da Terra, que regula a varia face Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira Já marco de Saturno, Marte, ou Jove, Da esfera derradeira Contemplo a força, que os mais Orbes move; A harmonia me encanta acorde, e rara, Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa Dos errados systemas o conceito; E longe a minha idéa De vacilar, já firma o mais perfeito. Quem senão tu, ó Genio, sobre humano Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço De Carthago ao Heróe tal scena pinta: Ao soberbo ameaço Da Fortuna, elle vê clara, e distincta, Qual o meu Genio me retrata agora, A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno, Aonde em paz celeste Não respira da inveja o atroz veneno: E aonde livres da infeliz mudança Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse O momento que hum dia Tão gostosa união nos lavra, e tece! Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas, Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves Alli as breves horas gastaremos; Nem já nos serão graves Na lembrança os trabalhos que aqui temos; Nem da pezada humanidade nossa Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte; Tu, que a meta dos annos Firmas, descendo de teu mando a morte, Dilata os dias do meu Licio, em quanto, Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg’s Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga

  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Livro de Máguas

    Livro de Máguas

    Aproximadamente 3.482 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    FLORBELA ESPANCA

    Livro de Máguas

    MCMXIX

    LIVRO DE MÁGUAS

    FLORBELA ESPANCA

    LIVRO DE MÁGUAS

    MCMXIX

    _A meu Pai_

    Ao meu melhor amigo

    Á querida Alma irmã da minha,

    _Ao meu Irmão_

    Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
    É um punhado infantil de areia resequida,
    Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa…

    Eugénio de Castro.

    Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

    Verlaine.

    *Êste livro*…

    ÊSTE LIVRO…

    Êste livro é de máguas. Desgraçados
    Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
    Sòmente a vossa dor de Torturados
    Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo…

    Este livro é p'ra vós, Abençoados
    Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
    Bíblia de tristes… Ó Desventurados,
    Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

    Livro de Máguas… Dôres… Ansiedades!
    Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!
    Vai pelo mundo… (Trouxe-o no meu seio…)

    Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
    Chorae comigo a minha imensa mágua,
    Lendo o meu livro só de máguas cheio!…

    *Vaidade*

    VAIDADE

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguem cá neste mundo…
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no ceu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho…
    E não sou nada!…

    *Eu*…

    EU…

    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada… a dolorida…

    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!…

    Sou aquela que passa e ninguem vê…
    Sou a que chamam triste sem o sêr…
    Sou a que chora sem saber porquê…

    Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
    Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
    E que nunca na vida me encontrou!

    *Castelã da Tristêsa*

    CASTELÃ DA TRISTÊSA

    Altiva e couraçada de desdem,
    Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
    Passa por êle a luz de todo o amôr….
    E nunca em meu castelo entrou alguem!

    Castelã da Tristêsa, vês?… A quem?!…
    –E o meu olhar é interrogadôr–
    Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
    Chora o silêncio… nada… ninguem vem…

    Castelã da Tristêsa, porque choras
    Lendo, toda de branco, um livro de oras,
    Á sombra rendilhada dos vitrais?…

    Á noite, debruçada p'las ameias,
    Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
    Que sonho afagam tuas mãos reais?…

    *Tortura*

    TORTURA

    Tirar dentro do peito a Emoção,
    A lucida Verdade, o Sentimento!
    –E ser, depois de vir do coração,
    Um punhado de cinza esparso ao vento!…

    Sonhar um verso d'alto pensamento,
    E puro como um rythmo d'oração!
    –E ser, depois de vir do coração,
    O pó, o nada, o sonho dum momento!…

    São assim ôcos, rudes, os meus versos:
    Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me déra encontrar o verso puro,
    O verso altivo e forte, extranho e duro,
    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    *Lágrimas ocultas*

    LÁGRIMAS OCULTAS

    Se me ponho a scismar em outras éras
    Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
    Parece-me que foi noutras esféras,
    Parece-me que foi numa outra vida…

    E a minha triste bôca dolorida
    Que dantes tinha o rir das primavéras,
    Esbate as linhas graves e severas
    E cae num abandôno de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago…
    Toma a brandura plácida dum lago
    O meu rôsto de monja de marfim…

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguem as vê brotar dentro da alma!
    Ninguem as vê cair dentro de mim!

    *Torre de névoa*

    TORRE DE NÉVOA

    Subi ao alto, á minha Torre esguia,
    Feita de fumo, névoas e luar,
    E puz-me, comovida, a conversar
    Com os poetas mortos, todo o dia.

    Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
    Dos versos que são meus, do meu sonhar,
    E todos os poetas, a chorar,
    Responderam-me então: «Que fantasia,

    Creança doida e crente! Nós tambêm
    Tivemos ilusões, como ninguem,
    E tudo nos fugiu, tudo morreu!…»

    Calaram-se os poetas, tristemente…
    E é desde então que eu choro amargamente
    Na minha Torre esguia junto ao Ceu!…

    *A minha Dôr*

    A MINHA DÔR

    _A Você_

    A minha Dôr é um convento ideal
    Cheio de claustros, sombras, arcarias,
    Aonde a pedra em convulsões sombrias
    Tem linhas dum requinte escultural.

    Os sinos teem dobres d'agonias
    Ao gemer, comovidos, o seu mal…
    E todos teem sons de funeral
    Ao bater horas, no correr dos dias…

    A minha Dôr é um convento. Ha lírios
    Dum roxo macerado de martírios,
    Tão belos como nunca os viu alguem!

    Nesse triste convento aonde eu móro,
    Noites e dias reso e grito e chóro!
    E ninguem ouve… ninguem vê… ninguem…

    *Dizêres íntimos*

    DIZÊRES INTIMOS

    É tão triste morrer na minha idade!
    E vou ver os meus olhos, penitentes
    Vestidinhos de rôxo, como crentes
    Do soturno convento da Saudade!

    E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
    As minhas mãos esguias, languescentes,
    De brancos dedos, uns bébés doentes
    Que hão de morrer em plena mocidade!

    E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
    É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
    Aonde tudo é luz e graça e riso!

    E os meus vinte e tres anos… (Sou tão nova!)
    Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!…»
    Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»

    *As minhas Ilusões*

    AS MINHAS ILUSÕES

    Hora sagrada dum entardecer
    D'Outono, á beira mar, côr de safira.
    Sôa no ar uma invisivel lira…
    O sol é um doente a enlanguescer…

    A vaga estende os braços a suster,
    Numa dôr de revolta cheia de ira,
    A doirada cabeça que delira
    Num último suspiro, a estremecer!

    O sol morreu… e veste luto o mar…
    E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
    Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!

    As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
    Tambem as vi levar em urna d'oiro,
    No Mar da Vida, assim… uma por uma…

    *Neurastenia*

    NEURASTENIA

    Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
    Um sino dobra em mim, Ave Marias!
    Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
    Faz na vidraça rendas de Venesa…

    O vento desgrenhado, chora e resa
    Por alma dos que estão nas agonias!
    E flocos de neve, aves brancas, frias,
    Batem as azas pela Natureza…

    Chuva… tenho tristesa! Mas porquê?!
    Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
    Ó neve que destino triste o nosso!

    Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!!…

    *Pequenina*

    PEQUENINA

    _Á Maria Helena Falcão Risques_

    És pequenina e ris… A bôca breve
    É um pequeno idílio côr de rosa…
    Haste de lírio frágil e mimosa!
    Cofre de beijos feito sonho e neve!

    Dôce quimera que a nossa alma deve
    Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
    Que nesta vida amarga e tormentosa
    Te fez nascer como um perfume leve!

    O ver o teu olhar faz bem á gente…
    E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
    Quando o teu nome diz, suavemente…

    Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
    Que ela afaste de ti aquelas dôres
    Que fizeram de mim isto que sou!

    *A Maior Tortura*

    A MAIOR TORTURA

    _A um grande poeta de Portugal_

    Na vida, para mim, não ha deleite.
    Ando a chorar convulsa noite e dia…
    E não tenho uma sombra fugidía
    Onde poise a cabeça, onde me deite!

    E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
    A minha atroz, imensa nostalgia!…
    A minha pobre Mãe tão branca e fria
    Deu-me a beber a Magua no seu leite!

    Poeta, eu sou um cardo despresado,
    A urze que se pisa sob os pés.
    Sou, como tu, um riso desgraçado!

    Mas a minha tortura inda é maior:
    Não ser poeta assim como tu és,
    Para gritar num verso a minha Dôr!…

    *A Flôr do Sonho*

    A FLÔR DO SONHO

    A Flôr do Sonho alvissima, divina
    Miraculosamente abriu em mim,
    Como se uma magnolia de setim
    Fosse florir num muro todo em ruina.

    Pende em meio seio a haste branda e fina
    E não posso entender como é que, emfim,
    Essa tão rara flôr abriu assim!…
    Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

    Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
    Que tem que sejam tristes os meus olhos
    Se eles são tristes pelo amôr de ti?!…

    Desde que em mim nascêste em noite calma,
    Voou ao longe a aza da minh'alma
    E nunca, nunca mais eu me entendi…

    *Noite de Saudade*

    NOITE DE SAUDADE

    A Noite vem poisando devagar
    Sobre a terra que inunda de amargura…
    E nem sequer a benção do luar
    A quiz tornar divinamente pura…

    Ninguem vem atraz dela a acompanhar
    A sua dôr que é cheia de tortura…
    E eu oiço a Noite imensa soluçar!
    E eu oiço soluçar a Noite escura!

    Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
    É que, talvez, ó Noite, em ti existe
    Uma Saudade egual á que eu contenho!

    Saudade que eu nem sei donde me vem…
    Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguem!…
    Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

    *Angustia*

    ANGUSTIA

    Tortura do pensar! Triste lamento!
    Quem nos déra calar a tua voz!
    Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
    Estrangular a hidra num momento!

    E não se quer pensar!… E o pensamento
    Sempre a morder-nos bem, dentro de nós…
    Qu'rer apagar no Ceu–Ó sonho atroz!–
    O brilho duma estrela, com o vento!…

    E não se apaga, não… nada se apaga!
    Vem sempre rastejando como a vaga…
    Vem sempre perguntando. «O que te resta?…»

    Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
    Ser pedaço de gelo, ser granito,
    Ser rugido de tigre na floresta!

    *Amiga*

    AMIGA

    Deixa-me ser a tua amiga, Amôr;
    A tua amiga só, já que não queres
    Que pelo teu amôr seja a melhor
    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágua e dôr
    O que me importa a mim?! O que quiséres
    É sempre um sonho bom! Seja o que fôr
    Bemdito sejas tu por m'o dizêres!

    Beija-me as mãos, Amôr, devagarinho…
    Como se os dois nascessemos irmãos,
    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

    Beija-mas bem!… Que fantasia louca
    Guardar assim, fechados, nestas mãos,
    Os beijos que sonhei p'rá minha bôca!…

    *Desejos vãos*

    DESEJOS VÃOS

    Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
    Que ri e canta, a vastidão imensa!
    Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,
    A Pedra do caminho, rude e forte!

    Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,
    O bem do que é humilde e não tem sorte!
    Eu qu'ria ser a arvore tôsca e densa
    Que ri do mundo vão e até da morte!

    Mas o Mar tambêm chora de tristesa…
    As Arvores tambêm, como quem resa,
    Abrem, aos Ceus, os braços, como um crente!

    E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
    Tem lágrimas de sangue na agonia!
    E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

    *Peor velhice*

    PEOR VELHICE

    Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
    Dum riso são andou na minha bôca!
    Gritando que me acudam, em voz rouca,
    Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

    A Vida que ao nascer enfeita e touca
    D'alvas rosas, a fronte da mulher,
    Na minha fronte mística de louca
    Martírios só poisou a emurchecer!

    E dizem que sou nova… A mocidade
    Estará só, então, na nossa idade,
    Ou está em nós e em nosso peito mora?!…

    Tenho a peor velhice, a que é mais triste,
    Aquela onde nem sequer existe
    Lembrança de ter sido nova… outróra…

    *A um livro*

    A UM LIVRO

    No silêncio de cinzas do meu Ser
    Agita-se uma sombra de cypreste.
    Sombra roubada ao livro que ando a ler,
    A esse livro de máguas que me deste.

    Extranho livro aquele que escreveste
    Artista da saudade e do sofrer!
    Extranho livro aquele em que puzéste
    Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

    Leio-o e folhêio, assim, toda a minh'alma!
    O livro que me déste é meu e psalma
    As orações que choro e rio e canto!…

    Poeta egual a mim, ai quem me déra
    Dizer o que tu dizes!… Quem soubéra
    Velar a minha Dôr desse teu manto!…

    *Alma perdida*

    ALMA PERDIDA

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguem que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dôr, suavemente…
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguem que quiz amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste… e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguem é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa á noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!…

    *De joelhos*

    DE JOELHOS

    «Bendita seja a Mãe que te gerou.»
    Bendito o leite que te fez crescer.
    Bendito o berço aonde te embalou
    A tua ama, p'ra te adormecer!

    Bendita essa canção que acalentou
    Da tua vida o dôce alvorecer…
    Bendita seja a lua que inundou
    De luz, a terra, só para te vêr…

    Benditos sejam todos que te amarem,
    As que em volta de ti ajoelharem,
    Numa grande paixão fervente e louca!

    E se mais que eu, um dia, te quiser
    Alguem, bendita seja essa Mulher,
    Bendito seja o beijo dessa bôca!!

    *Languidez*

    LANGUIDEZ

    Tardes da minha terra, dôce encanto,
    Tardes duma puresa d'açucenas,
    Tardes de sonho, as tardes de novenas,
    Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.

    Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
    Horas benditas, leves como pênas,
    Horas de fumo e cinza, horas serênas,
    Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

    Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
    Que poisam sôbre duas violetas,
    Azas leves cançadas de voar…

    E a minha bôca tem uns beijos mudos…
    E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
    Traçam gestos de sonho pelo ar…

    *Para quê?!*

    PARA QUÊ?!

    Tudo é vaidade neste mundo vão…
    Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!
    E mal desponta em nós a madrugada,
    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amôr nos mente, essa canção
    Que o nosso peito ri á gargalhada,
    Flôr que é nascida e logo desfolhada,
    Pétalas que se pisam pelo chão!…

    Beijos d'amôr! P'ra quê?!… Tristes vaidades!
    Sonhos que logo são realidades,
    Que nos deixam a alma como morta!

    Só acredita neles quem é louca!
    Beijos d'amor que vão de bôca em bôca,
    Como pobres que vão de porta em porta!…

    *Ao vento*

    AO VENTO

    O vento passa a rir, torna a passar,
    Em gargalhadas asp'ras de demente;
    E esta minh'alma trágica e doente
    Não sabe se ha de rir, se ha de chorar!

    Vento de voz tristonha, voz plangente,
    Vento que ris de mim, sempre a troçar,
    Vento que ris do mundo e do amar,
    A tua voz tortura toda a gente!…

    Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
    Desabafa essa dôr a sós comigo,
    E não rias assim!… Ó vento, chóra!

    Que eu bem conheço, amigo, êsse fadário
    Do nosso peito ser como um Calvario,
    E a gente andar a rir p'la vida fóra!!…

    *Tédio*

    TÉDIO

    Passo pálida e triste. Oiço dizer
    «Que branca que ela é! Parece morta!»
    E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
    Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

    Que diga o mundo e a gente o que quizer!
    –O que é que isso me faz?… O que me importa?…
    O frio que trago dentro gela e corta
    Tudo que é sonho e graça na mulher!

    O que é que isso me importa?! Essa tristesa
    É menos dôr intensa que friesa,
    É um tédio profundo de viver!

    E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
    O mesmo lago plácido, dormente…
    E os dias, sempre os mesmos, a correr…

    *A minha Tragédia*

    A MINHA TRAGÉDIA

    Tenho ódio á luz e raiva á claridade
    Do sol, alegre, quente, na subida.
    Parece que a minh'alma é perseguida
    Por um carrasco cheio de maldade!

    Ó minha vã, inutil mocidade
    Trazes-me embriagada, entontecida!…
    Duns beijos que me déste, noutra vida,
    Trago em meus lábios rôxos, a saudade!…

    Eu não gosto do sol, eu tenho medo
    Que me leiam nos olhos o segrêdo
    De não amar ninguem, de ser assim!

    Gosto da Noite imensa, triste, preta,
    Como esta extranha e doida borboleta
    Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

    *Sem remédio*

    SEM REMÉDIO

    Aqueles que me teem muito amôr
    Não sabem o que sinto e o que sou…
    Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
    Á minha porta e, nesse dia, entrou.

    E é desde então que eu sinto êste pavôr,
    Este frio que anda em mim, e que gelou
    O que de bom me deu Nosso Senhor!
    Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

    Sinto os passos da Dôr, essa cadência
    Que é já tortura infinda, que é demência!
    Que é já vontade doida de gritar!

    E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
    A mesma angústia funda, sem remédio,
    Andando atraz de mim, sem me largar!…

    *Mais triste*

    MAIS TRISTE

    É triste, diz a gente, a vastidão
    Do Mar imenso! E aquela voz fatal
    Com que êle fala, agita o nosso mal!
    E a Noite é triste como a Extrema Unção!

    É triste e dilacera o coração
    Um poente do nosso Portugal!
    E não veem que eu sou… eu… afinal,
    A coisa mais maguada das que o são?!…

    Poentes d'agonia trago-os eu
    Dentro de mim e tudo quanto é meu
    É um triste poente d'amargura!

    E a vastidão do Mar, toda essa agua
    Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
    E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

    *Velhinha*

    VELHINHA

    Se os que me viram já cheia de graça
    Olharem bem de frente para mim,
    Talvez, cheios de dôr, digam assim:
    «Já ela é velha! Como o tempo passa!…»

    Não sei rir e cantar por mais que faça!
    Ó minhas mãos talhadas em marfim,
    Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
    Deixem correr a vida até ao fim!

    Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
    Tenho cabelos brancos e sou crente…
    Já murmuro orações… falo sòsinha…

    E o bando côr de rosa dos carinhos
    Que tu me fazes, olho-os indulgente,
    Como se fosse um bando de nètinhos…

    *Em busca do Amôr*

    EM BUSCA DO AMOR

    O meu Destino disse-me a chorar:
    «Pela estrada da Vida vae andando;
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amôr que has de êncontrar.»

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando…
    E noite e dia, á chuva e ao luar,
    Fuí sempre caminhando e perguntando…

    Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
    Viste o Amôr acaso em teu caminho?»
    E o velho estremeceu… olhou… e riu…

    Agora pela estrada, já cançados
    Voltam todos p'ra traz, desanimados…
    E eu paro a murmurar: Ninguem o viu!…»

    *Impossivel*

    IMPOSSIVEL

    Disseram-me hoje, assim, ao vêr-me triste:
    «Parece Sexta Feira de Paixão.
    Sempre a scismar, scismar, d'olhos no chão,
    Sempre a pensar na dôr que não existe…

    O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
    Faça por 'star contente! Pois então?!…»
    Quando se sofre o que se diz é vão…
    Meu coração, tudo, calado ouviste…

    Os meus males ninguem mos adivinha…
    A minha Dôr não fala, anda sòsinha…
    Dissesse ela o que sente! Ai quem me déra!…

    Os males d'Anto toda a gente os sabe!
    Os meus… ninguem… A minha Dôr não cabe
    Nos cem milhões de versos que eu fizéra!…

    ÍNDICE

    Êste livro
    Vaidade
    Eu…
    Castelã da Tristesa
    Tortura
    Lágrimas ocultas
    Torre de névoa
    A minha dôr
    Dizêres íntimos
    As minhas ilusões
    Neurastenia
    Pequenina
    A maior tortura
    A flôr do sonho
    Noite de saudade
    Angustia
    Amiga
    Desejos vãos
    Peor velhice
    A um livro
    Alma perdida
    De joelhos
    Languidez
    Para quê?!
    Ao vento
    Tédio
    A minha tragédia
    Sem remédio
    Mais triste
    Velhinha
    Em busca do amôr
    Impossivel

    ACABOU-SE DE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO
    NO MÊS DE JUNHO DE 1919 NA
    TIPOGRAFIA MAURICIO, RUA
    DO SALITRE, 102-A
    LISBOA

  • Lendas e Narrativas (Tomo II)

    Lendas e Narrativas (Tomo II)

    Aproximadamente 60.891 palavras.

    Produced by João Miguel Neves and the Online Distributed
    Proofreading Team at https://www.pgdp.net. (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    LENDAS E NARRATIVAS (Tomo II)

    A DAMA-PÉ-DE-CABRA

    RIMANCE DE UM JOGRAL

    SECULO XI

    TROVA PRIMEIRA.

    1

    Vós os que não crêdes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas
    tropelias de Satanás, assentae-vos aqui ao lar, bem junctos ao
    pé de mim, e contar-vos-hei a historia de D. Diogo Lopes, senhor
    de Biscaia.

    E não me digam no fim:–"não póde ser."–Pois eu sei cá inventar
    cousas destas? Se a conto é porque a li n'um livro muito velho,
    quasi tão velho como o nosso Portugal. E o auctor do livro velho
    leu-a algures, ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral
    em seus cantares.

    É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para
    onde o pague.

    Juro-vos que se me negaes esta certissima historia sois dez vezes
    mais descridos do que S. Thomé antes de ser grande sancto. E
    não sei se eu estarei de animo de perdoar-vos, como Cbristo lhe
    perdoou.

    Silencio profundissimo; porque vou principiar.

    2

    D. Diogo Lopes era um infatigavel monteiro: neves da serra no
    inverno, soes dos estevaes no verão, noites e madrugadas, d'isso
    se ria elle.

    Pela manhan cedo de um dia sereno estava D. Diogo em sua armada,
    em monte selvoso e agreste, esperando um porco montez, que, batido
    pelos caçadores, devia saír naquella assomada.

    Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo,
    lindo cantar.

    Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre
    ella estava assentada uma formosa dama; era a dama quem cantava.

    O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não
    corre, voa para o penhasco.

    "Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me
    captivastes?"

    "Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis,
    como tu, senhor de Biscaia."

    "Se já sabeis quem eu seja, offereço-vos a minha mão, e com ella
    as minhas terras e vassallos."

    "Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires
    tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavalleiro que
    és. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos são
    elles para te baterem a caça."

    "Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de
    vós e de mim; que se a vossa belleza é divina, eu sou em toda
    a Hespanha o rico homem mais abastado?"

    "Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitára em arrhas cousa
    é de pouca valia; mas apesar d'isso não creio que m'o concedas;
    porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."

    "E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia
    qualquer dos seus muitos legados?"

    "Então se queres ver-me sempre ao pé de ti não jures que farás
    o que dizes, mas dá-me d'isso a tua palavra."

    "A la fé de cavalleiro, não darei uma, darei milhentas palavras."

    "Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma
    cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando
    para morrer ainda te recordava."

    "De quê, de quê, donzella?"–acudiu o cavalleiro com os olhos
    faiscantes.–"De nunca dar treguas á mourisma, nem perdoar aos
    cães de Mafamede? Sou bom christão. Guai de ti e de mim se és
    dessa raça damnada!"

    "Não é isso, dom cavalleiro,"–interrompeu a donzella a rir.–"O
    de que eu quero que te esqueças é do signal da cruz: o que eu
    quero que me promettas é que nunca mais has-de persignar-te."

    "Isso é outra cousa:"–replicou D. Diogo, que nos folgares e
    devassidões perdêra o caminho do céu. E poz-se um pouco a scismar.

    E scismando dizia comsigo:–"De que servem benzeduras? Matarei
    mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por
    ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeças de agarenos
    valem bem um grosso peccado."

    E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura,
    exclamou:–"Seja assim: está dicto. Vá, com seiscentos diabos."

    E levando a bella dama nos braços, cavalgou na mula em que viera
    montado.

    Só quando á noite no seu castello pôde considerar miudamente
    as fórmas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados
    como os de cabra.

    3

    Dirá agora alguem:–"Era por certo o demonio que entrou em casa
    de D. Diogo Lopes. O que lá não iria!"–Pois sabei que não ía
    nada.

    Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e união. Dous
    argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo
    ambos de seu pae.

    Um dia pela tarde D. Diogo voltou de montear: trazia um javali
    grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo á
    casa onde comia, para se regalar de ver a excellente prêa que
    havia preado.

    Seu filho assentou-se ao pé delle: ao pé da mãe D. Sol; e começaram
    alegremente seu jantar.

    "Boa montaria, D. Diogo,"–dizia sua mulher.–"Foi uma boa e limpa
    caçada."

    "Pelas tripas de Judas!"–respondeu o barão.–"Que ha bem cinco
    annos não colho urso ou porco montez que este valha!"

    Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado,
    virou-o de golpe á saude de todos os ricos homens fragueiros e
    monteadores.

    E a comer e a beber durou até a noite o jantar.

    4

    Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a que
    muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono,
    e até com os servos de casa.

    A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche,
    esperta e ligeira que mais não havia dizer, e della não menos
    presada.

    O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo
    Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados,
    como quem dormitava.

    A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando
    como um diabrete: o pello liso e macio reluzia-lhe com um reflexo
    avermelhado.

    O barão, depois da saude _urbi et orbi_ feita aos monteiros, esgotava
    um kirie comprido de saudes particulares, e a cada nome uma taça.

    Estava como cumpria a um rico-homem illustre, que nada mais tinha
    que fazer neste mundo senão dormir, beber, comer e caçar.

    E o alão cabeceava como um abbade velho em seu côro, e a podenga
    saltava.

    O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua
    carne e medula, e atirando-a ao alão gritou-lhe:–"Silvano, toma
    lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe
    senão correr e retouçar."

    O canzarrão abriu os olhos, rosnou, poz a pata sobre o osso, e
    abrindo a bôca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir
    deslavado.

    Mas logo soltou um uivo, e cahiu, perneando meio-morto: a podenga
    de um pulo lhe saltára á garganta, e o alão agonisava.

    "Pelas barbas de D. From, meu bisavô!"–exclamou D. Diogo, pondo-se
    em pé tremulo de colera e de vinho.–"A perra maldicta matou-me
    o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorcha-la."

    E virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do
    nobre animal, que espirava.

    "A la fé que nunca tal vi! Virgem bemdicta! Aqui anda cousa de
    Belzebuth."–E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.

    "Ui!"–gritou sua mulher como se a houveram queimado. O barão
    olhou para ella: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras,
    a bôca torcida e os cabellos eriçados:

    E ía-se alevantando, alevantando ao ar com a pobre D. Sol sobraçada
    debaixo do braço esquerdo: o direito estendia-o por cima da mesa
    para seu filho D. Inigo de Biscaia.

    E aquelle braço crescia alongando-se para o mesquinho, que de
    medo não ousava bolir nem falar.

    E a mão da dama era preta e luzidia como o pello da podenga,
    e as unhas tinham-se-lhe estendido bom meio palmo, e recurvado
    em garras.

    "Jesus, sancto nome de Deus!"–bradou D. Diogo, a quem o terror
    dissipára as fumaças do vinho. E travando de seu filho com a
    esquerda, fez no ar com a direita uma e outra vez o signal da
    cruz.

    E sua mulher deu um grande gemido, e largou o braço de Inigo
    Guerra, que já tinha seguro, e continuando a subir ao alto, saiu
    por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava.

    Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha. A
    podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguem no castello
    lhe tornou a pôr a vista em cima.

    D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrído, porque já
    não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer
    sua tristura, e em vez de ir á caça dos cerdos, ursos e zevras,
    sair á caça de mouros.

    Mandou, pois, levantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira,
    e provar seus arnezes. Entregou a Inigo Guerra, que já era mancebo
    e cavalleiro, o governo de seus castellos, e partiu com lustrosa
    mesnada de homens d'armas para a hoste d'el rei Ramiro, que ía
    em arrancada contra a mourisma de Hespanha.

    Por muito tempo não houve delle, em Biscaia, nem novas nem
    mensageiros.

    * * * * *

    TROVA SEGUNDA.

    1

    Era um dia ao anoitecer: D. Inigo estava á mesa, mas não podia
    ceiar, que grandes desmaios lhe vinham ao coração. Um pagem muito
    mimoso e privado, que em pé diante delle esperava seu mandar,
    disse então para D. Inigo:–"Senhor, porque não comeis?"

    "Que hei-de eu comer, Brearte, se meu senhor D. Diogo está captivo
    de mouros, segundo resam as cartas que ora delle são vindas?"

    "Mas seu resgate não é a vossa mofina: dez mil peões e mil
    cavalleiros tendes na mesnada de Biscaia: vamos correr terras
    dos mouros: serão os captivos resgate de vosso pae."

    "O perro d'elrei de Leão fez sua paz com os cães de Toledo: e
    são elles que tem preado meu pae. Os alcaides e potestades do
    rei tredo e vil não deixariam passar a boa hoste de Biscaia."

    "Quereis vós, senhor, um conselho, e não vos custará nem mealha?"

    "Dize, dize lá, Brearte."

    "Porque não ides á serra procurar vossa mãe? Segundo ouço contar
    aos velhos ella é grande fada."

    "Que dizes tu, Brearte? Sabes quem é minha mãe, e que casta é
    de fada?"

    "Grandes historias tenho ouvido do que se passou certa noite
    n'este castello: ereis vós pequenino, e eu ainda não era nado.
    Os porquês d'estas historias, isso Deus é que o sabe."

    "Pois dir-t'os-hei eu agora. Chega-te para cá, Brearte."

    O pagem olhou de roda de si quasi sem o querer, e chegou-se para
    seu amo: era a obediencia, e ainda mais um certo arripio de medo,
    que o fazia chegar.

    "Vês tu, Brearte, aquella fresta entaipada? Foi por alli que
    minha mãe fugiu. Como e porquê, aposto que já t'o hão contado?"

    "Senhor, sim! Levou vossa irman comsigo…"

    "Responder só ao que pergunto! Sei isso. Agora cal-te."

    O pagem poz os olhos no chão, de vergonha; que era humildoso e
    de boa raça.

    2

    E o cavalleiro começou o seu narrar:

    "Desde aquelle dia maldicto meu pae poz-se a scismar: e scismava
    e amesquinhava-se, perguntando a todos os monteiros velhos se
    porventura tinham lembrança de haverem no seu tempo encontrado
    nas brenhas alguns medos ou feiticeiras. Aqui foi um não acabar
    de historias de bruxas e de almas penadas.

    Havia muitos annos que meu senhor pae se não confessava: alguns
    havia tambem que estava viuvo sem ter enviuvado.

    Certo domingo pela manhan nasceu o dia, alegre como se fôra de
    paschoa; e meu senhor D. Diogo acordou carrancudo e triste como
    costumava.

    Os sinos do mosteiro, lá em baixo no valle, tangiam tão lindamente
    que era um céu aberto. Elle poz-se a ouvi-los, e sentiu uma saudade
    que o fez chorar.

    "Irei ter com o abbade:"–disse elle lá comsigo:–"quero-me confessar.
    Quem sabe se esta tristura ainda é tentação de Satanás?"

    O abbade era um velhinho, sancto, sancto, que não o havia mais.

    Foi a elle que se confessou meu pae. Depois de dizer _mea culpa_,
    contou-lhe ponto por ponto a historia do seu noivado.

    "Ui! filho,"–bradou o frade–"fizeste maridança com uma alma penada!"

    "Alma penada, não sei:"–tornou D. Diogo;–"mas era cousa do diabo."

    "Era alma em pena: digo-t'o eu, filho:"–replicou o abbade.–"Sei
    a historia dessa mulher das serras. Está escripta ha mais de cem
    annos na ultima folha de um sanctoral godo do nosso mosteiro.
    Desmaios que te vem ao coração pouco me espantam. Mais que ancias
    e desmaios costumam roer lá por dentro os pobres excommungados."

    "Então estou eu excommungado?"

    "Dos pés até á cabeça; por dentro e por fóra; que não ha que dizer
    mais nada."

    E meu pae, a primeira vez na sua vida, chorava pelas barbas abaixo.

    O bom do abbade amimou-o como a uma creança, consolou-o como
    a um malaventurado. Depois poz-se a contar a historia da dama
    das penhas, que é minha mãe … Deus me salve!

    E deu-lhe por penitencia ir guerrear os perros sarracenos por
    tantos annos quantos vivêra em peccado, matando tantos delles
    quantos dias nesses annos tinham corrido. Na conta não entravam as
    sextas-feiras, dia da paixão de Christo, em que seria irreverência
    trosquiar a vil relé de agarenos, cousa neste mundo mui indecente
    e escusada.

    Ora a historia da formosa dama das serras, de verbo ad verbum
    como estava na folha branca do sanctoral, resava assim, segundo
    lembranças do abbade.

    3

    No tempo dos reis godos–bom tempo era esse!–havia em Biscaia um
    conde, senhor de um castello posto em montanha fragosa, cercado
    pelas encostas e quebradas de larguissimo soveral. No soveral
    havia todo o genero de caça, e Argimiro o Negro (assim se chamava
    o rico-homem) gostava, como todos os nobres barões de Hespanha,
    principalmente de tres cousas boas; da guerra, do vinho e das
    damas; mas ainda mais do que de tudo isso, gostava de montear.

    Dama, possuia-a formosa, que era linda a condessa; vinho, não
    havia melhor adega que a sua; caça, era cousa que na selva não
    faltava.

    Seu pae, que fôra caçador e fragueiro, quando estava para morrer,
    chamou-o e disse-lhe:–"Has-de jurar-me uma cousa que não te custará nada."

    Argimiro jurou que faria o que seu pae e senhor lhe ordenasse.

    "É que nunca mates fera em cama e com cria, seja urso, javalí,
    ou veado. Se assim o fizeres, Argimiro, nunca nas tuas selvas
    e devezas faltará em que exercites o mais nobre mister de um
    fidalgo. Além d'isso, se tu souberas o que um dia me aconteceu…
    Escuta-me, que é um horrendo caso…."

    O velho não pôde acabar; porque a morte lhe cravou n'este momento
    as garras. Murmurou algumas palavras inintelligiveis: revirou
    os olhos, e feneceu. Deus seja com a sua alma!

    Tinham passado annos: certo dia chegou ao castello do conde um
    mensageiro d'elrei Wamba. Chamava-o elrei a Toledo para o acompanhar
    com sua mesnada contra o rebelde Paulo. Os outros nobres-homens
    das cercanias eram como elle chamados.

    Antes, porém, de partirem junctaram-se todos no castello de Argimiro
    para fazerem uma grande montaria com mais de cem alãos, sabujos,
    e lebreus, cincoenta monteiros, e moços de bésta sem conto. Era
    uma vistosa caçada.

    Saíram no quarto d'alva: correram valles e montes; bateram bosques
    e matos. Era, comtudo, meio dia e ainda não haviam alevantado
    porco, urso, zebra ou veado. Blasphemavam de sanha os cavalleiros,
    praguejavam, e depennavam as barbas.

    Argimiro, que por longa experiencia conhecia os sitios mais profundos
    da espessura, sentiu lá por dentro uma tentação do diabo.

    "Os meus hospedes, pensava elle, não partirão sem beberem alguns
    cangirões de vinho sobre uma ou duas peças de caça. Juro-o por
    alma de meu pae."

    E seguido de alguns monteiros com suas trélas de cães, affastou-se
    da companhia, e deu a andar, a andar, até que se lançou por um
    valle abaixo.

    O valle era escuro e triste: corria pelo meio uma ribeira fria
    e malassombrada. As bordas da ribeira eram penhascosas e faziam
    muitas quebradas.

    Argimiro chegou á primeira volta do rio: parou, poz-se a olhar
    de roda, e achou o que procurava. Abria-se uma caverna na encosta
    fragosa, que descia até a estreita senda da margem por onde o
    cavalleiro caminhava. Argimiro entrou na bôca da cova, e a um
    acêno entraram após elle monteiros, moços de bésta, alãos, sabujos
    e lebreus, fazendo grande matinada.

    Era o covil de um onagro: a fera deu um gemido, e deixando as
    suas crias, estendeu-se no chão, e abaixou a cabeça como quem
    supplicava.

    "A ella!"–gritou Argimiro; mas gritou voltando a cara.

    A matilha saltou no pobre animal; que soltou outro gemido, e cahiu
    todo ensanguentado.

    Uma voz soou então nos ouvidos do conde, e dizia:–"Orphãos ficaram
    os cachorrinhos do onagro: mas pelo onagro tu ficarás deshonrado."

    "Quem ousa aqui falar agouros?"–gritou o rico-homem, olhando iroso
    para os monteiros. Todos guardavam silencio: mas todos estavam
    pallidos.

    Argimiro pensou um momento: depois saindo da cova, murmurou:–"Vá
    com mil Satanases!"

    E com alegres toques de buzina e latidos da matilha fez conduzir
    ao castello a prêa que tinha preado.[1]

    E tomando o seu girifalte prima em punho, ordenou aos monteiros
    fossem dizer aos nobres caçadores, que dentro de duas horas
    voltassem, porque achariam em seu paço comida bem aparelhada.

    Depois, seguido dos falcoeiros, começou a encaminhar-se para o
    solar, lançando nebris e falcões, e ajuntando caça de volateria,
    que a havia por aquelles montes mui basta.

    4

    Dobrava a campa da torre de menagem no castello do conde Argimiro:
    dobrava pela linda condessa, que seu nobre marido havia matado.

    Andas cubertas de dó a levam a enterrar ao mosteiro vizinho:
    os frades vão atraz das andas cantando as orações dos finados:
    após os frades vae o rico-homem vestido de grossa estamenha,
    cingido com uma corda, e rasgando pelas sarças e pedras os pés
    que leva descalços.

    Porque matou elle sua mulher, e porque ía elle descalço?

    Eis o que a esse respeito refere a lenda escripta na folha branca
    do sanctoral.

    5

    Dous annos duraram guerras d'elrei Wamba: foram guerras mui de
    contar.

    E por lá andou o rico-bomem com seus bucellarios, que assim se
    diziam então acostados e homens d'armas. Fez estrondosas façanhas
    e cavallarias; mas voltou cuberto de cicatrizes, deixando por
    campos de batalha gasta e consumida a sua valente mesnada.

    E atravessando de Toledo para Biscaia seguia-o apenas um velho
    escudeiro. Velho e cheio de cans e rugas tambem elle era, não
    de annos, mas de penas e de trabalhos.

    Caminhava triste e feroz no aspecto; porque do seu castello lhe
    eram vindas novas d'entristecer e raivar.

    E cavalgando noite e dia por montes e charnecas, por bosques e
    por jardías, imaginava no modo por que descobriria se eram falsas
    ou verdadeiras essas novas de mau peccado.

    6

    No solar do conde Argimiro, um anno depois da sua partida, ainda
    tudo dava mostras da magua e saudade da condessa: as salas estavam
    forradas de negro; de negro eram os trajos della; nos pateos
    interiores dos paços crescêra a herva, de modo que se podia ceifar:
    as reixas e as gelosias das janellas não se haviam tornado a
    abrir: descantes dos servos e servas, sons de psalterios e harpas
    tinham deixado de soar.

    Mas ao cabo do segundo anno tudo apparecia mudado: as colgaduras
    eram de prata e matiz; brancos e vermelhos os trajos da bella
    condessa; pelas janellas do paço restrugia o ruído da musica e
    dos saraus; e o solar de Argimiro estava por dentro e por fóra
    alindado.

    Um antigo villico do nobre conde fôra quem destas mudanças o
    avisára. Doíam-lhe tantos folgares e contentamentos; doía-lhe a
    honra de seu senhor, pelo que elle via e pelo que se murmurava.

    Eis-aqui como se passára o caso:

    7

    Longe do condado do illustre barão Argimiro o Negro, para as
    bandas de Galliza, vivia um nobre gardingo–como quem dissesse
    infanção–gentil homem e mancebo, chamado Astrigildo o Alvo.

    Contava vinte e cinco annos; os sonhos das suas noites eram de
    formosas damas; eram de amores e deleites; mas ao romper da manhan
    todos elles se desfaziam, que ao saír ao campo não via senão
    pastoras tostadas do sol e das neves, e as servas grosseiras do
    seu solar.

    Destas estava elle farto. Mais de cinco tinha enganado com palavras;
    mais de dez comprado com ouro; mais de outras dez, como nobre e
    senhor que era, brutamente violado.

    Com vinte e cinco annos, já no livro da justiça divina se lhe
    haviam escripto mais de vinte e cinco grandes maldades.

    Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e valles com a
    rapidez do vento, montado em onagro silvestre, e que, depois de
    correr muito, chegava alta noite a um solar, onde pedia agasalho:

    E que formosa dama o recebia, e que em poucos instantes um do
    outro se enamorava.

    Acordou sobresaltado; e durante o dia inteiro não pensou em outra
    cousa senão na formosa dama que víra nos sonhos da madrugada.

    Tres noites se repetia o sonho: tres dias o mancebo scismava.
    Encostado á varanda de um eirado, na tarde do terceiro dia, olhava
    triste para as montanhas do norte, que via lá no horisonte como
    nuvens pardacentas. O sol começou a descer no poente, e ainda
    elle estava embebido em seu melancholico scismar.

    Por acaso volveu então os olhos para o terreiro que lhe ficava
    por baixo: um onagro da floresta estava ahi deitado como se fosse
    manso jumento: era inteiramente semelhante áquelle com que havia
    sonhado.

    Sonhos de tres noites a fio não mentem: Astrigildo desceu á pressa
    ao terreiro: o onagro quieto deixou-se enfrear e selar; e a Deus e
    á ventura, o mancebo cavalgou nelle e deitou pela encosta abaixo.

    Cumpria-se tudo á risca: o onagro não corria, voava.

    Mas o ceu começou de toldar-se com o anoitecer: a escuridão cresceu
    e desfechou em vento, trovões, chuva e raios. O mancebo começava
    a perder o tino, e o onagro dobrava a carreira, e bufava
    violentamente. Parou, emfim, a horas mortas. Sem saber como,
    Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastellado.

    Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trémulo, porque
    elle tremia de susto e de frio. Apenas cessou de tocar, a ponte
    levadiça desceu, muitos escudeiros saíram a recebe-lo entre tochas,
    e as salas dos paços illuminaram-se.

    Era que tambem a condessa tinha por tres noites sonhado!

    * * * * *

    8

    A clepsidra marca a hora de sexta nocturna, e ainda dura o sarau
    no solar do conde de Biscaia; porque a nobre condessa e o gentil
    Astrigildo assistem ás danças e jogos dos libertos e servos,
    que para elles espairecerem folgam lá na sala d'armas. Mas n'um
    aposento baixo do solar um homem está em pé com um punhal na
    mão, olhar furibundo, e o cabello eriçado, parecendo escutar
    longinqua toada.

    Outro homem está diante delle dizendo-lhe:–Senhor, ainda não é
    tempo para punir o grande peccado. Quando elles se recolherem,
    aquella luz que vêdes acolá ha-de apagar-se: subi então, e achareis
    desempedido o caminho secreto para a camara, que é a mesma do
    vosso noivado."

    E o que falava saiu, e d'ahi a pouco a luz apagou-se, e o homem
    dos cabellos hirtos e do olhar esgazeado subiu por uma ingreme
    e tenebrosa escada.

    * * * * *

    9

    Quando pela manhan cedo o conde Argimiro do seu balcão principal
    ordenava que levassem o corpo da condessa a um mosteiro de Donas,
    que elle fundára para ahi ter seu moimento, elle e os de sua
    casa, e dizia aos homens de armas que arrastassem o cadaver de
    Astrigildo, e o despenhassem de um grande barrocal abaixo, viu
    um onagro silvestre deitado a um canto do pateo.

    "Um onagro assim manso é cousa que nunca vi:–disse elle ao villico,
    que estava alli ao pé.–Como veio aqui este onagro?"

    O villico ía a responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-hia
    que era o ar que falava.

    "Foi nelle que veio Astrigildo: será elle que o levará. Por ti
    ficaram orphãos os filhinhos do onagro, mas por via do onagro
    ficaste, oh conde, deshonrado. Foste crú com as pobres feras:
    Deus acaba de vinga-las."

    "Misericordia!–bradou Argimiro, porque naquelle momento se lembrou
    da maldicta caçada.

    Neste momento os homens do conde saíam com o cadaver sangrento
    do mancebo: o onagro, apenas o viu, saltou como um leão no meio
    da turba, que fez fugir, e segurando com os dentes o morto,
    arrastou-o para fóra do castello, e, como se tivesse em si uma
    legião de demonios, foi precipitar-se com elle do barrocal abaixo.

    Era por isso que o conde ía cingido de corda e descalço após os
    frades e a tumba. Queria fazer penitencia no mosteiro por haver
    quebrado o juramento que tinha feito a seu pae.

    As almas da condessa e do gardingo cahiram de chofre no inferno
    por terem deixado a vida em adulterio, que é peccado mortal.

    Desde esse tempo as duas miseraveis almas teem apparecido a muita
    gente nos desvios da Biscaia: ella vestida de branco e vermelho,
    assentada nas penhas cantando lindas toadas: elle retouçando
    ahi perto, na figura de um onagro.

    Tal foi a historia que o velho abbade contou a meu pae, e que
    elle me relatou a mim antes de ír cumprir sua penitencia nessa
    guerra de mouros que lhe foi tão fatal."

    Assim concluiu Inigo Guerra. Brearte, o pagem Brearte, sentia
    os cabellos arripiarem-se-lhe. Por largo tempo ficou immovel
    defronte de seu senhor: ambos elles em silencio. O moço rico-homem
    não podia engulir bocado.

    Tirou por fim da escarcela a carta de D. Diogo para a tornar a
    ler. As miserias e lastimas que ahi recontava eram taes, que D.
    Inigo sentiu o pranto gotejar-lhe abundante pelas faces abaixo.

    Então ergueu-se da mesa para se ír deitar. Nem o barão nem o
    pagem pregaram olho toda a noite; este de medroso, aquelle de
    desconsolado.

    E nos ouvidos de Inigo Guerra soavam contínuo as palavras de
    Brearte:–Porque não ides á serra procurar vossa mãe?–Só por
    encantamento seria de feito possível tirar das unhas dos mouros
    o nobre senhor de Biscaia.

    Rompeu, finalmente, a alvorada.

    * * * * *

    TROVA TERCEIRA

    1

    Mensageiros após mensageiros, cartas sobre cartas são vindos
    de Toledo a Inigo Guerra. Elrei de Leão resgatava todos os dias
    seus cavalleiros por cavalleiros mouros; mas não tinha wali ou
    kaid captivo, que podesse dar em troca por tão nobre senhor como
    o senhor de Biscaia.

    E muitos dos redemidos eram das bandas das serras: e estes, trazendo
    as mensagens, contavam ainda mais lastimas do velho D. Diogo
    Lopes, do que, se é possível, essas de que resavam as cartas.

    "Á porta do aguião em Toledo–diziam elles–tem a mourisma um
    grande campo todo mui bem apalancado: aqui fazem grandes festas,
    guinolas, e touros nos dias dos seus perros sanctos, segundo
    lá lhos prégam e determinam khatibs e ulemás.

    "Gaiolas de bestas-feras muitas ha ahí, cousa mui de vêr e pasmar:
    os tigres e leões não as rompem; rompê-las mãos de homens, fôra
    pequice sómente o imagina-lo.

    "N'uma destas prisões, quasi nú, com adovas de pés e mãos, está
    o illustre rico-homem, que já foi capitão de grandes e lustrosas
    mesnadas."

    "Cortezes costumam ser mouros com seus captivos fidalgos. Fazem
    esta perraria a D. Diogo Lopes, porque já são passados tres annos,
    e não ha vêr seu resgate."

    E os peregrinos que vinham do captiveiro e relatavam taes cousas,
    bem ceados e agasalhados no castello, iam-se no outro dia com
    Deus, levando provída a escarcela, e em boa e sancta paz.

    Quem não ficava em paz era D. Inigo:–"Porque não vaes tu á
    serra?"–dizia-lhe uma voz ao ouvido.–"Porque não ides procurar
    vossa mãe?"–repetia-lhe o pagem Brearte.

    Que lhe havia de fazer? Uma noite inteira levou em claro a pensar
    nisso. Pela manhan, a Deus e á sorte, ei-lo que emfim se resolve
    a tentar a aventura, bem que de seu mau grado.

    Benzeu-se vinte vezes, para não ter lá de persignar-se. Resou
    o _Pater_, a _Ave_, e o _Credo_; porque não sabia se em breve essas
    orações seriam cousa de recordar-se.

    E seguido de um mastim seu predilecto, a pé e com um venábulo
    na mão, foi-se através das brenhas por uma vereda que dizia para
    os pincaros tristes e ermos, onde era tradição que a linda dama
    linha apparecido a seu pae.

    2

    Trinam os rouxinoes nos balseiros, murmuram ao longe as aguas
    dos regatos; ramalha a folhagem brandamente com a viração da
    manhan: vae uma linda madrugada.

    E Inigo Guerra galga manso e manso os carris empinados, trepa
    de barrocal em barrocal, e apesar de seu muito esforço, sente
    bater-lhe o coração com ancia desacostumada.

    Onde as matas faziam alguma clareira, ou as penhas alguma chapada,
    D. Inigo parava um pouco tomando o folego, e pondo-se a escutar.

    Muito havia que andava embrenhado: o sol ía alto, e o dia calmoso:
    ao canto do rouxinol seguira o piar da cigarra.

    E encontrou uma fonte que rebentava de rochedo negro, e saltando
    de aresta em aresta vinha cahir em almacega tosca, onde o sol
    parecia dançar no bolir das ondasinhas, que fazia o despenho
    da cascata.

    D. Inigo assentou-se á sombra da rocha, e tirando a sua monteira
    matou a sêde que trazia, e poz-se a lavar o rosto e a cabeça
    do suor e pó, que não lhe faltava.

    O mastim, depois de beber, deitou-se ao pé delle, e com a lingua
    pendente arquejava de cansado.

    De repente o cão poz-se em pé, e arremetteu com um grande ladro.

    D. Inigo volveu os olhos: um jumento silvestre pascia na orla
    da clareira juncto de um frondoso carvalho.

    "Tarik!–gritou o mancebo–Tarik!"–Mas Tarik ía avante e não
    escutava.

    "Ai, deixa-o correr, meu filho! Não é para o teu mastim levar
    a melhor desse onagro."

    Isto dizia uma voz que, lá em cima no alto da penha, começou de
    soar.

    Olhou: linda mulher estava ahi assentada, e com um gesto amoroso
    e um sorriso d'anjo para elle se inclinava.

    "Minha mãe! minha mãe!–bradou Inigo Guerra alevantando-se: e
    lá comsigo dizia:

    –Vade retro! Sancto Hermenegildo me valha!"

    E como molhára a cabeça, sentiu que os cabellos se lhe iam alçando
    de arripiados.

    "Filho, na bôca palavras dôces; no coração palavras damnadas.
    Mas que importa, se és meu filho? Dize o que queres de mim, que
    será tudo feito a teu talante e vontade."

    O moço cavalleiro nem acertava a falar com medo. Já a este tempo
    Tarik gemia uivando debaixo dos pés do onagro.

    "Captivo está de mouros ha annos meu pae D. Diogo Lopes:–disse
    por fim titubeando.–Quizera me ensinasseis, senhora, o modo
    como hei-de salva-lo."

    "Seu mal, tão bem como tu, eu sei. Se podesse ter-lhe-hia accorrido,
    sem que viesses requere-lo; mas o velho tyranno do ceu quer que
    elle pene tantos annos quantos viveu com a … com a que sandeus
    chamam Dama Pé-de-Cabra."

    "Não blasphemeis contra Deus, minha mãe, que é enorme
    culpa:–interrompeu o mancebo cada vez mais horrorisado.

    "Culpa?! Não ha para mim innocencia nem culpa:–replicou a dama
    rindo ás gargalhadas.

    Era um rir de dorminte, triste e medonho. Se o diabo ri, como
    aquelle deve de ser o rir do diabo.

    O cavalleiro não pôde dizer mais palavra.

    "Inigo!–proseguiu ella–falta um anno para cumprir-se o captiveiro
    do nobre senhor de Biscaia. Um anno passa depressa: mais depressa
    eu t'o farei passar. Vês tu aquelle valente onagro? Quando uma
    noite acordando o achares ao pé de ti, manso como um cordeiro,
    cavalga nelle sem susto, que te levará a Toledo, onde livrarás
    teu pae.–E bradando accrescentou:–Estás por isto, Pardalo?"

    O onagro fitou as orelhas, e em signal de approvação começou a
    azurrar; começou por onde ás vezes academias acabam.[2]

    Depois a dama poz-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se
    de um psalterio, de que tirava mui estranhas toadas:

    Pelo cabo da vassoura,
    Pela corda da polé,
    Pela vibora que vê,
    Pela Sura e pela Toura.

    Pela vara do condão,
    Pelo panno da peneira,
    Pela velha feiticeira,
    Do finado pela mão,

    Pelo bode rei da festa,
    Pelo capo inteiriçado,
    Pelo infante dessangrado
    Que a bruxa chupou á sésta;

    Pelo craneo alvo e lustroso
    Em que sangue se libou,
    E do irmão, que irmão matou,
    Pelo arranco doloroso;

    Pelo nome de mysterio
    Que em palavras se não diz
    Vinde já precitos vis;
    Vinde ouvir o meu psalterio!

    E dançae-me aqui na terra
    Uma dança doudejante,
    Que entonteça n'um instante
    O meu filho Inigo Guerra.

    Que elle durma um anno inteiro,
    Como em somno de uma hora,
    Juncto á fonte que alli chora,
    Sobre a relva deste outeiro.

    Emquanto a dama cantava estas cantigas, o mancebo sentia um
    quebramento nos membros que crescia cada vez mais, e que o obrigou
    a assentar-se.

    E logo, logo, ouviu-se um ruido abafado como de trovões e de
    ventanias engolfando-se em covoadas: depois o céu começou de
    toldar-se, e cada vez era mais cris, até que, emfim, apenas uma
    luz de crepusculo o allumiava.

    E a mansa almacega refervia, e os penedos rachavam, e as arvores
    torciam-se, e os ares sibilavam.

    E das bolhas da agua da fonte, e das fendas dos rochedos, e d'entre
    as ramas dos robles, e da vastidão do ar via-se descer, subir,
    romper, saltar … o quê?–Cousa muito espantavel.

    Eram mil e mil braços sem corpos, negros como carvão, tendo nos
    cotos uma aza, e na mão cada um uma especie de facho.

    Como a palha que o tufão levanta na eira, aquella multidão de
    candeias cruzava-se, revolvia-se, unia-se, separava-se, remoinhava,
    mas sempre com certa cadencia, como que dançando a compasso.

    A D. Inigo andava a cabeça á roda: as luzes pareciam-lhe azues,
    verdes, e vermelhas, mas corria-lhe pelos membros uma languidez
    tão suave, que não teve animo para fazer o signal da cruz, e
    afugentar aquelle bando de Satanazes.

    E sentia-se esvaecer, e pouco a pouco adormecia, e d'alli a pouco
    roncava.

    Entretanto no castello tinham dado pela sua falta. Esperaram-no
    até a noite; esperaram-no uma semana, um mez, um anno, e não o
    viam voltar. O pobre Brearte correu por muito tempo a serra;
    mas o sitio em que o cavalleiro jazia, isso é que não havia lá
    chegar.

    3

    Inigo acordou alta noite: tinha dormido algumas horas; ao menos
    elle assim o cria. Olhou para o céu, viu estrellas: apalpou ao
    redor, achou terra: escutou, ouviu ramalhar as arvores.

    Pouco a pouco é que se foi recordando do que passára com sua
    malaventurada mãe; porque a principio não se lembrava de nada.

    Pareceu-lhe então ouvir respirar ali perto: affirmou a vista:
    era o onagro Pardalo.

    "Já agora meio enfeitiçado estou eu–pensou elle:–corramos o
    resto da aventura, a vêr se posso salvar meu pae."

    E pondo-se em pé encaminhou-se para o valente animal, que já
    estava enfreado e sellado: cujos eram os arreios, isso sabia-o
    o diabo.

    Hesitou, todavia, um momento: tinha seus escrupulos–a boas horas
    vinham elles–de cavalgar naquelle corredor infernal.

    Então ouviu nos ares uma voz vibrada, que cantava mui entoado:
    era a voz da terrivel Dama Pé-de-Cabra:

    Cavalga, meu cavalleiro,
    No alentado corredor;
    Vae salvar o bom senhor;
    Vae quebrar seu captiveiro.

    Pardalo, não comerás
    Nem cevada nem aveia,
    Não terás jantar nem ceia,
    Rijo e leve voltarás.

    Nem açoute nem espora
    Requer elle, oh cavalleiro!
    Corre, corre bem ligeiro,
    Noite e dia a toda a hora.

    Freio ou sella não lhe tires,
    Não lhe fales, não o ferres,
    Na carreira não te aterres,
    Para traz nunca te vires.

    Upa! firme!–ávante, ávante!
    Breve, breve, a bom correr!
    Um minuto não perder,
    Bem que o gallo ainda não cante.

    "Vá!–gritou Inigo Guerra com uma especie de phrenesi, que nelle
    produzíra aquelle cantar estranho; e d'um pulo cavalgou no quedo
    onagro.

    Mas apenas se firmou na sella, pst!–ei-lo que parte!

    4

    Postoque em paz com os christãos, os mouros de Toledo tem pelas
    torres, cubelos e adarves seus atalaias e vigias, e nos montes
    que dizem para a fronteira de Leão seus fachos e almenaras.

    Mas se o rei leonez soubesse como descuidosa jaz Toledo: como ao
    anoitecer se deixam dormir vigias, se deixam de accender fachos,
    quebraria seus juramentos, e faria contra aquellas partes uma
    repentina arrancada.

    Salvo ter de ir depois ao seu confessor dizer _confiteor Deo_, e
    _peccavi_; porque o quebrar juramento, ainda que seja a cães descridos,
    dizem ser feio peccado.

    Era a hora do luscofusco: ao sol posto os de Toledo, mirando
    para a banda do norte, viram lá muito ao longe vir correndo uma
    nuvem negra, ondeando e fazendo voltas no céu, como a estrada
    as fazia na terra por entre os montes: dir-se-hia que vinha
    embriagada.

    Era primeiro um pontinho; depois crescêra e crescêra: quando
    anoiteceu estava já perto e cubria um grande espaço.

    O almuhaden, subindo á torre da mesquita, chamava os crentes de
    Malamede para a oração da tarde.

    Mas com a sua voz esganiçada misturou-se o estourar dos trovões:
    era como um tiple e um baixo.

    E passou um tufão de vento, que embrenhando-se e remoinhando
    nas barbas longas e brancas do almuhaden, lhe fustigou com ellas
    a cara.

    Começou então a cahir uma corda de chuva, que nem moços nem velhos
    se lembravam de ter visto cousa semelhante em nenhuma parte.

    Aqui verieis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres;
    os roldas e sobre-roldas a fugirem pelos adarves; os facheiros
    a sumirem-se debaixo das almenaras: os hadjis a acolherem-se ás
    mesquitas molhados até os ossos; as velhas, que tinham saído ao
    vozear do almuhaden, levadas pelas torrentes das ruas tortuosas
    e estreitas, bradando por Mafoma e por Allah. E a agua cahindo
    cada vez mais!

    Dous unicos movimentos fazem então os moradores de Toledo: uns
    fogem, outros agacham-se. E a agua cahindo cada vez mais!

    O pavor quebra todos os animos: os cacizes esconjuram a procella:
    os faquires penitentes gritam que se acaba o mundo, e que lhes
    deixe os seus haveres aquelle que quizer salvar-se. E a agua
    cahindo cada vez mais!

    A salvação de Toledo foi não se terem fechado suas portas: se
    assim não succedesse, dentro do recincto dos muros morria toda
    a mourisma affogada.

    5

    Na prisão estava D. Diogo encostado ás grades de ferro. O pobre
    velho entretinha-se a ouvir aquelle medonho chover; porque a
    noite era comprida, e elle não tinha que fazer mais nada.

    Mas como o terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de
    muros, a chuva não podia escoar-se toda, e vinha crescendo de
    modo que já elle sentia os pés molhados.

    E tambem começou a ter medo de morrer, apesar da sua miseria.
    Bem sabia D. Diogo que a morte é a maior dellas todas; que não
    era o senhor de Biscaia atheu, philosopho, nem parvo.

    Mas lá divisa um vulto alvacento, que saltou por cima do palanque;
    e sente ao mesmo tempo no meio do terreiro–plash!–

    E ouviu uma voz que dizia:–Nobre senhor D. Diogo, onde é que
    vós vos achaes!"–

    "Que vejo e ouço?!–exclamou o velho.–Um trajo que não alveja,
    não é trajo d'ismaelita; uma voz que não fala algaravia, não é
    d'infiel; um salto de tal altura não é de cavalleiro do mundo.
    Por vossa fé dizei-me, sois anjo, ou sois Sanctiago?"

    "Meu pae, meu pae!–acudiu o cavalleiro–já não conheceis a fala
    de Inigo? Sou eu que venho salvar-vos."

    E D. Inigo descavalgou, e travando das grossas reixas tentava
    allui-las: a agua dava-lhe já pelos artelhos, e elle não fazia
    nada.

    Cheio de afflicção o mancebo quiz invocar o nome de Jesus; mas
    lembrou-se de como alli viera, e o bento nome expirou-lhe nos
    labios.

    Todavia Pardalo pareceu adivinhar o seu intimo pensamento; porque
    soltou um gemido agudo e prompto, como se o houvessem tocado
    com um ferro em braza.

    E empurrando com a cabeça D. Inigo, voltou a anca para a grade.

    Pan!–foi o som que se ouviu. Com um só couce a reixa estava
    no chão, e as hombreiras de pedra tinham voado em mil rachas.
    Quer m'o creiam quer não, di-lo a historia: eu com isto não perco
    nem ganho.

    D. Diogo, esse ficou-o crendo; porque uma lasca de pedra bateu-lhe
    nos dous ultimos dentes que tinha, e metteu-lh'os pela goela
    abaixo. Por isso elle com a dôr não podia dizer palavra.

    Seu filho fê-lo cavalgar ante si, e cavalgando após elle,
    bradou:–Meu pae, estaes salvo!"

    E Pardalo de um pulo galgou de novo o palanque. Pois tinha bons
    quinze palmos!

    Pela manhan não havia signal de chuva; o ar estava limpo e sereno,
    e quando os mouros foram vêr o que succedêra a D. Diogo Lopes,
    não lhe acharam sequer o rasto.

    6

    D. Inigo e seu pae, o velho senhor de Biscaia, passam as portas
    de Toledo com a rapidez da frecha: n'um abrir e fechar d'olhos
    ficam-lhe para traz muros, torres, barbacans e atalaias. A batega
    vae diminuindo: rasgam-se as nuvens, e vêem-se já reluzir algumas
    estrellas, que parecem outros tantos olhos com que o céu espreita
    através do negrume o que se passa cá em baixo.

    A estrada, pelas descidas e subidas dos recostos, converteu-se
    em leito de torrente, nos plainos converteu-se em lago.

    Mas pelos lagos e torrentes o valente onagro rompia ávante, bufando
    como um damnado.

    Não subiram bem um monte, já descem pelo outro recosto abaixo;
    ainda bem não chegaram a uma clareira, já sentem em profunda
    floresta gotejarem-lhes em cima os ramos agitados das arvores.

    Pouco mais é de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam
    o chão estrellado do céu já limpo, semelhantes aos dentes de uma
    serra gigante capaz de dividir cêrceo o hemispherio austral do
    hemispherio boreal.

    E Pardalo investe sempre em galope desfeito com as montanhas
    disformes, e desce aos valles temerosos, e cada vez mais ligeiro,
    como o seu nome o indica, parece menos quadrupede que passaro.

    Mas que ruido é esse que sobreleva ao do vento? Que é isso que,
    lá ao longe, ora alveja ora reluz nas trevas, como uma alcateia de
    lobos involtos em sudarios brancos, com os olhos só descobertos,
    e despregando em fio pelo fundo do valle abaixo?

    É um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as
    escamas angulosas de seu dorso eriçado, onde batem e chispam
    os raios das estrellas em mil reflexos quebrados.

    Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio.–"Será
    um marco, uma estatua?"–pensaram os cavalleiros. Pinheiro não
    póde ser: não consta que em taes sitios nasçam.

    Pardalo ria-se de rios; pontes, fazia tanto cabedal dellas como
    de um retraço de palha. Todavia, bem que podesse de um pulo salvar
    vinte ribeiras como aquella, foi-se direito á ponte; porque não
    era animal que fizesse africas escusadas.

    Semelhante a relampago se arrojou o onagro áquelle passo estreito…
    Mas, tá!… Ei-lo que de repente pára.

    E tremia como varas verdes, e arquejava com violencia: os dous
    cavalleiros olharam.

    O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte:
    por isso Pardalo emperrava.

    Então d'entre uns altos choupos, que da margem d'além se meneavam,
    um pouco mais abaixo daquelle sitio, ouviu-se uma voz fadigosa
    e trémula que cantava:

    Para traz, para traz, a galgar.
    Já!
    De redor, de redor vem passar
    Cá!
    Que não ha nada aqui que te empeça!
    Buz,
    Nem palavra, vós dous! Fugi dessa
    Cruz!

    "Sancto nome de Christo!"–exclamou D. Diogo benzendo-se ao escutar
    aquella voz que bem conhecia, mas que depois de tantos annos
    não esperava alli ouvir, porque seu filho não lhe dissera que
    meio achára para o salvar.

    Apenas o grito do velho soou, assim elle como D. Inigo foram
    bater contra o poyal do cruzeiro, onde ficaram de bruços, involtos
    em lodo. O onagro ao sacudi-los de si soltára um rugido de
    besta-fera. Sentiram então um cheiro intoleravel de enxofre e
    de carvão de pedra inglez, que logo se percebia ser cousa de
    Satanaz.

    E ouviram como um trovão subterraneo; e a ponte balançava como
    se as entranhas da terra se despedaçassem.

    Apesar do seu grande terror, e de clamar pela Virgem Santissima,
    D. Inigo abriu um cantinho do olho para vêr o que se passava.

    Nós os homens costumâmos dizer que as mulheres são curiosas. Nós
    é que o somos. Mentimos como uns desalmados.

    Que veria o cavalleiro? Um fojo aberto bem proximo delle sobre
    a ponte, e que depois rompia pela agua.

    E depois pelo leito do rio; e depois pela terra dentro, dentro;
    e depois pelo tecto do inferno, que outra cousa não podia ser
    um fogo muito vermelho que reverberava daquella profundidade.

    Tanto era assim, que ainda lá viu passar de relance um demonio
    com um desconforme espeto nas mãos em que levava um judeu empalado.

    E Pardalo descia remoinhando por esse boqueirão, como uma penna
    cahindo em dia sereno do alto de uma torre abaixo.

    Aquella vista fez perder os sentidos a D. Inigo, que, indo tambem
    a chamar por Jesus, achou que não podia proferir este nome sagrado.

    De terror tanto o velho como o moço ficaram alli em desmaio.

    Quando tornaram a si, com o romper do sol claro, conheceram o
    sitio em que se achavam. Era a ponte proxima á aldêa de Nusturio,
    no alto da qual campeava o castello construido por D. From o
    saxonio, avoengo de D. Diogo Lopes, e primeiro senhor de Biscaia.

    Nenhum vestigio restava do que alli se passára; os dous, moídos
    e cheios de lodo e pisaduras, foram-se arrastando como poderam
    até encontrar alguns villãos, a quem se deram a conhecer, e que
    os levaram a casa.

    Festas que em Nusturio se fizeram por sua vinda, cousa é que não
    vos direi; porque não tarda a hora de ceiar, resar, e deitar.

    7

    D. Diogo pouco tempo viveu: todos os dias ouvia missa; todas
    as semanas se confessava. D. Inigo, porém, nunca mais entrou na
    igreja, nunca mais resou, e não fazia senão ir á serra caçar.

    Quando tinha de partir para as guerras de Leão viam-no subir á
    montanha armado de todas as peças, e voltar de lá montado n'um
    agigantado onagro.

    E o seu nome retumbou em toda a Hespanha; porque não houve batalha
    em que entrasse que se perdesse, e nunca em nenhum recontro foi
    ferido ou derribado.

    Diziam á bôca pequena em Nusturio que o illustre barão tinha pacto
    com Belzebuth. Olhem que era grande milagre!

    Meio precíto era elle por sua mãe; não tinha que vender senão
    a outra metade da alma.

    Por oitenta por cento de lucro ne recibo de um egresso a dá ahi
    inteira ao démo qualquer onzeneiro, e crê ter feito uma limpa
    veniaga.

    Fosse como fosse, Inigo Guerra morreu velho: o que a historia
    não conta é o que então se passou no castello. Como não quero
    improvisar mentiras, por isso não direi mais nada.

    Mas a misericordia de Deus é grande. Á cautela resem por elle
    um _Pater_ e um _Ave_. Se não lhe aproveitar, seja por mim. Amen.

    * * * * *

    [1] Um jumento silvestre não seria mui delicado manjar
    para mesa moderna; mas o uso da carne asinina na idade média
    era vulgar: ainda em muitos dos nossos foraes apparece marcado
    entre as portagens o quanto devia pagar este genero de vianda.

    [2] O Diccionario da Academia, que ficou interrompido
    no fim da letra A, acaba na palavra _azurrar_.

    O BISPO NEGRO

    (1130)

    1

    Houve tempo em que a sé abandonada de Coimbra era formosa; houve
    tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos annos, eram ainda
    pallidas, como as margens areentas do Mondego[1]. Então o luar,
    batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavissima,
    mais rica de saudade que os proprios raios daquelle planeta guardador
    dos segredos de tantas almas, que crêem existir nelle, e só nelle,
    uma intelligencia que as perceba.

    Então aquellas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos
    de homens, desde que os seus edificadores as tinham collocado sobre
    as alturas; e todavia já então ninguém sabia se esses edificadores
    eram da nobre raça goda, se da dos nobres conquistadores arabes.

    Mas, quer filha dos valentes do norte, quer dos pugnacissimos
    sarracenos, ella era formosa na sua singella grandeza entre as
    outras sés das Hespanhas. Ahi succedeu o que ora ouvireis contar.

    2

    Aproximava-se o meiado do duodecimo seculo. O principe de Portugal
    Affonso Henriques depois de uma revolução feliz, tinha arrancado
    o poder das mãos de sua mãe. Se a historia se contenta com o
    triste espectaculo de um filho condemnando ao exilio aquella que
    o gerou, a tradição carrega as tinctas do quadro, pintando-nos
    a desditosa viuva do conde Henrique arrastando grilhões no fundo
    de um calabouço. A historia conta-nos o facto; a tradição os
    costumes. A historia é verdadeira, a tradição verosimil; e o
    verosimil é o que importa ao que busca as lendas da patria.

    Em uma das torres do velho alcacer de Coimbra, encostado entre
    duas ameias, a horas que o sol fugia do horisonte, o principe
    conversava com Lourenço Viegas o Espadeiro, e com elle dispunha
    meios e apurava traças para guerrear a mourisma.

    E lançou casualmente os olhos para o caminho que guiava ao alcacer,
    e viu o bispo D. Bernardo, que, montado em sua nedia mula, cavalgava
    apressado pela encosta acima.

    "Vêdes vós–disse elle ao Espadeiro–o nosso leal D. Bernardo,
    que para cá se encaminha? Negocio grave por certo o faz sair a
    taes deshoras da crasta da sua sé. Desçamos á sala d'armas e
    vejamos o que elle quer."–E desceram.

    Grandes lampadarios ardiam já na sala d'armas do alcacer de Coimbra,
    pendurados de cadeias de ferro chumbadas nos fechos dos arcos de
    volta de ferradura, que sustentavam os tectos de grossa cantaria.
    Pelos feixes de columnas delgadas, entre si separadas, mas ligadas
    nos fustes por uma base commum, pendiam corpos de armas, que
    reverberavam a luz das lampadas, e pareciam cavalleiros armados,
    que em silencio guardavam aquelle amplo aposento. Alguns homens
    de mesnada faziam retumbar as abobadas, passeando de um para
    outro lado.

    Uma portinha, que ficava em um angulo da quadra, abriu-se, e
    d'ella saíram o principe e Lourenço Viegas, que desciam da torre:
    quasi ao mesmo tempo assomou no grande portal de entrada o vulto
    veneravel e solemne do bispo D. Bernardo.

    "Guarde-vos Deus, bispo de Coimbra! Que mui urgente negocio vos
    traz aqui esta noite?–disse o principe a D. Bernardo.

    "Más novas, senhor. Trazem-me aqui a mim letras do papa, que ora
    recebi."

    "E que quer de vós o papa?"

    "Que de sua parte vos ordene solteis vossa mãe…"

    "Nem pelo papa, nem por ninguem o farei."

    "E manda-me que vos declare excommungado, se não quizerdes cumprir
    seu mandado."

    "E vós que intentaes fazer?"

    "Obedecer ao successor de S. Pedro."

    "Quê? D. Bernardo amaldiçoaria aquelle a quem deve o bago pontifical;
    aquelle que o alevantou do nada? Vós, bispo de Coimbra,
    excommungarieis o vosso principe, porque elle não quer pôr a
    risco a liberdade desta terra remida das oppressões do senhor
    de Trava, e do jugo do rei de Leão; desta terra que é só minha
    e dos cavalleiros portuguezes?"

    "Tudo vos devo, senhor,–atalhou o bispo–salvo minha alma que
    pertence a Deus, minha fé que devo a Christo, e a minha obediencia
    que guardarei ao papa."

    "D. Bernardo! D. Bernardo!–disse o principe suffocado em
    colera–lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou
    sem paga!"

    "Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe?"

    "Não! Mil vezes não!"

    "Guardae-vos!"

    E o bispo saíu sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou
    pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Lourenço
    Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D'ahi a
    pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no
    mais profundo silencio.

    3

    Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço
    Viegas passeava com o principe na sala d'armas do paço mourisco.

    "Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir lá muito ao longe,
    caminho da terra de Sancta Maria[2]! Na porta da sé estava pregado
    um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um
    clerigo velho que ahi chegára quando eu olhava para aquella carta,
    era o que elles chamam o interdicto.–Isto dizia o Espadeiro,
    olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o
    ouvisse.

    "Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me
    excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que
    me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo á sé. Bispo D.
    Bernardo, tarde será o arrepender-te da tua ousadia!"

    D'alli a pouco as portas da sé estavam abertas, porque o sol
    era nado, e o principe, acompanhado de Lourenço Viegas e de dous
    pagens, atravessava a igreja, e dirigia-se á crasta, onde ao
    som de campa tangida tinha mandado ajunctar o cabido, com pena
    de morte para o que ahi faltasse.

    4

    Solemne era o espectaculo que apresentava a crasta da sé de Coimbra.
    O sol dava com todo o brilho de manhan purissima por entre os
    pilares que sustinham as abobadas dos cubertos, que cercavam o
    pateo interior. Ao longo desses cubertos caminhavam os conegos
    com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bafo suave
    do vento matutino. No topo da crasta estava o principe em pé,
    encostado ao punho da espada, e um pouco atras delle Lourenço
    Viegas e os dous pagens. Os conegos íam chegando, e formavam
    um semicirculo a pouca distancia d'elrei, em cuja cervilheira
    de malha de ferro ferviam buliçosos os raios do sol.

    Toda a clerezia da sé estava alli apinhada, e o principe, sem
    dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia involto em
    fundo pensar. O silencio era completo.

    Por fim Affonso Henriques ergueu o rosto carrancudo e ameaçador,
    e disse:

    "Conegos da sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de
    Portugal?"

    Ninguem respondeu palavra.

    "Se o não sabeis, dir-vo-lo-hei eu,–proseguiu o principe:–vem
    assistir á eleição do bispo de Coimbra."

    "Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição–disse o mais
    velho e auctorisado dos conegos que estavam presentes, e que
    era o _adayão_.

    "Amen:–responderam os outros.

    "Esse que vós dizeis;–bradou o infante, cheio de colera–esse
    jamais o será. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu
    lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias
    porá D. Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal
    ensinará um rebelde a fé das sanctas escripturas! Elegei outro:
    eu approvarei vossa escolha."

    "Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição:–repetiu o
    adayão.

    "Amen:"–responderam os mais.

    O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta
    resistencia:–"Pois bem!"–disse elle, com a voz presa na garganta,
    depois de um olhar terrivel que lançou pela assembléa, e de alguns
    momentos de silencio.–"Pois bem! Saí d'aqui, gente orgulhosa e
    má! Saí, vos digo eu. Alguem por vós elegerá um bispo…"

    Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para
    as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta.

    Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes,
    tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena:
    os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão
    da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a
    cabeça como quem approvava o dicto. Os conegos começavam a
    retirar-se, e o negro ía apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe
    um signal com a mão. O negro voltou para trás.

    "Como has nome?"–perguntou-lhe o principe.

    "Senhor, hei nome Çolleima.[3]"

    "És bom clerigo?[4]"

    "Na companhia não ha dous que sejam melhores."

    "Bispo serás, D. Çolleima. Vae tomar teus guisamentos, que hoje
    me cantarás missa."

    O clerigo recuou: naquella face tisnada viu-se uma contracção
    de susto.

    "Missa não vos cantarei eu, senhor:–respondeu o negro com voz
    trémula;–que para tal auto não tenho as ordens requeridas."

    "D. Çolleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando
    vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás
    os degraus do altar-mór da sé de Coimbra, ou a cabeça te descerá
    de cima dos hombros, e rolará pelas lageas deste pavimento."

    O clerigo curvou a fronte.

    "_Kirie-eleyson … Kirie-eleyson … Kirie-eleyson!_"–garganteava
    d'ahi a pouco D. Çolleima, revestido dos habitos episcopaes,
    juncto ao altar da capella-mór. O infante Affonso Henriques, o
    Espadeiro e os dous pagens, de joelhos, ouviam missa com profunda
    devoção.

    5

    Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra
    havia grande sarau. Donas e donzellas, assentadas ao redor do
    aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em
    tom monotono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os
    arremedilhos satyricos dos truões e farcistas. Os cavalleiros em
    pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos,
    ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um
    dos lados, porém, entre um labyrintho de columnas, que davam
    saída para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam
    entretidas em negocio mais grave do que os prazeres de noite de
    folguedo o permittiam. Eram estas personagens Affonso Henriques,
    Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas, e Gonçalo de Sousa o
    Bom. Os gestos dos quatro cavalleiros davam mostras de que elles
    estavam vivamente agitados.

    "É o que affirma, senhor, o mensageiro–dizia Gonçalo de Sousa–que
    me enviou o abbade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu
    uma noite para não entrar em Braga. Dizem que o papa o envia
    a vós, porque vos suppõe hereje. Em todas as partes por onde
    o legado passou, em França e em Hespanha, vinham a lhe beijar
    a mão reis, principes e senhores: a eleição de D. Çolleima não
    póde por certo ir ávante…"

    "Irá, irá!–respondeu o principe em voz tão alta que as suas
    palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento.–Que o legado
    tenha tento em si! Não sei eu se haveria ahi cardeal, ou
    apostolico[5] que me estendesse a mão para eu lh'a beijar, que
    pelo cotovello lh'a não cortasse fóra a minha boa espada. Que
    me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas,
    não as farei eu!"

    Isto foi o que se ouviu daquella conversação: os tres cavalleiros
    falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz tão
    baixa, que ninguem percebeu mais nada.

    6

    Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom
    do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas
    o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas
    por muitos, e alguem as havia repetido ao legado.

    Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo,
    encaminhou-se direito ao alcacer real.

    O principe saíu a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros.
    Com modos cortezes guiou-o á sala de seu conselho, e ahi se passou
    o que ora ouvireis contar.

    O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante
    delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado
    mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde
    Henrique.

    "Dom cardeal,–começou o principe–que viestes vós fazer a minha
    terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis
    agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor
    papa para estas hostes que faço, e com que guerreio noite e dia
    os infiéis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei:
    depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem."

    No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as
    palavras do principe, que eram de amargo escarneo.

    "Não a trazer-vos riquezas,–atalhou elle–mas a ensinar-vos a fé
    vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente
    o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com
    vossas manoplas, victoriado só por vós com palavras blasphemas
    e maldictas…"

    "Calae-vos, dom cardeal,–gritou Affonso Henriques–que mentís
    pela gorja! Ensinar-me a fé?! Tão bem em Portugal como em Roma
    sabemos que Christo nasceu da Virgem; tão certo como vós outros
    romãos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, ámanhan
    vos ouvirei: hoje podeis-vos ir."

    E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia
    do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta,
    saíu do alcacer.

    7

    O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal
    partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda
    repousadamente.

    O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos
    harmoniosos da sé costumavam acorda-lo tocando ás ave-marias:
    mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia
    mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda
    do oriente.

    "Misericordia! misericordia!"–gritavam devotamente homens e mulheres
    á porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle
    ruido.

    "Que vozes são estas que soam?"–perguntou elle a um pagem.

    O pagem respondeu-lhe chorando:

    "Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu:
    as igrejas estão fechadas; os sinos já não ha quem os toque;
    os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldicção do sancto
    padre de Roma cahiu sobre nossas cabeças."

    Outra vez soou á porta do alcacer:–Misericordia! Misericordia!"

    "Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem
    e selem o meu melhor corredor!"

    Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi
    envergou á pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que
    apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do chão.
    O pagem tinha saído, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha
    que havia em Coimbra tropeava e rinchava á porta do alcacer.

    8

    Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de
    Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante
    espicaçava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata:
    em duas outras mulas íam ao lado delle dous mancebos com caras
    e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando
    em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam
    as grammaticaes[6]. Eram o cardeal, que se ía a Roma, e dous
    sobrinhos seus que o haviam acompanhado.

    Entretanto o principe partíra de Coimbra sósinho. Quando pela
    manhan Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus
    paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o caracter
    violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe
    a pista á redea solta, e íam já muito longe quando viram o pó
    que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar
    do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso
    de um crocodilo.

    Os dous fidalgos esporearam com mais força os ginetes e breve
    alcançaram o infante.

    "Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, tão
    cedo e açodadamente?"

    "Vou pedir ao legado do papa que se amercêe de mim…"

    A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que
    encobria o caminho: pela encosta abaixo ía o cardeal com os dous
    mancebos das opas e cabellos tonsurados.

    "Oh!..–disse o principe. Esta unica interjeição lhe fugiu da
    bôca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido
    de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a prêa
    descuidada.

    "_Memento mei, Domine, secundùm magnam misericordiam tuam!_"–resou
    o cardeal em voz baixa e trémula, quando ouvindo o tropear dos
    cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques.

    Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por elle,
    travou-lhe do cabeção do vestido, e em um relance ergueu o montante:
    felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas
    debaixo do golpe que já descia sobre a cabeça do legado: os tres
    ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o craneo
    do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos
    ares.

    "Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido de
    Deus:"–gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas.

    "Principe"–disse o velho chorando–"não me faças mal; que estou
    á tua mercê!"–Os dous mancebos tambem choravam.

    Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio
    alguns momentos.

    "Estás á minha mercê:–disse elle por fim.–Pois bem! Viverás, se
    desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunhão
    lançada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca
    mais em meus dias será posto interdicto nesta terra portugueza,
    conquistada aos mouros por preço de tanto sangue. Em refens deste
    pacto ficarão teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma
    não vierem letras de bençam, tem tu por certo que as cabeças
    lhes voarão de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?"

    "Senhor, sim!–respondeu o legado com voz sumida.

    "Juras?"

    "Juro."

    "Mancebos, acompanhae-me,"

    Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado,
    que com muitas lagrymas se despediu delles, e sósinho seguiu
    o caminho da terra de Sancta Maria.

    D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na
    capella-mór da sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam
    alegremente. Tinham chegado letras de bençam de Roma; e os sobrinhos
    do cardeal, montados em boas mulas, íam cantando devotamente pelo
    caminho da Vimieira o psalmo que começa:

    _In exitu Israel de Ægypto._

    Conta-se, todavia, que o papa levára a mal no principio, o pacto
    feito pelo legado; mas que por fim tivera dó do pobre velho,
    que muitas vezes lhe dizia:

    "Se tu, sancto padre, víras sobre ti um cavalleiro tão bravo
    ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça; e
    seu cavallo tão feroz arranhar a terra, que já te fazia a cova
    para te enterrar, não sómente deras as letras, mas o papado e
    a cadeira apostolical."

    * * * * *

    NOTA

    A lenda precedente é tirada das chronicas de Acenheiro, rol de
    mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria
    procedido mais judiciosamente em deixa-las no pó das bibliothecas,
    onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda
    tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso
    Henriques por Duarte Galvão, formando a substancia de quatro
    capitulos, que foram supprimidos na edição deste auctor, e que
    mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz uma _grave_
    refutação. Toda a narrativa da prisão de D. Theresa, das tentativas
    _opposicionistas_ do bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro,
    da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella
    epocha. A tradição é falsa a todas as luzes: mas tambem é certo
    que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse
    reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto
    que estrangeiro, bem informado geralmente ácerca dos successos do
    nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido
    em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo
    negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista está
    indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a
    propria confusão de datas e de individuos, que apparece no texto
    de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava já alterado
    na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fóra
    de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy
    de Pina e Acenheiro não leram (porque só foi publicado no seculo
    decimo-setimo) prova que ella remonta entre nós, por maioria de
    razão, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como já a
    vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos,
    e que se lê a pag. 640 da edição de Hoveden, por Savile:

    "No _mesmo anno_ (1187) o cardeal _Jacintho_, então legado em toda
    a Hespanha, depôs muitos prelados _(abbates)_ ou por culpas delles
    ou por impeto proprio, e como quizesse depôr o bispo de Coimbra,
    o rei _Affonso_ (Henriques) não consentiu que elle fosse deposto,
    e mandou ao dicto cardeal que saísse da sua terra, quando não
    cortar-lhe-hia um pé."

    * * * * *

    [1] A sé velha de Coimbra é no todo, ou na maxima parte
    uma edificação dos fins do seculo duodecimo; mas acceitámos aqui
    a tradição que lhe attribue uma remotissima antiguidade.

    [2] Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada
    de Coimbra.

    [3] É notavel coincidencia a seguinte: Em 1088 _um
    presbytero, por nome Zoleima,_ fez uma doação _á sé de Coimbra_.
    Desta doação se lembra Fr. Antonio Brandão M. L. P. 3.ª L. 8.º
    Cap. 5.º pag. 13 col. 2.ª in fine.

    [4] _Clerigo_ naquella epocha não significava só o
    ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo
    empregado no serviço do culto. D'ahi a frequente menção nos
    documentos, de _clerigos casados_.

    [5] Papa.

    [6] Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se
    chamavam na idade média. _Darin lernt ich puerilia,_ diz Hans Sachs
    no seu _Lebensbeschreibung_, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso,
    affirma de seu predecessor D. João Gomes: _erat bonus homo, et
    sinè aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, immò nec
    grammaticalia, quod est plus_.

    A MORTE DO LIDADOR

    (1170)

    1

    "Pagens! que arreiem o meu ginete murzello; e vós dae-me o meu
    lorigão de malha de ferro, e a minha boa toledana. Senhores
    cavalleiros, hoje contam-se noventa e cinco annos que recebi o
    baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavalleiro, e
    quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria
    dos mouros."

    Isto dizia na sala de armas do castello de Béja Gonçalo Mendes
    da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejára, e por seu
    valor indomavel chamavam o Lidador. Affonso Henriques, depois do
    infeliz successo de Badajoz, e feitas pazes com elrei de Leão,
    o nomeára fronteiro da cidade de Béja, de pouco conquistada aos
    mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam
    com elle, e outros muitos cavalleiros afamados, entre os quaes
    D. Ligel de Flandres, e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas.

    "A la fé–disse Mem Moniz—que a festa de vossos annos, senhor
    Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavalleiro, que de capitão
    encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Béja para
    bem a haverdes de guardar, e não sei eu se arriscado é saír hoje
    á campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva,
    que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes
    mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros
    desta sala de armas."

    "Voto a Christo–atalhou o Lidador–que não cria eu que o senhor
    rei me houvesse posto nesta torre de Béja para estar assentado á
    lareira da chaminé, como uma velha dona, a espreitar de quando
    em quando por uma séteira, se cavalleiros mouros vinham correr
    té a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo
    da torre da menagem, como usam os villãos. Quem achar que são
    duros de mais os arnezes dos infiéis póde ficar-se aqui."

    "Bem dicto! bem dicto!"–clamaram, dando grandes risadas, os
    cavalleiros mancebos.

    "Por minha boa espada!"–gritou Mem Moniz, atirando com o
    guante-ferrado ás lageas do pavimento–"que mente pela gorja quem
    disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor
    lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso
    ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga
    mourisca."

    "A cavallo, a cavallo!"–gritou outra vez a chusma, com grande
    alarido.

    D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos
    cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Béja,
    e passados alguns instantes soava só o tropear dos cavallos
    atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores, que
    davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer
    a mourisma.

    2

    Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e
    tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Béja: batia o
    sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam:
    ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre
    que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras,
    cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores christãos.
    Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando
    em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas
    de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto
    a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro:
    chôro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera:
    então de christãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz
    basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus
    das mesquitas convertiam-se em campanarios de sés, e a voz do
    almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam á oração
    entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos
    filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:–"é
    nossa a terra de Hespanha."–O dicto do arabe foi desmentido; mas a
    resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a
    espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima
    gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas
    nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura,
    estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos
    portaes e torres dos templos, nos lanços dos muros das cidades
    e castellos, accrescentou no fim a mão da providencia:–"assim
    para todo o sempre!"

    Nesta lucta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alemtejo.
    O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se
    enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava elle salvação,
    ou ao menos vingança; ao menos um dia de combate, e corpos de
    christãos estirados na veiga para pasto dos açores bravios. A
    vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas,
    embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora
    as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres
    de seus irmãos! E este ameno dia de julho devia ser um desses
    dias porque suspirava o servo ismaelita.

    Almoleimar descêra com seus cavalleiros ás campinas de Béja.
    Pelas horas mortas da noite viam-se as almenáras das suas atalaias
    nos pincaros das serras remotas, semelhantes ás luzinhas, que
    em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus
    folguedos; bem longe éstavam as almenáras, mas bem perto sentiam
    os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de
    folhas seccas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro
    de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros
    do Lidador saíam mais de dous tiros de bésta alem das velhas
    muralhas de Béja; tudo, porém, estava em silencio, e só aqui e
    alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios
    tinham vagueado almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia
    pelo quarto de modorra as habitações dos pastores alem das encostas
    do Atlas.

    No dia em que Gonçalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Béja,
    cumpria os noventa e cinco annos, ninguem saíra, pelo arrebol da
    manhan, a correr o campo; e, todavia, nunca tão de perto chegára
    Almoleimar; porque uma frecha fôra pregada á mão em um grosso
    carvalho, que sombreava uma fonte, a pouco mais de tiro de funda
    dos muros do castello. Era que nesse dia deviam ir mais longe os
    cavalleiros christãos: o Lidador pedíra aos pagens o seu lorigão
    de malha de ferro, e a sua boa toledana.

    3

    Trinta fidalgos, flor da cavallaria, corriam á redea solta pelas
    campinas de Béja; trinta, não mais, eram elles; mas orçavam por
    trezentos os homens d'armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam.
    Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador,
    cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o
    peitoral da cota d'armas, e o terrivel Lourenço Viegas, a quem
    pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era
    formoso espectaculo e esvoaçar dos balsões e signas, fóra de suas
    fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as
    cores variegadas das cotas, e as ondas de pó, que se alevantavam
    debaixo dos pés dos ginetes, como as alevanta o bulcão de Deus,
    varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de verão.

    Ao largo, muito ao largo, dos muros de Béja vai a atrevida cavalgada
    em demanda dos mouros; e no horisonte não se vêem senão os topos
    pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto
    quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um
    albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os
    corredores christãos volteiam na frente da linha dos cavalleiros,
    correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e
    transpõem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros;
    apparecem, somem-se, tornam a saír ao claro: mas no meio de tal
    lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito
    monotono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira.

    A terra que pisam é já de mouros; é já além da frontaria. Se
    olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trás indo
    em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo
    enxergariam Béja. Bastos pinhaes começavam já a cobrir mais ondeado
    territorio, cujos outeirinhos aqui e alli se alteavam suaves como
    seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos
    cavalleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes
    alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que
    os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era
    necessario repousar, que o sol ía no zenith e abrazava a terra:
    descavalgaram todos á sombra de um azinhal, e sem desenfrear os
    ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas
    de um arroio vizinho.

    Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Béja
    um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se á rédea solta de
    uma selva extensa, que corria á mão direita: pouco, porém, correu;
    uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou
    por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo
    parou de repente, e elle, erguendo os braços ao ar com as mãos
    abertas, cahiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu
    desenfreado através das veigas, e desappareceu na selva. O almogavar
    dormia o ultimo somno dos valentes em terra de inimigos, e os
    cavalleiros da frontaria de Béja viram o seu trance do repousar
    eterno.

    "A cavallo! a cavallo!"–bradou a uma voz toda a lustrosa companhia
    do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura
    de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros
    cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como
    aspirando os combates.

    Uma grita medonha troou ao mesmo tempo além do pinhal da
    direita.–"Allah! Almoleimar!"–era o que dizia a grita.

    Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros arabes saíram á
    rédea solta de trás da escura selva que os encubria: o seu numero
    excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras
    lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christãos,
    apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas
    cotas de malha do mesmo metal: mas as lanças destes eram mais
    robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras
    mouriscas. A rudeza e a força da raça gothico-romana íam ainda
    mais uma vez provar-se com a destreza e com a perícia arabes.

    4

    Como uma longa fita de muitas côres, recamada de fios d'ouro, e
    reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda
    linha dos cavalleiros mouros sobresaía na veiga entre as searas
    pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros
    portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros
    cubertos dos seus escuros involtorios, e lanças em riste, esperavam
    o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christãos,
    diante da copia d'infiéis que os esperavam, diria que, não com
    brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam
    a desesperado trance. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os
    seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças
    portuguezas, e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra
    dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum coraçâo
    que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era
    entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que
    taes faces descoravam.

    Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se
    embebido debaixo dos pés dos cavallos, como no torculo se embebe
    a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa
    primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador bradára Sanctiago; e
    o nome de Allah soára em um só grito por toda a fileira mourisca.

    Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento
    terremoto, desabando, não fariam mais ruido, ao bater em pedaços
    uma contra a outra, que este recontro de infiéis e christãos: as
    lanças topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo,
    que se misturava com o estalar das que voavam despedaçadas. Do
    primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao chão: um mouro
    robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas,
    e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lança.

    Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou
    ao Lidador, que perto delle estava:

    "Senhor Gonçalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro,
    aberta a séteira por onde eu, velha dona assentada á lareira,
    costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia
    de villãos do cimo da torre de menagem."

    O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as
    ultimas palavras, elle topára em cheio com o terrivel Almoleimar.
    As lanças dos dous contendores haviam-se feito pedaços, e o alfange
    do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Béja.

    Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou,
    os dous capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes
    em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do
    Lidador tinham ganhado a immobilidade que dá, nos grandes perigos,
    o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se
    todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os
    dentes com força, descarregou um golpe tremendo sobre o seu
    adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se
    embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldão e
    a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando,
    pelo coxote do mouro, que já desencravára o alfange. Tal foi a
    primeira saudação dos dous cavalleiros inimigos.

    "Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o
    metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se
    embotam os fios deste alfange."

    Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu
    em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que
    bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro
    da montanha.

    O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe
    pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no chão, se não estivesse
    presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete,
    sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedaço pela campanha
    a todo o galope.

    Mas o Lidador tornou a si: uma forte soffreada avisou o ginete
    de que seu senhor não morrêra. Á redea solta lá volta o Fronteiro
    de Béja; escorre-lhe o sangue, involto em escuma, pelos cantos
    da bôca: traz os olhos torvos de ira: ai de Almoleimar!

    Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por
    entre christãos e mouros: os dous contendores viram-se, e, como
    o leão e o tigre, correram um para o outro: as espadas reluziram
    no ar: mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando
    de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar,
    que cedeu á violenta estocada; e o sangue, saindo ás golfadas,
    cortou a ultima maldicção do agareno.

    Mas a espada deste tambem não errára o golpe: vibrada com ancia,
    colhêra pelo hombro esquerdo o velho Fronteiro, e, rompendo a
    grossa malha do lorigão, penetrára na carne até o osso; e ainda
    mais uma vez a mesma terra bebeu nobre sangue godo misturado
    com sangue arabe.

    "Perro maldicto! Sabe lá no inferno que a espada de Gonçalo Mendes
    é mais rija que a sua cervilheira."

    E, dizendo isto, o Lidador cahiu amortecido: um dos seus homens
    de armas voou a soccorre-lo; mas o ultimo golpe d'Almoleimar
    fôra o brado da sepultura para o fronteiro de Béja: os ossos do
    hombro do bom velho estavam como triturados, e as carnes rasgadas
    pendiam-lhe para um e outro lado involtas nas malhas descosidas
    do lorigão.

    5

    Entretanto os mouros íam de vencida: Mem Moniz, D. Ligel, Godinho
    Fafes, Gomes Mendes Gedeão, e os outros cavalleiros daquella
    lustrosa companhia tinham practicado maravilhosas façanhas. Mas
    entre todos tornava-se notavel o Espadeiro. Com um pesado montante
    nas mãos, cuberto de pó, suor e sangue, pelejava a pé; que o
    seu agigantado ginete cahíra morto de muitos tiros de frecha e
    lançadas. De roda delle não se viam senão cadaveres e membros
    destroncados, por cima dos quaes trepavam, para logo recuarem
    ou baquearem no chão, os mais ousados cavalleiros arabes. Como
    um promontorio de escarpados alcantis, Lourenço Viegas estava
    immovel e sobranceiro no meio do embate daquellas vagas de
    pelejadores, que vinham desfazer-se contra o terrivel montante
    do filho de Egas Moniz.

    Quando o Fronteiro cahiu, o grosso dos mouros fugia já para alem
    do pinhal; mas os mais valentes pelejavam ainda á roda do seu
    capitão mal ferido. O Lidador tinha sido posto em cima d'umas andas,
    feitas de troncos e franças de arvores; e quatro escudeiros, que
    restavam vivos dos dez que comsigo trouxera, o haviam transportado
    para a caga da cavalgada. O tinir dos golpes era já mui frouxo,
    e sumia-se no som dos gemidos, pragas, e lamentos, que soltavam
    os feridos derramados pela veiga ensanguentada. Se os mouros,
    porém, levavam, fugindo, vergonha e damno, a victoria não saíra
    barata aos portuguezes. Viam perigosamente ferido o seu velho
    capitão, e tinham perdido alguns cavalleiros de conta, e a maior
    parte dos homens de armas, escudeiros e pagens.

    Foi n'este ponto, que ao longe se viu erguer uma nuvem de pó,
    que voava rapida para o logar da peleja: mais perto, aquelle
    turbilhão rareou, vomitando do seio um basto esquadrão de arabes;
    os mouros que fugiam, deram volta e gritaram:

    "Ali-Abu-Hassan! Só Deus é Deus, e Mohammed o seu propheta!"

    Era, com effeito, Ali-Abu-Hassan, rei de Tangere, que estava
    com seu exercito sobre Mertola, e que viera com mil cavalleiros
    em soccorro de Almoleimar.

    6

    Cansados do largo combater, reduzidos a menos de metade em numero,
    e cubertos de feridas, os cavalleiros de Christo invocaram o seu
    nome, e fizeram o signal da cruz. O Lidador perguntou com voz
    fraca a um pagem, que estava ao pé das andas, que nova revolta
    era aquella.

    "Os mouros foram soccorridos por um grosso esquadrão:–respondeu
    tristemente o pagem.–A Virgem Maria nos acuda, que os senhores
    cavalleiros parece recuarem já."

    O Lidador cerrou os dentes com força, e levou a mão á cincta.
    Buscava a sua boa toledana.

    "Pagem, quero um cavallo. Onde está a minha espada?

    "Aqui a tenho, senhor. Mas estaes tão quebrado de forças!…."

    "Silencio! A espada, e um bom ginete."

    O pagem deu-lhe a espada, e foi pelo campo buscar um ginete,
    dos muitos que andavam já sem dono. Quando voltou com elle, o
    Lidador, pallido e cuberto de sangue, estava em pé, e dizia,
    falando comsigo:

    "Por Sanctiago, que não morrerei como villão de Behetria, onde
    entrou cavalgada de mouros!"

    E o pagem ajudou-o a montar a cavallo.

    Ei-lo vae o velho Fronteiro de Béja! Semelhava um espectro erguido
    de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos
    no braço e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da
    espada, que a mão direita mal sustinha, levava porventura ainda
    a morte de muitos outros!

    7

    Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou
    o Lidador. Os christãos affrouxavam diante daquella multidão
    d'infiéis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas
    pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porém, com
    vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas
    de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro
    e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa
    morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando
    o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiéis
    e christãos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante
    nas mãos, faziam larga praça no meio dos inimigos.

    "Bem vindo, Gonçalo Mendes!–disse Mem Moniz.–Quizeste assistir
    comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que
    estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado
    lá na çaga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com
    meu sobrinho juncto desta lareira…."

    "Implacaveis sois vós outros, cavalleiros de Riba-Douro,"–respondeu
    o Lidador em voz sumida,–"que não perdoaes uma palavra sem malicia.
    Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante
    do justo juiz."

    "Velhos sois; bem o mostraes!"–acudiu o Espadeiro.–"Não cureis de
    vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros,
    que não ousam chegar-se a nós. Ávante, e Sanctiago!"

    "Ávante, e Sanctiago!"–responderam Gonçalo Mendes e Mem Moniz:
    e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros.

    8

    Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho
    de 1170 se deram na veiga da frontaria de Béja, nota-los-ha de
    fabulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos
    por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo
    e forças as forças e o animo dos bons cavalleiros portuguezes
    do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam através das
    eras nas tradições e chronicas, tanto christans como agarenas.

    Depois de deixar assignadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador
    vibrára pela ultima vez a espada, e abríra o elmo e o craneo
    de um cavalleiro arabe. O violento abalo que soffreu, fez-lhe
    rebentar em torrentes o sangue da ferida, que recebêra das mãos de
    Almoleimar, e cerrando os olhos, cahiu morto ao pé do Espadeiro,
    de Mem Moniz, e de Affonso Hermigues de Bayão, que com elles se
    ajunctára. Repousou finalmente Gonçalo Mendes da Maia de oitenta
    annos de combates!

    Já a este tempo christãos e mouros se haviam descido dos cavallos,
    e pelejavam a pé. Traziam-se assim á vontade, e recrescia a crueza
    da batalha. Entre os cavalleiros de Béja espalhou-se logo a nova da
    morte do seu capitão, e não houve ahi olhos que ficassem enxutos.
    O despeito do proprio Mem Moniz deu logar á dor, e o velho de
    Riba-Douro exclamou entre soluços:

    "Gonçalo Mendes, és morto! Nós todos quantos aqui somos, não
    tardará que te sigamos; mas ao menos, nem tu nem nós ficaremos
    sem vingança!"

    "Vingança!"–bradou o Espadeiro, com voz rouca, e rangendo os
    dentes. Deu alguns passos, e viu-se o seu montante reluzir como
    uma centelha em céu procelloso.

    Era Ali-Abu-Hassan: Lourenço Viegas o conhecêra pelo timbre real
    do morrião.

    9

    Se já vivestes vida de combates em cidade sitiada, tereis visto
    muitas vezes um vulto negro, que em linha diagonal corta os ares,
    sussurrando e gemendo. Rapido, como um pensamento criminoso em
    alma honesta, elle chegou das nuvens á terra, antes que vos
    lembrasseis do seu nome. Se encontrou na passagem angulo de torre
    secular, o marmore converte-se em pó; se atravessou pelas ramas
    de arvore basta e frondosa, a folha mais virente e fragil, o
    raminho mais tenro é dividido, como se com cutelo subtilissimo
    mão de homem lhe houvera cerceado attentamente uma parte: e,
    todavia, não é um ferro açacalado: é um globo de ferro; é a bomba,
    que passa, como a maldicção de Deus. Depois, debaixo della o
    chão achata-se, e a terra espadana aos ares; e como agitada,
    despedaçada por cem mil demonios, aquella machina do inferno
    estoura, e de roda della ha um zumbir sinistro: são mil fragmentos;
    são mil mortes que se derramam ao longe. Então faz-se um grande
    silencio, e após o silencio vêem-se corpos destroncados, poças
    de sangue, arcabuzes quebrados, e ouve-se o gemer dos feridos
    e o estertor de moribundos….

    Tal desceu o montante do Espadeiro, bôto já de milhares de golpes,
    que o cavalleiro tinha descarregado. O elmo de Ali-Abu-Hassan
    faiscou, voando em pedaços pelos ares, e o ferro christão,
    esmigalhando o craneo do infiél, abriu-o até os dentes.
    Ali-Abu-Hassan cahiu.

    "Lidador! Lidador!"–disse Lourenço Viegas, com voz comprimida.
    As lagrymas misturavam-se-lhe nas faces com o suor, o pó, e o
    sangue do agareno, de que ficou coberto. Não pôde dizer mais
    nada.

    Tão espantoso golpe aterrou os mouros: os portuguezes seriam já
    apenas sessenta entre cavalleiros e homens d'armas; mas pelejavam
    como desesperados, e resolvidos a morrer. Mais de mil inimigos
    juncavam o campo de involta com os christãos. A morte de
    Ali-Abu-Hassan foi o signal da fugida.

    Os portuguezes, senhores do campo, celebravam com prantos a victoria.
    Poucos havia que não estivessem feridos; nenhum que não tivesse
    as armas falsadas e rotas. O Lidador e os demais cavalleiros de
    grande conta, que naquella jornada tinham acabado, atravessados em
    cima de ginetes foram conduzidos a Béja. Após aquelle tristissimo
    prestito íam os cavalleiros a passo lento, e um sacerdote templario,
    que fôra na cavalgada, com a espada cheia de sangue mettida na
    bainha, psalmeava em voz baixa aquellas palavras do livro da
    Sabedoria:

    "_Justorum autem animæ in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum
    mortis._"

    * * * * *

    O PAROCHO DA ALDEIA

    (1825)

    PROLOGO.

    Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera,
    o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da
    serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia
    de maldade e destruição. De noite e de dia os troncos das arvores
    torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e despedaçam-se involtas
    nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião
    sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo.
    Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos
    raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada
    despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o
    meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas
    das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os
    turbilhões da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta
    já de relva entresachada das primeiras florinhas. Então, relva
    e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que
    tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e
    as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como
    outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o
    céu. É que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura.
    Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um
    instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as
    corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força,
    e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que
    se desvaneceu tão breve.

    E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A
    rajada já não silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda
    do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa
    melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella
    não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e murcha como a
    ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de
    torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver.

    Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da
    philosophia, esse turbilhão transitorio de doutrinas, de systemas,
    de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade
    baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da
    intelligencia, não póde aquecer-se aos raios esplendidos do sol
    de uma crença viva.

    Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso
    espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as
    philosophias.

    A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a
    dor, a condemnação e a morte: mas a sua peior peçonha guardou-se
    para o presente: foi o scepticismo.

    Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida
    com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além
    da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se
    apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se
    com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:–"Creio, creio,
    oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque
    eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera
    chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo,
    tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque
    até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova,
    nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno!
    porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa
    da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da
    enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro;
    porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além
    do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste
    revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores
    á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do
    destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio,
    oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel
    humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e
    o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior
    que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias
    do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

    Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu
    o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho
    da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus
    o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada
    phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que
    é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do
    coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe
    tranquillamente–_quem sabe!_"–e cahir desanimado no lethargo da
    duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito,
    opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto
    religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.

    A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que
    assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe:
    –hypocrita!–porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas,
    que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes
    revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração!
    –Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada
    e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas,
    e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro,
    lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse
    aos que visse ao longe:–"não vos affasteis para aqui!"–Hypocritas
    são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do
    descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas.
    Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a
    irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que
    ella dá é inquietação e desesperança.

    Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida
    existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece
    as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece
    as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos
    monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico
    involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado
    nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.

    Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella
    que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia
    e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse
    passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião
    não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira.
    A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada
    suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol
    quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da
    lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se
    com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e
    sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é
    viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza.
    As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das
    escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice
    e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que
    são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente
    a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar
    poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar
    verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta,
    que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o
    n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe
    de ser.

    Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida,
    mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de
    ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias.
    São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

    Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria
    d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor
    sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente
    pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa
    epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima
    e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas
    ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos
    das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam
    energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos
    uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma
    sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos
    tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de
    todas as lembranças de Deus.

    Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até
    das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da
    puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das
    ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então
    o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes
    lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e
    os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas
    de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta
    um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre
    as nevoas densas do duvidar de tudo.

    O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos
    altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica
    miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da
    alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que
    via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz
    que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas
    da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas
    intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa
    do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima
    tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a
    desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria
    achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas.
    Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse
    facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma
    vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo:
    nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e
    com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os
    brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença,
    lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o
    espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes
    que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar
    vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro.

    Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae
    no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma
    daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia:
    vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente:
    dizei-lhe:–"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como
    criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente
    que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade
    o mais eloquente dos homens!"–Dizei-lhe isto, e vereis esse
    engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio
    dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para
    defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias
    mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado
    da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada
    subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e
    se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito
    despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará
    que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia
    o vaso fragil que já não o podia conter.

    Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias
    conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal:
    outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças:
    o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos
    affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e
    a regeneração da morte.

    Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da
    vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis,
    ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente
    para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle
    me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação
    amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

    Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno
    do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente
    crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o
    verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas,
    descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie
    como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa
    e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do
    circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas
    estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de
    saphyras em que se reclina a rainha da noite.

    Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem
    numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas
    que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz
    refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as
    estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é
    verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam
    tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e
    intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos
    longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até
    se derramarem na terra.

  • Lendas e Narrativas (Tomo I)

    Lendas e Narrativas (Tomo I)

    Aproximadamente 58.402 palavras.

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    Digital Library project from the National Library of
    Portugal.

    This e-text is transcribed from the 1858 2nd edition of Lendas e
    Narrativas (Tomo I).

    LENDAS E NARRATIVAS (Tomo I)

    ADVERTENCIA

    A Advertência que precedia a anterior edição, e que adiante vae
    repetida, explica sobejamente porque as primeiras tentativas de um
    género de escriptos, que só muito tarde foi cultivado em Portugal,
    se publicaram em volumes, quando talvez não devessem sair das
    columnas dos jornaes, onde viram a luz publica. Considerámo-los
    então, e considerâmo-los agora apenas como balisas no campo da
    nossa historia litteraria, balisas que nos parecem ainda mais
    toscas actualmente; porque ao passo que a reflexão e o tempo
    nos amaduram o espirito, os defeitos de composição e de estylo
    cada vez se vão avolumando mais aos olhos da nossa consciência
    retrospectiva. Reputando-os, todavia, hoje como ha oito annos,
    simples marcos milliarios, a presente edição absolve-se pelos
    mesmos títulos porque devia ser absolvida a edição anterior.

    Esperávamos, e dissemo-lo sinceramente, que estas desadornadas
    tentativas esqueceriam em breve offuscadas pelas brilhantes
    composições que começavam a avultar no caminho que havíamos aberto.
    O publico enleodeu de outro modo. Sem deixar de apreciar o melhor,
    não esqueceu estes mal delineados esboços, que ficaram na sua
    memória como nos ficam para a saudade os dias do nosso balbuciar
    infantil.

    Quinze a vinte annos são decorridos desde que se deu um passo,
    bem que débil, decisivo, para quebrar as tradições do Alivio
    de Tristo e do Feliz Independente, tyrannos que reinavam sem
    émulos e sem conspirações na provincia do romance português.
    Nestes quinze ou vinte annos creou-se uma litteratura e póde
    dizer-se que não ha anno que não lhe traga um progresso. Desde
    as Lendas e Narrativas até o livro Onde está a Felicidade? que
    vasto espaço transposto! E todavia, apesar do immenso talento
    que se revela nas mais recentes composições, quem sabe se entre
    os nomes que despontam apenas nos horisontes litterarios, não
    virá em breve algum que offusque os que nos deixaram para nós
    somente um bem modesto logar?

    Oxalá que assim seja. Os que nos venceram n'esta lucta gloriosa
    saberão resignar-se como nós nos resignámos.

    Ajuda, maio de 1858.

    ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO

    Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram
    impressos, em epochas mais ou menos remotas, nas duas publicações
    periodicas o Panorama e a Illustração, bem como o foram nestes
    ou em outros jornaes os que tem de formar o segundo volume das
    Lendas e Narrativas, colleccão que, se trabalhos mais arduos o
    consentirem, será continuada com alguns outros, apenas esboçados
    ou ineditos no todo ou em parte, que ainda restam entre os
    manuscriptos do auctor. Corrigindo-os e publicando-os de novo,
    para se ajunctarem a composições mais extensas e menos imperfeitas,
    que já viram a luz publica em volumes separados, elle quiz apenas
    preservar do esquecimento, a que por via de regra são condemnados
    mais cedo ou mais tarde os escriptos inseridos nas columnas das
    publicações periodicas, as primeiras tentativas do romance historico
    que se fizeram na lingua portuguesa. Monumentos dos esforços
    do auctor para introduzir na litteratura nacional um genero
    amplamente cultivado, nestes nossos tempos, em todos os paizes
    da Europa, é este o principal, ou talvez o unico merecimento
    delles; o titulo de que podem valer-se para não serem entregues
    de todo ao esquecimento. À singeleza da invenção, a pouca firmeza
    nos contornos de alguns caractéres, o menos bem travado do dialogo,
    imperfeições que nem sempre foi possivel remediar nesta nova
    edição, revelam a mão inexperiente. Na historia dos progressos
    litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe
    a liberdade do pensamento, e que o engenho pôde apparecer á luz
    do dia sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole,
    como estupida na sua applicação e esterilisadora nos seus effeitos;
    nessa historia, dizemos, esta nova edição deve ser julgada
    principalmente com attenção ao seu motivo, á prioridade das
    composições nella insertas, e á precisão em que, ao escreve-las,
    o auctor se via de crear a substancia e a fórma; porque para o
    seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos.

    A critica para ser justa não ha-de, porém, attender só a essas
    circumstancias: ha-de considerar também os resultados destas
    tentativas, que, a principio, é licito suppôr inspiraram outras
    analogas, como por exemplo os "Irmãos Carvajales" e "O que foram
    Portuguezes" do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria
    dos grandes talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições
    analogas de mais largas dimensões, e melhor delineadas e vestidas.
    Todos conhecem o "Arco de Sanct'Anna", cujo ultimo volume acaba
    de imprimir o primeiro poeta português deste seculo, o "Um ano na
    Côrte" do Sr. Corvo, cuja publicação se aproxima do seu termo, e
    o "Odio Velho Não Cansa" do Sr. Rebello da Silva, ensaio que, se
    as eloquencias parvoas e semsabores dos dicursos academicos não
    tivessem tornado indecentes as allusões mythologicas, se poderia
    comparar ao combate com o leão de Citheron, que revelou á Grecia
    no moço Hercules o futuro semideus; porque no Odio Velho começa
    a manifestar-se o auctor da "Mocidade de D. João V", romance de
    que já se imprimiram algumas paginas admiraveis, mas que na parte
    inedita, que é quasi tudo, nos promete um emulo de Walter-Scott.
    Emfim o "Conde de Castella" do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepção,
    posto que ainda incompleta, foi porventura inspirado pelo exemplo
    destas fracas tentativas, e das que, em dimensões maiores, o
    auctor emprehendeu no Eurico e no Monge de Cister. Caracter grave
    e austero, dignos dos tempos antigos, e que a providencia collocou
    em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos generos
    de corrupções, como uma condemnação muda; homem sobre tudo de
    sciencia e consciencia, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes
    eminentes para o campo do romance historico, onde ninguem, talvez,
    como elle poderia fazer a Portugal o serviço que DuMonteil fez
    á França, isto é, popularisar o estudo daquela parte da vida
    publica e privada dos seculos semi-barbaros, que não cabe no
    quadro da historia social e politica.

    Taes foram, entre outros, os mais importantes resultados da
    introduccão do genero. No meio deste amplo desenvolvimento de uma
    literatura nova no paiz, o auctor das seguintes paginas merecerá
    talvez desculpa de recordar que estes ensaios, inferiores ás
    publicações que se lhe seguiram, foram a sementinha d'onde proveio
    a floresta. Seja-lhe pois licito consolar-se na sua inferioridade
    com haver precedido na ordem dos tempos aquelles que, na affeição
    do publico, devem provavelmente faze-lo esquecer. Persuadido de
    ter por isso direito á indulgencia, resolveu-se a transportar
    para o livro aquillo que, considerado em si, não mereceria talvez
    sair nunca das columnas do fugitivo jornal, salvando assim, não
    escriptos cuja apreciação exija largas paginas na historia
    litteraria, mas um marco humilde e tosco, que, nesta especie de
    litteratura, indique o ponto d'onde se partiu.

    O ALCAIDE DE SANTARÉM (950–961)

    I

    O guadamellato é uma ribeira que, descendo das solidões mais
    agras da Serra Morena, vem através de um territorio montanhoso
    e selvatico desaguar no Guadalquivir pela margem direita, pouco
    acima de Cordova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma
    população numerosa: foi nas eras do dominio sarraceno em Hespanha.
    Desde o governo do amir Abul-Khatar o districto de Cordova fôra
    distribuido ás tribus árabes do Yemen e da Syria, as mais nobres
    e mais numerosas entre todas as raças da Africa e da Asia, que
    tinham vindo residir na Peninsula por occasião da conquista ou
    depois della. As familias que se estabeleceram naquellas encoslas
    meridionaes das longas serranias chamadas pelos antigos Montes
    Marianos, conservaram por mais tempo os hábitos erradios dos
    povos pastores. Assim no meiado decimo seculo, posto que esse
    districto fosse assás povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao
    de um deserto; porque nem se descortinavam por aquelles cabeços e
    valles vestigios alguns de cultura, nem alvejava um unico edificio
    no meio das collinas rasgadas irregularmente pelos algares das
    torrentes, ou cubertas de selvas bravias e escuras. Apenas um
    ou outro dia se enxergava na extrema de algum almargem virente a
    tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte não se encontraria
    alli, se porventura se buscasse.

    Havia, comtudo, povoações fixas naquelles ermos; havia habitações
    humanas, porém não de vivos. Os arabes collocavam os cemiterios
    nos logares mais saudosos dessas solidões, nos pendores meridionaes
    dos outeiros, onde o sol, ao pôr-se, estirasse de soslaio os seus
    ultimos raios pelas lagens lisas das campas, por entre os raminhos
    floridos das sarças açoutadas do vento. Era alli que, depois
    do vaguear incessante de muitos annos, elles vinham deitar-se
    mansamente uns ao pé dos outros, para dormirem o longo somno
    sacudido sobre as suas palpebras das asas do anjo Azrael.

    A raça arabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra
    familia humana, gostava de espalhar na terra aquelles padrões,
    mais ou menos sumptuosos, do captiveiro e immobilidade da morte,
    talvez para avivar mais o sentimento da sua independencia illimitada
    durante a vida.

    No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que
    subia das margens do Guadamellato para o nordeste, estava assentado
    um desses cemiterios pertencente á tribu Yemenita dos Beni-Homair.
    Subindo pelo riu, viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas
    como um vasto estendal, e tres unicas palmeiras, plantadas na corôa
    do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemiterio de al-tamarah.
    Transpondo o cabeço para o lado oriental, encontrava-se um desses
    brincos da natureza, que nem sempre a sciencia sabe explicar:
    era um cubo de granito de desconforme dimensão, que parecia ter
    sido posto alli pelos esforços de centenares d'homens, porque
    nada o prendia ao solo. Do cimo desta especie de atalaia natural
    descortinavam-se para todos os lados vastos horisontes.

    Era um dia á tarde: o sol descia rapidamente, e já as sombras
    principiavam do lado de léste a empastar a paisagem ao longe em
    negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular
    um arabe dos Beni-Homair, armado da sua comprida lança, volvia
    olhos attentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste:
    depois sacudia a cabeça com um signal negativo, inclinando-se
    para o lado opposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam
    alli tambem assentados em diversas posturas e em silencio, o
    qual só era interrompido por algumas palavras rapidas, dirigidas
    ao da lança, e a que elle respondia sempre do mesmo modo com o
    seu menear de cabeça.

    "Al-barr,"–disse por fim um dos sarracenos cujo trajo e gestos
    indicavam uma grande superioridade sobre os outros–"parece que
    o kaid de Chantoryu[1] esqueceu a sua injuria como o wali de
    Zarkosta[2] a sua ambição d'independencia; e até os partidários
    de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por
    meu pae, não podem acreditar que Abdallah realise as promessas
    que me induziste a fazer-lhes."

    "Amir-al-melek[3],"–replicou Al-barr–"ainda não é tarde: os
    mensageiros podem ter sido retidos por algum successo imprevisto.
    Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente
    no coração humano. Dize, Al-athar, não te juraram elles pela
    sancta Kaaba[4] que os enviados com a noticia da sua revolta e
    da entrada dos christãos chegariam hoje a este logar aprazado,
    antes do anoitocer?"

    "Juraram–respondeu Al-athar–; mas que fé merecem homens que
    não duvidam de quebrar as promessas solemnes feitas ao kalifa,
    e além d'isso de abrir o caminho aos infiéis para derramarem o
    sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido
    lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem
    as esperanças que pões nos tens occultos alliados. Oxalá não
    tivesse de tingir o sangue as ruas de Korthoba, e não houvera
    de ser o suppedaneo do throno que ambicionas o tumulo de teu
    irmão!"

    Al-athar cobriu a cara com as mãos, como se quizesse esconder a
    sua amargura. Abdallah parecia commovido por duas paixões oppostas.
    Depois de se conservar algum tempo em silencio, exclamou:

    "Se os mensageiros dos revoltosos não chegarem até o anoitecer,
    não falemos mais n'isso. Meu irmão Al-hakem acaba de ser reconhecido
    successor do kalifado: eu próprio o acceitei por futuro senhor
    poucas horas antes de vir ter comvosco. Se o destino assim o
    quer, faça-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus
    sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh[5] que não soubeste
    acabar, como aquella que debalde tentaste repetir na presença
    dos embaixadores do Frandjat[6], e que foi causa de cahires no
    desagrado de meu pae e de Al-hakem, e de conceberes esse odio
    que alimentas contra elles, o mais terrível odio deste mundo,
    o do amor próprio offendido."

    Ahmed Al-athar e o outro arabe sorriram ao ouvirem estas palavras
    de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-barr faiscaram de colera.

    "Pagas mal, Abdallah,–disse elle com a voz presa garganta–os
    riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais bello
    e poderoso império do Islam. Pagas com allusões affrontosas aos
    que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma corôa. És
    filho de teu pae! … Não importa. Só te direi que é já tarde
    para o arrependimento. Pensas acaso que uma conspiração sabida
    de tantos ficará occulta? No ponto a que chegaste, retrocedendo
    é que has-de encontrar o abysmo!"

    No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza.
    Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o príncipe
    da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Al-hakem. Um
    grito, porém, de atalaia o interrompeu. Ligeiro como relampago
    um vulto saíra do cemitério, galgára o cabeço, e se aproximára
    sem ser sentido: vinha involto n'um albornoz escuro, cujo capuz
    quasi lhe encobria as feições, vendo-se-lhe apenas a barba negra
    e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo, e
    arrancaram as espadas.

    Ao ver aquelle movimento, o que chegára não fez mais do que estender
    para elles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz:
    então as espadas abaixaram-se como se uma corrente electrica
    tivesse adormecido os braços dos quairo sarracenos. Al-barr
    exclamára:–"Muulin[7] o propheta! Muulin o sancto!…"

    "Muulin o peccador:–interrompeu o novo personagem–Muulin, o
    pobre fakih[8] penitente e quasi cego de chorar as proprias culpas
    e as culpas dos homens, mas a quem Deus por isso illumina ás
    vezes os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo
    dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição!
    Sereis satisfeitos! O senhor pesou na balança dos destinos a ti,
    Abdallah, e a teu irmão Al-hakem. Elle foi achado mais leve. A
    ti o throno; a elle o sepulchro. Está escripto. Vae; não pares
    na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kortheba. Entra no
    teu palacio Merwan; é o palacio dos kalifas da tua dynastia. Não
    foi sem mysterio que teu pae t'o deu por morada. Sobe ao sotam[9]
    da torre. Ahi acharás cartas do kaid de Chantarya, e dellas verás
    que nem elle, nem o wali de Zarkosta, nem os Beni-Hafsun faltam
    ao que te juraram!"

    "Sancto fakih–replicou Abdallab, crédulo como todos os musulmanos
    daquelles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado–creio o
    que dizes, porque nada para ti é occulto. O passado, o presente,
    o futuro domina-los com a tua intelligencia sublime. Asseguras-me
    o triumpho; mas o perdão do crime podes tu assegura-lo?"

    "Verme, que te crês livre!–atalhou com voz solemne o fakih.–Verme,
    cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frageis
    instrumentos nas mãos do destino, e que te crês auctor de um
    crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o
    guerreiro, pede ella acaso a Deus perdão do seu peccado? Atomo
    varrido pela colera de cima contra outro atomo, que vaes aniquilar,
    pergunta antes se nos thesouros do Misericordioso ha perdão para
    o orgulho insensato!"

    Fez então uma pausa. A noite descia rapida. Ao lusco-fusco ainda
    se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que
    apontava para as bandas de Cordova. Nesta postura a figura do
    fakih fascinava. Coando pelos lábios as syllabas, elle repeliu
    tres vezes:

    "Para Merwan!"

    Abdallah abaixou a cabeça, e partiu vagarosamente, sem olhar
    para traz. Os outros sarracenos seguiram-no. El-Muulin ficou só.

    Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Cordova; se vivesseis,
    porém, naquella epocha e o perguntasseis nessa cidade de mais
    de um milhão de habitantes, ninguem vo-lo saberia dizer. Era
    um mysterio a sua patria, a sua raça, donde viera. Passava a
    vida pelos cemiterios ou nas mesquitas. Para elle o ardor da
    canicula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se não existissem.
    Raras vezes se via que não fosse lavado em lagrymas. Fugia das
    mulheres como de um objecto de horror. O que, porém, o tornava
    geralmente respeitado, ou antes temido, era o dom de prophecia, o
    qual ninguem lhe disputava. Mas era um propheta terrivel, porque
    as suas predicções recahiam unicamente sobre futuros males. No
    mesmo dia em que nas fronteiras do imperio os christãos faziam
    alguma correria, ou destruiam alguma povoação, elle annunciava
    publicamente o successo nas praças de Cordova: qualquer membro
    da familia numerosa dos Beni-Umeyyas cahia debaixo do punhal de
    um assassino desconhecido, na mais remota provincia do imperio,
    ainda das do Moghreb ou Mauritania, na mesma hora, no mesmo instante
    ás vezes, elle o pranteava redobrando os seus choros habituaes.
    O terror que inspirava era tal, que no meio do maior tumulto
    popular a sua presença bastava para tudo caír em mortal silencio.
    A imaginação exaltada do povo tinha feito delle um sancto, sancto
    como o islamismo os concebia; isto é, um homem cujas palavras
    e aspecto gelavam de terror.

    Ao passar por elle, Al-barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em
    voz quasi imperceptivel:

    "Salvaste-me!"

    O fakih deixou-o affastar, e fazendo um gesto de profundo despreso,
    murmurou:

    "Eu?! Eu teu cumplice, miseravel?!"

    Depois, alevantando ambas as mãos abertas para o ar, começou
    a agitar os dedos rapidamente, e rindo com um rir sem vontade,
    exclamou:

    "Pobres titeres!"

    Quando se fartou de representar com os dedos a idéa de escarneo
    que lhe sorria lá dentro, dirigiu-se, ao longo do cemiterio,
    tambem para as bandas de Cordova, mas por diverso atalho.

    [1] Santarem.

    [2] Governador do Districto de Saragoça.

    [3] Principe real.

    [4] O famoso templo de Mekka.

    [5] Poema de trinta versos, muito usado entre os arabes,
    e que correspondia de certo muilo ás nossas odes.

    [6] Os reinos christãos além dos Pyreneus.

    [7] Muulin significa o triste.

    [8] Fakih ou faquir, especie de frade mendicante entre
    os musulmanos.

    [9] Sotuko–o andar mais alto. Os nossos escriptores
    tomavam esta palavra n'um sentido evidentemente errado, servindo-se
    delia para indicar o aposento inferior ou térreo.

    II

    Nos paços de Azzahrat, o magnifico alcaçar dos kalifas de Cordova,
    ha muitas horas que cessou o estrepito de uma grande festa. O
    luar de noite serena d'abril bate pelos jardins que se dilatam
    desde o alcaçar até o Guad-al-kébir, e alveja tremulo pelas fitas
    cinzentas dos caminbos tortuosos, em que parecem enredados os
    bosquesinhos de arbustos, os macissos de arvores silvestres, as
    veigas de flores, os vergeis embalsamados, onde a larangeira, o
    limoeiro, e as demais arvores fructiferas, trazidas da Persia, da
    Syria e do Cathay, espalham os aromas variados das suas flores.
    Lá ao longe Cordova, a capital da Hespanha mussulmana, repousa
    da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o illustre
    kalifa, véla pela segurança do imperio. A vasta cidade repousa
    profundamente; e o ruído mal distincto que parece revoar por
    cima della, é apenas o respiro lento dos seus largos pulmões,
    o bater regular das suas robustas arterias. Das almadenas de
    seiscentas mesquitas não soa uma unica voz de almuhaden, e os
    sinos das igrejas mosarabes guardam tambem silencio. As ruas,
    as praças, os azokes, ou mercados, estão desertos. Sómente o
    murmurio das novecentas fontes ou banhos publicos, destinados
    ás abluções dos crentes, ajuda o zumbido nocturno da sumptuosa
    rival de Bagdad.

    Que festa fôra essa que expirára algumas horas antes de nascer
    a lua, e de tingir com a brancura pallida de sua luz aquelles
    dois vultos enormes de Azzahrat e de Cordova, que olhavam um
    para o outro, a cinco milhas de distancia, como dois phantasmas
    gigantes involtos em largos sudarios? Na manhan do dia que findára,
    Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fôra associado ao
    throno. Os walis, wasires e khatehs da monarchia dos Beni-Umeyyas
    tinham vindo reconhece-lo Wali-al-ahdi; isto é, futuro kalifa
    do Andalús e do Moghreb. Era uma idéa affagada longamente pelo
    velho principe dos crentes que se realisára, e o jubilo de
    Abdu-r-rahman se havia espraiado n'uma dessas festas, por assim
    dizer fabulosas, que só sabia dar no seculo decimo a côrte mais
    polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno
    de Hespanha.

    O palacio Merwan, juncto dos muros de Cordova, distingue-se á
    claridade duvidosa da noite pelas suas fórmas macissas e
    rectangulares, e a sua côr tisnada, bafo dos seculos que entristece
    e sanctifica os monumentos, contrasta com a das cupulas aereas e
    douradas dos edificios, com a das almadenas esguias e leves das
    mesquitas, e com a dos campanarios christãos, cuja tez docemente
    pallida suavisa ainda mais o brando raio de luar que se quebra
    naquelles estreitos pannos de pedra branca, d'onde não se reflecte,
    mas cabe na terra preguiçoso e dormente. Como Azzahrat e como
    Cordova, calado e apparentemente tranquillo, o palacio Merwan,
    a antiga morada dos primeiros kalifas, suscita idéas sinistras,
    emquanto o aspecto da cidade e da villa imperial unicamente inspiram
    um sentimento de quietação e paz. Não é só a negridão das suas vastas
    muralhas a que produz essa apertura do coração que experimenta
    quem o considera assim solitario e carrancudo; é tambem o clarão
    avermelhado que resumbra da mais alta das raras frestas abertas
    na face exterior da sua torre albarran, a maior de todas as que
    o cercam, a que atalaia a campanha. Aquella luz, no ponto mais
    elevado do grande e escuro vulto da torre, é como um olho de
    demonio, que contempla colerico a paz profunda do imperio, e que
    espera ancioso o dia em que renasçam as luctas e as devastações
    de que por mais de dois seculos fôra theatro o solo ensanguentado
    de Hespanha.

    Alguem véla, talvez, no paço de Merwan. No de Azzahrat, posto que
    nenhuma luz bruxulêe nos centenares de varandas, de miradouros,
    de porticos, de balcões, que lhe arrendam o immenso circuito,
    alguem véla por certo.

    A sala denominada do Kalifa, a mais espaçosa entre tantos aposentos
    quantos encerra aquelle rei dos edificios, devêra a estas horas
    mortas estar deserta, e não o está. Dois lampadarios de muitos
    lumes pendem dos artesões primorosamente lavrados, que, cruzando-se
    em angulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e
    ouro, que reveste as paredes e o tecto. A agua de fonte perenne
    murmura cahindo n'um tanque de marmore construido no centro do
    aposento, e no topo da sala ergue-se o throno de Abdu-r-rahman,
    alcatifado dos mais ricos tapetes do paiz de Fars. Abdu-r-rahman
    está ahi sósinho. O kalifa passeia de um para outro lado, com
    olhar inquieto, e de instante a instante pára e escuta, como
    se esperasse ouvir um ruído longinquo. No seu gesto e meneios
    pinta-se a mais viva anciedade; porque o unico ruído que lhe
    fere os ouvidos é o dos proprios passos sobre o xadrez variegado,
    que fórma o pavimento da immensa quadra. Passado algum tempo,
    uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do
    throno, abre-se lentamente, e um novo personagem apparece. No rosto
    de Abdu-r-rahman, que o vê aproximar, pinta-se uma inquietação
    ainda mais viva.

    O recem-chegado offerecia notavel contraste no seu gesto e vestiduras
    com as pompas do logar em que se introduzia, e com o aspecto
    magestoso de Abdu-r-rahman, ainda bello apesar dos annos e das
    cans que começavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba
    negra. Os pés do que entrára apenas faziam um rumor sumido no
    chão de marmore. Vinha descalço. A sua aljarabia ou tunica era
    de lan grosseiramente tecida, o cincto uma corda de esparto.
    Divisava-se-lhe, porém, no despejo do andar e na firmeza dos
    movimentos que nenhum espanto produzia nelle aquella magnificencia.
    Não era velho; e todavia a sua tez tostada pelas injurias do tempo
    estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os
    olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pé do kalifa,
    que ficára immovel, cruzou os braços e poz-se a contempla-lo
    calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silencio:

    "Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando
    annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua
    é sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em
    Azzahrat senão para me saciares de amargura; mas apesar disso eu
    não deixarei de abençoar a tua presença, porque Algafir–dizem-no
    todos e eu o creio–é um homem de Deus. Que vens annunciar-me,
    ou que pretendes de mim?"

    "Amir-al-muminin[1], que póde pretender de ti um homem cujos
    dias se passam á sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas
    noites de oração basta por abrigo o portico de um templo; cujos
    olhos tem queimado o chôro, e que não esquece um instante que tudo
    neste desterro, a dôr e o goso, a morte e a vida, está escripto
    lá em cima? Que venho annunciar-te?!… O mal; porque só mal ha
    na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos,
    entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto é, entre
    os seus eternos e implacaveis inimigos!"

    "Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!… Cumpra-se a vontade
    de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso,
    vencedor e respeitado; todas as minhas ambições tem sido satisfeitas,
    todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira
    de gloria e prosperidade só fui inteiramente feliz quatorze dias
    da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo
    acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e
    em que já o tinha escripto?"

    "Pódes apaga-lo:–replicou o rude fakih–pódes, até, rasgar
    todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! vês estas
    faces sulcadas pelas lagrymas? vês estas palpebras requeimadas
    por ellas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se em breve as
    tuas palpebras e as tuas faces não estão semelhantes ás minhas."

    O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman:
    os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na côr, tomaram a
    terrivel expressão que elle costumava dar-lhes no revolver dos
    combates, olhar esse que só por si fazia recuar os inimigos. O
    fakih não se moveu, e poz-se a olhar também para elle fito.

    "Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas póde chorar arrependido
    de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo
    desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que
    mentiu!"

    Os cantos da bôca de Al-gafir encresparam-se com um quasi
    imperceptivel sorriso. Houve um largo espaço de silencio.
    Abdu-r-rahman não o interrompeu: o fakih proseguiu:

    "Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem,
    o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah,
    o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?"

    "Oh,–replicou o kalifa sorrindo–já sei o que me queres dizer.
    Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo…
    Os christãos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do
    oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer já depoz a espada victoriosa,
    e crês necessario expôr a vida de um delles aos golpes dos infiéis.
    Vens prophetisar-me a morte do que partir. Não é isto? Fakih,
    creio em ti, que és acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na
    estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro
    não hesitaria na escolha: fôra esse que eu mandára, não á morte,
    mas ao triumpho. Se, porém, essas são as tuas previsões, e ellas
    tem de realisar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte
    posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em
    al-djihed[3] contra os infiéis?"

    Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia.
    Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta:

    "Kalifa, qual amas tu mais dos teus dous filhos?"

    "Quando a imagem pura e sancta do meu bom Al-hakem se me representa
    no espirito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo
    o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e intelligente do meu
    Abdallah, amo-o mais a elle. Como te posso eu, pois, responder,
    fakih?"

    "E todavia é necessário que escolhas, hoje mesmo, neste momento,
    entre um e outro. Um delles deve morrer na próxima noite,
    obscuramente, nestes paços, aqui mesmo talvez, sem gloria, debaixo
    do cutello do algoz, ou do punhal do assassino."

    Abdu-r-rahman recuára ao ouvir estas palavras: o suor começou
    a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma
    firmeza fingida, sentíra apertar-se-lhe o coração desde que o
    fakih começára a falar. A reputação d'illuminado de que gosava
    Al-muulin, o caracter supersticioso do kalifa, e mais que tudo o
    haverem-se verificado todas as negras prophecias que n'um longo
    decurso de annos elle lhe fizera, tudo contribuia para atterrar
    o principe dos crentes. Com voz trémula replicou:

    "Deus é grande e justo. Que lhe fiz eu para me condemnar no fim
    da vida a perpetua afflicção, a ver correr o sangue de meus filhos
    queridos ás mãos da deshonra ou da perfidia?"

    "Deus é grande e justo,–interrompeu o fakih.–Acaso nunca fizeste
    correr injustamente o sangue? Nunca por odio brutal despedaçaste
    de dôr nenhum coração de pae, de irmão, de amigo?"

    Al-muulin tinha carregado na palavra irmão com um accento singular.
    Abdu-r-rahman, possuido de mal refreiado susto, não attentou por
    isso.

    "Posso eu acreditar uma tão estranha, direi antes tão incrivel
    prophecía–exclamou elle por fim–sem que me expliques o modo
    por que se deve realisar esse terrivel successo; e como ha-de o
    ferro do assassino ou do algoz vir dentro dos muros de Azzahrat
    verter o sangue de um dos filhos do kalifa de Korthoba, cujo nome,
    seja-me licito dize-lo, é o terror dos christãos, e a gloria do
    islamismo?"

    Al-muulin tomou um ar imperioso e solemne, estendeu a mão para
    o throno, e disse:

    "Assenta-te, kalifa, no teu throno, e escuta-me, porque em nome
    da futura sorte do Andalus, da paz e da prosperidade do imperio,
    e das vidas e do repouso dos mussulmanos eu venho denunciar-te um
    grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te
    um filho. Successor do propheta, iman[4] da divina religião do
    Koran, escuta-me, porque é obrigação tua ouvir-me."

    O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o
    negro mysterio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado
    a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Machinalmenlte
    subiu ao throno, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que
    elle rematava, e encostando ao punho o rosto demudado, disse
    com voz presa:–"Pódes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-gafir!"

    Tomando então uma postura humilde, e cruzando os braços sobre
    o peito, Al-gafir o triste começou da seguinte maneira a sua
    narrativa.

    [1] Principe dos crentes, titulo correspondente ao de
    kalifa.

    [2] Historico

    [3] Guerra-sancta

    [4] Pontifice. Os kalifas reuniam em si o summo imperio,
    e o summo pontificado.

    III

    "Kalifa!–começou Al-muulin–tu és grande; tu és poderoso. Não
    sabes o que é a affronta ou a injustiça cruel que esmaga o coração
    nobre e energico, se este não póde repelli-la, e sem demora, com
    o mal ou com a affronta, vinga-la á luz do sol! Tu não sabes o
    que então se passa na alma desse homem, que por todo o desaggravo
    deixa fugir alguma lagryma furtiva, e até, ás vezes, é obrigado
    a beijar a mão que o feriu nos seus mais sanctos affectos. Não
    sabes o que isto é; porque todos os teus inimigos tem cahido
    diante do alfange do almogaure, ou deixado tombar a cabeça de
    cima do cêpo do algoz. Ignoras por isso o que é o odio; o que
    são essas solidões tenebrosas, por onde o resentimento, que não
    póde vir ao gesto, se dilata e vive á espera do dia da vingança.
    Dir-to-hei eu. Nessa noite immensa, em que se involve o coração
    chagado, ha uma luz sanguinolenta que vem do inferno, e que allumia
    o espirito vagabundo. Ha ahi terriveis sonhos, em que o mais
    rude e ignorante descobre sempre um meio de desaggravo. Imagina
    como será facil aos altos entendimentos o encontra-lo! É por
    isso que a vingança, que parecia morta e esquecida, apparece ás
    vezes inesperada, tremenda, irresistivel, e morde-nos surgindo
    debaixo dos pés como a vibora, ou despedaça-nos como o leão pulando
    d'entre os juncaes. Que lhe importa a ella a magestade do throno,
    a sanctidade do templo, a paz domestica, o ouro do rico, o ferro
    do guerreiro? Mediu as distancias, calculou as difficuldades,
    meditou no silencio, e riu-se de tudo isso!"

    E Al-gafir o triste desatou a rir ferozmente, Abdu-r-rahman olhava
    para elle espantado.

    "Mas–proseguiu o fakih–ás vezes Deus suscita um dos seus servos,
    um dos seus servos de animo tenaz e forte, possuido tambem de
    alguma idéa occulta e profunda, que se alevante, e rompa a trama
    urdida nas trévas. Este homem no caso presente sou eu. Para bem?
    Para mal?–Não sei; mas sou! Sou eu que, venho revelar-te como se
    prepara a ruina do teu throno, e a destruição da tua dynastia."

    "A ruina do meu throno?–gritou Abdur-r-rahman pondo-se em pé e
    levando a mão ao punho da espada.–Quem, a não ser algum louco,
    imagina que o throno dos Beni-Umeyyas póde, não digo desconjunctar-se,
    mas apenas vacilar debaixo dos pés de Abdu-r-rahman? Quando, porém,
    falarás enfim claro, Al-muulin?"

    E a colera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual
    impassibilidade o fakih proseguiu:

    "Esqueces-te, kalifa, da tua reputação de prudencia e longanimidade.
    Pelo propheta! Deixa divagar um velho tonto como eu … Não!…
    Tens razão … Basta! O raio que fulmina o cedro desce rapido do
    céu. Quero ser como elle … Amanhan a estas horas o teu filho
    Abdallah ter-te-ha já privado da corôa para a cingir na propria
    fronte, e o teu successor Al-hakem terá perecido sob um punhal
    d'assassino. Ainda te encolerisas? Foi acaso demasiado extensa
    a minha narrativa?"

    "Infame!–exclamou Abdu-r-rahman–Hypocrita, que me tens enganado!
    Tu ousas calumniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue ha-de correr,
    mas é o teu. Crias que com essas visagens d'inspirado, com esses
    trajos de penitencia, com essa linguagem dos sanctos poderias
    quebrar a affeição mais pura, a de um pae? Enganas-te, Al-gafir!
    A minha reputação de prudente, verás que era bem merecida."

    Dizendo isto o kalifa ergueu as mãos como quem ia a bater as
    palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o
    menor indicio de perturbação ou terror.

    "Não chames ainda os eunuchos; porque assim é que dás provas
    de que não a merecias. Conheces que me seria impossivel fugir.
    Para matar ou morrer sempre é tempo. Escuta, pois, o infame, o
    hypocrita até o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e
    altivo Abdallah? Bem sabes que elle é incapaz de mentir a seu
    amado pae, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades
    possiveis."

    O fakih desatára de novo n'um rir trémulo e hediondo. Metteu
    a mão no peitilho da aljarabia e tirou uma a uma muitas tiras
    de pergaminho: pô-las sobre a cabeça e entregou-as ao kalifa,
    que começou a lêr com avidez. A pouco e pouco Abdu-r-rahman foi
    empallidecendo, as pernas vergaram-lhe, e por fim deixou-se cahir
    sobre os coxins do throno, e cobrindo a cara com as mãos,
    murmurou:–"Meu Deus! porque te mereci isto!"

    Al-muulin fitára nelle um olhar de girifalte, e nos labios
    vagueava-lhe um riso sardonico e quasi imperceptivel.

    Os pergaminhos eram varias cartas dirigidas por Abdallah aos
    rebeldes das fronteiras do oriente, os Beni-Hafsun, e a diversos
    cheiks berebéres, dos que se haviam domiciliado na Hespanha,
    conhecidos pelo seu pouco affecto aos Beni-Umeyyas. O mais
    importante, porém, de tudo era uma extensa correspondencia com
    Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro celebre e antigo alcaide de Santarem,
    que por graves offensas passára ao serviço dos christãos de Oviedo
    e Asturias com muitos cavalleiros illustres da sua clientela.
    Esta correspondencia era completa de parte a parte. Por ella se
    via que Abdallah contava não só com os recursos dos mussulmanos
    seus parciaes, mas tambem com importantes soccorros dos infiéis
    por intervenção de Umeyya. A revolução devia rebentar em Cordova
    pela morte de Al-hakem e pela deposição de Abdu-r-rahman. Uma parte
    da guarda do alcaçar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que
    figurava muito nestas cartas, seria o hadjeb ou primeiro ministro
    do novo kalifa. Alli se liam, emfim, os nomes dos principaes
    personagens implicados na revolta, e todas as circumstancias
    desta eram explicadas ao antigo alcaide de Santarém com aquella
    individuação que nas suas cartas elle constantemente exigia.
    Al-muulin falára verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de
    si a longa teia da conspiração, escripta com letras de sangue
    pela mão de seu proprio filho.

    Durante algum tempo o kalifa conservou-se como a estatua da dôr
    na postura que tomára. O fakih olhava fito para elle com uma
    especie de cruel complacencia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu
    o silencio: o principe Beni-Umeyya, esse parecia ter perdido o
    sentimento da vida.

    "É tarde:–disse o fakih.–Chegará em breve a manhan. Chama os
    eunuchos. Ao romper do sol a minha cabeça pregada nas portas
    de Azzahrat deve dar testemunho da promptidão da tua justiça.
    Elevei ao throno de Deus a ultima oração, e estou apparelhado
    para morrer, eu o hypocrita, eu o infame, que pretendia lançar
    sementes de odio entre ti e teu virtuoso filho. Kalifa, quando
    a justiça espera não são boas horas para meditar ou dormir."

    Al-gafir retomava a sua habitual linguagem sempre ironica e
    insolente, e ao redor dos labios vagueava-lhe de novo o riso mal
    reprimido.

    A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas
    cogitações. Poz-se em pé. As lagrymas haviam corrido por aquellas
    faces, mas estavam enxutas. A procella de paixões encontradas
    tumultuava lá dentro; mas o gesto do principe dos crentes recobrára
    apparente serenidade. Descendo do throno pegou na mão mirrada
    de Al-muulin, e apertando-a entre as suas, disse:

    "Homem que guias teus passos pelo caminho do céu; homem acceito
    ao propheta, perdoa as injurias de um insensato! Cria ser superior
    á fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas
    tu esquece-lo! Agora estou tranquillo … bem tranquillo …
    Abdallah, o traidor que era meu filho, não concebeu tão atroz
    designio. Alguém lh'o inspirou: alguem verteu naquelle animo
    soberbo as vans e criminosas esperanças de subir ao throno por
    cima do meu cadaver e do de Al-hakem. Não desejo sabe-lo para
    o absolver; porque elle já não póde evitar o destino fatal que
    o aguarda. Morrerá; que antes de ser pae fui kalifa, e Deus
    confiou-me no Andalus a espada da suprema justiça. Morrerá; mas
    hão-de acompanha-lo todos os que o precipitaram no abysmo."

    "Ainda ha pouco te disse–replicou Al-gafir–o que pôde inventar o
    ódio que é obrigado a esconder-se debaixo do manto da indifferença,
    e até da submissão. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu offendeste
    no seu amor proprio de poeta, e que expulsaste de Azzahrat como um
    homem sem engenho nem saber, quiz provar-te que ao menos possuia o
    talento de conspirador. Foi elle que preparou este terrivel successo.
    Has-de confessar que se houve com destreza. Só n'uma cousa não:
    em pretender associar-me aos seus designios. Associar-me? …
    não digo bem … fazer-me seu instrumento … A mim! … Queria
    que eu te apontasse ao povo como um impio pelas tuas allianças
    com os amires infiéis do Frandjat. Fingi estar por tudo; e chegou
    a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as
    mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o alliado
    dos christãos, o antigo kaid de Chantaryin. Foi assim que pude
    colligir estas provas de conspiração. Loucos! as suas esperanças
    eram a miragem do deserto… Dos seus alliados apenas os de Zarkosta
    e das montanhas de Al-kibla não foram um sonho. As cartas de
    Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia[1], tudo era
    feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra
    de Umeyya, esse é um segredo que depois de tantas revelações, tu
    deixarás, kalifa, que eu guarde para mim … Oh, os insensatos!
    os insensatos!"

    E desatou a rir.

    A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolução, que ameaçava
    trazer á Hespanha mussulmana todos os horrores da guerra civil,
    devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessário
    afoga-la em sangue. O longo habito de reinar, juncto ao caracter
    energico de Abdu-r-rahman, fazia com que nestas crises elle
    desenvolvesse de um modo admiravel todos os recursos que o genio
    amestrado pela experiencia lhe suggeria. Recalcando no fundo do
    coração a cruel lembrança de que era um filho que ia sacrificar
    á paz e á segurança do império, o kalifa despediu Al-muulin, e
    mandando immediatamente reunir o divan deu largas instrucções
    ao chefe da guarda dos slavos. Ao romper da manhan todos os
    conspiradores que residiam em Cordova estavam presos, e muitos
    mensageiros tinham partido levando as ordens de Ahdu-r-rahman
    aos walis das provincias e aos generaes das fronteiras. Apesar
    das lagrymas e rogos do generoso Al-hakem, que luctou tenazmente
    por salvar a vida de seu irmão, o kalifa mostrou-se inflexivel.
    A cabeça de Abdallah cahiu aos pés do algoz na propria camara do
    principe no palacio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra
    em que o tinham lançado, evitou assim o supplicio.

    O dia immediato á noite em que se passou a scena entre Abdu-r-rahman
    e Al-gafir, que tentamos descrever, foi um dia de sangue para
    Cordova, e de lucto para muitas das mais illustres famílias.

    [1] Os árabes designavam os reis de Oviedo e Leão pelo
    titulo de reis de Galliza.

    IV

    Era pelo fim da tarde. N'uma alcova do palacio de Azzahrat via-se
    reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrah,
    ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de pelles alvissimas,
    faziam sobre-saír as feições enrugadas, a pallidez do rosto, o
    encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todas as características
    do de um cadaver. Pela immobilidade dir-se-hia que era uma destas
    mumias que se encontram pelas catacumbas do Egypto, apertadas
    entre as cem voltas das suas faixas mortuarias, e inteiriçadas
    dentro dos sarcophagos de pedra. Um unico signal revelava a vida
    néssa grande ruina de um homem grande; era o movimento da barba
    longa e ponteaguda que se lhe estendia como um cone de neve tombado
    sobre o peitilho da tunica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o
    illustre kalifa dos mussulmanos do occidente, jazia ahi e falava
    com outro velho, que, em pé defronte delle, o escutava attentamente;
    mas a sua voz saia tão fraca e lenta, que, apesar do silencio
    que reinava no aposento, só na curta distancia a que estava o
    outro velho se poderiam perceber as palavras do kalifa.

    O seu interlocutor é uma personagem que o leitor conhecerá apenas
    reparar no modo por que está trajado. A sua vestidura é uma aljarabia
    de burel cingida de uma corda de esparto. Ha muitos annos que
    nisto cifrou todos os commodos que acceita á civilisação. Está
    descalço, e a grenha hirsuta e já grisalha cahe-lhe sobre os
    hombros em madeixas revoltas e emmaranhadas. A sua tez não é
    pallida, os seus olhos não perderam o brilho, como a tez e como
    os olhos de Abdu-r-rahman. Naquella, coriacea e crestada, domina
    a côr mixta de verdenegro e amarello do ventre de um crocodilo;
    nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixões
    ardentes, que lhe sussurram dentro d'alma como a lava prestes a
    jorrar do volcão que ainda parece dormir. É Al-muulin, o sancto
    fakih, que vimos salvar, onze annos antes, o kalifa e o imperio
    da intentada revolução de Abdallah.

    Tinham de feito passado onze annos desde os terriveis successos
    acontecidos naquella noite em que Al-muulin descobríra a conspiração
    que se urdia, e desde então nunca mais se víra Abdu-r-rahman
    sorrir. O sangue de tantos mussulmanos vertido pelo ferro do
    algoz, e sobretudo o sangue de seu proprio filho descêra como
    a maldicção do propheta sobre a cabeça do principe dos crentes.
    Entregue a melancholia profunda, nem as novas de victorias, nem
    a certeza do estado florescente imperio o podiam distrahir della
    senão momentaneamente. Encerrado durante os ultimos tempos da
    vida no palacio de Azzahrat, a maravilha d'Hespanha, abandonára
    os cuidados do governo ao seu successor Al-hakem. Os gracejos da
    escrava Nuirat-eddia, a conversação instructiva da bella Ayecha,
    e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o unico allivio que adoçava
    a existencia aborrida do velho leão do islamismo. Mas apenas
    Al-gafir o triste se apresentava perante o kalifa, elle fazia
    retirar todos, e ficava encerrado horas e horas com este homem,
    tão temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas
    doutrinas, prégadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo.
    Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e,
    ao vê-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho principe os
    sentimentos oppostos do terror e do affecto, como se metade da
    sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquelle homem, e a
    outra metade o repellisse com repugnancia invencivel. O mysterio
    que havia entre ambos ninguem o podia entender.

    E todavia a explicação era bem simples: estava no caracter
    extremamente religioso do kalifa, na sua velhice e no seu passado
    de principe absoluto, situação em que são faceis grandes virtudes
    e grandes crimes. Habituado á lisonja, a linguagem aspera e
    altivamente sincera de Al-muulin tivera a principio o attractivo de
    ser para elle inaudita; depois a reputação de virtude de Al-gafir,
    a crença de que era um propheta, a maneira por que, para o salvar
    e ao imperio, arrostára com a sua colera, e provára desprezar
    completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman
    visse nelle, como o mais credulo dos seus subditos, um bomem
    predestinado, um verdadeiro sancto. Sentindo avizinhar a morte,
    Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era
    como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvação até o
    throno de Deus. Cifrava-se nelle a esperança de um futuro incerto,
    que não podia tardar, e assim o espirito do monarcha, enfraquecido
    pelos annos, estudava anciosamente a minima palavra, o menor gesto
    de Al-muulin; prendia-se ao monge mussulmano como a hera antiga ao
    carvalho, em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vae trepando
    para o ceu. Mas, ás vezes, Al-gafir repugnava-lhe. No meio das
    expansões mais sinceras, dos mais ardentes vôos de uma piedade
    profunda, de uma confiança inteira na misericordia divina, o Fakih
    fitava de repente nelle os olhos scintilantes, e com sorriso
    diabolico vibrava uma phrase ironica, insolente e desanimadora,
    que ía gelar no coração do kalifa as consolações da piedade, e
    despertar remorsos e terrores, ou completa desesperação. Era um
    jogo terrivel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o
    palpitar dos membros da rez que se lhe agita moribunda entre as
    garras sanguentas. Nessa lucta infernal em que lhe trazia a alma
    estava o segredo da attracçâo e repugnancia, que ao mesmo tempo o
    velho monarcha mostrava para com o fakih, cujo apparecimento em
    Azzahrat cada vez se tornava mais frequente, e agora se renovava
    todos os dias.

    A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do
    oeste, e deixavam de quando em quando passar um raio afogueado
    do sol que se punha. O vento tepido, humido e violento fazia
    ramalhar as arvores dos jardins que circumdavam os aposentos de
    Abdu-r-rahman. As folhas, retinctas já de um verde amarellado
    e mortal, desprendiam-se das tranças das romeiras, dos sarmentos
    das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam,
    e, remoinhando nas correntes da ventania, íam, íam, até rastejar
    pelo chão e empeçar na grama sêcca dos prados. O kalifa, exhausto,
    sentia aquelle ciclo da vegetação moribunda chama-lo tambem para
    a terra, e a melancholia da morte pesava-lhe sobre o espirito.
    Al-muulin durante a conversação daquella tarde havia-se mostrado,
    contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras
    havia o que quer que era accorde com a tristeza que o rodeava.

    "Conheço que se aproxima a hora fatal:–dizia o kalifa.–Nestas
    veias em breve se gelará o sangue; mas, sancto fakih, não me será
    licito confiar na misericordia de Deus? Derramei o bem entre
    os mussulmanos, o mal entre os infiéis: fiz emmudecer o livro
    de Jesus perante o de Mohammed; e deixo a meu filho um throno
    firmado no amor dos subditos e na veneração e temor dos inimigos
    da dynastia dos Beni-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer
    pela gloria do Islam. Que mais pretendes?–Porque não tens nos
    labios para o pobre moribundo senão palavras de terror?–Porque ha
    tantos annos me fazes beber gole a gole a taça da desesperação?"

    Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado
    fulgor, e um daquelles sorrisos diabolicos, com que costumava
    fazer gelar todas as ardentes idéas mysticas do principe, lhe
    assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento
    o do velho monarcha, onde de feito já vagueavam as sombras da
    morte: depois dirigiu-se á porta da camara, assegurou-se bem
    de que não era possivel abrirem-na exteriormente, e voltando
    para ao pé do almatrah, tirou do peitilho um rôlo de pergaminho,
    e começou a ler em tom de indizivel escarneo:

    "Resposta de Al-gafir o triste ás ultimas perguntas do poderoso
    Abdu-r-rahman, oitavo kalifa de Cordova, o sempre vencedor,
    justiceiro e bemaventurado entre todos os principes da raça dos
    Beni-Umeyyas. Capitulo avulso da sua historia."

    Um rir prolongado seguiu a leitura do titulo do manuscripto.
    Al-muulin continuou:

    "No tempo deste celebre, virtuoso, illustrado e justiceiro monarcha
    havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do
    propheta, e que não sabia torcer por humanos respeitos a voz
    da sua consciencia. Chamava-se Mohammed-Ibn-Ishak, e era irmão
    de Umeyya-Ibn-Ishak, kaid de Chantaryn, um dos guerreiros mais
    illustres do Islam, segundo diziam."

    "Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe
    falava verdade, e rebatia as adulações dos seus lisongeiros.
    Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed
    converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu
    n'uma sentença de morte. A cabeça do ministro cahiu no cadafalso,
    e a sua memoria passou á posteridade manchada pela calumnia.
    Todavia o principe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um
    innocente."

    As feições transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressão
    horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pôde fazer um signal
    como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

    "Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado
    te allivia e revoca á vida. Continuarei. Podesse eu prolongar
    assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

    "Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão,
    ficou como insensato. Á saudade ajunctava-se o horror do ferrete
    posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu
    as supplicas mais vehementes ao príncipe dos fiéis para que ao
    menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se
    que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir…!
    Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

    E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada.
    O moribundo arrancou um gemido.

    "Estás um pouco melhor … não é verdade, invencivel kalifa?
    Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro
    que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de
    Al-djuf não se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha
    passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas até o
    Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid
    de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leaes este
    ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb até Merida.
    Foi uma esplendida festa; um sacrifício digno da memoria de seu
    irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu
    em torrentes."

    "Pouco a pouco Umeyya começou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem
    o offendêra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingança fôra
    a de uma besta-féra; fôra estúpida e van. Ao kalifa, quasi sempre
    victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de
    Chantaryn mudou então de systema. A guerra publica e inutil
    converteu-a em perseguição occulta e efficaz: á forca oppoz a
    destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas.
    Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer á luz do dia ninguém
    o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda
    de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros
    e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o
    sol dos desertos. Corrêra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por
    toda a parte os thesouros da sua família e os próprios thesouros
    até o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos
    fiéis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos
    porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos
    em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca
    do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde
    esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto
    fakih…"

    Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera
    um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficára
    sentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o
    sangue escumou-lhe nos labios, e só pôde murmurar já quasi
    inintelligivelmente:

    "Maldicto!"

    "Boa cousa é a historia,–proseguiu o seu algoz sem mudar de
    postura–quando nos recordâmos do nosso passado, e não achâmos lá
    para colher um único espinho de remorso! É o teu caso, virtuoso
    principe! Mas sigamos ávante. O sancto fakih Al-muulin foi quem
    instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu
    Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu
    animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos;
    quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto ás
    portas do inferno que se foste o assassino de seu irmão, tambem
    o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu
    nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctará o de tyranno. Ouve
    pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos.
    Ouve, ouve, kalifa!"

    Al-gafir, ou antes Umeyya, levantára gradualmente a voz, e estendia
    os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos
    reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos,
    e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo.
    A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena não seria
    facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto.

    Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante
    do cadaver era a expressão mais energica da atrocidade de coração
    vingativo.

    "Oh, se não ouviria as minhas derradeiras palavras!…"–murmurou
    o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se
    depois a scismar largo espaço: as lagrymas rolavam-lhe a quatro
    e quatro pelas faces rugosas.–"Um anno mais de tormentos, e
    ficava satisfeito!–exclamou por fim.–Podéra eu dilatar-lhe a
    vida!"

    Dirigiu-se então para a porta, abriu-a de par em par e bateu as
    palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto
    pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin
    parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta
    e grave disse:

    "Orae ao propheta pelo repouso do kalifa."

    Houve quem o visse saír, quem á luz baça do crepusculo o visse
    tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das
    lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa.
    Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ninguém mais o viu desde
    aquelle dia.

    ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)

    A Arraya-Miuda

    O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé
    a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de
    casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e
    comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa,
    pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as
    luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam
    como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a
    hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos,
    a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa
    e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da
    capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o
    completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o
    paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao
    mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de
    passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido
    agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse
    mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia
    que vem após a procella.

    E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por
    seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado,
    quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho
    Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua
    que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima
    dos paços do concelho.

    A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal
    ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lançarote
    Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se
    dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa,
    não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados
    nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um
    aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e
    muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo
    aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi,
    em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de
    ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario
    dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e
    poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que
    roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal,
    segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

    Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do
    corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia
    da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante
    estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para
    produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse;
    mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que
    elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos
    milagres em tudo analogos a este.

    Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida
    vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta
    da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam
    pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como
    em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se,
    estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante
    fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que
    trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um
    tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás
    vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e
    blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava
    aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente
    a colera popular.

    Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje,
    colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

    Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa
    de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos
    lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras
    ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes
    individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o
    vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se
    revelava nos seus coromens de panno d'Arrás, nos cinctos escuros,
    nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes
    e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro
    e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se
    picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados,
    que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes
    sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não
    provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos
    vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma
    boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo
    companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente
    prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de
    Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e
    pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles
    umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos
    do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença
    moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem
    melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a
    infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

    O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor
    aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual
    giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras
    de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados
    e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa.
    Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento,
    e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que
    o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora
    sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema
    que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as
    modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e
    abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse
    rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea
    de alguma igreja do sexto seculo.

    De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos
    barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças
    de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados
    de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo,
    que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e
    trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo
    que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes
    desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o
    indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo
    da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado
    direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote
    deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para
    virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que
    entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente
    bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos,
    portanto, o pôr-lhes o visto popular.

    Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao
    homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça
    fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a
    turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de
    respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados
    ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com
    as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como
    alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda
    delles.

    Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez
    voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello,
    elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

    "Ouvide! Ouvide!"–bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella
    multidão desordenada.

    Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas
    mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das
    orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador
    principiou:

    "Arraya-miuda[1]! tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos
    bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados
    contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher
    de João Lourenço da Cunha?"

    "Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques:
    –respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios
    d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de
    conta entre os populares.–Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais
    discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes
    razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do
    que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?"

    "Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:–bradou unisona
    a chusma.

    "Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!–replicou Fernão
    Vasques, socegado o tumulto.–Pelo razoado de hoje terei em paga
    a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei
    as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e
    enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado,
    mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da
    corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em
    costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais
    rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n'uma aduela
    de pipa?"

    "Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha
    da bésta, me não estourar:–exclamou um bésteiro de conto,
    cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam
    derribado certas perturbações d'enthusiasmo politico.

    "Amendico Vobis!–gritou um beguino, cujas faces vermelhas e
    voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com
    as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

    "Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres
    vir nesse bordo por nossa esteira:–bradou um petintal d'Alfama,
    que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores,
    barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente
    povoado de semelhante gente.

    "Digo por linguagem"–acudiu o beguino–"que ninguém como mestre
    Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a
    elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles,
    do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil
    em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons
    servos da igreja."

    Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu
    á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo
    modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de
    dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

    Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má
    vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da
    emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno
    de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um
    delles se assentava.

    Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade
    intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous
    oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia,
    nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento
    de odio que nascêra n'um dia, e n'um dia lançára profundas raizes
    nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao
    mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam
    juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre
    este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas,
    erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

    Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando
    um pouco mais alto.

    O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço
    da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso
    da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos
    dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes
    cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e
    corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto
    e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse
    favoravel. Quanto a elrei, a paixão violenta em que este ardia
    lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coração. Mas
    as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubiça,
    de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do
    que na triste vangloria de vêr a seus pés um rei bom, generoso
    e gentil. Através do amor de D. Fernando ella só enxergava o
    refulgir da corôa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de
    rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas
    as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias,
    a idéa primitiva de todas as suas idéas. Leonor Telles não amava
    elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della;
    e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes,
    e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre
    superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na
    horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade,
    quasi insuperavel para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha
    entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo
    de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D.
    Leonor, ou que sabiam até onde chegava a sua vingança, a livrou
    desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, atterrado,
    fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia,
    a occultas com ella, muito antes da epocha em que começa esta
    narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

    Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradições
    severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da corôa e
    pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella,
    cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com
    a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D.
    Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o
    infante D. Diniz, o mais moço dos filhos de D. Ignez de Castro,
    e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabeças
    da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de
    seu animo; este por gratidão a D. Henrique de Castella, em quem
    achára amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o
    salvára da triste sorte de Alvaro Gonçalves Coutinho e de Pedro
    Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D.
    Ignez.

    O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor
    vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desapprovavam souberam
    transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacão dos animos
    crescia á medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos.
    D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução
    que tomára, e estes, posto que a principio lhe falassem com a
    liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo suas
    diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio
    essa malaventurada resolução. O povo, porém, não se contentou
    com isso.

    Conforme as idéas desse tempo, além das considerações politicas,
    semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo
    de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, e sê-lo-ha em
    todos os tempos em que a moral social fòr mais respeitada do que
    o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro
    adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser
    considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como
    fiadores da successão da corôa.

    A irritação dos animos, assoprada pela nobreza, tínha chegado
    ao seu auge, e a colera popular rebentára violenta na tarde que
    precedeu a noite em que começa esta historia.

    Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente ás portas do
    paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito
    que fazia aquella multidão desordenada assustou elrei, que por
    um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que
    estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão
    e procurador por elles, como lhe chama Fernão Lopes, affeiou
    em termos violentos as intenções d'elrei, liberalisando a D.
    Leonor os titulos de má mulher e feiticeira, e asseverando que o
    povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga
    rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de
    gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu
    elrei a responder com agradecimentos ás injurias, e a affirmar
    que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo
    ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro
    de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco
    a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar
    S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidão,
    elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom
    e fiel povo de Lisboa, as vidraças córadas das esguias janellas
    dos paços reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o
    esplendor dos saráus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro,
    contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas,
    com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com
    o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se
    encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam
    immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para
    se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem
    motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as
    vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na
    sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo
    passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava
    era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena
    noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada
    profunda, alumiavam o saráu popular, as salas do seu folguedo,
    a praça e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.

    Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principaes
    desta historia, para inserir, talvez fóra de logar, o prologo ou
    introducção a ella) as acclamaçôes freneticas dos populares tinham
    tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia
    seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Fr.
    Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito
    esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com
    o ruido dos amplos pulmões dos galeotes d'Alfama, contrabidos
    como em voga arrancada, victoriando o seu capitão. O alfaiate
    não pôde resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta
    popularidade, e em pé sobre o escabello, com a cabeça levemente
    inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignação e de
    bemaventurança, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso
    que revelava uma parte dos mysterios do seu coração. Emfim, quando
    a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça, e
    com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.

    Fez-se de novo silencio.

    "Seja, pois, como quereis:–disse o alfaiate–mas vede o grão risco
    a que me ponho por vós outros. Falarei eu a elrei com liberdade
    portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado
    de sua real senhoria, mas é necessario que vós todos quantos
    ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre
    de S. Domingos. Dizem que a adultera é mulher de grande coração
    e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavalleiros seus
    parentes e parciaes. Bésteiros deste concelho, que não vos esqueçam
    em casa vossas béstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas
    ascumas! Os trons e engenhos do castello–accrescentou o alfaiate
    em voz mais baixa e hesitando–não vos apoquentarão, ainda que
    elrei o quizesse, porque o alcaidemór João Lourenço Bubal não
    é dos affeiçoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago
    sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar,
    amigos!"

    –"Alcacer, alcacer!–respondeu a turbamulta.

    "Morra a comborça!"–gritou Ayras Gil com voz de trovão.–"Morra
    a comborça!"–repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos
    coromens d'arrás e cinctos pretos, que assistiam áquelle conclave.

    "Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor
    tem ouvido subtil:"–disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso
    diabólico.

    "Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!"–replicou o
    petintal.–"Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcacer
    por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella
    e de feitiços!"

    O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcaceres;
    entre risadas e pragas; entre ameaças vans e insultos inuteis,
    aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se
    pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se
    pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes
    deitadas juncto ás raízes dos palacios na velha e opulenta Lisboa.

    Com os braços cruzados o alfaiate contemplava aquella multidão, que
    diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel
    ao gemido do tufão, que passa de noite pelas sarças da campina.
    Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto
    indelineavel chamado povo, e já ninguem ahi estava, salvo os
    dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma
    postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirára sobre um
    dos bofetes, e já roncava e assobiava como em somno profundo.

    Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um
    ainda a barba de homem não pungia nas faces: o outro, na alvura
    das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros á moda
    de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser já
    bem larga a historia da sua peregrinação na terra.

    O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois
    para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para
    elle, e sorriu-se. Depois o ancião chamou o alfaiate em voz baixa,
    mas perceptivel.

    Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos,
    estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava
    em pé, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros:

    "Senhor infante, que vossa mercê me perdôe e o senhor Diogo Lopes
    Pacheco! Á fé que, no meio d'este arruído, quasi me esquecêra
    de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que
    posso responder pelo povo, e de que ámanhan não faltarão em S.
    Domingos?"

    "Na verdade–respondeu o mancebo–que tu governas mais nelle
    que meu irmão com ser rei! Veremos se ámanhan te obedecem como
    te obedeceram hoje."

    "És um notavel capitão:–accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo
    no hombro do alfaiate.–Se fosses capaz de reger assim em hoste
    uma bandeira de homens d'armas merecerias a alcaidaria de um
    castello."

    "Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite
    ou de dia, áquelle que de mim tivesse preito e menagem."

    "Bem dicto!–interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que
    começára.–Se t'a negarem não será por errares as palavras do
    preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Fernão Vasques;
    muito longe! Assim eu a tivera, de que não me será preciso cozer
    á ponta de punhal a bôca de quem ousar dizer que o infante D.
    Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna
    do gonovez Folco Taca."

    Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, saíram
    dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino
    que dormia foram mais rapidos e tremulos.

    "Quem é aquelle ichacorvos?–proseguiu Diogo Lopes, apontando
    para Fr. Roy com um gesto de desconfiança.

    "É um dos nossos:–respondeu o alfaiate–um dos que mais têem
    encarniçado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada
    desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos paços d'el-rei.
    Por este respondo eu. Não tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe
    cozer a bôca á ponta de vosso punhal."

    "Responde por ti, honrado capitão da arraya-miuda–replicou o
    velho cortezão.–Quem me responde por elle é o seu dormir profundo:
    quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria
    este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto
    ámanhan elrei se demorar em S. Domingos, um troço d'arraya-miuda
    e bésteiros ha-de commetter o paço, e ou do terreiro, ou rompendo
    pelos aposentos interiores, é necessario que uma pedra perdida,
    um tiro de bésta disparado por engano, uma ascuma brandida em
    algum corredor escuro, nos assegure que elrei não póde deixar
    de attender ás supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidadãos
    de Lisboa."

    "Morta!–exclamou o infante com um gesto de horror.–Não, não,
    Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como …"

    "Como ensanguentei os paços de Sancta Clara:–atalhou
    Pacheco–dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá
    dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos d'isso, porque eu
    posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambição
    tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue!
    Vós passastes ávante, e não vistes os do sangue de vossa mãe!
    Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor
    infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem
    a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recúa."

    D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Não respondeu nada;
    mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.

    Fernão Vasques escutou a prelecção politica do velho matador
    de D. Ignez de Castro com religiosa attenção. E resolveu tambem
    lá comsigo não se deixar cahir no fojo.

    "Far-se-ha como apontaes:–disse elle falando com Diogo Lopes–mas
    se os homens d'armas e bésteiros de João Lourenço Buval descerem
    do castello…"

    "Não te disse, ainda ha pouco, que João Lourenço ficaria quedo no
    meio da revolta?–Podes estar socegado, que não te certifiquei
    d'isso só para animares o povo. É a realidade. Agora tracta de
    dispôr as cousas para que não seja um dia inutil o dia d'ámanhan."

    Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saíu da taberna,
    e tomou com elle o caminho da Alcaçova. Fernão Vasques ficou
    um pouco scismando: depois saíu, dirigindo-se para a porta do
    ferro, e repetindo em voz baixa:–"Não me precipitarei no fojo!"

    Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho
    a cabeça, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou
    para o chão, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada
    por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundára,
    chegou á porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso
    encaminhou-se para a torre da sé da banda do norte, e como um
    fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da
    cathedral.

    [1] Fernão Lopes dá a entender (Chr. de D. João I. P.
    1.ª c.44) que a denominação de arraya-miuda se começára a dar aos
    populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para
    os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor
    e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado
    para si o povo miudo já d'antes e com muita seriedade. Em um
    documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3º das Doações fol.
    42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes
    e concelho de Bragança e toda a arraya-miuda.

    [2] Fernão Lopes affirma que Pacheco não tornára ao
    reino desde que fugíra por escapar á vingança de D. Pedro I por
    causa da morte de D. Ignez, senão no anno de 72, em que viera
    por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr.
    Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituição
    de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no começo
    do seu reinado. Não é isto que prova a assistencia de Pacheco
    em Portugal no anno de 1371, não só porque depois de vir podia
    voltar para Castella, mas tambem essa restituição podia ser feita
    estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruição d'um
    titulo, ou de terras da corôa, por simples mercê, não obrigando
    a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tornava
    necessaria a presença do donatario no reino. O que prova a verdade
    da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371
    (Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento
    de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas
    quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.

    O Beguino.

    Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo,
    miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo
    a grandes crimes[1], ainda vê na extermidade delle umas ruinas,
    uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca
    altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta
    janella são tudo o que resta dos antigos paços d'apar S. Martinho,
    igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria
    um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos
    monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas
    eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia
    foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente
    pelos nomes de paços d'elrei, paços dos infantes, paços da moeda,
    paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos
    tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis
    portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta
    Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se,
    transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos,
    nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas
    póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida!
    Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á
    roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive
    eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque
    jazem ahi!

    Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no
    capítulo antecedente, essa janella dos paços d'elrei era a unica
    aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas
    as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento
    do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que
    ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que
    reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído.
    De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho
    as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se,
    disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar
    e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto
    que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através
    dos corredores e aposentos do paço.

    Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos
    braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia
    idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu
    aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma
    porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a
    passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue
    a cogitações dolorosas.

    Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio:
    mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem
    alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto,
    d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou
    vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura
    de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento.
    O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que
    alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao
    pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura
    abeatada.

    "Aproxima-te, beguino!"–disse com voz trémula elrei; porque era
    elrei D. Fernando o homem que se assentára.

    Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

    "Que ha de novo?"–perguntou elrei.

    "O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente
    ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu
    trago!"

    "Fala, fala, beguino!–acudiu elrei, estendendo a mão convulsa
    para o ichacorvos.

    "É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos,
    o paço será accommettido. Pretendem matar…"

    "Mentes, beguino!–gritou a dama, erguendo-se do estrado de um
    salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes
    da Ásia.–Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me!
    Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as
    mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte.
    Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas
    nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles."

    "Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na
    minha vida:–replicou o ichacorvos com ar contrito.–Mas ouvi
    com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução,
    haverá tres credos, na taberna de Folco Taca."

    "Miseraveis!–bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco
    da sua amante restituira por um momento a energia.–Miseraveis!
    Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão.
    Quem ousa ordenar tal cousa?"

    "Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate
    Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz
    estava tambem com elles:"–respondeu Fr. Roy.

    O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.

    "Velho assassino!–exclamou D. Fernando–cubriste de luto eterno
    o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu
    amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos
    para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!"

    O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando
    violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios
    esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um
    olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:

    "Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu,
    triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens,
    que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar
    a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me
    tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes.
    Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu
    amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados."

    "Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!–gritou D.
    Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos
    joelhos, com um chôro convulso.–Que te fiz eu para me tractares
    tão cruelmente?"

    "D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se
    rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma
    do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede;
    deixa-o reinar."

    "Tens razão, Leonor!–disse D. Fernando, enxugando as lagrymas
    e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação.
    –Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae.
    Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que
    cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de
    cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d'armas e bésteiros
    do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal
    será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos
    ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape.
    Adeus, Leonor: conta que serás vingada."

    D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy
    estava immovel diante delle.

    "João Lourenço Bubal–disse o espia sem se alterar–é dos revoltosos.
    Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão
    Vasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior parte
    dos homens d'armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna de
    Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam…."

    "Cal-te, beguino!"–gritou elrei, empurrando-o com força e procurando
    tapar-lhe a bôca.

    O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e
    ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo
    golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.

    "… A adultera:–proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque
    ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu
    ministerio.

    "Beguino!–atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva–melhor
    fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque
    talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."

    "Mas que faremos!?–murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.

    "Havia ainda ha pouco tres expedientes,–respondeu D. Leonor,
    recobrando apparente serenidade–combater, ceder, fugir. O primeiro
    é já impossível; o segundo!… Porque não o acceitas, Fernando?
    Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de
    ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos
    o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"

    "Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força?
    Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:–rei de Portugal,
    obedece á força?–Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz,
    não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes
    como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da
    minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras
    e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como
    os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no
    meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares.
    No ardor de vossos amores dir-vos-ha:–desamae!–Elle ousa já
    dize-lo a seu rei e senhor… Oh desgraçado de mim, desgraçado
    de mim!"

    "Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?–disse
    D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo
    pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida
    ás faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio
    olhava espantado para ella.

    "Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno,
    ou tu subirás a elle."

    Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor
    Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo
    tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:

    "Então resta o fugir."

    "Fugir!"–exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva
    que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado
    curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito
    vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um
    rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

    Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico,
    semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras
    de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do
    seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O
    mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura
    d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de
    D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte
    e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se
    rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d'uma vibora.

    "Seja, pois, assim! Fujamos:"–murmurou D. Fernando com o tom e
    gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão
    ao algoz.

    D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura,
    uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que,
    de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na
    abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos
    sublimes do ceu.

    "Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu
    silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera
    atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva."

    O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram
    correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas
    pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu
    immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram
    o vigor natural.

    Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico
    do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo
    terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando
    fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer
    palavra.

    Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito,
    e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por
    onde entrára.

    Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar,
    D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto
    terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar
    a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o
    indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e
    a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento,
    mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas.
    A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo
    e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de
    D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio
    ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas
    horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles,
    encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A
    cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella
    especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande
    povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante
    a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d'onde mais
    largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de
    navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio
    onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma
    especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia.
    Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro
    dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes
    e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo,
    cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e
    cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga,
    abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante
    do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua
    batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e
    meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas.
    No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de
    um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío
    da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e
    aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar,
    porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava
    sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem
    posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e
    derribarem-no em terra.

    Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

    Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os
    braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia
    vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de
    compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços,
    exclamou:

    "Fernando!"

    Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de
    amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor
    Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do
    tigre.

    Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado
    uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços
    de Leonor Telles.

    "Ámanhan–disse elle com voz affogada,–o rei mais deshonrado
    da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas
    será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais
    nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem
    sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor!
    serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses."

    Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta
    mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando,
    embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam
    para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

    "Fernando!"–proseguiu D. Leonor–"jura-me ainda uma vez que serás
    sempre meu, como eu serei sempre tua."

    Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

    "Juro-t'o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até
    hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos
    de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór
    da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado.
    Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!"

    "Bem está, rei de Portugal!–atalhou D. Leonor.–Agora só uma
    cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça."

    "Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha,
    rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a
    cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das
    ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de
    me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres."

    "Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo,
    segundo foro de Hespanha."

    "Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa
    dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos é forte e roqueiro: são numerosos
    e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos
    será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d'aguas
    vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra
    das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no
    meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora."

    "Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t'as peço em
    dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia."

    "De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires."

    D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que
    se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

    "É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz
    da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real."

    Elrei lançou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles
    tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que
    negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão:
    era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!

    "Leonor, Leonor!–disse elrei com um som de voz cavo e debil–porque
    vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor?
    Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim
    e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos
    de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que
    ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?"

    "Rei de Portugal!–respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha
    com um brado de furor–ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca
    serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto
    pensamentos de sangue a pensamentos d'amor? É porque esses de
    quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque
    interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? É
    porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a
    morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro
    o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces?
    É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por
    ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva!
    Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem
    perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas
    o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus
    caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse
    preço a neta de D. Ordonho de Leão[2] nunca será mulher de D.
    Fernando de Portugal."

    E com um braço estendido para o logar sem nome[3] do supplicio,
    e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher
    vingativa era sublime de atrocidade.

    "Tens razão, Leonor:–disse por fim D. Fernando, depois de largo
    silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel
    mudaram gradualmente.–Tens razão. A futura rainha de Portugal
    terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão
    para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de
    bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha
    a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se
    faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a
    minha injuria."

    A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em
    um sorrir de inexplicavel doçura.

    "Oh, como te hei-de amar sempre!"–murmurou ella. E estas palavras
    cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba
    amorosa.

    Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca
    da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio.

    [1] Isto era escrípto em 1844.

    [2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender
    de D. Ordonho II, rei de Leão.

    [3] Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a
    pôr-lh'o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto
    da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data
    pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir.
    Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o
    cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro
    se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o
    nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa
    D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros
    no chão d'Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para
    fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o
    lado oriental da sé. Além d'isso Aljami parece derivar-se do
    arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço
    e as mãos.

    Um bulhão e uma agulha d'alfaiate

    O sol, que havia mais de meia hora subíra do oriente cingido
    da sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosphera turva e
    cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocío ou
    praça onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas
    e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e
    pelo de Valverde ao norte. Já muitos bésteiros e peões armados
    de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote
    Peçanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas
    d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do
    almirante[2], outros da banda da alcaçova, outros, emfim,
    desembocando das ruas estreitas e irregulares que íam dar á opulenta
    e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos
    doze no meio da praça e ás bocas das ruas; falavam, meneavam-se,
    riam, cbamavam-se uns aos outros. Ás vezes aquella mó de gente,
    cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como
    a superficie de um pego passando o tufão. Incerta, vacillante,
    informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante
    a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom
    monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro,
    cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e
    retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas
    quando não podesse romper as portas chapeadas de forte castello.
    Então aquella multidão tomava a fórma de meia lua, cujas pontas
    se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham
    topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira,
    d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam
    pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme ás vezes por seculos,
    fòra accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa
    possante vida da praça publica, em que de ordinario é ridiculo
    e feroz; mas em que não raro é sublime e terrivel.

  • Lendas do sul

    Lendas do sul

    Aproximadamente 18.781 palavras.

    Ver.04.29.93*END*

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    LENDAS DO SUL
    J. Simões Lopes Neto

    1913
    Echenique & C. — Editores
    Pelotas

    NOTA

    Convém recordar que o primeiro povoamento branco do Rio Grande do
    Sul foi espanhol; seu poder e influencia estenderam-se até depois da
    conquista das Missões; provém disso que as velhas lendas rio-
    grandenses acham-se tramadas no acervo platino de antanho.

    Vem da Ibéria, a topar-se com a ingênua e confusa tradição
    guaranítica (v. g. a lenda da M’boi-tátá) a mescla cristã-árabe de
    abusões e misticismo; dos encantamentos e dos milagres; desses
    elementos, confundidos e abrumados ( p. ex. a salamanca do serro do
    Jarau ), nasceram idealizações novas e típicas adaptadas ou
    decorrentes do meio físico e das gentes ainda na crassa infância das
    concepções.

    E, como entre conquistadores brancos corria intensa e rábida a febre
    da riqueza — o sonho escaldante do El-Dorado — a fulgir nas areias
    e nos cascalhos, espadanando das entranhas misteriosas e apojadas do
    Novo-Mundo, a preponderante vivaz das suas ficções é sempre a
    imantada ânsia — pelo ouro!, forte sobre a dor e a própria morte…

    Com a entrada dos mamelucos paulistas outras e doutra feição vieram
    do centro e norte do Brasil: o saci, o caápora, a oiára,
    que esfumaram-se no olvido.

    Por último uma única se formou já entre gente lusitana
    radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do pastoreio.

    A estrutura de tais lendas perdura; procurei delas dar aqui uma
    feição expositiva — literária e talvez menos feliz — como
    expressão da dispersa forma porque a ancianidade subsistente
    transmite a tradição oral, hoje quase perdida e mui confusa: ainda
    por aí se avaliará das modificações que o tempo exerce
    sobre a memória anônima do povo.

    *A M’BOI-TÁTÁ*
    _A’ Andrade Neves Neto_

    _Meu caro Simões L. Neto_

    _Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu
    talento. A lenda da “_boi-tátá_ ”, também conhecida dos nossos
    sertanejos, com variantes que muito a diferençam da que escreveste,
    deve figurar no “folk-lore” gaúcho, onde já cintila, acesa por ti,
    a velinha do “Negrinho do Pastoreio”, à cuja claridade puseste meu
    nome. Prossegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro
    por haver insistido com a tua modéstia para que continuasses a
    colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo
    com elas o ramo que será um encanto para todas as almas
    e gloria para o teu nome. Abraço-te_

    _teu_

    _Coelho Neto_

    _Rio 20-XI-09_

    A M’BOI-TÁTÁ

    I

    Foi assim:

    num campo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que
    pareceu que nunca mais haveria luz do dia.

    Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e
    sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das
    flores da mataria.

    Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco
    não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo
    canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso
    poupar os tições…

    Os olhos andavam tão enfarados da noite, que, ficavam parados, horas
    e horas, olhando sem ver as brasas vermelhas do nhanduvái… as
    brasas somente, porque as faiscas, que alegram, não saltavam,
    por falta do sopro forte de bocas contentes.

    Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar
    pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido
    nem vista para bater querência; até nem sorro daria no seu próprio
    rastro!

    E a noite velha ia andando… ia andando…

    II

    Minto:

    no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma
    banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho
    vivente, furava o ar; era o _téu-téu_ ativo, que não dormia desde o
    entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol
    novo, que devia vir e que tardava tanto já…

    Só o _téu-téu_ de vez em quando cantava; o seu — _quero quero!_ —
    tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a
    esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.

    Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento,
    então, nem nada.

    III

    Minto:

    na ultima tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o
    lado para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe
    a estrela d’alva, nessa ultima tarde também desabou uma chuvarada
    tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão
    a cair, e durou… e durou…

    Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas

    coleando os tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num; os
    passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e
    das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo
    fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas
    coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado,
    no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes
    e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!…

    Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas, as cobras
    se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e
    das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.

    E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra
    grande, a — _boi-guassú_ — que, havia já muitas mãos de luas,
    dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabiando.

    Começou depois a mortandade dos bichos e a _boi-guassú_ pegou a
    comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.

    A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando,
    e a cada hora mais olhos a cobra grande comia.

    IV

    Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.

    A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do
    milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de
    mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no
    sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem
    comer nada, dam nos olhos a cor dos seus arrancos. O homem de olhos
    limpos é guapo e mão aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado
    com os amarelos; e toma tenência doble com os raiados e baços!…

    Assim foi também, mais de outro jeito, com a _boi-guassú_,
    que tantos olhos comeu.

    V

    Todos — tantos, tantos! que a cobra grande comeu —, guardavam
    entranhando e luzindo, um rastilho da ultima luz que eles viram do
    último sol, antes da noite grande que caiu… E os olhos — tantos,
    tantos! — com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no
    principio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão,
    depois, como uma braçada…

    VI

    E vai,

    como a _boi-guassú_ não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o
    dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro
    grosso como a anta vai, o seu corpo foi ficando transparente
    clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram
    esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz.
    E vai, afinal, a boi-guassú toda já era uma luzerna, um clarão sem
    chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria,
    saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam
    vivos…

    VII

    Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez
    viram a _boi-guassú_ tão demudada, não a conheceram mais. Não
    conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde
    então, de _boi-tátá_, cobra de fogo, _boi-tátá_ , a _boi-tátá_ !

    E muitas vezes a _boi-tátá_ rondou as rancherias, faminta, sempre
    que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.

    E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande
    corpo de serpente, transparente — _tátá_, de fogo — que media mais
    braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as
    carquejas… E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo,
    pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os
    olhos e a _boi-tátá_ ainda cobiçava os olhos vivos
    dos homens, que já os da carniça enfaravam…

    VIII

    Mas, como dizia:

    na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da _boi-tátá_ , e
    era por ela que o _téu-téu_ cantava de vigia, em todos
    os flancos da noite.

    Passado um tempo, a _boi-tátá_ morreu; de pura fraqueza morreu,
    porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram
    sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si
    entranhada tiveram quando vivos…

    Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes
    pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre
    as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se,
    também como cousa da terra, que se estraga de vez.

    E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.

    E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!

    IX

    Minto:

    apareceu, sim, mas veio de sopetão. Primeiro foi se adelgaçando o
    negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no
    coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo,
    na lonjura, começou a subir uma lista de luz… depois a metade de
    uma cambota de fogo… e já foi o sol que subiu, subiu, subiu até
    vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita,
    para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.

    X

    Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para
    nascer de novo: só a luz da _boi-tátá_ ficou sozinha,
    nunca mais se juntou com outra luz de que saiu.

    Ainda sempre se arrisca e só, nos lugares onde quanta
    carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida,
    não aparece e dorme talvez entocada.

    Mas de verão, depois da quentura dos mormaços,
    começa então seu fadário.

    A _boi-tátá_ , toda enroscada, como uma bola — _tátá_, de fogo! —
    empeça a correr pelo campo, coxilha abaixo, lomba acima,
    até que horas da noite!…

    É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca
    nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre,
    corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando…
    e quando menos se espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!

    Maldito! T’esconjuro!

    XI

    Quem encontra a _boi-tátá_ pode até ficar cego… Quando alguém topa
    com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito
    quieto, de olhos apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou
    se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e
    atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto,
    todo solto, até a ilhapa!

    A _boi-tátá_ vem acompanhado o ferro da argola… mas de repente
    batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz,
    para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.

    XII

    Campeiro precatado! reponte o seu gado da _boi-tátá_ : o pastiçal,
    aí, faz peste…

    Tenho visto!

    *A SALAMANCA DO JARAU*
    _A Alcides Maya_

    O Serro do Jarau 1
    A salamanca 2

    I

    Era um dia…,

    um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que
    só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais,
    estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia
    andava campeando um boi barroso.

    E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas;
    para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado
    estivesse entre as carquejas — a carqueja é sinal de campo bom —,
    por isso o campeiro ás vezes alçava-se nos estribos e, de mão em
    pala sobre os olhos, firmava mais a vista entorno; mas o boi
    ]barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia
    campeiando, campeiando…

    Campeiando e cantando:

    “Meu bonito boi barroso,
    Que eu já contava perdido,
    Deixando o rastro na areia
    Foi logo reconhecido.

    “Montei no cavalo escuro
    E trabalhei logo de espora;
    E gritei — aperta, gente,
    Que o meu boi se vai embora! —

    “No cruzar uma picada,
    Meu cavalo relinchou,
    Dei de rédea para a esquerda,
    E o meu boi me atropelou!

    “Nos tentos levava um laço
    De vinte e cinco rodilhas.
    P’ra laçar o boi barroso
    Lá no alto das coxilhas!

    “Mas o mato carrasquento
    Onde o boi ‘stava embretado,
    Não quis usar o meu laço
    P’ra não vê-lo retalhado

    “E mandei fazer um laço
    Da casca do jacaré,
    P’ra laçar meu boi barroso
    Num redomão pangaré.

    “E mandei fazer um laço
    Do couro da jacutinga,
    P’ra laçar meu boi barroso
    Lá no passo da restinga.

    “E mandei fazer um laço
    Do couro da capivara
    P’ra laçar meu boi barroso
    Nem que fosso à meia-cara;

    “Este era um laço de sorte,
    Pois quebrou do boi a balda”…
    . . . . . . . . . . . . . . . .
    . . . . . . . . . . . . . . . .

    No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza,
    no atraso das suas cousas.

    No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou — cara à cara!
    — com o Caipora num campestre da serra grande, p’ra lá,
    muito longe no Botucaraí…

    A lua ia recém saindo…; e foi à boquinha da noite…

    Hora de agouro pois então!…

    Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente agora; mas, quando
    cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando
    e o do contrario o lanhava…

    Domador destorcido e parador, que, por só pabolajem gostava de
    paletear, ainda era domador agora; mas, quando gineteava mais
    folheiro, ás vezes, num redepente, era volteado…

    De mão feliz para plantar, que não lhe chochava semente nem muda de
    raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura
    ia apontando da terra, dava uma praga em toda, tanta, que benzedura
    não vencia…; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal
    floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda…

    E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas
    o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranquito, campeiando, sem
    topar co’o boi barroso.

    De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão,
    sofrenou o tostado…: ali em frente, quieto e manso, estava um
    vulto, de face tristinha e mui branca.

    Aquele vulto de face branca… aquela face tristonha!…

    Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes…; e
    de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num
    propósito, para endrominas de encantamentos…, conversas que se
    falavam baixinho, como num medo; p’r’o caso, os que podiam não
    contavam, porque uns, desandavam apatetados e vagavam por aí, sem
    dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez
    por juramento dado…

    Aquele vulto era o santão da salamanca do serro.

    Blau Nunes sofrenou o cavalo.

    Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem
    é para outro homem!…

    E como era ele

    quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:

    — Láus’ Sus’ Cris’!…3

    — Para sempre, amem! disse o outro, e logo ajuntou: O boi barroso
    vai trepando serro acima, vai trepando… Ele anda cumprindo
    o seu fadário..4

    Blau Nunes pasmou do adivinho; mas respostou:

    — Vou no rastro!…

    — Está enredado…

    — Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta do fumo
    do serro…

    — Tu… tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?…

    — É lá?… Então, sei, sei! A salamanca do serro do Jarau!…
    Desde a minha avó charrua, que eu ouvi falar!…

    — O que contava a tua avó?

    — A mãe da minha mãe dizia assim:

    II

    — Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade
    chamada—Salamanca — onde viveram os mouros, os mouros que eram
    mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles
    guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol,
    que diz’ que desmancha a força da bruxaria…

    O condão estava no regaço de uma fada velha, que era uma princesa
    moça, encantada, e bonita como só ela!…

    Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos
    batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos
    foram obrigados ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita… e a baterem
    nos peitos, pedindo perdão…

    Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram
    dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata,
    pedras finas, gomas cheirosas… riquezas para levantar de novo o
    seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém…

    E para segurança das suas traças trouxeram escondida a fada velha,
    que era a sua formosa princesa moça…

    E devia ter mesmo muito força o condão, porque nem os navios se
    afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios
    santos que vinham, não sentiram…

    Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a
    alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque
    esses são só imagens…

    Assim bateram nas praias da gente pampeana os tais mouros e mais
    outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma
    condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia noite da primeira
    sexta-feira foram visitados pelo Diabo deles, que neste lado do
    mundo era chamado de Anhangá-pitã5 e mui respeitado. Então, mouros e
    renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito;
    folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e destas serras era
    gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta
    e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos
    sempre abertas e fazedoras…

    Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos
    inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam…; e
    pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a
    força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico — que navegara
    em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos —,
    esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e
    lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a
    teiniaguá6 , sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da
    encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.

    E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do
    dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o
    mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como
    brasa e tão brilhante que os olhos de gente vivente não podiam parar
    nele, ficando encandeiados, quase cegos!…

    E desfez-se a companhia até o dia da peleja da nova batalha. E
    chamaram — salamanca — à furna desse encontro; e o nome ficou
    p’r’as furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.

    Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num
    bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a
    correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes,
    entre serranias macotas.

    Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira
    ensinou-lhe a vaqueanajem de todas as furnas recamadas de tesouros
    escondidos… escondidos pelos cauílas, perdidos para os medrosos e
    achadio de valentes… E a mais desses, muitos outros tesouros que a
    terra esconde e que só os olhos do zaorís7 podem vispar…

    Então Anahangá-pitã, cansado pegou num cochilo pesado, esperando o
    cardume da desgraças novas, que deviam pegar p’ra sempre…

    Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher…

    Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrúa8 contava à minha
    mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros que,
    esses, viram!…

    E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no
    cinto, aprumando o facão…; foi parando o gesto e ficou-se olhando,
    sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava mas onde o
    sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda
    passava… ainda passava, porque o sonho não tem
    lindeiros nem tapumes…

    Falou então

    o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia.
    E disse assim:

    III

    É certo:

    não tomou tenência que a teiniaguá era mulher… Ouve paisano.

    No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda,
    com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa…

    A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela
    encontraram soberbos pensamentos maus… O meu peito foi ungido com
    os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga,
    do pecado…

    A minha boca provou do sal piedoso… e nela entrou a frescura
    que requeima, dos beijos da tentadora…

    Mas, é que assim era o fado… ; tempo e homem virão para me
    libertar, quebrando o encantamento que me amarra; duzentos anos hão
    de findar; eu esperarei no entanto, vivendo na minha tristeza seca,
    tristeza de arrependido que não chora…

    Tudo o que me volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão…

    Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres
    na igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia
    bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da
    serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa
    do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus
    abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos
    dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a
    finados… Eu era o sacristão.

    Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras,
    sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem
    choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos
    lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada no ar parado, sem
    uma viração.

    Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia,
    levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o
    cheiro da fumaça piedosa. E sai sem pensar em nada, nem de bem nem
    de mal; fui andando como levado…

    Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

    A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e
    qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá embaixo, dentro
    da terra é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que
    cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e
    espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas…

    Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa… ferver,
    sem fogo que se visse!

    A mão direita, pelo costume, andou a fazer o “Pelo Sinal”… e
    parou, pesada como chumbo; quis rezar um “Credo”, e a lembrança
    dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo… e tanger o
    sino em dobre… e chamar o padre superior, tudo para esconjurar
    aquela obra do inferno… e nada fiz… sem força na vontade, nada
    fiz… nada fiz, sem governo no corpo!…

    E fui andando, como levado, para mais de perto ver,
    e não perder de ver o espantoso

    Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante
    continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma
    mortandade dos viventes que morrem sem gritar…

    Era no fim de lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os
    dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da
    água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior
    que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente,
    e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta…

    E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e
    sem ameaça veio andando para mim a sempre escapada maravilha…,
    maravilha que os que nunca viram juravam sempre ser — verdade — e
    que eu, que estava vendo, ainda jurava ser — mentira! —

    Era a teiniaguá, de cabeça

    de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao
    padre superior a historia contada dum encontradiço que quase cegou
    de teimar em agarrá-la.

    Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando perigo; mas a
    teiniaguá veio me chegando, deixando no chão um duro rastro d’água
    que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa
    engraçada e buliçosa…

    Lembrei-me — como quem olha dentro de cerração — lembrei-me do
    corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso
    corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino no couro
    ressequido…

    Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na
    água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o
    quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei
    a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente,
    firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa,
    faiscando…

    De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de
    cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num
    repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para
    dentro dela!

    Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça
    sonando como um sino de catedral…

    Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo
    cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes,
    pisoteei ramos, calquei sepulturas!…

    Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.

    Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.

    Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a
    teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o
    Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os
    Cavaleiros da Tábola…

    Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.

    E eu, agora!…

    E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e
    esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como
    se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos…

    E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu
    entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás
    janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha
    visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia
    para o que prestavam…

    E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde
    no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que
    também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas…

    E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos
    como o mato virgem…

    E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os
    meus paióis.

    E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios,
    amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata;
    dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de
    couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água
    filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados
    dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma
    cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá
    doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra…

    Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal
    que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a
    contar, a pesar, a medir…

    Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era
    dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na
    canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre,
    dobradiças de bronze!…

    Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde…

    Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres,
    na minha falta.

    Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

    Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.

    Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de
    lechiguana, por ser o mais fino.

    E fui; melei; e voltei.

    Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.

    E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa
    e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os
    pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração
    mermou no compassar do sangue!…

    Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!…

    Que disse:

    IV

    — Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por
    sobre um mar que os meus nunca sulcaram… Vim, e Anhangá-pitã
    transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam
    o — carbúnculo — e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos
    tesouros escondidos dentro da casca do mundo…

    Muitos tem me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu
    lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos,
    relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça
    transparente…

    Tu, não; tu não me procuraste ganoso… e eu subi ao teu encontro;
    e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para
    o meu sustento.

    Si quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na
    guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás
    senhor do muito, do mais, do tudo!…

    A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também
    a princesa moura…

    Sou jovem… sou formosa…, o meu corpo é rijo e não tocado!…

    E estava escrito que tu serias o meu par.

    Serás o meu par… se a cruz do teu rosário me não esconjurar… se
    não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado
    o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente,
    guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as
    riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!…

    Si a cruz do teu rosário não me esconjurar…

    Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente
    dos infiéis…

    E foi se adelgaçando

    no silêncio a cadencia em balante da fala induzidora.

    A cruz do meu rosário…

    Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na
    primeira… e quando tenteei a ultima… e que entre as duas os meus
    dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador… fui levantando o
    Crucificado… bem em frente da bruxa, em salvatério… na altura do
    seu coração… na altura da sua garganta… da sua boca…
    na altura dos…

    E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil
    vidas de homem como o aroma sai da flor que vai apodrecendo…

    Cada noite

    era meu ninho o regaço da moura; mas quando batia a alva, ela
    desaparecia ante a minha face cavada de olheiras…

    E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém,
    e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a benção sobre a
    gente ajoelhada, que rezava para alivio dos seus pobres pecados, que
    nem pecados eram, comparados com os meus…

    Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do
    sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado,
    todo lavorado de palma e resplendores; e trouxe-o, transbordante,
    transbordando…

    E embebedados caímos, abraçados.

    Sol nado, despertei

    estava cercado pelos santos padres.

    Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório,
    desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas,
    onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela…
    E acharam a canastra guampa e no porongo o mel… e até no ar
    farejaram cheiro mulherengo… Nem tanto era preciso para ser logo
    jungido em manilhas de ferro.

    Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e
    unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia
    gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma,
    prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma
    confissão…; mas a minha boca não falou…, não falou por senha
    firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela
    e que era linda…

    E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se
    das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não
    queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

    Mas por senha da vontade a boca não falou.

    Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame;
    condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era
    bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

    No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos,
    clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

    O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre
    alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente
    d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

    Dobrando a finados… dobrando a finados…

    Era por mim.

    V

    E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu,
    chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu
    sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano
    amor…., como em rocha dura serpenteia ás vezes um fio de ouro
    alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!…

    E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos
    olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra
    saudade rastreada sem engano…; parece, porque nesse momento um
    ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu,
    sacudida, tanto, de as arvores desprenderem os seus frutos, de os
    animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem do cóc’ras,
    agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão…

    E nas correntezas sem corpo, da ventania, redomoinhavam em chusma
    vozes de guaranis , esbravejando se soltasse o padecente…

    Para traz do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e
    folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados…
    dobrando a finados!…

    Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha
    alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de
    couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois
    leões vermelhos e a coroa del-rei brilhando em canutilho de ouro…

    A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o
    claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte
    da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e
    sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava
    junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que
    se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas
    balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão…

    A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!

    Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses
    viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreiavam-se
    na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os
    olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas
    de homens outros se não viram!…

    E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como
    naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu… por força
    dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu
    morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da
    encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho
    perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana…

    O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas
    quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito
    soltaram palavras feitas, como gente grande…; e bandadas de urubus
    apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o
    esfregar das penas contra o vento…, a contradançar, afiados para
    uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver…

    Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e
    borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num
    propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão
    real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha
    morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa,
    sedutora e feiticeira…

    Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a
    saudade distilara.

    Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e
    monstruoso…: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo
    e fundo… e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em
    borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e
    todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente,
    fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os
    barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta
    barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se,
    espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas
    tormentosas!…

    A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.

    — Que a Missão de S. Tomé ia perecer… e dasabar a igreja… a
    terra expulsar os mortos do cemitério… que as crianças inocentes
    iam perder a graça do batismo… e as mães secar o leite… e as
    roças o plantio, os homens a coragem…

    Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando…

    Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a
    altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz
    Bendita!… o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e
    trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide,
    os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em
    procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer,
    porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam,
    fenecendo, dominados!…

    Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.

    Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas
    que iam minguando, em retirada… mas também ouvindo com os ouvidos
    do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu
    rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava… mas os
    olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o
    nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e
    perfumando as santidades… mas o faro do pensamento sorvia a
    essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a
    língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror,
    amarga, de doença… mas a língua do pensamento saboreava os beijos
    da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de
    guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava
    manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas… mas o tato
    do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e
    rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar
    no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em
    fúria…

    E tanto como ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do
    Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para
    alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário todo dado
    à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa
    moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de
    homem!…

    Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no
    corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para lado do
    Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos
    fizemos então caminho para o Serro do Jarau, que ficou sendo o paiol
    das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.

    Para a memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na
    baixada da cidade de Santo Thomé,9 desde o tempo antigo das Missões.

    VI

    Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho
    tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um
    peso entre o mandar e o ser mandado…

    Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor,
    nem riso…

    Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Serro do Jarau, ando
    sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de
    ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areião dos jardins,
    que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e
    escarlates e azuis, rosadas, violetas… e quando a encantada passa
    todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma
    fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza…; há poços
    largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de jóias e
    armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais,
    tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de
    Castela e Aragão…

    E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e não poder gozar nada
    entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia
    necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias
    de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que
    não possuía…

    O encantamento que eu acompanhe os homens de alma forte e coração
    sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei
    famosa, do Jarau.

    Muitos tem vindo… e têm saído peiorados, para lá longe irem morrer
    do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes,
    loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos…

    Poucos toparam a parada… ah!… mas esses que toparam, tiveram o
    que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente
    o que eu prometo, nem retoma o que dá!

    E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para nosso
    livramento um dia…

    Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela
    ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que
    veio sem pensar e o único que me saudou como um filho de Deus…

    Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão
    bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou
    arrependido… e com Pedro Apostolo que três vezes negou Cristo foi
    perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.

    Está escrito que a salvação há de vir assim: e por bem de mim,
    quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá:
    quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas,
    todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os
    sortilégios, todos os filtros para amar por força… para matar…
    para vencer… tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair
    pelo cabeço roto do serro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa
    dos tesouros…

    Tu me saudaste — o primeiro, tu! — saudaste como cristão.

    Pois bem:

    alma forte e coração sereno!… Quem isso tem, entra na salamanca,
    toca o condão mágico e escolhe o quanto quer…

    Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! Entra!
    Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer torcida de
    candeia… e tramado nele corre outro vento frio… que corta como
    serrilha e geada.

    Não há ninguém lá dentro… mas bem que se escuta voz de gente,
    vozes que falam… falam, mas não se entende o que dizem, porque são
    línguas atroadas que falam, são os escravos da princesa moura, os
    espíritos da teiniaguá… Não há ninguém… não se vê ninguém: mas
    há mãos que batem. como convidando, no ombro do que entra firme, e
    que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo…

    Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá
    dentro assim, podes então querer e serás servido!

    Mas governa o pensamento e segura a língua: o pensamento
    dos homens é que os levanta acima do mundo, e a sua
    língua é que os amesquinha…

    Alma forte e coração sereno!… Vai!

    Blau, o guasca,

    apoiou-se; meneou o flete e por de seguro ainda pelo cabresto
    prendeu-o a um galho de camboim que verga sem quebrar-se; rodou as
    esporas para o peito do pé; aprumou de jeito o facão;
    santiguou-se, e seguiu…

    Calado fez; calado entrou…

    O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra
    na sombra da reboleira.

    O silêncio que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas:
    metia medo…

    VII

    Blau Nunes foi andando.

    Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa
    da ramaria que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro…

    Andou mais, num corredor dumas braças: mais, ainda;
    sete corredores ancião deste.

    Blau Nunes foi andando.

    Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu.
    Sempre escuro. Sempre silêncio.

    Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.

    Numa cruzada de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam,
    tinir de muitas espadas, seu conhecido.

    Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.

    Grupos de sombras com feitio de homens pelavam de morte; nem pragas
    nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas
    iam talhando umas nas outras, no silencio.

    Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto
    de face branca e tristonha — Alma forte, coração sereno…

    E meteu o peito por entre o espinheiro, sentiu o corte delas, o fino
    das pontas, o redondo dos copos… mas passou, sem nem olhar aos
    lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.

    Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.

    Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o
    rangido do cabrestilhos das suas esporas.

    Blau Nunes foi andando.

    Andando numa luz macia, que não dava sombra como os caminhos dum
    cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e
    ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe
    aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente,
    patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando,
    numa fúria…

    E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras
    roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros
    que p’ra traz iam ficando e morrendo sem eco…

    As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas
    que, certo o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros,
    sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante… adiante…

    A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela…

    Blau Nunes foi andando.

    Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de
    ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos
    outros, muitos, derreados , como numa preguiça; pelo chão caídas,
    partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando,
    tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança,
    alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado,
    outras em saracoteio…

    Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal
    da cruz;… porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e
    passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas
    juntas bolorentas.

    As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra
    vez os ombros…

    Blau Nunes foi andando.

    O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem
    aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de
    passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas
    de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvái; e
    repuxos d’água saídos das paredes batiam nele e referviam, chiando,
    fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e
    fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão…

    Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço
    das labaredas.

    As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer—
    muito bem!—

    Blau Nunes foi andando.

    Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no
    silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém já
    se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e
    caminho um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão
    uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.

    Era boicininga, guarda desta passajem, que levantava a cabeça
    flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no
    vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo…

    Das duas prezas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de
    soberano, pingava uma gota escura que era a peçonha sobrante por um
    muito jejum de mortandade, lá fora…

    A boicininga — a cascavel amaldiçoada — toda se meneava,
    chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua,
    como por prova…

    Uma serenada de suor minou na testa do paisano… porém ele meteu o
    peito e passou, vencendo sem olhar, a boicininga altear-se e
    descair, chata e tremente… e passou, ouvindo o chocalho da que não
    perdoa, o silbido da que não esquece…

    E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera
    sem temer — de alma forte e coração sereno — logo então as mãos
    voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais
    chegadas os ombros.

    Blau Nunes foi andando.

    Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce
    que ele não conhecia; em toda a volta arvores enfloradas e
    estadeando frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre;
    veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava
    os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta
    de samambaias, um olho d'água, que saía em toalha e logo corria em
    riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areião solto, palhetado
    de malacachetas brancas, como uma farinha de prata…

    E logo uma roda de moças — cada qual que mais cativa! — uma ronda
    alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau,
    gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia…

    Vestiam-se em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas,
    outras na própria cabeleira solta…; estas chegavam-lhe à boca
    caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando
    entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro
    marcado como por música… outras lá, acenavam-lhe para a lindeza
    dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite
    aberto e ardiloso…

    Porém ele meteu o peito e passou, com as frontes golpeando, por
    motivo do ar malicioso que seu bofe respirava…;

    Blau Nunes foi andando.

    Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões,
    cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em
    piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como
    aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis
    para rostos de gente…

    Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar
    de riso no canto dos olhos…

    E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.

    E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e
    branca, que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro — sem
    corpo — e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho;
    e tomou-lhe a mão.

    E Blau Nunes foi seguindo.

    Por detrás de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia
    um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente,
    fogueando cores como as do arco-íris, estava uma velha, carquincha e
    curvada, e como tremendo de caduca.

    E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e
    atava em nós que se destorciam, ficando sempre linheira.

    — Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!

    — Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.

    E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou
    a varinha para o ar; logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva
    de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas
    cairia. E disse:

    — Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei…
    Paisano, escolhe!

    Para ganhar a parada em qualquer jogo;… de naipes, que as mãos
    ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam,
    do osso, que se sopesa, da rifa… queres?

    — Para tocar a viola e cantar… amarrando nas cordas dela o
    coração das mulheres que te escutarem…, e que hão de sonhar
    contigo, e ao teu chamado irão — obedientes, como aves varadas pelo
    olhar das cobras — deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos,
    ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos…
    queres?

    — Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido…

    — Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim
    poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos
    que aborreceres;… e saber simpatias fortes para dar sonhos ou
    loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e
    espumar os ossos… ou para ligar apartados, achar cousas perdidas,
    descobrir invejas…; queres?

    — Não!

    — Para não errar o golpe — de tiro, lança ou faca — em teu
    inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro
    ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso…; queres?

    — Não!

    — Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pelo;
    … queres?

    — Não!

    — Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de
    sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no
    ouro, figuras no mármor’… queres?

    — Não!

    — Pois que em sete poderes te não fartas nada te darei, porque do
    que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!

    Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou
    no queria dizer e não podia e que era assim:

    —Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!… És
    tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de
    mim, em volta de mim, superior a mim… Eu te queria a ti,
    teiniaguá encantada!…

    Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha,
    caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.

    Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho;
    e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas,
    tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia
    entrado, sem engano.

    E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao
    longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado,
    o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro
    prateado, que era a água do arroio.

    Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder;
    dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.

    E pensou que tendo tido oferta de muito não lograria nada por
    querer tudo;… e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.

    Votou-se para entrar de novo… mas bateu co’o peito na parede dura
    do serro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos… e nenhuma
    floresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde
    escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse
    porte de homem!…

    Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea
    apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca
    e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:

    — Nada quiseste; tiveste alma forte e coração sereno, tiveste, mas
    não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua:…

    Não te direi se bem fizeste ou mal.

    Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente,
    que te dou.

    É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ele te dará
    tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma e nunca mais que
    uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!

    E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra
    na sombra da reboleira…

    Blau Nunes meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.

    O sol tinha cambado e o Serro do Jarau já fazia sombra comprida
    sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.

    VII

    Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira chão
    tendo como porta um couro —, Blau rumeou para uma venda grande que
    sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum
    tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada
    mandou botar uma bebida.

    Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e
    o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão
    desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu…

    E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro do afogado.

    Calado, montou de novo, retirando-se.

    No caminho foi pensando nas todas cousas que carecia e que iria
    comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas
    botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava
    tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se
    aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de
    entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais
    ainda, outras e outras que seu desejo fosse despencando?!…

    Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera
    durante o dia, apenas do boi barroso, que campeiou e não achou; e no
    seguinte, logo cedo saiu a campeiar a prova do prometido.

    Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma
    adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas
    e um rebenque de argolão.

    Toda a compra passava de três onças.

    E Blau, as frontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe
    fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada,
    todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau
    remendado começou a gargantear a guaiaca… e caiu uma onça… e
    outra… e outra!… As quatro, que por agora eram tão de jeito!…

    Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas,
    porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma…

    Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas como homem avisado,
    não falou do acontecido.

    No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e
    de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que
    ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas,
    tendo o cuidado para não querer nada de cortar, só peças inteiras,
    que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um
    feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou
    a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados p’ra menos.

    E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a
    gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça… e
    segunda… outra… e quarta, mais outra, e sexta… e assim de uma
    em uma, as quinze necessárias!

    O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão conforme vinham
    minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse,
    entre risonho e desconfiado:

    — Cuê-pucha!… cada das onça das suas parece que é um pinhão,
    que é preciso descascar à unha!…

    No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a
    tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e
    como facilitou o preço, fechou-se o trato.

    Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada iam fazendo mover-se os
    animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe
    agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu
    fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o
    bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe,
    tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.

    Olho de campeiro não errou vez alguma na escolha e trinta cavalos,
    a flor, foram apartados custando quarenta e cinco onças.

    E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para
    a sombra duma figueira que havia na bira da estrada.

    Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiado,
    começou a gargantear a guaiaca… e foi logo aparando onça por onça,
    uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta,
    quarenta e cinco!…

    O vendedor, estranhando aquela novidade e demora,
    não se conteve e disse:

    —Amigo! As suas onças parecem todas de gerivá, que só cai
    uma de cada vez!…

    Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.

    Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças,
    aquerenciando.

    O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.

    Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a
    aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!…

    Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha
    de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo…

    O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou,
    sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele
    ainda aparando onça traz onça…

    Ao escurecer estava completo o ajuste.

    Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por
    ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as
    chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão… E também
    era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre,
    valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra
    e nunca ao menos duas, acolheradas!…

    Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para
    ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério…

    Mistério para o próprio Blau… muito rico… muito rico… mas de
    onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez… como
    pinhão da serra, que só descasca de um a um!…

    Mistério para Blau, muito rico… muito rico… mas todo dinheiro
    que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que
    lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro,
    desaparecia como desfeito em ar…

    Muito rico… muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram
    para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca,
    e elas começavam a pingar;… mas nem uma das que recebia lhe
    ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente…

    IX

    Então começou a corre um boquejo de ouvido para ouvido… e era que
    ele tinha parte com o diabo, e que o dinheiro dele era maldito
    porque, todos com quem tratava e recebiam das suas onças, todos
    entravam ao depois a fazer maus negócios e todos perdiam em
    prejuízos exatamente a quantia igual à de suas mãos recebida.

    Ele comprava e pagava e pagava à vista, é certo; o vendedor contava
    e recebia, é certo, mas o negócio empreendido por esse valor
    era prejuízo, garantido.

    Ele vendia e recebia, é certo; mas o valor recebido, que ele
    guardava e rondava sumia-se como um vento, e não era roubado nem
    perdido; era sumido, por si mesmo…

    O boquejar foi alastrando, e já diziam que aquilo, por certo, era
    mandinga arrumada na salamanca do Jarau, onde ele foi visto mais de
    uma feita… e que lá é que se jogava a alma contra a sorte…

    E os mais vivarachos já faziam suas madrugadas sobre o Jarau; outros
    mais sorros, p’ra lá tocavam-se ao escurecer; outros, atrevidaços
    iam à meia-noite, outros ainda ao primeiro cantar dos galos…

    E como nesse carreiro de precatados cada um fazia por ir de mais
    escondido, sucedeu que como sombras se pechavam entre as sombras das
    reboleiras, sem atinar co’a salamanca, ou sem topete para, na
    escuridão, quebrar aquele silêncio, chamando o santão,
    num grito alto…

    No entanto, Blau começou a ser tratado de longe, como
    um chimarrão rabioso…

    Já não tinha com quem pautear; churrasqueva solito, e mateava,
    rodeado dos cachorros, que uivavam, às vezes um, às vezes todos…

    A peonada foi saindo e conchavando-se noutras partes; os negociantes
    nada compravam-lhe e negaceavam para vender-lhe; os andantes
    cortavam o campo, para não pararem em seus galpões…

    Blau deu em cismar, e cisma foi que resolveu acabar com aquele
    cerco de isolamento, que o ralava e esmorecia…

    Montou a cavalo e foi ao serro. Na trepada sentiu nos dois lados
    barulho nos bamburrais e nas restingas, mas pensou que seria alguma
    ponta de gado chucro que disparava e não fez caso; foi trepando, nem
    guaraxaim corrido, nem tatu vadio; era gente, que se escondia
    uns dos outros e dele…

    Assim que chegou à reboleira do mato, tão sua conhecida e recordada,
    e como chegou, deu de cara com o vulto de face branca e tristonha, o
    sacristão encantado, o santão.

    Ainda desta vez, como era ele que chegava, a ele competia louvar;
    saudou, como da outra:

    — Laus’ Sus’ Cris’!…

    — Para sempre, amém! respondeu o vulto.

    Então Blau, de a cavalo, atirou-lhe ao* pés a onça de ouro, dizendo:

    — Devolvo! Prefiro a minha pobreza dantes à riqueza desta onça, que
    não se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque nunca
    tem parelha e separa o dono dos outros donos de onças!… Adeus!
    Fica-te com Deus, sacristão!

    — Seja Deus louvado! disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos
    postas, como numa reza.

    Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano, e com ele
    quebraste o encantamento!… Graças! Graças! Graças!…

    E neste mesmo instante, que era o da terceira vez que Blau saudava
    no Nome Santo, neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que
    retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Serro do Jarau, tremeu de
    alto a baixo, até as suas raízes, nas profundas da terra, e logo em
    cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu aprumo-se,
    brilhou, apagou-se uma língua de fogo, alta como um pinheiro,
    apagou-se e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes, que o
    vento ia tocando para longe, por cima do encordoado das coxilhas,
    sem rumo feito, porque a fumaceira inchava e desparramava-se no ar,
    dando voltas e contravoltas, torcendo-se, enroscando-se em altos e
    baixos, num desgoverno, como uma tropa de gado alçado, que espirra e
    se desmancha como água passada em regador…

    Era a queima dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.

    Sobre as caídas do Serro levantou-se um vozerio e tropel: eram os
    maulas que andavam rastreiando a furna encantonada e que agora
    fugiam desguaritados, como filhotes de perdiz…

    X

    Para os olhos de Blau o serro ficou como vidro transparente, e então
    viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os
    esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e
    enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas que
    subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados
    de fumaça… e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se
    confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço
    empenachado do serro.

    Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá… e a
    teiniaguá na princesa moura… a moura numa tapuia formosa;… e
    logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão
    de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado…

    E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das
    outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e lugar distante,
    aquele par, juntado e tangido pelo Destino,10 que é o senhor de todos
    nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu as costas ao
    seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea
    limpa, plana e verde, serena e amornada pelo sol claro, toda bordada
    de boninas amarelas, de bibis roxas, e malmequeres brancos, como uma
    cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria,
    a caminho de repouso!…

    Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma
    cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea
    e despacito foi baixando a encosta do serro, com o coração aliviado
    e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde…

    E agora estava certo de que era pobre como dantes que comeria em paz
    e seu churrasco…; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta,
    em paz a sua vida!…

    ————————————————————-

    Assim acabou a salamanca do Serro do Jarau, que aí durou duzentos
    anos,11 tantos se contam desde o tempo das Sete Missões,
    em que estas cousas principiaram.

    Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto. Dizem que
    desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que
    a teiniaguá era mulher…

    *Elucidação*

    *1 Serro do Jarau* —Na Coxilha Geral de Sant’Ana, sobre a linha
    divisória com a República do Uruguai.

    Fica um pouco ao N. da cidade de Quaraí, em campos da família
    Assumpção, de Pelotas. É o ponto culminante (…metros) daquela
    zona, sendo avistado de muito longe. No fim da guerra do
    Farrapos (1845) notaram-se sobre o espigão do Serro, e parecendo
    dele sair, grossos rolos de fumaça. É essa a primeira notícia
    que há do fenômeno.

    Outras combustões registraram-se depois, notadamente por 1904,
    em que se disse mesmo que havia expulsão de vapores ígneos.

    *2 Salamanca* —Furna encantada; provém a denominação da cidade
    de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre
    escola de magia, no tempo dos Mouros. A seguir a tradição local,
    o célebre caudilho Bento Manoel deveu a sua sorte guerreira,
    política, de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do
    Jarau. Antes dele, alguns, mas depois, nenhum outro aí obteve
    mais nada, desde — “que o serro pegou fogo” — quando acabou
    o encantamento.

    *3 Laus’ Sus’ Cris’!* —Forma abreviada e estranha, é certo,
    porém expressiva da saudação — Louvado seja Jesus Cristo!
    Ouvimo-la inúmeras vezes, em nossa infância.

    *4 Boi barroso* —É a vaga relembrança de um boi encantado, que
    aparecia porém nunca era encontrado por mais procurado que
    fosse; e também denominação de uma antiga dança camponesa, cuja
    música era ornada de versos que eram cantados durante
    o folguedo.

    *5 Anhangá-pitã* — Literalmente, do tupi-guarani: diabo
    vermelho.

    *6 Teiniaguá* — Idem: lagartixa. A teiniaguá encantada também
    era chamada — carbúnculo, farol — e trazia engastada na cabeça
    “uma pedra preciosa que cintilava como brasa e de cor
    de rubim…

    Semelhante animal nunca puderam apanhar nem vivo nem morto,
    porque por suas irradiações desvia os olhos e mãos dos
    perseguidores”. (Rev°. C. Teschauer, S. J. na Rev. do
    Instº. do Ceará, 1911).

    *7 Zaorís* — V. adiante a lenda referente.

    *8 Charruas* — Tribo guerreira, indômita, acantonada sobre a
    Coxilha de Aedo, e dominando o rio Quaraí até o Uruguai e para
    L. até o rio Negro. As guerras e contínuas correrias que desde
    1750 até mais de um século depois afligiram o Rio Grande e o
    Estado Oriental dizimaram esta tribo (como a outras) hoje por
    bem dizer, extinta. Desse quase acabamento e a deturpação das
    lendas que entre tais gentes floresceram.

    *9 Cidade de Santo Tomé* — Na Argentina; sobre o Uruguai, entre
    o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de S. Borja.
    “Destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos,
    estabeleceram-se os missionários primeiro no centro do Rio
    Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí. Mas só por poucos
    anos. Mais tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos,

    refugiaram-se uns para as hodiernas Sete Missões, os outros para
    a margem direita do Uruguai, encorporando-se à redução de Santo
    Tomé, de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome,
    quase em frente de S. Borja”. (Revo. C. Teschauer, citado)
    Existe no arrabalde de S. Tomé a famosa sanga, que aponta como
    prova do acontecimento e poder da teiniaguá encantada.

    *10 ,… tangido pelo Destino* — É característico este traço no
    indivíduo rio-grandense, que até por hábito doméstico emprega
    como vulgares as expressões — sorte, destino, fado — Na gente
    inculta torna-se curiosa a indistinta veneração prestada ao
    divino e ao diabólico, como forças superiores que atuam
    sobre os homens.

    *11 …aí durou duzentos anos, etc.* — Coincide com a
    lamentação do sacristão encantado a era do período do mais calmo
    das missões sobre o rio Uruguai, 1650, em que formou-se a lenda.

    *O NEGRINHO DO PASTOREIO*
    _A Coelho Netto_

    _Pelotas — 1 de janeiro, 1907_

    _Meu caro patrício Sr. J. Simões Lopes Netto._

    _Venho agradecer-lhe a dedicatória da lenda “O Negrinho do
    pastoreio” publicada no Correio Mercantil” de 26 de dezembro. Já
    conversamos sobre a necessidade que, todos quantos nos interessamos
    pela tradição temos de coligir as trovas e narrativas do velho
    tempo. Elas representam o sonho dos que passaram, são a bem-dizer o
    rastro das almas. Entendem muitos escritores que devem corrigir a
    afabulação e a forma de tais relíquias tirando-lhe o caráter
    ingênuo, o sabor suave que elas trazem de origem. O meu amigo não
    incorreu em tal culpa—procedeu como o file celta que, chamado para
    referir aos da “clan” as histórias dantanho, dizia-as repetindo com
    respeitosa observância da tradição tal como as ouvira dos maiores. E
    o que, sobretudo encanta no lindo raconto que me ofereceu, no qual
    transparece bem a alma do povo pastoral, é a simplicidade.— Lendo-a
    tive a impressão de estar ouvindo contada, em tom lento, por uma
    dessas velhinhas que são as conservadoras de muito primor da Poesia
    popular, tão rica em nossa pátria e tão desestimada._

    _Reiterando os meus agradecimentos peço-lhe que continue a
    respigarem tão rica seara trazendo-nos outros presentes como o que
    me ofereceu com tanta generosidade._

    _Muito seu agradecido_

    _Coelho Neto_

    O NEGRINHO DO PASTOREIO

    Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem
    divisas nem cercas; somente numas volteadas se apanhava uma gadaria
    chucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos…

    Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de
    onças e meias doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla
    e muito mau, muito.

    Não dava posada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no
    inverno o fogo de sua casa não fazia brasas, as geadas e o minuano,
    podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a
    sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora
    bebia água das suas cacimbas.

    Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de boa
    vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de
    conchavar-se com ele, porque só dava para comer um churrasco de
    tourito magro, farinha grossa e erva caúna e nem um naco de fumo…
    e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira que parecia que
    era o seu próprio couro que ele estava lonqueando…

    Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino
    cargoso como uma mosca, para um baio de cabos negros, que era o seu
    parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito
    bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam
    somente o —Negrinho.

    A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia
    afilhado da Virgem, Senhora nossa, que é a madrinha
    de quem não a tem.

    Todas as madrugadas o Negrinho galopeava parelheiro; depois conduzia
    aos avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino,
    que o judiava e se ria.

    ***

    Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreia com um
    seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro
    que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que
    ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada,
    mil onças de ouro.

    No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente
    como em festa de santo grande.

    Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão
    perfeito era e bem balançado cada um dos animais. Do baio era fama
    que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas
    crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as
    patas baterem no chão… E do mouro era voz que quanto mais cancha,
    mais agüente, e que desde a largada ele ia ser como um laço
    que se arrebenta…

    As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam
    aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

    — Pelo baio! Luz e doble!…

    — Pelo mouro! Doble e luz!…

    Os corredores fizeram suas partidas à vontade e depois as obrigadas;
    e quando foi a última na última, fizeram ambos sua senha e se
    convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os
    parelheiros menando cascos, que parecia uma tormenta…

    — Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por
    onde passava a parelha veloz, compassada como n’uma colhéra.

    — Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se o
    sete léguas perde meu senhor me mata! Hip! hip! hip!…

    E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.

    —Se o corta-vento ganhar é só para os pobres! retrucava o outro
    corredor. Hip! hip!

    E cerrava as esporas no mouro.

    Mas os fletes corriam compassados como numa colhéra. Quando foi na
    última quadra, o mouro vinha arrematado e baio vinha aos tirões…
    mas sempre juntos, sempre emparelhados.

    E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de
    sopetão, pôs-se em pé e fez uma cara-volta,, de modo que deu ao
    mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E
    o Negrinho, de em pelo, agarrou-se como um ginataço.

    —Foi mal jogo! gritava o estancieiro

    —Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.

    A gauchada estava dividida: mais de um toreana coçou o punho da
    adaga, mais de desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas
    para o peito do pé… Mas o juiz, que era um velho do tempo da
    guerra de Sapé-Tiaraiú, era um juiz macanudo, que já tinha visto
    muito mundo. Abanado a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem.

    —Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio,
    ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem
    gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

    Não havia o que alegar. Despeitado e furioso o estancieiro pagou a
    parada, à vista de todos atirando as mil onças de ouro sobre o
    poncho do seu contrário, estendido no chão.

    E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou
    distribuir tambeiros e leiteiras, covados de baetas e baguais e deu
    de resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras
    seguiram com os changueiros que havia.

    ***

    O estancieiro retirou-se para sua pobre casa e veio pensando,
    pensando, calado, em todo caminho. A cara dele vinha lisa, mas o
    coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado e meia
    espalda… O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

    E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos
    pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

    Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha
    falou assim:

    — Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta
    dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de tordilhos
    negros… O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

    O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

    Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho,
    varado de fome e já sem força nas mãos, enleiou a soga num pulso e
    deitou-se encostado a cupim.

    Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar e
    todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E
    uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem
    barulho nas asas.

    O Negrinho tremia, de medo… porém de repente pensou na sua
    madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

    E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o
    Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três Marias; a
    estrela d’alva subiu… Então vieram os guaraxains ladrões e
    farejaram o Negrinho, e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-
    se solto rufou a galope, e toda tropilha com ele, escaramuçando no
    escuro e desaguaritando-se nas canhadas.

    O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram,
    dando berros de escárnio.

    Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se
    enxergava: era a cerração que tapava tudo.

    E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

    ***

    O menino malévola foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não
    estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos
    pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho.

    E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o
    perdido. Regulando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua
    madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de
    vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.

    Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas
    restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando
    cera benta no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram
    tantas que clareavam a terra e as manadas chucras não disparavam…
    Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos
    relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por
    diante a tropilha, até coxilha que o seu senhor lhe marcara.

    E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu…

    Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo
    instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua
    madrinha, o negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas
    agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos
    maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou
    os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e
    desguaritando-se nas canhadas.

    O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai
    que os cavalos não estavam lá…

    E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

    ***

    O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um
    palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho… dar-lhe até ele
    não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo
    escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e
    Nossa Senhora, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma
    música, e pareceu que morreu…

    E como já e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o
    estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um
    formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o
    sangue e os ossos… E assanhou bem as formigas; e quando elas,
    raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo,
    é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

    Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e
    que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes
    mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um
    formigueiro pequeno…

    Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros
    e a casca das frutas.

    Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto.

    E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o
    mesmo sonho.

    ***

    A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha
    e nem rastro.

    Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava
    do corpo escravo.

    Qual não foi o seu grande espanto, quando chagado perto, viu na boca
    do formigueiro o Negrinho de pé com a pele lisa, perfeita, sacudindo
    de si as formigas que o cobriam ainda!… O Negrinho, de pé, e ali
    ao lado o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta
    cordilhos… e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho,
    o estancieiro viu a madrinha dos que não a tem, viu a Virgem, Nossa
    Senhora, tão serena, posada na terra, mas mostrando que estava no
    céu… Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

    E o negrinho, sarado e risonho, pulando de em pelo e sem rédeas,
    no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

    E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não
    chorou, e nem se riu.

    ***

    Correu no vizindário, a nova do fadário e da triste morte do
    Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

    Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento,
    começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo…

    E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas
    dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que
    cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas,
    mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de
    ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de
    tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pelo,
    em um cavalo baio!…

    Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do
    judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o
    que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só
    entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar
    a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e
    salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia,
    sem ninguém ver.

    ***

    Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido
    em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas
    amigas; a sua tropilha esparramava-se; e um aqui, outro por lá, os
    seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do
    sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho
    monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece
    a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém,
    nem na ponta, nem na culatra.

    ***

    Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho,
    sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as
    restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas
    e desce às canhadas.

    O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de
    jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto
    de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora,
    madrinha dos que não a têm.

    Quem perder suas prendas nos campos, guarde a esperança: junto de
    algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o
    Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo — Foi por aí que eu perdi…
    Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi!…

    Se ele não achar… ninguém mais.

    *ARGUMENTO DE OUTRAS LENDAS MISSIONEIRAS E DO CENTRO E NORTE DO
    BRASIL.*

    *MISSIONEIRAS*

    *1*
    *A mãe do ouro*

    O que é hoje serra de pedra já foi gente vivente: foi gente num
    tempo antigo, e por um castigo do céu, escureceu de repente e caída
    ficou onde estava…

    Onde estavam sozinhos ficaram serros e serrotes; onde estavam
    apinhoscados ficou a serrania encordoada.

    E os ossos aí estão acimentados, em pura pedra virados; a carne que
    os cobria deu terra negra; os cabelos são os matos, matos que bebem
    o sangue, que nos parece a nós apenas cascatinhas e vertentes; os
    lugares ocados que aparecem são os buracos do seu corpo, da sua boca
    e olhos, do seu nariz e ouvidos… As veias deram em ferro, e os
    nervos, como parte delicada, viraram-se ouro e são os veeiros
    amarelos que se entranham por aí abaixo, adentro da crosta, tal e
    qual os nervos estão entranhados na carnadura da gente.

    Mas o que governa tudo, que não se sabe o que é, que é a Alma, que
    não morreu, essa é que é a Mão do Ouro, porque ela não entrou no
    castigo, e que defende os nervos dos castigados, os veeiros da
    fortuna, para que no dia do Perdão cada um ache o que seu é…

    Aí está porque, quando troveja, tantos raios caem sobre sobre certos
    serros e tanto ventarrão esbarra neles:… é a Mãe do Ouro
    que chama socorro…

    Às vezes rebenta um serro destes com estrondo grande; se é de noite,
    no fogo que se vê sair, vai a cuidadeira de mudança para outro; se é
    de dia, é sempre no pino do meio dia, e na luz do sol que encandeia
    os olhos, apenas sente-se o rumo que ela toma, só o rumo, mas não o
    lugar novo em que ela vai fazer morada nova.

    *2*
    *Serros Bravos*

    Dos mortos por seu castigo, alguns não ficaram bem mortos
    e ainda estrebucham, curtindo dores.

    E como ainda estão meio vivos, quando algum vivente quer tirar para
    sua cobiça o ouro — que é os seus nervos e que doem — os Serros,
    esses, enfurecem-se, e por força de encantamentos somem-se, rasos,
    ou atiram de uns para outros, temporais tão medonhos, que eriçam o
    cabelo e prendem o passo dos homens, mesmo os mais desabusados.

    E se eles teimam, morrem.

    *3*
    *A casa de M’bororé*

    Dentro do mato grosso, mato velho e crescido, sem plantas pequenas
    dentro, aí, só há uma luz pouca, tirante a verde e a cinzento: e
    nenhuma árvore faz sombra, porque a ramaria de todas faz peneira
    por onde passa o sol, que nunca enxerga o chão…

    Dentro desse mato, no mais tupido dele, há uma lombada redonda, como
    uma casca de caramburé; aí, em cima dela, há uma casa de pedra
    branca, branca como se encaliçada, e sem porta em nenhum lado nem
    janela em nenhuma altura.

    Dentro da casa branca as salas estão lastradas de barras de ouro e
    barras de prata, do peso que é preciso dois homens para mover cada
    uma; e todas as juntas das pilhas estão tomadas de poeiras finas…

    Por cima de tudo estão, em montes, tocheiros de ouro maciço e
    cálices e resplendores de santos; e salvas de prata
    e turíbulos e cajados.

    Nos corredores, como prontos para içar para as cangalhas das mulas
    de carga, prontos, com as suas alças, estão lotes de surrões,
    socados de moedas de ouro, separadas em porções, metidas
    em bexigas de rês…

    O rondador da casa branca anda dia e noite em redor dela; é um índio
    velho, cacique que foi, M’bororé, de nome, amigo dos santos padres
    das Sete Missões da serra que dá vertentes para o Uruguai.

    Os padres foram tocados p’ra longe, levando só a roupa do corpo…
    mas a casa branca já estava feita, sem portas nem janelas… e
    M’bororé, que sabia tudo e era cacique, de noite, e precatado, com
    os seus guerreiros, carregou de todos os lugares para aquele as
    arrobas amarelas e as arrobas brancas, que não valiam a caça e a
    fruta do mato e a água fresca, e pelas quais os brancos de hoje
    matavam os nascidos aqui, e matavam-se uns aos outros.

    M’bororé desprezava essas arrobas; mas como era amigo dos santos
    padres das Sete Missões, guardou tudo e espera por eles, rondando a
    casa branca, sem portas nem janelas.

    Ronda e espera…

    *4*
    *Zaorís*

    Nosso Senhor Jesus Cristo Louvado Seja Para Sempre! Amém!

    Ele foi preso na quarta-feira, sentenciado na quinta
    e crucificado na sexta.

    E neste mesmo dia de sexta-feira, houve no Céu o julgamento dos
    carrascos de Nosso Senhor, e logo desceu à Terra o arcanjo S. Miguel
    com a ordem de castigar aos judeus; e o arcanjo passou essa ordem
    aos anjos que estavam de guarda à Cruz, onde Nosso Senhor estava
    pregado e morto.

    Enquanto S. Miguel esteve na Terra deixou sobre ela muito brilho da
    sua couraça de couro e das suas armas, e muita ventania das
    suas asas de prata.

    A gente já nascida estava condenada, pelo pecado de ter maltratado e
    morto Jesus Cristo. Mas as crianças ainda não nascidas não podiam
    sofrer castigo, porque não tinham culpa alguma. Porém os anjos da
    guarda da Cruz não sabiam disso e iam castigá-los da mesma forma,
    porque o arcanjo S. Miguel esquecera-se de avisar sobre as crianças
    que nascessem naquela dia, que era justamente o da sentença de Deus.

    Por isso, a Virgem Maria, que sabia do esquecimento de S. Miguel, em
    memória Jesus não deixou os anjos da guarda da Cruz castigarem as
    crianças nascidas nessa Sexta-feira, e então, para diferenciá-las
    das outras, fez um milagre: e mandou que a ventania das asas de
    prata do arcanjo ventasse sobre o olhos dos que fossem nascendo
    nesse dia santo, e ao brilho das armas de ouro,
    que brilhasse sobre eles.

    E desse jeito todos ficaram assinalados e puderam ser diferenciados
    dos nascidos na véspera, e bem diferençados, porque podiam ver
    através a água até o seu fundo e através as muralhas e montanhas
    até o outro lado delas, porque tudo ficou transparente para eles.

    E como a Virgem Maria não disse que subisse outra vez ao céu a
    ventania das asas de prata do arcanjo nem o brilho das suas armas de
    ouro, esse dons ficaram na terra, e em todas as sextas-feiras santas
    procuram os olhos das crianças recém-nascidas, que então ficam com o
    dom de ver no escuro e através qualquer parede de pedra,
    madeira, ou ferro…

    Para esses, nada existe escondido ou enterrado que seus olhos não
    vejam, como os dos outros homens, de dia claro; e isso porque
    nasceram em sexta-feira santa: os Zaorís…*

    * Em relação ao argumento destas lendas — 1. 4 — reportamo-nos ao
    raciocinado estudo do Sr. Pe. C. Teschauer sob o título — Lenda do
    Ouro — (Rev. do Instº. do Ceará, tom. XXV-1911).

    *5*
    *O Angoéra*

    O Angoéra, enquanto foi pagão, chamava-se desse nome; era um índio
    grande, forçudo e valente; mas era triste, carrancudo e calado.

    Quando os Padres de Jesus, entraram no sertão da serra, corridos que
    vinham doutro rumo, foi Angoéra, o tapejara, que conduziu sem erro a
    companhia; e quando os padres sentaram pouso, batizou-se.

    E foi padrinho M’bororé, que era cacique e já amigo, muito, dos
    padres. O nome de Angoéra, pagão, ficou sendo Generoso,
    nome cristão.

    E foi como cobra que deixa a casca…

    Angoéra, que era triste, deixou a casca da tristura, e como
    Generoso, nome bento ficou prazenteiro.

    E ajudou a botar pedra no alicerce de todas as igrejas dos Sete
    Povos. E durou anos, esse ofício!… E ele sempre risonho
    e cantador.

    Um dia, chamou o padre-cura, confessou-se e foi ungido
    de óleo santo e morreu.

    Generoso morreu contente, pois a cara do seu cadáver guardou ar de
    riso; e foi muito chorado, porque tinha a estima de todos, por ser
    mui prazenteiro e brincador.

    De forma que a sua alma saiu-lhe do corpo, de jeito alegre; e então,
    invisível, entrava nas casas dos conhecidos, passeava nos quartos e
    salas, e para divertir-se fazia estalar os forros do teto e os
    barrotes do chão, e também os trates novos, e os balaios de vime
    grosso; e se achava dependurada uma viola, fazia sonar o
    encordoamento, para alegrar-se com a lembrança das suas cantigas, de
    quando era vivo e cantava…

    Outras vezes assobiava nas juntas das portas e janelas, espiando por
    elas os moradores da casa; e quando os homens, rodeavam a candeia,
    pitando, ou as crianças, brincando, ou as donas costuravam ou faziam
    nhanduti, o Generoso, — a alma dele, p’r’o caso — soprava
    devagarzinho sobre a chama da luz, fazendo-a requebrar-se e
    balançar-se, que para a sombra das cousas também mudar
    de estar quieta…

    E muitas vezes — até o tempo do Farrapos —, quando se dançava o
    fandango nas estâncias ricas ou a chimarrita nos ranchos do
    pobrerio, o Generoso intrometia-se e sapateava também, sem ser
    visto; mas sentiam-lhe as pisadas, bem compassadas no rufo das
    violas… e quando o cantador do baile era bom e pegava bem de
    ouvido, ouvia, e por ordem do Generoso repetia esta copla, que ficou
    conhecida como marca de estância antiga: sempre a mesma…

    “Eu me chamo Generoso,
    “Morador em Pirapó:
    “Gosto muito de dançar
    “Co’as moças de paletó…”

    …………………………………………………….

    *6*
    *Mãe mulita*

    — O tatu, mais a mulita,
    — É lei da sua criação:
    — Sendo macho, não pode ter irmã;
    — Sendo fêmea, não pode ter irmão.
    _(Cancioneiro Guasca.)_

    Este bicho foi mandado ficar assim desde que o rei dos judeus mandou
    matar duas mil crianças e a Virgem Maria fugiu para o Egito, para
    salvar o Menino Jesus, fugindo num carro pequeno,
    puxado por um burro petiço…

    A certa altura do caminho a comitiva foi alcançada por uma comitiva
    do rei, com ordem de matar o Menino e algemar seus pais; porém Nossa
    Senhora, com os seus rogos e lágrimas conseguiu abrandar o centurião
    que comandava; e deu-lhe de presente, o burro.

    Depois a Virgem Maria e S. José, com muito custo, lá foram
    empurrando o carro onde ia dormindo, muito sossegado, o Menino
    Jesus. E foram andando… andando… andando…

    A escolta já ia seguir seu caminho, de volta, porém parou, porque o
    burro tinha-se empacado… Embalde o centurião chicoteou o animal;
    depois bateu-lhe com o pau da lança; depois com a bainha do espadão;
    nada!… o burro, sempre empacado!…

    Os soldados todos, um por um, espancaram-no: o burro,
    sempre empacado!…

    Todos os soldados juntos e ao mesmo tempo, espancaram-no; o burro
    sempre empacado!…

    Então o centurião ficou furioso, dizendo-se enganado pela Virgem,
    que lhe dera tão ruim animal. E resolveu perseguir e prender os
    fugitivos, para seu castigo.

    A Virgem e S. José não viram o que atrás deles se passava, somente
    ouviam o rumor das pancadas que os soldados davam no burro e as
    blasfêmias do centurião… E assustados, apuravam as forças,
    empurrando o carrinho.

    Então o Menino Jesus acordou-se e teve fome; mas com muito cansaço e
    sofrimentos, o seio de Maria não apojou…

    Ele chorava, de pesar… e o Menino pegou a chorar, de fome…

    Nisto apareceu uma mulita e Nossa Senhora disse-lhe:

    — Mulita, se tens filhos, dá-me uma gota do leite para o meu
    filho!…

    E a mulita parou-se e deu a gota de leite; mas era muito pouco
    e o Menino continuou chorando, com fome…

    Nossa Senhora chorou de pesar e tornou a dizer:

    — Mulita, chama tuas filhas, para cada uma dar uma gota de leite
    para o meu filho!…

    — Senhora Virgem, respondeu a mulita, minha ninhada é grande, porém
    nele as filhas são poucas…

    E chamou as suas poucas filhas, e cada uma deu uma gota de leite
    para acalmar a fome do Menino, que calou-se, farto.

    Depois cada mulitinha tomou seu rumo, no deserto; só ficou
    a mulita mãe, acompanhando.

    Quando iam já muito longe, avistaram a escolta que vinha em
    sua perseguição; e à frente, ameaçador, o centurião!…

    Então a Virgem, muito aflita, disse:

    — Mulita, dá-me a tua força, para puxar o carro do meu filho!…

    E a mulita puxou; mas era tão pouca sua força, que o carro quase
    nada adiantava.

    E a escolta cada vez mais perto!…

    E Nossa Senhora chorou, de medo, e tornou a dizer:

    — Mulita, chama os teus filhos, para darem a sua força e correrem,
    puxando o carro do meu filho!…

    — Senhora Virgem, respondeu a mulita, a minha ninhada é grande,
    porém nela os filhos são poucos…

    E chamou os seus poucos filhos, que começaram a correr, puxando
    o carrinho, do Menino Jesus…

    E a escolta cada vez mais perto!…

    Mas o carro, agora puxado pelos filhos da mulita ia
    sempre andando depressa.

    Mas os cavalos são maiores que as mulitas e por isso vencem mais
    terreno… e já a escolta estava perto… perto…, quando levantou-
    se um medonho temporal de areia, que obrigou e o centurião a
    dispersarem-se entre gritos de raiva…

    Então, quando viram que o Menino estava salvo, cada mulitanho tomou
    seu rumo no deserto; só ficou a mulita mãe, acompanhando.

    Então Nossa Senhora tornou a dizer:

    — Mulita, em memória das gotas de leite das tuas filhas, em memória
    da força dos teus filhos, deste dia em diante, de cada vez que deres
    ninhada, será sempre ou só de fêmeas ou só de machos!…

    E a mulita respondeu:

    — Pois que assim seja a vossa vontade, Senhora Virgem! Porém eu
    peço que ordeneis que o mesmo seja para a minha boa comadre, a
    tatua…

    — Pois será, também!

    Então a mulita tomou seu rumo, no deserto, e foi levar a nova a sua
    comadre tatua, que ficou muito contente…*

    * O argumento destas duas lendas — 5, 6 — está desenvolvido
    baseado na tradição longínqua, e é de notar a acomodação bizarra dos
    elementos do seu entrecho.

    *7*
    *São Sepé*

    “*Arroio S. Sepé* — no município de Caçapava; nasce a coxilha de
    Babiroquá e deságua no Vacacaí. *Deve o nome, que lhe foi posto
    pelos Jesuítas, ao célebre chefe índio José Tiaraiú, conhecido por
    Sepé*, vencido e morto na batalha de 7 de fevereiro de 1756, no sopé
    da Coxilha de Sta. Tecla, perto de Bagé.

    Era à margem deste arroio que existia a sepultura do referido índio,
    indicada por uma grande cruz de madeira, com uma inscrição — *meio
    em latim, meio indiático* —, que quer dizer o seguinte:

    † Em Nome de Todos os Santos †
    No ano de Cristo Jesus de 1756
    A 7 de Fevereiro
    morreu combatendo
    O grande chefe guarani Tiaraiú
    em um sábado santo
    † Subiu ao Céu dias antes do que †
    o grande chefe da taba do Uruguai que morreu
    em 10 de fevereiro em quarta-feira
    combatendo contra um exército
    de 15000 soldados.
    † Aqui enterrado †
    A 4 de Março
    mandou levantar-lhe esta cruz
    o padre D. Miguel
    Descansa em paz
    †

    “Conforme a homenagem
    prestada pelos Jesuítas
    na inscrição e na
    denominação do arroio, e
    não havendo no calendário
    católico santo de nome —
    Sepé — temos de concluir
    que as virtudes, o mérito
    do grande chefe índio
    foram forais para a sua
    estranha — canonização —
    no entretanto perdurável e
    popularizada.

    Foi sob tal aspecto que
    recordamos aqui este curioso fato
    ……………………”
    _(Cancioneiro Guasca)_.

    ————————————————————-

    *O Lunar de Sepé*

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    Mandaram por serra acima
    Espantar os corações;
    Que os Reis Vizinhos queriam
    Acabar com as Missões,
    Entre espadas e mosquetes
    Entre lanças e canhões!…

    Cheiravam as brancas flores
    Sobre os verdes laranjais;
    Trabalhavam-se na folha
    Que vem dos altos ervais;
    Comia-se das lavouras
    Da mandioca e milharais.

    Ninguém a vida roubava
    Do semelhante cristão
    Nem a pobreza existia
    Que chorasse pelo pão;
    Jesus Cristo era contente
    E dava sua benção…

    Por que vinha aquele mal,
    Se o pecado não havia?
    O tributo se pagava
    Se o vizo-rei pedia,
    E, até sangue se mandava
    Na gente moça que ia…

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham,
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    Os padres da encomenda
    Faziam sua missão:
    Batizando as criancinhas,
    E casando, por união,
    Os que juntavam os corpos
    Por força do coração…

    Do sangue dum grão Cacique
    Nasceu um dia um menino,
    Trazendo um lunar na testa,
    Que era bem pequenino:
    Mas era — cruzeiro — feito
    Como um emblema divino!…

    E aprendeu as letras feitas
    Pelos padres, na escritura;
    E tinha por penitência,
    Que a sua própria figura
    De dia, era igual às outras…
    E diferente, em noite escura!…

    Diferente em noite escura,
    Pelo lunar do seu rosto,
    Que se tornava visível
    Apenas o sol era posto;
    Assim era — Tiaraiú —,
    Chamado — Sepé, — por gosto.

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    Cresceu em sabedoria
    E mando dos povos seus;
    Os padres o instruíram
    Para o serviço de Deus
    E conhecer a defesa
    Contra os males do ateus…

    Era moço e vigoroso,
    E mui valente guerreiro:
    Sabia mandar manobras
    Ou no campo ou no terreiro;
    E na cruzada dos perigos
    Sempre andava de primeiro.

    Das brutas escaramuças
    As artes e artimanhas
    Foi o grande Languiru
    Que lh’ensinou; e as façanhas,
    De enredar o inimigo
    Com o saber das aranhas…

    E, tudo isto, aprendia;
    E tudo já melhorava,
    Sepé — Tiaraiú, chefe
    Que o Sete Povos mandava,
    Escutado pelos padres,
    Que cada qual consultava.

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    E quando a guerra chegou
    Por onde os Reis de além,
    O lunar do moço índio
    Brilhou de dia também,
    Para que os povos vissem
    Que Deus lhe queria bem…

    Era a lomba da defesa,
    Nas coxilhas de I-bagé,
    Cacique muito matreiro
    Que nunca mudou de fé;
    Cavalo deu a ninguém…
    E a ninguém deixou de a pé…

    Lançaram-se cavaleiros
    E infantes, com partazanas,
    Contra os Tapés defensores
    Do seu pomar e cabanas;
    A mortandade batia,
    Como ceifa de espadanas…

    Couraças duras, de ferro,
    Davam abrigo à vida
    Dos muitos, que, assim fiados,
    Cercavam um só na lida!…
    Um só, que de flecha e arco,
    Entra na luta perdida…

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    Os mosquetes estrondeam
    Sobre a gente ignorada,
    Que, acima do seu espanto,
    Tem a vida decepada…;
    E colubrinas maiores
    Fazem maior matinada!…

    Dócil gente, não receia,
    As iras de Portugal:
    Porque nunca houve lembrança
    De haver-lhe feito algum mal:
    Nunca manchara seu teto…;
    Nunca comera seu sal!…

    E de Castela tampouco
    Esperava tal furor;
    Pois sendo seu soberano,
    Respeitara seu senhor;
    Já lhe dera ouro e sangue,
    E primazia e honor!…

    A dor entrava nas suas carnes…
    Na alma, a negra tristeza,
    Dos guerreiros de Tiaraiú,
    Que pelejavam defesa,
    Porque o lunar divino
    Mandava aquela proeza…

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    E já rodavam ginetes
    Sobre os corpos dos infantes
    Das Sete Santas Missões,
    Que pareciam gigantes!…
    Na peleja tão sozinhos…
    Na morte tão confiantes!…

    Mas, o lunar de Sepé
    Era o rastro procurado
    Pelos vassalos dos Reis,
    Que o haviam condenado:…
    Ficando o povo vencido…
    E seu haver… conquistado!

    Então, Sepé, foi erguido
    Pela mão do Deus — Senhor,
    Que lhe marcara na testa
    O sinal do seu penhor!…
    O corpo ficou na terra…
    A alma, subiu em flor!…

    E subindo para as nuvens,
    Mandou aos povos — benção!
    Que mandava o Céus — Senhor
    Por meio do seu clarão…
    E o — lunar — da sua testa
    Tomou no céu posição…

    Eram armas de Castela
    Que vinham do mar de além;
    De Portugal também vinham
    Dizendo, por nosso bem:
    Mas quem faz gemer a terra…
    Em nome da paz não vem!

    Esta melopéia (?), ouvi-a em 1902, sofrivelmente recitada por uma
    velhíssima mestiça — Maria Genoria Alves — moradora na picada que
    atravessa o rio Camaquã, entre os municípios de Cangussu
    e Encruzilhada.

    Aparte as deturpações aberrantes dos vocábulos e a difícil
    colocação, concatenada dos versos, conservei a forma original,
    difusa, opaca e, do mesmo passo ingênua e amorável, dentro da qual
    porém, sente-se que estremece uma idealização, tendente a aureolar a
    figura do chefe índio, superiorizando-a por um signo misterioso — o
    lunar —, mandado divino…

    Deixei de parte alguns versos cujo sentido disforme e expressão eram
    de impossível entendimento e acomodação neste grupo. Relembrança
    popular do heróico guarani é esta (e procedência?…) a única que
    até hoje hei encontrado em não pequena perambulação.

    *8*
    *O Caapora*

    É um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho,
    que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado
    sobre um deles.

    Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a
    infelicidade (caiporismo), para todo o resto da sua vida;
    se era bom torna-se mau caçador, pescador; dará topadas no caminho,
    espinhar-se-á nas roçadas, perderá objetos,
    andará atrasado, apoquentado…

    Os animais domesticados também sentem a sua má influência, e
    entecarão, terão gogo, sofrerão bicheiras… No entanto o Caapora
    protege a caça bravia dos matos.

    *9*
    *O Curupira*

    É o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho
    para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue.

    Andam sempre em casal e moram no oco dos paus de lei; aparecem
    de repente, fazem os seus embustes e escondem-se, à tocaia,
    rindo-se em silêncio.

    O Curupira é como um tapuio pequeno; tem os dentes verdes
    e os pés colocados às avessas.

    Quando perseguido pelo curupira, o melhor meio de fugir-lhe é
    atirar-lhe e ir deixando pelo caminho cruzes e rodilhas de cipó,
    entrançadas; ele entretém-se a examinar o achado e a destrançá-lo,
    e enquanto isso, o perseguido escapa-se.

    *10*
    *O Saci*

    Era um caboclinho, dum pé só, muito ágil, que saltava na garupa dos
    cavalos dos viajantes. Gostava das picadas e das encruzilhadas das
    estradas sombreadas. Outros diziam que o Saci, apenas era manco de
    um pé e tinha uma ferida em cada joelho; que usava um barrete feito
    das _marrequinhas_ (flores da corticeira), e que era ele que
    governava as moscas importunas, as mutucas, os mosquitos.

    *11*
    *A Oiára*

    “A Oiára — ou Mãe-d’água — é um demônio macho-fêmea dos rios. É um
    tapuio ou tapuia de rara beleza, morador do fundo dos rios ou lagos,
    e que fascina aquele que cai em seu poder, induzindo a pessoa
    fascinada a lançar-se n’água. O indivíduo fascinado pelas Oiáras, se
    não chega afogar-se, ao ser retirado da água, declara ter visto
    palácios encantados, no fundo do rio, tendo sido acompanhado nesse
    passeio por uma bela mulher (se é homem, e por dois
    belos tapuios se é mulher).

    Ao voltar à terra as Oiáras o soltam e de novo vão para o rio, mas
    deixando em seu lugar pequenos tapuios para guardar o enfermo. Estes
    pequenos tapuios devem impedir que outros espíritos
    se apoderem da vítima.”

    *12*
    *O Jurupari*

    É um espírito mau, que à noite aperta a garganta das crianças e até
    dos homens, para trazer-lhes aflição e maus sonhos, principalmente
    por haverem comido muito antes de se deitarem. É ele que faz
    o _pesadelo_ nas criaturas.

    *13*
    *O Lobisomem*

    Diziam que eram homens que havendo tido relações com as suas
    comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de
    suas casas transformados em cachorro ou porco, e mordiam as pessoas
    que tais desonras encontravam; estas por sua vez ficavam sujeitas a
    transformarem-se em lobisomens…

    *14*
    *A Mula sem cabeça*

    Diziam que as mulheres de má vida, relacionadas com padres, se
    transformavam, tarde da noite, em mula, sem cabeça, e conduzindo na
    cauda um facho de fogo, que nenhum vento ou chuva apagava antes de
    romperem as barras do dia…

    *15*

    A lenda referente aos — enterros — (dinheiro, jóias, baixelas
    enterradas) tem a sua origem na crença das almas do outro mundo —
    os espíritos — “A alma de quem morreu sem deixar notícias do
    dinheiro que tinha escondido ou guardado em tal e tal lugar, anda
    penando. As luzes azuladas que se observam de noite nos campos e em
    redor das povoações, que volteiam e afinal se desvanecem,
    não são senão almas penadas.

    “Só quando um cristão descobrir o — enterro — é que hão de cessar
    de aparecer e de penar”

    Se o — enterro — está da habitação ouve-se ruídos, pancadas,
    gemidos… são as casas — mal assombradas. —

    ***

    A lenda da — Lagoa brava — é apenas uma variante da dos Serros
    bravos e tem a sua contextura na da Oiára. A da lagoa do Iberá, bem
    como a dos salamanqueiros, do nhandu — tatá e outras, são mais do
    acervo rio-platense-andino.

    ***

    Há ainda, de formação local, muitas _histórias_ ingenuíssimas e
    curiosas, tais como a dorme-dorme (ave vespertina); porque a pomba
    não sabe fazer seu ninho; porque a capivara é rabona (sem cauda); a
    do anu, ladrão do ninho alheio; a do João barreiro, e outras muitas,
    para adormecer crianças…*

    * O argumento das lendas desta série — 8, 14 — consta do livro —
    Cancioneiro Guasca — do autor. (Edit. Echenique & C. — 1910) A sua
    versão e influência correram, aliás mui fracamente entre as gentes
    antigas da campanha rio-grandense.

  • Frei Luiz de Sousa

    Frei Luiz de Sousa

    Aproximadamente 18.801 palavras.

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    [Figura: EDUARDO BRAZÃO, interprete principal de «Frei Luiz de Souza»]

    ALMEIDA GARRETT

    FREI LUIZ DE SOUSA

    DRAMA

    _Representado, a primeira vez, em Lisboa, por uma sociedade particular,
    no theatro de quinta do Pinheiro em quatro de Julho de_ MDCCCXLIII

    ESCRIPTORIO DE PUBLICAÇÕES DE FERREIRA DOS SANTOS

    Rua de Santa Catharina, 231

    PORTO

    Imprensa Commercial–Rua da Conceição, 29 a 37

    PESSOAS

    MANUEL (FREI LUIZ) DE SOUSA
    DONA MAGDALENA DE VILHENA
    DONA MARIA DE NORONHA
    FREI JORGE-COUTINHO
    O ROMEIRO
    TELMO-PAES
    O PRIOR DE BEMFICA
    O IRMÃO CONVERSO
    MIRANDA
    O ARCEBISPO DE LISBOA
    DOROTHEA

    CÔRO DE FRADES DE SAN'DOMINGOS

    Clerigos do arcebispo, frades, criados, etc.

    Logar da scena–Almada.

    ACTO PRIMEIRO

    _Camera antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia portugueza
    dos principios do seculo dezasette: porcelanas, xarões, sedas, flores,
    etc. No fundo duas grandes janellas rasgadas, dando para um eirado que
    olha sôbre o Tejo e de donde se ve toda Lisboa: entre as janellas o
    retratto, em corpo inteiro, de um cavalleiro môço vestido de preto com a
    cruz branca de noviço de S. João de Jerusalem.–Defronte e para a bôcca
    da scena um bufete pequeno coberto de ricco panno de velludo verde
    franjado de prata; sôbre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria
    meias-feitas, e um vaso da China de collo alto, com flores. Algumas
    cadeiras antigas, tamboretes razos, contadores. Da direita do
    espectador, porta de communicação para o interior da casa, outra da
    esquerda para o exterior.–É no fim da tarde_.

    SCENA I

    MAGDALENA so, sentada junto á banca, os pés sôbre uma grande almofada,
    um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sôbre elle, como quem
    descahiu da leitura na meditação.

    *Magdalena*, _repettindo machinalmente e de vagar o que acaba de ler_.

    «N'aquelle ingano d'alma ledo e cego
    Que a fortuna não deixa durar muito…»

    Com paz e alegria d'alma… um ingano, um ingano de poucos instantes que
    seja… deve de ser a felicidade suprema n'este mundo.–E que importa
    que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, póde-se morrer. Mas
    eu!… (_pausa_) Oh! que o não saiba elle ao menos, que não suspeite o
    estado em que eu vivo… este medo, estes continuos terrores que ainda
    me não deixaram gozar um so momento de toda a immensa felicidade que me
    dava o seu amor.–Oh que amor, que felicidade… que desgraça a minha!
    (_Torna a descahir em profunda meditação: silencio breve_.)

    SCENA II

    MAGDALENA, TELMO-PAES

    *Telmo*, _chegando aopé de Magdalena que o não sentiu entrar_. A minha
    senhora está a ler?…

    *Magdalena*, _despertando_. Ah! sois vós, Telmo… Não, ja não leio: ha
    pouca luz de dia ja; confundia-me a vista.–E é um bonito livro este! o
    teu valido, aquelle nosso livro, Telmo.

    *Telmo*, _deitando-lhe os olhos_. Oh, oh! Livro para damas–e para
    cavalleiros… e para todos: um livro que serve para todos; como não ha
    outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não
    tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor… quero
    dizer, como o senhor Manuel de Sousa-Coutinho–que lá isso!… acabado
    escholar é elle. E assim foi seu pae antes d'elle, que muito bem o
    conheci: grande homem! Muitas lettras e de muito galante prática–e não
    somenos as outras partes de cavalleiro: uma gravidade!… Ja não ha
    d'aquella gente.–Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar
    assim n'outra lingua, n'uma lingua que a gente… que toda a gente não
    intende!… confesso-vos que aquelle mercador inglez da rua-Nova, que
    aqui vem ás vezes, tem-me ditto suas cousas que me quadram… E Deus me
    perdoe! que eu creio que o homem é hereje d'esta seita nova d'Allemanha
    ou d'Inglaterra. Será?

    *Magdalena*. Olhae, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis
    que desde o tempo que… que…

    *Telmo*. Que ja lá vai, que era outro tempo.

    *Magdalena*. Pois sim… (_suspira_) Eu era uma criança; pouco maior era
    que Maria.

    *Telmo*. Não, a senhora D. Maria ja é mais alta.

    *Magdalena*. É verdade, tem crescido de mais, e derepente n'estes dois
    mezes ultimos…

    *Telmo*. Então! Tem treze annos feitos, é quasi uma senhora, está uma
    senhora… (_áparte_) Uma senhora aquella… pobre menina!

    *Magdalena*, _com as lagrymas nos olhos_. Es muito amigo d'ella, Telmo?

    *Telmo*. Se sou! Um anjo como aquelle… uma viveza, um espirito!… e
    então que coração!

    *Magdalena*. Filha da minha alma! (_pausa:–mudando de tom_) Mas olha,
    meu Telmo, tórno a dizer-t'o: eu não sei como heide fazer para te dar
    conselhos. Conheci-te de tam criança, de quando casei a… a… a
    primeira vez–costumei-me a olhar para ti com tal respeito: ja então
    eras o que hoje es, o escudeiro valido, o familiar quasi parente, o
    amigo velho e provado de teus amos.

    *Telmo*, _internecido_. Não digaes mais, senhora, não me lembreis de
    tudo o que eu era.

    *Magdalena*, _quasi offendida_. Porquê? não es hoje o mesmo, ou mais
    ainda, se é possivel? Quitaram-te alguma coisa da confiança, do
    respeito–do amor e carinho a que estava costumado o aio fiel de meu
    senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória?

    *Telmo*, _áparte_. Terá…

    *Magdalena*. O amigo e camarada antigo de seu pae?

    *Telmo*. Não, minha senhora, não, por certo.

    *Magdalena*. Então?…

    *Telmo*. Nada. Continuae, dizei, minha senhora.

    *Magdalena*. Pois está bem.–Digo que mal sei dar-vos conselhos, e não
    queria dar-vos ordens… Mas, meu amigo, tu tomáste–e com muito gôsto
    meu e de seu pae, um ascendente no espirito de Maria… tal que não
    ouve, não cre, não sabe senão o que lhe dizes. Quasi que es tu a sua
    donna, a sua aia de criação.–Parece-me… eu sei… não falles com ella
    d'esse modo, n'essas coisas…

    *Telmo*. O quê? No que me disse o inglez, sôbre a sagrada Escriptura que
    elles lá teem em sua lingua, e que?…

    *Magdalena*. Sim… n'isso decerto… e em tantas outras coisas tam
    altas, tam fóra de sua edade, e muitas do seu sexo tambem, que aquella
    criança está sempre a querer saber, a perguntar.–É a minha unica filha:
    não tenho… nunca tivemos outra… e, além de tudo o mais, bem ves que
    não é uma criança… muito… muito forte.

    *Telmo*. É… delgadinha, é. Hade inrijar. É tê-la por aqui, fóra
    d'aquelles ares apestados de Lisboa; e deixae, que se hade pôr outra.

    *Magdalena*. Filha do meu coração!

    *Telmo*. E do meu.–Pois não se lembra, minha senhora, que ao principio,
    era uma criança que eu não podia…–é a verdade, não a podia ver: ja
    sabereis porquê… mas vê-la, era ver… Deus me perdoe!… nem eu
    sei…–E d'ahi começou-me a crescer, a olhar para mim com aquelles
    olhos… a fazer-me taes meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de
    formosura e de bondade, que–vêdes-me aqui agora que lhe quero mais do
    que seu pae.

    *Magdalena*, _surrindo_. Isso agora!…

    *Telmo*. Do que vós.

    *Magdalena*, _rindo_. Ora, meu Telmo!

    *Telmo*. Mais, muito mais. E veremos: tenho ca uma coisa que me diz que
    antes de muito se hade ver quem é que quer mais á nossa menina n'esta
    casa.

    *Magdalena*, _assustada_. Está bom; não entremos com os teus agouros e
    prophecias do costume: são sempre de aterrar… Deixemo'-nos de
    futuros…

    *Telmo*. Deixemos, que não são bons.

    *Magdalena*. E de passados tambem…

    *Telmo*. Tambem.

    *Magdalena*. E vamos ao que importa agora.–Maria tem uma
    comprehensão…

    *Telmo*. Comprehende tudo!

    *Magdalena*. Mais do que convem.

    *Telmo*. Ás vezes.

    *Magdalena*. É preciso moderá-la.

    *Telmo*. É o que eu faço.

    *Magdalena*. Não lhe dizer…

    *Telmo*. Não lhe digo nada que não possa, que não deva saber uma
    donzella honesta e digna de melhor… de melhor.

    *Magdalena*. Melhor quê?

    *Telmo*. De nascer em melhor estado.–Quizestes ouvi-lo… está ditto.

    *Magdalena*. Oh Telmo! Deus te perdoe o mal que me fazes. (_Desata a
    chorar_.)

    *Telmo*, _ajoelhando e beijando-lhe a mão_. Senhora… senhora D.
    Magdalena, minha ama, minha senhora… castigae-me… mandae-me ja
    castigar, mandae-me cortar ésta lingua pêrra que não toma insino.–Oh
    senhora, senhora!… é vossa filha, é a filha do senhor Manuel de
    Sousa-Coutinho, fidalgo de tanto primor, e de tam boa linhagem como os
    que se teem por melhores n'este reino, em toda Hespanha… A senhora D.
    Maria… a minha querida D. Maria é sangue de Vilhenas e de Sousas; não
    precisa mais nada, mais nada, minha senhora, para ser… para ser…

    *Magdalena*. Calae-vos, calae-vos, pelas dores de Jesus Christo, homem.

    *Telmo*, _soluçando_. Minha ricca senhora!…

    *Magdalena*, _inchuga os olhos, e toma uma attitude grave e firme_.
    Levantae-vos, Telmo, e ouvi-me. (_Telmo levânta-se_) Ouvi-me com
    attenção. É a primeira e será a última vez que vos fallo d'este modo e
    em tal assumpto.–Vós fostes o aio e amigo de meu senhor… de meu
    primeiro marido, o senhor D. João de Portugal; tinheis sido o
    companheiro de trabalho e de glória de seu illustre pae, aquelle nobre
    conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como
    pae. Entrei depois n'essa familia de tanto respeito; achei-vos parte
    d'ella, e quasi que vos tomei a mesma amizade que aos outros…
    chegastes a alcançar um podêr no meu espirito, quasi maior…–decerto,
    maior–que nenhum d'elles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes
    adquirido na conversação dos homens e dos livros–porêm, mais que tudo,
    o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais–me fizeram
    ter-vos n'uma conta, deixar-vos tomar, intregar-vos eu mesma tal
    auctoridade n'esta casa e sôbre minha pessoa… que outros poderão
    estranhar…

    *Telmo*. Emendae-o, senhora.

    *Magdalena*. Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo.–Mas agora
    deixae-me fallar.–Depois que fiquei so, depois d'aquella funesta
    jornada de Africa que me deixou viuva, orphan e sem ninguem… sem
    ninguem, e n'uma edade… com dezasette annos!–em vós, Telmo, em vós
    so, achei o carinho e protecção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me
    em logar de pae: e eu… salvo n'uma coisa!–tenho sido para vós,
    tenho-vos obedecido como filha.

    *Telmo*. Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos
    apartastes dos meus conselhos…

    *Magdalena*. Para essa houve podêr maior que as minhas fôrças… D. João
    ficou n'aquella batalha com seu pae, com a flor da nossa gente. (_Signal
    de impaciencia em Telmo_) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei
    a sua memoria, como durante sette annos, incredula a tantas provas e
    testimunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia,
    por todas as sejanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de
    Alarves ahi houve… Cabedaes e valimentos, tudo se impregou;
    gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castella
    tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da
    Redempção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar n'aquellas
    terras, a todos se incommendava o seguir a pista do mais leve indício
    que podésse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquella notícia que logo
    viera com as primeiras novas da batalha de Alcacer. Tudo foi inutil; e a
    ninguem mais ficou resto de dúvida…

    *Telmo*. Senão a mim.

    *Magdalena*. Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom
    Telmo! que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu…–E
    então sem nenhum fundamento, sem o mais leve indício… Pois dizei-me em
    consciencia, dizei-m'o de uma vez, claro e desinganado: a que se apéga
    ésta vossa credulidade de sette… e hoje mais quatorze… vinte e um
    annos?

    *Telmo*, _gravemente_. Ás palavras, ás formaes palavras d'aquella carta
    escripta na propria madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge
    que vo-la trouxe.–«Vivo ou morto»–resava ella–vivo ou morto… Não me
    esqueceu uma lettra d'aquellas palavras; e eu sei que homem era meu amo
    para as escrever em vão:–«Vivo ou morto, Magdalena, heide ver-vos pelo
    menos ainda uma vez n'este mundo.»–Não era assim que dizia?

    *Magdalena*, _aterrada_. Era.

    *Telmo*. Vivo não veiu… inda mal!–E morto… a sua alma, a sua
    figura…

    *Magdalena*, _possuida de grande terror_. Jesus, homem!

    *Telmo*. Não vos appareceu, decerto.

    *Magdalena*. Não: credo!

    *Telmo*, _mysterioso_. Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua
    primeira visita, como de razão, seria para minha senhora. Mas não se ia
    sem apparecer tambem ao seu aio velho.

    *Magdalena*. Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoaes, e comtudo
    as vossas palavras mettem-me um medo… Não me façaes mais desgraçada.

    *Telmo*. Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que
    amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre
    todos?–Que o pobre de meu amo… respeito, devoção, lealdade, tudo lhe
    tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois… mas amor!

    *Magdalena*. Não está em nós da-lo, nem quitá-lo, amigo.

    *Telmo*. Assim é. Mas os ciumes que meu amo não teve nunca–bem sabeis
    que têmpera d'alma era aquella–tenho-os eu… aqui está a verdade nua e
    crua… tenho-os eu por elle: não posso, não posso ver… e desejo,
    quero, forcejo por me acostumar… mas não posso. Manuel de Sousa… o
    senhor Manuel de Sousa-Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom
    portuguez… mas–mas não é, nunca hade ser, aquelle espelho de
    cavallaria e gentilleza, aquella flor dos bons… Ah meu nobre amo, meu
    sancto amo!

    *Magdalena*. Pois sim, tereis razão… tendes razão, será tudo como
    dizeis. Mas reflecti, que haveis cabedal de intelligencia para
    muito:–eu resolvi-me por fim a casar com Manuel de Sousa; foi do
    apprazimento geral de nossas familias, da propria familia de meu
    primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima; vivemos (_com
    affectação_) seguros, em paz e felizes… ha quatorze annos. Temos ésta
    filha, ésta querida Maria que é todo o gôsto e ância da nossa vida.
    Abençoou-nos Deus na formosura, no ingenho, nos dotes admiraveis
    d'aquelle anjo… E tu, tu, meu Telmo, que es tam seu, que chegas a
    pretender ter-lhe mais amor que nós mesmos…

    *Telmo*. Não, não tenho!

    *Magdalena*. Pois tens: melhor.–E es tu que andas, continuamente e
    quasi por accinte, a sustentar essa chymera, a levantar esse phantasma,
    cuja sombra, a mais remota, bastaria para innodoar a pureza d'aquella
    innocente, para condemnar a eterna deshonra a mãe e a filha… (_Telmo
    dá signaes de grande agitação_) Ora dize: ja pensastes bem no mal que
    estás fazendo?–Eu bem sei que a ninguem n'este mundo, senão a mim,
    fallas em taes coisas… fallas assim como hoje temos fallado… mas as
    tuas palavras mysteriosas, as tuas allusões frequentes a esse desgraçado
    rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quiz
    acreditar que morrêsse, por quem ainda espera em sua leal
    incredulidade!–esses continuos agouros em que andas sempre de uma
    desgraça que está imminente sôbre a nossa familia… não ves que estás
    excitando com tudo isso a curiosidade d'aquella criança, aguçando-lhe o
    espirito–ja tam perspicaz!–a imaginar, a descobrir… quem sabe se a
    accreditar n'essa prodigiosa desgraça em que tu mesmo… tu mesmo…
    sim, não cres devéras? Não cres, mas achas não sei que doloroso prazer
    em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, ve:
    se um terror similhante chega a entrar n'aquella alma, quem lh'o hade
    tirar nunca mais?… O que hade ser d'ella e de nós?–Não a perdes, não
    a mattas… não me mattas a minha filha?

    *Telmo*, _em grande agitação durante a falla precedente, fica pensativo
    e aterrado: falla depois como para si_. É verdade que sim! A morte era
    certa.–E não hade morrer: não, não, não, tres vezes não. (_Para
    Magdalena_) Á fe de escudeiro honrado, senhora D. Magdalena, a minha
    bôcca não se abre mais; e o meu espirito hade… hade fechar-se
    tambem… (_Á parte_) Não é possivel, mas eu heide salvar o meu anjo do
    ceu! (_Alto para Magdalena_) Está ditto, minha senhora.

    *Magdalena*. Ora Deus t'o pague,–Hoje é o último dia de nossa vida que
    se falla em tal.

    *Telmo*. O último.

    *Magdalena*. Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (_levantando-se_)
    que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (_Telmo vae a sahir_) E
    olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis…

    *Telmo*. Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!… quatro passadas.

    *Magdalena*. E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge-Coutinho, que me está
    dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir
    antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou
    contente com a tardança. (_Chega á varanda, e olha para o rio_) O ar
    está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!… quasi que não ha
    vento, é uma viração que affaga… Oh e quantas faluas navegando tam
    garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas–n'aquella tam
    bonita–venha Manuel de Sousa.–Mas n'este tempo não ha que fiar no
    Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada… e então aqui
    o pontal de Cacilhas!–Que elle é tam bom mareante… Ora, um cavalleiro
    de Malta! (_olha para o retratto com amor_) Não é isso o que me dá maior
    cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares…
    E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas,
    d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character
    inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.–Vai, vai a
    Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.

    SCENA III

    MAGDALENA, TELMO, MARIA

    *Maria*, _entrando com umas flores na mão, incôntra-se com Telmo, e o
    faz tornar para a scena_. Bonito! Eu ha mais de meia hora no eirado
    passeando–e sentada a olhar para o rio a ver as faluas e os bergantins
    que andam para baixo e para cima–e ja abhorrecida de esperar… e o
    senhor Telmo, aqui pôsto a conversar com minha mãe, sem se importar de
    mim!–Que é do romance que me promettestes? não é o da batalha, não é o
    que diz:

    Postos estão, frente a frente,
    Os dois valorosos campos;

    é o outro, é o da ilha incoberta onde está elrei D. Sebastião, que não
    morreu e que hade vir um dia de névoa muito cerrada… Que elle não
    morreu; não é assim, minha mãe?

    *Magdalena*. Minha querida filha, tu dizes coisas? Pois não tens ouvido,
    a teu tio Frei Jorge e a teu tio Lopo de Sousa, contar tantas vezes como
    aquillo foi? O povo coitado imagina essas chymeras para se consolar na
    desgraça.

    *Maria*. Voz do povo, voz de Deus, minha senhora mãe: elles que andam
    tam crentes n'isto, alguma coisa hade ser. Mas ora o que me dá que
    pensar é ver que, tirado aqui o meu bom velho Telmo, (_chêga-se toda
    para elle, acarinhando-o_) ninguem n'esta casa gosta de ouvir fallar em
    que escapásse o nosso bravo rei, o nosso sancto rei D. Sebastião.–Meu
    pae, que é tam bom portuguez, que não póde soffrer estes castelhanos, e
    que até ás vezes dizem que é demais o que elle faz e o que elle falla…
    em ouvindo duvidar da morte do meu querido rei D. Sebastião… ninguem
    tal hade dizer, mas põe-se logo outro, muda de semblante, fica pensativo
    e carrancudo: parece que o vinha affrontar, se voltásse, o pobre do
    rei.–Ó minha mãe, pois elle não é por D. Filippe; não é, não?

    *Magdalena*. Minha querida Maria, que tu hasde estar sempre a imaginar
    n'essas coisas que são tam pouco para a tua edade! Isso é o que nos
    afflige, a teu pae e a mim; queria-te ver mais alegre, folgar mais, e
    com coisas menos…

    *Maria*. Então, minha mãe, então!–Veem, veem?… tambem minha mãe não
    gosta. Oh! essa ainda é peor, que se afflige, chora… ella ahi está a
    chorar… ella ahi está a chorar… (_vai-se abraçar com a mãe que
    chora_) Minha querida mãe, ora pois então!–Vai-te embora, Telmo,
    vai-te: não quero mais fallar, nem ouvir fallar de tal batalha, nem de
    taes histórias, nem de coisa nenhuma d'essas.–Minha querida mãe!

    *Telmo*. E é assim: não se falla mais n'isso. E eu vou-me embora. (_Á
    parte, indo-se depois de lhe tomar as mãos_) Que febre que ella tem
    hoje, meu Deus! queimam-lhe as mãos… e aquellas rosetas nas faces…
    Se o perceberá a pobre da mãe!

    SCENA IV

    MAGDALENA, MARIA

    *Maria*. Quereis vós saber, mãe, uma tristeza muito grande que eu
    tenho?–A mãe ja não chora, não? ja se não infada commigo?

    *Magdalena*. Não me infado comtigo nunca, filha; e nunca me affliges,
    querida. O que tenho é o cuidado que me dás, é o receio de que…

    *Maria*. Pois ahi está a minha tristeza: é esse cuidado em que vos vejo
    andar sempre por minha causa. Eu não tenho nada; e tenho saude, olhae
    que tenho muita saude.

    *Magdalena*. Tens, filha… se Deus quizer, hasde ter; e hasde viver
    muitos annos para consolação e amparo de teus paes que tanto te querem.

    *Maria*. Pois olhae: passo noites inteiras em claro a lidar n'isto, e a
    lembrar-me de quantas palavras vos tenho ouvido, e a meu pae… e a
    recordar-me da mais pequena acção e gesto,–e a pensar em tudo, a ver se
    descubro o que isto é–o porque tendo-me tanto amor… que, oh isso
    nunca houve decerto filha querida como eu!…

    *Magdalena*. Não, Maria.

    *Maria*. Pois sim; tendo-me tanto amor, que nunca houve outro egual,
    estaes sempre n'um sobresalto commigo?…

    *Magdalena*. Pois se te estremecêmos?

    *Maria*. Não é isso, não é isso: é que vos tenho lido nos olhos… Oh,
    que eu leio nos olhos, leio, leio!… e nas estrêllas do ceu tambem–e
    sei coisas…

    *Magdalena*. Que estás a dizer, filha, que estás a dizer? que desvarios!
    Uma menina do teu juizo, temente a Deus… não te quero ouvir fallar
    assim.–Ora vamos: anda ca, Maria, conta-me do teu jardim, das tuas
    flores. Que flores tens tu agora? O que são éstas? (_pegando nas que
    ella traz na mão_)

    *Maria*, _abrindo a mão e deixando-as cahir no regaço da mãe_. Murchou
    tudo… tudo estragado da calma… Éstas são papoulas que fazem dormir,
    colhi-as para as metter debaixo do meu cabeçal ésta noite; quero-a
    dormir de um somno, não quero sonhar, que me faz ver coisas… lindas ás
    vezes, mas tam extraordinarias e confusas…

    *Magdalena*. Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria,
    imaginar é sonhar: e Deus pôs-nos n'este mundo para velar e
    trabalhar–com o pensamento sempre n'elle sim, mas sem nos extranharmos
    a éstas coisas da vida que nos cercam, a éstas necessidades que nos
    impõe o estado, a condicção em que nascêmos. Ves tu, Maria: tu es a
    nossa unica filha, todas as esperanças de teu pae são em ti…

    *Maria*. E não lh'as posso realizar, bem sei.–Mas que heide eu fazer?
    eu estudo, leio…

    *Magdalena*. Les demais, cânças-te, não te distraes como as outras
    donzellas da tua edade, não es…

    *Maria*. O que eu sou… só eu o sei, minha mãe… E não sei, não: não
    sei nada, senão que o que devia ser não sou…–Oh! porque não havia de
    eu ter um irmão que fosse um galhardo e valente mancebo, capaz de
    commandar os terços de meu pae, de pegar n'uma lança d'aquellas com que
    os nossos avós corriam a India, levando adeante de si Turcos e Gentios!
    um bello moço que fosse o retratto proprio d'aquelle gentil cavalleiro
    de Malta que alli está. (_Apontando para o retratto_) Como elle era
    bonito meu pae! Como lhe ficava bem o preto!… e aquella cruz tam alva
    em cima! Paraque deixou elle o hábito, minha mãe, porque não ficou
    n'aquella sancta religião, a vogar em suas nobres galeras, por esses
    máres, e a affugentar os infieis deante da bandeira da Cruz?

    *Magdalena*. Oh filha, filha!… (_Mortificada_) porque não foi vontade
    de Deus: tinha de ser d'outro modo.–Tomára eu agora que elle chegásse
    de Lisboa! Comeffeito é muito tardar… valha-me Deus!

    SCENA V

    JORGE, MAGDALENA, MARIA

    *Jorge*. Ora seja Deus n'esta casa!

    (Maria beija-lhe o escapulario e depois a mão; Magdalena somente o
    escapulario.)

    *Magdalena*. Sejaes bem vindo, meu irmão!

    *Maria*. Boas tardes, tio Jorge!

    *Jorge*. Minha senhora mana!–A bençam de Deus te cubra, filha!–Tambem
    estou desassocegado como vós, mana Magdalena: mas não vos afflijaes,
    espero que não hade ser nada.–É certo que tive umas notícias de
    Lisboa…

    *Magdalena*, _assustada_. Pois que é, que foi?

    *Jorge*. Nada, não vos assusteis; mas é bom que estejaes prevenida, por
    isso vo-lo digo. Os governadores querem sair da cidade… é um capricho
    verdadeiro… Depois de aturarem mettidos alli dentro toda a fôrça da
    peste, agora que ella está, se póde dizer, acabada, que são rarissimos
    os casos, é que por fôrça querem mudar de ares.

    *Magdalena*. Pois coitados!…

    *Maria*. Coitado do povo!–Que mais valem as vidas d'elles? Em pestes e
    desgraças assim, eu intendia, se governásse, que o serviço de Deus e do
    rei me mandava ficar, até á última, onde a miseria fosse mais e o perigo
    maior, para attender com remedio e amparo aos necessitados.–Pois, rei
    não quer dizer pae commum de todos?

    *Jorge*. A minha donzella Theodora!–Assim é, filha; mas o mundo é
    d'outro modo: que lhe faremos?

    *Maria*. Emendá-lo.

    *Jorge*, _para Magdalena, baixo_. Sabeis que mais? Tenho medo d'esta
    criança.

    *Magdalena*, _do mesmo modo_. Tambem eu.

    *Jorge*, _alto_. Mas emfim, resolveram sahir: e sabereis mais que, para
    côrte e «buen-retiro» dos nossos cinco reis, os senhores governadores de
    Portugal por D. Filippe de Castella que Deus guarde, foi escolhida ésta
    nossa boa villa d'Almada, que o deveu á fama de suas aguas sadias, ares
    lavados e graciosa vista.

    *Magdalena*. Deixá-los vir.

    *Jorge*. Assim é: que remedio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento
    de San'Paulo tem de hospedar o senhor arcebispo D. Miguel de Castro,
    presidente do govêrno.–Bom prelado é elle; e, se não fosse que nos tira
    do humilde socêgo de nossa vida, por vir como senhor e principe
    secular… o mais, paciencia. Peior é o vosso caso…

    *Magdalena*. O meu!

    *Jorge*. O vosso e de Manuel de Sousa: porque os outros quatro
    governadores–e aqui está o que me mandaram dizer em muito segrêdo de
    Lisboa–dizem que querem vir para ésta casa, e pôr aqui aposentadoria.

    *Maria*, _com vivacidade_. Fechâmos-lhes as portas. Mettêmos a nossa
    gente dentro–o terço de meu pae tem mais de seiscentos homens–e
    defendêmo'-nos. Pois não é uma tyrannia?…–E hade ser bonito!…
    Tomára eu ver seja o que for que se pareça com uma batalha!

    *Jorge*. Louquinha!

    *Magdalena*. Mas que mal fizemos nós ao conde de Sabugal e aos outros
    governadores, para nos fazerem esse desacato? Não ha por ahi outras
    casas; e elles não sabem que n'esta ha senhoras, uma familia… e que
    estou eu aqui?…

    *Maria*, _que esteve com o ouvido inclinado para a janella_. É a voz de
    meu pae! Meu pae que chegou.

    *Magdalena*, _sobresaltada_. Não oiço nada.

    *Jorge*. Nem eu, Maria.

    *Maria*. Pois oiço eu muito claro. É meu pae que ahi vem… e vem
    affrontado!

    SCENA VI

    JORGE, MAGDALENA, MARIA, MIRANDA

    *Miranda*. Meu senhor chegou: vi agora d'aquelle alto entrar um
    bergantim que é por fôrça o nosso. Estaveis com cuidado; e era para
    isso, que ja vai a cerrar-se a noite… Vim trazer-vos depressa a
    notícia.

    *Magdalena*. Obrigada, Miranda.–É extraordinaria ésta criança; ve e
    ouve em taes distâncias…

    (Maria tem sahido para o eirado, mas volta logo depois.)

    *Jorge*. É verdade. (_Á parte_) Terrivel signal n'aquelles annos e com
    aquella compleição!

    SCENA VII

    JORGE, MAGDALENA, MARIA, MIRANDA, MANUEL DE SOUSA _entrando com varios
    criados que o seguem–alguns com brandões accesos.–É noite fechada_.

    *Manuel*, _parando juncto da porta, para os criados_. Façam o que lhes
    disse. Ja, sem mais detença! Não apaguem esses brandões; incostem-n'os
    ahi fóra no patim. E tudo o mais que eu mandei.–(_Vindo ao proscenio_)
    Magdalena! Minha querida filha, minha Maria! (_Abraça-as_) Jorge, ainda
    bem que aqui estás, preciso de ti: bem sei que é tarde e que são horas
    conventuaes; mas eu irei depois comtigo dizer a «mea culpa» e o
    «peccavi» ao nosso bom prior.–Miranda, vinde ca. (_Vai com elle á porta
    da esquerda, depois ás do eirado, e dá-lhe algumas ordens baixo_.)

    *Magdalena*. Que tens tu? nunca entraste em casa assim. Tens coisa que
    te dá cuidado… e não m'o dizes? O que é?

    *Manuel*. É que… Senta-te, Magdalena; aqui aopé de mim, Maria; Jorge,
    sentemo'-nos que estou cançado. (_Sentam-se todos_) Pois agora sabei as
    novidades, que seriam extranhas se não fosse o tempo em que vivêmos.
    (_Pausa_) É preciso sahir ja d'esta casa, Magdalena.

    *Maria*. Ah! inda bem, meu pae!

    *Manuel*. Inda mal! mas não ha outro remedio. Sahiremos ésta noite
    mesma. Ja dei ordens a toda a familia: Teimo foi avisar as tuas aias do
    que haviam de fazer, e lá anda pelas cameras velando n'esse cuidado.
    Sempre é bom que vas dar um relance d'olhos ao que por lá se faz: eu
    tambem irei por minha parte.–Mas temos tempo: isto são oito horas, á
    meia noite vão quatro; d'aqui lá o pouco que me importa salvar estará
    salvo… e elles não virão antes da manhan.

    *Magdalena*. Então sempre é verdade que Luiz de Moura e os outros
    governadores?…

    *Manuel*. Luiz de Moura é um villão ruim, faz como quem é: o arcebispo
    é… o que os outros querem que elle seja. Mas o conde de Sabugal, o
    conde de Sancta-Cruz, que deviam olhar por quem são, e que tomaram este
    incargo odioso… e vil, de opprimir os seus naturaes em nome de um rei
    extrangeiro!… Oh que gente, que fidalgos portuguezes!… Heide-lhes
    dar uma licção, a elles, e a este escravo d'este povo que os soffre,
    como não levam tyrannos ha muito tempo n'esta terra.

    *Maria*. O meu nobre pae! Oh, o meu querido pae! Sim, sim, mostrae-lhes
    quem sois e o que vale um portuguez dos verdadeiros.

    *Magdalena*. Meu adorado espôso, não te deites a perder, não te
    arrebates. Que farás tu contra esses poderosos? Elles ja te querem tam
    mal pelo mais que tu vales que elles, pelo teu saber–que esses grandes
    fingem que desprezam… mas não é assim, o que elles teem é inveja!–O
    que fará, se lhes deres pretexto para se vingarem da affronta em que os
    traz a superioridade do teu merito!–Manuel, meu espôso, Manuel de
    Sousa, pelo nosso amor…

    *Jorge*. Tua mulher tem razão. Prudencia, e lembra-te de tua filha.

    *Manuel*. Lembro-me de tudo, deixa estar.–Não te inquietes, Magdalena:
    elles querem vir para aqui ámanhan de manhan; e nós forçosamente havemos
    de sahir antes d'elles entrarem. Por isso é preciso ja.

    *Magdalena*. Mas para onde iremos nós, derepente, a éstas horas?

    *Manuel*. Para a unica parte para onde podêmos ir: a casa não é minha…
    mas é tua, Magdalena.

    *Magdalena*. Qual?… a que foi?… a que péga com San'Paulo?… Jesus
    me valha!

    *Jorge*. E fazem muito bem: a casa é larga e está em bom reparo, tem
    ainda quasi tudo de trastes e paramentos necessarios: pouco tereis que
    levar comvosco.–E então para mim, para os nossos padres todos que
    alegria! Ficâmos quasi debaixo dos mesmos telhados.–Sabeis que tendes
    alli tribuna para a capella da Senhora da Piedade, que é a mais devota e
    a mais bella de toda a egreja… Ficâmos como vivendo junctos.

    *Maria*. Tomára-me eu ja lá. (_Levânta-se pulando_.)

    *Manuel*. E são horas, vamos a isto. (_Levantando-se_.)

    *Magdalena*, _vindo para elle_. Ouve, escuta, que tenho que te dizer;
    por quem es, ouve: não haverá algum outro modo?

    *Manuel*. Qual, senhora, e que lhe heide eu fazer? Lembrae vós, vêde se
    achaes.

    *Magdalena*. Aquella casa… eu não tenho ânimo… Olhae: eu preciso de
    fallar a sos comvosco.–Frei Jorge, ide com Maria ahi para dentro; tenho
    que dizer a vosso irmão.

    *Maria*. Tio, venha, quero ver se me accommodam os meus livrinhos;
    (_confidencialmente_) e os meus papeis, que eu tambem tenho papeis:
    deixae que lá na outra casa vos heide mostrar… Mas segrêdo?

    *Jorge*. Tontinha!

    SCENA VIII

    MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA

    *Manuel*. _passeia agitado de um lado para o outro da scena, com as mãos
    cruzadas detrás das costas, e parando derepente_: Hade saber-se no mundo
    que ainda ha um portuguez em Portugal.

    *Magdalena*. Que tens tu, dize, que tens tu?

    *Manuel*. Tenho que não heide soffrer ésta affronta… e que é preciso
    sahir d'esta casa, senhora.

    *Magdalena*. Pois sahiremos, sim: eu nunca me oppuz ao teu querer, nunca
    soube que coisa era ter outra vontade differente da tua; estou prompta a
    obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. Mas, oh! espôso da minha alma…
    para aquella casa não, não me leves para aquella casa. (_Deitando-lhe os
    braços ao pescoço_.)

    *Manuel*. Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra
    para onde ir: e a éstas horas, n'este appêrto… Mudaremos depois, se
    quizeres… mas não lhe vejo remedio agora.–E a casa que tem? Porque
    foi de teu primeiro marido! é por mim que tens essa repugnancia? Eu
    estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória,
    por ti, por elle e por mim; e não tenho na consciencia por que receie
    abrigar-me debaixo dos mesmos tectos que o cobriram.–Viveste alli com
    elle? Eu não tenho ciumes de um passado que me não pertencia. E o
    presente, esse é meu, meu so, todo meu, querida Magdalena… Não
    fallêmos mais n'isso; é preciso partir, e ja.

    *Magdalena*. Mas é que tu não sabes… eu não sou melindrosa nem de
    invenções: em tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; n'isso
    não… mas tu não sabes a violencia, o constrangimento d'alma, o terror
    com que eu penso em ter de entrar n'aquella casa. Parece-me que é voltar
    ao podêr d'elle, que é tirar-me dos teus braços, que o vou incontrar
    alli…–oh perdoa, perdoa-me, não me sái ésta idea da cabeça…–que
    vou achar alli a sombra despeitosa de D. João que me está ameaçando com
    uma espada de dous gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e
    ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre…–Que queres…?
    bem sei que é loucura; mas a idea de tornar a morar alli, de viver alli
    comtigo e com Maria, não posso com ella. Sei de certo que vou ser
    infeliz, que vou morrer n'aquella casa funesta, que não estou alli tres
    dias, tres horas sem que todas as calamidades do mundo venham sôbre
    nós.–Meu esposo, Manuel, marido da minha alma, pelo nosso amor t'o
    peço, pela nossa filha… vamos seja para onde for, para a cabana de
    algum pobre pescador d'esses contornos, mas para alli não, oh! não.

    *Manuel*. Em verdade nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a
    fraqueza de accreditar em agouros. Não ha senão um temor justo,
    Magdalena, é o temor de Deus; não ha espectros que nos possam apparecer
    senão os das más acções que fazemos. Que tens tu na consciencia que t'os
    faça temer? O teu coração e as tuas mãos estão puras: para os que andam
    deante de Deus, a terra não tem sustos, nem o inferno pavores que se
    lhes attrevam. Rezaremos por alma de D. João de Portugal n'essa devota
    capella que é parte da sua casa; e não hajas mêdo que nos venha
    perseguir n'este mundo aquella sancta alma que está no ceu, e que em tam
    sancta batalha, pelejando por seu Deus e por seu rei, acabou martyr ás
    mãos dos infieis.–Vamos, D. Magdalena de Vilhena, lembrae-vos de quem
    sois e de quem vindes, senhora… e não me tires, querida mulher, com
    vans chymeras de crianças, a tranquillidade do espirito e a fôrça do
    coração, que as preciso inteiras n'esta hora.

    *Magdalena*. Pois que vais tu fazer?

    *Manuel*. Vou, ja te disse, vou dar uma licção aos nossos tyrannos que
    lhes hade lembrar, vou dar um exemplo a este povo que o hade allumiar…

    SCENA IX

    MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, TELMO, MIRANDA e outros criados, _entrando
    apressadamente_.

    *Telmo*. Senhor, desimbarcaram agora grande comitiva de fidalgos,
    escudeiros e soldados que veem de Lisboa e sobem a incosta para a villa.
    O arcebispo não é decerto, ja ca está ha muito no convento: diz-se por
    ahi…

    *Manuel*. Que são os governadores? (_Telmo faz um signal affirmativo_.)
    Quizeram-me inganar, e appressam-se a vir hoje… parece que
    adivinharam… Mas não me colheram desapercebido. (_Chama á porta da
    esquerda_) Jorge, Maria! (_Volta para a scena_) Magdalena, ja, ja sem
    mais demora.

    SCENA X

    MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, TELMO, MIRANDA e os outros criados; JORGE e
    MARIA _entrando_.

    *Manuel*. Jorge, acompanha éstas damas. Telmo, ide, ide com
    ellas.–(_Para os outros criados_) Partiu ja tudo, as arcas, os meus
    cavallos, armas e tudo o mais?

    *Miranda*. Quasi tudo foi ja; o pouco que falta está prompto e sahirá
    n'um instante… pela porta detrás, se quereis.

    *Manuel*. Bom; que sáia. (_A um signal de Miranda sahem dois criados_.)
    Magdalena, Maria, não vos quero ver aqui mais. Ja, ide; serei comvosco
    em pouco tempo.

    SCENA XI

    MANUEL DE SOUSA, MIRANDA e os outros criados.

    *Manuel*. Meu pae morreu desastrosamente cahindo sôbre a sua propria
    espada; quem sabe se eu morrerei nas chammas ateadas por minhas mãos?
    Seja. Mas fique-se aprendendo em Portugal como um homem de honra e
    coração, por mais poderosa que seja a tyrannia, sempre lhe póde
    resistir, em perdendo o amor a coisas tam vis e precarias como são esses
    haveres que duas faiscas destroem n'um momento… como é ésta vida
    miseravel que um sôpro póde apagar em menos tempo ainda! (_Arrebata duas
    tochas das mãos dos criados, corre á porta da esquerda, atira com uma
    para dentro: e ve-se atear logo uma lavareda immensa. Vai ao fundo,
    atira a outra tocha; e succede o mesmo. Ouve-se alarido de fóra_.)

    SCENA XII

    MANUEL-DE-SOUSA e criados: MAGDALENA, MARIA, TELMO E JORGE _accudindo_.

    *Magdalena*. Que fazes?… que fizeste?–Que é isto, oh meu Deus!

    *Manuel*, _tranquillamente_. Illumino a minha casa para receber os muito
    poderosos e excelentes senhores governadores d'estes reinos. Suas
    excellencias podem vir quando quizerem.

    *Magdalena*. Meu Deus, meu Deus!… Ai, e o retratto de meu marido!…
    Salvem-me aquelle retratto.

    (_Miranda e outro criado vão para tirar o painel; uma columna de fogo
    salta nas tapeçarias e os afugenta_.)

    *Manuel*. Parti, parti. As materias inflammaveis que eu tinha disposto
    vão-se ateando com espantosa velocidade. Fugi.

    *Magdadena*, _cingindo-se ao braço do marido_. Sim, sim, fujamos.

    *Maria*, _tomando-o do outro braço_. Meu pae, nós não fugimos sem vós.

    (_Redobram os gritos de fóra, ouve-se rebate de sinos; cai o panno_.)

    ACTO SEGUNDO

    _É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo
    de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos
    de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar
    mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D.
    João de Portugal. Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo
    para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de
    Vimioso. São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre
    campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos
    quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz
    floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval;
    sôbre o escudo coroa de conde. No fundo um reposteiro muito maior e com
    as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella
    da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada_.

    SCENA I

    MARIA e TELMO

    *Maria*, _sahindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo,
    que parece vir de pouca vontade_. Vinde, não façaes bulha, que minha mãe
    ainda dorme. Aqui, aqui n'esta sala é que quero conversar. E não teimes,
    Telmo, que fiz tenção e acabou-se.

    *Telmo*. Menina!…

    *Maria*. «Menina e môça me levaram de casa de meu pae:» é o principio
    d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o
    eu.–Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel
    escudeiro, «faredes o que mandado vos é.»–E não me repliques, que então
    altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero.
    Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite
    que dorme com socêgo. Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o
    rebate dos sinos, aquella scena toda… oh! tam grandiosa e sublime, que
    a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro
    de egual majestade!… á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos
    olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas
    innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a
    devorar tudo com furia infernal… O retratto de meu pae, aquelle do
    quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem,
    vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito–aquelle
    retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se
    queimásse alli. Ves tu? ella que não cria em agouros, que sempre me
    estava a reprehender pelas minhas scismas, agora não lhe sái da cabeça
    que a perda do retratto é prognostico fatal de outra perda maior que
    está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de
    separar de meu pae.–E eu agora é que faço de forte e assizada, que
    zombo de agouros e de sinnas… para a animar, coitada!… que aqui
    entre nós, Telmo, nunca tive tanta fe n'elles. Creio, oh se creio! que
    são avisos que Deus nos manda para nos preparar.–E ha… oh! ha grande
    desgraça a cahir sôbre meu pae… decerto! e sôbre minha mãe tambem, que
    é o mesmo.

    *Telmo*, _disfarçando o terror de que está tomado_. Não digaes isso…
    Deus hade fazê-lo por melhor, que lh'o merecem ambos. (_Cobrando ânimo e
    exaltando-se_) Vosso pae, D. Maria, é um portuguez ás direitas. Eu
    sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquella
    acção,–que o vi, com aquella alma de portuguez velho, deitar a mão ás
    tochas, e lançar elle mesmo o fogo á sua propria casa; queimar e
    destruir n'uma hora tanto do seu haver, tanta coisa de seu gôsto, para
    dar um exemplo de liberdade, uma licção tremenda a estes nossos
    tyrannos… oh minha querida filha, aquillo é um homem. A minha vida que
    elle queira é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não
    conheci, que o não estimei sempre no que elle valia.

    *Maria*, _com as lagrymas nos olhos, e tomando-lhe as mãos_. Meu Telmo,
    meu bom Telmo!… É uma glória ser filha de tal pae: não é? dize.

    *Telmo*. Sim é: Deus o defenda!

    *Maria*. Deus o defenda! amen.–E elles, os tyrannos governadores ainda
    estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das
    diligências do tio Frei Jorge?

    *Telmo*. Ja, sim. Vão-se desvanecendo–ainda bem!–os agouros de vossa
    mãe… hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os
    outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é
    que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo
    socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por
    acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania
    de uma mentira o generoso crime por que o perseguem.

    *Maria*. Meu nobre pae!–Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio?
    Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e
    não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que
    perigo!

    *Telmo*. Perigo nenhum; todos o sabem e fecham os olhos. Agora é so
    conservar as apparencias ahi mais uns dias, e depois fica tudo como
    d'antes.

    *Maria*. Ficará, póde ser, Deus queira que seja!–Mas tenho ca uma coisa
    que me diz que aquella tristeza de minha mãe, aquelle susto, aquelle
    terror em que está–e que ella disfarça com tanto trabalho na presença
    de meu pae (tambem a mim m'o queria incobrir, mas agora ja não póde,
    coitada!) aquillo é presentimento de desgraça grande…–Oh! mas é
    verdade… vinde ca: (_Leva-o deante dos tres retrattos que estão no
    fundo; e apontando para o de D. João_) de quem é este retratto aqui,
    Telmo?

    *Telmo*, _olha, e víra a cara de repente_. Esse é… hade ser… é um da
    familia, d'estes senhores da casa de Vimioso que aqui estão tantos.

    *Maria*, _ameaçando-o com o dedo_. Tu não dizes a verdade, Telmo.

    *Telmo*, _quasi offendido_. Eu nunca menti, senhora D. Maria de Noronha.

    *Maria*. Mas não diz a verdade toda o senhor Telmo-Paes; que é quasi o
    mesmo.

    *Telmo*. O mesmo!… Disse-vos o que sei, e o que é verdade; é um
    cavalleiro da familia de meu outro amo que Deus… que Deus tenha em bom
    logar.

    *Maria*. E não tem nome o cavalleiro?

    *Telmo*, _imbaraçado_. Hade ter: mas eu é que…

    *Maria*, _como quem lhe vai tapar a bôcca_. Agora é que tu ias mentir de
    todo… cala-te.–Não sei para que são estes mysterios: cuidam que eu
    heide ser sempre criança!–Na noite que viemos para ésta casa, no meio
    de toda aquella desordem, eu e minha mãe entrámos por aqui dentro sos e
    viemos ter a ésta sala. Estava alli um brandão acceso, incostado a uma
    d'essas cadeiras que tinham pôsto no meio da casa; dava todo o clarão da
    luz n'aquelle retratto… Minha mãe, que me trazia pela mão, põe
    derepente os olhos n'elle, e dá um grito, oh meu Deus!… ficou tam
    perdida de susto, ou não sei de quê, que me ia cahindo em cima.
    Pergunto-lhe o que é; não me respondeu: arrebata da tocha, e leva-me com
    uma fôrça… com uma pressa a correr por essas casas, que parecia que
    vinha alguma coisa má atrás de nós.–Ficou n'aquelle estado em que a
    temos visto ha oito dias, e não lhe quiz fallar mais em tal. Mas este
    retratto que ella não nomeia nunca de quem é, e so diz assim ás vezes:
    «O outro, o outro…» este retratto, e o de meu pae que se queimou, são
    duas imagens que lhe não sahem do pensamento.

    *Telmo*, _com anciedade_. E ésta noite ainda lidou muito n'isso?

    *Maria*. Não; desde hontem pela tarde, que ca esteve o tio Frei Jorge e
    a animou com muitas palavras de consolação e de esperança em Deus, e que
    lhe disse do que contava abrandar os governadores, minha mãe ficou
    outra; passou-lhe de todo, ao menos até agora.–Mas então, vamos, tu não
    me dizes do retratto? Olha: (_designando o d'elrei D. Sebastião_)
    aquelle do meio, bem sabes se o conhecerei: é o do meu querido e amado
    rei D. Sebastião. Que majestade! que testa aquella tam austera, mesmo
    d'um rei môço e sincero ainda, leal, verdadeiro, que tomou ao serio o
    cargo de reinar, e jurou que hade ingrandecer e cobrir de glória o seu
    reino! Elle alli está… E pensar que havia de morrer ás mãos de mouros,
    no meio de um deserto, que n'uma hora se havia de apagar toda a ousadia
    reflectida que está n'aquelles olhos rasgados, no apertar d'aquella
    bôcca!… Não póde ser, não póde ser. Deus não podia consentir em tal.

    *Telmo*. Que Deus te ouvisse, anjo do ceu!

    *Maria*. Pois não ha prophecias que o dizem? Ha, e eu creio n'ellas. E
    tambem creio n'aquell'outro que alli está; (_indica o retratto de
    Camões_) aquelle teu amigo com quem tu andáste lá pela India, n'essa
    terra de prodigios e bizarrias, por onde elle ia… como é? ah, sim…

    «N[~u]a mão sempre a espada e n'outra a penna…»

    *Telmo*. Oh! o meu Luiz, coitado! bem lh'o pagaram. Era um rapaz, mais
    moço do que eu, muito mais… e quando o vi a última vez… foi no
    alpendre de San'Domingos em Lisboa–parece-me que o estou a ver–tam mal
    trajado, tam incolhido… elle que era tam desimbaraçado e galan… e
    então velho! velho alquebrado,–com aquelle ôlho que valia por dois, mas
    tam summido e incovado ja, que eu disse commigo: «Ruim terra te comerá
    cedo, corpo da maior alma que deitou Portugal!»–E dei-lhe um abraço…
    foi o último… Elle pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento
    ca por dentro, e disse-me: «Adeus, Telmo! San'Telmo seja commigo n'este
    cabo da navegação… que ja vejo terra, amigo»–e apontou para uma cova
    que alli se estava a abrir.–Os frades resavam o officio dos mortos na
    egreja… Elle entrou para lá, e eu fui-me embora. D'ahi a um mez,
    vieram-me aqui dizer: «Lá foi Luiz de Camões n'um lençol para
    Sant'Anna.» E ninguem mais fallou n'elle.

    *Maria*. Ninguem mais!… Pois não tem aquelle livro que é para dar
    memória aos mais esquecidos?

    *Telmo*. O livro sim: acceitaram-n'o como o tributo de um escravo. Estes
    riccos, estes grandes, opprimem e desprezam tudo o que não são as suas
    vaidades, tomaram o livro como uma coisa que lhes fizesse um servo seu e
    para honra d'elles. O servo, acabada a obra, deixaram-n'o morrer ao
    desamparo sem lhe importar com isso… Quem sabe se folgaram? podia
    pedir-lhes uma esmolla–escusavam de se incommodar a dizer que não.

    *Maria*, _com enthusiasmo_. Está no ceu.–Que o ceu fez-se para os bons
    e para os infelizes, para os que ja ca da terra o adivinharam!–Este lia
    nos mysterios de Deus; as suas palavras são de propheta. Não te lembras
    o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?… como havia de elle então
    morrer? Não morreu. (_Mudando de tom_) Mas o outro, o outro… quem é
    est'outro, Telmo? Aquelle aspecto tam triste, aquella expressão de
    melancholia tam profunda… aquellas barbas tam negras e cerradas… e
    aquella mão que descança na espada como quem não tem outro arrimo, nem
    outro amor n'esta vida…

    *Telmo*, _deixando-se surprehender_. Pois tinha, oh se tinha…

    (Maria olha para Telmo, como quem comprehendeu, depois torna a fixar a
    vista no retratto; e ambos ficam deante d'elle como fascinados. No
    entretanto e ás últimas palavras de Maria, um homem imbuçado com o
    chapeu sôbre os olhos levanta o reposteiro da direita e vem, pé ante pé,
    approximando-se dos dois que o não sentem.)

    SCENA II

    MARIA, TELMO e MANUEL DE SOUSA

    *Manuel*. Aquelle era D. João de Portugal, um honrado fidalgo, e um
    valente cavalleiro.

    *Maria*, _respondendo sem observar quem lhe falla_. Bem m'o dizia o
    coração!

    *Manuel*, _desimbuçando-se e tirando o chapeu com muito affecto_. Que te
    dizia o coração, minha filha?

    *Maria*, _reconhecendo-o_. Oh meu pae, meu querido pae! ja me não diz
    mais nada o coração senão isto. (_Lânça-se-lhe nos braços e beija-o na
    face muitas vezes_.)–Ainda bem que viestes.–Mas de dia!… não tendes
    receio, não ha perigo ja?

    *Manuel*. Perigo, pouco. Hontem á noite não pude vir; e hoje não tive
    paciencia para aguardar todo o dia: vim bem coberto com ésta capa…

    *Telmo*. Não ha perigo nenhum, meu senhor; podeis estar á vontade e sem
    receio. Ésta madrugada muito cedo estive no convento, e sei pelo senhor
    Frei Jorge que está, se póde dizer, tudo concluido.

    *Manuel*. Pois ainda bem, Maria. E tua mãe, tua mãe, filha?

    *Maria*. Desde hontem está outra…

    *Manuel*, _em acção de partir_. Vamos a vê-la.

    *Maria*, _retendo-o_. Não, que dorme ainda.

    *Manuel*. Dorme? Oh, então melhor.–Sentêmo'-nos aqui filha, e
    conversêmos. (_Toma-lhe as mãos; sentam-se_) Tens as mãos tam quentes!
    (_Beija-a na testa_) E ésta testa, ésta testa!… escalda.–Se isto está
    sempre a ferver! Valha-te Deus, Maria! Eu não quero que tu penses.

    *Maria*. Então que heide eu fazer?

    *Manuel*. Folgar, rir, brincar, tanger na harpa, correr nos campos,
    apanhar as flores…–E Telmo que te não conte mais histórias, que te
    não insine mais trovas e soláos. Poetas e trovadores padecem todos da
    cabeça… e é um mal que se péga.

    *Maria*. Então para que fazeis vós como elles?… eu bem sei que fazeis.

    *Manuel*, _surrindo_. Se tu sabes tudo! Maria, minha Maria.
    (_Amimando-a_) Mas não sabías ainda agora de quem era aquelle
    retratto…

    *Maria*. Sabía.

    *Manuel*. Ah! você sabía e estava fingindo?

    *Maria*, _gravemente_. Fingir não, meu pae. A verdade… é que eu sabía
    de um saber ca de dentro; ninguem m'o tinha ditto; e eu queria ficar
    certa.

    *Manuel*. Então adivinhas, feiticeira. (_Beija-a na testa_)–Telmo, ide
    ver se chamaes meu irmão: dizei-lhe que estou aqui.

    SCENA III

    MANUEL DE SOUSA e MARIA

    *Manuel*. Ora ouve ca, filha. Tu tens uma grande propensão para achar
    maravilhas e mysterios nas coisas mais naturaes e singellas. E Deus
    intregou tudo á nossa razão, menos os segredos de sua natureza
    ineffavel, os de seu amor, e de sua justiça e misericordia para
    comnosco. Esses são os pontos sublimes e incomprehensiveis da nossa fe!
    Esses creem-se: tudo o mais examína-se.–Mas vamos: (_surrindo_) não
    dirão que sou da Ordem dos Prégadores? Hade ser d'estas paredes, é
    uncção da casa: que isto é quasi um convento aqui, Maria… Para frades
    de San'Domingos não nos falta senão o hábito…

    *Maria*. Que não faz o monge…

    *Manuel*. Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulario nem
    corrêa, por baixo do setim e do velludo, o cilicio póde andar tam
    appertado sôbre as carnes, o coração tam contricto no peito… a
    morte–e a vida que vem depois d'ella–tam deante dos olhos sempre, como
    na cella mais estreita e com o burel mais grosseiro cingido. Mas emfim,
    chega-te aos bons… sempre é meio caminho andado. Eu estou
    contentissimo de virmos para ésta casa–quasi que nem ja me pêza da
    outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de
    San'Domingos como de portas a dentro.–Ainda não viste d'aqui a egreja?
    (_Levanta o reposteiro do fundo, e chegam ambos á tribuna_) É uma devota
    capella ésta. E todo o templo tam grave! dá consolação vê-lo. Deus nos
    deixe gosar em paz de tam boa visinhança. (_Tornam para o meio da
    casa_.)

    *Maria*, _que parou deante do retratto de D. João de Portugal, vólta-se
    derepente para o pae_. Meu pae, este retratto é parecido?

    *Manuel*. Muito; é raro ver tam perfeita similhança: o ar, os ademanes,
    tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe
    cabiam na télla, as nobres qualidades d'alma, a grandeza e valentia de
    coração,–e a fortaleza d'aquella vontade serena mais indomavel, que
    nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece so de o ouvir
    nomear; era um respeito… era quasi um temor sancto que lhe tinha.

    *Maria*. E lá ficou n'aquella fatal batalha!…

    *Manuel*. Ficou.–Tens muita pena, Maria?

    *Maria*. Tenho.

    *Manuel*. Mas se elle vivêsse… não existias tu agora, não te tinha eu
    aqui nos meus braços.

    *Maria*, _escondendo a cabeça no seio de seu pae_. Ai meu pae!

    SCENA IV

    MARIA, MANUEL DE SOUSA, JORGE

    *Jorge*. Ora alviçaras, minha dona sobrinha! venha-me ja abraçar,
    senhora D. Maria. (_Maria beija-lhe o escapulario; e depois abraçam-se_)
    Inda bem que vieste, meu irmão! Está tudo feito: os governadores deixam
    cahir o caso em esquecimento; Miguel de Moura ja cedeu.–O arcebispo foi
    hontem a Lisboa e volta ésta tarde. Vamos eu e mais quatro religiosos
    nossos buscá-lo para o acompanhar, e tu hasde vir comnosco para lhe
    agradecer; que não teve parte no aggravo que te fizeram, e foi quem
    acabou com os outros que se não resentissem da offensa ou do que lhes
    prouve tomar como tal… deixêmos isso. Volta para o convento e quasi
    que vem ser teu hóspede: é preciso fazer-lhe cumprimento, que no-lo
    merece.

    *Manuel*. Se elle vem so, sem os outros…

    *Jorge*. So, so: os outros estão por essas quintas d'áquem do Tejo. E
    nós não chegâmos aqui senão lá por noite.

    *Manuel*. Se intendes que posso ir…

    *Jorge*. Pódes e deves.

    *Manuel*. Vou decerto.–E até eu preciso de ir a Lisboa: tenho negócio
    de importancia no Sacramento, no vosso convento novo de freiras abaixo
    de San'Vicente; necessito fallar com a abbadessa.

    *Maria*. Oh meu pae, meu querido pae, levae-me, por quem sois, comvosco.
    Eu queria ver a tia Joanna de Castro; é o maior gôsto que posso ter
    n'esta vida. Quero ver aquelle rosto… De mim não se hade tapar…

    *Manuel*. E tua mãe?

    *Maria*. Minha mãe dá licença, dá. Ella ja está boa… oh, e em vos
    vendo fica boa de todo, e eu vou.

    *Manuel*. E os ares maus de Lisboa?

    *Jorge*. Isso ja acabou de todo: nem signal de peste.–Mas emfim a
    prudencia…

    *Maria*. A mim não se me péga nada.–Meu querido pae, vamos, vamos.

    *Manuel*. Veremos o que diz tua mãe, e como ella está.

    SCENA V

    MARIA, MANUEL DE SOUSA, JORGE; MAGDALENA _entrando_

    *Magdalena*, _correndo a abraçar Manuel de Sousa_. Estou boa ja, não
    tenho nada, espôso da minha alma, todo o meu mal era susto; era terror
    de te perder.

    *Manuel*. Querida Magdalena!

    *Magdalena*. Agora estou boa: Telmo ja me disse tudo, e curou-me com a
    boa nova.–Maria, Deus lembrou-se de nós: ouviu as tuas orações, filha,
    que as minhas… (_Vai a recahir na sua tristeza_.)

    *Jorge*. Ora pois, mana, ora pois!… Louvado seja Elle por tudo. E haja
    alegria! Que era sermos desagradecidos para com o Senhor, que nos valeu,
    mostrar-se hoje alguem triste n'esta casa.

    *Magdalena*, _fazendo por se alegrar_. Triste porquê? As tristezas
    acabaram. (_Para Manuel de Sousa_) Tu ficas aqui ja de vez. Não me
    deixas mais, não sais d'aopé de mim?–Agora, olha, estes primeiros dias
    ao menos, hasde-me aturar, hasde-me fazer companhia. Preciso muito,
    querido.

    *Manuel*. Pois sim, Magdalena, sim; farei quanto quizeres.

    *Magdalena*. É que eu estou boa… boa de todo; mas tenho uma…

    *Manuel*. Uma imaginação que te atormenta. Havemos de castigá-la, ainda
    que não seja senão para dar exemplo a certa donzella que nos está
    ouvindo e que precisa… precisa muito.–Pois olha: hoje é
    sexta-feira…

    *Magdalena*. Sexta-feira! (_aterrada_) ai que é sexta-feira!

    *Manuel*. Para mim tem sido sempre o dia mais bem estreado de toda a
    semana.

    *Magdalena*. Sim!

    *Manuel*. É o dia da paixão de Christo, Magdalena.

    *Magdalena*, _cahindo em si_. Tens razão.

    *Manuel*. É hoje sexta-feira: e d'aqui a oito… vamos–d'aqui a quinze
    dias bem contados, não saio de casa. Estás contente?

    *Magdalena*. Meu espôso, meu marido, meu querido Manuel!

    *Manuel*. E tu, Maria?

    *Maria*, _amuada_. Eu não.

    *Manuel*, _para Magdalena_. Queres tu saber por que é aquelle amúo? É
    que eu precisava de ir hoje a Lisboa…

    *Magdalena*. A Lisboa… hoje!

    *Manuel*. Sim: e não posso deixar de ir. Sabes que por fins d'esta minha
    pendencia com os governadores, eu fiquei em dívida–quem sabe se da
    vida? Miguel de Moura e esses meus degenerados parentes eram capazes de
    tudo!–Mas o certo é que fiquei em muita dívida ao arcebispo. Elle volta
    hoje aqui para o convento; e meu irmão, que vai com outros religiosos
    para o acompanharem, intende que eu tambem devo ir. Bem ves que não ha
    remedio.

    *Magdalena*. Logo hoje!… Este dia de hoje é o peior… se fosse
    ámanhan, se fosse passado hoje!… E quando estarás de volta?

    *Jorge*. Estamos aqui sem falta á bôcca da noite.

    *Magdalena*, _fazendo por se resignar_. Paciencia: ao menos valha-nos
    isso. Não me deixam aqui so outra noite… ésta noite, particularmente,
    não fico so…

    *Manuel*. Não, socega, não; estou aqui ao anoitecer. E nunca mais saio
    d'aopé de ti. E não serão quinze dias; vinte, os que tu quizeres.

    *Maria*. Então vou, meu pae, vou?–Minha mãe dá licença, dá?

    *Magdalena*. Vais aonde, filha? que dizes tu?

    *Maria*. Com meu pae que tem de ir ao Sacramento, de caminho.–E bem
    sabeis, querida mãe, o que eu ando ha tanto tempo para ir áquelle
    convento para conhecer a tia D. Joanna…

    *Jorge*. Soror Joanna: assim é que se chama agora.

    *Maria*. É verdade. E andam-me a prometter, ha um anno, que me hãode
    levar lá… D'esta vez hãode-m'o cumprir… não é assim, minha mãe?
    (_acarinhando-a_) minha querida mãesinha!–Sim, sim, dizei ja que sim.

    *Magdalena*, _abraçada com a filha_. Oh Maria, Maria… tambem tu me
    queres deixar!–tambem tu me desamparas… e hoje!

    *Maria*. Venho logo, minha mãe, venho logo.–Olhae: e não tenhaes
    cuidado commigo: vai meu pae, vai o tio Jorge,–levo a minha aia, a
    Dorothea… E, é verdade, o meu fiel escudeiro hade ir tambem, o meu
    Telmo.

    *Magdalena*. E tua mãe, filha, deixa-la aqui so, a morrer de tristeza?
    (_áparte_) e de medo!

    *Manuel*. Tua mãe tem razão: não hade ser assim, hoje não póde ser.
    (_Maria fica triste e desconsolada_.)

    *Jorge*.–Ora pois; eu ja disse que não queria ver hoje ninguem triste
    n'esta casa.–Venha ca a minha donzella dolorida, (_pegando-lhe pela
    mão_) e faça aqui muitas festas ao tio frade, que eu fico a fazer
    companhia a sua mãe. E vá, vá satisfazer essa louvavel curiosidade que
    tem de ir ver aquella sancta freirinha que tanto deixou para deixar o
    mundo e se ir interrar n'um claustro. Vá, e venha… melhor de coração,
    não póde ser–que tu es boa como as que são boas, minha Maria–Mas
    quero-te mais fria de cabeça: ouves?

    *Maria*, _áparte_. Fria!… quando ella estiver ôca!–_(Alto)_ Vou-me
    apromptar, minha mãe?

    *Magdalena*, _sem vontade_. Se teu pae quer…

    *Manuel*. Dou licença: vai. (_Maria sái a correr_.)

    SCENA VI

    MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE

    *Manuel*. É preciso deixá-la espairecer, mudar de logar, distrahir-se:
    aquelle sangue está em chammas, arde sôbre si e consomme-se, a não o
    deixarem correr á vontade.–Hade vir melhor: verás.

    *Magdalena*. Deus o queira!–Telmo que vá com ella; não o quero ca.

    *Manuel*. Porquê?

    *Magdalena*. Porque… Maria… Maria não está bem sem elle–e elle
    tambem… em estando sem Maria–que é a sua segunda vida, diz o pobre do
    velho,–sabes? Ja treslê muito… já está muito… e entra-me com
    scismas que…

    *Manuel*. Está, está muito velho, coitado! Pois que vá: melhor é.

    SCENA VII

    MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE; MARIA _entrando com_ TELMO e DOROTHEA

    *Maria*. Então vamos, meu pae.

    *Manuel*. Pois vamos.

    *Jorge*. E são horas; vão. Á Ribeira é um pedaço de rio; e até ás sette,
    o mais, tu precisas de estar de volta á porta da Oira, que é onde irão
    ter os nossos padres á espera do arcebispo.–Eu ca me desculparei com o
    prior. Vão.

    _Maria_. Minha mãe! (_abraçando-a_) Então, se choraes assim, não vou.

    *Manuel*. Nem eu, Magdalena. Ora pois! Eu nunca te vi assim.

    *Magdalena*. Porque nunca assim estive…–Vão, vão… adeus!–Adeus,
    espôso do meu coração!–Maria, minha filha, toma sentido no ar, não te
    resfries. E o sol… não sáias debaixo do tôldo no bergantim. Telmo, não
    te tires d'aopé d'ella.–Dá-me outro abraço, filha.–Dorothea, levaes
    tudo? (_Examina uma bolsa grande de damasco que Dorothea leva no braço_)
    Póde haver qualquer coisa, molhar-se, ter frio para a tarde… (_tendo
    examinado a bolsa_) Vai tudo: bem!–(_Baixo a Dorothea_) Não me apartes
    os olhos d'ella, Dorothea. Ouve. (_Falla baixo a Dorothea, que lhe
    responde baixo tambem; depois diz alto_) Está bom.

    *Manuel*. Não tenhas cuidado; vamos todos com ella. (_Abraçam-se outra
    vez; Maria sái appressadamente, e para a mãe não ver que vai suffocada
    com chôro_.)

    SCENA VIII

    MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE

    *Magdalena*, _seguindo com os olhos a filha e respondendo a Manuel de
    Sousa_. Cuidados!… eu não tenho ja cuidados. Tenho este medo, este
    horror de ficar so… de vir a achar-me so no mundo…

    *Manuel*. Magdalena!

    *Magdalena*. Que queres? não está na minha mão.–Mas tu tens razão de te
    infadar com as minhas impertinencias. Não fallêmos mais n'isso. Vai.
    Adeus!–Outro abraço. Adeus!

    *Manuel*. Oh querida mulher minha, parece que vou eu agora imbarcar n'um
    galeão para a India… Ora vamos: ao anoitecer, antes da noite, aqui
    estou.–E Jesus!… Olha a condessa de Vimioso, ésta Joanna de Castro
    que a nossa Maria tanto deseja conhecer… olha se ella faria esses
    prantos quando disse o último adeus ao marido…

    *Magdalena*. Bemditta ella seja! Deu-lhe Deus muita fôrça, muita
    virtude. Mas não lh'a invejo, não sou capaz de chegar a essas
    perfeições.

    *Jorge*. É perfeição verdadeira; é a do Evangelho: Deixa tudo e
    segue-me.

    *Magdalena*. Vivos ambos… sem offensa um do outro, querendo-se,
    estimando-se… e separar-se cada um para sua cova! Verem-se com a
    mortalha ja vestida–e… vivos, sãos… depois de tantos annos de
    amor… e convivencia… condemnarem-se a morrer longe um do outro–sos,
    sos!–E quem sabe se n'essa tremenda hora… arrependidos!

    *Jorge*. Não o permittirá Deus assim… oh, não. Que horrivel coisa
    seria!

    *Manuel*. Não permitte, não.–Mas não pensêmos mais n'elles: estão
    intregues a Deus… (_pausa_) E que temos nós com isso? A nossa situação
    é tam differente… (_pausa_) Em todas nos póde Elle abençoar.–Adeus,
    Magdalena, adeus! até logo. Maria ja lá vai no caes a ésta hora…
    adeus! Jorge, não a deixes. (_Abraçam-se; Magdalena vai até fóra da
    porta com elle_.)

    SCENA IX

    JORGE _so_

    Eu faço por estar alegre, e queria vê-los contentes a elles… mas não
    sei ja que diga do estado em que vejo minha cunhada, a filha… até meu
    irmão o desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha
    desgraça… E eu quasi que tambem ja se me péga o mal. Deus seja
    comnosco!

    SCENA X

    JORGE, MAGDALENA

    *Magdalena*, _fallando ao bastidor_. Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te
    lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me
    dizer para eu ficar descançada. (_Vem para a scena_) Não ha vento, e o
    dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta…
    quem sabe? o tempo muda tam depressa…

    *Jorge*. Não, hoje não tem perigo.

    *Magdalena*. Hoje… hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais
    tenho receado… que ainda temo que não acabe sem muito grande
    desgraça… É um dia fatal para mim: faz hoje annos que… que casei a
    primeira vez–faz annos que se perdeu elrei D. Sebastião–e faz annos
    tambem que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.

    *Jorge*. Pois contaes essa entre as infelicidades da vossa vida?

    *Magdalena*. Conto. Este amor–que hoje está sanctificado e bemditto no
    ceu, porque Manuel de Sousa é meu marido–começou com um crime, porque
    eu amei-o assim que o vi… e quando o vi–hoje, hoje… foi em tal dia
    como hoje!–D. João de Portugal ainda era vivo. O peccado estava-me no
    coração; a bôcca não o disse… os olhos não sei o que fizeram: mas
    dentro d'alma eu ja não tinha outra imagem senão a do amante… ja não
    guardava a meu marido, a meu bom… a meu generoso marido… senão a
    grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quasi que mais deve a si
    do que ao espôso. Permittiu Deus… quem sabe se para me tentar?… que
    n'aquella funesta batalha de Alcacer, entre tantos, ficásse tambem D.
    João…

    SCENA XI

    MAGDALENA, JORGE, MIRANDA

    *Miranda*, _appressado_. Senhora… minha senhora!

    *Magdalena*, _sobresaltada_. Quem vos chamou, que quereis?–Ah! es tu,
    Miranda. Como assim! ja chegaram?… Não póde ser.

    *Miranda*. Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas
    não é isso…

    *Magdalena*. Então que é? Não vos disse eu que não viesseis d'alli antes
    de os ver chegar?

    *Miranda*. Para lá torno já, minha senhora: ha tempo de sobejo.–Mas
    venho trazer-vos recado… um estranho recado, por minha fe.

    *Magdalena*. Dizei ja, que me estaes a assustar.

    *Miranda*. Para tanto não é; nem coisa séria, antes quasi para rir. É um
    pobre velho peregrino, um d'estes romeiros que aqui estão sempre a
    passar, que veem das bandas d'Hespanha…

    *Magdalena*. Um captivo… um remido?

    *Miranda*. Não, senhora, não trás a cruz, nem é: é um romeiro–algum
    d'estes que vão a Sant'Iago: mas diz elle que vem de Roma e dos
    Sanctos-Logares.

    *Magdalena*. Pois, coitado! virá. Agasalhae-o; e deem-lhe o que
    precisar.

    *Miranda*. É que elle diz que vem da Terra-Sancta, e…

    *Magdalena*. E porque não virá?–Ide, ide, e fazei-o accommodar ja.–É
    velho?

    *Miranda*. Muito velho e com umas barbas!… Nunca vi tam formosas
    barbas de velho, e tam alvas.–Mas, senhora, diz elle que vem da
    Palestina e que vos trás recado…

    *Magdalena*. A mim!

    *Miranda*. A vós; e que por fôrça vos hade ver e fallar.

    *Magdalena*. Ide vê-lo, Frei Jorge. Ingano hade ser: mas ide ver o pobre
    do velho.

    *Miranda*. É escusado, minha senhora: o recado que trás, diz que a
    outrem o não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo.

    *Jorge*. Eu sei o que é: alguma reliquia dos Sanctos-Logares–se elle
    comeffeito de lá vem!–que o bom do velho vos quer dar… como taes
    coisas se dão a pessoas da vossa qualidade… a trôco de uma esmolla
    avultada. É o que elle hade querer; é o costume.

    *Magdalena*. Pois venha embora o romeiro! E trazei-m'o aqui, trazei.

    SCENA XII

    MAGDALENA, JORGE

    *Jorge*. Que é precisa muita cautella com estes peregrinos! A vieira no
    chapeu e o bordão na mão, ás vezes não são mais que negaças para armar á
    charidade dos fieis. E n'estes tempos revoltos…

    SCENA XIII

    MAGDALENA, JORGE e MIRANDA _que volta com o_ ROMEIRO

    *Miranda*, _da porta_. Aqui está o romeiro.

    *Magdalena*. Que entre. E vós, Miranda, tornae para onde vos mandei; ide
    ja, e fazei como vos disse.

    *Jorge*, _chegando á porta da direita_. Entrae, irmão, entrae. (_O
    romeiro entra de vagar_.) Ésta é a senhora D. Magdalena de Vilhena.–E'
    ésta a fidalga a quem desejaes fallar?

    *Romeiro*. A mesma.

    (A um signal de Frei Jorge, Miranda retíra-se.)

    SCENA XIV

    MAGDALENA, JORGE, ROMEIRO

    *Jorge*. Sois portuguez?

    *Romeiro*. Como os melhores, espero em Deus.

    *Jorge*. E vindes?…

    *Romeiro*. Do Sancto-Sepulchro de Jesus Christo.

    *Jorge*. E visitastes todos os Sanctos-Logares?

    *Romeiro*. Não os visitei; morei lá vinte annos cumpridos.

    *Magdalena*. Sancta vida levastes, bom romeiro.

    *Romeiro*. Oxalá!–Padeci muita fome, e não soffri com paciencia:
    deram-me muitos trattos, e nem sempre os levei com os olhos n'Aquelle
    que alli tinha padecido tanto por mim… Queria rezar, e meditar os
    mysterios da Sagrada Paixão que alli se obrou… e as paixões mundanas,
    e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne, travavam-me do
    coração e do espirito, que os não deixava estar com Deus, nem n'aquella
    terra que é toda sua.–Oh! eu não merecia estar onde estive: bem vêdes
    que não soube morrer lá.

    *Jorge*. Pois bem: Deus quiz trazer-vos á terra de vossos paes; e quando
    for sua vontade, ireis morrer socegado nos braços de vossos filhos.

    *Romeiro*. Eu não tenho filhos, padre.

    *Jorge*. No seio da vossa familia…

    *Romeiro*. A minha familia… Já não tenho familia.

    *Magdalena*. Sempre ha parentes, amigos…

    *Romeiro*. Parentes!… Os mais chegados, os que eu me importava
    achar… contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ella;
    hão de jurar que me não conhecem.

    *Magdalena*. Haverá tam má gente… e tam vil que tal faça?

    *Romeiro*. Necessidade póde muito.–Deus lh'o perdoará se podér!

    *Magdalena*. Não façaes juizos temerarios, bom romeiro.

    *Romeiro*. Não faço.–De parentes, ja sei mais do que queria: amigos,
    tenho um; com esse, conto.

    *Jorge*. Ja não sois tam infeliz.

    *Magdalena*. E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que
    podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade
    folgar de vos proteger…

    *Romeiro*. Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

    *Magdalena*. Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

    *Romeiro*. Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a
    Deus.–Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê.

    *Magdalena*. Não, irmão, não decerto. E Elle terá compaixão de mim.

    *Romeiro*. Terá…

    *Jorge*, _cortando a conversação_. Bom velho, dissestes trazer um recado
    a ésta dama: dae-lh'o ja, que havereis mister de ir descançar…

    *Romeiro*, _surrindo amargamente_. Quereis lembrar-me que estou abusando
    da paciencia com que me teem ouvido? Fizestes bem, padre: eu ia-me
    esquecendo… talvez me esquecesse de todo da mensagem a que vim…
    estou tam velho e mudado do que fui!

    *Magdalena*. Deixae, deixae, não importa; eu folgo de vos ouvir:
    dir-me-heis vosso recado quando quizerdes… logo, ámanhan…

    *Romeiro*. Hoje hade ser. Ha tres dias que não durmo nem descanço, nem
    pousei ésta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar
    aqui hoje, para vos dar meu recado… e morrer depois… ainda que
    morrêsse depois; porque jurei… faz hoje um anno… quando me
    libertaram, dei juramento sôbre a pedra sancta do Sepulchro de
    Christo…

    *Magdalena*. Pois ereis captivo em Jerusalem?

    *Romeiro*. Era: não vos disse que vivi lá vinte annos?

    *Magdalena*. Sim, mas…

    *Romeiro*. Mas o juramento que dei foi que, antes de um anno cumprido,
    estaria deante de vós e vos diria da parte de quem me mandou…

    *Magdalena*, _aterrada_. E quem vos mandou, homem?

    *Romeiro*. Um homem foi,–e um honrado homem… a quem unicamente devi a
    liberdade… a _ninguem_ mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

    *Magdalena*. Como se chama?

    *Romeiro*. O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no
    captiveiro.

    *Magdalena*. Mas emfim, dizei vós…

    *Romeiro*. As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as
    lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram
    n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão
    eu… e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras.

    *Jorge*. Homem, acabae.

    *Romeiro*. Agora acabo; soffrei, que elle tambem soffreu muito.–Aqui
    estão as suas palavras: «Ide a D. Magdalena de Vilhena, e dizei-lhe que
    um homem que muito bem lhe quiz… aqui está vivo… por seu mal… e
    d'aqui não pôde sahir nem mandar-lhe novas suas de ha vinte annos que o
    trouxeram captivo.»

    *Magdalena*, _na maior anciedade_. Deus tenha misericordia de mim!–E
    esse homem, esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha
    sido… levaram-n'o ahi de donde!… de Africa?

    *Romeiro*. Levaram.

    *Magdalena*. Captivo?…

    *Romeiro*. Sim.

    *Magdalena*. Portuguez?… captivo da batalha de?…

    *Romeiro*. De Alcacer-Kebir.

    *Magdalena*, _espavorida_. Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra
    debaixo dos meus pés?… que não cahem éstas paredes, que me não
    sepultam ja aqui?…

    *Jorge*. Callae-vos, D. Magdalena: a misericordia de Deus é infinita;
    esperae. Eu duvido, eu não creio… éstas não são coisas para se crerem
    de leve. (_Reflecte, e logo como por uma idea que lhe acccudiu
    derepente_) Oh! inspiração divina… (_Chegando ao romeiro_) Conheceis
    bem esse homem, romeiro: não é assim?

    *Romeiro*. Como a mim mesmo.

    *Jorge*. Se o vireis… ainda que fôra n'outros trajes… com menos
    annos–pintado, digamos–conhece-lo-heis?

    *Romeiro*. Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

    *Jorge*. Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde
    ser.

    *Romeiro*, _sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João_.
    É aquelle.

    *Magdalena*, _com um grito espantoso_. Minha filha, minha filha, minha
    filha!… (_em tom cavo e profundo_) Estou… estás… perdidas,
    deshonradas… infames! (_Com outro grito do coração_) Oh minha filha,
    minha filha!… (_Foge espavorida e n'este gritar_.)

    SCENA XV

    JORGE e o ROMEIRO, que seguiu Magdalena com os olhos, e está alçado no
    meio da casa com aspecto severo e tremendo.

    *Jorge*. Romeiro, romeiro! quem es tu?

    *Romeiro*, _apontando com o bordão para o retratto de D. João de
    Portugal_. Ninguem.

    (Frei Jorge cái prostrado no chão, com os braços estendidos, deante da
    tribuna. O panno desce lentamente.)

    ACTO TERCEIRO

    _Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta
    á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja
    de San'Paulo dos Dominicos d'Almada: é um casarão vasto sem ornato
    algum. Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras,
    cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso
    conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma
    grande cruz negra de tábua com o letreiro J. N. R. J., e toalha
    pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. Mais para a scena
    uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira
    baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de
    chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem,–e um hábito
    completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto,
    etc. No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o
    resto dos baixos do palacio.–É alta noite_.

    SCENA I

    MANUEL DE SOUSA, _sentado n'um tamborete, aopé da mesa, o rosto
    inclinado sôbre o peito, os braços cahidos e em completa prostração
    d'espirito e de corpo; n'um tamborete do outro lado_ JORGE, _meio
    incostado para a mesa, com as mãos postas, e os olhos pregados no
    irmão_.

    *Manuel*. Oh minha filha, minha filha! (_Silencio longo_) Desgraçada
    filha, que ficas orphan!… orphan de pae e mãe… (_pausa_)… e de
    familia e de nome, que tudo perdêste hoje… (_Levânta-se com violenta
    afflição_) A desgraçada nunca os teve!–Oh Jorge, que ésta lembrança é
    que me matta, que me desespera! (_Appertando a mão do irmão, que se
    levantou após d'elle e o está consolando do gesto_.) É o castigo
    terrivel do meu êrro… se foi êrro… crime sei que não foi. E sabe-o
    Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!

    *Jorge*. Paciencia, paciencia: os seus juizos são imperscrutaveis.
    (_Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam_.)

    *Manuel*. Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra,
    pôsto de alvo á irrisão e ao discursar do vulgo?… Manuel de
    Sousa-Coutinho, o filho de Lopo de Sousa-Coutinho, o filho do nosso pae,
    Jorge!

    *Jorge*. Tu chámas-te o homem mais infeliz da terra… Ja te esquecêste
    que ainda está vivo aquelle…

    *Manuel*, _cahindo em si_. É verdade. (_Pausa; e depois como quem se
    desdiz_) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e
    bebeu até ás fezes o calix das amarguras humanas… (_Levantando a voz_)
    Mas fui eu, eu que lh'o preparei, eu que lh'o dei a beber, pelas mãos…
    innocentes mãos!… d'essa infeliz que arrastei na minha quéda, que
    lancei n'esse abysmo de vergonha, a quem cobri as faces–as faces puras,
    e que não tinham córado d'outro pejo senão do da virtude e do recato…
    cobri-lh'as de um veo d'infamia que nem a morte hade levantar, porque
    lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sôbre o tumulo a cobrir-lhe a
    memória de sombras… de manchas que se não lavam!–Fui eu o auctor de
    tudo isto, o auctor da minha desgraça e da sua deshonra d'elles…
    Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?

    *Jorge*. Ve a palavra que disseste: «deshonra»: lembra-te d'ella e de
    ti, e considera, se podes pleitear miserias com esse homem a quem Deus
    não quiz accudir com a morte antes de conhecer ess'outra agonia
    maior.–Elle não tem…

    *Manuel*. Elle não tem uma filha como eu, desgraçado… (_pausa_)–uma
    filha bella, pura, adorada, sôbre cuja cabeça–oh! porque não é na
    minha!–vai cahir toda essa deshonra, toda a ignominia, todo o opprobrio
    que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a
    mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra
    culpa senão a da origem que eu lhe dei.

    *Jorge*. Não é assim, meu irmão; não te cegues com a dor, não te faças
    mais infeliz do que es. Ja não es pouco, meu pobre Manuel, meu querido
    irmão! e Deus hade levar em conta essas amarguras. Ja que te não póde
    apartar o calix dos beiços, o que tu padeces, hade ser descontado
    n'ella, hade resgatar a culpa…

    *Manuel*. Resgate! sim, para o ceu: n'esse confio eu… mas o mundo?…

    *Jorge*. Deixa o mundo e as suas vaidades.

    *Manuel*. Estão deixadas todas. Mas este coração é de carne.

    *Jorge*. Deus, Deus será o pae de tua filha.

    *Manuel*. Olha, Jorge: queres que te diga o que sei decerto, e que devia
    ser consolação… mas não é, que eu sou homem, não sou anjo, meu
    irmão–devia ser consolação, e é desespêro, é a coroa d'espinhos de toda
    ésta paixão que estou passando… é que a minha filha… Maria… a
    filha do meu amor–a filha do meu peccado, se Deus quer que seja
    peccado–não vive, não resiste, não sobrevive a ésta affronta.

    (Desata a soluçar, cái com os cotovelos fixos na mesa e as mãos
    appertadas no rosto: fica n'esta posição por longo tempo. Ouve-se de
    quando em quando um soluço comprimido. Frei Jorge está em pé, detrás
    d'elle, amparando-o com seu corpo, e os olhos postos no ceu.)

    *Jorge*, _chamando timidamente_. Manuel!

    *Manuel*. Que me queres, irmão?

    *Jorge*, _animando-o_. Ella não está tam mal; já lá estive hoje…

    *Manuel*. Estiveste?… oh! conta-me, conta-me; eu não tenho… não tive
    ainda ânimo de a ir ver.

    *Jorge*. Haverá duas horas que entrei na sua camera, e estive aopé do
    leito. Dormia, e mais socegada da respiração. O accesso de febre, que a
    tomou quando chegámos de Lisboa e que viu a mãe n'aquelle
    estado,–parecia declinar… quebrar-se mais alguma coisa. Dorothea, e
    Telmo… pobre velho coitado!… estavam aopé d'ella, cada um de seu
    lado… disseram-me que não tinha tornado a… a…

    *Manuel*. A lançar sangue?… Se ella deitou o do coração!… não tem
    mais. N'aquelle corpo tam franzino, tam delgado, que mais sangue hade
    haver?–Quando hontem a arranquei d'aopé da mãe e a levava nos braços,
    não m'o lançou todo ás golfadas aqui no peito? (_Mostra um lenço branco
    todo manchado de sangue_) Não o tenho aqui… o sangue… o sangue da
    minha víctima?… que é o sangue das minhas veias… que é o sangue da
    minha alma–é o sangue da minha querida filha! (_Beija o lenço muitas
    vezes_) Oh meu Deus, meu Deus! eu queria pedir-te que a levasses ja… e
    não tenho ânimo. Eu devia acceitar por mercê de tuas misericordias que
    chamasses aquelle anjo para junto dos teus, antes que o mundo, este
    mundo infame e sem commiseração, lhe cuspisse na cara com a desgraça do
    seu nascimento.–Devia, devia… e não posso, não quero, não sei, não
    tenho ânimo, não tenho coração. Peço-te vida, meu Deus (_ajoelha e põe
    as mãos_) peço-te vida, vida, vida… para ella, vida para a minha
    filha!… saude, vida para a minha querida filha!… e morra eu de
    vergonha, se é preciso; cubra-me o escarneo do mundo, deshonre-me o
    opprobrio dos homens, tape-me a sepultura uma loisa de ignominia, um
    epitaphio que fique a bradar por essas eras deshonra e infamia sôbre
    mim!… Oh meu Deus, meu Deus! (_Cái de bruços no chão… Passado algum
    tempo, Frei Jorge se chega para elle, levanta-o quasi a pêso, e o torna
    a assentar_.)

    *Jorge*. Manuel, meu bom Manuel, Deus sabe melhor o que nos convem a
    todos: põe nas suas mãos esse pobre coração, põe-n'o resignado e
    contricto, meu irmão, e Elle fará o que em sua misericordia sabe que é
    melhor.

    *Manuel*, _com vehemencia e medo_. Então desinganas-me… desinganas-me
    ja?… é isso que queres dizer? Falla, homem: não ha que esperar?… não
    ha que esperar d'alli, não é assim? dize: morre, morre?…
    (_desanimado_) Tambem fico sem filha!

    *Jorge*. Não disse tal. Por charidade comtigo, meu irmão, não imagines
    tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos opprimida; dormia…

    *Manuel*, _variando_. Se Deus quizera que não acordásse!

    *Jorge*. Valha-me Deus!

    *Manuel*. Para mim aqui está ésta mortalha: (_tocando no hábito_) morri
    hoje… vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim!
    Mas minha filha não era do mundo… não era, Jorge; tu bem sabes que não
    era: foi um anjo que veiu do ceu para me acompanhar na peregrinação da
    terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna
    pousada d'onde viera e onde me conduzia… Separou-nos o archanjo das
    desgraças, o ministro das iras do Senhor que derramou sôbre mim o vaso
    cheio das lagrymas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua
    cholera… (_Cahindo de tom_) Vou com ésta mortalha para a sepultura…
    e, viva ou morta, ca deixo a minha filha no meio dos homens que a não
    conheceram, que a não hãode conhecer nunca, porque ella não era d'este
    mundo nem para elle… (_Pausa_)–Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez,
    vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso… mas heide ir, oh! heide ir
    vê-la e beijá-la antes de descer á cova… Tu não queres, não podes
    querer…

    *Jorge*. Havemos de ir… quando estiveres mais socegado… havemos de
    ir ambos: descança, hasde vê-la.–Mas isto inda é cedo.

    *Manuel*. Que horas serão?

    *Jorge*. Quatro, quatro e meia. (_Vai á porta da esquerda e volta_) São
    cinco horas, pelo alvor da manhan que ja dá nos vidros da egreja. D'aqui
    a pouco iremos; mas socega.

    *Manuel*. E a outra… a outra desgraçada, meu irmão?

    *Jorge*. Está–imagina por ti–está como não podia deixar de estar: mas
    a confiança em Deus póde muito: vai-se conformando. O Senhor fará o
    resto.–Eu tenho fe n'este escapulario (_tocando no hábito em cima da
    mesa_) para ti e para ella. Foi uma resolução digna de vós, foi uma
    inspiração divina que os allumiou a ambos. Deixa estar; ainda póde haver
    dias felizes para quem soube consagrar a Deus as suas desgraças.

    *Manuel*. E isso está tudo prompto? Eu não soffro n'estes hábitos, eu
    não aturo, com estes vestidos de vivo, a luz d'esse dia que vem a
    nascer.

    *Jorge*. Está tudo concluido. O arcebispo mostrou-se bom e piedoso
    prelado n'esta occasião: e é um sancto homem, é. O arcebispo ja expediu
    todas as licenças e mais papeis necessarios. Coitado! o pobre do velho
    velou quasi toda a noite com o seu vigario para que não faltásse nada
    desde o romper do dia. Mandou-se ao provincial, e pela sua parte e pela
    nossa tudo está corrente. Frei João de Portugal, que é o prior de
    Bemfica, e tambem vigario do Sacramento, sabes, chegou haverá duas
    horas, noite fechada ainda, e ca está: é quem te hade lançar o hábito, a
    ti e a Dona… a minha irman.–Depois ireis, segundo o vosso desejo, um
    para Bemfica, outro para o Sacramento.

    *Manuel*. Tu es um bom irmão, Jorge: (_apperta-lhe a mão_) Deus t'o hade
    pagar. (_Pausa_) Eu não me atrevo… tenho repugnancia… mas é forçoso
    perguntar-te por alguem mais. Onde está _elle_… e o que fará!…

    *Jorge*. Bem sei, não digas mais: o romeiro. Está na minha cella, e de
    lá não hade sahir–que foi ajustado entre nós–senão quando… quando eu
    lh'o disser. Descança: não verá ninguem, nem será visto de nenhum
    d'aquelles que o não devem ver. Demais, o segrêdo de seu nome verdadeiro
    está entre mim e ti–além do arcebispo, a quem foi indispensavel
    communicá-lo para evitar todas as formalidades e delongas que aliás
    havia de haver n'uma separação d'esta ordem.–Ainda ha outra pessoa com
    quem lhe prometti–não pude deixar de prometter, porque sem isso não
    queria elle entrar em accôrdo algum–com quem lhe prometti que havia de
    fallar hoje e antes de mais nada.

    *Manuel*. Quem? será possivel?… Pois esse homem quer ter a crueldade
    de rasgar, fevra a fevra, os pedaços d'aquelle coração ja partido?–Não
    tem intranhas esse homem: sempre assim foi, duro, desapiedado como a sua
    espada.–É D. Magdalena que elle quer ver?…

    *Jorge*. Não, homem; é o seu aio velho, é Telmo-Paes. Como lh'o havia de
    eu recusar?

    *Manuel*. De nenhum modo: fizeste bem; eu é que sou injusto. Mas o que
    eu padeço é tanto e tal!…–Vamos; eu ainda me não intendo bem claro
    com ésta desgraça: dize-me, falla-me a verdade: minha mulher…–minha
    mulher! com que bôcca pronuncio eu ainda éstas palavras!–D. Magdalena o
    que sabe?

    *Jorge*. O que lhe disse o romeiro n'aquella fatal sala dos retrattos…
    o que ja te contei. Sabe que D. João está vivo, mas não sabe aonde;
    suppõe-no na Palestina talvez; é onde o deve suppor pelas palavras que
    ouviu.

    *Manuel*. Então não conhece, como eu, toda a extensão, toda a
    indubitavel verdade da nossa desgraça. Ainda bem! talvez possa duvidar,
    consolar-se com alguma esperança de incerteza.

    *Jorge*. Hontem de tarde não; mas ésta noite começava a raiar-lhe no
    espirito alguma falsa luz d'essa van esperança. Deus lh'a deixe, se é
    para bem seu.

    *Manuel*. Porque não hade deixar? Não é ja desgraçada bastante?–E
    Maria, a pobre Maria!… Essa confio no Senhor que não saiba, ao menos
    por ora…

    *Jorge*. Não sabe. E ninguem lh'o disse, nem dirá. Não sabe senão o que
    viu: a mãe quasi nas agonias da morte. Mas o motivo, so se ella o
    adivinhar.–Tenho medo que o faça…

    *Manuel*. Tambem eu.

    *Jorge*. Deus será comnosco e com ella!–Mas não: Telmo não lhe diz nada
    por certo; eu já lhe asseverei–e accreditou-me–que a mãe estava
    melhor, que tu ias logo vê-la… E assim espero que, até lá por meio
    dia, a possamos conservar em completa ignorancia de tudo. Depois
    ir-se-lhe-ha dizendo, pouco a pouco, até onde for inevitavel. E Deus…
    Deus accudirá.

    *Manuel*. Minha pobre filha, minha querida filha!

    SCENA II

    JORGE, MANUEL DE SOUSA, TELMO

    *Telmo*, _batendo de fóra á porta do fundo_. Acordou.

    *Manuel*, _sobresaltado_. É a voz de Telmo?

    *Jorge*. É. (_Indo abrir a porta_) Entrae, Telmo.

    *Telmo*. Acordou.

    *Jorge*. E como está?

    *Telmo*. Melhor, muito melhor, parece outra. Está muito abatida, isso
    sim; muito fraca, a voz lenta, mas os olhos serenos, animados como
    d'antes e sem aquelle fusilar de hontem. Perguntou por vós… ambos.

    *Manuel*. E pela mãe?

    *Telmo*. Não: nunca mais fallou n'ella.

    *Manuel*. Oh filha, filha!…

    *Jorge*. Iremos vê-la. (_péga na mão do irmão_) Tu promettes-me?…

    *Manuel*. Prometto.

    *Jorge*. Vamos.–(_Chamando a Telmo para a bôcca da scena_) Ouvi, Telmo:
    lembraes-vos do que vos disse ésta manhan?

    *Telmo*. Não me heide lembrar?

    *Jorge*. Ficae aqui. Em nós sahindo, puchae aquella corda que vai dar á
    sineta da sachristia: virá um irmão converso; dizei-lhe o vosso nome,
    elle ir-se-ha sem mais palavra, e vós esperae. Fechae logo ésta porta
    por dentro, e não abraes senão á minha voz. Intendestes?

    *Telmo*. Ide descançado.

    SCENA III

    TELMO, _depois o_ IRMÃO CONVERSO

    *Telmo* _vai para deitar a mão á corda, pára suspenso algum tempo, e
    depois_: Vamos: isto hade ser. (_Ouve-se tocar longe uma sineta: Telmo
    fica pensativo, e com o braço alevantado e immovel_.)

    *Converso*. Quem sois?

    *Telmo*, _estremecendo_. Telmo-Paes.

    (O converso faz venia e vai-se.)

    SCENA IV

    *Telmo* _so_. Virou-se-me a alma toda com isto: não sou ja o mesmo
    homem. Tinha um presentimento do que havia de acontecer… parecia-me
    que não podia deixar de succeder… e cuidei que o desejava em quanto
    não veiu.–Veiu, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguem!–Meu
    honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo… o filho que eu
    criei n'estes braços… vou saber novas certas d'elle–no fim de vinte
    annos de o julgarem todos perdido–e eu, eu que sempre esperei, que
    sempre suspirei pela sua vinda…–era um milagre que eu esperava sem o
    crer! Eu agora tremo… É que o amor d'est'outra filha, d'esta última
    filha, é maior, e venceu… venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é
    peccado. Mas que peccado hade haver com aquelle anjo?–Se me ella
    viverá, se escapará d'esta crise terrivel!–Meu Deus, meu Deus!
    (_ajoelha_) levae o velho que já não presta para nada, levae-o por quem
    sois! (_Apparece o romeiro á porta da esquerda, e vem lentamente
    approximando-se de Telmo que não dá por elle_.) Contentae-vos com este
    pobre sacrificio da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o
    innocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós… mas ainda não,
    não m'o leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores
    aquella alma: esperae-lhe com a da morte algum tempo!

    SCENA V

    TELMO _e o_ ROMEIRO

    *Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

    *Telmo*, _sobresaltado_. Que voz!–Ah! é o romeiro.–Que me não oiça
    Deus! porquê?

    *Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

    *Telmo*, _áparte_. Já não sei pedir senão pela outra. (_Alto_) E que
    pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe
    peço a vida de um innocente?

    *Romeiro*. E quem te disse que elle o era?

    *Telmo*. Ésta voz… ésta voz!–Romeiro, quem es tu?

    *Romeiro*, _tirando o chapéu e alevantando o cabello dos olhos_.
    Ninguem, Telmo, ninguem, se nem ja tu me conheces.

    *Telmo*, _deitando-se-lhe ás mãos para lh'as beijar_. Meu amo, meu
    senhor… sois vós?–sois, sois.–D. João de Portugal, oh, sois vós,
    senhor?

    *Romeiro*. Teu filho ja não?

    *Telmo*. Meu filho!… Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto… Só
    estas barbas, este cabello não… Mais branco ja que o meu, senhor!

    *Romeiro*. São vinte annos de captiveiro e miseria, de saudades, de
    âncias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que
    veiu depois da batalha d'Alcacer; a barba, acabaram de a curar o sol da
    Palestina e as aguas do Jordão.

    *Telmo*. Por tam longe andastes?

    *Romeiro*. E por tam longe eu morrêra!–Mas não quiz Deus assim.

    *Telmo*. Seja feita a sua vontade.

    *Romeiro*. Pêza-te?

    *Telmo*. Oh, senhor!

    *Romeiro*. Pêza-te?

    *Telmo*. Hade-me pezar da vossa vida? (_Á parte_) Meu Deus! Parece-me
    que menti…

    *Romeiro*. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza
    ella a mim?–Amigo, ouve… Tu es meu amigo?

    *Telmo*. Não sou?

    *Romeiro*. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de
    conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!…–Mas tu
    es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?

    *Telmo*. Senhor!

    *Romeiro*. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha
    última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca…

    *Telmo*. O que quereis que vos diga, senhor?–Eu…

    *Romeiro*. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não
    quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas
    tambem não posso–Deus me ouve–não posso criminar ninguem porque o
    accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia
    resistir o coração. E aqui… coração que fosse meu… não havia outro.

    *Telmo*. Sois injusto.

    *Romeiro*. Bem sei o que queres dizer.–E é verdade isso? é verdade que
    por toda a parte me procuraram, que por toda a parte… ella mandou
    mensageiros, dinheiro?

    *Telmo*. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a
    mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

    *Romeiro*. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que
    desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil
    e grosseiro imbuste dos inimigos de… dos inimigos d'esse homem-que
    ella ama… E que socegue, que seja feliz.–Telmo, adeus!

    *Telmo*. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim
    villão que não sou?

    *Romeiro*. Hasde, porque eu te mando.

    *Telmo*, _em grande anciedade_. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade
    do vosso servo. É que vós não sabeis… D. João, meu senhor, meu amo,
    meu filho, vós não sabeis…

    *Romeiro*. O quê?

    *Telmo*. Que ha aqui um anjo… uma outra filha minha, senhor, que eu
    também criei…

    *Romeiro*. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.

    *Telmo*. Não m'o pergunteis.

    *Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!–Tiraram-me
    tudo. (_Pausa_)–E teem um filho elles?…–Eu não…–E mais,
    imagino… Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em
    conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.–Telmo, vai fazer o que te
    mandei.

    *Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?

    *Romeiro*. O que te ordena teu amo.–Telmo, dá-me um abraço.
    (_Abraçam-se_) Adeus, adeus até…

    *Telmo*. Até quando, senhor?

    *Romeiro*. Até ao dia de juizo…

    *Teimo*. Pois vós?…

    *Romeiro*. Eu…–Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso
    remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E
    para quê?–D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que
    elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle
    amava… oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle
    ja não póde amar sem deshonra e vergonha!… Na hora em que ella
    accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro
    riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a
    sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que
    fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e
    de impostor… dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao
    meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a
    memória d'elle que fique sem mancha.–Está em tuas mãos, Telmo,
    intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?

    *Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde
    ella approveitar ainda?

    *Romeiro*. Porque não?

    *Telmo*. Eu sei!–Talvez…

    SCENA VI

    ROMEIRO, TELMO; _e_ MAGDALENA _de fóra á porta do fundo_.

    *Magdalena*. Espôso, espôso! abri-me, por quem sois. Bem sei que aqui
    estaes: abri.

    *Romeiro*. É ella que me chama. Sancto Deus! Magdalena que chama por
    mim…

    *Telmo*. Por vós!

    *Romeiro*. Pois por quem?… não lhe ouvis gritar:–«Espôso, espôso?»

    *Magdalena*. Marido da minha alma, pelo nosso amor te peço, pelos doces
    nomes que me déste, pelas memórias da nossa felicidade antiga, pelas
    saudades de tanto amor e tanta ventura, oh! não me negues este último
    favor.

    *Romeiro*. Que incanto, que seducção! Como lhe heide resistir!

    *Magdalena*. Meu marido, meu amor, meu Manuel!

    *Romeiro*. Ah!… E eu tam cego que ja tomava para mim!…–Ceu e
    inferno! abra-se ésta porta…(_investe para a porta com impeto; mas
    pára derepente_) Não: o que é ditto, é ditto. (_Vai precipitadamente á
    corda da sineta, toca com violencia; apparece o mesmo irmão converso, e
    a um signal do romeiro ambos desapparecem pela porta da esquerda_.)

    SCENA VII

    TELMO, MAGDALENA; _depois_ JORGE _e_ MANUEL DE SOUSA

    *Magdalena*, _ainda de fóra_. Jorge, meu irmão, Frei Jorge, vós estaes
    ahi, que eu bem sei; abri-me por charidade, deixae-me, dizer uma unica
    palavra a meu… a vosso irmão:–e não vos importuno mais, e farei tudo
    o que de mim quereis, e… (_Ouve-se do mesmo lado ruido de passos
    appressados, e logo a voz de Frei Jorge_.)

    *Jorge*, _de fóra_. Telmo, Telmo, abri se podeis… abri ja.

    *Telmo*, _abrindo a porta_. Aqui estou eu so.

    *Magdalena*, _entrando desgrenhada e fóra de si, procurando, com os
    olhos, todos os recantos da casa_. Estaveis aqui so, Telmo! E elle para
    onde foi?

    *Telmo*. Elle quem, senhora?

    *Jorge*, _vindo á frente_. Telmo estava aqui aguardando por mim, e com
    ordem de não abrir a ninguem em quanto eu não viesse.

    *Magdalena*. Aqui havia duas vozes que fallavam: distinctamente as ouvi.

    *Telmo*, _aterrado_. Ouvistes?

    *Magdalena*. Sim, ouvi. Onde está elle, Telmo? onde está meu marido…
    Manuel de Sousa?

    *Manuel*, _que tem estado no fundo, em quanto Magdalena, sem o ver, se
    adiantára para a scena, vem agora á frente_. Esse homem está aqui,
    senhora; que lhe quereis?

    *Magdalena*. Oh que ar, que tom, que modo esse com que me fallas!…

    *Manoel*, _internecendo-se_. Magdalena… (_Cahindo em si e gravemente_)
    Senhora, como quereis que vos falle, que quereis que vos diga?–Não está
    tudo ditto entre nós?

    *Magdalena*. Tudo! quem sabe? Eu parece-me que não. Olha: eu sei?… mas
    não dariamos nós, com demasiada precipitação, uma fe tam cega, uma
    crença tam implicita a essas mysteriosas palavras de um romeiro, um
    vagabundo… um homem emfim que ninguem conhece? Pois dize…

    *Telmo*, _áparte a Jorge_. Tenho que vos dizer, ouvi. (_Conversam ambos
    áparte_.)

    *Manuel*. Oh Magdalena, Magdalena! não tenho mais nada que te
    dizer.–Crê-me, que t'o juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso
    amor é impossivel.

    *Jorge*, _continuando a conversação com Telmo, e levantando a voz com
    aspereza_. É impossivel j'agora…–e sempre o devia ser.

    *Magdalena*, _virando-se para Jorge_. Tambem tu, Jorge!

    *Jorge*, _virando-se para ella_. Eu fallava com Telmo, minha
    irman.–(_Para Telmo_) Ide Telmo, ide onde vos disse, que sois mais
    preciso lá. (_Falla-lhe ao ouvido; depois alto_) Não m'a deixes um
    instante, ao menos até passar a hora fatal.

    (Telmo sái com repugnancia, e rodeando para ver se chega aopé de
    Magdalena. Jorge, que o percebe, faz-lhe um signal imperioso; elle
    recúa, e finalmente se retira pelo fundo.)

    SCENA VIII

    MAGDALENA, MANUEL DE SOUSA, JORGE

    *Magdalena*. Jorge, meu irmão, meu bom Jorge, vós, que sois tam prudente
    e reflectido, não dais nenhum pêso ás minhas dúvidas?

    *Jorge*. Tomára eu ser tam feliz que podésse, querida irman.

    *Magdalena*. Pois intendeis?…

    *Manuel*. Magdalena… senhora! Todas éstas coisas são ja indignas de
    nós.–Até hontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens,
    estava na boa fe e seguridade de nossas consciencias. Essa acabou. Para
    nós ja não ha senão éstas mortalhas, (_tomando os habitos de cima da
    banca_) e a sepultura d'um claustro.–A resolução que tomámos é a unica
    possivel; e ja não ha que voltar atrás… Ainda hontem fallavamos dos
    condes de Vimioso… Quem nos diria… oh incomprehensiveis mysterios de
    Deus!… Ánimo, e ponhamos os olhos n'aquella cruz!–Pela última vez,
    Magdalena… pela derradeira vez n'este mundo, querida… (_Vai para a
    abraçar e recúa_) Adeus, adeus! (_Foge precipitadamente pela porta da
    esquerda_.)

    SCENA IX

    MAGDALENA, JORGE, _côro dos frades dentro_.

    *Magdalena*. Ouve, espera; uma so, uma so palavra: Manuel de Sousa!…
    (_Toca o orgam dentro_.)

    *Côro*, _dentro_. De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi
    vocem meam.

    *Magdalena*, _indo abraçar-se, com a cruz_. Oh Deus, Senhor meu! pois
    ja, ja? nem mais um instante, meu Deus?–Cruz do meu Redemptor, oh cruz
    preciosa, refúgio d'infelizes, ampara-me tu, que me abandonaram todos
    n'este mundo, e ja não posso com as minhas desgraças… e estou feita um
    espectaculo de dor e d'espanto para o ceu e para a terra!–Tomae,
    Senhor, tomae tudo…–A minha filha também?… Oh! a minha filha, a
    minha filha… tambem essa vos dou, meu Deus.–E agora, que mais quereis
    de mim, Senhor? (_Toca o orgam outra vez_.)

    *Côro*, _dentro_. Fiant aures tuæ intendentes; in vocem deprecationis
    meæ.

    *Jorge*. Vinde, minha irman, é a voz do Senhor que vos chama. Vai
    começar a sancta cerimonia.

    *Magdalena*, _inchugando as lagrymas e com resolução_. Elle foi?

    *Jorge*. Foi sim, minha irman.

    *Magdalena*, _levantando-se_. E eu vou. (_Sahem ambos pela porta do
    fundo_.)

    SCENA X

    _Corre o panno do fundo, e apparece a egreja de San'Paulo: os frades
    sentados no côro. Em pé juncto ao altar-mór, o_ PRIOR DE BEMFICA. _Sôbre
    o altar dois escapularios dominicanos_. MANUEL DE SOUSA _de joelhos com
    o hábito de noviço vestido, á direita do Prior. O_ ARCEBISPO _de
    capa-magna e barrete no seu throno, rodeado dos seus clerigos em
    sobrepelizes. Pouco depois entra_ JORGE _acompanhando_ MAGDALENA _tambem
    ja vestida de noviça e que vai ajoelhar á esquerda do Prior.–Toca o
    orgam_.

    *Côro*. Si iniquitates observaveris, Domine; Domine, quis sustinebit?

    *Prior*, _tomando os escapularios de cima do altar_. Manuel de
    Sousa-Coutinho, irmão Luiz de Sousa, pois em tudo quizestes despir o
    homem velho, abandonando tambem ao mundo o nome que n'elle
    tinheis!–Soror Magdalena! Vós ambos, que ja fostes nobres senhores no
    mundo, e aqui estais prostrados no pó da terra, n'esse humilde hábito de
    pobres noviços; que deixastes tudo, até vos deixar a vós mesmos…
    filhos de Jesus Christo, e agora de nosso padre San'Domingos, recebei
    com este bento escapulario…

    SCENA XI

    O PRIOR DE BEMFICA, _o_ ARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc.
    MARIA, _que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa
    alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos
    soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os
    olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a
    elles.–Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se_.

    *Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (_Toma-os
    pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena:
    confusão geral_.)

    *Magdalena*. Maria! minha filha!

    *Manuel*. Filha, filha!… Oh, minha filha!… (_Abraçam-se ambos
    n'ella_.)

    *Maria*, _separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a
    bôcca da scena_. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis
    fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar,
    e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?–(_Para os circumstantes_) Vós
    quem sois, espectros fataes?… quereis-m'os tirar dos meus braços?…
    Esta é a minha mãe, este é o meu pae… Que me importa a mim com o
    outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os
    vivos–que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?…
    Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são
    meus.–Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não
    sois marido e mulher?… e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada
    ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é…»–Mãe,
    mãe, eu bem o sabia… nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto
    aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não
    deixar dormir… aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na
    mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços
    quando eu adormecia n'elles… que me fazia chorar quando meu pae ia
    beijar-me no teu collo.–Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim… Pae,
    dá ca um panno da tua mortalha… dá ca, eu quero morrer antes que elle
    venha: (_incolhendo-se no hábito do pae_) quero-me esconder aqui, antes
    que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na
    tua–aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do
    peccado!…» Não sou; dize, meu pae, não sou… dize a essa gente toda,
    dize que não sou. (_Vai para Magdalena_) Pobre mãe! tu não podes…
    coitada!… não tens ánimo…–nunca mentiste?… Pois mente agora para
    salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.

    *Magdalena*. Misericordia, meu Deus!

    *Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?–Não querem. E eu heide morrer
    assim… e elle vem ahi…

    SCENA XII

    MARIA, MAGDALENA, MANUEL; o ROMEIRO e TELMO _que apparecem no fundo da
    scena sahindo detrás do altar-mór_.

    *Romeiro*, _para Telmo_. Vai, vai; ve se ainda é tempo: salva-os,
    salva-os, que ainda podes… (_Telmo dá alguns passos para deante_.)

    *Maria*, _apontando para o romeiro_. É aquella voz, é elle, é elle.–Já
    não é tempo… Minha mãe, meu pae, cobri-me bem éstas faces, que morro
    de vergonha… (_Esconde o rosto no seio da mãe_) morro, morro… de
    vergonha… (_Cái e fica morta no chão. Manuel de Sousa e Magdalena
    prostram-se ao pé do cadaver da filha_.)

    *Manuel*, _depois de algum espaço, levânta-se de joelhos_. Minha irman,
    rezemos por alma… incommendemos a nossa alma a este anjo que Deus
    levou para si.–Padre prior, podeis-me lançar aqui o escapulario?

    *Prior*, _indo buscar os escapularios ao altar-mór e tornando_. Meus
    irmãos, Deus afflige n'este mundo áquelles que ama. A coroa de glória
    não se dá senão no céu.

    (_Toca o orgam; e cái o panno_.)

    FREI LUIZ DE SOUSA

    Depois do brilhantissimo livro «Viagens na minha terra», de que os
    maiores escriptores, como Rebello da Silva, Castilho, Gomes d'Amorim,
    Theophilo Braga, etc., disseram ser um monumento immorredouro da
    litteratura portugueza, a melhor obra de Garrett é, sem contestação, o
    «Frei Luiz de Sousa». Vegezzi Ruscalla, na revista «Cornelia» de
    Florença, diz, a pag. 180, que Portugal tem no auctor do «Frei Luiz de
    Sousa» o seu Goethe, o seu Byron, o seu Lamartine e o seu Manzoni,
    ajuntando: «Questo drama é un vero capolavoro». A. P. Lopes de Mendonça
    («Memorias da litteratura contemporanea», Lisboa 1855) escreveu:
    «…talvez pareçam demasiadamente singelos os dados d'esta funebre
    tragedia, e todavia cremos que a litteratura moderna não possue
    monumentos de mais superior e acabado molde…» Th. Braga («Questões de
    litteratura e arte portugueza», Lisboa 1882, pag. 384) chama-lhe
    _tragedia unica, e sem rival nas litteraturas modernas_. Rebello da
    Silva acha que as scenas do terceiro acto do «Frei Luiz de Sousa» são as
    mais tragicas que conhece, e o quarto acto é o maior esforço dramatico
    de que tem noticia.

    «Frei Luiz de Sousa» tem tres traducções francezas; está tambem vertido
    em hespanhol, italiano, inglez e allemão. Foi representado em Paris.
    Muito se tem escripto sobre a grandiosa tragedia, sendo a ultima
    producção–_«Frei Luiz de Sousa» de Garrett_–Notas com um prefacio de
    Th. Braga, por Joaquim d'Araujo.

  • Contos para a infância

    Contos para a infância

    Aproximadamente 28.765 palavras.

    CONTOS PARA A INFANCIA

    ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO

    LISBOA

    TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL

    Rua dos Calafates, 110

    1877

    *A mãe*

    Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com
    medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
    Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia
    gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino
    moribundo.

    N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
    n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de
    neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.

    O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes,
    e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
    começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se
    ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
    vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para
    o velho:

    –Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?–

    E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em
    ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas
    corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
    cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
    ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
    tremer de frio.

    –Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O
    berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.

    * * * * *

    A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
    mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
    casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
    depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»

    –Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»

    –Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
    Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
    ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
    muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.

    –Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
    demores, porque quero encontrar o meu filho.–

    A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a
    cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as
    palavras.

    No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de
    pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»

    A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
    sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
    cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
    cristallisada.

    * * * * *

    –Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.

    –Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
    condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»

    E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos
    dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
    de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
    d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
    angustiosa.

    E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
    andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem
    barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por
    elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo,
    querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
    do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do
    lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
    talvez um milagre.

    –Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
    amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
    olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
    tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e
    levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
    habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella
    quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura
    humana.»

    –Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E
    apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
    que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
    do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no
    mundo uma rainha.

    O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
    outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
    de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou
    uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
    tinha dado os seus olhos.

    –Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
    ella desesperada.

    –A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
    lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
    vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»

    –Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te
    de mim, e dize-me onde está o meu filho.»

    –Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
    e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para
    as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
    sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
    com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
    sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
    pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
    que tens ainda de fazer?»

    –Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
    do mundo buscar o que tu quizeres.–«Fóra d'aqui não preciso de nada,
    respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
    são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
    brancos.»–Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens,
    dou-t'os de boa vontade.»

    E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
    orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
    inteiramente brancos da velha.

    Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
    vegetação maravilhosa.

    Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
    de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
    cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
    cobras asquerosas.

    Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
    frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
    tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de
    utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.

    Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
    pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
    vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
    esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
    essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.

    A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe
    impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
    pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
    coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
    pulsações do coração do seu filho.

    –É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
    a terra, parecia completamente estiolado.

    –Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
    vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
    arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
    de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu
    consentimento.»

    N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
    que se approximava.

    –Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
    primeiro do que eu! Como o conseguiste?–«Sou mãe» respondeu ella.

    E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.

    Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
    não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas
    mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
    que os ventos enregelados do inverno.

    –Não pódes nada comigo!» disse a Morte.–Mas Deus tem mais força do que
    tu, respondeu a mãe.»–«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que
    elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
    arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
    um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas;
    ninguém sabe o que se lá passa.»

    –Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
    agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte
    conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores
    lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
    despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!

    –Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
    desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!–«Outra mãe!»
    disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.–Toma, aqui
    tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
    do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
    fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
    Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
    a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
    porventura vivesse.»

    Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
    quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
    miseria, d'angustias e de desolação.

    –N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a
    sorte que Deus destinava ao meu filho.»

    –Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
    que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»

    A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
    era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla!
    Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer
    desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha
    vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
    Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
    e tudo o que disse.»

    –Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
    filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
    fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços,
    deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
    Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
    sempre justa! Não me attendas meu Deus!»

    E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
    dilacerante.

    E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no
    jardim do paraiso.

    *O ouro*

    Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
    empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
    resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
    fome no paiz.

    Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
    segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
    e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
    que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio
    qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
    de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
    que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
    vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
    trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
    que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
    estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
    apparecesse em abundancia.

    A rainha tinha juizo.

    *Doçura e bondade*

    Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se,
    e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima
    disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
    commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
    Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.

    Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
    d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada.

    –Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
    cego!»

    Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
    camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o
    fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
    sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não
    terieis sido tão covardes.»

    Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma
    palavra.

    Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
    quem as recebeu.

    *O malmequer*

    Ouvi com attenção esta pequenina historia!

    No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
    deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
    rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
    meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
    olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
    elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
    manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
    parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
    que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha
    insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
    sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

    N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
    sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças
    sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste
    verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
    o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
    admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a
    olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
    feliz que cantava e voava.

    «Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
    acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»

    Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
    aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
    parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
    As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se
    pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
    malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são
    ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus,
    poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a
    cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a
    relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que
    havia de pensar.

    O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é
    macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de
    prata!»

    Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
    o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
    firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer
    reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
    para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
    acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
    tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
    ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda
    inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
    ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

    Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
    grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
    uma a uma.

    «Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se
    todas.»

    E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por
    ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
    reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
    adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

    No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
    ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
    muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir:
    haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
    aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
    antigas viagens atravez do espaço illimitado.

    O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
    difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
    esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
    a alvura resplandecente das suas proprias folhas.

    N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
    uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
    tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o
    que desejavam.

    «Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
    rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.

    –«Arranca a flor, disse o outro.»

    A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
    morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em
    que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

    «Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»

    Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

    O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
    com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
    desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.

    Passou-se assim toda a manhã.

    «Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
    deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
    terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do
    sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
    creação!»

    Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
    então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,
    afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
    inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
    e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim
    uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
    como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

    –Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
    minimo movimento.

    Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
    a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
    arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
    flor.

    Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á
    desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as
    convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua
    cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
    d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
    não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
    para o chão, doente de tristeza.

    Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
    rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
    d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
    cobriram o tumulo com folhas de rosas.

    Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
    deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
    e lhe fizeram honrarias pomposissimas.

    A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
    que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.

    *Não quero*

    Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
    alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e
    perguntei-lhe:–O que é que tu não queres, meu rapaz?–«Não quero dizer
    á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar,
    mas antes quero que me ralhe do que mentir.»–E tens razão, disse-lhe
    eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro
    pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
    todo envergonhado.

    D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
    professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
    pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
    vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
    dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico
    estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
    confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro
    pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»–Não me espanto,
    disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e
    contei-lhe o que tinha ouvido.

    *Piloto*

    Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o
    infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.

    Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
    lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
    trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
    Joaninha.

    Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do
    Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
    assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:
    partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
    pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.

    Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
    da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da
    quinta.

    Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
    empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
    tentou de noite roubar um sacco.

    Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
    emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
    tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
    largar.

    Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»

    O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
    não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
    manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição,
    reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
    deshonrar.

    Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
    ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
    elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á
    margem do ribeiro.

    Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal
    atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço,
    caiu tambem.

    Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
    corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
    desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
    e trazido para terra o seu mortal inimigo.

    Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
    cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.

    Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
    mesmo e combateu as suas más inclinações.

    O exemplo do cão corrigiu o homem.

    *O rico e o pobre*

    Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
    dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
    deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
    estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
    quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
    preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
    viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
    e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
    vinho.

    Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
    codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
    suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico,
    em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
    dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
    Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da
    carruagem, chamou Martinho com a mão.

    –Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
    minha sorte pela tua?»–Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
    córando, o que eu disse não foi por mal.»–Não estou zangado comtigo,
    replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»

    –Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
    no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
    muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor
    anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»–Pois bem,
    volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
    não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
    ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
    preceptor continuou: «Acceitas a troca?»–Ora essa! exclamou Martinho,
    ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
    de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
    idéa da entrada triumphante na sua aldeia.

    O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
    descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
    perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
    duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
    que era muito pallido e que tinha cara de doente.

    Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:–Então sempre
    desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
    valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e
    andar bem vestido?»–Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
    Martinho.–«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
    tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
    os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus
    pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.

    «Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
    tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não
    podem comprar-se com dinheiro.

    *Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*

    Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
    confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.

    «Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»

    «Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
    credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
    minha parte.»

    No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.

    «Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.

    «Padre–Nosso–Que–Estaes–No–Ceo, respondeu o pobre.»

    «E o teu appellido?»

    «Seja–Santificado–O–Vosso–Nome.»

    E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

    Ao outro dia chega segundo pobre.

    «Como te chamas?

    «Venha–A–Nós–O–Vosso–Reino.»

    «E o teu appellido?»

    «Seja–Feita–A–Vossa–Vontade.»

    E partiu com o seu alqueire de trigo.

    Veiu terceiro pobre.

    «Como te chamas?»

    «Assim–Na–Terra–Como–No–Ceo.»

    «E o teu appellido?»

    «Dae-nos–Hoje–O–Pão–Nosso–De–Cada–Dia.»

    E levou o seu alqueire.

    Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
    forma até chegar ao _Amen_.

    Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.

    «Então já sabes o Padre Nosso?»

    «Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
    o meu trigo.»

    «Quaes são? tornou o padre.»

    E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
    apresentado.

    «Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre
    Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»

    *O talisman*

    Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
    com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
    que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
    uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
    inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
    sua casa.

    «Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão
    porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas
    mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar
    d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
    seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
    terás tu por acaso algum precioso talisman.»

    «Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
    virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o
    dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
    celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»

    «Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
    preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a
    restituo.»

    «Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»

    Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
    apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um
    fio de seda.

    O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
    casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
    parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
    cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
    feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
    cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
    escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
    comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
    terceira pessoa na direcção dos seus negocios.

    Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
    agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
    segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.

    *A alma*

    «Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia
    vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as
    suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
    fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é
    verdade?»

    «Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
    paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»

    «A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»

    «Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
    pequerruchas.»

    «Tive sim, mamã, tive muita pena.»

    «Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
    braços?»

    «Não, mamã.»

    «Eram as orelhas?»

    «Oh! não mamã, era _cá dentro_.»

    «Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
    que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
    praticas o bem.

    *Alberto*

    Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
    irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
    sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
    feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
    batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
    com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
    quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha
    de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma
    cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito
    contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
    rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
    fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.

    «Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»

    «Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»

    «Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»

    «É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»

    Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
    não pertencia.

    Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
    produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
    é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.

    *A canção da cerejeira*

    Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira
    cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
    verdejantes.

    A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
    abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
    folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é
    que me arranjou este banquete?»

    Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira
    cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
    brancas.

    E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
    dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
    deitaram!»

    Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
    assucar!»

    No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira
    cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.

    «Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite,
    e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
    outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
    frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.

    As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
    vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.

    Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
    ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.

    *Os gigantes da montanha e os anões da planicie*

    Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
    montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
    alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que
    faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
    Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava
    dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
    jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
    lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos
    brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
    quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
    charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
    onde seu pae estava a jantar.

    –Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.

    –Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
    mais bonitos que tenho visto.»

    E pol-os em cima da mesa, a um e um,–os cavallos, a charrua e os
    trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
    tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
    poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
    fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
    não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
    respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
    immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
    montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar
    a terra e de semear o trigo.

    *A creança, a anjo e flôr*

    Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e
    desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
    ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
    quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
    no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
    todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
    escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
    maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
    creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
    sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
    deliciosos, cobertos de flores.

    «Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.

    Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
    magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
    botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.

    «Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
    reflorir no paraiso.»

    O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores
    brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.

    A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu
    a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por
    cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
    de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
    immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
    com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
    campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a
    atirado para a rua como inutil e morta.

    «Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
    te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella
    rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e
    doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
    com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
    de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
    Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
    andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
    verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
    visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo
    verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
    com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
    flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
    raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da
    cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
    todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
    thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
    aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
    sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
    ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
    voltou.

    «Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
    flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e
    atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o
    thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
    canteiros d'um jardim realengo.»

    «Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.

    –Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
    em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»

    A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
    no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
    levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
    despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
    com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
    formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se
    até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
    harmoniosamente–desde a creança abençoada até á humilde florinha do
    campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
    tortuosa.

    *Presente por presente*

    Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
    á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
    a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
    pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
    eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a
    tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
    morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
    e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
    outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao
    despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
    dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou
    que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
    trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
    que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
    examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:

    «Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!

    E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
    achado as suas batatas melhores do que faisões.

    «É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha
    talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
    batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.

    E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas
    escolhidas.

    Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar;
    mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
    contrario vinha trazer alguma cousa.

    Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.

    «Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
    pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
    d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
    demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
    o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
    batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
    acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
    as encontrareis sempre ao vosso dispor.»

    A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
    n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
    geiras de terra.

    Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
    sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha
    de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
    qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
    presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
    simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
    recompensar ainda mais generosamente.»

    Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
    palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
    altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.

    «Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não
    tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
    offereça.»

    O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
    comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:

    Depois dirigindo-se a elle:

    «Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
    espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
    faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom
    preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»

    E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.

    *O pinheiro ambicioso*

    Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
    dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
    verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
    orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
    de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»

    O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
    pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
    pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
    mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite
    passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
    sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.

    «Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
    dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
    floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
    o oiro attrae as ambições.

    Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
    avarento não me teria despido.»

    No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
    sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
    fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
    nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
    folhas de cristal.

    «Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
    pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
    as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
    menos brilhante, mas viveria descansado.»

    Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades
    primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
    outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
    vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
    todas sem deixar uma unica.

    O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua
    fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
    sua sorte.

    *Perfeição das obras de Deus*

    _A filha_.–Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.

    _A mãe_.–Vou-te dar outra.

    _A filha_.–Como se fazem as agulhas, mamã?

    _A mãe_.–Vê se adivinhas.

    _A filha_.–Nã sei, mamã.

    _A mãe_.–Conheces os metaes?

    _A filha_.–Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
    uma caixa.

    _A mãe_.–Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
    marmore?

    _A filha_.–Oh! não; são de metal; mas de que metal?

    _A mãe_.–Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
    primeiro.

    _A filha_.–Ora espere!… uma agulha é de metal: não é de prata, porque
    não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito
    brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que
    cheira mal… Então é de ferro, mamã?

    _A mãe_.–Adivinhaste.

    _A filha_.–Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.

    _A mãe_.–É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
    se não chama ferro, é aço.

    _A filha_.–Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
    as fazem.

    _A mãe_.–É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
    fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
    muito.

    _A filha_.–Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
    nos servimos.

    _A mãe_.–Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.

    _A filha_.–Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.

    _A mãe_.–Olha, ahi tens o meu estojo.

    _A filha_.–Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
    fininhas, tão fininhas!… Muita habilidade ha de ser necessaria para
    fazer uma coisinha tão delicada!

    _A mãe_.–Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
    uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?

    _A filha_.–Lembro, mamã; era tão bonito!

    _A mãe_.–Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez
    um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
    doze…

    _A filha_.–Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
    grão de pimenta!

    _A mãe_.–E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
    doiradas, e sustentava-se no pé.

    _A filha_.–Que vontade eu tinha de ver isso!

    _A mãe_.–Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
    effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
    certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.

    _A filha_.–Quaes, mamã?

    _A mãe_.–Já t'o digo. (_Levanta-se_.)

    _A filha_.–Que quer, mamã?

    _A mãe_.–Quero que vejas o microscopio de teu papá.

    _A filha_.–Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.

    _A mãe_.–Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
    ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
    lisa e brilhante… Agora olha; o que é que vês?

    _A filha_.–Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!

    _A mãe_.–Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?

    _A filha_.–Parece um prego muito grande e muito mal feito.

    _A mãe_.–Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
    agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.

    _A filha_.–O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
    visse ao microscopio.

    _A mãe_.–Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.

    _A filha_.–O quê, mamã?

    _A mãe_.–O aguilhãosinho de uma abelha.

    _A filha_.–Oh! que pequenino, que bonito!… Como é liso, como é
    brilhante!… Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
    mesmo que com a agulha.

    _A mãe_.–Prompto: olha.

    _A filha_ (olhando).–É exquisito, mamã!

    _A mãe_.–Então?

    _A filha_.–Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
    contrario, é perfeitamente liso… A agulha parecia que não tinha ponta,
    e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque
    será isto, mamã?

    _A mãe_.–É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil
    do que o que fez a agulha.

    _A filha_.–Quem é esse operario tão habil?

    _A mãe_.–É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
    creaturas.

    _A filha_.–É Deus.

    _A mãe_.–Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
    animaes?

    _A filha_.–De certo.

    _A mãe_.–Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e
    ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas
    continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de
    musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?

    _A filha_.–Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.

    _A mãe_.–Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.

    _A filha_.–Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
    microscopio.

    _A mãe_.–Então?

    _A filha_.–É horrorosa… Parece feita de pellos grosseiros com grandes
    buracos deseguaes.

    _A mãe_.–As obras do homem são todas assim.

    _A filha_.–Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.

    _A mãe_.–Sabes o que é isto?

    _A filha_.–Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.

    _A mãe_.–Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
    pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.

    _A filha_ (olhando pelo microscópio).–Não, mamã; os fios são todos
    eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.

    _A mãe_.–É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
    sobre este papel?

    _A filha_.–Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
    também com tinta.

    _A mãe_.–Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
    redondos?

    _A filha_.–Sim, mamã, perfeitamente redondos.

    _A mãe_.–Vê-os agora ao microscopio.

    _A filha_.–Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.

    _A mãe_.–Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta;
    vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
    microscopio; o que é que vês?

    _A filha_.–Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença
    que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!

    _A mãe_.–Merece bem a pena estudal-as.

    _A filha_.–De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
    dos homens.

    _A mãe_.–E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
    homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
    perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
    primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
    segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
    fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
    mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
    obras do Creador.

    *João e os seus camaradas*

    Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
    possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
    correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou
    o gallo, e disse-lhe:

    «O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda
    com a minha maldição?»

    «Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
    mundo eu quereria a tua maldição.»

    «Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
    abençôe.»

    E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
    caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.

    «Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
    afogar-me.»

    «Espera, respondeu João.»

    E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
    quadrúpede do atoleiro.

    «Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util,
    aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»

    –«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»

    «Queres tu que eu te acompanhe?

    «Anda d'ahi.»

    E puzeram-se a caminho.

    Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
    eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
    animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
    tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

    «Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for
    prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»

    «Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»

    «Queres que te acompanhe?»

    «Anda d'ahi.»

    Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
    merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
    que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
    lastimosamente.

    Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.

    –«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde
    vaes tu?

    –«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»

    –De boa vontade.

    Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
    grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
    gallo na bocca.

    «Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.

    E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
    perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
    disse a João:

    –«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»

    –Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?

    –«De boa vontade.»

    –Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»

    Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
    Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem
    uma cabana.

    –«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
    hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva
    é macia.»

    Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão
    e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
    empoleirou-se n'uma arvore.

    Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou
    a cantar.

    –«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que
    estás a gritar?»

    –«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da
    madrugada, que vem rompendo?»

    –«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna.
    Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
    da noite.»

    Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
    dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
    d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
    blasphemias horriveis.

    –Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
    é que está lá dentro.»

    Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
    alegremente, sentados a uma mesa principesca.

    –«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
    conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
    porteiro. Á sua saude!»

    –«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.

    E d'um trago despejaram os copos.

    João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

    –«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
    signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»

    O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril
    d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o
    gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
    jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
    gallo.

    –«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
    armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»

    No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
    cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
    precipitadamente por uma porta falsa.

    João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
    excellente jantar, e deitaram-se em seguida–João n'uma cama, o burro na
    cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
    o gallo n'um poleiro.

    Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
    salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.

    –«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um
    d'elles.»

    –«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»

    –«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»

    –«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
    dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
    gavetas.»

    –Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.

    –Bravo! exclamaram os ladrões.

    E poz-se a caminho.

    Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se
    para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
    Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
    rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
    por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
    atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.

    –Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»

    Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
    parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.

    Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
    pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

    –Então? então?–perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

    –Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
    me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago
    n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
    por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
    cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
    um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
    depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
    Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
    acreditam, vão lá, e experimentem.»

    –Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
    ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»

    Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e
    partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
    lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
    com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á
    porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
    uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello
    empoado.

    Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.

    –Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»

    –Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha
    um bom acolhimento.

    –Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
    andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de
    fila.»

    –Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do
    jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
    passada a porta do castello?»

    O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:

    –Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.

    –Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que
    abri a porta aos seis ladrões.

    –Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

    Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
    pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
    porque vimos cançados do caminho.

    –Ficae certos que sereis bem tratados.

    O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
    cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á
    cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
    disse-lhe:

    –Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»

    João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
    Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.

    *O rabequista*

    Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
    egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.

    As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
    vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
    feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
    constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
    um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
    sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem
    dinheiro no bolso para o comprar.

    Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal
    suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o
    tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
    Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
    ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando,
    correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
    sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do
    juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.

    Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
    poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não
    chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
    ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento.
    O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
    supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
    derradeira melodia.

    Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
    ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar.
    Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
    novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
    vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
    rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
    prestar-lhe as mais honrosas homenagens.

    *Os pecegos*

    Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
    magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
    extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á
    noite o pae perguntou-lhes:

    –Então comeram os pecegos?

    –Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei
    de plantal-o para nascer uma arvore.»

    –Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»

    –Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
    metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»

    –Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira;
    espero que quando fores maior te has de corrigir.»

    –Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
    fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
    o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á
    cidade.»

    O pae meneou a cabeça:

    –Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.

    –E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?

    –Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
    ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas
    deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.

    –Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego
    que eu lhe dei?

    E os três pequenos disseram á uma:

    –Foi o mano Eduardo.

    Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
    arrazados de lagrimas.

    *A urna das lagrimas*

    Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
    adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas
    um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A
    desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
    momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
    Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
    acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
    abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
    querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos
    uma urna, que vinha cheia até ás bordas.

    –«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo
    das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
    transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
    tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.

    A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
    affligir.

    *Reconhecimento e ingratidão*

    Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes.
    E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e
    imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,–que a
    benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos,
    terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
    ser meditados.

    Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
    satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
    d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
    trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
    principe, que para as suas despezas d'administração e representação
    necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
    como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
    satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:

    «Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é
    para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
    economias.»

    Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
    d'este modo.

    «Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem
    trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos
    primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
    infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos
    tiverem pesado sobre mim.»

    O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
    da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
    paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
    egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.

    Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
    maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
    de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
    recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
    foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
    muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
    esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
    O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
    dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
    notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto,
    atraz da porta.

    Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.

    «Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde
    d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.

    *O fato novo do sultão*

    Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.

    Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
    theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
    de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho;
    dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
    muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
    mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões,
    disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
    só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além
    d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
    maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
    aquelles que não exercessem bem o seu emprego.

    –São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles,
    saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
    dos ministros. Preciso d'esse estofo!»

    E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
    para que podessem começar os trabalhos immediatamente.

    Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
    trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
    Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
    muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.

    –«Preciso saber se a obra vae adiantada».

    Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
    idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente
    em todo o caso mandar alguem adiante.

    Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
    estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

    –Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
    grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o
    estofo.

    O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
    com os teares vasios.

    –Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo
    absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
    convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
    desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
    olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.

    –Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que
    ninguém o saiba!… Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá
    confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»

    –«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:

    –«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
    desenho… estas cores… magnifico!… Direi ao sultão que fiquei
    completamente satisfeito.»

    –«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
    mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
    descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
    repetir tudo ao sultão.

    Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
    precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
    bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
    sempre.

    Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem
    honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
    este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
    via nada.

    –Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
    magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
    de não existir.

    –Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei
    eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o
    deixo eu.»

    Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
    desenho e o bem combinado das cores.

    –É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a
    cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.

    Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
    acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
    honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
    velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
    especie alguma.

    –Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
    e as cores são dignos de vossa alteza.»

    E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
    podessem ver alguma cousa.

    –Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
    serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me
    acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a
    minha satisfação.»

    E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
    atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
    mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
    repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se
    apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é
    encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
    geral.

    Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
    tecelões.

    Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
    luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
    cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
    e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.

    O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
    levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:

    «Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
    ó a principal virtude d'este tecido.»

    –Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

    –Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
    provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»

    O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
    depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
    espelho.

    –Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
    Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»

    Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.

    –Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão,
    disse elle.»

    –Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»

    E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
    seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
    querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.

    E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
    gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que
    cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber,
    que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
    Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

    –Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do
    pae.

    –É a voz da innocencia, disse o pae.

    –Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.

    «Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

    O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
    verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os
    camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
    imaginaria.

    *Boa sentença*

    Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
    quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
    d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
    camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

    –Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
    alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
    adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»

    O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
    devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
    que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

    –Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
    apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
    ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
    direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
    encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente
    setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que
    tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus
    oitocentos mil réis.

    *Os animaes agradecidos*

    Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
    perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
    respondeu:

    –«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
    chamo-me _Ingratidão_.»

    –«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
    serviço.»

    O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
    Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
    tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que
    o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
    Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não
    conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
    desventurados.

    Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
    selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
    parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
    dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
    floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
    precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.

    Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
    lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
    governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
    horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de
    salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
    ninguem o vinha soccorrer.

    Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
    chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
    ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
    lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
    cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a
    ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
    ali.

    –«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
    encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma
    enorme serpente.»

    –«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para
    sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
    um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
    cumpres a tua promessa?

    O intendente continuou:

    –«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
    cumprirei a minha palavra.»

    Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
    muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a
    ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
    o intendente.

    Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
    amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.

    Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
    governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a
    serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
    governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
    para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
    que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
    promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
    homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

    –«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
    que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»

    O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

    –«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se
    ponha a andar, porque o não conheço.»

    O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

    O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a
    odiosa perfidia de que tinha sido victima.

    A mulher disse-lhe:

    –«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
    foi talvez por isso que te não pôde receber.»

    Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.

    Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio.
    Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse
    ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios
    violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:

    –«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
    inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
    n'isso.»

    No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro
    consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
    encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre
    homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
    chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
    burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
    levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
    obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
    tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
    fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle
    tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
    este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão,
    vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
    agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
    de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
    para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.

    No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que
    o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
    lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
    o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
    tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
    que brilhavam três côres,–o branco, o preto e o vermelho. Quando a
    serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
    d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
    levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
    propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
    afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
    assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
    Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
    seria boa.

    O velho respondeu:

    –«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
    imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro
    do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»

    Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
    sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como
    se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em
    diante, nem honras nem riquezas.

    Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
    chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.

    Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

    –«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga
    pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»

    –«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»

    E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
    Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
    disse-lhe:

    –«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que
    lh'a furtaste.»

    O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua
    magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
    preciosa.

    –«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
    fechado com sete chaves, disse o rei.»

    Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou
    extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
    semelhante thesouro.

    Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
    reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
    intendente, e disse-lhe:

    –«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_,
    porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
    com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as
    tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
    enforcado.»

    Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
    funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
    escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
    gloriosos.

    *O ermitão*

    Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
    retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
    trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
    seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter
    assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha
    merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
    santos mais notaveis.

    Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:

    –Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
    e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

    O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
    seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:

    –Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
    penitencias te tornaste agradavel a Deus.

    –Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
    zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
    pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a
    divertir os outros.»

    O austero ermitão continuou a insistir:

    –Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
    acto de virtude.»

    –Em verdade não poderia citar nem um só.»

    –Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
    loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
    o teu patrimonio e o producto do teu officio?»

    –Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
    filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa
    mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
    protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
    sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
    marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»

    A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:

    –Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
    meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não
    passas d'um pobre musico.»

    *Carlos Magno e o abade de S. Gall*

    Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
    preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco,
    rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
    activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais
    d'um motivo de queixa contra elle.

    –Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
    sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me
    responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do
    nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
    dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
    em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
    rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
    d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
    Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
    para o rabo.»

    O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
    os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar
    resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
    aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão
    semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
    anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite.
    Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
    encontrou com o seu pastor.

    –Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»

    –Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»

    –Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»

    –Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres
    perguntas.»

    –É então latim?»

    –Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»

    –Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
    era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»

    Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
    barrete ao ar, e disse-lhe:

    –Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
    póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
    habito.»

    Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S.
    Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
    imperial.

    –Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
    pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
    valho eu em dinheiro?»

    –Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
    trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um
    dinheiro menos.»

    –Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso
    deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de
    ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
    dar a volta ao mundo?»

    –Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
    constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
    quatro horas.»

    –Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez,
    confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com
    supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
    de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»

    –Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
    enganado, porque eu sou o seu pastor.»

    –Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
    sendo.»

    –Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
    peco-lhe outra cousa.»

    –Não tens mais que fallar.»

    –Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»

    Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.

    *A boneca*

    Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia–a historia d'uma
    boneca!

    Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
    jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
    sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois
    monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
    que podem aniquillar um homem–o hospital e a cadeia!–ainda não ha
    muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
    feira, divertindo-me a meu modo.

    Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
    especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
    quando novos personagens me chamaram a attenção.

    Eram os meus visinhos _ricos_.

    Aqui é preciso uma rapida explicação.

    Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.

    Qual d'estas tres familias será mais feliz?…

    Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.

    São todas felizes; cada qual a seu modo.

    Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.

    Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
    dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
    tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
    seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
    com a menina para a barraca onde eu estava.

    Não havia ali segredo a surprehender.

    Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
    parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer
    desejo.

    No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
    felicidade de dez crianças menos abastadas.

    Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca…
    _rica_.

    Faltava apenas a dona da casa–a boneca.

    Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.

    Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
    a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de
    dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.

    Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica
    recheada, braços e pernas de páu.

    Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem
    o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
    sapateiro.

    Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
    anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.

    São os meus visinhos _pobres_.

    A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
    immediata.

    É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.

    A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
    cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
    pressão.

    São os meus visinhos _remediados_.

    A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.

    Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
    listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
    estado–nada falta áquella ditosa gente!

    Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.

    Que formosa criança!… Terá oito annos.

    Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
    scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
    esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não
    sinta antecipada inveja do feliz namorado–provavelmente ainda a
    crescer–que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.

    Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
    aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
    carro.

    A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.

    Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas
    considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina
    recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.

    Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da
    mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
    artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos
    de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
    outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!

    Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.

    Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
    tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
    provocavam os ralhos da mãe.

    Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.

    Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
    casa immediata não se via ninguem–estava a pequena na mestra; no
    palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
    divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
    linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.

    Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

    –«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!…»–disse eu de mim
    para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!…
    Estás a aprender a copiar… Sempre este mundo!…»

    Retirei-me da janella.

    Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.

    A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
    vestia tres e quatro vezes!

    Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
    tratava!

    Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
    com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
    se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.

    Um dia,–estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
    _ricos_–ouvi um grito de susto.

    Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.

    Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.

    O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
    porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
    lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
    nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais
    perto de mim bradou voz timida e suplicante:

    «Não atire!… Dê-m'a.»

    Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até
    então.

    Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
    lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.

    Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
    encolhendo os hombros, respondeu:

    –«Já não presta!… Está esmurrada!…»

    –É o mesmo!… Dá-m'a?…–bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
    cubiça.

    –«Dou…»–volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.

    E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
    visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
    despedaçar-se nas lages da rua.

    Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
    outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que
    fosse sua!

    Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.

    A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
    vezes em quatro horas!… Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe
    sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
    creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
    estranhas para ella!

    E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
    azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
    se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!

    Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
    ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.

    Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas
    amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
    vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.

    Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
    as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
    cassa—no inverno!–chaile e manta na cabeça.

    Muito mal lhe ficava aquillo!… Áquella boneca custava-lhe de certo o
    vêr-se tão mal arranjada.

    Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:

    –É justo!… Cada qual segundo as suas posses.»

    Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.

    O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
    faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me
    pedir desculpa.

    Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
    aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
    grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.

    Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com
    quem sympathisei logo á primeira vista.

    Chama-se Maria.

    Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se
    em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.

    Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
    fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.

    E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia
    verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
    minha Maria!»

    E tinha razão!

    Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.

    –É quem vale á mãe!…–accrescentou o velho.»–Ali, onde a vê, faz o
    serviço d'uma mulher!… Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
    doente–bem pensei que não arribasse!–a pequena era quem cosinhava e
    olhava pelos irmãos!… E caridade como ella tem!?… Olhe que aquella
    pequena esteve tres dias sem se deitar… ali… ao pé da mãe! Foi
    preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!…»

    E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
    havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.

    Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
    cabeça coberta por um lenço branco.

    Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
    passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á
    pequena.

    Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
    deitada nos joelhos.

    –Eu conheço aquella boneca!…–disse eu de mim para mim.

    E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:

    –Ó Maricas!… Quem te deu a boneca?…

    Foi ali a menina da visinha!–respondeu a pequenita, córando de prazer.

    Era escusado dizer-m'o.

    Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia
    duvidar… Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
    na fronte.

    De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com
    ella.

    –Quem te viu e quem te vê!…–pensava eu.

    Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que
    tratos que sofria a desgraçada!

    Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
    empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
    singularissimo o aspecto da triste!

    Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
    fraternisar com o povo.

    A misera mudára mais uma vez de nome!…

    De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.

    Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.

    Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
    a boneca.

    Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
    encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
    boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
    trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
    mais familiares eram á pequena.

    Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
    mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
    acabavam por a despedir.

    Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.

    Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!

    Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
    desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.

    Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
    tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.

    Coitada!… Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

    Um dia chovia a cantaros!–o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
    espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil
    immundicies.

    Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
    melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
    partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto… Um objecto,
    arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
    leito do enxurro…

    Olhei… Era a boneca!…

    A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma
    pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
    quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
    o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
    profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

    Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
    impressionou o fim da pobre boneca.

    Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do
    sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

    –Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?

    –Não fui eu…–balbuciou a pequena, chorando.–Foi ali o Joaquim!…

    –E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?…

    –Ora!…–respondeu o garoto com enfado.–Ora!… Estava velha… e
    feia!…

    Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.

    Pobre boneca!

    *Inconveniente da riqueza*

    Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
    surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
    outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
    todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
    estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
    com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
    Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á
    porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.

    –Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
    Não se havia de arrepender.»

    E accrescentou:

    –Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
    trabalhar?»

    –Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido
    por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo,
    portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
    o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica
    nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
    quizer!»

    Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
    olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:

    –«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
    havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»

    Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
    approximou-a do trigo.

    –Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
    tudo!»

    Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
    de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal
    milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.

    –Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
    pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás
    recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
    enriquece.»

    Dito isto desappareceu.

    E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
    como a egreja.

    O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
    casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
    seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
    se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
    ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
    enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
    enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
    candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
    casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
    absoluta.

    *Querer é poder*

    –Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
    experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.

    Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

    –Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
    solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
    vezes–_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
    uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

    O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

    O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
    semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu
    fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão
    extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

    –Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
    pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são
    os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te
    distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
    extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
    incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.

    O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
    rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e
    deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
    horas, punha-se a resar.

    Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
    chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

    –Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»

    –Encontrar um diamante que caiu ao rio.»

    –Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque
    vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
    as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»

    Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
    do rei.

    *Qual será rei?*

    Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
    successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer,
    não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

    Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um
    muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
    alvo, seria o escolhido para successor.

    Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
    tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe
    soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que
    por conseguinte seria elle quem viria a reinar.

    O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
    alegre do que o outro principe.

    O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
    quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.

    Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as
    flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
    longe de si, e desatou a chorar:

    –«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais
    consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
    proprios filhos!»

    Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
    digno.

    *Os tres véos de Maria*

    O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
    Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
    seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
    cima.

    Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.

    O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
    sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e
    abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
    marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
    lagrimas.

    O véo negro só o trouxe uma vez,–no dia em que se tornou esposa de
    Jesus no convento da Ave-Maria.

    O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
    d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.

    Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
    no paraizo.

    *Os pequenos no bosque*

    Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
    outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
    para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que
    não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»

    Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
    abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
    disse-lhes:

    –Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
    outra já não está solida.»

    –Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»

    –Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
    ninho.»

    –Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
    hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
    minha _toilette_.»

    E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
    a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»

    –Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
    que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um
    momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas,
    aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
    tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
    acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
    um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»

    Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
    pintasilgo, em cima d'um ramo.

    –Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»

    –Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
    o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar
    parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
    meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga,
    que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
    preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os
    habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»

    Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é
    ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.

    *O chapellinho encarnado*

    Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
    mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o
    tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo
    de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo
    novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
    chapellinho encarnado.

    A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
    legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:

    –Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae
    levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
    garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»

    –Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»

    Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
    a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
    que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.

    –Bons dias, chapellinho encarnado.»

    –Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»

    –Onde vaes tão cedo?»

    –A casa da minha avó que está doente.»

    –E levas-lhe alguma cousa?»

    –Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
    dar forças.»

    Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»

    –É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito
    grandes, e no jardim ha muitas nozes.»

    –Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
    de te comer.» Depois continuou em voz alta:–Olha, que bonitas arvores e
    que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
    quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»

    –O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
    visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
    que fizesse bem a minha avó.»

    –Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e
    aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
    venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

    –Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
    grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»

    E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha
    se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.

    Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
    avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»

    –É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
    pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»

    –Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»

    Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
    e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.

    Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
    porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
    fechada.

    O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
    focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.

    –Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»

    –É para te ouvir melhor, minha filha.»

    –E porque estás com uns olhos tão grandes?»

    –É para te vêr melhor.»

    –E para que estás com os braços tão grandes?»

    –É para te poder abraçar melhor.»

    –E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão
    agudos?»

    –É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre
    pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
    resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
    que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um
    pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e
    vê o lobo estendido na cama.

    –Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»

    Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a
    dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
    animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
    cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
    saltou para o chão, gritando:

    –Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!

    A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.

    O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então
    duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
    neta para verem o que se ia passar.

    Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
    para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
    não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
    affogou-se.

    O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
    e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado
    prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o
    prohibisse.

    *Os cinco sonhos*

    Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
    um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da
    ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
    então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz;
    sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
    no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
    Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
    entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
    quizeram logo contar.

    O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:

    –No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar
    aqui, e punha-o na minha cabeça.»

    –Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»

    –E eu que estava pondo o seu manto.»

    –E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
    meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua
    trompa de caça.»

    –Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e
    mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
    qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que
    me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»

    Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
    d'um moribundo deve ser respeitado.

    Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
    d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
    seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.

    –Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
    eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
    enforcados diante d'este casebre.»

    E o sonho realisou-se immediatamente.

    *A egreja do rei*

    Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
    Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
    a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
    concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
    marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais
    ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
    seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o
    d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
    pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre
    mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
    então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:

    –Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
    fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não
    cumpriste as minhas ordens.»

    –«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
    ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu
    pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
    magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
    que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
    à construcção da egreja.»

    –«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
    inscripção do monumento, disse-lha o rei.»

    Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja
    o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

    *O valente soldado de chumbo*

    Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
    terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial,
    d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
    A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
    caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
    que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
    de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
    mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
    maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
    menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia
    chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais
    firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que
    precisamente nos interessa.

    Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
    brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
    papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões.
    Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
    poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
    pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
    uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um
    lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
    tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
    levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
    imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.

    –Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande
    fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
    quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto
    preciso conhecel-a.»

    Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a
    elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o
    equilibrio.

    Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
    da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
    a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
    chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
    como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
    e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
    emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
    Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
    dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a
    espreital-a.

    Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
    de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.

    –Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
    sitio.»

    Mas o soldado fez que não ouvia.

    –Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»

    No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
    chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
    causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
    perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
    enterrada entre duas lages.

    A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
    esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»
    tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
    começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
    do aguaceiro passaram dois garotos.

    –Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
    navegar.»

    Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
    chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
    garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
    Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
    d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
    impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.

    De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
    escuridão como na caixa dos soldados.

    –Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
    metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
    estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
    vezes maior.»

    D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
    cano.

    –Venha o teu passaporte.»

    Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
    espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
    rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:–Façam-n'o
    parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»

    Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
    sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
    Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle,
    como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
    poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
    queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
    atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

    O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se
    d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do
    soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
    agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo,
    pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

    –Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»

    O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
    devorado por um grande peixe.

    Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que
    talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
    estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.

    O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim
    parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
    e alguem exclamou:

    –Olha um soldado de chumbo!»

    O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
    cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
    soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
    gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
    barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
    Collocaram-n'o em cima da meza, e ali–tanto é verdade que acontecem
    cousas extraordinarias n'este mundo–achou-se na mesma sala, de cuja
    janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
    em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna
    no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria
    derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella,
    ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.

    De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
    fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

    O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão
    sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham
    desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
    viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
    dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
    intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
    porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
    desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
    que uma pequena massa informe.

    No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
    objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que
    restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
    ennegrecido.

    *João Pateta*

    João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
    gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
    mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice
    á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

    –Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
    um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»

    –Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
    esperto.»

    Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
    as não perdesse.

    –Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»

    –Então, João, onde estão as agulhas?»

    –Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
    passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não
    podem estar em sitio melhor.»

    –De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as
    tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»

    –Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»

    Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar
    uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a
    manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em
    que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

    A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
    resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.

    –Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam
    outro.»

    –Está entendido, respondeu João.»

    Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.

    –Queres seis tostões por essas gallinhas?»

    –Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro
    preço, mas que esperasse o segundo.»

    –E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»

    –Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
    mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»

    Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
    mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma
    experiencia, e disse-lhe:

    –Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o
    entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

    –Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

    –Quanto queres por esse carneiro?

    –Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

    –Quatro mil réis?»

    –É o preço mais elevado?»

    –Pouco mais ou menos.»

    –É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.

    –Quanto?»

    –Dez tostões:»

    –É menos, respondeu timidamente o João.»

    –Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um
    preço mais elevado.»

    –Tem rasão. É seu o carneiro.»

    Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
    comprar cousa alguma.

    *Branca de Neve*

    Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
    d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em
    quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,
    distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.

    –Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
    como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
    como este ébano.»

    Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha,
    que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco,
    que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
    tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
    d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão
    formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
    vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
    magico dizia-lhe:

    –Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
    mundo?»

    –És tu, respondia o espelho.»

    No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
    formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar
    maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
    espelho, disse-lhe:

    –Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
    mundo?»

    –Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»

    A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda,
    como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
    innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
    satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:

    –Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me
    provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
    coração.»

    O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
    dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e
    lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito
    mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
    lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
    as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim
    fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e
    tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
    contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
    mulher no mundo é tão bella como eu.

    A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
    cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
    andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
    tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
    deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

    Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
    e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
    limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
    brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
    e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
    do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
    deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.

    Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
    pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
    que tinham gente em casa. Um d'elles disse:

    –Quem comeu o meu pão?»

    E os outros successivamente:

    –Quem pegou no meu garfo?»

    –Quem comeu o meu caldo?»

    –Quem bebeu o meu vinho?»

    E emfim um d'elles:

    –Quem está ahi deitado na minha cama?»

    Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz
    das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,
    e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia
    seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
    aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
    que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
    Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:

    –Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»

    –Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»

    Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
    Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
    minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

    Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
    tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
    e disse-lhe:

    –Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
    que ha no mundo?»

    E o espelho respondeu:

    –Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete
    montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

    Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
    e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
    modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
    cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á
    porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»

    Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
    estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
    prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
    cesto, esqueceu-se das suas promessas.

    –Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
    pescoço.»

    Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
    anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
    inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
    gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
    a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

    –Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era
    outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes
    entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»

    Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
    espelho, e disse-lhe:

    –Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo?
    Responde.

    E o espelho respondeu:

    –És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está
    nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

    A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
    infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete
    montanhas, e bateu á porta da cabana.

    –Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:

    –Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»

    –Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já
    viu outro tão bonito?»

    Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
    porta.

    –Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»

    Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
    Branca caiu morta.

    Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.
    Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
    tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.

    No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
    Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
    o espelho respondeu como antecedentemente.

    –Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
    sacrificar.

    Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que
    estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»

    –Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»

    –Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar
    ninguem, nem compro coisa alguma.»

    –Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
    bonita, quero dar-lhe uma.»

    –Obrigada, não posso acceitar.»

    –Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
    que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
    mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
    tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

    –Ahi tens, para castigo da tua formosura.»

    Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
    perguntou-lhe:

    –Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»

    E o espelho respondeu:

    –És tu, és tu.»

    –Até que emfim!»

    Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
    licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
    fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
    da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam
    acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo,
    as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram
    enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima.
    «Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas,
    e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
    assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
    pequena alteração.

    Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á
    caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço
    que fosse.

    –Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que
    é o nosso thesouro.»

    –Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de
    mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
    façam isto.»

    Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
    o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um
    balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
    engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
    joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
    casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
    rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
    Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
    os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:

    –Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»

    E o espelho respondeu:

    –Branca é mais formosa que tu.

    A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
    fossem descobertos, que morreu de repente.

    Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
    princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.

    *A rapariguinha e os phosphoros*

    Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
    dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão
    passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
    pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
    tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
    tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
    a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
    quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer
    d'elle um terço para o seu primeiro filho.

    A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha
    no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
    mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
    compradores, e por isso não apurára cinco réis.

    Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
    longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas
    pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?

    As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
    manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.

    Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
    vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
    porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa
    fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
    atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
    mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
    lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
    aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
    ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
    luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
    de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.

    A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando
    a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
    pontita de phosphoro consumido.

    Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
    a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
    muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
    alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
    assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
    delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
    prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
    espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
    si a parede fria e tenebrosa.

    Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
    de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
    que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
    sumptuoso.

    Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas
    coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
    Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os
    balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
    tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
    um longo rasto de fogo.

    –É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
    lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
    cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»

    Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
    appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.

    –Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
    embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de
    ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.

    Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
    os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
    avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
    alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que
    já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.

    Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os
    dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios…
    morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
    alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
    faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.–Quiz aquecer-se,
    disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que
    ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
    velha avó no dia do Anno Novo.

    *O primeiro peccado de Margarida*

    Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus
    tinha dito:–É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde
    acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»

    Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
    ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha
    ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
    joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

    Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

    E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção
    d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia
    sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.

    N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho,
    á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.

    Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das
    suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
    Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
    collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
    bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
    contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
    inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.

    O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
    Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
    mãos.

    Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
    um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo
    preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a
    respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
    perguntou-lhe:

    –Qual é o caminho da cidade?»

    Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
    tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
    estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
    o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com
    um sorriso estranho e diabolico.

    N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
    Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

    Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.

    O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre
    Margarida, mas o mendigo–que era o seu anjo da guarda
    disfarçado–cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que
    tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.

    *Um nome inscripto no céo*

    Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a
    pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
    ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
    então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

    –«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»

    E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma
    porta.

    –Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
    que te dar.»

    –Foi por isso que eu voltei–disse em voz baixa o mendigo.

    E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
    cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
    lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

    –Aqui te fica isto, santinha–disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
    embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»

    Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no
    Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.

    *O linho*

    O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
    transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
    elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
    d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.

    –Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
    e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha
    ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
    futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
    feliz, feliz a mais não poder ser!»

    –Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o
    mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»

    E rangendo lastimosamente, cantaram:

    –Cric, crac! cric, crac! crac!
    –Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

    –Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella
    manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
    florir. Sou muitissimo feliz.»

    Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
    cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
    polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
    depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!

    –Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario
    soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»

    Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
    cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
    puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.

    –Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas
    torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»

    E ainda estava dizendo–perdidas, e já o estavam a metter no tear e a
    transformal-o n'uma peça de panno.

    –Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
    grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

    Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
    tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
    tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
    ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva.
    Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
    manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
    fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
    melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»

    Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e
    picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em
    compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.

    –Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
    abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em
    paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
    só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!

    O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.

    –Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
    se fazem impossiveis.»

    E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
    finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem
    adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
    branco magnifico.

    –Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
    do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
    de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»

    E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
    numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.

    –Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
    quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
    ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
    explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
    perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
    sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria.
    Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
    tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
    viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
    instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
    as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
    immensamente feliz!»

    Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá
    estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
    que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
    papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda
    do mundo. A meio caminho já estaria gasto.

    –É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
    ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
    palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
    livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu
    estou contente, e julgo-me feliz.

    O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.

    –Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este
    isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que
    eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
    perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»

    Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
    que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
    creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também,
    depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
    e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
    foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
    chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as
    suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho
    semilhante.

    Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
    palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.

    –«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que
    pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no
    meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
    homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
    Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
    quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam
    sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
    encarnadas.

    As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

    Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
    é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»

    As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
    tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.

    FIM.

    *INDICE*

    A mãe
    O ouro
    Doçura e bondade
    O malmequer
    Não quero
    Piloto
    O rico e o pobre
    Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
    O talisman
    A alma
    Alberto
    A canção da cerejeira
    Os gigantes da montanha e os anões da planície
    A creança, o anjo e flôr
    Presente por presente
    O pinheiro ambicioso
    Perfeição das obras de Deus
    João e os seus camaradas
    O rabequista
    Os pecegos
    A urna das lagrimas
    Reconhecimento e ingratidão
    O fato novo do sultão
    Boa sentença
    Os animaes agradecidos
    O ermitão
    Carlos Magno e o abade de S. Gall
    A boneca
    Inconveniente da riqueza
    Querer é poder
    Qual será rei?
    Os três véos de Maria
    Os pequenos no bosque
    O chapellinho encarnado
    Os cinco sonhos
    A egreja do rei
    O valente soldado de chumbo
    João Pateta
    Branca de Neve
    A rapariguinha e os phosphoros
    O primeiro peccado de Margarida
    Um nome inscripto no céo
    O linho

    [A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
    residente no Rio de Janeiro.]

  • Constituição politica da Monarchia portugueza

    Constituição politica da Monarchia portugueza

    Aproximadamente 7.595 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading
    Team. The images of this book were kindly provided by the Biblioteca
    Nacional Digital (http://bnd.bn.pt).

    *CONSTITUIÇÃO POLITICA*

    DA

    MONARCHIA PORTUGUEZA.

    LISBOA

    NA IMPRENSA NACIONAL.

    1838.

    EDIÇÃO OFFICIAL.

    Dona Maria por Graça de Deos, e pela Constituição da Monarchia, Rainha
    de Portugal, e dos Algarves d'aquem e d'alem mar, em Africa Senhora de
    Guiné, e da Conquista, Navegação e Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia
    e da India, etc. Faço saber a todos os Meus Subditos, que as Côrtes
    Geraes, Extraordinarias, e Constituintes decretaram, e Eu acceitei, e
    jurei a seguinte

    CONSTITUIÇÃO POLITICA

    DA

    MONARCHIA PORTUGUEZA.

    TITULO I.

    _Da Nação Portugueza, seu Territorio, Religião, Govêrno e Dynastia._

    CAPITULO UNICO.

    Artigo 1.º A Nação Portugueza é a associação politica de todos os
    Portuguezes.

    Art. 2.º O territorio portuguez comprehende:

    Na Europa, as Provincias de Tras-os-Montes, Minho, Beira, Estremadura,
    Alen-Tejo, o Reino do Algarve, e as Ilhas adjacentes da Madeira e
    Porto-Santo, e dos Açores;

    Na Africa Occidental, Bissau e Cacheu, o Forte de S. João Baptista
    d'Ajudá na Costa da Mina, Angola e Benguella e suas dependencias,
    Cabinda e Molembo, as Ilhas de Cabo-Verde, as de S. Thomé e Principe, e
    suas dependencias;

    Na Africa Oriental, Moçambique, Rios de Senna, Bahia de Lourenço
    Marques, Sofalla, Inhambane, Quelimane, e as Ilhas de Cabo-Delgado;

    Na Asia, Salsete, Bardez, Gôa, Damão, Diu, o estabelecimento de Macau, e
    as Ilhas de Timor e Solor.

    §. _unico_. A Nação não renuncía a qualquer outra porção de territorio a
    que tenha direito.

    Art. 3.º A Religião do Estado é a Catholica Apostolica Romana.

    Art. 4.º O govêrno da Nação Portugueza é Monarchico-hereditario e
    representativo.

    Art. 5.º A dynastia reinante é a da Serenissima Casa de Bragança,
    continuada na Pessoa da Senhora Dona Maria II, actual Rainha dos
    Portuguezes.

    TITULO II.

    _Dos Cidadãos Portuguezes_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 6.º São Cidadãos portuguezes:

    I. Os filhos de pae portuguez nascidos em territorio portuguez ou
    estrangeiro;

    II. Os filhos legitimos de mãe portugueza e pae estrangeiro, nascidos em
    territorio portuguez, se não declararem que preferem outra naturalidade;

    III. Os filhos illegitimos de mâe portugueza que nascerem em territorio
    portuguez, ou que havendo nascido em paiz estrangeiro, vierem
    estabelecer domicilio em qualquer parte da Monarchia;

    IV. Os expostos em territorio portuguez cujos paes forem desconhecidos;

    V. Os filhos de pae portuguez que tiver perdido a qualidade de Cidadão,
    uma vez que declarem, perante qualquer Camara Municipal, que querem ser
    Cidadãos portuguezes;

    VI. Os estrangeiros naturalizados;

    VII. Os libertos.

    Art. 7.º Perde os direitos de Cidadão portuguez:

    I. O que for condemnado no perdimento delles por sentença;

    II. O que se naturalizar em paiz estrangeiro;

    III. O que sem licença do Govêrno acceitar mercê lucrativa ou honorifica
    de qualquer govêrno estrangeiro.

    Art. 8.º Suspende-se o exercicio dos direitos politicos:

    I. Por incapacidade physica ou moral;

    II. Por sentença condemnatoria a prisão ou degrêdo, em quanto durarem os
    seus effeitos.

    TITULO III.

    _Dos direitos e garantias dos Portuguezes_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 9.º Ninguem póde ser obrigado a fazer ou deixar de fazer senão o
    que a lei ordena ou prohibe.

    Art. 10.º A lei é igual para todos.

    Art. 11.º Ninguém póde ser perseguido por motivos de Religião, com tanto
    que respeite a do Estado.

    Art. 12.º Todo o Cidadão póde conservar-se no Reino, ou sahir delle e
    levar comsigo os seus bens, uma vez que não infrinja os regulamentos de
    policia, e salvo o prejuizo público ou particular.

    Art. 13.º Todo o Cidadão póde communicar os seus pensamentos pela
    imprensa ou por qualquer outro modo, sem dependencia de censura prévia.

    §. 1.º A lei regulará o exercicio deste direito; e determinará o modo de
    fazer effectiva a responsabilidade pelos abusos nelle commettidos.

    §. 2.º Nos processos de liberdade de Imprensa, o conhecimento do facto e
    a qualificação do crime pertencerão exclusivamente aos Jurados.

    Art. 14.º Todos os Cidadãos tem o direito de se associar na conformidade
    das leis.

    §. 1.º São permittidas, sem dependencia de authorizaçâo prévia, as
    reuniões feitas tranquillamente e sem armas.

    §. 2.º Quando porém se reunirem em logar descuberto, os Cidadãos darão
    préviamente parte á authoridade competente.

    §. 3.º A fôrça armada não poderá ser empregada para dissolver qualquer
    reunião, sem preceder intimação da authoridade competente.

    §. 4.º Uma lei especial regulará, em quanto ao mais, o exercicio deste
    direito.

    Art. 15.º E' garantido o direito de petição. Todo o Cidadão póde, não só
    apresentar aos Podêres do Estado reclamações, queixas e petições sôbre
    objectos de interêsse público ou particular, mas tambem expôr quaesquer
    infracções da Constituição ou das leis, e requerer a effectiva
    responsabilidade dos infractores.

    Art. 16.º A casa do Cidadão é inviolavel,

    De noite sómente se poderá entrar nella:

    I. Por seu consentimento;

    II. Em caso de reclamação feita de dentro;

    III. Por necessidade de soccorro;

    IV. Para aboletamento de tropa feito por ordem da competente
    authoridade.

    De dia sómente se póde entrar na casa do Cidadão, nos casos e pelo modo
    que a lei determinar.

    Art. 17.º Ninguem póde ser preso sem culpa formada, excepto nos casos
    declarados na lei; e nestes, dentro de vinte e quatro horas contadas da
    entrada da prisão sendo em logar proximo da residencia da respectiva
    authoridade, e nos logares remotos dentro de um praso razoavel que a lei
    marcará, a respectiva authoridade, por uma nota por ella assignada, fará
    constar ao reo o motivo da prisão, os nomes dos accusadores e os das
    testemunhas havendo-as.

    §. 1.º Ainda com culpa formada, ninguem será conduzido á prisão ou nella
    conservado, se prestar fiança idonea nos casos em que a lei a admitte; e
    em geral, nos crimes que não tiverem maior pena que a de seis mezes de
    prisão ou destêrro, poderá o reo livrar-se sôlto.

    §. 2.º A' excepção de flagrante delicto, a prisão não póde ser executada
    senão por ordem escripta da authoridade competente. Se a ordem for
    arbitraria, a authoridade que a deu será punida na conformidade das
    leis.

    §. 3.º O que fica disposto ácerca da prisão sem culpa formada, não é
    applicavel ás Ordenanças Militares para a disciplina e recrutamento do
    Exército e Armada; nem comprehende os casos em que a lei determina a
    prisão de alguem por desobedecer á authoridade legítima, ou por não
    cumprir alguma obrigação dentro do praso determinado.

    Art. 18.º Ninguem será julgado senão pela authoridade competente, nem
    punido senão por lei anterior.

    Art. 19.º Nenhuma authoridade póde avocar as causas pendentes,
    sustá-las, ou fazer reviver os processos findos.

    Art. 20.º Ficam abolidos todos os privilegios que não forem
    essencialmente fundados em utilidade pública.

    §. _único_. A' excepção das causas que por sua natureza pertencerem a
    juizos particulares na conformidade das leis, não haverá fôro
    privilegiado nem commissões especiaes.

    Art. 21.º Ficam prohibidos os açoutes, a tortura, a marca de ferro, e
    todas as mais penas e tratos crueis.

    Art. 22.º Nenhuma pena passará da pessoa do delinquente: não haverá, em
    caso algum, confiscação de bens, nem a infamia dos reos se transmittirá
    aos parentes.

    Art. 23.º E' garantido o direito de propriedade. Com tudo, se o bem
    público, legalmente verificado, exigir o emprêgo ou damnificação de
    qualquer propriedade, será o proprietario préviamente indemnizado. Nos
    casos de extrema e urgente necessidade, poderá o proprietário ser
    indemnizado depois da expropriação ou damnificação.

    §. 1.º E' garantida a dívida nacional.

    §. 2.º E' irrevogavel a venda dos Bens Nacionaes feita na conformidade
    das leis.

    §. 3.º E' permittido todo o genero de trabalho, cultura, indústria e
    commércio, salvas as restricções da lei por utilidade pública.

    §. 4.º Garante-se aos inventores a propriedade de suas descubertas, e
    aos escriptores a de seus escriptos, pelo tempo e na forma que a lei
    determinar.

    Art. 24.º Ninguém é isento de contribuir, em proporção de seus haveres,
    para as despezas do Estado.

    Art. 25.º E' livre a todo o Cidadão resistir a qualquer ordem que
    manifestamente violar as garantias individuaes, se não estiverem
    legalmente suspensas.

    Art. 26.º Os empregados públicos são responsaveis por todo o abuso e
    omissão pessoal no exercicio de suas funcções, ou por não fazer
    effectiva a responsabilidade de seus subalternos. Haverá contra elles
    acção popular por subôrno, peita, peculato ou concussão.

    Art. 27.º O segredo das cartas é inviolavel.

    Art. 28.º A Constituição tambem garante:

    I. A instrucção primaria e gratuita;

    II. Estabelecimentos em que se ensinem as sciencias, lettras e artes;

    III. Os soccorros públicos;

    IV. A nobreza hereditaria e suas regalias puramente honorificas.

    Art. 29.º O ensino público é livre a todos os Cidadãos, com tanto que
    respondam, na conformidade da lei, pelo abuso deste direito.

    Art. 30.º Todo o Cidadão póde ser admittido aos cargos publicos, sem
    mais differença que a do talento, merito e virtudes.

    Art. 31.º E' garantido o direito a recompensas por serviços feitos ao
    Estado, na fórma das leis.

    Art. 32.º As garantias individuaes podem ser suspensas por acto do Podêr
    Legislativo, nos casos de rebellião ou invasão de inimigo, e por tempo
    certo e determinado.

    §. 1.º Se as Côrtes não estiverem reunidas, e se verificar algum dos
    casos acima mencionados, correndo a Patria perigo imminente, poderá o
    Govêrno decretar provisoriamente a suspensão das garantias.

    §. 2.º O Decreto da suspensão incluirá no mesmo contexto a convocação
    das Côrtes para se reunirem dentro de quarenta dias; sem o que, será
    nullo e de nenhum effeito.

    §. 3.º O Govêrno revogará immediatamente a suspensão das garantias por
    elle decretada logo que cesse a necessidade urgente que a motivou.

    §. 4.º A Lei ou Decreto que suspender as garantias designará
    expressamente as que ficam suspensas.

    §. 5.º Durante o período de eleições geraes para Deputados, em caso
    algum poderá o Govêrno suspender as garantias.

    §. 6.º Quando o Govêrno tiver suspendido as garantias, dará conta ás
    Côrtes, logo que se reunirem, do motivo da suspensão, e lhes apresentará
    um relatorio documentado das medidas de prevenção que por ésta occasião
    tiver tomado.

    TITULO IV

    _Dos Podêres Politicos_.

    *CAPITULO ÚNICO*.

    Art. 33.º A Soberania reside essencialmente em a Nação, da qual emanam
    todos os podêres politicos.

    Art. 34.º Os podêres politicos são o Legislativo, o Executivo e o
    Judiciario.

    §. 1.º O Podêr Legislativo compete ás Côrtes com a Sancção do Rei.

    §. 2.º O Executivo ao Rei, que o exerce pelos Ministros e Secretários
    d'Estado.

    §. 3.º O Judiciario aos Juizes e Jurados na conformidade da lei.

    Art. 35.º Os poderês politicos são essencialmente independentes: nenhum
    póde arrogar as attribuiçôes do outro.

    TITULO V.

    _Do Podêr Legislativo_.

    *CAPITULO PRIMEIRO*.

    _Das Côrtes e suas attribuições_.

    Art. 36.º As Côrtes compoem-se de duas Camaras: Camara de Senadores, e
    Camara de Deputados.

    Art. 37.º Compete ás Côrtes:

    I. Fazer as leis, interpretá-las, suspendê-las e revogá-las;

    II. Velar na observância da Constituição e das leis, e promover o bem
    geral da Nação;

    III. Tomar juramento ao Rei, Regente ou Regencia, e ao Principe Real;

    IV. Eleger o Regente nos casos em que a Constituição o prescreve; e
    marcar os limites da sua authoridade, ou elle seja electivo ou chamado
    pelo direito da successão;

    V. Reconhecer o Principe Real como successor da Corôa, na primeira
    reunião depois do seu nascimento, e approvar o plano de sua educação;

    VI. Nomear tutor ao Rei menor, não sendo vivo seu Pae ou Avô, ou não,
    lhe tendo sido nomeado em testamento;

    VII. Confirmar o tutor nomeado pelo Rei, se este abdicar ou sahir do
    Reino;

    VIII. Resolver as dúvidas que occorrerem sôbre a successão da Corôa;

    IX. Approvar, antes de serem ratificados, os tratados de alliança,
    subsidios, commércio, troca ou cessão de alguma porção de territorio
    portuguez ou de direito a ella;

    X. Fixar annualmente, sôbre proposta ou informação do Govêrno, as fôrças
    de terra e mar;

    XI. Conceder ou negar a entrada de fôrças estrangeiras de terra ou de
    mar;

    XII. Votar annualmente os impostos, e fixar a receita e despeza do
    Estado;

    XIII. Authorizar o Govêrno para contrahir emprestimos, estabelecendo ou
    approvando préviamente, excepto nos casos de urgencia, as condicções com
    que devem ser feitos;

    XIV. Estabelecer meios convenientes para o pagamento da dívida pública;

    XV. Regular a administração dos Bens Nacionaes, e decretar a sua
    alienação;

    XVI. Crear ou supprimir empregos, e estabelecerlhes ordenado;

    XVII. Determinar o valor, pêso, lei, inscripção, typo e denominação das
    moedas, assim como o padrão dos pesos e medidas.

    Art. 38.º Cada uma das Camaras, no princípio das sessões ordinarias,
    examinará se a Constituição e as leis tem sido observadas.

    Art. 39.º Cada uma das Camaras tem o direito de proceder, por meio de
    commissões de inquérito, ao exame de qualquer objecto de sua
    competencia.

    Art. 40.º Nenhuma das Camaras póde tomar resolução alguma sem que esteja
    presente a maioria da totalidade de seus membros.

    Art. 41.º Haverá em cada anno uma sessão ordinaria de Côrtes, que nunca
    poderá durar menos de tres meses: no caso de dissolução, os tres meses
    principiarão a contar-se da reunião da nova Camara dos Deputados.

    Art. 42.º A sessão de abertura será sempre celebrada no dia dois de
    Janeiro: e assim ésta como a de encerramento serão Reaes.

    §. _unico_. Tanto uma como outra se farão em Côrtes Geraes, reunidas
    ambas as Camaras, e ficando os Senadores á direita e os Deputados á
    esquerda.

    Art. 43.º Cada uma das Camaras elege o seu Presidente, Vice-Presidente e
    Secretarios.

    Art. 44.º As sessões de ambas as Camaras serão públicas, excepto nos
    casos em que o bem do Estado exigir que sejam secretas.

    Art. 45.º Na reunião de ambas as Camaras, o Presidente da Camara dos
    Senadores dirige os trabalhos.

    Art. 46.º Ninguem póde ser ao mesmo tempo membro de ambas as Camaras.

    Art. 47.º Os Senadores e os Deputados são invioláveis por suas opiniões
    e votos em Côrtes.

    Art. 48.º Nenhum Senador ou Deputado póde ser preso sem ordem da
    respectiva Camara, excepto nos casos de flagrante delicto.

    §. _unico_. Se algum Senador ou Deputado for pronunciado, o Juiz
    suspendendo todo o ulterior procedidimento, dará conta á respectiva
    Camara; a qual decidirá se o processo hade continuar, e se o Deputado ou
    Senador pronunciado deve ser ou não suspenso do exercicio de suas
    funcções.

    Art. 49.º Nenhum Senador ou Deputado, desde o dia em que a sua eleição
    constar na competente Secretaría d'Estado, póde acceitar, ou solicitar
    para si ou parente seu, pensão ou condecoração alguma, nem emprêgo
    provido pelo Govêrno, salvo se lhe competir por antiguidade ou escala na
    carreira da sua profissão.

    Art. 50.º Os Senadores e Deputados podem ser nomeados Ministros e
    Secretarios d'Estado, deixando immediatamente vagos os seus logares: mas
    desde logo se procederá a nova eleição, e se forem reeleitos, poderão
    cumular ambas as funcções.

    Art. 51.º Os Senadores e Deputados, durante o tempo das sessões, ficam
    inhibidos do exercício de qualquer emprêgo, excepto do de Ministro e
    Secretario d'Estado.

    §. _unico_. No intervallo das Sessões não irão exercer os seus empregos,
    nem poderão ser empregados pelo Govêrno quando isso os impossibilite de
    se reunirem no tempo da convocação das Côrtes Ordinarias.

    Art. 52.º Nos casos em que o bem do Estado exigir que algum Senador ou
    Deputado sáia das Côrtes para outro serviço, a respectiva Camara o
    poderá authorizar.

    *CAPITULO SEGUNDO*.

    _Da Camara dos Deputados_.

    Art. 53.º A Camara dos Deputados é electiva e triennal.

    Art. 54.º E' privativa da Camara dos Deputados a iniciativa:

    I. Sôbre impostos;

    II. Sôbre recrutamento.

    Art. 55.º Tambem principiará na Camara dos Deputados a discussão das
    propostas do Podêr Executivo.

    Art. 56.º E' privativa attribuição da mesma Camara decretar a accusação
    dos Ministros e Secretarios de Estado.

    Art. 57.º Os Deputados tem direito a um subsidio durante as sessões, e a
    serem, indemnizados pelas despezas de vinda e volta.

    §. _unico. Os Deputados das Provincias d'Asia e d'Africa que não tiverem
    domicilio no continente do Reino e ilhas adjacentes, vencerão tambem um
    subsidio no intervallo das sessões.

    *CAPITULO TERCEIRO*.

    _Da Camara dos Senadores_.

    Art. 58.º A Camara dos Senadores é electiva e temporaria.

    Art. 59.º O número dos Senadores será, pelo menos, igual á metade do
    número dos Deputados.

    Art. 60.º O Principe Real, logo que complete dezoito annos de idade, é
    Senador de direito; mas só tem voto aos vinte e cinco annos.

    Art. 61.º E' privativa attribuição da Camara dos Senadores:

    I. Conhecer dos delictos individuaes commettidos pelos membros da
    Familia Real, pelos Ministros e Secretarios d'Estado, e pelos Senadores
    e Deputados;

    II. Conhecer da responsabilidade dos Ministros e Secretarios d'Estado.

    §. _unico_. Nos crimes cuja accusação não pertencer á Camara dos
    Deputados, accusará o Procurador Geral da Corôa.

    Art. 62.º Todas as vezes que se houver de proceder a eleições geraes
    para Deputados, a Camara dos Senadores será renovada em a metade de seus
    membros. Se o número total dos Senadores for impar, sahirá a metade e
    mais um.

    §._unico_. Na primeira renovação do Senado decidirá a sorte os membros
    que devem sahir, e nas subsequentes a antiguidade da eleição de cada um.

    Art. 63.º As sessões da Camara dos Senadores começam e acabam ao mesmo
    tempo que as da Camara dos Deputados, excepto quando a Camara dos
    Senadores se constituir em Tribunal de Justiça.

    *CAPITULO QUARTO*.

    _Da proposição, discussão e promulgação das Leis_.

    Art. 64.º A proposição, discussão e approvação dos projectos de lei
    compete a cada uma das Camaras.

    §. _unico_. As propostas do Podêr Executivo, só depois de examinadas por
    uma commissâo da Camara dos Deputados, poderão ser convertidas em
    projectos de lei.

    Art. 65.º Os Ministros e Secretarios d'Estado podem tomar parte nas
    discussões das Camaras, mas sómente votarão naquella de que forem
    membros.

    Art. 66.º Os projectos de lei approvados em uma Camara serão remettidos
    á outra: se esta os não approvar, ficam rejeitados; se lhes fizer
    alterações, com ellas serão reenviados á Camara onde tiveram origem.

    Art. 67.º Quando a Camara em que teve origem o projecto não approvar as
    alterações, e permanecer todavia convencida da sua utilidade, deverá o
    projecto ser examinado por uma commissão mixta de igual número de
    Senadores e Deputados.

    §. 1.º Aquillo em que a commissão accordar, será considerado como novo
    projecto de lei, para haver de ser approvado ou rejeitado por cada uma
    das Camaras.

    §. 2.º A discussão do novo projecto começará na Camara em que teve
    origem o primeiro.

    Art. 68.º Quando ambas as Camaras concordarem em um projecto de lei,
    aquella que ultimamente o approvar, o reduzirá a Decreto, e o submetterá
    á Sanccão do Rei.

    Art. 69.º Os projectos de lei sobre impostos e recrutamento que forem
    alterados na Camara dos Senadores, voltarão á dos Deputados; e o que
    ésta deffinitivamente resolver, será reduzido a Decreto e apresentado á
    Sanccão Real.

    Art. 70.º Sanccionada a lei, será promulgada pela fórmula seguinte:

    "Dom (F….), por Graça de Deus e pela Constituição da Monarchia, Rei de
    Portugal e dos Algarves etc. Fazemos saber a todos os Nossos subditos
    que as Côrtes Gerais decretaram e Nós Sanccionámos a lei seguinte: (A
    integra da lei nas suas disposições somente). Mandâmos por tanto a todas
    as authoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei
    pertencer, que a cumpram e guardem e façam cumprir e guardar tam
    inteiramente como nella se contêm. O Ministro e Secretario d'Estado de
    … (o da repartição competente) a faça imprimir, publicar e correr."

    *CAPITULO QUINTO*.

    _Das Eleições_.

    Art. 71.º A nomeação dos Senadores e Deputados é feita por eleição
    directa.

    Art. 72.º Tem direito de votar nestas eleições todos os Cidadãos
    portuguezes que estiverem no gôso de seus direitos civis e politicos,
    que tiverem vinte e cinco annos d idade, e uma renda líquida annual de
    oitenta mil réis proveniente de bens de raiz, commercio, capitães,
    indústria ou emprêgo.

    §. _unico_. Por indústria se intende tanto a das artes liberaes como a
    das fabrís.

    Art. 73.º São excluidos de votar:

    I. Os menores de vinte e cinco annos: o que não comprehende os officiaes
    do Exército e Armada de vinte e um annos; os casados da mesma idade, e
    os Bachareis formados e Clerigos de Ordens Sacras;

    II. Os Criados de servir: nos quaes senão comprehendem os guarda livros
    e caixeiros que por seus ordenados tiverem a renda annual de oitenta mil
    réis, os criados da Casa Real que não forem de gallão branco, e os
    administradores de fazendas ruraes e fábricas;

    III. Os libertos;

    IV. Os pronunciados pelo Jury;

    V. Os fallidos, em quanto não forem julgados do boa fé.

    Art. 74.º São habeis para ser eleitos Deputados todos os que podem
    votar, e que tiverem de renda annual quatrocentos mil réis, provenientes
    das mesmas fontes declaradas no Artigo 72.

    §. _unico_. Exceptuam-se os estrangeiros naturalizados.

    Art. 75.º São respectivamente inelegiveis:

    I. Os Magistrados administrativos nomeados pelo Rei, e os Secretarios
    geraes delles, nos seus respectivos districtos;

    II. Os Governadores geraes do Ultramar, nas suas provincias.

    III. Os Contadores geraes de Fazenda, nos seus districtos.

    IV. Os Arcebispos, Bispos, Vigarios capitulares e Governadores
    temporaes, nas suas dioceses;

    V. Os Parochos, nas suas freguezias;

    VI. Os Commandantes das Divisões Militares, nas suas divisões;

    VII. Os Governadores Militares das Praças de guerra, dentro das mesmas
    praças;

    VIII. Os Commandantes dos corpos de primeira linha, pelos militares
    debaixo do seu immediato commando;

    IX. Os Juizes de primeira-instancia e seus substitutos nas commarcas em
    que exercem jurisdicção;

    X.. Os Delegados do Procurador Regio nas commarcas em que exercem as
    suas funcções;

    XI. Os Juizes dos Tribunaes de segunda-instancia, e os Procuradores
    Regios junto a elles, nos districtos administrativos em que estiver a
    séde da sua Relação.

    §. _unico_. Não se comprehendem nesta exclusão os juizes do Tribunal
    commercial de segunda-instancia, nem os Conselheiros do Supremo Tribunal
    de Justiça.

    Art. 76.º A metade dos Deputados eleitos por qualquer círculo eleitoral,
    deverão ter naturalidade ou residencia d'um anno na provincia em que
    estiver collocada a capital do círculo: a outra ametade poderá ser
    livremente escolhida d'entre quaesquer Cidadãos portuguezes.

    §. _unico_. No círculo eleitoral que der número impar de Deputados,
    ametade e mais um deverá ter naturalidade ou residencia d'um anno na
    provinda da capital do círculo.

    Art. 77.º Só podem ser eleitos Senadores os que tiverem trinta e cinco
    annos de idade, e estiverem comprehendidos em alguma das seguintes
    cathegorias:

    I. Os proprietarios que tiverem de renda annual dois contos de réis;

    II. Os commerciantes e fabricantes, cujos lucros annuaes forem avaliados
    em quatro contos de réis;

    III. Os Arcebispos e Bispos com diocese no Reino e Provincias
    Ultramarinas;

    IV. Os Conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça;

    V. Os Lentes de Prima da Universidade de Coimbra, o Lente mais antigo da
    Eschola Polythechnica de Lisboa, e o da Academia Polythechnica do Porto;

    VI. Os Marechaes do Exército, Tenentes-Generaes e Marechaes de Campo;

    VII. Os Almirantes, Vice-Almirantes e Chefes de Esquadra;

    VIII. Os Embaixadores e os Enviados Extraordinarios Ministros
    Plenipotenciarios, com cinco annos de exercicio na carreira diplomatica.

    Art. 78.º Os elegiveis para Senadores podem ser eleitos por qualquer
    círculo eleitoral, posto que nelle não residam nem tenham naturalidade.

    Art. 79.º São applicaveis á eleição dos Senadores as exclusões
    declaradas no Artigo 75.

    TITULO VI

    _Do Podêr Executivo_.

    *CAPITULO PRIMERIO*.

    _Do Rei._.

    Art. 80.º O Rei é o Chefe do Podêr Executivo, e o exerce pelos Ministros
    e Secretarios d'Estado.

    Art. 81.º Compete ao Rei:

    I. Sanccionar e promulgar as leis;

    II. Convocar extraordinariamente as Cortes, prorogá-las e addiá-las;

    III. Dissolver a Camara dos Deputados quando assim o exigir a salvação
    do Estado.

    §. 1.º Dissolvida a Camara dos Deputados, será renovada a dos Senadores
    na fórma do Artigo 62.

    §. 2.º O Decreto da dissolução mandará necessariamente proceder a novas
    eleições dentro de trinta dias, e convocará as Côrtes para se reunirem
    dentro de noventa dias: sem o que, será nullo e de nenhum effeito.

    Art. 82.º Compete também ao Rei:

    I. Nomear e demittir livremente os Ministros e Secretarios d'Estado;

    II. Prover os empregos civis e militares na conformidade das Leis;

    III. Nomear os Embaixadores e mais agentes diplomaticos e commerciaes;

    IV. Nomear Bispos, e prover os Beneficios Ecclesiasticos;

    V. Nomear e remover os Commandantes da fôrça armada de terra e mar;

    VI. Suspender os Juizes segundo a lei;

    VII. Empregar a fôrça armada como intender mais conveniente ao bem do
    Estado;

    VIII. Conceder Cartas de naturalização, e privilegios exclusivos a favor
    da indústria, na conformidade das leis;

    IX. Conceder titulos, honras e distincçôes em recompensa de serviços
    feitos ao Estado, e propôr ás Côrtes as mercês pecuniarias que não
    estiverem determinadas por lei.

    X. Perdoar e minorar as penas aos delinquentes, na conformidade das
    leis;

    XI. Conceder amnistia em caso urgente, e quando o pedir a humanidade e o
    bem do Estado;

    XII. Conceder ou negar Beneplacito aos Decretos dos Concilios, Letras
    Pontificias e quaesquer Constituições Ecclesiasticas que se não
    opposerem á Constituição e ás Leis, devendo preceder approvação das
    Côrtes se contiverem disposições geraes;

    XIII. Declarar a guerra e fazer a paz, dando conta ás Côrtes dos motivos
    que para isso teve;

    XIV. Dirigir as negociações politicas com as Nações estrangeiras;

    XV. Fazer tratados de alliança, de subsidios e de commércio, e
    ratificá-los depois de approvados pelas Côrtes.

    Art. 83.º O Rei não póde:

    I. Impedir a eleição dos Deputados e Senadores;

    II. Oppôr-se á reunião das Côrtes no dia dois de Janeiro de cada anno;

    III. Nomear em tempo de paz Commandante em Chefe do Exército ou da
    Armada;

    IV. Commandar a força armada, ou nomear para Commandante em Chefe o
    Principe Real, ou os Infantes;

    V. Perdoar ou minorar as penas aos Ministros e Secretarios d'Estado por
    crimes commettidos no exercicio de suas funcções.

    Art. 84.º O Rei também não póde, sem consentimento das Côrtes:

    I. Ser ao mesmo tempo Chefe de outro Estado;

    II. Sahir do Reino de Portugal e Algarves: e se o fizer, intende-se que
    abdica.

    Art. 85.º A pessoa do Rei é inviolavel é sagrada; e não está sujeita a
    responsabilidade alguma.

    Art. 86.º Seus titulos são: Rei de Portugal e dos Algarves d'aquem e
    d'alem mar, em Africa Senhor de Guiné, e da Conquista, Navegação e
    Commércio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India etc.; e tem o
    tratamento de Magestade Fidelissima.

    Art. 87.º O Rei antes de ser acclamado prestará nas mãos do Presidente
    da Camara dos Senadores, reunidas ambas as Camaras, o seguinte
    juramento: "Juro manter a Religião Catholica, Apostolica Romana, a
    integridade do Reino, observar e fazer observar a Constituição Politica
    da Nação Portugueza, e mais leis do Reino, e prover ao bem geral da
    Nação quanto em mim couber."

    *CAPITULO SEGUNDO*.

    _Da Familia Real e sua dotação_.

    Art. 88.º O Herdeiro presumptivo da Corôa tem o titulo de Principe Real,
    e o seu primogenito o de Principe da Beira: o tratamento de ambos é de
    Alteza Real. Todos os mais tem o titulo de Infantes e o tratamento de
    Alteza.

    Art. 89.º O Herdeiro presumptivo, completando dezoito annos de idade,
    prestará nas mãos do Presidente da Camara dos Senadores, reunidas ambas
    as Camaras, o seguinte juramento: "Juro manter a Religião Catholica
    Apostolica Romana, observar a Constituição Politica da Nação Portugueza,
    e ser obediente ás leis e ao Rei."

    Art. 90.º As Côrtes logo que o Rei succeder na Corôa, lhe assignarão, e
    á Rainha sua Esposa, uma dotação correspondente ao decoro de sua Alta
    Dignidade.

    Art. 91.º As Côrtes assignarão tambem alimentos ao Principe Real e aos
    Infantes depois de completarem sette annos.

    Art. 92.º Quando as Princezas ou Infantes houverem de casar, as Cortes
    lhes assignarão dote; e com a entrega delle cessarão os alimentos.

    Art. 93.º Aos Infantes que casarem e forem residir fóra do Reino, se
    entregará por uma vez somente, uma quantia determinada pelas Côrtes; com
    o que, cessarão os alimentos que percebiam.

    Art. 94.º A dotação, alimentos e dotes de que tratam os artigos
    antecedentes, serão pagos pelo Thesouro Público.

    Art. 95.º Os palacios e terrenos Reaes até agora possuidos pelo Rei,
    ficam pertencendo aos seus successores.

    *CAPITULO TERCEIRO*.

    _Da Successão da Corôa_.

    Art. 96.º A successão da Corôa segue a ordem regular de primogenitura e
    representação entre os legitimos descendentes da Rainha actual a Senhora
    Dona Maria II; preferindo sempre a linha anterior ás posteriores; na
    mesma linha, o grau mais proximo ao mais remoto; no mesmo grau, o sexo
    masculino ao femenino; e no mesmo sexo, a pessoa mais velha á mais nova.

    Art. 97.º Extinctas as linhas dos descendentes da Senhora Dona Maria II,
    passará a Coroa ás collateraes; e uma vez radicada a successão em uma
    linha, em quanto ésta durar, não entrará a immediata. Extinctas todas as
    linhas dos descendentes e collateraes, as Côrtes chamarão ao Throno
    pessoa natural destes Reinos; e desde então se regulará a nova successão
    pela ordem estabelecida no artigo 96.

    Art. 98.º A linha collateral do ex-Infante Dom Miguel e de toda a sua
    descendencia é perpetuamente excluida da successão.

    Art. 99.º Se a successão da Corôa recahir em femea, não poderá ésta
    casar senão com Portuguez, precedendo approvação das Côrtes. O Marido
    não terá parte no govêrno, e sómente se chamará Rei depois que tiver da
    Rainha filho ou filha.

    Art. 100.º Nenhum estrangeiro póde succeder na Corôa de Portugal.

    *CAPITULO QUARTO*.

    _Da Regencia na minoridade ou impedimento do Rei._.

    Art. 101.º O Rei é menor até á idade de dezoito annos completos.

    Art. 102.º Durante a minoridade as Côrtes conferirão a Regencia a uma só
    pessoa natural destes Reinos; a qual a exercerá até á maioridade do Rei.

    Art. 103.º Quando o Rei, por alguma causa physica ou moral reconhecida
    pelas Côrtes, se impossibilitar para governar, a Regencia será deferida
    ao immediato successor, se ja tiver completado dezoito annos.

    §. _unico_. Se o immediato successor não tiver completado dezoito annos,
    a Regencia será conferida pelo modo estabelecido no artigo 102.

    Art. 104.º Em quanto se não eleger Regente, governará o Reino uma
    Regencia provisoria, composta dos dous Ministros e Secretarios d'Estado
    mais velhos em idade, e presidida pela Rainha viuva; na falta della,
    pelo irmão mais velho do Rei defunto; e na falta de ambos, pelo
    Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

    Art. 105.º O Regente ou Regencia provisoria prestarão o juramento
    mencionado no Artigo 87, accrescentando a clausula de fidelidade ao Rei;
    e o Regente a de lhe entregar o govêrno logo que Elle chegue á
    maioridade ou cesse o impedimento.

    Art. 106.º A Regencia provisoria prestará juramento, não estando as
    Côrtes reunidas, perante a Camara Municipal da cidade ou villa em que se
    installar.

    Art. 107.º A Regencia provisoria somente despachará os negocios que não
    admittirem dilação; e não poderá nomear nem remover empregados publicos
    senão interinamente.

    Art. 108.º Os actos da Regencia e do Regente são expedidos em nome do
    Rei.

    Art. 109.º Nem a Regencia nem o Regente são responsaveis.

    Art. 110.º Nos casos em que a Constituição manda proceder á eleição de
    Regente, se a Regencia provisoria não decretar, dentro de tres dias, a
    reunião extraordinaria das Côrtes, a obrigação de as convocar incumbe
    successivamente aos ultimos Presidentes e Vice-Presidentes das Camaras
    dos Senadores e Deputados.

    §. _unico_. Se dentro de quinze dias a convocação não tiver sido feita
    por algum dos modos acima declarados, as Côrtes se reunirão no
    quadragessimo dia, sem dependencia de convocação.

    Art. 111.º Se a Camara dos Deputados tiver anteriormente sido
    dissolvida, e no Decreto da dissolução estiverem as novas Côrtes
    convocadas para epocha posterior ao quadragessimo dia contado da morte
    do Rei, os antigos Deputados e Senadores reasummem as suas funcções até
    á reunião dos que vierem substitui-los.

    Art. 112.º Durante a minoridade do Rei será seu tutor quem o Pae lhe
    tiver nomeado em testamento: na falta deste, a Rainha Mãe em quanto se
    conservar viuva; faltando ésta, as Côrtes nomearão para tutor pessoa
    idonea e natural destes Reinos.

    §. _unico_. Quando o Rei menor succeder na Corôa a sua Mãe, será tutor
    delle e dos Infantes o Rei seu Pae.

    Art. 113.º Nunca será tutor do Rei menor o seu immediato successor nem o
    Regente.

    Art. 114.º O successor da Corôa, durante a sua minoridade, não póde
    contrahir matrimonio sem consen-timento das Côrtes.

    *CAPITULO QUINTO*.

    _Do Ministerio_.

    Art. 115.º Todos os actos do Podêr Executivo com a assignatura do Rei,
    serão sempre referendados pelo Ministro e Secretario d'Estado
    competente, sem o que não terão effeito.

    Art. 116.º Os Ministros e Secretários d'Estado são principalmente
    responsáveis:

    I. Pela falta de observancia das leis;

    II. Pelo abuso do podêr que lhes é confiado;

    III. Por traição;

    IV. Por peita, suborno, peculato ou concussão;

    V. Pelo que obrarem contra a liberdade, segurança e propriedade dos
    Cidadãos;

    VI. Por dissipação ou mau uso dos bens publicos.

    Art. 117.º A ordem do Rei vocal ou escripta não salva aos Ministros da
    responsabilidade.

    Art. 118.º Os estrangeiros naturalizados não podem ser Ministros,

    *CAPITULO SEXTO*.

    _Da Fôrça armada_.

    Art. 119.º Todos os Portugueses são obrigados a pegar em armas para
    defender a Constituição do Estado, e a independencia e integridade do
    Reino.

    Art. 120.º O Exército e a Armada constituem a fôrça permanente do
    Estado.

    §. _unico_. Os Officiaes do Exército e da Armada somente podem ser
    privados das suas patentes por sentença proferida em Juizo competente.

    Art. 121.º A Guarda Nacional constitue parte da fôrça pública.

    §. 1.º A Guarda Nacional concorre, pelo modo que a lei determinar, para
    a eleição dos seus Officiaes; e fica sujeita ás authoridades civis,
    excepto nos casos designados pela lei.

    §. 2.º Uma lei especial regulará a composição, organização, disciplina e
    serviço da Guarda Nacional.

    Art. 122.º Toda a fôrça militar é essencialmente obediente: os corpos
    armados não podem deliberar.

    TITULO VII.

    _Do Podêr Judiciário_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 123.º O Poder Judiciário é exercido pelos Juizes e Jurados.

    §. 1.º Haverá Jurados assim no civei como no crime, nos casos e pelo
    modo que a lei determinar.

    §. 2.º Os Juizes de direito são nomeados pelo Rei, e os Juizes
    ordinários eleitos pelo povo.

    §. 3.º Nas causas civeis, e nas criminaes civilmente intentadas, poderão
    as partes nomear Juizes arbitros.

    Art. 124.º Haverá tambem Juizes de Paz que serão electivos.

    §. _unico_. Nenhum processo será levado a Juizo contencioso sem se haver
    intentado o meio de conciliação perante o Juiz de Paz, salvo nos casos
    que a lei exceptuar.

    Art. 125.º Haverá Relações para julgar as causas em segunda e última
    instancia.

    Art. 126.º Haverá um Supremo Tribunal de Justiça para conceder ou negar
    revistas e exercer as mais attribuições marcadas nas leis.

    Art. 127.º Os Juizes de Direito não podem ser privados do seu emprêgo
    senão por sentença.

    §. _unico_. Os Juizes de Direito de primeira instancia serão mudados de
    tres em tres annos de um para outro logar na forma que a lei ordenar.

    Art. 128.º As audiencias de todos os Tribunaes serão públicas, excepto
    nos casos declarados na lei.

    TITULO VIII.

    _Do Govêrno Administrativo e Municipal_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 129.º Haverá em cada Districto administrativo um Magistrado nomeado
    pelo Rei, uma Junta electiva, e um Conselho de Districto igualmente
    electivo: a lei designará as suas funcçôes respectivas.

    Art. 130.º Em cada Concelho uma Camara municipal, eleita directamente
    pelo pôvo, terá a administração económica do Municipio na conformidade
    das leis.

    Art. 131.º Alem dos Magistrados e Corpos electivos, designados nos
    Artigos 129.º e 130.º, haverá todos os mais que a Lei determinar.

    TITULO IX

    _Da Fazenda Nacional_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 132.º Os impostos são votados annualmente: as leis que os
    estabelecem somente obrigam por um anno, se não forem confirmadas.

    Art. 133.º As sommas votadas para qualquer despeza pública não poderão
    ser applicadas para outros fins senão por uma lei que authorize a
    transferencia.

    Art. 134.º A administração e arrecadação dos rendimentos do Estado
    pertence ao Thesouro-Público, salvo nos casos exceptuados pela Lei.

    Art. 135.º Haverá um Tribunal de Contas, cujos Membros serão eleitos
    pela Camara dos Deputados.

    §. 1.º Pertence ao Tribunal de Contas verificar e liquidar as contas da
    receita e despeza do Estado e as de todos os responsaveis para com o
    Thesouro Público.

    §. 2.º Uma lei especial regulará a sua organização e mais attribuições.

    Art. 136.º O Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Fazenda
    apresentara á Camara dos Deputados, nos primeiros quinze dias de cada
    sessão annual, a conta geral da receita e despeza do anno economico
    findo, e o orçamento da receita e despeza do anno seguinte.

    TITULO X.

    _Das Provincias Ultramarinas_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 137.º As Provincias Ultramarinas poderão ser governadas por leis
    espeiaes segundo exigir a conveniencia de cada uma dellas.

    §. 1.º O Govêrno poderá, não estando reunidas as Côrtes, decretar em
    Conselho de Ministros as providencias indispensaveis para occorrer a
    alguma necessidade urgente de qualquer Provincia ultramarina.

    §. 2.º Igualmente poderá o Governador geral de uma Provincia ultramarina
    tomar, ouvido o Conselho de Govêrno, as providencias indispensaveis para
    acudir a necessidade tão urgente que não possa esperar pela decisão das
    Côrtes ou do Podêr executivo.

    §. 3.º Em ambos os casos o Govêrno submetterá ás Côrtes, logo que se
    reunirem, as providencias tomadas.

    TITULO XI.

    _Da Reforma da Constituição_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 138.º A Constituição só poderá ser alterada em virtude de proposta
    feita na Camara dos Deputados.

    Art. 139.º Se a proposta for approvada por ambas as Camaras, e
    sanccionada pelo Rei, será submettida á deliberação das Côrtes
    seguintes; e o que por ellas for approvado, será considerado como parte
    da Constituição, e nella incluído sem dependência de Sancção Real.

    ARTIGO TRANSITORIO.

    As Côrtes ordinárias que primeiro se reunirem depois de dissolvido o
    actual Congresso Constituinte, poderão decidir se a Camara dos Senadores
    ha de continuar a ser de simples eleição popular, ou se de futuro os
    Senadores hão de ser escolhidos pelo Rei sôbre lista triplice proposta
    pelos circulos eleitoraes.

    Lisboa e Palacio das Côrtes, em 20 de Março de 1838.

    José Caetano de Campos, _Deputado pela Divisão eleitoral de Trancoso_,
    Presidente.

    Alberto Carlos Cerqueira de Faria, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Coimbra_.

    Anselmo José Braamcamp, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    Antonio Bernardo da Costa Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Provinda Oriental dos Açôres_.

    Antonio Cabral de Sá Nogueira, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Setubal_.

    Antonio Cesar de Vasconcellos Corrêa, _Deputado pela Divisão eleitoral
    de Santarem_.

    Antonio Fernandes Coelho, _Deputado pela Divisão eleitoral do Porto_.

    Antonio Joaquim Barjona, _Deputado pela Divisão eleitoral de Coimbra_.

    Antonio Joaquim Duarte e Campos, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Evora_.

    Antonio José Pereira Leite, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Provincia Oriental dos Açôres_.

    Antonio José Pires Pereira de Vera, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Villa Real_.

    Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro, _Deputado pela Divisão eleitoral
    de Guimarães_.

    Antonio Maria de Albuquerque, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Trancoso_.

    Balthasar Machado da Silva Salasar, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Barcellos_.

    Barão do Casal, _Deputado pela Divisão eleitoral de Alemquer_.

    Barão de Faro, _Deputado pela Divisão eleitoral de Faro_.

    Barão de Noronha, _Deputado pela Divisão eleitoral da Terceira_.

    Barão da Ribeira de Sabrosa, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa
    Real_.

    Basilio Cabral Teixeira de Queiroz, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Béja_.

    Bernardo Gorjão Henriques, _Deputado pela Divisão eleitoral de Thomar_.

    Caetano Xavier Pereira Brandão, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Aveiro_.

    Conde de Lumiares, _Deputado pela Divisão eleitoral de Setubal_.

    Francisco Antonio Pereira de Lemos, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Bragança_.

    Francisco José Barbosa Pereira Couceiro Marreca, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Vianna_.

    Francisco José Gomes da Motta, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa
    Real_.

    Francisco de Mont'Alverne, _Deputado pela Divisão eleitoral de Braga_.

    Francisco Soares Caldeira, _Deputado pela Divisão eleitoral de Leiria_.

    Francisco Fernando de Almeida Madeira, _Deputado pela Divisão eleitoral
    de Leiria_.

    João Alberto Pereira de Azevedo, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Leiria_.

    João Baptista d'Almeida Garrett, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Terceira_.

    João da Cunha Soutto Maior, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vianna_.

    João Gualberto de Pina Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Vizeu_.

    João Lopes de Moraes, _Deputado pela Divisão eleitoral de Arganil_.

    João Manoel Teixeira de Carvalho, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Braga_.

    João Pedro Soares Luna, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    João da Silveira de Lacerda Pinto Teixeira, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Villa Real_.

    João Victorino de Sousa Albuquerque, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Vizeu_.

    Joaquim de Oliveira Baptista, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Arganil_.

    Joaquim Pedro Judice Samora, _Deputado pela Divisão eleitoral de Faro_.

    Joaquim Placido Galvão Palma, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Portalegre_.

    Joaquim Pompilio da Motta Azevedo, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Lamego_.

    José da Costa Sousa Pinto Basto, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Feira_.

    João Soares de Albergaria Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Terceira_.

    José Estevão Coelho de Magalhães, _Deputado pela Divisão eleitoral
    d'Aveiro_.

    José Ferreira Pinto Basto, _Deputado pela Divisão eleitoral d'Aveiro_.

    José Ferreira Pinto Basto Junior, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Lisboa_.

    José Fortunato Ferreira de Castro, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Guimarães_.

    José Ignacio Pereira Derramado, _Deputado pela Divisão eleitoral
    d'Evora_.

    José Joaquim da Costa Pinto, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa
    Real_.

    José Joaquim da Silva Pereira, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Feira_.

    José Liberato Freire de Carvalho, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Lisboa_.

    José Lopes Monteiro, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa Real_.

    José Maria d'Andrade, _Deputado pela Divisão eleitoral de Béja_.

    José Mendes de Mattos, _Deputado pela Divisão eleitoral de Castello
    Branco_.

    José Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque, _Deputado pela Dirisão
    eleitoral de Castello Branco_.

    José Pinto Pereira Borges, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vianna_.

    José Pinto Soares, _Deputado pela Divisão eleitoral de Penafiel_.

    José Placido Campeam, _Deputado pela Divisão eleitoral do Porto_.

    José da Silva Passos, _Deputado pela Divisão eleitoral de Porto_.

    José Teixeira Rebello, _Deputado pela Divisão eleitoral da Madeira_.

    Justino Antonio de Freitas, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Coimbra_.

    Leonel Tavares Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    Lourenço José Moniz, _Deputado pela Divisão eleitoral da Madeira_.

    Luiz Moreira Maia da Silva, _Deputado pela Divisão eleitoral da Feira_.

    Luiz Ribeiro de Sousa Saraiva, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Guarda_.

    Macario de Castro, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lamego_.

    Manoel Alves do Rio, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    Manoel Antonio de Vasconcellos, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Provincia Oriental dos Açôres_.

    Manoel Joaquim Rodrigues Ferreira, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Penafiel_.

    Manoel de Mascaranhas Zuzarte Lobo Coelho de Sande, _Deputado pela
    Divisão eleitoral de Faro_.

    Manoel dos Santos Cruz, _Deputado pela Divisão eleitoral de Santarem_.

    Manoel da Silva Passos, _Deputado pela Divisão eleitoral do Porto_.

    Manoel de Sousa Rebello de Vasconcellos Raivoso, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Thomar_.

    Manoel de Vasconcellos Pereira de Mello, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Lamego_.

    Manoel Vaz Eugenio Gomes, _Deputado pela Divisão eleitoral de Leiria_.

    Marino Miguel Franzini, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vianna_.

    Paulo Midosi, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vizeu_.

    Pedro de Sande Salema, _Deputado pela Divisão eleitoral de Thomar_.

    Rodrigo Joaquim de Menezes, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Barcellos_.

    Rodrigo Machado da Silva Salasar, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Barcellos_.

    Roque Francisco Furtado de Mello, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Santarem_.

    Roque Joaquim Fernandes Thomaz, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Coimbra_.

    Theodorico José d'Abranches, _Deputado por Moçambique_.

    Valentim Marcellino dos Santos, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Bragança_.

    Venancio Bernardino de Ochôa, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Bragança_.

    Visconde de Beire, _Deputado pela Divisão eleitoral de Penafiel_.

    Visconde de Fonte Arcada, _Deputado pela Divisão eleitoral de Alemquer_.

    Antonio Joaquim Nunes de Vasconcellos, _Deputado pela Divisão eleitoral
    da Horta_, Secretario.

    Custodio Rebello de Carvalho, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Portalegre_, Secretario.

    Fernando Maria do Prado Pereira, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Alemquer_, Secretario.

    José Gomes d'Almeida Branquinho Feio, _Deputado pela Divisão eleitoral
    da Guarda_, Secretario.

    *ACCEITAÇÃO E JURAMENTO DA RAINHA*.

    ACCEITO, E JURO GUARDAR E FAZER GUARDAR A CONSTITUIÇÃO POLITICA DA
    MONARCHIA PORTUGUEZA, QUE ACABAM DE DECRETAR AS CÔRTES GERAES,
    EXTRAORDINARIAS, E CONSTITUINTES DA MESMA NAÇÃO.

    Paço das Côrtes em quatro d'Abril de mil oitocentos trinta e oito.

    *MARIA SEGUNDA* RAINHA COM GUARDA.

    Por tanto, Mando a todas as Authoridades, a quem o conhecimento e
    execução da referida Constituição Politica pertencer, que a cumpram e
    executem tão inteiramente como nella se contém. O Secretario d'Estado
    dos Negocios do Reino a faça imprimir, publicar, e correr. Dada no
    Palacio das Necessidades em quatro d'Abril de mil oitocentos trinta e
    oito.

    RAINHA com Guarda.

    _Antonio Fernandes Coelho._

    _Carta de Lei pela qual Vossa Magestade Manda cumprir e guardar
    inteiramente a Constituição Politica da Monarchia, que as Côrtes Geraes,
    Extraordinarias, e Constituintes acabam de decretar, na fórma acima
    declarada._

    Para Vossa Magestade vêr.

    _João de Roboredo a fez_.

    A folhas 78 verso do Livro 1.º das Cartas de Lei fica esta registada.
    Secretaria d'Estado dos Negocios do Reino em 4 d'Abril de 1838.

    _Antonio José Dique da Fonsêca Junior._

    INDICE DAS MATERIAS.

    TITULO I. _Da Nação Portuguesa, seu Territorio, Religião, Govêrno e
    Dinastya_ 3

    TITULO II. _Dos Cidadãos Portuguezes_ 4

    TITULO III. _Dos Direitos e garantias dos Portugueses_ 5

    TITULO IV. _Dos Podêres Politicos_ 9

    TITULO V. _Do Podêr Legislativo_ idem.

    TITULO VI. _Do Podêr Executivo_ 17

    TITULO VII. _Do Podêr Judiciario_ 23

    TITULO VIII. _Do Govêrno Administrativo e Municipal_ 24

    TITULO IX. _Da Fazenda Nacional_ idem.

    TITULO X. _Das Provincias Ultramarinas_ 25

    TITULO XI. _Da Reforma da Constituição_ 26
    _Acceitação, e Juramento da
    Rainha_ 31

    *DECRETO*.

    _Considerando os graves inconvenientes, que poderiam resultar da livre
    impressão do Codigo Constitucional: Hei por bem Determinar que a
    impressão e venda da nova Constituição da Monarchia, e as reimpressões,
    que della se fizerem, sejam privativas e exclusivas da Imprensa
    Nacional; e Ordeno que em todas as edições se estampe depois da integra
    da mesma Constituição o presente Decreto para conhecimento do Público, e
    para que ninguem possa allegar ignorancia, procedendo-se contra os
    infractores na conformidade das Leis respectivas. O Secretario d'Estado
    dos Negocios do Reino assim o tenha intendido e faça executar. Paço das
    Necessidades em quatro d'Abril de mil oitocentos trinta e oito._ =
    Rainha. = Antonio Fernandes Coelho.

  • Chronica d’El-Rei D. Affonso III

    Chronica d’El-Rei D. Affonso III

    Aproximadamente 19.331 palavras.

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    Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt).

    BIBLIOTHECA

    DE

    *Classicos Portuguezes*

    Proprietario e fundador

    _MELLO D'AZEVEDO_

    BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

    Proprietario e fundador–MELLO D'AZEVEDO

    (VOLUME LIV)

    CHRONICA

    D'EL-REI D. AFFONSO III

    POR

    RUY DE PINA

    ESCRIPTORIO

    147=RUA DOS RETROZEIROS=147

    LISBOA

    1907

    CHRONICA

    DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE

    D. AFFONSO III

    QUINTO REY DE PORTUGAL,

    COMPOSTA

    POR RUY DE PINA,

    Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

    FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

    Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

    OFFERECIDA

    A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY

    D. JOAOO V.

    NOSSO SENHOR.

    POR MIGUEL LOPES FERREYRA

    LISBOA OCCIDENTAL

    Na Officina FERREYRIANA.

    M.DCC.XXVIII.

    _Com todas as licenças necessarias_.

    SENHOR

    Continuando com a edição das Chronicas dos Senhores Reis de Portugal,
    gloriosos Predecessores de V. Magestade, continuo tambem na precisa
    obrigação de as offerecer a V. Magestade. Nesta do Senhor Rei D. Affonso
    III verá V. Magestade os caminhos que buscou a Providencia Divina para
    que empunhasse o Scetro um Principe, que para ter menos esperanças do
    trono se achava cazado em França, e verá V. Magestade a felicidade, com
    que soube estabelecer nos seus descendentes a Monarchia, que acrescentou
    com Estados novos, e que soube segurar com a total expulsão dos
    Africanos. Sirva-se V. Magestade de amparar o meu zelo com a sua Real
    benignidade, para que animado com tão soberano favor possa dar á luz as
    Chronicas que faltam. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos
    annos como dezejamos.

    _Miguel Lopes Ferreira_

    AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

    *D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*

    Quinto Conde da Ericeira, do conselho de Sua Magestade, Sargento mór de
    Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo
    Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo Senhor da
    Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa Christina de
    Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de Frazão, S. Payo
    de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas
    na Ordem de Christo. Academico da Academia Real da Historia Portugueza,
    e um dos cinco Censores della.

    Meu Senhor aonde não chega a confiança propria, é necessario buscar o
    amparo alheio. É tão elevada a Magestade, que nem ainda obsequioso me
    atrevo a chegar a ella: e por esta cauza procuro o patrocinio de V.
    Excellencia para que com a sua pessoa consiga o que por mim não posso.
    Espero que V. Excellencia se digne de me fazer esta mercê, porque a
    continuação dos seus estudos, e a grande livraria que tem junto a sua
    erudição, justamente me desculpa para lhe pedir a protecção para um
    livro, que como de Historia da Patria precede a todos na lição, e porque
    sendo offerecido a Sua Magestade pela mão de V. Excellencia terá a
    acceitação que dezejo. Deus guarde a V. Excellencia muitos annos.

    Criado de V. Excellencia

    _Miguel Lopes Ferreira_

    *AMIGO LEITOR*

    Não me podes accuzar de falto de palavra, pois vês que te dou agora a
    Chronica del-Rei D. Affonso III que foi o Quinto Rei desta Monarchia. De
    serem breves as narrações das suas vidas, e summamente compendiadas as
    noticias dos seus governos, não tenho eu a culpa, tem-na os Chronistas
    que, ou não quizeram, ou não souberam. Tudo podia ser, porque a falta em
    semelhante materia procede umas vezes de não haver quem informe, e
    outras de não escreverem, o que todos sabem. Donde nasce que deste
    principio experimentamos o dano, porque desprezaram escrever o que era
    sabido, e desta sorte padecemos uma involuntaria ignorancia. Cazou este
    Principe em França donde esteve, e assistiu alguns annos, e sendo
    impossivel que não fizesse naquelle tempo acções dignas da sua pessoa,
    ou na paz, ou na guerra, tudo ficou sepultado em um profundo silencio,
    de que são reos os que escreveram primeiro. Ainda depois de nomeado
    Governador de Portugal, e ainda depois de ser Rei não houve aquelle
    cuidado nas penas dos Chronistas, que merecia a sua politica, que não
    foi nesta grande arte inferior aos maiores. Lê, e espera que brevemente
    te busque com a Chronica de seu filho o famoso Rei D. Diniz.

    _Vale._

    LICENÇAS

    DO

    SANTO OFFICIO

    Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual não correrá. Lisboa Occidental o primeiro de Outubro de 1726.

    _Fr. Lancastre. Cunha. Teixeira. Silva. Cabedo._

    DO ORDINARIO

    Vista a informação, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726.

    _D. J. A. L._

    DO PAÇO

    _Approvação do Doutor Manuel de Azevedo Soares, Cavalleiro professo na
    Ordem de Christo, do Dezembargo de Sua Magestade, Desembargador da Casa
    da Supplicacão, Juiz dos Contos do Reino, e Caza, Academico da Academia
    Real da Historia Portugueza, &c._

    SENHOR

    Esta Chronica del-Rei D. Affonso III que pertende imprimir Miguel Lopes
    Ferreira assás recomendação tinha em o nome de seu Author para facilitar
    a licença que se pede: porque sendo Ruy de Pina Chronista de tão grande
    opinião, por ella só, ficavam approvadas as suas obras, sendo superfluos
    todos os encomios com que justamente se podiam encarecer.[1] Não falta
    com tudo quem affirme que nem todas as obras, que se divulgam por suas,
    o são. E se em alguma póde ter lugar a conjectura de que o não seja, é
    esta uma dellas ao que parece; porque sem passar do Capitulo terceiro,
    se encontra uma inverosimilidade, certamente muito alhea do entendimento
    de tão grande homem. Diz que sabendo a Condessa de Bolonha Mathilde, que
    seu marido era obedecido por Rei pacificamente, e não sabendo nada do
    seu cazamento, confiando, que se elle a visse, a trataria, e honraria
    como sua verdadeira mulher, aprestara Naos, e que bem acompanhada, e com
    um filho, que se disse ter do dito seu marido, se embarcara para este
    Reino, e chegando a Cascaes donde soubera logo, que elle estava em
    Friellas, e cazado com outra mulher, recebendo grande indignação, e
    tristesa, arrependida de ter vindo, especialmente depois de saber da
    condição da segunda mulher, tomando parecer, mandára dous Cavalleiros
    principais dos que trazia comsigo, para que participassem a El-Rei a sua
    vinda, e a sua queixa; e pela reposta, que trouxeram, se voltara para
    França, deixando o filho, segundo diziam uns, e que por certa lembrança
    achara, o havia levado comsigo, e que depois o mandara a este Reino, com
    outras mais circumstancias, que se referem no dito Capitulo. Não reparo
    em que faça menção de filho, e nem ainda que a Condeça tomasse a
    resolução de vir a este Reino sem premeditar as contingencias do
    successo, como se foi assim, lhe mostrou a experiencia, porque muitos
    Historiadores seguiram aquella tradição com circumstancias mais
    inverosimeis; cujo erro se acha novamente refutado com demonstrações, e
    authoridades evidentes, pelo eruditissimo Academico o P. D. Joseph
    Barbosa.[2] Reparo sómente em que se diga, que a Condeça não sabia nada
    do cazamento de seu marido, porque demais de se affirmar o contrario por
    muitos Historiadores, sendo aquelle cazamento tão escandaloso, e sendo a
    grandeza dos delinquentes, a que mais vulgariza os seus delictos,[3]
    como é crivel o ignorasse a Condeça; e mais por ser entre pessoas de tão
    alta jerarquia; com instrumentos de dote publicos, e havendo tão pouca
    distancia para a noticia, como de Portugal a França. Quando ainda os
    segredos dos Principes, mais reconditos, estão sugeitos á infidilidade
    dos mesmos a que se confiam,[4] se obrigava a um tal excesso, o seu
    affecto, sendo deste inseparavel a desconfiança,[5] como é verosimil, se
    lhe ocultase a sua offensa.[6] Disto sem duvida se origina o pouco
    credito, que tem muitas historias, porque devendo ser a verdade o seu
    essencial fundamento,[7] notando-se-lhes algum erro em parte
    regularmente perdem a fé de todo.[8] E ainda que pelo Historiador a que
    foram commettidas as memorias deste Monarcha na Real Academia, que V.
    Magestade instituio para que resuscitassem na memoria dos seculos
    futuros, aquelles heroes, que sendo na vida esclarecidos, os escureceu a
    morte, sepultando-os nas tenebrosas urnas de um ingrato esquecimento[9]
    se restituirá de todo á verdade aquelle successo, conforme a empresa da
    mesma Academia: com tudo sendo na opinião de Santo Augustinho util que
    se publiquem livros repetidos sobre a mesma materia, com diversidade de
    estylo,[10] ainda me parece se póde conceder a licença, que se pede,
    sendo V. Magestade servido, porque sempre ficará illesa a fama do Author
    da Historia, na opinião dos que o conhecem, distinguindo na obra o que
    póde ser parto do seu entendimento. Lisboa Occidental 20 de Julho de
    1727.

    _Manoel de Azevedo Soares_.

    Que se possa imprimir visto as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e
    depois de impressa torne á mesa para se conferir, e taxar, e sem isso
    não correrá. Lisboa Occidental, 7 de Agosto de 1727.

    _Pereira. Oliveira. Teixeira._

    [Nota de rodapé 1: Super vacanci laboris est laudare conspicuos. Symach.
    I*. 3. Epistol. 48.]

    [Nota de rodapé 2: Catalog. Chronolog. das Rainhas de Portugal á n.
    241.]

    [Nota de rodapé 3: Dum in imis est quispiam, ejus quodam modo vitia
    delitescunt; cum vero ad dignitatis culmen ascendit in superficiem mox
    erumpunt, et quæ fuerant catenus inaudita jam per ora rumigeruli populi
    trita vulgantur S. Petr. Damian. Epist. 20 ad Cadol. Qui magno imperio
    præditi, in excelso ætatem agunt, eorum facta cuncti mortales novere.
    Salust.]

    [Nota de rodapé 4: Areana Regu ipsi predunt Satellites Gruterus.
    Florileg. c. 2]

    [Nota de rodapé 5: Vel alieni amoris æmulus, quod frequentissimum est in
    amore vitium. Guillielm. Castellus apud Textor. in Epithet.]

    [Nota de rodapé 6: Ita Zelotipus in omnes ahorum gressus assiduo
    intentus totidem suspicionum umbras producit, quoties illos è loco
    moveri animadvertunt Picinel. mund. Symbol. 1. 16. n. 66.]

    [Nota de rodapé 7: Non ostentationi, sed fidei, veritati que componitur
    Plinio Jun. 1. 6. Epist. 16. lux et evangelium veritatis Cassan. catal.
    glor. mund. p. 10. consid. 46.]

    [Nota de rodapé 8: Et si per currantur horum historicora scripta, tacite
    reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in uno,
    in cæteris fide perdant. Menoch. cos. 112. v. 71. Paris. consil. 23. n.
    253.]

    [Nota de rodapé 9: Historia reru que gestarum descriptio, tubæ clangor,
    quo jam olim mortui velut e sepulcro excitati, in mediu producuntur.
    Nicetas. Quia hoc quotidianu, et vulgare est, multi famosi in vita, et
    clari post obitu, sunt incogniti, et obscuri. Petraca de prosper.
    fortun. Dialog. 117.]

    [Nota de rodapé 10: Utile esse plures libros a pluribus diverso stilo,
    de eisdem quæstionibus fieri, ut ad plurimos res ipsa perveniat ad alios
    quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quæstion. de Trinit. c. 3.]

    _Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Affonso III quinto Rei
    de Portugal_

    CAPITULO I

    _Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como accrecentou os
    Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque_

    Por falecimento del-Rei Dom Sancho deste nome o segundo, a que disseram
    Capello, porque delle não ficou herdeiro do Reino legitimo descendente,
    que o succedesse, foi alevantado, e obedecido por Rei na Cidade de
    Lisboa o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino
    de Portugal por sucessão direitamente pertencia, em idade de trinta e
    oito annos na era de mil e duzentos e quarenta e sete, (1247) o qual
    era, filho legitimo del-Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito
    Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger como devia elle veo
    de Bolonha a este Reino de Portugal, e o governou, e defendeo dous
    annos, não se chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por mandado
    do Papa, como na Coronica del-Rei Dom Sancho claramente se disse, e
    depois que o dito Rei Dom Affonso Reinou durando os primeiros annos de
    seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com a Rainha Dona
    Breatiz, sua sobrinha, filha del-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de
    Castella, se intitulou sómente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, e
    trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, e bordadura dos
    Castellos, assi como os outros Reis de Portugal até este tempo
    trouxeram, segundo eu Coronista o vi nos sellos pendentes de algumas
    suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e as achei na Torre do Tombo
    destes Reinos, de que por o officio sou Guarda-mór.

    Porque depois que com a dita Rainha Dona Breatriz lhe foram dadas as
    Villas, e Castellos do Reino do Algarve, elle foi o que primeiro se
    intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Escudo, e
    Quinas os Castellos dourados em campo vermelho, que logo elle, e depois
    os outros Reis de Portugal que delle decenderam sempre atégora
    trouxeram, e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por muitos
    sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são Castellos por
    esta rezão, que disse, ou pelos de Riba de Coa, que a este Reino
    creceram, ou se eram com folões, ou bandeiras, que se dizem as Armas do
    Condado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos ditos Castellos,
    a que digo, e afirmo que não podem ser Castellos pelos de Riba de Coa,
    porque El-Rei Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e houve
    depois que Reinou, como em sua Coronica se dirá, nem menos pareçam, que
    sejam por respeito das Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto
    que em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem podiam ficar depois
    de sua morte á Coroa Real do Reino de Portugal, quanto mais que a
    honestidade, e rezão contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de
    Bolonha, por memoria da Condeça sua molher de que contra direito, e em
    desprezo della se apartou, e nunca depois a quiz ver, por onde é mui
    certo que sómente são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como
    disse.

    Os quais Castellos, posto que na primeira doação del-Rei de Castella
    ficam del-Rei Dom Affonso, seu genro a seus filhos, estão por numero
    certo, e assinados, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas por
    aquelle numero certo, porque naquelle tempo El-Rei de Castella lhe deu
    os mais que ganhasse, como ganhou sem os declarar, assi que estes
    Castellos são postos na Orla, não por numero certo, mas o que nella em
    boa proporção bem podesse caber, e porém El-Rei Dom Affonso logo como
    Reinou, e assi depois que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e
    prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo da Justiça, por a
    qual a muitos mal feitores, que foram prezentes, e em seus crimes
    comprehendidos, deu suas devidas penas, com medo das quaes outros se
    foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e inteira equidade, e
    proveo o povo em inteira Justiça, e sua real Caza, e Fazenda com
    singular regra, e louvada ordenança, e fez muitas boas, e novas
    povoações em muitas partes do Reino, que eram despovoradas, e mandou
    lavrar, e aproveitar os termos de muitas Villas, e Castellos para
    repairo, e culto da terra, que dos tempos passados estava mui
    denificada, e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além dos
    feitos grandes darmas de sua conquista do Algarve, no fim desta sua
    Coronica em soma particular estão declaradas.

    CAPITULO II

    _Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em França
    a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella_

    Este Rei Dom Affonso sendo casado com Dona Matildes Condessa de Bolonha
    em França, elle a leixou no dito Condado, e se veo a Portugal, como na
    Coronica del-Rei Dom Sancho seu irmão é declarado, e depois de sua vinda
    a poucos annos casou outra vez com a Rainha Dona Breatiz, filha bastarda
    del-Rei de Castella, a qual elle houve em Dona Mayor Guilhelme de
    Gosmão, sua manceba, a que foi muito afeiçoado, e a que fez mui firmes,
    e grandes doações de muitas Villas, Castellos, e rendas de Lugares no
    Reino de Castella, para depois de sua morte ficarem á dita Rainha D.
    Breatiz sua filha, e a seus filhos herdeiros para sempre, porque,
    segundo parece pelas palavras do testamento que o dito Rei Dom Affonso
    fez, elle antre todolos filhos, e filhas que teve, a esta Rainha Dona
    Breatiz, sua filha mostrou elle querer mór bem, e a que mais se devia
    por serviço e beneficios, e soccorros que della em suas tribulações mais
    que doutro algum tinha recebidos, e a que mais desejou galardoar, e dar
    muito do seu se pudera, o qual casamento del-Rei, e da Rainha Dona
    Breatiz, quando se concertou, e se fez foi assás maravilha dos homens
    que o sabiam, assi pela grandeza do dote delle, não sendo a Rainha filha
    legitima, como principalmente por casar em tempo, que a Condessa, sua
    primeira molher ainda era viva, e sobre este passo se acha por lembrança
    que um privado del-Rei Dom Affonso havendo este casamento por estranho,
    e muito contrairo a sua conciencia lhe disse que não fizera bem em casar
    com a rainha Dona Breatiz, pois sabia que era cazado com a Condessa de
    Bolonha, com quem já se muito contentára, e honrára de cazar, e que
    El-Rei lhe respondera, que se não espantasse do que tinha feito; porque
    ao outro dia ainda cazaria com outra molher, se com ella lhe dessem
    outra tanta terra, porque mais acrescentasse em Portugal.

    CAPITULO III

    _Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu marido a
    não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez_

    E passados alguns annos depois que El-Rei Dom Affonso partiu de Bolonha
    a Condessa sua molher, soube lá o falecimento del-Rei Dom Sancho, e assi
    como o Conde seu marido pacificamente era alevantado, e obedecido por
    Rei de Portugal, e não sabendo nada do cazamento del-Rei, e confiando
    que elle se a visse a trataria, e honraria como a verdadeira sua molher,
    que era, fez-se logo prestes, e em Naos bem aparelhadas, e de
    Cavalleiros, e nobre gente, e doutras gentes bem acompanhada, e com um
    seu filho, que se diz que tinha de seu marido, partio de sua terra, e
    veo ancorar ante a Villa de Cascais, cinco legoas de Lisboa, onde
    perguntando ella, e os seus por El-Rei onde era? Foi logo certificada
    que El-Rei estava em Frielas, duas legoas de Lisboa, cazado já com outra
    molher, com as quaes novas a Condessa recebeo muita torvação, e grande
    tristeza, e pezou-lhe muito de sua vinda, e assi aos de sua companhia,
    especialmente depois que soube o estado, e condição da segunda molher,
    que era filha del-Rei de Castella.

    E tendo concelho ácerca do que neste caso faria, acordaram, que antes de
    tudo era bem que fossem a El-Rei dous seus Cavalleiros principaes, que
    vinham com ella e delle eram bem conhecidos e a que por seus serviços,
    que nas guerras de França lhe tinham feitos, e por outros merecimentos,
    queria grande bem, e que estes lhe fizessem saber da vinda da Condessa,
    e assi o nojo, e espanto que por seu cazamento tinha com rezão recebido,
    e soubessem delle finalmente a detreminação de sua vontade. Estes
    Cavalleiros em chegando a El-Rei foram logo delle por seu conhecimento
    mui bem recebidos, mas depois que lhe propuzeram a Embaxada da Condessa
    com a graveza, e estranhamentos, que ella mandou, e disseram o mortal
    sentimento, e deshonra em que estava, e lhe pedia que por comprir sua
    bondade, e conciencia a recebesse no Reino, e tratasse por sua molher
    como merecia.

    El-Rei avendo-se delles por escandalizado, por ouzarem de lhe trazer em
    tal tempo tal mensagem com o rostro irado lhes disse, que de não
    perderem as vidas com suas cabeças cortadas os relevava naquella ora o
    grande bem que lhes queria, e os muitos serviços que lhe tinham feitos,
    e que porém não fizessem ante elle mais detença, antes que logo se
    tornassem á Condessa, e lhe dissessem que não saisse em seu Reino, mas
    que delle logo sem nenhuma delonga se partisse, e se tornasse para sua
    terra donde viera, que se o assi não fizesse elle teria com ella tal
    maneira de que lhe muito pezaria.

    Com esta reposta chea de tanta aspereza, e fóra de toda a humanidade, os
    Cavalleiros se tornaram para a Condessa, a qual maravilhada, e
    atemorizada da sem rezão, e indignação del-Rei, e das mais cousas, que
    elles em seu cazo mais passaram, e lhe contáram; mandou fazer prestes
    suas naos, e embarcou nellas, e se tornou para Bolonha, e o tempo que a
    Condessa veo a Cascais se diz, que ella trazia um filho seu, e del-Rei
    Dom Affonso, como já disse, cujo nome, vida, nem feitos não achei
    declaradamente escritos, porque uns dizem, que quando a Condessa se
    partio de Cascais, que o leixou em terra, para que o levassem a seu pai,
    dizendo que não quizesse Deos, que com ella tornasse cousa del-Rei, e
    por outra certa lembrança achei, que ella tornou a levar seu filho
    comsigo, e que depois o mandou a Portugal, onde El-Rei o mandou bem
    criar, e que saio muito bom Cavalleiro, e mui amado del-Rei, e dos
    Nobres do Reino, e que foi cazado com uma filha do Ifante Dom Pedro de
    Castella, que era a mais fermosa molher Despanha; mas qual era este
    Ifante Dom Pedro, e sua filha, e os nomes delles, e em que tempo
    cazaram, e que terra tiveram, e o que se delles fez depois eu o não
    soube.

    A Condessa como chegou á sua terra manifestou logo sua querella a seus
    parentes, que eram Nobres, e grandes homens no Reino de França, por cujo
    concelho, e ajuda, ella se enviou logo querelar ao Papa, que então era
    em França, noteficando-lhe largamente todo o que com seu marido passára
    no Reino de Portugal, pedindo a Sua Santidade que com suas Excommunhões,
    e Cençuras mandasse apartar El-Rei Dom Affonso seu marido, da Rainha
    Dona Breatiz, que como Christãos, não podiam cazar, como cazaram; e
    mandasse que recebesse a ella para ter a honra, dinidade, e terras que
    de direito, como sua verdadeira molher lhe pertencia. E o Papa
    maravilhado da novidade por seu Breve o enviou muito estranhar a El-Rei
    Dom Affonso, e lhe rogou, e amoestou com palavras catholicas, e mui
    honestas, que logo se apartasse do segundo cazamento, e quizesse estar
    pelo primeiro, conforme a justiça, e petição da Condessa, e porque
    El-Rei não satisfez com efeito aos mandados Apostolicos, o Papa enviou
    sua comissão ao Arcebispo de San-Tiago, porque lhe mandou que outra vez
    requeresse, e amoestasse El-Rei Dom Affonso ácerca de seu apartamento, e
    quando logo o não fizesse, que o citasse, e emprazasse, que a quatro
    mezes parecesse em pessoa perante elle em sua Côrte, para ser ouvido com
    a Condessa, e estar a todo comprimento de Justiça, e o Arcebispo fez
    inteiramente todo o que neste cazo o Papa lhe mandou, mas El-Rei não foi
    á citação em pessoa, mas cresse que mandaria seu Procurador por elle
    sobre este negocio. Foi na Corte do Papa ordenado processo, e foi por
    elle tanto procedido que em favor da Condessa, e contra El-Rei foi dada
    sentença do apartamento seu, e da Rainha Dona Breatiz, e porque não
    obedeceram a ella, foi pelo Papa posto antredito em todo o Reino que
    durou muitos annos, acabados os quaes andando a era em mil e duzentos
    sessenta e dous (1262), a Condessa de Bolonha Dona Matildes faleceo em
    França, por morte, que em Portugal foi logo sabida.

    CAPITULO IV

    _Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com El-Rei
    Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhos que della
    houvesse_

    Logo todos os Prelados, e Nobres homens, e povo do Reino enviaram
    sopricar ao Papa, e pedir-lhe que pois a dita Condessa era falecida
    mandasse alevantar o antredito que no Reino por muitos annos era posto,
    e quizesse dispenssar sobre o cazamento del-Rei com a Rainha Dona
    Breatiz, porque ambos como marido, e molher podessem licitamente viver,
    e ficassem lidimos os filhos, que já tinham havidos, e os que dahi por
    diante ouvessem, para com sua despensação poderem direitamente soceder
    no Reino de Portugal, depois da morte del-Rei seu padre, e assi quizesse
    revogar todalas doações que El-Rei Dom Sancho Capelo em fraude, e
    detrimento da Coroa de Portugal em suas necessidades tinha feitas ao
    Ifante Dom Affonso de Molina, e a outras quaesquer pessoas, por quam sem
    cauza, e contra direito eram, a que o Papa em todo logo satisfez, sobre
    que mandou passar suas Provisões Apostolicas, que vieram a este Reino, e
    estão em guarda na Torre do Tombo, sómente se acha que pela legitimação
    do Ifante Dom Diniz filho primeiro, e erdeiro, porque nacera em vida da
    Condessa de Bolonha, El-Rei Dom Affonso seu pai deu em especial, muita
    parte de seu thesouro.

    El-Rei Dom Affonso houve da Rainha Dona Breatiz sua molher estes filhos,
    a saber o Ifante Dom Diniz, que foi depois seu herdeiro, e sucessor, e
    nasceo em Lisboa dia de São Diniz, a nove dias de Outubro de mil
    duzentos sessenta e um annos (1261), e por a devação deste Santo, em
    cujo dia nasceu, elle mandou depois fazer o seu Moesteiro de São Diniz
    de Odivellas, onde se mandou sepultar, como em sua Coronica direi mais
    inteiramente. E ouve mais o Ifante Dom Affonso, que foi Principe mui
    honrado, e de grande estima, e teve neste Reino boas Villas, e
    Castellos, e terras, e foi cazado com Dona Violante, filha do Ifante Dom
    Manoel de Castella, e da Ifante Dona Costança Daragão, de que houve um
    filho barão, e tres filhas, que foram grandemente cazadas em Castella,
    de que na Coronica del-Rei Dom Diniz farei mais larga declaração; e
    assim houve mais El-Rei Dom Affonso da Rainha Dona Breatiz a Ifante Dona
    Branca, que sendo mui moça, foi recebida por Senhora do Moesteiro de
    Lorvão, assi como o fora a Rainha Dona Thareja, sua tia que nelle jaz, e
    o reformou, como já tenho dito, e depois do falecimento del-Rei Dom
    Affonso seu pai, ella foi recebida por Senhora das Olgas de Burgos, onde
    sem cazar faleceo, e ahi jás sepultada; e della porém se acha que um
    Cavalleiro dito o Carpiteiro houve um filho, que houve nome Dom João
    Nunes do Prado; e este foi Cavalleiro da Ordem de Calatrava, e depois
    foi Mestre della, quando Dom Garcia Lopes, que era Mestre, foi por seus
    desmerecimentos privado de Mestre.

    E com tudo esta Ifante Dona Branca foi Princeza de mui louvadas
    virtudes, e teve em Castella boa terra, e neste Reino boa fazenda,
    porque ella foi senhora de Montemór-o-Velho, por doação del-Rei seu pai,
    que em seu testamento lhe leixou mais dez mil livras, que são quatro mil
    cruzados, e assi foi senhora de Campo Maior, que El-Rei Dom Diniz seu
    irmão lhe deu em sua vida, e El-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de
    Castella, seu avô tambem lhe leixou em seu testamento muito dinheiro, e
    alguns dizem que ella jás em Lorvão, mas eu vi Cartas e Provisões, que
    ella nos derradeiros dias de sua vida passou para Portugal, feitas
    dentro no Moesteiro das Olgas de Burgos, onde tambem recolheo algumas
    filhas do Ifante Dom Affonso de Portugal seu irmão. E assi houve mais
    El-Rei Dom Affonso a Ifante Dona Costança sua filha, a qual a Rainha
    Dona Breatiz sua madre levou comsigo a Sevilha, quando foi ver El-Rei
    Dom Affonso seu pai, e lá faleceo, e foi trazida a Alcobaça, onde jás
    sepultada. E houve mais um filho bastardo, que houve nome Dom Fernando,
    que foi Cavalleiro da Ordem do Templo, e jás sepultado em S. Bras de
    Lisboa.

    CAPITULO V

    _Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este
    casamento_

    Pelo cazamento del-Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Breatiz muitas
    Villas, e terras do Reino de Castella creceram, e se ajuntaram a este
    Reino de Portugal, e destas as que são na Comarca de Riba Dodiana, a
    saber Moura, Serpa, Mourão, Noudar, Olivença, Campo Maior, e Ouguela,
    direi na Coronica del-Rei Dom Diniz, porque em seu tempo elle por
    concordias, e por escambos as houve, e depois atégora sempre
    pacificamente, e sem contradição foram, e são pussuidas por a Coroa de
    Portugal, mas porque é claro, e mui notorio que por bem do dito
    cazamento, ainda creceram mais ao Reino de Portugal, o Reino do Algarve;
    de que este Rei Dom Affonso nova, e primeiramente se intitulou, e por
    cujo respeito em ladeo a borla dos Castellos ás Quinas de Portugal, como
    atraz já toquei, para dizer os principios que teve, para boa declaração
    dos que esto virem farei meu fundamento um pouco mais alto, que será
    verdadeiro, e breve, como se segue.

    El-Rei Dom Fernando de Castella deste nome o segundo, depois de ter
    pacificos os Reinos de Castello, e de Lião, que nelle a segunda vez se
    ajuntaram, ganhou dos Mouros a Cidade de Cordova, na era de mil e
    duzentos e trinta e cinco annos, (1235) na qual tomada foi com El-Rei
    Dom Fernando Dom Payo Correa, natural de Portugal, Mestre da Ordem
    Daviz, que é a de San-Tiago em Castella, por mui principal e de grande
    Caza, e mui esforçado guerreiro contra os imigos da Fé, e porque El-Rei
    Dom Fernando desejou muito de cobrar a Cidade de Sevilha, e assi a terra
    Dandaluzia, que toda era de Mouros, tornando-se para Castella leixou por
    Fronteiro contra ella Dom Payo Correa em São Lucar Dalbayda, e um Dom
    Rodrigo Alveres das Asturias, em Alcalá da Guardara, donde com muitas
    gentes que tinham, e com a guerra aturada, que faziam, poseram a Cidade
    de Sevilha em tanta estreiteza que o Rei della lhe deu gram soma de
    ouro, por tregoa de um anno, qua os ditos Freires lhe outorgaram, dentro
    do qual os Mouros com fundamento de se proverem por muitos annos,
    semearam todo o pão, e sementes que tinham de que esperavam haver
    novidades, com as quaes recolhidas lhes pareceo que se segurariam, e
    manteriam por vinte annos, ainda que nelles fossem guerreados, e
    cercados, o qual os ditos Fronteiros notificaram logo a El-Rei Dom
    Fernando, e o avizaram, que para ter esperança de cobrar em breve a
    Cidade antecipasse logo a guerra contra os Mouros, ou a colheita das
    ditas novidades para si mesmo, o qual logo El-Rei satisfez, e com grande
    poder, que ajuntou por mar, e por terra, veo cercar a Cidade, e depois
    de estar dezaseis mezes sobre ella, com cerco bem afrontado a tomou, ca
    se deu por partido, com segurança das vidas, e fazendas em dia de São
    Clemente, vinte e dous dias de Novembro, na era de mil duzentos quarenta
    e oito annos, (1248) treze annos depois da tomada de Cordova; e o dito
    Rei Dom Fernando, por mais segurança da terra, não sahio mais de
    Sevilha, e ahi faleceo no anno de mil duzentos e cincoenta e dous, tres
    annos e meio depois da tomada de Sevilha, e ahi jás sepultado.[1]

    E foi logo alevantado, e obedecido por Rei de Castella, e de Lião,
    El-Rei Dom Affonso seu filho, sogro deste Rei Dom Affonso Conde de
    Bolonha; e o meio tempo que houve antre a tomada de Cordova, e Sevilha,
    e em que o Mestre Dom Payo Correa, era Fronteiro em Andaluzia contra os
    Mouros, elle guerreando e correndo as terras dos imigos, que eram a sua
    frontaria conjuntos, entrou pela Lusitania junto do campo Dourique, que
    dentro era da conquista de Portugal, Reinando ainda Dom Sancho Capello,
    e por força de armas o dito Mestre tomou em desvairados tempos as Villas
    de Aljustrel, e de Mertola, que eram de Mouros, as quaes a requerimento
    do dito Rei Dom Sancho, e por mandado del-Rei Dom Fernando de Castella,
    seu primo com Irmão, foram entregues ao dito Rei Dom Sancho por
    pertencerem a Portugal, o qual por sua devação, e pelas almas de seu pae
    e de sua mãi segundo diz em sua doação, e assi por comprir ao dito
    Mestre Dom Payo Correa, que era seu servidor, as deu logo á Ordem de San
    Tiago, cujas hoje são.

    [Nota de rodapé 1: Está beatificado por Santo.]

    CAPITULO VI

    _Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de
    conquistar o Algarve, que era dos Mouros_

    Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes logares da conquista de
    Portugal, até se ganhar o Algarve, passaram dous tempos em que reinaram
    dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. Fernando, em cujo tempo o
    dito Mestre tomou primeiramente Tavilla, e Silves e alguns outros
    Lugares do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom Affonso seu
    filho, que reinando em Castella depois de fazer sua doação para sempre a
    El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu filho
    se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, em que tambem foi o dito
    Mestre como Vassallo, e Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde
    de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre Dom Payo Correa
    ganhou dos Mouros Aljustrel, como é dito, se acha, que estando ainda no
    dito Lugar, elle como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando
    conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Portugal, que toda
    era de Mouros, para saber se o poderia fazer, e como o faria, teve
    concelho com seus Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi
    porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da terra do Algarve,
    como porque era mui povorada, e os Mouros della tinham pelo mar seu
    grande soccorro e ajuda Dafrica.

    Mas o Mestre, cujo coração era já favorecido da vontade de Deos, prepoz
    entender na conquista, e não a leixar, e para esso falou apartado com
    Garcia Rodrigues, Mercador, que de contino tratava neste Algarve com os
    Christãos, e com os Mouros suas mercadorias, e secretamente lhe disse
    que seu desejo era com a ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos
    Mouros esta terra do Algarve se podesse, para que então havia singular
    disposição pelo desvairo, e discordia em que sabia que estavam os Reis,
    e Senhores, que os senhoreavam, mas que o não commettia porque não
    sabia, nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da terra, e por
    tanto lhe rogava pois elle esto tudo sabia que lhe dicesse seu parecer
    verdadeiro, como delle por Christão, e bom homem confiava. E Garcia
    Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para esso tão bom
    concelho, e tanto esforço, e tal aviamento, que o Mestre apartou logo
    alguns seus corredores por maneira dalmogavaria, para que fossem
    adiante, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra pela Torre
    Dourique, e andaram de noite mui attentadamente por os Mouros não
    aventarem delles alguns sentimentos; e o primeiro Lugar a que chegaram
    foi á Torre Descoubar, que por estar despercebida, e sem algum receo de
    Christãos prouve a Deos, que sem muita força, nem perigo foi logo
    tomada, donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não com menos
    alegria, que pressa fez prestes seus Cavalleiros, que nas armas trazia
    assás costumados, e bem ensinados, com que logo partio, e com suas guias
    que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e dahi sem muita
    detença cobrou mais o Lugar Dalvor, que é antre Silves e Lagos, e destes
    Lugares ambos depois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos
    Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Lugares comarcãos.

    Sentindo-se os Mouros do Algarve mui perseguidos, e assás denificados do
    Mestre, elles sobre consultação, que antre si fizeram, lhe commetteram,
    que selle quizesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com Tavilla por
    os Lugares Destombar, e Alvor, que tinha tomados, e a conciração, que os
    Mouros tiveram foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, e
    mais juntos do Cabo de São Vicente, onde a terra era então mais povorada
    se podia fazer, e fazia mais dano, que de Cacella, que era mais no fim
    da terra, e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lugar forte, e
    de grande povoração os Mouros, e visinhos, e moradores delle poderiam
    mais facilmente lançar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve
    muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os Lugares tomados, e
    cobrou para si Cacella, que era Lugar forte, e bom, onde se fez logo
    prestes, e sahio com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne.

    E como quer que até li os Mouros eram antre si em grandes desconcertos,
    como atraz se disse, porém á necessidade, e perigo em que a ida do
    Mestre os poz, os fez logo amigos, e concordes para com iguaes corações
    defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sabendo os Mouros de Farão e
    Tavilla, e assi os dos outros Lugares de redor, como o Mestre era fóra
    de Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram tambem os de
    Loulé para que todos no dia seguinte tivessem ao Mestre o passo, e
    pelejassem com elle, os quaes ao outro dia sobre este acordo se
    ajuntaram, e partindo foram dormir contra a serra a um logar que dizem o
    desbarato, e deste ajuntamento, e acordo não sendo sabedor o Mestre
    passou de noite mui secretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu
    caminho direito, que vem para Tavilla, porque as suas escutas que iam de
    diante sentiram os Mouros naquelle lugar onde jaziam, o Mestre não quiz
    mais abalar, e ali de noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o
    Mestre com sua singular, e costumada destreza de guerra ordenou suas
    gentes em batalhas, e guiados de sua bandeira, que levavam tendida não
    andaram muitos passos que logo não houveram vista dos Mouros, que jaziam
    em um valle escuro, os quaes vendo a pouca gente dos Christãos em
    comparação da muita sua que tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande
    esperança de haverem victoria.

    E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, em que logo achou
    grande esforço, e mui perigosa resistencia, pelo qual antre todos se
    travou mui crua e bem ferida batalha, em que a victoria por grande
    espaço esteve em balança, mas em fim não podendo os Mouros já soffrer
    aos Christãos nem ás mortes, e feridas, que de suas mãos recebiam,
    volveram-lhe as costas, e com desacordada fogida, cada um procurou de
    salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros muitos mortos, e
    feridos, e os que escaparam acolheram-se a um Lugar, que chamam _o
    Furadoiro_, que vem donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem
    do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da fronta não ficaram sem
    sua parte de dano, mas este não acho escrito quanto seria, sómente que o
    Mestre e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da batalha não
    seguiram o alcanço dos Mouros, e se recolheram.

    CAPITULO VII

    _Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram com
    elle batalha em que foram vencidos_

    Os Mouros de toda a terra, por este destroço, e desbarato, que houveram
    mostraram muito nojo, e grande tristeza, em especial os de Tavilla,
    porque tinham imigos tão fortes junto comsigo, os quaes naquella ora
    juntos em seu concelho diceram: «Estes christãos não temem, antes nos
    menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa muita fraqueza, ou
    por nossa grande dezaventura sempre somos delles vencidos, mas agora
    porque elles eram seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de
    nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, nem acordo para nossa
    vingança, ajuntemo-nos outra vez, e sem medo os vamos commetter e sem
    duvida nós os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos da terra,
    que é nossa».

    E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e ardis, não foi nem
    podia ser avisado, partio do lugar, onde fora a batalha para Cacella, e
    vindo por seu caminho direito, que dizem _o Almargem_, junto do qual os
    Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltearem, e o Mestre já não
    trazia toda sua gente, que salvou da peleja, porque alguma leixara no
    monte, em que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem alguns seus,
    que passavam pela ribeira, e porém em chegando ao logar do Salto, onde
    os Mouros os esperavam, elles sahiram a elle tão de supito, e o
    commetteram com tantas gritas, e forças, que o poseram em muita
    torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre e aos seus por força se
    recolherem a um monte alto, que é junto de Tavilla, a que depois
    chamaram _a Cabeça do Mestre_, donde pela fortaleza do lugar se
    defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais sua aventagem.

    Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, antes por todalas
    maneiras de fazer mal os combatiam, trabalhando com todas forças por
    lhes cobrar o monte, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam o
    Mestre, que se não sobreviera a noite que os apartou elle, e os seus se
    despunham, e estavam em mortal perigo, e os Mouros apartados do combate
    lançaram-se ao pé do monte alongados da vista dos Christãos, logo com
    determinação de ao outro dia tornarem á peleja, mas elles neste primeiro
    proposito não perseveraram, porque praticando antre si sobre as gentes
    que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o perigo, que nesso corriam
    alevantaram-se, e foram-se tristes para os logares donde partiram, o que
    assi fizeram sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite passada
    já tinha avisada sua gente, que leixara em Cacella para que e viessem
    socorrer, como logo vieram com fundamento de dar batalha aos Mouros se o
    esperassem, quando soube que eram partidos alegre, e a seu salvo se foi
    para Cacella.

    CAPITULO VIII

    _Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento
    cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres,
    e o Mestre tomou Tavilla_

    Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus
    comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos
    que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já
    cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a
    pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas
    passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o
    São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente
    de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição
    para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que
    pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha
    deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste
    tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados,
    mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado
    fim de sua empreza lhe eram neccessarias.

    E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e
    da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que
    era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu
    desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao
    lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao
    que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que
    escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições,
    não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer
    paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer
    dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou
    dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas
    e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais
    que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.

    Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a
    cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla,
    passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa,
    e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da
    ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação
    nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de
    Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que
    era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua
    vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já
    muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os
    homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto
    estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem
    siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos
    imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa
    Villa».

    Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande
    honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos
    mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram
    tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo
    que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com
    que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se
    ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o
    principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar,
    e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos
    como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que
    pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua
    ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não
    possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes
    destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».

    Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança
    pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que
    em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e
    pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se
    recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em
    que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como
    elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que
    Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda
    do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas
    de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e
    ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e
    quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu
    rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e
    leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre
    vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me
    basta, pois é em serviço de Deus».

    E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle
    se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom
    homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram,
    dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas
    partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim
    por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu
    palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da
    virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como
    Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de
    suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro
    testemunho.

    Durando a peleja dos Christãos chegou seu recado ao Mestre que era em
    Cacella, donde com grande trigança logo partio com desejo de os
    soccorrer, porque bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem medo,
    nem outro seu desfalecimento, ou haviam de viver, ou morrer, e seguiu o
    caminho porque elles vieram, e sem contradição, nem defeza dalguma
    pessoa entrou pela Villa, e praça della, e tão intento, e acezo ia no
    dezejo que levava de soccorrer aos Chrystãos, que passando por ella não
    lhe lembrou, que dessa vez livremente, e sem perigo a podia tomar se
    quizera, e quando chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus
    Cavalleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio feito houve com os
    Mouros, que ainda topou mui crua peleja, onde matou tantos, que os ossos
    delles foram depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e aos
    outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazendo nelles grande
    estrago até á Villa, cujas portas os Mouros acháram fechadas, porque os
    visinhos, e gentes que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao
    soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual seria sua
    determinação como soubesse parte do cazo.

    E por esso cerraram bem suas portas, que não quizeram abrir aos seus que
    vinham fogindo, e sómente lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que
    está contra a mouraria, sobre que deu o Mestre e os ferio tão rijo, e
    com tanta braveza, que não tendo elles acordo para se defenderem, nem de
    cerrar a porta entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou a
    Villa, e apoderou-se della dentro da qual, e fóra della o Mestre, e os
    seus fizeram nos Mouros grande estrago. E era neste tempo senhor de
    Tavilla Abenfalula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pelejas, se
    ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E esta batalha, e os
    Cavalleiros mortos, e a Villa tomada foi tudo a nove dias de Junho de
    mil e duzentos e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo foi
    apoderado da Villa, e a leixou com boa segurança, com alguma gente
    darmas tornou ás Antas onde os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por
    elles muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes sospiros os
    mandou apartar dantre os corpos dos Mouros que elles mataram, e cheos
    todos de muito sangue das grandes feridas de que morreram, os fez levar
    á Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em Egreja da
    Envocação de Nossa Senhora mandou logo fazer um grande Moimento de
    pedra, em que se pintaram sete Escudos, todos com as vieiras de
    San-Tiago, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues com elles
    foram todos sete sepultados, e seus nomes são estes, Pedro Rodrigues
    Commendador mór, Mem do Vale, Durão Vaz, Alvaro Gracia, Estevam Vaz,
    Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram
    depois havidos em grande reverencia, e devação, e piedosamente não era
    sem cauza, porque como Martyres espargeram seu sangue, e como fieis
    Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu Christo N. Senhor.

    CAPITULO IX

    _Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque
    partidos a leixou dos Mouros_

    O Mestre Dom Payo Correa por tomar Tavilla dos Mouros, como é dito, por
    ella ser Cabeça, e a principal cousa do Algarve, foi mui alegre, e deu
    por esso muitas graças a N. Senhor, e porque sentio que elle com sua
    graça, e ajuda nesta sua empreza sempre o favorecia, não quiz estar por
    longo tempo ocioso, mas fez prestes suas gentes, e depois de leixar
    Tavilla em boa guarda, e segurança, sahio della, e foi sobre Selir, e o
    tomou por força, e assi Alvor outra vez, dahi foi logo cercar Paderne,
    que era Castello mui forte, e tinha boa Comarca, que é antre Albofeira,
    e a Serra, e estando em cerco sobre elle apartou de si algumas gentes,
    que mandou ao termo de Silves, onde tomaram outra vez a Torre Destombar,
    que já fora sua, e Abenafaam, que era Rei daquella terra estava em
    Silves, quando soube que os Christãos tomaram Estombar, crendo que seria
    hi o Mestre, ajuntou tambem as mais gentes que pode, e sahio com
    proposito de vir sobre elle, e dar-lhe batalha. Da qual cousa sendo o
    Mestre logo avizado alevantou o cerco de sobre Paderne, e por caminho
    desviado se veio lançar sobre Silves, e o Rei Mouro indo para Estombar,
    como soube que na terra não havia outras gentes, salva as que tomaram, e
    defendiam, receando-o ser acommettido dalgum ardil do Mestre, fez logo
    volta com grande trigança sobre Silves, onde o Mestre lhe tinha feita
    cilada, que sabendo de certo recolhimento que o Rei Mouro havia de fazer
    lhe tomou todalas portas da Cidade, em cada uma das quaes pôs gentes
    assás que as guardasse, e El-Rei Abenafaam, quando ao recolher achou
    embargo, e resistencia em todalas portas, commetteo de por força entrar
    pela porta, que dizem _Dazoya_, que lhe pareceo mais despejada, que
    todalas outras, onde se encontrou com o Mestre, que de fóra tinha a
    guarda della.

    E em um campo junto da Villa em que está a Egreja de Santa Maria das
    Martes houveram ambos mui travada, e ferida peleja, em que o Mestre pola
    pouca gente que comsigo tinha se vio em grande pressa, porque os Mouros
    eram muitos, e mui juntos, e feriram-no mui rijamente, e punham todas
    suas forças por cobrar a entrada da porta, que o Mestre defendia, e
    procuravam os Mouros de se meter debaixo da Torre Dazoia que é saída em
    arcos para fóra, por tal que os Mouros de cima os defendessem, mas não o
    poderam fazer, e porque os Mouros de dentro quando viram o Rei Mouro á
    porta, e com grande avantagem de gente sobre o Mestre, sahiram alguns
    cuidando de o meter, e salvar por ella, e ao recolher, que quizeram
    fazer, foram dos Christãos tão apertados, que de volta se meteram com
    elles dentro na Cidade, e não sem crua peleja, e grande perda de homens
    de uma parte, e da outra, que ali ficaram mortos.

    E segundo se diz, mais Christãos morreram nesta entrada, que em outro
    Lugar do Algarve que se tomasse, e El-Rei Mouro vendo que a Cidade era
    já por aquella porta entrada, andou correndo a cavallo em torno della
    experimentando todolos lugares convenientes para sair, e quando não
    achou remedio quiz-se lançar por um postigo da treição do alcacer, que
    era seu apozentamento, onde morava, e porque o achou empedido commetteo
    outra porta em que tambem achou contradição, pelo qual já como
    desesperado da honra, e da vida ferio apressadamente seu cavalo das
    esporas, e fogio, e passando por um pego do rio afogou-se nelle, onde
    depois o acharam morto, e deste cazo accidental chamam áquelle Lugar _o
    pego de Benefaam_. Os Mouros que na Cidade ficaram vivos, se acolheram
    ao alcacer, e mostravam suas forças para o defender, mas o Mestre não o
    quiz combater, antes lhes deu segurança, que vivessem na Villa se
    quizessem, e aproveitassem suas Cidades, e com obediencia, e tributos
    lhe conhecessem aquelle Senhorio, que conheceram a El-Rei Mouro, e elles
    Mouros assi o concordaram, e foram do partido contentes, e esta maneira
    se diz que o Mestre sempre teve nos Lugares do Algarve, que tomou, cujos
    alcaceres não combateo, e deu segurança aos Mouros porque as Villas
    fossem milhor aproveitadas, e senão despovorassem, e não tardou muito
    que nesta cidade foi fundada Sé, e Egreja Catedral, e Bispo della a que
    foi dada toda a jurdição Ecclesiastica daquelle Reino.

    CAPITULO X

    _Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que
    houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do
    Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado_

    Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, que a guardassem, e
    defendessem, e a proveo das outras cousas que a ella eram necessarias,
    se partio, e tornou a poer o cerco que alevantara de sobre Paderne, e
    porque logo os Mouros se não quizeram dar a bom partido que lhe
    cometiam, elle os combateo, e por força tomou a Villa e o alcacere sem
    os receber a concordia, nem algum partido de piedade, antes por dous
    bons Cavalleiros que lhe ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros
    da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente desta Villa de
    Paderne, cujos grandes edeficios ainda parecem, alguns dizem, por sua má
    disposição se mudou depois á Villa de Albofeira, que o Mestre Daviz
    depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apontado.

    Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo Correa Mestre
    de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous
    tempos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Castella, e depois em
    tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que
    até qui se ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom
    Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente
    consta, que este Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e
    para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos
    darmas mui asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do
    Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso
    seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu
    de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por
    segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos
    Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei Dom Affonso Conde de
    Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de
    Castella, e a maneira porque depois seu marido, e ella houveram este
    Reino do Algarve é a seguinte.

    El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha
    del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos
    Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da
    conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela parte do Campo
    Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os
    Mouros Despanha já não tinham livre alguma propria conquista dezejando
    acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a
    Deos em semelhante guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a
    qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um
    dezejo e tenção conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu
    marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em
    Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como
    aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe
    tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e havendo depois
    tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e
    rezões que seu dezejo e necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a
    cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei
    seu marido, e seu, que désse a elles, e a seus netos, que cada dia
    creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o
    Mestre de San-Tiago eram já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal,
    que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom
    Diniz, que a poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já
    eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não
    eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na
    del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.

    Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por Reaes
    condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça
    de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em todo
    satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente,
    e selada de seu selo de chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação
    ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D.
    Diniz seu filho, e a todolos filhos, e filhas que delles decendessem
    para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos
    Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal condição que o sobredito
    Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito
    Rei Dom Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros,
    quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além desta
    doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom
    Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no
    Algarve, porque lhe notificou esta doação, que tinha feita, e lhes
    mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a
    vista, e conversação da Rainha sua filha pola grande afeição que a ella
    tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella
    quizera, pelo qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei Dom
    Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão
    honrada, e tão dezejada doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo
    Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito
    conhecimento, e grande amizade.

    E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do
    Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu bisavô
    El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e
    posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos Castellos douro em campo
    vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e
    trazem, segundo atraz brevemente dice.

    CAPITULO XI

    _Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve,
    tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D.
    Payo Correa_

    E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte
    verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande
    diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo
    ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do
    Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu
    caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim,
    que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór,
    que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito
    Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes
    percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da
    Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a
    lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu
    Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por
    esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito
    esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa,
    que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso
    de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa
    de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez
    sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com
    sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes
    concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes
    estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a
    saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do
    muro da Villa até a porta, que agora dizem dos _Freires_, e o segundo
    combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos
    Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico
    homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar
    outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram _de João de Buim_,
    e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado
    outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate
    del-Rei.

    E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros
    Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom
    Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom
    João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e
    por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão
    aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e
    afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque
    perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar,
    El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no
    mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios
    fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal,
    que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem
    no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os
    Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por
    mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o
    ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e
    atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates
    que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que
    bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim
    esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei
    para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na
    Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.

    E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era
    acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto
    já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no
    dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e
    como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre
    de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por
    mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles
    Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros
    salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir
    aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não
    deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que
    tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era
    dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes
    vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso
    anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que
    (posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que
    sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o
    contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do
    Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa
    para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo,
    de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser
    escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.

    El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa
    delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a
    conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do
    alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a
    todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque
    já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram
    sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não
    fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e
    El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse
    nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem
    pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e
    outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e
    que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e
    estancias, que lhe foram ordenadas.

    E o concerto que El-Rei fez com os Mouros foi, que elles Mouros da Villa
    lhe fizessem, dessem e pagassem juntamente aquelle mesmo foro, e
    serviço, e todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu Rei
    Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas cazas, vinhas, e Cidades
    assi como dantes as tinham, e que El-Rei os amparasse, e deffendesse
    assi de Mouros como de quaesquer outras gentes, e nações, que lhe mal, e
    nojos quizessem fazer, e que aquelles que para alguns Lugares de Mouros
    se quizessem ir, que livremente com todas suas cousas o podessem fazer,
    e andassem com El-Rei quando lhe comprisse, e que lhe fizesse por esso
    bem, e mercê. E por esta maneira cobrou El-Rei a Villa de Farão no mez
    de Janeiro de mil duzentos e setenta (1270).

    CAPITULO XII

    _Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur tomou o
    Mestre de San Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração que se
    fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem_

    Como El-Rei cobrou a Villa de Farão, como é dito, logo a poucos dias
    elle, e o Mestre foram com suas gentes cercar a Villa de Loulé, e sem
    prolongado cerco, ainda que fosse com dano dos Christãas em breve a
    cobrou; e porque o Mestre de San-Tiago trazia em sua companhia bons
    Cavalleiros, e mui esforçados, destes se acertavam, que nos combates das
    Villas, e pelejas dos Mouros que por sua bondade não receavam de
    commetter, muitos morriam, e havendo El-Rei desso piedade, e sentimento
    se diz, que em acabando de tomar esta Villa de Loulé dice ao Mestre, que
    lhe pezava muito de tão bons Cavalleiros como eram os seus, morrerem
    assi nestes combates, por quanto eram homens singulares, escolheitos, e
    que o Mestre lhe respondeo.

    «Senhor não vos anojeis das mortes destes, que acabaram suas vidas em
    seu proprio officio, e de tanto seu merecimento, pois é em serviço de
    Deos, e por honra, e louvor de sua Fé, e se o haveis, porque são
    Cavalleiros eu posso logo fazer outros tantos». E de Loulé cavalgou o
    Mestre, e correndo a terra dos imigos contra o Cabo, houve avizo certo
    que muitos Mouros juntos iam a via Daljazur, e uns dizem, que este
    ajuntamento faziam para com outros consultarem sobre o que fariam por
    Silves, e Tavilla, e os outros Lugares, que eram tomados, e outros
    affirmam que iam para uma voda para que eram convidados, e esta parece a
    cauza, e rezão mais conforme, porque os Mouros Daljazur sahiram a uma
    legoa a receber os do Cabo, e uns, e outros vinham mais de festa, que de
    guerra, ca muitos delles foram achados sem armas, e com elles saltou o
    Mestre de que matou, e cativou os que quiz, e alguns que se quizeram
    salvar na Villa para que foram fogindo perseguidos do Mestre não tiveram
    acordo de çarrar as portas, por quaes o Mestre entrou de volta com
    elles, e tomou o Lugar sem algum partido dos Mouros.

    E Dalbofeira se acha por mais certa opinião, que em tempo deste Rei foi
    tomada dos Mouros por o Mestre Daviz Dom Lourenço Affonso, e assi parece
    rezão, porque elle foi sempre, e é hoje da dita Ordem. E por estes
    lugares, que dos Mouros se tomaram se acabou de conquistar toda a terra,
    que nós os Portuguezes chamamos Algarve, mas para deste nome não virem
    duvidas, e confuzão aos que as Estorias antigas Dafrica, e Despanha
    lerem, é de saber, que Algarve é nome Arabico, e o Reino, e Senhorio,
    que os Mouros chamavam do Algarve era mui grande, e de grandes
    potencias, porque começava no Cabo de São Vicente, e seguia pela costa
    Despacha até Almiria, e pela banda Dafrica se estendia até Tremecem, em
    que entravam Fez, e Cepta, e Tangere, que diziam de Benamarim, porque os
    Lugares, que os Reis de Portugal até agora tem na parte do Algarve
    daquem már, que é em Hespanha são estes, a saber, Estombar, Alvor, Villa
    nova de Portimão, Cacella, Paderne, Tavilla, Farão, Loulé, Silves, e
    Albufeira, Aljazur, e Alcoutim, e Castro Marim, e Lagos, e destes alguns
    são Lugares novos, que em tempo dos Reis de Portugal novamente depois se
    fizeram, e reformaram.

    E destes Lugares do Algarve depois que os El-Rei Dom Affonso houve a seu
    poder, e Senhorio se acha, que com suas Galés, e outros muitos navios
    fez sempre de continuo crua guerra aos Mouros Dafrica, que em seus
    corpos e fazendas recebiam grandes danos e prezas, e El-Rei Dom Affonso
    por seu grande esforço, e bons feitos, tinha antre os Reis principais
    Christãos mui louvado nome, pelo qual se acha que o Papa por esta
    honrada fama del Rei lhe mandou por meo dum Frei Payo, Ministro da
    ministração dos Freires de San-Tiago rogando-lhe que em remissão de seus
    peccados, quizesse tomar a Cruz de Jesu Christo contra os Mouros dultra
    már, que tiranamente tinham a Caza Santa em desprezo da Fé, e da
    Religião e que El-Rei respodeo, que se El-Rei de França a esta conquista
    passasse em pessoa, que lhe prometia, que elle tambem com a sua
    passasse, salvo se alguma outra guerra, ou tamanha necessidade o
    impedisse, porque o não podesse fazer, e por esso ambos não foram,
    porque o derradeiro Rei de França, que por recobrar a Caza Santa passou
    a ultra már, foi El-Rei São Luis de França primo com irmão deste Dom
    Affonso de Portugal, filhos de duas Irmãs, quando levou comsigo a Rainha
    Dona Margarida sua molher, e elle, e dous Irmãos seus foram dos infieis
    prezos, e cativos na grande, e crua batalha, que ouveram com o gram
    Soldam, junto com Damiata do Egypto, como em outras partes já dice, o
    que foi muito antes do tempo deste requerimento do Papa, segundo está na
    Coronica de França, e em outras mais largamente se contem.

    CAPITULO XIII

    _Como o Reino do Algarve por divisões que houve foi posto em terçaria de
    Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez_

    Como El-Rei de Portugal foi em posse pacifica, o Mestre Dom Payo Correa
    se tornou a seu Mestrado, e deu conta a El-Rei Dom Affonso de Castella
    de todo o que era passado, o qual para mais firmeza, e maior seguridade
    das condições com que a El-Rei seu genro fizera sua doação do Algarve,
    houve por bem, que o dito seu genro as prometesse, e segurasse com
    menagem, e juramento em sua propria pessoa, para que o dito Rei Dom
    Affonso de Castella enviou a Portugal com seu poder abastante ao Ifante
    D. Luis seu irmão, que diceram de Pontes, filho del-Rei Dom Fernando, e
    da Rainha Dona Joana sua segunda molher, filha do Conde Dom Simão de
    Pontes, e sobrinha del-Rei Dom Luis de França, o qual álem de tomar
    del-Rei de Portugal todas as seguridades conforme as condições de sua
    doação, ainda o dito Ifante para maior seguridade, e mais honesta escuza
    del-Rei D. Affonso de Castella, para os de seu Reino, que o reprendiam,
    e acuzavam por tal doação, quiz que todas estas Villas e Castellos
    fossem, como foram logo entregues a João de Boim, e Pedro Annes, seu
    filho, Vassallos e naturaes del-Rei de Portugal, que eram pessoas de
    limpo e nobre sangue de grandes cazas, para que por elles os tivessem de
    fieldade com menagem de juramento que fizeram, que quando el-Rei de
    Portugal não comprisse a condição dos cincoenta Cavalleiros, que a
    El-Rei de Castella em sua vida havia de dar, que elles com suas pessoas,
    e com as ditas Villas e Castellos servissem a El-Rei de Castella, e
    comprissem inteiramente tudo o que El-Rei de Portugal era neste cazo
    obrigado a cumprir.

    E porque El-Rei de Portugal não foi desta terçaria do Reino do Algarve
    muito contente, e dice por outros desvairos que houve com Castella sobre
    partições, e termos dos Reinos, foram estes Reis desacordados de que
    El-Rei de Castella se sentia mais aggravado, mas por meo da Rainha Dona
    Breatiz, que como virtuosa, e prudente procurou logo antre elles boa
    paz, e concordia, vieram logo por Embaxadores a Portugal o dito Dom Payo
    Correa Mestre de San-Tiago, de que já dice, e Dom Martim Nunes, Mestre
    da Cavallaria do Templo nos tres Reinos Despanha, e Dom Affonso Garcia,
    Adiantado mór no Reino de Murcia, os quaes pozeram antre elles taes
    convenças, com que perderam todo o dezamor, e escandalo, que antre elles
    havia, e ficou assentado, que El-Rei de Portugal livremente, e para
    sempre despozesse de todalas terras, e Villas, e couzas do Algarve todo
    o que quizesse sem embargo de todalas outras promessas e condições que
    antre elles fossem postas, salvo da ajuda dos cincoenta Cavalleiros de
    que o não revelou, e com esto os Embaxadores se tornaram, e acharam
    El-Rei de Castella em Badalhouse, que logo enviou suas provizões ao dito
    João de Boim, e Pedro Anes seu filho, porque lhe mandou que entregassem
    a El-Rei Dom Affonso seu genro todalas Villas e Castellos do Algarve, e
    se elle fosse fallecido, que as entregassem a El-Rei Dom Diniz seu
    filho, e lhas alevantou com todalas crauzolas, e solenidade, e todo
    preito, e menagem, que por quaisquer obrigações, e couzas do Algarve
    tiveram feito a elle, ou a outrem em seu nome, e por Carta asselada
    feita em Badalhouse Mercoles dezaseis dias andados de Fevereiro da era
    de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e sobscrita por o Secretario
    Millão Paes, que por mandado del-Rei a fez escrever.

    CAPITULO XIV

    _Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu neto
    a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre_

    E porque a este tempo o Ifante D. Diniz herdeiro filho del-Rei de
    Portugal, posto que fosse moço era já em idade para poder caminhar,
    El-Rei, e a Rainha seus padres acordaram de o enviar, como enviaram
    muito honradamente a Castella a visitar El-Rei Dom Affonso seu avô, para
    lhe ter em mercê a doação, e avenças passadas, e assi para lhe pedir
    relevamento das mais obrigações, e serviço dos cincoenta Cavalleiros, e
    assi com mui nobre companhia chegou a Sevilha onde achou El-Rei, que o
    recebeo, e agazalhou com muitas festas, e honras, e com sinaes de grande
    amor, a quem o Ifante Dom Diniz passados os comprimentos, e visitações,
    e bem ensinado da instrução, que levava pedio por mercê a El-Rei seu
    avô, que daquella obrigação dos cincoenta Cavalleiros, e assi de
    qualquer outra que tocasse ao Algarve, quizesse para sempre relevar a
    El-Rei Dom Affonso seu padre, e a elle, e aos que delle decendessem, na
    qual cousa segundo a Coronica de Castella conta, El-Rei esteve algum
    pouco suspenso, e com os grandes de seu Reino quiz poer o caso em
    Conselho, no qual por só Dom Nuno de Lara com rezões que pareciam
    onestas, e de bem de seus Reinos ouve alguma contradição, mas os outros,
    que logo conheceram a vontade del-Rei, que era satisfazer em todo a seu
    neto, todos lhe aprovaram, e louvaram, e sobre este assento andando o
    Ifante Dom Diniz com El-Rei seu avô foram a Jaem, donde houve por bem
    que o Ifante se tornasse, como tornou a Portugal, e lhe mandou dar uma
    carta que trouxe para El-Rei seu padre, escrita em pergaminho em
    palavras Castelhanas, e asselada de seu selo pendente das Armas de
    Castella, e de Lião, que tornadas fielmente em Portuguez por mim
    Coronista, que a propria Carta vi, diziam nesta maneira.

    «Saibam quantos esta Carta virem, como eu Dom Affonso pola graça de Deos
    Rei de Castella, e de Toledo, e de Lião, de Galiza, de Sevilha, de
    Cordova, de Murcia, e de Jaem, quito para sempre a vós Dom Affonso per
    essa mesma graça Rei de Portugal, e do Algarve, a menagem que fizestes a
    mim por carta, ou por cartas, e a Dom Luis meu irmão, em meu nome, para
    fazer a mim comprir os preitos, e posturas, e as convenças, que foram
    postas antre mim, e vós, e Dom Diniz, e os outros vossos filhos, e
    vossos herdeiros, por rezão dos cincoenta Cavalleiros, que a mim deviam
    ser feita em meus dias pelo Algarve, a qual ajuda, e os quaes preitos, e
    posturas, e menagens em qualquer maneira que fossem feitas assi por
    Cartas, como sem Cartas, eu quito para sempre a voz, e Dom Diniz, e aos
    outros vossos filhos, e herdeiros que nunca por esso a mim, nem a outrem
    por mim, vós nem elles, nem outrem por vós sejaes, nem sejam teudos de
    nhuma couza por rezão dos Castellos, nem da terra do Algarve, que vos
    dei, e outorguei, que se alguma Carta, ou Cartas parecer, ou parecerem
    sobre a menagem, ou menagens, ou sobre preitos, ou posturas, ou avenças,
    ou sobre o serviço, ou ajuda que a mim devesse ser feito, ou feita pelos
    Castellos, ou pola terra do Algarve, que desdaqui em diante nunca
    valham, e sejam quebrados, e de nhuma formidão, e renuncio, e quito todo
    o direito, e toda demanda, que eu haveria, ou haver poderia por esta
    Carta, ou por essas Cartas contra vós ou contra Dom Diniz, ou contra os
    outros vossos filhos, ou vossos herdeiros, ou contra os Cavalleiros que
    tivessem, ou tiveram os Castellos do Algarve em tal guiza, que nunca a
    mim essa Carta, ou Cartas possa nem possam preitar, nem a outrem por
    mim, nem a vós, nem Dom Diniz, nem a vossos filhos, nem a vosssos
    herdeiros, nem aos sobreditos Cavalleiros empecer, e em testemunho da
    sobredita couza, dou a vós sobredito Rei de Portugal e do Algarve esta
    minha Carta aberta asselada de meu selo de chumbo, que tenhais em
    testemunho, feita a Carta em Jaem por nosso mandado Sabbado sete dias do
    mez de Maio de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e eu Milão Peres
    a fiz escrever».

    CAPITULO XV

    _Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para El-Rei
    D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser desobedecido, e
    como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se acrecentarem a
    Portugul os Lugares de riba Dodiana_

    Com esta Carta, e com grandes davidas que o Ifante D. Diniz recebeo
    del-Rei Dom Affonso seu avô se tornou a Portugal com que El-Rei seu
    padre foi muito alegre, e com elle veo o Mestre Dom Payo Correa, que
    depois de tornado a Castella não soube mais delle, nem o que depois fez,
    salvo que no fim de seus dias se recolheo á Villa de Ucles, que era
    Cabeça do Convento do seu Mestrado de San-Tiago em Castella, onde se diz
    que bem, e catolicamente acabou sua vida já velho a dés dias de
    Fevereiro de mil e duzentos setenta e cinco annos, (1275) e que mandou
    que morto o trouxessem a Tavilla, que elle ganhara dos Mouros, de que
    escondidamente foi ahi trazido, e sepultado na Egreja de Santa Maria
    antre o Altar mór, e a parede da Egreja.

    E passados depois alguns annos andando a era de mil duzentos e setenta e
    um, havendo contenda na jurdição do Imperio de Roma, que vagara por
    morte de Federico o segundo, que foi mao, e erege Emperador dos Romãos,
    e grande perseguidor das cousas da Santa Egreja, alguns Eleitores
    elegeram a Rodufo Conde de Cambra, irmão del-Rei de Inglaterra, e outros
    elegeram, e chamaram logo para o Imperio este Rei Dom Affonso de
    Castella, o qual mui poderoso de armas, e gentes, e assi mui abastado de
    riquezas, depois que leixou em Castella jurado por Rei, e seu sobcessor
    ao Ifante D. Fernando de Lacerda seu filho primogenito, logo passou em
    França esperando de ser logo no dito Imperio sem contradição confirmado
    por o Papa Gregorio decimo, ao tempo em Lião Sola nova de França fez
    Concilio geral, onde o dito Rei D. Affonso achou já eleito e confirmado
    o dito Rodufo com quem competia, e agravando-se desso ao Papa, que
    encontrou na Villa de Belicaudo em França junto com Avinhão, finalmente
    confortado de Sua Santidade, e rogado, que por se evitar cisma, e
    guerras antre os Christãos, que renunciasse o direito que no dito
    Imperio tinha, e elle o fez, e tornou-se em Espanha onde achou falecido
    de peste o dito Ifante Dom Fernando, seu filho maior, que por assossego
    da sobceção de Castella, e de Lião sobre que os Reis de França, e de
    Castella competiram, fora cazado com a Ifante Dona Branca filha del-Rei
    S. Luis a que pertencia ter direito nos ditos Reinos Despanha por ser
    filho da Rainha Dona Branca filha del-Rei Dom Affonso o noveno, que
    venceo a batalha das Navas de Toloza, e desta Ifante Dona Branca o dito
    Ifante Dom Fernando tinha já havido dous filhos, a saber Dom Affonso, e
    Dom Fernando de Lacerda, a que muito mais claramente dizem da guedelha,
    porque este apelido de Lacerda não é de alguma geração, nem memoria
    passada dos seus progenitores de uma parte, nem da outra, mas sómente
    lhe foi posto nome aventicio, porque o dito Ifante Dom Fernando, que
    primeiramente se chamou de Lacerda, quando naceo trouxe do ventre da
    Rainha Dona Violante Daragão sua madre uma guedelha de cabelos nos
    peitos a que chamam Lacerda, e este Dom Affonso por contrato do
    cazamento, e por direito comum pertencia mais a sobcessão de Castella
    que outro algum.

    Mas ao tempo que o dito Ifante Dom Fernando faleceo era tambem em
    Castella o Ifante Dom Sancho seu irmão lidimo, que a auzencia del-Rei
    Dom Affonso seu padre, e por morte do irmão tomou logo posse da
    governação, e defenção do Reino, em que trabalhou de ser como singular
    Principe, porque resistio com batalhas, e grandes forças aos Reis de
    Grada, e Marrocos, que entraram em Espanha, e não consentio que Dom
    Affonso de Lacerda seu sobrinho fosse jurado, nem obedecido por
    sobcessor de Castella, e El-Rei Dom Affonso em chegando de França,
    procurou logo que o dito Ifante Dom Sancho por todolos Estados do Reino
    fosse, como foi jurado, e havido por seu sobcessor, sem embargo doutro
    juramento, que ao dito Ifante Dom Fernando por si, e por seus filhos, e
    sobcessores era feito, e a Rainha Dona Violante molhar del-Rei Dom
    Affonso de Castella anojada por se denegar a sobcessão a seus netos, e
    principalmente a Dom Affonso o primeiro com receo que houve de os
    matarem em Castella, se foi com elles para El-Rei Dom James deste nome o
    primeiro, e dos Reis Daragão o decimo, que era padre della, donde enviou
    pedir a El-Rei Dom Affonso seu marido depois que veo de França, que pois
    elle por si ganhara dos Mouros o Reino de Murcia, que o désse ao Ifante
    Dom Affonso seu neto, com que para sua honra, e estado seria satisfeito,
    e renunciaria por esso todo o direito que tivesse na sobcessão de
    Castella, no que El-Rei levemente, e com san vontade consentia, mas o
    Ifante Dom Sancho em todo o contrariou, que com ameaças de morte, que
    fez não leixou ir ao Papa os Embaxadores que El-Rei seu padre sobre esso
    lhe mandava, dizendo que como o Ifante Dom Fernando seu irmão falecera,
    logo o Deos leixara por herdeiro de todolos Reinos, e couzas de que
    El-Rei seu padre era Rei, e Senhor.

    E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos remedear esta denegação
    do Ifante seu filho, e para que seu neto houvesse toda via o Reino de
    Murcia, fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, a que o
    Ifante Dom Sancho requereo com muitas rezões, que faziam por elle, que
    por alguma maneira não consentissem no requerimento del-Rei, e assi
    descontente o Ifante antes de se tomar alguma concruzão, se foi para
    Cordova, e El-Rei depois de declarar aos povos as muitas cauzas, e
    razões porque de direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonso seu
    neto, os Procuradores para no cabo responderem com madura deliberação,
    como elle requeria, pediram espaço dalgum tempo, para lhe tornarem
    reposta, os quaes sem lha darem se foram logo com medo ajuntar com o
    Ifante Dom Sancho em Cordova, onde sendo delle bem recebidos,
    concordaram, que por quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria
    ajuntamento dos mais principaes Lugares, e grandes do Reino, elles dahi
    a certo tempo fossem, como foram ahi juntos, salvo os Concelhos
    Dandaluzia, que sempre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes assi
    juntos em Valhadolid era hi o Ifante Dom Sancho filho del-Rei, e o
    Ifante Dom João seu irmão, e o Ifante Dom Manoel seu tio, e Dom Lopo
    Senhor de Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas praticas, e
    apontamentos, que antre si fizeram leixaram todos a determinação da
    sentença ao dito Ifante Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou
    a sentença, e dice, que por quanto El-Rei Dom Affonso seu irmão matara o
    Ifante Dom Fadrique tambem seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos
    Cameyros seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, que perdesse
    por esso a justiça, e porque se dezaforaram os Fidalgos, e os Concelhos
    com dano, e perda delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe
    pagassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera más moedas, que
    não houvesse do Reino preitas, nem serviços, nem martineguas, nem moedas
    foreiras, e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar Rei de
    Castella, e de Lião.

    E preguntados os Procuradores, e povos se aprovavam esta sentença,
    respondeo por todos um Diogo Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos
    parecia bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as rezões que
    dicera, e mais por a prodigalidade del-Rei Dom Affonso, que para o
    resgate do Emperador de Constantinopla dera das rendas de Castella
    cincoenta quintaes de prata, e mais por dar o Algarve a seu genro El-Rei
    Dom Affonso de Portugal, e lhe quitar ajuda, e o serviço dos cincoenta
    Cavalleiros em que era obrigado, e porém que lhe parecia couza honesta,
    se ao Ifante Dom Sancho assi bem parecesse, que elle em vida del-Rei seu
    Padre senão chamasse Rei, no que o Ifante consentio; e com esto a
    obediencia de todos os Lugares logo foi alevantada a El-Rei, salvo a de
    Sevilha, onde El-Rei se recolheo; e perseguido de muitas necessidades
    enviando rogar, e encomendar aos Prelados, e pessoas de auctoridade do
    Reino, que pozessem concordia, e boa paz antre elle, e seu filho, elles
    segundo alguns dizem o não fizeram, antes o contrariavam.

    Com esta tamanha necessidade enviou a pedir ajuda a El-Rei Dom Affonso
    seu genro, que por em tempo de tanta fortuna ser agardecido ás boas
    obras, e graças que delle tinha recebidas, lhe mandou trezentos
    Cavalleiros Portuguezes pagos á sua custa por muito tempo, que por
    honra, e serviço del-Rei o fizeram de maneira em Castella, que sua fama,
    e bom nome será sempre lembrada, e as Coronicas Despanha, que eu vi dão
    desso craro testemunho, e destes trezentos Cavalleiros de Portugal, que
    vieram, e andaram em serviço del-Rei Dom Affonso, creo que se tomou a
    opinião errada, que em alguns livros vi, em que tem, que a obrigação de
    que este Rei Dom Affonso relevou a El-Rei de Portugal seu genro, e a
    El-Rei Dom Diniz seu neto, era de trezentos Cavalleiros com que era
    obrigado de o ajudar, e servir quando lhe comprisse, a tal sentença, e
    opinião são errados, porque a obrigação, que El-Rei Dom Affonso, e
    Ifante Dom Diniz seu filho tomaram por a sobcessão do Algarve, do que
    foram relevados, era sómente de cincoenta Cavalleiros, que em vida
    del-Rei Dom Affonso de Castella, contra todolos Reis Despanha lhe haviam
    de dar, e a verdade desto eu Coronista verdadeiramente a vi nas proprias
    doações, quitações, e privilegios assellados, e auctorizados, que
    sobresso se concederam, os quais estão no Castello de Lisboa, na Torre
    do Tombo de Portugal, de que eu sou Guarda mór, e outros semelhantes
    deve haver nos Cartorios de Castella.

    E porém a guerra, e desavença antre El-Rei Dom Affonso de Castella, e o
    Ifante Dom Sancho seu filho durou muitos annos, nem cessou, salvo por
    morte del-Rei, em cuja vida padeceo muitas necessidades, e foi sempre
    perseguido de mui contrairas fortunas, por as quaes meteo por sua ajuda
    em Espanha Abençaf Rei de Marrocos, e seus filhos a que se diz, que
    antes de entrarem empenhou sua Coroa por sessenta mil dobras, o qual com
    grandes gentes, e poder de Mouros correo a terra dos Christãos, e sem
    aproveitarem ao dito Rei de Castella fazendo primeiro nellas muitos
    danos, e estragos se volveo em Africa, como na Coronica de Castella esto
    milhor, e com mais particularidade se declara.

    CAPITULO XVI

    _Do falecimento del-Rei D. Affonso de Portugal, como antes de seu
    falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro_

    A este tempo chegada a era de mil duzentos setenta e oito, (1278) El-Rei
    Dom Affonso de Portugal sendo já velho de setenta annos, e perseguido de
    dores, e paixões de velhice, por descançar em alguma parte dos
    trabalhos, e cuidados do Reino, ao Ifante Dom Diniz seu filho, que era
    de dezoito annos, e não era cazado, deu-lhe Caza em Lisboa a dezaseis
    dias de Junho do anno sobre dito, e de seu assentamento alem doutras
    couzas, lhe ordenou logo mais em dinheiros quarenta mil livras de moeda
    antiga, que valiam a respeito dos preços, e valor do ouro, e da prata
    dagora dezaseis mil cruzados, porque naquella tempo, segundo é bem
    verificado, uma livra valia vinte soldos, e duas livras e meia faziam
    cincoenta soldos, que valiam um maravedi douro, que no preço, e pezo
    eram os maravedis douro como agora são os cruzados, e ducados.

    E do dia que El-Rei deu assi Caza ao Ifante seu filho, e a nove mezes
    primeiros seguintes, tendo já feito em mui inteiro acordo seu solene
    Testamento, arrependido de seus peccados recebendo como bom Catholico, e
    fiel Christão todolos Sacramentos para bem de sua alma, em Lisboa a
    vinte dias de Março de mil e duzentos setenta e nove, (1279) acabou sua
    vida, e deu sua alma a Deos, em idade de setenta annos, dos quais Reino
    trinta e dous, e foi logo soterrado no Moesteiro de São Domingos de
    Lisboa, que elle novamente fez, e depois na era de mil e duzentos e
    oitenta e nove, foi tresladado seu corpo ao Moesteiro Dalcobaça, pela
    Rainha Dona Breatiz sua molher, que ficou viva, e se mandou depois
    enterrar com elle no dito Moesteiro Dalcobaça, onde ambos jazem.

    Este Rei Dom Affonso fez de novo o dito Moesteiro de S. Domingos de
    Lisboa, o qual começou aos tres annos primeiros depois que foi Rei, e o
    acabou em déz annos, e assi fez o Moesteiro de Santa Clara de Santarem,
    e povorou, e fez a Villa Destremoz, e reformou, e povorou a Villa de
    Beja, que dos tempos dos Mouros era de todo destroida, mas não fez a
    torre grande do Castello, por que esta fez seu filho, El-Rei Dom Diniz,
    e assi deu bons foraes a muitos Lugares do seu Reino, e em umas grandes
    fomes, que nelle houve em seu tempo, se acha que uzou de grande piedade
    com seus vassalos, a que proveo com devidos mantimentos, trazidos de
    muitas partes de fóra do Reino á custa de suas rendas, e a penhor das
    ricas joias de seu tesouro, e foi o primeiro que se intitulou Rei de
    Portugal, e do Algarve, e que primeiro por esta cauza poz a bordadura
    dos Castellos, como atraz é já dito.

    DEO GRATIAS

    INDEX

    DAS COUSAS NOTAVEIS

    *A*

    Abenafaam Rei mouro é vencido na batalha de Silves onde morreo afogado
    em um rio pag. 40 a 42

    Affonso III (D.) Onde, e quando foi levantado Rei de Portugal, pag. 16.
    Foi casado segunda vez com Dona Breatiz sua sobrinha, filha natural
    del-Rei D. Affonso X de Castella, pag. 17. Foi o primeiro que se
    intitulou Rei de Portugal e dos Algarves, e pôz no Escudo além das
    Quinas os Castellos, pag. 17. Foi muito amante da Justiça, e grande
    reedificador, pag. 18. Sendo casado com Dona Matildes, Condessa de
    Bolonha a deixou, e vindo a Portugal se recebeu com sua sobrinha Dona
    Breatiz, pag. 19. Não admitte a Embaixada dos Cavalleiros que vieram a
    Portugal com a Condessa Dona Matilde para que a recebesse em sua
    companhia, antes partem injuriados da sua presença, pag. 21.
    Estranha-lhe o Papa este procedimento, e lhe manda intimar censuras pelo
    Arcebispo de S. Tiago, e não cede da sua pertinacia pag. 23. Dos filhos
    que teve de Dona Breatriz, pag. 24. Amou muito a sua filha a Infanta
    Dona Branca a quem deu a Villa de Monte-mór-o-velho, e em testamento lhe
    deixou mais de dés mil livras, pag. 25. Das diversas terras que juntou á
    Corôa com o casamento de Dona Breatiz, pag. 26. Como alcançou o Reino do
    Algarve, e se intitulou Rei delle, pag. 45. Conquista gloriosamente a
    Villa de Faro, pag.^s 46 a 50. E' exhortado pelo Papa para conquistar a
    Terra Santa, pag. 53. Manda trezentos Cavalleiros em soccorro de seu
    sogro, que lho pedira por estar dessapossado do Reino, pag. 63. Em que
    dia e anno morreo, pag. 65. Onde foi enterrado, e para que parte foi
    tresladado o seu corpo, pag. 66. Edificios que fez, ibi.

    Affonso X (D.) De Castella, teve de Dona Mayor Guilhelme de Gusmão sua
    manceba e Dona Breatiz que cazou com D. Affonso III de Portugal, pag.
    19. Amou excessivamente a esta filha e lhe deu um grande dote quando se
    recebeo com aquelle Principe, ibi. Deixou a sua neta a Infanta Dona
    Branca, grande copia de dinheiro, pag. 26. Sucedeu nos reinos de
    Castella, e de Lião a seu Pae D. Fernando, pag. 28. Doa a El-Rei D.
    Affonso III o Reino do Algarve, e com que condições, pag. 45. Concede á
    petição de seu neto o Infante D. Diniz a izenção dos cincoenta
    Cavalleiros com que doara a seu pae o Reino do Algarve, pag. 56 e 57.
    Sendo eleito Emperador dos Romanos, parte a França para ser confirmado
    pelo Papa, e acha já de posse do Imperio a Rodulpho, e volta para
    Castella, pag.^s 59 e 60. Por ter morto seu irmão o Infante D. Fadrique,
    e a seu sogro D. Simão Rodrigues Cameiros é dessapossado do Reino por
    sentença de seu irmão o Infante D. Manuel, pag. 62. Pede soccorro a seu
    genro D. Affonso III para rebater esta violencia, e lho manda, pag. 63.

    Affonso (Infante D.) Filho de Affonso III de Portugal, e Dona Breatiz,
    casou com Dona Violante filha do Infante D. Manuel de Castella, e da
    Infanta Dona Constancia de Aragão, pag. 25.

    Affonso Garcia (D.) Adiantado-mór do Reino de Murcia, é mandado por
    Embaixador de Castella a pacificar ao seu Principe com D. Affonso III,
    pag. 55.

    Albofeira. E' conquistada esta Villa por D. Lourenço Affonso Mestre de
    Aviz, pag. 52.

    Algarve. Como foi conquistado por D. Payo Corrêa, e das gloriosas
    vitorias que alcançou dos Mouros, pag.^s 29 a 32. Com que condições foi
    doado por El-Rei de Castella a El-Rei D. Affonso III de Portugal, pag.
    45. Que terras comprehendia quando era possuido dos Mouros, e quaes
    sejam as que tem depois que o dominaram os Portuguezes, pag. 52.

    Aljustrel. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, e depois de ser entregue
    a D. Sancho II de Portugal, o deu este Principe á Ordem de San-Thiago,
    pag. 28 e 29.

    Aljuzur. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, pag. 52.

    Alvaro Garcia. Cavalleiro de San-Thiago, é morto pelos Mouros em Tavira,
    e honorificamente sepultado, pag. 39.

    Alvor. E' couquistado por D. Payo Corrêa, pag. 40.

    Arcebispo de San-Thiago. E' mandado pelo Papa que admoestasse a D.
    Affonso III que largasse a Dona Breatiz por estar viva sua primeira
    mulher a Condessa Dona Matilde, e que repugnando o emprazasse para que
    em quatro mezes apparecesse pessoalmente na sua prezença, pag. 23.

    *B*

    Beja. Foi reformada, e povoada por D. Affonso III, pag. 60.

    Beltram de Caya, cavalleiro alentado é morto pelos Mouros em Tavira, e
    como foi honorificamente sepultado, pag. 39.

    Branca (Rainha Dona) filha del-Rei D. Affonso Noveno que venceo a
    batalha das Navas de Toloza, foi mãe de S. Luis Rei de França, pag. 60.

    Branca (Infanta Dona) filha de Affonso III de Portugal, e da Rainha Dona
    Breatiz se recolheo no Mosteiro de Lorvão, e foi Senhora das Olgas de
    Burgos onde sem cazar faleceo, pag. 25. Possuio grandes terras em
    Castella, como em Portugal, ibi.

    Branca (Infanta Dona) filha de S. Luis Rei de França, foi mulher do
    Infante D. Fernando de Lacerda, filho primogenito de D. Affonso X de
    Castella de quem teve dous filhos, pag. 60.

    Breatiz (Rainha Dona) filha natural de D. Affonso X de Castella, foi
    casada com seu tio D. Affonso III de Portugal, pag. 17 e 18. Mandou
    tresladar o corpo de seu marido para o Convento de Alcobaça, onde foi
    enterrada, pag. 66.

    *C*

    Campo Maior. Foi dada esta Villa por El-Rei D. Diniz a sua irmã a
    Infanta Dona Branca, pag. 24.

    Castellos. Os que se vêm no Escudo das Armas de Portugal, foram postos
    por D. Affonso III, quando lhe foi dado em dote o Algarve, e não por
    serem do Condado de Bolonha, pag. 17.

    Constança (Infanta Dona). Filha de D. Affonso III e Dona Breatiz, foi
    com sua mãi a Sevilha a ver seu pai, que assistia naquella Cidade, onde
    faleceo, e foi conduzida ao Convento de Alcobaça, e nelle está
    sepultada, pag. 26.

    Cordova. Quando foi esta cidade ganhada por El-Rei D. Fernando de
    Castella, pag. 26.

    *D*

    Infante D. Diniz. Foi filho primogenito de D. Affonso III de Portugal, e
    D. Breatiz, que depois sucedeo no Reino a seu pai, pag. 24. Onde e
    quando naceo, ibi. Edificou o Mosteiro de Odivelas onde está sepultado,
    ibi. Sendo Rei deu a sua irmã a Infanta Dona Branca a Villa de Campo
    Maior, pag. 24. Parte a Castella para pedir a seu avô D. Affonso X,
    exima ao Reino de Portugal da obrigação dos cincoenta Cavalleiros com
    que lhe doara o Algarve, e depois de algumas contradições o alcança,
    pag. 56. Em que dia e anno lhe fez casa seu pai, pag. 56. Edificou a
    Torre do Castello de Beja, ibi.

    Diogo Affonso. Alcaide-mòr de Toledo aprova em nome de todos os
    Procuradores que estavam juntos em Valhadolid a determinação do Infante
    D. Manoel com a qual dessapossou do Reino de Castella a seu irmão D.
    Affonso X, pag. 62.

    Duram Vaz. Cavalleiro insigne é morto pelos Mouros em Tavira, e como foi
    enterrado, pag. 39.

    *E*

    Estevão Vaz, Cavalleiro famoso morre em Tavira, e como foi
    honorificamente sepultado, pag. 39.

    Estremoz. Foi edificada esta Villa e povoada por D. Affonso III, pag.
    66.

    *F*

    Fadrique (Infante D.) Foi morto por seu irmão D. Affonso X de Castella,
    e por este motivo foi dessapossado do Reino por determinação de seu
    irmão o Infante D. Manoel, pag. 62.

    Faro. Como, e quando foi conquistada esta Villa por D. Affonso III, pag.
    47 a 50.

    Fernão Lopes (D.) Prior do Esprital assistio com D. Affonso III na
    conquista de Faro, pag. 48.

    Fernando (El-Rei D.) De Castella, quando tomou Cordova? pag. 27. Em que
    anno conquistou a cidade de Sevilha, pag. 28. Quando morreo. ibi.

    Fernando (D.) Filho natural del-Rei D. Affonso III, foi Cavalleiro da
    Ordem do Templo, e aonde está sepultado? pag. 26.

    Fernando de Lacerda (Infante D.) Filho primogenito de D. Affonso X de
    Castella, é jurado por sucessor da Coroa quando seu pai passou a França
    a coroar-se por Emperador dos Romanos, pag. 59. Foi cazado com Dona
    Branca filha de S. Luis Rei de França, ibi. Morreo de peste, pag. 60.
    Teve dous filhos, e como se chamaram, ibi. Porque tomou o appelido de
    _Lacerda_, ibi.

    *G*

    Gregorio X roga a D. Affonso X de Castella que por evitar algum scisma
    se recolha ao seu Reino, quando vinha a coroar-se Emperador dos Romanos
    por já estar de posse desta dignidade Rodulpho Conde de Cambra, irmão
    del-Rei de Inglaterra, pag. 60.

    Garcia Lopes (D.) Sendo privado de Mestre da Ordem de Calatrava lhe
    sucedeo João Nunes do Prado, pag. 24.

    Garcia Rodrigues. Deu os meios a D. Payo Correa para haver de conquistar
    o Algarve, pag. 30. Morre alentadamente em Tavira com mais seis
    companheiros acometidos por um grande numero de Mouros, pag. 37 e 38.

    *J*

    João de Avinhão (D.) Chançarel assistio com D. Affonso III na conquista
    de Faro, pag. 48.

    João de Boim. Assistio no lanço de um muro na tomada da Villa de Faro,
    que ao depois tomou o seu nome o lugar que tinha ocupado, pag. 48. Tomou
    entrega de todos os lugares do Algarve conquistados por ordem del-Rei de
    Castella para em seu nome os entregar a seu genro D. Affonso III, e
    quando se celebrou este ajuste, pag. 54.

    João Nunes do Prado, Cavalleiro da Ordem de Calatrava de que foi Mestre,
    foi reputado filho da Infanta D. Branca filha del-Rei Affonso III de
    Portugal, e de um Cavalleiro chamado o Carpiteiro, pag. 25.

    *L*

    Livra. Que valor tinha uma e duas e meia, pag. 65 Quarenta mil assinou
    para renda do Infante D. Diniz seu pai D. Affonso III, ibi.

    Loulé é conquistado por D. Affonso III pag. 50

    Lourenço Affonso (D.) Mestre de Aviz assiste com El-Rei D. Affonso III
    na conquista de Faro, pag. 48. Conquistou a Villa de Albufeira, pag. 52.

    Luis (São) Primo com irmão del-Rei D. Affonso III de Portugal foi o
    ultimo Rei de França que passou á conquista da Terra Santa, e que
    successo teve nesta empreza, pag. 53.

    Luis (Infante D.) é mandado por seu irmão D. Affonso X de Castella a
    Portugal a firmar as condições com que doara a seu genro D. Affonso III
    o Reino do Algarve, pag. 54. Quem foram os pais deste Infante, ibi.

    *M*

    Manoel (Infante D.) irmão de D. Affonso X de Castella pronuncia em
    Valhadolid sentença em presença de muitos Procuradores de Cidades contra
    este Principe, para que não lhe obedeçam os povos, se intitule Rei seu
    sobrinho D. Sancho, pag. 62.

    Martim Nunes (D.) Mestre da Cavallaria do Templo, veio por Embaxador de
    Castella a concordar o seu Principe com El-Rei D. Affonso III, pag. 55.

    Matilde, (Dona) Condessa de Bolonha sabendo que era morto D. Sancho II
    parte de França em uma Armada, e chegando a Cascaes não é admitiida por
    seu marido D. Affonso III por estar cazado com Dona Breatiz pag. 21.
    Volta para França, e se queixa ao Papa do procedimento de D. Affonso III
    o qual sendo advertido pela Pontifice a que largasse a Dona Breatiz, e
    não obedecendo se poz interdito em todo o Reino, pag. 23. Onde, e quando
    morreo esta Condessa, ibi.

    Mayor Guilhelme de Gusmão (Dona) foi manceba de D. Affonso X de
    Castella, de quem teve Dona Breatiz, que cazou com D. Affonso III de
    Portugal, pag. 19.

    Mem do Valle é morto pelos Mouros em Tavira, e de como foi
    honorificamente sepultado, pag. 39.

    Mertola. Foi conquistada por D. Payo Correa, e depois foi dada por D.
    Sancho II á Ordem de San-Tiago, pag. 28.

    Monte mór o Velho. Esta Villa foi doada por El-Rei D. Affonso III a sua
    filha a Infanta Dona Branca, pag. 25.

    Mosteiro. O de São Domingos de Lisboa, e de Santa Clara de Santarem,
    foram fundados por El-Rei D. Affonso III, pag. 66.

    *N*

    Nuno de Lara (D.) Oppõem-se com fortes razões a El-Rei D. Affonso de
    Castella, para que não conceda a seu netto o Infante D. Diniz a izenção
    dos cincoenta Cavalleiros com que lhe doava o Reino do Algarve, pag. 56.

    *O*

    Odivellas. Mosteiro de Religiosas Bernardas foi fundado pelo Infante D.
    Diniz onde está sepultado, pag. 25.

    *P*

    Paderne. E' conquistada esta Villa por D. Payo Correa, pag. 43.

    Papa. Admoesta a D. Affonso III que largue Dona Breatiz por estar viva
    sua primeira mulher, e não obedecendo interditou o Reino todo, pag. 22 e
    23. Por morte de Dona Matilde levanta o interdito, e dispensa em que os
    filhos que tivera D. Affonso III de Dona Breatiz vivendo Dona Matilde
    pudessem suceder no Reino, pag. 24. Pede por Fr. Payo Ministro dos
    Freyres de San-Tiago a El-Rei D. Affonso III que conquiste a Terra
    Santa, pag. 53.

    Payo, (Fr.) Ministro da ministração dos Freires de San-Tiago, é mandado
    pelo Papa para que exhorte a El-Rei D. Affonso III a conquistar a Terra
    Santa, pag. 53.

    Payo Correa, (D). Mestre da Ordem de San-Tiago assistio á Conquista de
    Cordova, e Sevilha com El-Rei D. Fernando de Castella, pag. 27 e 28.
    Conquistou as Villas de Aljustrel, e Mertola, pag. 28. Como conquistou o
    Algarve, e das vitorias que para este fim alcançou dos Mouros, pag. 29 a
    32. Toma Tavira com grande mortandade dos Mouros, pag. 39. Conquista
    Selir, e Alvor, pag. 40. Alcança uma famosa vitoria de Abenafaam em
    Silves, e conquista esta Cidade, pag. 40 e 41. Toma Paderne, pag. 43.
    Foi o principal instrumento para que El-Rei D. Affonso III tomasse as
    Villas de Faro, e Loulé, pag. 46 a 49. Veio por Embaxador del-Rei de
    Castella a concordar este Principe com D. Affonso III, pag. 55. Onde, e
    quando morreo, pag. 59. Onde está sepultado, ibi.

    Pedro Estaço. Defende um lanço do muro na tomada de Faro, pag. 47.

    Pedro Rodrigues, Commendador mór, é morto pelos Mouros em Tavira, e como
    foi enterrado, pag. 39.

    Portugal. Esteve interdito alguns annos pelo Pontifice, por não querer
    D. Affonso III deixar a Dona Breatiz sendo viva a sua primeira mulher
    Dona Matilde, pag. 23.

    *R*

    Rodulpho. Conde de Cambra irmão del-Rei de Inglaterra, é eleito por
    Emperador dos Romanos por alguns Eleitores, pag. 59.

    *S*

    Sancho II de Portugal deu á Ordem de San-Tiago as Villas de Aljustrel, e
    Mertola, pag. 29.

    Sancho (Infante D.) Filho legitimo de D. Affonso X de Castella toma
    posse do governo por morte de seu irmão D. Fernando de Lacerda, pag. 60.
    Foi valeroso Principe, ibi. E' jurado por sucessor do Reino, pag. 61.
    Convoca os Concelhos em Valhadolid para que não consintam que seu pai dê
    o Reino de Murcia a seu neto D. Affonso, e o consegue, pag. 62.

    Selir. E' conquistado por D. Payo Correa, pag, 40.

    Sevilha. Em que dia, e anno foi conquistada por El-Rei D. Fernando de
    Castella, pag. 28. Nesta Cidade morreo este Principe, e quando, ibi.

    Simão Rodrigues dos Cameiros, Sogro del-Rei de Castella D. Affonso X é
    morto por este Principe, cauza porque o desapossaram do Reino, pag. 62.

    Silves. Cidade no Algarve é conquistada por D. Payo Correa do poder dos
    Mouros, e como ficaram tributarios a Portugal, pag. 42.

    *T*

    Tavira. Em que dia, e anno foi tomada por Payo Correa com grande
    mortandade dos Mouros, pag. 39. Na Igreja de Santa Maria desta Villa
    está sepultado D. Payo Correa, pag. 59.

    *U*

    Ucles. E' cabeça do Convento do Mestrado de San-Tiago em Castella, pag.
    59. Neste lugar morreo D. Payo Correa, ibi.

    *V*

    Violante (Rainha Dona), mulher de D. Affonso X de Castella receosa de
    que matassem a seus netos, partio com elles para Aragão a amparar-se de
    seu pae El-Rei D. Jayme, pag. 6l. Pede a seu marido que dê a seu neto D.
    Affonso o Reino de Murcia, o que não alcançou, pag. 6l.

    Violante (Dona), filha do Infante D. Manoel de Castella, e da Infanta
    Dona Constança de Aragão, cazada com D. Affonso, filho de D. Affonso III
    de Portugal, e da Rainha Dona Breatiz, pag. 25.

    FIM

    INDICE DOS CAPITULOS

    I–Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como acrecentou os
    Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque 16

    II–Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em
    França a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella 19

    III–Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu
    marido a não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez 20

    IV–Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com
    El-Rei Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhes que
    della houvesse 24

    V–Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este
    casamento 26

    VI–Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de
    conquistar o Algarve, que era dos Mouros 29

    VII–Do accordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram
    com elle batalha em que foram vencidos 33

    VIII–Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que
    fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete
    Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla 35

    IX–Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque
    partidos a leixou aos Mouros 40

    X–Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que
    houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do
    Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado 43

    XI–Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o
    Algarve, tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o
    mestre D. Payo Correa 46

    XII–Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur
    tomou o Mestre de San-Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração
    que se fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem 51

    XIII–Como o Reino do Algarve por divizões que houve foi posto em
    terçaria de Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez 54

    XIV–Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu
    neto a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre
    56

    XV–Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para
    El-Rei D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser
    desobedecido, e como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se
    acrecentarem a Portugal os Lugares de riba Dodiana 58

    XVI–Do falecimento del-Rei Dom Affonso de Portugal, como antes de seu
    falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro 65

    End of Project Gutenberg's Chronica d'El-Rei D. Affonso III, by Ruy de Pina