Uma família ingleza Scenas da vida do Porto
VI
AO DESPERTAR DE CARLOS
Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se
despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o
pensamento porém não acompanhava o olhar.
Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada
á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam
agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as
ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a
dissimulal-as.
Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario
intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a
nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.
Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as
disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o
resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre
Carlos tambem.
E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria
debalde.
Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella
preoccupação.
Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o
irmão.
André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que
servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já
ao collo os dois filhos do inglez.
–Vá,–disse Jenny–diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.
Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no
quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno,
livre de pesadelos e de sonhos importunos.
O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do
bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução,
bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que
entreabriu.
Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das
longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo
tapete.
Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.
Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do
_Genesis_, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois
difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o
aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda
gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.
A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.
Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite,
entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia,
deslocados da natural situação.
As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as
attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par,
patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de
cidade conquistada.
Nas mesas, nos sofás, em _voltaires_, no chão, por toda a parte emfim,
menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas
de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente
alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas,
calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis;
alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse,
procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o
abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os
fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que
commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada
com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos,
retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado
na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim;
pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo
de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de
damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata,
transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da
porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi
debaixo da cama. Um _abat-jour_ de cartão envernizado com figuras
extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente
ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço
estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile;
defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe
pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com
petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella
figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de
acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então
á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim
preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos
combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.
Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza,
obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem
celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha
mascarada.
No meio de toda esta confusão, um enorme _terra-nova_, de ventas
leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles
almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre
um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela
preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.
Imagine-se o resto.
André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta
desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle
desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois
caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as
cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os
olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a
acordal-o de dormir tão tranquillo.
Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo
saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente
annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e
cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do
alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em
que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum
tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e
affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou
n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em
curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás
orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites
de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella
physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que
quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam
fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições,
paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e
eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a
crença dos seus biographos.
André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem
desejava não ser escutado.
–Snr. Carlos–disse elle.
Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra
para o despertar.
Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os
braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs
despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os
cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal
distincta:
–Bons dias, André. Que horas são?
–Meio dia.
Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.
–_Save us!_–exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem
era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o
relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica
interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.
–Pois não me parecia–continuou Carlos, ao acabar de contal-as.–Ia até
estranhar-te a madrugada, sabes tu? E… e… o pae?
–Saíu já.
–E… e que disse?
André encolheu os hombros, respondendo:
–Nada.
Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.
Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.
–Toca a pôr a pé, que são horas!–dizia o André, occupando-se a
levantar alguns dos objectos que via pelo chão.
–Deshumano, cruel, que me recordas?–respondeu-lhe Carlos em tom de
recitação tragica.
–Vamos, vamos, preguiçoso.
Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de
despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal
_terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso
o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas
linhas distrahido.
–Então?–insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se–Fica
ahi?
–Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda
agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.
–Então quer almoçar aqui?
–E julgo que é uma resolução muito louvavel.
–Mas…
–Mas o quê?… Que objecções lhe pões? Falla.
–É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.
Carlos de um salto sentou-se na cama.
–Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa–chega-me d'ahi esse
robe-de-chambre.–Isso não… não vês que é um dominó?… Anda…
avia-te… Aquelle lenço… O outro… Bem… Vae… Dize a Jenny que
n'um momento estou com ella.
E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro _toilette_
de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.
Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a
leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos
mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras,
objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr.
Richard Whitestone.
–Bom dia, Charles–disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou
affectuosamente.
–Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube
dizer-me logo que tu…
–Desculpa mandar-te acordar, mas…
–Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.
–Vieste hontem muito tarde, Charles–disse Jenny, abaixando-se
disfarçadamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitára aos
pés.
–Pois ouviste-me?
–Ouvi.
–Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém… sempre
sou um desastrado!
–Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.
–Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?
–Não, mas…
Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.
–Querem ver que foi por minha causa?… Então que te tenho eu dito,
Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a
ponto de…
–Não, não foi por canceira, é que…
–É que tu és uma teimosa e o que merecias…
–Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?
–Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o
carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois… depois
verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de… Tens-te
enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?
–Ora, não fallo por mim; mas… é que… isso faz-te doente por certo,
Charles. Esses jantares tão longos… Essas noites tão mal dormidas…
–A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso…
–E depois… Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos
comnosco, á noite… Não é por mim que fallo, repito; mas o pae… bem
sabes, antigos habitos… gosta de nos ver reunidos todos… a certas
horas. Coitado! Não digo sempre, mas… ás vezes, de quando em quando,
se te não custasse…
–Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto…
prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites
de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou
aquelle bom Thomson nas suas _Estações_, são tão longas para se passarem
em casa!
–As de estio… depois… já sei… has de achal-as tão formosas que…
–Não–replicou Carlos, sorrindo;–então depois de eu te prometter havia
de… Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até
ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é
pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por
que o pae costuma passar aqui as suas _soirées_. Aquelle eterno _Times_,
aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_ é um livro que
respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos
reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne
já o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o não tivesse ainda
lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de
o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar,
mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos
flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno… a fallar verdade!
–Charles!–disse Jenny, em tom reprehensivo.
–E para cumulo dos males–proseguiu Carlos–estar sempre debaixo da
permanente ameaça de uma visita do _spleen_ de Mr. Morlays ou da, não
menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito,
inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do
que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar
aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido
de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos».
Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para
diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:
–Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!… no dia dos
teus annos!…
–Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita.
Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!
–Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes
queres dar o prazer de t'o affirmarem?
–Daria se… se me lembrasse.
–O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por
que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este
relogio–disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr.
Richard.
–Devéras?! Pois elle… Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse
prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae
no coração, não é assim?
–Sei, Charles, sei.
–Mas os outros…
–Todos te fazem justiça, só tu é que…
–Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não
ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa
tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar;
acabando elle … penitenciar-me-hei na quaresma.
–O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para
assim te attrahirem, Charles!
–Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas… Tu não pódes talvez entender
isto, que não obstante é exacto… são insipidos, mas irresistiveis ao
mesmo tempo.
–Ora!
–Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não
morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de
lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas
noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo,
Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas
d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece
ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de
Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e
selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.–Não é assim que
diz o Milton?–E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me
a expatriação. Vês?
–Estás a gracejar, Charles?
–Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se…
–E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da
manhã?
–Hoje? Ah, mas… perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de
hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo
confessal-o.
–Então?
–Então… é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me
escutar e prometteres não me ralhar muito…
–Ah! pois temos culpas?
–Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que
procedesse bem. Mas tu o dirás.
Jenny sorriu.
–Ouçamos–disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de
trazer para a sala.
VI
REVISTA DA NOITE
–Como te disse, Jenny,–principiou Carlos, procedendo áquelle
extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e
importante tarefa da digestão do jantar–hontem correu-me a noite mais
agradavel que de costume.
–Sim? Então que te succedeu?
–Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar,
ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a
animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso;
atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e
d'aquelle ruído todo…
–E pezaroso…
–Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.
–Ah!… remorsos?!…
–Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um
inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras,
gritos de condemnados as desafinações da orchestra…
–E ficaste?
–E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me
auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas
cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar.
–Continúa–disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras
inglezas, que estava na mesa.–Mas é devéras estranha essa maneira de te
divertires… martyrisando-te.
–É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o.
–Bem; vamos adiante–replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras
douradas da brochura.
Carlos proseguiu:
–Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem
apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por
fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem
a sorte me arrojára.
Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular.
–Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a
felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o
infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta
bemaventurança e voltei-os…
–Para o lado esquerdo?
–Justamente; para o lado esquerdo.
–E… e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?–perguntou
Jenny, sorrindo.
–Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que
aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões.
–Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é
devéras uma paixão?
–Receio que sim.
–Pobre Charles! Que fatalidade!
–Estás a rir?–disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena
para a encher outra vez–Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do
coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma
maneira … como nem te sei dizer… e com uns olhos… mal sabes que
bonitos olhos eram aquelles, Jenny!
–Os da mascara?–perguntou Jenny, preparando a chavena.
–Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas
oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça
descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e
melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de
labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude
desviar mais d'alli o olhar extasiado, e… e… Então que quer dizer
agora esse teu sorriso, Jenny?
–Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.
–É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não
imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam
ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um
pouco, o preciso… o conveniente… Porque na maior parte dos rostos ha
pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando
só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar
e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço…
–Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que
conheces, visto que ainda hontem…
–Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella
cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que
morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica,
cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não
podéra occultar…
–Ah! Que singular cabeça!
–E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os
cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais
feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o
que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a
palavra!
–A quem dirigiste a palavra!
–Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse
movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentações,
ridicula invenção da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa
diplomatica Inglaterra.
A reflexão historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de
Jenny.
Carlos continuou:
–E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido á
mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas,
irmanzita, eu, que arranjei por ahi, não sei bem como, a reputação de
atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam
já aos quinze annos.
Esta confissão, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny
um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porém suavisar.
–Olha que é assim–proseguiu o irmão–e senão… escuta. Como te disse,
fallei á minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito
fatigada. Ahi tens; a pergunta é mais do que ingenua, é quasi ridicula.
Que lhe censuras tu?
–A essa, de certo que nada. E depois?
–Ella respondeu-me:–«Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava,
vindo aqui, snr. Carlos.»
–Como disseste?… Snr. Carlos?!
–É verdade, «snr. Carlos». Sabia o meu nome a mysteriosa incognita;
sabia o meu nome! Está de ver que augmentou a minha curiosidade.
Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli
acompanhada de outros dóminós femininos, cujo humor mais galhofeiro
contrastava com aquella melancólica seriedade. Ficamos a conversar um
com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora
comtigo. E… queres que te diga? havia até alguma cousa do teu fallar,
maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto
talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que não podia
livrar-me. Não imaginas a graça, o bom senso, a viveza, que revelou em
todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito
e até a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras
de querer fallar de ti; eu porém evitei a conversa…
–Porquê?!–perguntou Jenny, fingindo-se offendida.
–Porque…–balbuciou Carlos embaraçado, e depois, com mais resolução,
continuou:–Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu
nome uma veneração muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o
pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por…–não
obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da
desconhecida–mas… por labios que… não sei ainda… que não tenho a
certeza se serão dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este
inoffensivo conversar, chegaram, já fartos de alvorotar o salão, alguns
dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel,
confesso-o, a presença dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos
os galanteadores conceitos que dirigiram á minha interlocutora e os
gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.
–Coitada!
–Coitada? Ai, se já principias assim a lamental-a … mal vae á minha
historia.
–Pois acaso?…
–Escuta. Ao principio, ella não mostrou timidez; sustentou com
vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os
galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque
emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva
armas, de que ella não podia servir-se. Foi então, ao reconhecer isto,
que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a; á porta
do salão ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram
atemorisadas. Ella então, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me
que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e
eu…
–Tu protegeste-as, não é verdade?–disse Jenny, juntando as mãos, e
fixando no irmão um olhar de sympathia–Protegeste, não protegeste?
–Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Então que queres tu?
Não te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze
annos?
–Não te arrependas, Charles, não te arrependas de ser generoso.
–É certo que consegui afastar os meus associados, o que não foi pequena
tarefa; fiz valer porém os direitos de descobridor e prometti-lhes
revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigação me
competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effusões de
gratidão á minha nobreza de caracter, ao meu coração, aos meus
sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e
passou o perigo da perseguição que temiam, tudo mudou de figura e
principiaram já a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratidão
offendeu-me e recusei… Então? ahi estás séria outra vez!
–E com razão, Charles. Pois pediam-te e tu… Isso já não é de
generoso… Quem sabe os motivos?
–Perdôa-me, Jenny; tu é que não sabes nada d'estas cousas. Pouco
generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra é
recusal-os sempre; e está certa de que quasi nunca a recusa offende.
–Basta que uma vez…
–Mas repara, Jenny… Valha-me Deus!… Ora vem cá. Tu estás-me ahi a
phantasiar uns bailes de mascaras á tua moda. Suppões que todos estes
dóminós eram… eu sei lá… outras tantas princezas disfarçadas ou
outras Jennys como tu.
–Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?…
Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese
e porisso interrompeu a irmã, dizendo:
–Mas não supponho, nem posso suppôr, porque… porque ainda ninguem viu
uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu não sou ainda assim
merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para
desistir, exigia conhecel-as; ellas porém recusaram tirar a mascara e
sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. Ás tres horas e
meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido
manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti á tentação e transpuz,
sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha
incognita levavam já o caso a rir e acredito que não poriam grande
duvida em darem-se a conhecer; ella porém mostrava-se… ou fingia-se,
deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mãos juntas pediu-me que me
retirasse.
–E tu?…
–Eu… eu recusei.
–Ó Charles!
–Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se
teimasse, e eu insisti…
–Como és ás vezes tão mau!
–Mas se eu não acreditava na sinceridade d'aquelles mêdos, e agora
mesmo… Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual
me pareceu descobrir tanta sinceridade: «–Peço-lhe este favor por…»
Adivinhas por quem ella me foi pedir?
–Não.
–«Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny»; sim, por ti, foi por ti
que ella me pediu e fêl-o ajuntando as mãos com tal candura, que eu…
Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?
Jenny estendeu a mão ao irmão.
–Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu coração. Estava certa
d'isso.
Carlos baixou a cabeça, como mortificado com estes louvores da irmã.
Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos,
longe de os desvanecerem.
Depois de uma hesitação de momentos, terminou por dizer, com evidente
enleio:
–Olha, Jenny… eu por fim de contas não sou homem para aceitar
louvores que não mereço… repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras,
mas… sou forçado a dizer-te que… que não sou digno d'esses
applausos.
–Porquê?
–Porque… alguma cousa se passou… Eu não disse tudo ainda e… É
verdade que… condescendi… sim… mas não tão desinteressadamente
como… sim… porque exigi… usurpei… á maneira de compensação…
–O quê?
–Um beijo, ao qual a pobre rapariga não retirou a tempo a face e que a
lançou n'uma especie de desespêro, fingido talvez, de certo… mas bem
fingido…
Jenny reproduziu o gesto de desgosto.
–Mas não me condemnes, Jenny,–apressou-se Carlos a acrescentar–porque
a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca
descobrir quem ella seja. Além d'isso cumpri religiosamente o
promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devéras; ainda
hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento…
Vamos, não continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me,
quando eu…
–A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste
em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final… o
final… na verdade…
–E vês o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que
me deixou mais agradavel memoria de si…
–Então!–disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mão–Olha se queres
que retire ainda o perdão que já te dei. Que mais terás a pezar-te na
consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposição benevola.
–Julgo que não tenho mais nada.
–Ahi está uma alma com excellente opinião de si! Visto isso, tens
cumprido todos os teus deveres?
–Mas… deveres de que genero?
–Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!
Deveres de christão, de cidadão, de filho, e de…
–O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem és, Jenny! vamos por partes,
senão…
–Pois bem, quero fallar-te agora só de uns, que me parece teres
descurado um pouco.
–Falla.
–Dize-me: tens ido ao escriptorio?…
–Ai, o escriptorio!–disse Carlos, rindo–Então era d'isso que me
querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.
–Tens lá ido?
–Eu não.
–Não!
–Ha já bastante tempo que lá não vou, ha… mas… achas isso grande
peccado?
–E pergúntal-o? Não é o trabalho um dever?
–O trabalho será.
–Então…
–É que faz sua differença. Tu não sabes como eu trabalho no
escriptorio? É outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir
devéras, se não fossem tão fastidiosas. É preciso que saibas, minha boa
Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o
trabalho–trabalho, está encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse
sim. É quem alli faz tudo, quem a tudo dá solução, e parece-me que o
unico até capaz de o fazer. Exige-se que eu vá lá tambem, não para
trabalhar; a minha cooperação o mais que faz é impacientar o bom do
homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos
papeis commerciaes. Eu vou só para fingir que entro n'aquellas cousas,
para representar de commerciante, embora não penetre em nenhum dos
segredos ou transacções, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se
de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois
tão dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle;
ámanhã, dar-me-hão parte da conclusão de outro, cuja existencia eu
ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de
me ver lá em baixo, como representante da firma Whitestone & C.ª, e mais
nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como
uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praça, converso em
tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto é trabalhar…
–Mas, já que te repugna essa ociosidade, porque não trabalhas devéras?
–Porque não é costume. O trabalho é para o guarda-livros. Nós somos uma
especie de padrinhos; damos o nome á creança e pagamos-lhes o enxoval,
mas não nos encarregamos das fadigas da sua educação. Comtudo, já uma ou
outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrança
minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal
disfarçado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.
–Pois bem; porisso mesmo que tão pouco se exige de ti é que devias ser
mais assiduo.
–Mas é tão monotono! Fazes lá ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,
Jenny; abomino-a.
–E preferes mortificar o pae, que já hoje se queixou das tuas faltas,
quando um pequeno sacrificio…
–Não lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a
fazel-o para te agradar. Ámanhã…
–Ámanhã!–disse Jenny, encolhendo os hombros.
–Pois então? queres que já hoje?…
–E porque não?
–Mas vê que já é tarde…
–Mais tarde será se te demorares.
Carlos emmudeceu.
–E ao mesmo tempo–proseguiu Jenny–aproveitaria a occasião de mandar
saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha já tantos dias não apparece.
Não tenho querido que lá vá nenhum criado, porque, por mais que lhes
recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se
tanto… Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho…
Jenny sabia que qualquer acção generosa servia a Carlos de estimulo para
realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma
das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. Não se enganou a
previdencia da irmã.
–Está dito–disse Carlos com modo resoluto.–Vou hoje … trabalhar.
Mal sabe Manoel Quentino, que é o grande motor d'aquella machina
commercial, o que lhe está imminente. O homem dá ao demo o meu auxilio;
mas que t'o agradeça, Jenny. Manda-me o José para me ajudar a vestir;
inda hoje me não deu o gosto de o ver, o mariola.
–Ai, o José?–disse Jenny, pousando a mão no hombro do irmão–Olha,
Charles, o pobre rapaz tem a mãe tão doente, que eu tive pena d'elle e
mandei-o…
–Basta, basta; fizeste bem. Eu não me lembrava d'isso, senão…
Passaremos sem o José, e não passaremos mal.
Jenny abraçou o irmão, e saiu contente da sala.
Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praça Commercial
pelas duas horas da tarde.
VIII
NA PRAÇA
Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que
o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.
A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam
os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e
de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em
occasião assim.
Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos
differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar
indicios da posição commercial, que elles occupam.
Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras
medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento,
mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de
porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes
oraculos;–são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de
outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades
da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes,
meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III,
na abertura do parlamento francez.
Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não
escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não
teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente
cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das
pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o
tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da
eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é
representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.–São estes os
negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de
grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a
numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem,
mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os
valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada
esperam d'ella.
Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil
interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de
cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos
mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se
por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem
pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou
faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam
os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a
distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro
de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de
novo. Que quer dizer isto?–É um negociante fallido de pouco e rodeiado
de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em
quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes
concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e
precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem
os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a
pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes
negociantes fallidos.
O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa
distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram
suspensos, aquelles, cujas remotas _fracturas_ teem sido miraculosamente
_consolidadas_ pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de
maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é
possivel a discriminação.
A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa,
agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com
papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em
outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou
a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que
já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e
interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo–attenção nem
sempre retribuida–; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de
fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os
despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga
da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se
pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser
incommoda de ver-se.
É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois
interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio
da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se
dizem–caixeiro e patrão–. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba
do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe,
olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de
longe falla por acênos–distracção perigosa para a clareza da ordem
dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu;
os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o
botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado,
emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da
commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na
execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito,
circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de
que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais
impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por
o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.
Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém
muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que
fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que
não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade
substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de
tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão
tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para
a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes,
sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios,
transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás
escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante
dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços,
amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente
munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram
a atacar.–São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.
A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta
_bureaucracia_ ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente
á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar
das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre
os dedos, como para significar que é momentanea a pausa–o que nem
sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e
attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua
classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum
collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um
charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia
requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos
distrahidamente correspondidos por estes.
Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes
capitalistas–commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz,
como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o
brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o
labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar
a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o
empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas
de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade,
estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás
ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados
á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de
inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de
portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça
commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.
Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre
gente, que toda lhe era igualmente familiar.
Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.
O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não
deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.
Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava
pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no
cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando
ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça.
Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam
acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões
e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e
jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como
elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados;
d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre
uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as
qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do
cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a
Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o:
chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a
lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o
chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um
homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio
Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando
menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia,
conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um
primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe
pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.
N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça
aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,–unico fim que tinha na
ideia.
Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era
assiduo frequentador.
Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se
das mais graduadas individualidades da praça.
Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no
de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho
inglez, que estava na companhia tambem.
–O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto–dizia
um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito
portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que
temos ainda por cá.
O inglez estremeceu de pasmo.
–_What!!_–A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão–Na
Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?
–Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores…
–Ora então… então… A Bolsa de Londres… o Royal Exchange… não
vamos mais longe… o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal
Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto
chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois
levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra
bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a
primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em
tres annos estava completo.
–E esse quando ardeu?–perguntou Carlos.
O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em
circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.
Carlos interrompeu-o outra vez:
–O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel
disposição para _arderem as bolsas_.
O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e
batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de
vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que
lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da
noticia historica e architectonica.
–Mas, senhores!–dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o
meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos
directores da mesma–Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei
de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram.
O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se
penhore; porisso voto que…
–Mas repare,–dizia o director com exemplar paciencia–repare que as
garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se…
–E adeus, minhas encommendas!–tornou o outro–Ora que é scisma! Mas
quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje
são tudo e ámanhã são nada… Faz-se o contracto com uns e ámanhã
respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas
fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu… E os
nossos capitaes…
Estes capitaes eram cem mil réis por junto.
O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.
Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista
dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio,
dizendo-lhe a meia voz:
–O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma
companhia monstro.
–Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o
senhor…
–Ouça–insistia Carlos–é negocio dos accionistas ganharem quarenta por
cento, avaliando muito por baixo.
O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.
Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!
A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.
–Pois sim, mas… eu agora…–dizia ainda o homem.
Carlos insistiu:
–Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes,
que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da
instituição. É porisso que eu…
–Mas que é a final?–perguntou o sujeito com curiosidade.
–Demais espera-se que o governo conceda um subsidio…
O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á
tentação d'esta vez.
–Mas qual é o fim?–perguntou em vez d'isso.
–E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este
commettimento–continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal
companhia.
–Mas o fim da empreza? … o fim?–bradava já o outro.
–O fim? Um grande fim… uma nova via de trafego commercial entre a
cidade alta e a baixa.
–Como? Alguma rua…
–Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no
seio da cidade.
Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do
accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:
–Mas… que é? como?
–Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.
O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas
cêdo depois voltou-lhe as costas _desapontado_ e procurou o director,
que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e
desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro
lhe apontára ao peito–Quem era o governo?
O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são,
que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de
aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais
asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado,
no Douro.
O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era
uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um
collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este
terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho
do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de
pedidos–da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como
resentiu–parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem
pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no
ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu
valimento e ser até importuno para servir o amigo.
Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se
diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido,
aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora
provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com
que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado
diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á
franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do
caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:
–Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?
Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas
phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar
orações sem nexo, separaram-se friamente.
O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais
com elle pela sua pouca lisura.
E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos
como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda
aos mais reservados e egoistas.
Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.
Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo,
baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.
Parou a escutal-o.
–V. s.ª passou bem?–disse o recem-chegado.
Carlos correspondeu ao cumprimento.
–Ora eu–continuou o homem–já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª;
mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me
conhece.
–Não, senhor–disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do
seu interlocutor.
–Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o
anno passado…
Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o
botão de peito do snr. Anastacio Rebello.
–Ora v. s.ª–proseguiu este–ha de estar certo de que ha dois mezes…
um meu correspondente de Braga me pediu… Eu não sei se o pae de v. s.ª
lhe disse… Talvez não dissesse…
–Talvez não–disse Carlos, sem o attender…
–Pois o negocio é simples: este meu correspondente… que é também meu
compadre… isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança
de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por
causa de uns humores frios que…
Carlos assobiava já.
–Mas agora quer este meu compadre… Olhe; aqui está a carta que elle
me escreveu;–proseguiu o homem, procurando-a no casaco–eu julgo que a
trago commigo… Por ella fará ideia.
E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens,
letras, contas, recibos… dizendo, ao passo que examinava cada qual por
sua vez:
–Não… isto é outra cousa… é a ordem para me pagarem uns cincoenta e
tantos mil réis… E já não veem sem tempo… Mas onde diabo puz eu a
carta?… Não é isto… Isto é o escripto de arrendamento da minha casa
do Forno Velho… Isto é… Que S. Pedro é isto?… Ah! a carta do
Maranhão… isto … isto é uma encommenda que me fazem de Bragança…
V. s.ª não me sabe dizer onde se vende… a estampa da guerra da
Crimeia?
–Eu não, senhor–disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.
–Encommendaram-m'a e eu…–continuava o homem, seguindo-o–Ah! achei;
cá está a carta!–exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco–Ora
quer ler?
–Eu não, senhor–respondeu este, tentando evadir-se.
–«Prezado amigo e compadre–principiou o homem a ler.–«Recebi a sua de
13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre…–é a
mulher d'elle–recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo–é a minha
mulher…–e o Juca…–é o tal meu afilhado…–manda muitos beijos ao
padrinho…
–Que é o senhor–disse Carlos, já impaciente com a massada.
–Justamente–respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.
–Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me–acrescentou Carlos,
fazendo outra tentativa para fugir.
–Isto tambem não interessa…–concordou o homem–aqui mais abaixo é
que… tal, tal, tal… sim, senhores…–«A festa do Bom Jesus este
anno promette ser feita com espavento e eu espero que
vocemecê…»–Elles querem que eu…
–Com licença, que estou com pressa.
–Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo…–«A camara
municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma
derrota que…»
Carlos já não podia mais.
–Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?
–Tem v. s.ª razão… É que eu julgava… Tal, tal, tal–«O seguro não
quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do
Souto…»–Olhe que tambem isto de seguros…
–Adeus–disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.
–Ah! é aqui; agora sim–exclamou este triumphantemente–Cá
está…–Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra…
Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através
d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos
vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua,
deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.
–Adeus, minha flor.
A rapariga respondeu-lhe:
–Ninguem o conheceu hontem no baile.
–Então esteve lá?
E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe
commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.
Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado
com o que via.
Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.
Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás
que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.
Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no
escriptorio.
IX
NO ESCRIPTORIO
Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho,
onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que
escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e
isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino,
personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e
homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como
mantenedores da serenidade do espirito.
Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com
que lidava, taes como:–correspondencias, facturas, contas correntes,
contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de
letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle
só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição
ordenada.
D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua
parte.
Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem
hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular
classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard,
antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer
orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do
guarda-livros.
Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao
soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava
Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora
depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás
tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a
chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião
extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.
Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de
prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios
juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia:
«para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á
regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o
serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado
alguma vez.
Observava pontualmente o judicioso preceito: _festina lente_, e
comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.
Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se
achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e
principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos
melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar
diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se
devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso,
visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.
Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro
paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo
ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas
de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos,
aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros
tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz
de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas,
os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo
os velhos modelos dos escriptorios antigos.
Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como
taes as amava.
Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois
segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o
guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo
quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para
fazer tudo por suas mãos.
Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos
escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle,
com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para
Londres.
Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa,
aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da
escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega
curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma
carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por
incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao
guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos
desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade,
entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo
lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer
d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio
um silencio, que agradava a Manoel Quentino.
Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que
estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.
Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.
Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver
associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a
quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a,
reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que
se pretende guiar.
–Anda, anda,–dizia elle–que ronceira que estás hoje! Olha que não
temos esse tempo, que julgas… Então?… Que é isso agora?… Pois já
queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te…
Bonito R! Isso não esperava eu de ti!… Adeus! Agora mais este
cabello!… E sujas-me todo!… Trapalhona!… Ai, que impertinente que
estás!… Adiante! adiante! adiante!… Espera, espera… Lá te esqueceu
um D!… E agora?… Agora vê se te mexes entre essas duas lettras…
Assim… Ah! … não toques nos SS … assim… Bem… Continúa, mas com
tento… Então! Não querem ver que páras outra vez? Ora isto é
demais!… Deixa estar que… Oh!
Era um borrão, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a
correspondencia quasi no seu termo.
«Trai la rai, la rai, larai lai
Trai, larai, larai, larão, lão
Trai larai lai, larai larai lai,
Trai lari, lari, lari, larão lão.
Trai lari, lari, lari, larão lão.»
Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre
n'estas occasiões criticas. E sem mais alguma observação pôz a folha
suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, não sem
primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:
–Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu–dizia para
outra.–Vê lá como te portas!
E, olhando fixo para ella:
–Umh! Não tens lá muito boa cara! não… Ora vamos a ver… Vá,
despacha-te, que tenho mais que fazer!… Abre os bicos… abre…
Assim… bem! Sim, senhora!… Bravo… Ninguem havia de dizer que tu…
Caspite!…
E com estas palavras de animação ia applaudindo o bom serviço da penna e
quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.
Foi n'este momento que um valente encontrão abriu a porta do
escriptorio, e o _terra-nova_, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o
até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar
a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.
Manoel Quentino, que estremecera com a subita apparição do quadrupede,
ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pôz-se a olhar
silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com
mais alguma invasão, não menos revolucionaria do que esta.
Effectivamente Carlos não se fez esperar.
–_Good Morning_, Mr. Manoel Quentino!–bradou Carlos do limiar, fazendo
para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.
–_Good Morning_, Mr. Charles–respondeu Manoel Quentino, encolhendo os
hombros e dando ás feições um ar de paciente resignação, uma especie de
bondoso mau humor.
Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graças á sua
longa convivencia com os _Her Majesty's subjects_ residentes na nossa
cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o
portuguez do patrão. Causava especial sensação ouvil-o pronunciar todas
as palavras inglezas n'um tom, inflexão e maneiras, do cunho mais
genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava
portuguez em inglez.
–Ditosos olhos que o vêem!–disse elle a Carlos; e depois para o rapaz
do escriptorio:–Olha aquella agua que se entornou…–e para Carlos
outra vez com gesto velhaco:–Então esteve doente?
–Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo–respondeu Carlos.
–Como não tem apparecido!–Anda, avia-te rapaz!
–Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?
–Umh!–resmungou Manoel Quentino.
Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o
romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.
–E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?–perguntou
Carlos, mexendo-lhe nos papeis–Cada vez mais bonito, cada vez mais
contente.
–Adeus, adeus. Não bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?
–Lumes. Não ha lumes n'esta casa? que diabo!…
–Eu logo vi. Não pensa senão em fumar. Espere lá, espere lá. Não me
desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.
Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros,
que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.
–Fumem–insistia Carlos.
Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.
Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.
Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem,
e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de
contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:
–Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. Não seja
fossil.
–Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de… E demais a mais, é
distrahil-os do serviço…
–Que serviço? Olhem o grande serviço que elles
faziam!–Rapaz–acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das
moscas da janella–vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu
casaco está prompto… e chega de caminho ao theatro de S. João,
pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis
cadeiras para a recita de quinta-feira… entendes? Seis cadeiras;
depois…
–E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a
correspondencia ao correio?–perguntou com mau humor Manoel Quentino.
–Eu sei lá d'isso? Anda, vae…
–Mas…
–Ora! mande ao correio quem quizer… Avia-te. Salta.
O rapaz saíu a correr.
Manoel Quentino encolheu os hombros.
Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de
vento, entrando na sala, fez esvoaçar toda a papelada da banca de Manoel
Quentino.
–Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!–exclamou o
guarda-livros–Adeus, minha vida; estou arranjado!
Carlos desatou a rir.
–Isso; ria-se, que tem muita graça! Então os senhores que
fazem?–perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros–Ponham-se á
palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?
–Deixe estar que eu apanho isso–disse Carlos, continuando a rir.
E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.
–Vão lá saber agora…–proseguiu Manoel Quentino–vão lá saber agora a
ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem… olhem… Ficou bonita a carta
do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas
da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas
apolices… E o maldito cão a afocinhar-me na agua aquella minuta!…
Passa fóra! Eh!… passa fóra, tratante.
E voltando á escrivaninha pôz-se a coordenar outra vez os papeis.
–Ó Manoel Quentino–perguntou-lhe Carlos já da janella–quem é aquella
rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova
para mim.
–Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.
–Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade…–disse
Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.
Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia,
transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda
incompletos, dezoito annos.
Á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.
–Não sei–disse depois de ver a pessoa designada–não a conheço. O
Pires ha de saber.
Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.
E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á
varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.
Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de
quando em quando para a janella e principiava:
Trai la rai…
trauteava o hymno da Carta.
O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os
seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino começou a
espirrar.
–Deus me salve!–dizia elle de cada vez.
Á quinta não teve mão em si, que não dissesse a Carlos:
–O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto
exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já
estou…–e espirrava outra vez–já estou constipado.
–N'esse caso recolho-me–disse Carlos, fechando a janella e vindo
debruçar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual começára de novo
a correspondencia.
–Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;–dizia Carlos expellindo uma
baforada de fumo, á qual o velho fez caretas–você será parente de
Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o
Walter Scott, Manoel Quentino?
–Eu não, senhor…–respondeu o velho, continuando a escrever.
–Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me,
já leu algum romance?
–Não, senhor, que tenho mais que fazer.
–Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler…
–Muito agradecido.
–O primeiro ha de ser _O Cavalheiro de_…
Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.
–_De Harmental_–concluiu maliciosamente Carlos–e acrescentou:–Não
sei de que se riem estes senhores.
–É porque teem a vida muito canceirosa–respondeu Manoel Quentino.
–Depois hei de emprestar-lhe a _Mademoiselle_…
O mesmo effeito nos caixeiros.
–_Mademoiselle de La Seiglière_–delicada concepção de Jules
Sandeau–concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.
–Adeus, já me fez enganar!–exclamou Manoel Quentino–Por sua causa
escrevi agora–cavalheiro–em vez de–Companhia.
–Isso emenda-se.
–Ha de emendar boas cousas.
–Emenda, sim. Olhe d'esse _a_ faz-se bem um _o_; depois o _m_ fórma-se
do _v_ e do…
–O remedio é outro…
E com exemplar paciencia começou nova carta.
–Oh! com os diabos! Então vae outra vez principiar?
–É o que o senhor faz.
–O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a
escrever assim!
–Não precisa.
E, para fixar a attenção, ia dizendo em voz alta o que escrevia:
–Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta…
–Não preciso? Preciso tal–proseguiu Carlos–rapariga a quem eu
escreva…
–Do nosso ajuste–dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos
alternadamente:–Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram
os cuidados!…–O preço do genero…
–Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga
se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do
seu tempo.
–E a competente commissão.–Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais
em que cuidar…–Em vista pois das ordens recebidas…–Cuida que me
levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por
altas horas, inda por causa d'ellas?
–Então que fazia você?–insistia Carlos, tomando a penna e desenhando
uma figura na margem do jornal do dia.
–Com lucros provaveis…–O que eu fazia bem o sei; ainda me não
esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos…
–Ah! madrugadas!… Bem entendo!…
–Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que
todos tiveram a sua vida. Bom era isso!–A fallencia da casa Rodrigues
e…
–Grande vida a minha!–continuava Carlos–Ha lá nada mais semsabor?
Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.
E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia,
aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e
quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.
–Oh! oh!–exclamou o velho, arredando-lhe a mão–Que ia fazer? Se lhe
parece, suje-me agora a carta.
Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.
–O pae inda não veio hoje aqui?
–Ha que tempos!
–E não volta?
–Ha de voltar, se Deus quizer.–É preciso fechar isto mais cêdo
hoje–continuou Carlos.–Estes senhores precisam de gosar o carnaval.
–Bom carnaval é o d'este mundo!
–Que horas são?
–Duas e vinte minutos–Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o
relogio e não errando meio minuto.
–Se meu pae…–principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo
ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.
Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.
Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma
folha ingleza e fez que a examinava na secção commercial.
Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior
agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.
Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma
das suas predilectas toadas inglezas; mas, graças ao duro ouvido musical
de que era dotado o velho _gentleman_, tão transtornada lhe saía ella,
que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.
O _Butterfly_, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que
lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro
_terra-nova_, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com
benevola, mas sisuda, magestade.
Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar,
exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expressão de
contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle
dia, estava bem longe de esperar alli.
O plano de Jenny sortira bom effeito.
Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos
foi ter com elle, para lhe pedir a benção e ao mesmo tempo aproveitou a
occasião para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de não ter
assistido na vespera ao jantar de familia.
Mr. Richard Whitestone já não tinha cousa alguma no coração contra o
filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor
sombra de resentimento.
–Não teve duvida–repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa
justificação de Carlos–não teve duvida, não teve duvida… Pois… esse
relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma
aos compradores, não fará differença de meio minuto em cinco annos!
Talvez seja confiança de mais!–acrescentou, rindo com vontade.
–Ou cegueira paternal–observou Carlos, rindo como elle.
–Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim–concordou Mr. Richard,
rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da
tal cegueira.
E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario
uma copiosa provisão de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua
terceira refeição d'aquella manhã.
Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposições
d'este mundo.
Se Jenny os podesse ver então, como exultaria de contentamento!
Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos
sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros
commerciaes.
Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns
negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas,
mas peremptorias.
O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao
guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturação,
abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e
dirigindo-se a Carlos:
–Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?–perguntou com
affabilidade.
–Ainda não, senhor.
–Manoel Quentino! Então porque lh'a não mostrou?!–disse o pae,
voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo
para Carlos:–Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade
de ser este um anno de vantajosas transacções, se por acaso…
–É um homem diligente, Mr. Leeson–notou Carlos, querendo dizer alguma
cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente
de Londres pelo do de Liverpool.
–Ho!–disse logo Mr. Richard, mortificado–Leeson!… de Londres!
Repara!… de Londres!?
Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observação, mas o peior
era que não sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do
tal correspondente.
–Ai, de Londres…–dizia elle embaraçado.–Eu julguei que… sim, de
Londres; é que me pareceu…
Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho;
mas não succedeu assim.
Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos–motivos, que o leitor
deve prever quaes fossem–para não julgar de instante necessidade pôr
Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a
escrivaninha e, procurando a carta em questão, levou-a a Carlos, não
podendo disfarçar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro
movimento de hombros.
Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pôz-se portanto a
examinar a carta.
–Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente–disse Manoel Quentino quasi
ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde
escrevia.
Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mãos, e de
quando em quando parava junto da vidraça, onde tocava um ligeiro rufo.
Não estava ainda de todo restabelecido da má impressão que lhe causára o
haver encontrado o filho tão pouco sciente do nome dos correspondentes
da casa.
Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.
Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de
Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da
aguardente, para elle inteiramente mysterioso.
Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da
sua posição, longe de diminuil-as.
Manoel Quentino continuava a escrever, lançando para Carlos, ao molhar
da penna, um sorriso malicioso.
Este pousou a carta.
O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexão.
Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel
signal.
Carlos aventurou-se:
–Emquanto ao negocio da aguardente…–disse elle com certa
hesitação–nada…
O effeito foi maravilhoso!
Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarçar a intima
satisfação, que lhe causava ver o filho tão bem informado, exclamou:
–Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que
nem estavas ao facto!
Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:
–Como era negocio de vulto…
Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.
–Isto é… de vulto não digo… mas…
–Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro … é assim–atalhou Mr.
Richard.
–Exactamente–concordou o filho.
Manoel Quentino sorria.
–Mas já estive a pensar–proseguiu Mr. Richard–talvez influissem
n'isto as condições do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de
exceder o maximo indicado nas nossas cartas.
–Póde ser, mas…–dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera
de receber inspirações d'alli.
Este affeiçoou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos
pareceu dever ser «juro». Por isso abalançou-se outra vez a dizer:
–E tambem o juro…
Parou, porque devéras não sabia o que devesse dizer do juro, nem se era
natural imaginar que tivesse subido ou descido.
Manoel Quentino moveu a cabeça em direcção do tecto, exprimindo
mimicamente a primeira hypothese.
–Talvez o juro subisse–concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.
Mr. Richard aproveitou a insinuação do filho, e evidentemente satisfeito
notou com vivacidade:
–Effectivamente o juro está muito alto em Londres.
–Ha muito tempo que o não tivemos tão desfavoravel–apressou-se Carlos
em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á
mesma ideia.
–É verdade que não. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos não
subiu tanto, como agora.
Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovação, que o
animou a dizer:
–Isso é que não sei; dez annos será demais, comtudo…
–Olha que não é demais–insistiu Mr. Richard, devéras admirado das
informações do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou,
voltando-se para o guarda-livros:–Em que anno teve logar aquella quebra
da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?
–Em outubro de 1847–respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.
–Em 47?–Ai, então tens razão, tens; 47 a 55… 8… É isso… Porque
eu lembro-me de que estava então o juro a 8 por cento.
–E d'essa vez–acrescentou Manoel Quentino–o cambio era-nos mais
desfavoravel que hoje.
–É isso, é isso.
Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfação de Mr.
Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia
do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na
obra de pacificação domestica, encetada por ella.
Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard,
depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendações mais, saíu do
escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um
signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era,
afagando na passagem o _terra-nova_, cousa que não praticava, senão em
occasiões de grande harmonia com o filho.
Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e
o dos latidos de contentamento do _Butterfly_, impaciente de liberdade,
já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha
caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo
charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.
–Até que soou a hora da redempção!–exclamou elle, pondo o chapéo na
cabeça.
–Então já se vae embora?–disse Manoel Quentino, maliciosamente.
–E acha você que não tomei dóse bastante de commercio esta manhã? Isto
em pleno carnaval? Que impiedade!
–Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Então com que,
está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!
–Vi-me devéras embaraçado com a tal aguardente!
–Mas saíu-se bem.
–Agradeço-lhe o auxilio.
–Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?
–Que vá para o diabo! Não me pôde occorrer o arrevezado nome d'esse
maldito. Como se chama elle?
–Então não sabe ainda? Woodfall Hope… Uma das primeiras firmas
commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente…
–Não, isso mais devagar, Manoel Quentino–atalhou Carlos–não lhe aturo
nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas
tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vão ver as mascaras. Adeus.
–_Farewell_! Mr. Charles… Eh! eh! eh!…
Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada
violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.
O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praça estava quasi deserta.
Como era terça-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do
commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino
augmentavam o effeito somnifero do logar.
De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o
«Trai larai, larai, larai, lai» do guarda-livros.
O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omissões e enganos, que
o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima
paciencia.
Voltou a si todas as culpas.
–Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as
creanças; merecia palmatoadas.
Depois, lembrando-se de Carlos:
–Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!
Em seguida para os caixeiros:
–Os senhores podem ir embora. Vão ás mascaras, vão; e olhem se teem
juizo e não arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.
–Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino…–disseram elles,
por deferencia.
–Eu quero, mas é que me deixem. Vão com Deus.
Os caixeiros não se fizeram rogar.
–Agora, juizo–continuou Manoel Quentino, ficando só–juizo, senão só
chego a casa á noite, e a Cecilia ha de estar com canceira já. Como se
transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cêdo, pois
levava o serviço adiantado e vae… Como diabo lhe deu o rapaz para vir
hoje ao escriptorio?… Bom moço, isso lá é, um coração de pomba… A
cabeça é que… E n'isto de negocio, então!… Eh! eh! eh!… E o pae a
imaginar ha pouco… A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te,
bôca, que tambem não pódes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe
devéras… Toda a sua pena é o rapaz não tomar gosto para o commercio.
Aquillo tambem muda… Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem saír.
O pae, um homem de bem ás direitas… a mãe era uma santa senhora…
Pois a irmã? Isso então nem fallemos… Um anjo! E pensar que não são
catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que
remedio tem S. Pedro senão ir recebendo-os no céo.
Em consequencia da visita de Carlos, só ás tres e meia foi que Manoel
Quentino pôde terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar
a casa com appetite no estomago e tranquillidade no coração. Já vê o
leitor que tinha razão Carlos ao assegurar que não era das mais
proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.
X
JENNY
Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o
escriptorio. Era um delicioso quarto, côr de violeta, onde se divisava o
bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um não
sei quê de austeridade ingleza, não em tal grau que destruisse a feição
leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos,
mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em
extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.
Não lhe era cabida a descripção, que um romancista francez nos faz do
quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos tão abundantes as
tapeçarias e alcatifas que, em todo elle, se não mediria uma pollegada
de madeira a descoberto, e tão flacidas e macias, que n'essa gaiola
perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de
magoar as azas.
Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole
séria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a
ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se
sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde
áquelle esbelto e inflexivel de fórma, que lhes é proprio, tão diverso
do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.
Não se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia,
quasi de boneca, dos _boudoirs_ da moda, onde predominam o _papier
maché_, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma
arte, que, á força de querer apurar em delicadeza os seus productos, os
faz ás vezes acanhados e ridiculos.
A elegancia, alli, não abdicava certa dignidade, á qual hoje é raro
combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo
era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco,
damasco; as rendas, rendas verdadeiras. Não havia nos moveis esses
tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preço, outras de
menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitação, obtidas com
vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com
falsos titulos de nobreza. Nem um só objecto mentia dentro d'aquelle
recinto.
Os caracteres, naturalmente observadores da boa fé, até n'estas cousas a
amam.
A côr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia
vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente
descidos.
Côres mais garridas só as das camelias, que, em singelas jarras de
_biscuit_ e porcellana, adornavam o toucador e o fogão.
Não usurpavam o logar, devido ás pobres flores, essa profusão de
quinquilharias, hoje tanto á moda: vidros de essencias, de pomadas, de
oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe,
flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com
preferencia ás verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de
varias côres e fórmas e uma infinidade de pequenos objectos, que dão a
qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposição de
feira.
Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra,
algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de
religião, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli
se podia ver.
As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas,
representando meninas a disfarçarem um sorriso atraz do leque, a
brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos através de
uma luneta e em outras muitas posições todas affectadas, de tão
graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, então commum nas salas
do Porto, notavam-se as mais afamadas producções do inexcedivel buril
britannico e algumas aquarellas, cópias fieis de paizagens inglezas.
A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que
lhe temperavam a intensidade, até o grau adequado aos habitos de viver
de Jenny.
De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em
que se aprazia o espirito, pensador e inclinado á melancolia, da
amoravel irmã de Carlos.
Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada ás
mãos a fronte pensativa, em silencio, a sós, tantas vezes, como agora, a
sympathica menina se entregava a meditações abençoadas de Deus, e das
quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.
Agitado o coração de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava
n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da mãe, fiel e
mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.
A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a
com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagára dos labios, produzia
em Jenny a mais poderosa impressão.
Ás vezes, á força de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas
amadas feições se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos
labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos tão cheios
de piedade e de tristeza.
Que alegria para o coração da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da
mãe, evocada pela sympathia filial, passára alli, illuminára
momentaneamente a imagem inerte, e abençoára a filha, que tão pequena
deixára orphã de apaixonadas caricias.
Esta illusão vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do
coração humano, para os quaes não há confidentes possiveis. Perante a
amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por
expansiva que seja, não se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso
mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam
esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que nós mesmos nos
ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;–que não ousam. Ha
exemplos de perfumes tão subtis, que, aberto o vaso que os contém, quasi
instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios
interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem,
ao tentarmos communical-os.
Guarde cada um para si essa parte do pensamento, superstições
infundadas, crenças pueris, que não podem separar-se de nós, sem que nós
proprios as desconheçamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das
pobres, que não nasceram para viver senão assim, presas á alma, de cuja
essencia parece receberem vida.
São como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se
expande na agua em formosas arborisações, illudindo as esperanças dos
que, namorados de tanta belleza, as arrancam de lá; fóra do ambiente, em
que vegetam, cêdo se mirram e desformam.
Bem lucida e forte era a razão de Jenny, e comtudo, no mundo interior,
nutria a crença illusoria–pelo menos illusoria me parece, a mim que de
fóra a examino–de que aquelle retrato de sua mãe não tinha uma
expressão invariavel.
Eu queria dizer que isto era sentido, e não pensado, pela bondosa
menina; mas não sei se o rigor philosophico me permittirá a linguagem; e
comtudo não vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente
phenomeno psychologico–o da persistencia de certas crenças irracionaes,
nos espiritos mais vigorosos e logicos.
Dias havia, em que nos traços e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny
julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no
coração; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos não
sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem
presagio de mal.
Seriam reflexos de presentimentos proprios, que então a illudiam?
Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o
assim?
Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?
Jenny era ainda uma creança, quando perdeu a mãe; no meio dos jogos e
dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no
coração; ao seu lado, crescera o mal ameaçador e terrivel, mas, no
descuido de tão tenros annos, só dera por elle, quando a victima lhe
caía prostrada nos braços. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um
momento a vida inteira se lhe affeiçoou muito diversa, do como até então
a antevira. Cêdo, muito cêdo, aquella creança franzina e debil, recebeu
a solemne investidura da sacrosanta missão de mulher; transmittiu-lh'a a
mãe, já moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa
abençoada, que até o fim cumprira, sem um só dia de desalento.
Apertando nas mãos já frias as da filha lacrimosa, que só então vira a
morte, que, tanto havia, a ameaçava nos seus mais queridos affectos,
incumbiu áquelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz
trémula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe
que a essas mãos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade
dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeições e de
carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e
desillusões, colhidas lá fóra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo
ao peito a filha, como em extrema recommendação, para a qual as palavras
lhe faltavam já, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e
impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orphã, depois de a
chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze
annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e
fervente da sua nova missão.
É um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se
abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no coração d'aquelles
que era dever seu tornar felizes. Só então principiou a reflectir que,
entre os corações mais nobres e puros, se estabelecem ás vezes
contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio
e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal,
de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais
vezes é do encontro de duas paixões, na essencia generosas, que a
tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante póde governar o
movimento e a derrota de um navio, mas é necessario que seja extrema a
sua violencia, para que elle, por si só, o faça sossobrar; penetre porém
o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos
encontrados; e a submersão será quasi inevitavel.
É assim na vida.
Não basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laços de
familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles
exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e
serão já de temer os embates e as perturbações fataes.
A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam ás
vezes da combinação de elementos inoffensivos.
Tudo isto se foi esclarecendo, á força de meditações, no espirito da
pequena Jenny, que tão precoce adeus teve de dizer áquellas espontaneas
e não motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo
suspiro da mãe.
E cêdo foi, muito cedo para uma creança ingleza que, de ordinario, na
idade em que as outras principiam já a querer ser senhoras, brinca
alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se
affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe não humedecer na relva.
Esta livre expansão, que sabem e costumam dar á alegria as pequenas
inglezas, é talvez a causa de serem desaffectadamente sérias, quando
emfim a natureza, e não a arte prematura, as faz mulheres.
Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e
irreprimiveis, que a cada palavra, que á menor causa rebentam, como da
laranjeira florida chovem sobre o prado as pétalas nevadas e fragrantes,
á mais leve viração que lhe agita a folhagem.
Afez-se a reflectir, a votar-se toda á felicidade dos seus, procurando
insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os
dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de acção, no mesmo circulo,
em que tinham de viver.
Desde essa época principiou a crescer e a vigorar com rapidez o
predominio de Jenny em toda a familia–suave sujeição, grata aos que a
supportavam, como uma benção do céo.
Até então amára-se em Jenny uma creança meiga, cujas graças joviaes
faziam distrahir o espirito de preoccupações mais sérias; cêdo porém
tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.
Em Mr. Richard Whitestone á affeição protectora, de que rodeiava a
filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios
de veneração; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os
jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou
gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submissão,
que em todos os seus actos se denunciava.
Forte com esta dupla preponderancia, ía cumprindo Jenny religiosamente o
legado da mãe, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na
sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da
tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella
alma de justa, que a contemplava do céo.
Este oraculo, para todos mudo, só eloquente para os sentidos da filha,
consultava-o Jenny com ardente fé ao encerrar-se sósinha no quarto, onde
a luz e o rumor de fóra penetravam discretamente, como convinha a logar
de tão piedosos mysterios.
Era triste a imagem d'esta vez!
Triste porquê?
Se os labios da irmã de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias,
que tão profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:
–Pobre mãe! porque venho encontrar-te assim triste? Não passaria ainda
a nuvem d'esta manhã?… Mas era tão ligeira!… tão leve! que a mim
mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa mãe?–Isto pensava, ao
beijar o retrato–Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio;
pobre Carlos! É tão bondoso aquelle coração! Como elle havia de amar-te,
como havia de acariciar-te, mãe, se ainda vivesses comnosco! Poucos o
conhecem bem. Mas por que estás ainda triste? Has de ver como voltarão
amigos. É facil reconciliar aquelles corações, que a final tanto se
estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo
excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de
Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento…
resentimento proprio de quem muito estima!… Então! Já não tens
confiança na tua filha? Bem vês como todos aqui me querem. Elles de
certo vêem em mim alguma cousa do teu espirito, mãe, para serem assim
tão doceis com uma pobre rapariga. É á tua alma, á tua alma, que me
acompanha, que elles obedecem a final. Continúa ao meu lado, mãe, e eu
serei forte; não me abandones, e verás que não ha fundamentos para
apprehensões. E ainda triste!–E beijava o retrato–E ainda!… e
ainda… e ainda!…–beijava-o repetidas vezes.
Depois tentava a razão dissipar aquelas piedosas illusões:
–Estou louca!–pensava então Jenny–Pois como póde um retrato…
Aproximava-se mais da luz.
As illusões voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o
vento afasta das flores.
–Não sei, não sei como isto é, não posso saber… mas esta expressão é
mais triste do que a de hontem… De que procede esta tristeza?… A
maneira por que me fallou do baile de hontem… O baile! … acaso …
aquela mascara?… Mas que póde resultar d'alli?… Meu Deus! diria que
ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar…
N'isto ouviu passos fóra da porta.
Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impressão do retrato
para os sentidos, meio allucinados, da commovida…
visionaria–chamar-lhe-hei assim?–Apressou-se em escondel-o.
A figura de Luiza, aquella mesma criada que já conhecemos, appareceu no
limiar.
–Que é, Luiza?
–É a filha do snr. Manoel Quentino.
–Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei
para que a fez esperar–acudiu Jenny com vivacidade.
Era Cecilia uma das suas mais affeiçoadas amigas.
XI
CECILIA
Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha,
risonha como uma creança, a filha de Manoel Quentino. Era a unica
familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.
Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mão … e «beijaram-se», pensará a
leitora. Pois não beijaram, não, minha senhora; as inglezas poupam muito
mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um
amigavel aperto de mãos, um sorriso, uma phrase affectuosa… e mais
nada. Será para os fazer mais apreciados, quando concedidos?
Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas
suas mais felizes realisações.
É costume entre nós, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a
belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as
italianas, entre as allemãs, e entre as inglezas, mas nunca entre as
nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime
resignação de martyres, esta velha e flagrante injustiça.
Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando
d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição
estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou
menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.
É vulgar ouvir-se dizer:–«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso
certo ar germanico!»–«Que mulher! Tem o _salero_ de uma
hespanhola!»–«Que magestade! que _morbideza_! É uma perfeita _madonna_
italiana!»–«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida _lady_!» O
que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «–Que
sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»
A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada
e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio
somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os
estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.
Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu
logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á
maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no
excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos
da origem.
Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma
confissão:–Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos
circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto,
uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar,
com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das
grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;–fallam
dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem
se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens,
das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua
provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e
no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.
Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam
conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença;
envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca,
por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a
vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia,
se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos
averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de
sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros,
elles lhes concedem.
Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de
Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez,
Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de
fidalguia; que por nós … continuariamos, calados, a ler um e a beber o
outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou
pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.
Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo
succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á
moda:–«Ah! as hespanholas!»–«Oh! as italianas!»–«Ai, as allemãs!» e
julgariamos de mau gosto dizer em publico:–«As portuguezas!» até sem
interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.
E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta
cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.
Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha
gloriosa.
De certo não serão os leitores que m'o levarão a mal.
Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de
todas as já estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas,
como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria
sómente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem
merecem essa distincção.
Uma família ingleza Scenas da vida do Porto
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Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
at https://www.pgdp.net
UMA FAMILIA INGLEZA
UMA FAMILIA INGLEZA
SCENAS DA VIDA DO PORTO
POR
JULIO DINIZ
Terceira Edição
Porto
Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor
18--Rua dos Caldeireiros--20
1875
TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31
UMA FAMILIA INGLEZA
I
ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAÇÃO AO LEITOR
Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar
a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais
obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente
inglezes, do que Mr. Richard Whitestone.
Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de
fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras
praças da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios
da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente
provada.
Nos livros de registro do _Bank of England_, bem como nos de alguns
_Joint-Stock banks_ e dos banqueiros particulares da _City_ ou de
_West-End_, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este
credito florescente.
Não era Mr. Richard homem para seguir sómente caminhos batidos, nem para
empallidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a
sós com os seus esforços e tenacidade.
Por vezes arriscára capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos
ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim
proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores
garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e
positivos e sempre desconfiados a respeito de innovações.
Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades tão frequentes
na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone,
respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o
mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard,
com o esplendor tradicional; emquanto que não sorriram fados tão
propicios ás de muitos meticulosos e precatados, não obstante egoistas
abstenções.
Era o caso de mais uma vez repetir o _Audaces fortuna_... de já estafada
memoria.
Esta immunidade, em parte devida á lucida intelligencia, com a qual Mr.
Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em
parte a não sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes
parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confiança
entre todos, com quem o negocio o ligava, confiança da qual, nem em
circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario.
O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praça--nome que
entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de
transacções do alto commercio portuense--festejavam-o benevolentes
sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante
amabilidade e affectuosos _shake-hands_, segundo o mais ou menos
adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.
Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstrações de estima, ou as
impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do
commerciante britannico, ou--como de preferencia opinarão os que melhor
conceito formam dos homens--um longo passado sem mancha, uma rectidão e
cavalheirismo, aquilatados todos os dias.
Mr. Whitestone não se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos
seus confrades, aliás merecidas.
Decididamente não era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa
especie de incenso moral, que tão bem formadas cabeças atordôa, não
sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da
razão, n'elle pouco sujeita a esvaîmentos.
Os gêlos d'aquelle coração, formado e desenvolvido a cincoenta e um
graus de latitude septentrional, não se fundiam com tão pouco.
Lôas, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar
as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de veneração a todo
o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar
certa agradavel e voluptuosa titillação da alma--se me admittem a
phrase--que em quasi todos os filhos de Eva,--primeira e mal estreiada
victima da lisonja--produzem sempre os panegyricos do merecimento
proprio, entoados por bôcas alheias.
A mesma indifferença, a mesma, se não absoluta impassibilidade,
estabilidade de razão pelo menos, com que, uns após outros, esvasiava
copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de _rhum_, de _cognac_,
de _kummel_, de _gingerbeer_, e até de absintho, libações, que a
qualquer pessoa menos inglezmente organisada ameaçariam, em pouco tempo,
com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa
mesma indifferença e impassibilidade oppunha ao effeito, não menos
inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos.
A eloquencia cortezã dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a
recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affectação, o
nacional _God save the queen_, ao qual marcava compasso com a cabeça ou
com a bengala.
Não se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro
cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois
as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone
terreno ingrato para tal genero de cultura; não vingavam lá.
A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas
subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares
convencionaes, muito á moda nas salas e que variam com as épocas,
hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado.
A delicadeza que elle praticava não era de facto essa. Fazia-a consistir
toda, a sua, nos sentimentos e nas acções inspiradas pelos eternos e
invariaveis dictames da consciencia e da razão, superiores portanto ás
fluctuações caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural.
Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, ás vezes rude,
mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa
personificação do typico John Bull.
Alheio e pouco propenso á metaphysica, não o namoravam as transcendentes
questões de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias
da época; todo votado á contemplação da face positiva da vida, se não se
arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos
futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do
demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas
meditações sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o
pensamento.
Possuia em compensação Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra
as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de
espirito, que, segundo Sterne, se diz _obstinação_ nas más applicações e
_perseverança_ nas boas.
Outra apreciavel disposição de animo caracterisava ainda o nosso
commerciante:--era a de não ser sujeito a longas mortificações, ou pelo
menos--e com mais rigor talvez--a de não as manifestar nos gestos ou por
quaesquer signaes exteriores.
Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de
estoicismo lhe encrustára o coração, libertando-o da influencia dos
estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de tão
numerosas sympathias.
N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christãos grangearam o
titulo lutuoso e elegiaco de _Valle de lagrimas_, não sabia successo
possivel, catastrophe realisavel, com força de alterar por muito tempo a
costumada expressão physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer
o colorido vigoroso, ou,--como julgo se lhe chama em linguagem
technica,--o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de
satisfação, despertador das mais justificadas invejas.
Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias ás
nossas praias, é este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa.
Cada uma d'essas figuras britannicas vale por um protesto mudo, mas
eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escriptores
meridionaes.
Teimam de facto estes em que são indispensaveis os vividos raios do
nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento
peninsular, onde não tem, como a de Londres--_a romper a custo um
plumbeo céo_--para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o
reflexo d'ellas; imaginam fatalmente perseguidos de _spleen_,
irremediavelmente lugubres e soturnos, como se a cada momento saíssem
das galerias subterraneas de uma mina de _pit-coul_, os nossos alliados
inglezes.
Como se enganam ou como pretendem enganar-nos!
É esta uma illusão ou má fé, contra a qual ha muito reclama debalde a
indelevel e accentuada expressão de beatitude, que transluz no rosto
illuminado dos homens de além da Mancha, os quaes parece caminharem
entre nós, envolvidos em densa atmosphera de perenne contentamento,
satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente,
satisfeitos de si.
Nem é para admirar que o romancista inglez James ousasse abrir o
primeiro capitulo de um romance seu com a seguinte exclamação:
«_Merry England! Oh, merry England!_» Alegre Inglaterra! oh! alegre
Inglaterra!
E por que se não ha de chamar alegre á Inglaterra? Como se generalisou a
infundada crença de que o inglez é por força melancolico?
É uma d'estas abusões, para lhe não dar nome peior, contra as quaes
ninguem se precavê com sufficiente criterio philosophico.
Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colonia ingleza,
á qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e verá que nem só nos tempos em
que a civilisação e a industria não tinham ainda arroteado as densas
florestas britannicas, seria cabido o jovial estribilho da canção que o
supracitado romancista pôz na bôca do legendario Robin Hood, seu
heroe:--«_Ho, merry England, merry England, ho_»; póde ainda cantar,
através dos nevoeiros e do fumo das fabricas, o inglez moderno, fiel
depositario d'aquelle folgado caracter nacional.
Eu tenho ha muito como ponto de fé, que ainda que o _spleen_ seja doença
indigena da Gran-Bretanha, não domina tão fatalmente sob o céo Londrino,
como muitos parece imaginarem.
Dryden affirma que as comedias inglezas possuem sobre as de todo o mundo
incontestavel superioridade.
E querem saber a que attribuem alguns esta superioridade da comedia
ingleza? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrario, tantos accusam
de fomentador de hypocondrias e suicidios.
O clima inconstante da Inglaterra, explicam aquelles, é proprio para
favorecer o desenvolvimento d'esses caracteres excepcionaes e
extravagantes, precioso e inesgotavel pábulo do espirito comico da
Gran-Bretanha.--A jovialidade dá-se muito bem n'aquelle poderoso
imperio.
Tom Jones e o proprio Falstaff são typos mais inglezes talvez do que uns
sombrios caracteres, que Byron pôz á moda.
Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do _Times_, o inimigo declarado da
França, apesar de certa seriedade de convenção, era metal inglez, livre
de toda a liga.
Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmatica ingleza o
constrangia, lá lhe estava o gesto a denunciar, que era artificial tudo
aquillo.
Emquanto ao physico..., emquanto ao physico era Mr. Whitestone
caracterisadamente inglez.
Não supprirão estas palavras mais circumstanciada descripção?
Não ha entre nós quem, ao ver por ahi, nos maiores e mais mesclados
ajuntamentos, certa ordem de typos masculinos, hesite em attribuir-lhes
por patria a velha Albyon, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a
terra dos _meetings_, dos _puddings_ e de muitas cousas mais?
Pois bem, todos esses caracteres, todos esses signaes distinctivos dos
mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de
Mr. Richard Whitestone, como certidão de naturalidade, limpa da menor
viciação.
Era aquella conhecida tez, quasi côr de tijolo; aquelles olhos azues, á
flor do rosto, a resplandecerem como saphiras; aquelles cabellos e
suissas ruivas, que, sem grande violencia de imagem, poder-se-hia talvez
comparar ás lavaredas do fogo, que lhe inflammava constantemente as
faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de perolas, e
alvos, como os caramélos das montanhas; a postura erecta; os movimentos
promptos, e no rosto o tal continuado ar de satisfação.
Do vestuario podia dizer-se quasi o mesmo.--Não falseava o typo. Era
ainda inglez de lei.
Um pequeno fraque de panno azul, fabricado nas melhores officinas de
Yorkshire ou do West of England; as calças, curtas e estreitas, dentro
das quaes as descarnadas tibias podiam fazer o effeito do embolo em
corpo de pneumatica; as botas esguias e compridas, onde a elegancia era
sacrificada á solidez; gravata e collete alvissimos, como os de um lord
do parlamento, e, de inverno, vestidura completa de _gutta-percha_ que,
n'estas épocas utilitarias e prosaicas, veio substituir as impenetraveis
armaduras da idade média--taes eram as peças principaes do guarda-roupa
do honrado negociante. Coroava finalmente tudo isto o chapéo, aquelle
chapéo de fórma invariavel, castello roqueiro inaccessivel ás ondas
destruidoras da moda; baluarte inabalavel no meio dos ventos encontrados
dos humanos caprichos; o chapéo, cujo molde classico dá a um grupo de
inglezes um aspecto, que é só d'elles; o chapéo, expressão symbolica da
indole industrial e fabril da famosa ilha, pois desperta lembranças das
chaminés, que ouriçam o panorama das suas mais manufactureiras cidades.
Respirando, havia mais de vinte annos, a atmosphera perfumada do nosso
clima meridional, e bebendo, em todo este tempo, da propria fonte o
predilecto das mesas britannicas, o genuino _Portwine_--esse nectar,
cujo aroma, ainda mais que os da nossa atmosphera, é grato ás
pituitarias inglezas, Mr. Richard Whitestone não conseguira, ou melhor,
estas influencias, com todos os outros feiticeiros attractivos da nossa
terra, ainda não haviam conseguido de Mr. Richard Whitestone dois
importantes resultados:--a adopção dos habitos de vida peninsular,
contra os quaes antes reagia sempre com a inteira inflexibilidade de
suas fibras britannicas, e o respeito á grammatica portugueza, que, em
todas as quatro partes, maltratava com uma irreverencia, com um
desplante de bradar aos céos e de desafiar os rigores da férula mais
indulgente.
Não desmentia Mr. Richard a asserção do auctor das _Lendas e
Narrativas_, quando affirma que sempre que um inglez, em casos
desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o
torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro
Kimbri.
De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na
sepultura sempre que Mr. Whitestone fallava, porque as regras mais
triviaes de regencia e de concordancia eram por elle atropelladas com
uma frieza de animo, com uma fleugma, com uma impassibilidade, somente
comparaveis ás de um membro do _Jockey-Club_, ao passar com o cavallo
por cima do corpo de algum transeunte inoffensivo ou competidor
derrubado na arena.
Não era mais feliz a prosodia, a alatinada prosodia d'este recanto
peninsular.
As combinações grammaticaes de Mr. Richard, ao fallar a nossa lingua,
saíam marcadas com um verdadeiro cunho britannico. Venus, a propria
Venus, perderia aquellas illusões, que nos refere o cantor dos
_Lusiadas_, se porventura ouvisse o portuguez que elle pronunciava.
Transparecia de alguma sorte nas orações do seu discurso o credito
liberal de um verdadeiro cidadão de Londres. O espirito conciliador e
ordeiro, o constitucionalismo arreigado n'aquelle animo inglez, e
adhesão aos principios interventores adoptados no seu paiz, parecia
haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da syntaxe portugueza,
levando Mr. Richard, n'um excesso de tendencia harmonisadora, a tentar
n'ella concordancias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e
insuperavel repugnancia de generos e de numeros; e a modificar a
constituição grammatical de um paiz alliado, como a Inglaterra gosta de
modificar a sua constituição politica.
O effeito reunido d'aquella prosodia e syntaxe era ás vezes de uma
resultante comica que não actuava impunemente sobre os ouvidos, aliás
não muito pechosos, dos collegas commerciaes, em cujos labios sorrisos
de malicia mal disfarçada vinham por instantes afugentar a sisudez de
profissão.
Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era
completamente indifferente ao que percebia e suspeitava.
Se o contradissessem na pronuncia de uma palavra ingleza, embora das
mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circumstantes, na
occasião em que elle estivesse fallando a patria lingua, então sim,
então era possivel que chegasse a exaltar-se a ponto de quasi ameaçar o
imprudente com uma irreprehensivel applicação da nobre sciencia dos
_boxers_, quasi divina arte do sôco, que, desde Jack Brougton, tem sido
cultivada em Londres «com fanatismo e ensinada com talento»--textuaes
palavras de um escriptor _ex-professo_.
Mas os sorrisos, que lhe valiam as atrocidades praticadas por elle nas
grammaticas estrangeiras, esses, soffria-os com impassivel indifferença
e não sei até se com certos vislumbres de orgulho e regosijo.
II
MAIS DUAS APRESENTAÇÕES, E ACABA O PROLOGO
O honrado chefe da casa Whitestone tinha dois filhos: uma gentil _lady_,
mimosa planta do Norte transplantada, aos dois annos, para o nosso
clima, e um rapaz, mais novo do que ella, e nascido já em Portugal.
Eram Jenny e Carlos.
Jenny era uma d'estas jovens inglezas, cuja suavidade e correcção de
contornos, alvura e delicadeza de tez e puro dourado dos cabellos, lhes
dão uma apparencia tão subtil e vaporosa, e, quasi direi, tão celestial,
que se espera a cada passo vel-as desprenderem-se da terra e
dissiparem-se, como instantanea visão luminosa, diante dos olhos, que
por momentos offuscaram.
Delicadas, como o arminho, que chega quasi a subtrahir-se á sensação do
tacto, de delicado que é, estas poeticas organisações septentrionaes
possuem tanto de vago, tanto de immaterial, que, junto d'ellas,
apodera-se de nós, entes profanos e grosseiros, certo invencivel
constrangimento, como se receiassemos com um sôpro desvanecel-as,
crestal-as com o olhar, maltratal-as com o gesto.
Os desejos não vôam até alli; rodeia-as uma atmosphera de virginal
castidade, no seio da qual esses filhos alados da imaginação abatem-se
asphyxiados.
Bellezas, como ella, foram por certo as que inspiraram as imagens de
virgens dos cantos de Ossian ao espirito de quem quer que foi seu
auctor, d'aquellas virgens, que o bardo comparava á neve da planicie e
cujos cabellos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do
occidente.
Se no azul meigo dos olhos de Jenny se não concentrava o fogo das
paixões de um coração ardido, nem se descobria a scintillação
denunciadora de phantasias exaltadas, havia n'elle não sei que
mysteriosa e suave luz, como se de reflexo levado para alli do mais
intimo da alma; os labios, delgados e levemente comprimidos, não se
agitavam sob o imperio de tumultuosos sentimentos, mas fixavam-se em
continuo sorriso, expressivo de affabilidade e de brandura, promettedor
de placidas, mas duradouras felicidades; o seio, sempre modestamente
afogado no vestido liso e singelo, embora não tivesse o arfar
voluptuoso, que arrebata as imaginações, animava-se da ligeira
ondulação, denunciadora do sereno sentir da mulher, a quem Deus confia
os destinos da familia; d'esses sympathicos vultos de mãe, de irmã e de
esposa, por todos encontrados ou sonhados ao menos uma vez na vida,
astros inaccessiveis ás violentas tempestades, que tantas vezes ameaçam
o horizonte domestico, anjos pacificadores entre os seus, que com todos
repartem carinhos e afagos, que com lagrimas e sorrisos a todos consolam
e recompensam; se, vendo Jenny, podia ainda lembrar o amor, era o amor
da mulher sempre casta que, ao estender a fronte candida aos beijos
affectuosos do esposo, baixa ainda os olhos, córando com todo o pejo de
uma primeira entrevista, e fita-os no berço do filho adormecido sob a
vigilancia dos seus cuidados.
A estatura esbelta da joven ingleza, o andar, sem os requebros languidos
das nossas elegantes, a fronte pura e de gracioso modelo, coroada por um
diadema de formosos e desadornados cabellos louros, o olhar entre
affavel e melancolico, a voz meigamente sonora e cadenciada, tudo emfim,
de modo inexplicavel como variadas phrases da mysteriosa linguagem da
belleza, denunciava os encantos, as doçuras d'aquelle caracter feminino,
tão alheio a fraquezas mundanas, que mais se dissera angelico.
Sentia-se, vendo-a, que para ella nunca o amor seria um passatempo, um
capricho apenas, gosado entre risos, terminado sem lagrimas. Talvez
nunca tão violenta paixão a chegasse a dominar até; porém, se nascesse,
seria como essas plantas, que mal se desentranham em galas de folhagem e
de flores, mas que se prendem por tenazes e penetrantes raizes ao solo
d'onde brotaram.
Em Jenny, a paixão de amante, a ter de lhe inquietar o coração,
difficilmente se revelaria, a não ser adivinhada; mas depois, se o
fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de mãe,
ou lentamente a consumiria; ser-lhe-hia fatal, se por não comprehendida,
não chegasse a realisar essa santificada evolução.
Almas assim estão talhadas ou para a felicidade celeste ou para a maxima
tortura; que eu não sei de outra maior, do que a d'aquelles que
concentram em si o soffrimento e suffocam todas as manifestações de dor,
quando ás vezes a revelação lhes poderá dar lenitivo.
Mas o céo de Jenny era ainda limpido, e amena a corrente da vida.
Um rapido e imperceptivel movimento de labios, um desvanecido contrahir
de fronte e--a não ser illusão isto,--um como escurecer do puro azul
d'aquelles olhos amoraveis, eram os unicos vestigios das raras luctas
travadas entre a sua razão poderosa, bem que de mulher, e os impulsos de
diversos affectos, lucta sempre decidida pela victoria da primeira.
Mas eram raras essas nuvens, tão raras como diaphanas, tão diaphanas
como passageiras.
Estava-lhe quasi sempre no seio aquella mesma placidez que se lhe lia no
semblante.
E nem porisso se julgue frio e insensivel o caracter d'ella; animavam-o
tambem os raios vivificadores dos sentimentos, que nos prendem á terra;
mas, com o influxo da vida, não transmittiam esses raios a lavareda que
destroe.
Será menos energico e abençoado o calor do sol, porque não inflamma os
bosques e as cidades, como o incendio que a mão do homem ateia? Mas um
cobre de verdura os prados e de flores os ramos, e alumia o hemispherio
inteiro; o outro calcina as plantas que abraça, e a pouca distancia
estende a sua claridade fatal; qual será mais poderoso e effectivo?
Em Jenny os affectos do coração pareciam-se com as chammas dos
lampadarios sagrados, que, em honra de Deus, illuminam o interior dos
templos. O vel-as luzir eleva o pensamento a meditar cousas do céo.
Ha entes assim, que tudo santificam; paixões, que n'uns acalentam
vicios, são n'elles efficazes impulsos para sublimes virtudes.
O calix, que, em mãos profanas, preside aos banquetes e ás orgias,
consagrado no altar, transforma-se em symbolo mysterioso da mais augusta
religião.
Deus desce tambem a muitas almas, para tornar em holocausto digno de si
as paixões originarias d'ellas.
Carlos era, sob muitos respeitos, differente da irmã.
Inglez pelo sangue, meridional pelo clima, onde vira, a primeira vez, a
luz do dia, onde passára a infancia, onde sentira as primeiras commoções
da adolescencia, o despertar da vida do coração, tinha um caracter que
se ressentia d'esta, de alguma sorte, dupla nacionalidade.
Da peninsula recebera o enthusiasmo, a viveza de imaginação, a
impetuosidade de sentimentos, que raras vezes reprimia; vinham-lhe da
Gran-Bretanha a força de vontade, a pertinacia, o estoicismo, com que,
em certas occasiões, surprendia a quantos julgavam conhecel-o;
vinham-lhe até, da mesma fonte, algumas excentricidades de manifesta
herança paterna--efficaz inoculação de britannismo, que não lhe
consentiria mentir á origem, se alguma vez o tentasse.
Ainda que algum tanto estouvado, não deixava porisso Carlos de possuir
um generoso e compassivo coração, alma sensivel a todos os infortunios,
olhos a que a piedade não permittia serem estranhas as lagrimas.
Se, por acções mal refreadas, por palavras irreflectidas, as fazia
tambem verter, era elle o primeiro a accusar-se, a compadecer-se, a
procurar enxugal-as por toda a qualidade de sacrificios.
Capaz de heroica abnegação em bem dos outros, se frequentemente se
esquecia de beneficios recebidos, como se poderia censural-o, quando,
habituado a realisal-os maiores, não exigia tambem dos favorecidos a
gratidão em recompensa, parecendo até desconhecer os direitos que tinha
a ella?
Corajoso até á imprudencia, liberal até á prodigalidade, sincero até á
rudeza desattenciosa, os seus maiores defeitos não passavam de nobres
qualidades, levadas ao excesso.
O que elle não sabia, ou não podia, era conserval-as no ordeiro meio
termo, tão respeitado pela sociedade.
O sangue dos vinte annos fazia doudejar aquella cabeça; os instinctos
generosos faziam o tormento d'aquelle coração, porque se uma, em
momentos de exaltação, conseguia romper com as generosas repugnancias do
outro, a reacção era infallivel, e este, mais tarde, obrigava-a a
arrepender-se, descobrindo, e exagerando até as nem sempre remediaveis
consequencias dos seus desvarios e caprichos.
Carlos era d'estes homens, que encerram e alimentam no proprio seio o
seu principal inimigo.
Entre Carlos Whitestone e o pae existia um cordial e puro affecto, ainda
que disfarçado, em ambos elles, sob apparencias de frieza e de reserva
da mais genuina indole britannica. Raras vezes se procuravam os dois, e
sempre que, nas occasiões ordinarias, se viam juntos, poucas palavras
trocavam. Quando mais solta se desenvolvia a loquacidade de Mr. Richard
na presença do filho, era ao saborear os ultimos calices, depois do
jantar de familia; mas, ainda então, a conversa quasi se reduzia a uma
especie de extenso e variado monologo, recitado por aquelle e
interrompido por este apenas com algumas phrases de assentimento, em que
predominavam os _Yess_, ao mesmo tempo que os labios se armavam de um
sorriso de complacencia--nem sempre segura fiança de attenção.
Carlos respeitava o pae, amava-o até com extremos capazes de lhe
inspirarem os maiores sacrificios, e comtudo evitava-o, como se, junto
d'elle, se não achasse á vontade.
E não achava, de facto.
Possuia Carlos um d'estes genios, que não supportam constrangimentos; ou
hão de romper com elles ou evital-os.
Calava-se, onde não podia abandonar-se aos caprichos de uma conversa
futil; entristecia, onde lhe fossem estranhadas as expansões de uma
alegria infundada, de um d'esses irresistiveis jubilos de creança, que,
como tal, em puerilidades se revela. Dessem-lhe a liberdade de poder ser
estouvado, vel-o-iam talvez sisudo; mas, forçado a isto, tornava-se
sombrio e de mau humor.
Ora a austeridade de costumes de Mr. Richard Whitestone, a rigidez dos
seus principios de decoro e de respeito ás praxes da etiqueta ingleza,
exerciam sobre Carlos uma influencia, contra a qual não tinha coragem de
revoltar-se; e porisso fugia-lhe.
No pae via quasi sempre um juiz severo e inflexivel, prompto a julgal-o
e a condemnal-o talvez; e Carlos, que habitualmente trazia na
consciencia algum peccado de juventude a remordel-a, e que não confiava
no seu poder de dissimular, furtava-se, quanto podia, ás investigações
do jury paternal, sempre antevistas por elle e bem longe ás vezes do
intento de Mr. Richard Whitestone.
Este, de seu lado, não amava menos extremosamente o filho; para as
verduras da mocidade era indulgente, como, em tempos passados, desejara
e precisara que fossem tambem comsigo; Deus sabe que esforços lhe
custavam até estes sisudos ares de convenção, tão oppostos ao fundo de
desafogada jovialidade do seu caracter, e que não conseguiam dissipar o
sorriso, que tinha como que stereotypado nos labios.
Julgava elle, porém, do dever de pae e natural mentor, que era de
Carlos, conservar sempre certo ar de hombridade e de quasi rudeza para
com o estouvado, que, não raro, lhe estava dando motivos para mais
severas penas.
Á sua precisão britannica repugnavam longos discursos de moral e
prolixas catecheses. Laconico, n'estas cousas, por systema e por
espirito nacional, nunca usava de parabolas para chamar ao aprisco a
ovelha tresmalhada.
Um unico «Ho!» mas pronunciado com aquella expressão, que só a larynge
britannica lhe sabe dar, um _ho_ aspirado, guttural, eloquente, inglez
emfim, combinado a um abanar de cabeça rapido e desapprovador, e a dois
ou tres particulares estalidos de lingua, eram os signaes de impaciencia
e de desagrado que Mr. Richard manifestava, e dos quaes mais se temia
Carlos, do que se temeria de qualquer menos concisa formula, sob que
podesse revelar-se a censura paternal.
Dia, em que aquelle fatal «_oh!_» lhe tivesse soado aos ouvidos, já não
se confiava despreoccupado a inteiro prazer; passava-lhe uma nuvem no
firmamento azul da juventude, limpido como o de poucas.
Promettia então emendar-se; solemnemente a si proprio o promettia, mas
cêdo a promessa era esquecida até que nova e similhante occasião a
renovava.
Outro era o sentir de Carlos para com a irmã.
Jenny era o seu anjo bom, e o anjo bom da familia toda, a meiga, a
benigna fada, cujo olhar serenava as tempestades, e desanuviava o sol.
Com sorrisos decidia, para o bem, os combates de paixões. Debil e
delicada era aquella mão, mas quantas vezes Carlos a encontrára
interposta entre si e o precipicio, para lhe servir de amparo! Delgado e
vacillante imaginar-se-hía aquelle braço, mas firme o sentia ella sempre
ao ter de sustentar o irmão na quéda imminente, ou de eleval-o até si.
Branda e suave lhe saía dos labios a voz, mas só ella se fazia escutar
dos ouvidos, quando o tumulo das paixões os ensurdecia.
Não havia segredo entre os dois. De pequeno se costumára Carlos a vir
contar a Jenny quasi todas as acções da sua vida, boas ou más que ellas
fossem.
Referia-lhe, um por um, e com sincera ingenuidade, os pensamentos
dominantes do dia, e mais do que uma vez conseguira vencer-se, quasi ao
ceder á tentação de actos menos generosos, só para não ter de os
confessar depois a este affectuoso juiz, e merecer-lhe uma amigavel
reprehensão entre sorrisos ou o mal reprimido movimento de desgosto
d'aquelles bonitos labios, o que devéras o magoava.
Nem menos o affligiriam os remorsos, se procurasse subtrahir-se á pena,
não denunciando o delicto. A consciencia costumava censurar-lhe tambem
estas faltas, nas raras vezes que as commettia.
Jenny, igualmente attendida pelo irmão e pelo pae, servia-se d'esta
duplicada influencia para harmonisar toda a familia, nos momentos de
receiada discordia.
Com uma palavra extinguia qualquer irritação, que as extravagancias de
Carlos podessem ter produzido no animo de Mr. Richard; com outra
dissipava no irmão as menores tendencias á insurreição, tão naturaes á
idade e temperamento d'elle contra alguma medida repressiva, posta, de
quando em quando, em pratica pelo pae, como em ultimo recurso.
Frequentes vezes o pequeno erario de Jenny abrira-se a solver dividas,
imprudentemente contrahidas por Carlos, e a remediar todas as más
consequencias das suas leviandades. Estava sempre prompta a advogar-lhe
os pleitos, a minorar-lhe as culpas.
Mas tambem o que ella não conseguisse de Carlos, ninguem mais na terra o
conseguiria.
Deixar adivinhar desejos, era formular pedidos; uma supplica,
timidamente expressa, valia por uma ordem imperiosa. E comtudo Jenny
nunca procurava tornar apparente este predominio; antes se esforçava por
o dissimular.
Conhecendo, mais por muito reflectir do que por experiencia, que não a
tinha, os mil mysterios e caprichos do coração humano, toda a sua
admiravel diplomacia feminina estava em saber fazer-se obedecida,
brincando; em aceitar e agradecer, como concessões espontaneas, o que
lhe dizia a consciencia ser o resultado de suas insinuações e pedidos.
Desenvolvia-se de ordinario uma perfeita tactica, e engenhosamente
tecida da parte de Jenny, em quasi todas estas conferencias intimas
entre os dois irmãos.
Virtuosa e sympathica hypocrisia, com que Jenny, para dominar, se
humilhava!
Quando os anjos nos imitam na dissimulação, ainda então não perdem a sua
candura. São sempre anjos. Roçam com as azas pelo lôdo do mundo, mas
levantam-se immaculados.
Quem ensinára a Jenny, cuja vida se deslisára quasi toda no tracto
intimo de sua pouca numerosa familia, esta sciencia do coração, que
dizem só adquirir-se no muito lidar com os homens e com o mundo? Já o
indicamos:--a sua indole pensativa, os seus habitos de reflexão. Mais se
aprende na leitura meditada de um só livro, do que no folhear
levianamente milhares de volumes. Assim tambem no estudo dos caracteres.
Observadores ha, que, após annos e annos gastos a viver com os homens,
morrem em ingenua ignorancia a respeito d'elles; outros que, na solidão
do gabinete, perscrutam no proprio coração os segredos dos mais,
decifram-os, porque, descobertas ahi as leis principaes e communs a toda
a natureza humana, facil é adivinhar depois as secundarias, d'onde
procedem as differenças. Surprende devéras quando se vê saír d'esses
cantos obscuros um homem a todos desconhecido, e que a todos parece
conhecer. Como e onde aprendeu este homem tudo isto? Pela observação
desapaixonada em si, ou, quando muito, nos seus mais proximos; depois a
intelligencia, vigorada por este ensino, abalançou-se, guiada por
vestigios na apparencia insignificantes, a inducções fertilissimas.
Carlos não sabia resistir muito tempo á irmã. Sem suspeitar que cedia,
recuava passo a passo. Aproximava-se do fim, onde a habil contendora o
queria levar, e, ao attingil-o, ficava surprendido de haver realisado,
com tão pouco custo, suppostos sacrificios, cuja ideia só, momentos
antes, o tinha feito desanimar de emprehendel-os.
Por não differentes processos, cada dia se vergava, por assim dizer, ás
mãos de uma creança o caracter geralmente considerado inflexivel de Mr.
Richard Whitestone.
E com tal habilidade aprendera Jenny a occultar estas pequenas, mas
importantes victorias, que a todo o instante obtinha sobre os seus, que
mal vinha á ideia do bom _gentleman_, quando, muito convencido do que
dizia, se jactava de ser firme nas suas resoluções, e pouco propenso a
revogar projectos formados, que, n'aquelle mesmo momento talvez, lhe
estavam dando seus actos solemne desmentido.
Taes eram os principaes membros da familia Whitestone, com quem
travaremos mais intimo conhecimento nos varios capitulos d'esta
singelissima historia, em cujo decurso, desde já o declaramos, para não
alimentar illusorias esperanças, a acção prosegue desimpedida de
complicadas peripecias.
III
NA AGUIA D'OURO
Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855.
Havia menos estrellas no céo, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse
mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau
humor; mas, embora; o folgazão entrudo ria-se de taes severidades e
dançava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que
se levantavam do sul. Graças á cheia do Douro, a cidade baixa podia bem
prestar-se n'aquella época a uma parodia do carnaval veneziano.
Á porta dos theatros apinhava-se a multidão; os altos brados dos
vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os
ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas
lojas circumvizinhas aos principaes salões de baile, pendiam vestuarios
correspondentes a todas as épocas e a todas as nações, e alguns, aos
quaes não era possivel assignar época, nação, classe ou condição social
conhecida.
Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposições de
mascaras á venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi
impraticavel. Era uma fascinação analoga á que produz um conto de
Hoffmann em imaginações excitaveis, e exercida n'elles por tantas
mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de expressão e de gesto
lembrava um enxame de cabeças mephistophelicas, surgindo á luz para se
rirem das loucuras da humanidade.
Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si,
desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de
carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjeição pouco
harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades
no andamento da sua grave e benefica tarefa. Só então, e ainda a custo,
se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de
novo.
Se é licito comparar as grandes ás pequenas cousas, veremos n'estes a
imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre
cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas.
A animação era geral na cidade.
Todos corriam com ancia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.
Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anciã das nossas casas de
pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos,
particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa
modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para lá os
olhares de quem passava.
Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas,
o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das
vozerias tumultuosas, e dos _hurrahs_ ensurdecedores rompiam, como uma
torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por
muito tempo essa torrente, á maneira do que succede com a das aguas dos
rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda,
através do grande rumor, que enchia as ruas.
Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou
abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens
contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham
com promessas os impacientes convivas da sala.
No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade
estomacal convidára a ir ceiar a humilde costelleta, principal trophéo
culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se
sorrateiro e cabisbaixo.
Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada
de não sei que magestade, condigna do seu emblema.
A luz escassa de um lampeão da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que
corôa a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais
brilhantes do que os do costume.
Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem já dado que
entender a ministerios e a emprezarios lyricos, não podia haver duvida.
Cá em baixo, os serventes do café fallavam a meia voz e mostravam no
olhar certo ar de preoccupação, certa importancia no gesto, como se
effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima.
O café contrastava porém com a animação que se percebia nas salas da
hospedaria.
Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes
ainda então existiam, e ameaçavam perpetuar-se, reproducções, em lona,
dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz
amortecida dos candieiros não dissipava as sombras dos recantos.
O marcador do bilhar cabeceava com somno.
Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli até os homens politicos.
N'aquella noite as discussões sobre a guerra da Crimeia, então na ordem
do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros.
Não é pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu
pretendo demorar o leitor.
Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e
corredores, penetremos na sala d'onde provém o ruido de festa que já
noticiamos.
O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades
architectonicas não requerem tambem as fadigas da descripção.
É um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir.
Chegamos, porém, tarde.
O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar
vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante.
Ha já calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas
as posições, algumas indescriptiveis.
A vozeria é atordoadora. A confusão póde dar uma ideia de Babel.
Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transições fazem-se com
uma rapidez, que surprende e embaraça os proprios interlocutores;
attenção, que se desvie um segundo, é attenção perdida; não encontra
depois já o dialogo onde o deixou; ás vezes a conversa generalisa-se;
momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos;
mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasiões, todas as bôcas
fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por
instantes fazer-se escutar de todos, até que um áparte, um incidente, um
gesto, restabelece a independencia primitiva. Dão-se tambem verdadeiros
encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve
ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros
objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a
expressão do pensamento.
Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar
o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto,
discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada
critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares
da época; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes
fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com tão agradavel prática, o
dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo
exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas
e ovações; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a
historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria
philosophia allemã fornece alimento á animação dos discursos; e tudo
isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclamações em
todas as linguas.
Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos
reunidos alli.
Ha-os das mais diversas condições; desde o joven padre, que põe a
tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfarçar,
quanto for possivel, os vestigios da tonsura, até o official do
exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para
quem a mesma caça é occupação barbara e afflictiva da sensibilidade;
ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda
imberbe e embriagado com as primeiras commoções da vida de adolescente,
até o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de
lhe ir contando os annos, deixa passar a geração, contemporanea sua, e
insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas
circumstancias monetarias, desde o capitalista, que vê correr descuidado
a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confiança no
inesgotavel manancial que a alimenta até á classe dos _encostados_,
verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a
imaginação a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora á
custa de humiliações n'aquella atmosphera, fóra da qual já não sabem
respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor
applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputação nas
lettras, até o analphabeto, cujas sandices são saudadas com gargalhadas
que ninguem procura reprimir na presença d'elle proprio.
Finalmente, esta reunião de elementos, debaixo de todos os pontos de
vista tão heterogeneos, é uma porção da sociedade, que pretenciosamente
se decora com o titulo de elegante e para pertencer á qual é difficil
fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria
elegancia--na verdadeira accepção do termo--é dote generico dos seus
membros.
O motivo do jantar... O jantar não tinha motivo e era esta outra
circumstancia que o caracterisava. Um jantar póde muito bem ser motivo
de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em
linguagem philosophica, que tem em si a «razão sufficiente da sua
existencia».
Na companhia encontraremos alguem já conhecido nosso.
E como, até agora, só tenho apresentado ao leitor tres pessoas, não será
prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres
será.
Effectivamente é Carlos Whitestone um dos convivas e não dos mais
sisudos.
Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes
conseguira encaminhar a um fito unico todas as attenções e modificar a
assembleia a ponto de se lhe poder referir o _conticuere omnes_ da
_Eneida_;--verdade é que não tão completamente o fizera como o heroe
troyano, pois nem tinha destruição de Ilion a descrever, nem a paciencia
dos tyrios a escutal-o.
Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e
escandalosos, de que sempre e em toda a parte é tão sôfrego o paladar
social.
Por isso o escutavam todos com prazer.
Sinto que não chegassemos a tempo de ouvir o principio da narração, que
elle levava em meio.
--O nosso homem--dizia Carlos, accendendo um charuto no de um
jornalista; seu vizinho--apesar do aviso que recebera, resolveu na
melhor das boas fés...
--Então é a boa fé dos maridos--commentou a meia voz um padre, que,
atrazado nas operações gastronomicas, investia com denodo contra um
tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:--Não
sei de outra, que a exceda.
--Regula por essa a dos amantes ingenuos--acudiu Carlos ao commentario.
--Mas é de menos consequencias--respondeu o outro.
--Silencio, padre Manoel!--bradaram algumas vozes--Vamos lá, Carlos; e
depois?
--Depois--proseguiu Carlos--enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se,
frisou-se...
--E tingiu-se; que não esqueça--acrescentou do fim da mesa uma voz.
--E tingiu-se; sim--disse Carlos--e feitos todos estes aprestos,
caminhou para a entrevista.
--E como se realisava essa entrevista?--perguntou um militar.
--De uma maneira muito singular;--proseguiu Carlos--o conselheiro, todas
as noites, depois de pousar na relva o chapéo, a bengala e as luvas,
trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e...
--Ora! Impossivel!--exclamaram alguns, rindo.
--Palavra!
--Isso é contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo...--principiou
a dizer um estudante da Universidade.
--Pelo contrario;--atalhou outro--é exactamente o bojo que o faz subir.
Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos...
A quéda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de
physica...
--Divertida...--annotou uma voz.
--Como exemplificando as leis da quéda dos graves... um tão _grave_
personagem--concluiu o primeiro.
Estes sujeitos guindavam o _calembourg_ ao supremo grau da escala do
espirito.
--Então? deixem fallar Carlos; e depois?--disseram alguns curiosos.
Carlos continuou:
--N'aquella noite, porém, estava reservada ao conselheiro a mais triste
surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro.
--Com o Victor?
--Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocês o soberbo dialogo, que
se seguiu ao encontro.
--Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes!
--O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe:
_Tytire, tu patulæ recubans sub tegmine fagi
Formosam resonare doces Amaryllida silvas_
--Protesto contra o _recubans_. A posição de Victor era menos commoda.
--_Mutatis mutandis_, já se sabe.
--Ó padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posição em
que estava o Victor.
--Não interrogues o padre. Não vês que elle está, como os antigos
agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade
do acto.
--Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias?
--As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro...
N'este ponto, a narração de Carlos foi interrompida por o criado da
hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.
--Com a sua permissão, meus senhores,--disse Carlos, preparando-se para
abril-a.
--Bravo!--exclamou o jornalista--temos carta de algum Ecco impaciente.
--_E un foglio a me lasció_--cantarolou um _dilettante_, voltando as
costas da cadeira para a mesa.
--É a proposta de capitulação de alguma Troya sitiada--disse o militar.
--Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.
--Antevejo então uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos
escaparemos.
Carlos sorria, ao abrir a carta.
--Ó Carlos, olha que são perigosos para as digestões os sobresaltos de
coração--notou o estudante de medicina.
--Socega; é um excitante a que já estou habituado--respondeu Carlos.
De repente tornou-se serio.
--Má nova!--disseram alguns.
--O caso complica-se.
--As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver?
--Não é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia,
e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.
Carlos não os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e
escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa.
Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a
resposta, diziam:
--Meu anjo, se no céo...
--Vôo nas azas do amor...
--Qual outro Leandro, eu, naufrago...
--Minha Heloïsa; se o infortunio de Abeillard...
--Julieta, quando o rouxinol...
Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao
criado.
Esforçava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esforço era visivel,
circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.
--Que é isso?--disse o militar, que lhe ficava defronte--respiraste a
peste n'essa carta?
--O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de
um conde de Luna?--disse o _dilettante_.
--Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de
despejo aos...
--Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma
avultada conta de enfeites.
--Um dominó leva a sua ingratidão até...
--Já vão numerosas as hypotheses--disse Carlos, enchendo um calix de
vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio
da noite; depois acrescentou:--Este bilhete era para me recordar...
--Ai! recordações!...
_Te souviens tu, de même,
De nos transports brulants_...
--Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos--concluiu Carlos.
--Devéras!
--É o que eu te digo.
_Quan tu m'as dit: «je t'aime!»
J'avais alors vingt ans_.
--E estavas calado com isso.
--Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, não me teriam aqui.
--Então? Receber-nos-hias em tua casa?
--Tambem não. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de
familia.
--Oh! oh! sentimentalismo!
--Britannico! Pés no _fender_, _punch_ na mesa, _Times_ na mão. E de
quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjeição, que produz
na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!
--Deve ser um céo aberto!
--Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros.
--E de carvão de pedra.
--Não esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.
--E umas variações vocaes sobre motivos do _God save_.
Carlos sorriu, respondendo:
--Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado
assim.
Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se não todos, sentiam
a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades
para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de
fazer tão claro, e em plena ceia de carnaval, tal confissão. Que querem?
não está em moda trazer o coração á vista. É costume tratar, como
ridiculas, todas as manifestações de sentimento; consideram-se como
pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na
discrição das quatro paredes do nosso quarto.
Carlos porém não sabia dissimular; com verdadeira convicção e franca
ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allusões
epigrammaticas ao que elles chamavam «respeitabilissima tendencia para
pae de familias».
O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado
devéras Carlos, era da irmã e dizia apenas:
«Charles.
É hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria
desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O
pae esperava-te. Adeus.
_Jenny_.»
A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:
«Jenny.
Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. Não me
succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do
anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justiça d'essa supposição,
não é verdade? Agora não posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim
companheiros tão doudos como eu; e, quando os deixasse, não sei se ainda
iria em estado de poder, sem profanação, sentar-me ao teu lado, á santa
e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o
dia, em que veio ao mundo mais uma cabeça leve. Ámanhã te pedirei
perdão... Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de
entrudo?!
Teu mau irmão
_Charles_.»
A final, após algumas explicações mais, um dos convivas levantou-se e
empunhando o calix:
--Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos--bradou,
em tom de brinde.
--Apoiado--responderam todos, imitando-o.
--Carlos--continuou o primeiro--bebo aos teus vinte annos! Contes pelos
trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as
paixões que fizeres nascer; e possas tu...
--Não se admittem longos _speeches_; olá! Bebamos!--disse uma voz.
--É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que
sáe--acrescentou outra.
--Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho
que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais _sabe_.
--Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil
digestão dos teus _calembourgs_.
--Então? Bebamos!--insistiu o côro.
E o brinde foi geral.
Carlos correspondeu constrangido áquella saudação. Parecia-lhe estar
vendo Jenny a olhal-o com uma expressão de amigavel desgosto; Jenny, a
unica a fazer companhia ao velho negociante, que não pouco devia ter
sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já não era para o
pobre rapaz dissipar completamente aquella impressão penosa.
Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso
de se ver alli; e este effeito, se não lhe distrahia completamente a
attenção dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a
intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discussões, nem o
occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.
Á placa da camara escura, não preparada na officina photographica, é
comparavel o pensamento, em occasiões assim. Lá se gravam ainda as
imagens das cousas exteriores, mas, não as fixando a attenção,
dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.
D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observações feitas por
Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi
forçado a dar.
Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem
escutar; a qualquer d'estes assumptos não costumava Carlos, nas
ordinarias disposições de espirito, recusar attenções, nem esquivar a
concorrencia propria.
O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupação
em que o viu.
Ora uma observação qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente
a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.
--Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi
apopletico. Coragem! É negocio de coração? Alguma loura e nevada _miss_?
hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo _to
flirting_!--d'aquelle _flartar_, como, com tanta razão, traduz Garrett,
á falta de melhor vocabulo.
E elle ahi principiava:
--Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas _Viagens_, hein?
Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de
Xavier de Maistre. Que eu não participo da admiração geral por Xavier de
Maistre; é preciso que saiba.
Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma
asserção mais arrojada, a pausa era de rigor.
Carlos, já se sabe, não redarguiu. N'este intervallo, pôde ouvir o
conviva proximo, que dizia:
--Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis;
ia d'aqui a Paris; depois...
O jornalista proseguiu:
--Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a
grande distancia d'elle. A _Viagem sentimental_, sim. Oh! A _Sentimental
journey_. É um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria
philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O
_humour_ morreu com Sterne.--Pausa.--A demasiada philosophia gela a
inspiração litteraria. Ahi tem Pope. É frio, é árido, é
marmoreo.--Pausa.--Os poetas francezes não teem tanta tendencia para se
deixarem _philosophicar_, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás
vezes... Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor
Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubiçasse o
_Childe Harold_. Força de contrastes! Aquelle _Childe Harold_! aquelle
_Childe Harold_! Que me diz você áquelle _Childe Harold_? É o unico
poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até
hoje.--Pausa.--Perdôo-lhe o _Poor, paltry slaves_! com que nos mimoseia.
E note que eu não sou admirador cego do Byron.
Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.
Carlos continuava calado.
Percebeu então que n'um grupo vizinho se dizia:
--Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.
--Melhor é a do Manoel Galveias.
E mais adiante:
--Perdão, menino; mas para mim a synthese não é uma mera condensação dos
factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a força que
vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os
principios evidentes; Kant...
O jornalista continuava:
--Eu não me regulo pela critica convencional. É o meu systema. Não me
resolvo a entoar _amen_ á opinião dos povos.--Pausa.--Por exemplo, tenho
a sinceridade e a coragem de confessar que não me fascina Dante.
Grande pausa.
--Padre Manoel--dizia n'esta occasião, do fundo da mesa, um dos
convivas, apontando para o calix, que levava aos labios--_Ecce Deus qui
lætificat juventutem meam_.
O padre sorriu, mas não disse nada. Comia.
--Porque a final de contas--proseguiu o discursador--você ha de
concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a
_Divina Comedia_, senão o compendio das crenças religiosas d'aquelle
tempo?
Pausa.
--O que ha a respeito da revolução carlista em Pamplona?--ouviu Carlos
perguntar.
--Nada mais se sabe por emquanto, apenas que estão implicados alguns
sargentos, cabos e paizanos--respondia outra voz.
E continuava a dissertação litteraria:
--O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem
elle. Logo os primeiros versos:
_Nel mezzo del cammin di nostra vite_...
Acho porém dotes superiores em Boccacio.--Então que quer? É um espirito
encarnado em corpo de menor vulto, mas... você já leu o _Decamaron_?
Deve ler. É um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do
seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As
imitações de La Fontaine são pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a
final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella côrte não podia existir
a verdadeira inspiração. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto
Luiz XIV e o seu seculo.--Pausa.--Molière salva-se, mas porque? Porque o
genero comico tem uma índole especial. Não é a inspiração que o regula;
é a analyse, é a reflexão philosophica.
--Eu aposto--berrava um politico--que se os alliados se metterem a dar o
assalto a Sebastopol, não fica um só vivo.
--Veremos--questionava outro.--Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de
Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já
desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.
O jornalista continuou:
--Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que
Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que
nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.
--É a _Biblia_, os _Lusiadas_ e o _Paulo e Virginia_. Já sei. É o
costume--disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando
subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, apreciações criticas,
cotejos e citações, que saíam, em tom categorico, da palavrosa bôca do
vizinho.
--Não ha tal--respondeu este, porém, tomando-lhe o braço e levantando-se
igualmente.--Esses são a formula dos tres grandes sentimentos da alma--o
da religião, da patria e do amor;--bem o sei; mas confesso-lhe, o que,
por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das
paixões, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais.
A creação de Pantagruel e Gargantua é famosa!
--Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?--exclamou, voltando-se, um
_dilettante_, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle
momento..--Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisação! Que
sentimento!
--Ahi tornas tu com a Ponti--disse um velho rapaz, pronunciado
adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do
anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal
das companhias escripturadas.--És capaz de sustentar que vae bem na
_Norma_. Se ouvissem a Rossi-Cassi...
--A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! Não sacudas reputações
cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.
--Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um
assento de baptismo feito pelo menos em 1800.
--Nego--bradou embespinhado o velho rapaz.
--_Parce sepultis_--disse o padre.
--_Lascia la donna in pace_--trauteou outro _dilettante_.
Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a
fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no _Ei fu_!
do _Cinque maggio_... etc., etc., etc...
Carlos foi retido agora pela mão de um rapaz, junto do qual tinham
chegado.
--Aqui está quem nos póde informar--dizia o que o segurava.--Ó Carlos,
dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?
--Não--respondeu Carlos, distrahido.
--Conheces por força. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que
comprou a quinta do Pedroso.
--E então?
--Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?
Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se
já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava
esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.
--Não tem que ver; o Viegas não lhe póde dar mais de nove contos.
--Triplique, e não lhe faz favor nenhum--disse, do alto da mesa, o
padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre
os mais disparatados assumptos.
--Ora ahi tens!--disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de
valia provada.
O padre limpava tranquillamente os beiços e enchia um calix de malvasia.
--Então diz o padre Manoel que o Viegas...
--O Viegas tem pelo menos...--dizia de lá o padre, elevando o calix
entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de
completar a phrase, levou-o á bôca e despejou-o de um trago.
Depois continuou:
--Tem pelo menos ... pelo menos...
Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:
--Sessenta e sete contos de réis.
--Ora!
Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista,
que lhe ía dizendo:
--É a questão do dia--O dinheiro--A litteratura resente-se...
E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de
Ponsard ... etc., etc...
--Deixa-te d'isso;--dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um
rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios--a Emilia Victorina é
outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do barão de Tavares, me
encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha,
uma mulher distincta, esplendida.
--Foi, foi; já não é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em
ti appareciam os primeiros dentes.
--A idade...--dizia outro.
--Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.
--Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter
a idade que tem.
--Barbaro! Ó Carlos, que dizes tu?
--Digo que sim--respondeu Carlos, que nem attendera á discussão.
--Está esta creança do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina
á Marianna Prazeres.
--E prefiro, repito.
--Não sejas impio. Quem não acha admiravel aquella bonita cabeça da
Marianna?
--E a mão? Aquella mão comprida e delgada, onde as veias se desenham em
azul; a verdadeira mão artistica, aristocratica.
--No assumpto «mãos», peço licença para citar a primeira...--das
provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva--lembrou um
individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.
--Apoiado!--entoaram muitas vozes.
--A proposito da Clementina Rialva--exclamou uma chronica viva de boatos
do dia--sabem que o Chico da Lousã, sempre a tira por justiça?
--Devéras?!
--Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.
--Terrivel catastrophe!
--Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae,
tem influencia e, feitas as pazes do estylo...
--Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.
--Que influencia tem o Rialva?--perguntou, encolhendo os hombros, um
mallogrado aspirante á eleição popular.
--Não. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino...
--E o ministerio deve-lhe serviços.
--Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos serviços eleitoraes
do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao
Roboredo.
--Como não arranjou? Ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?
--Quem levou lá o Roboredo, foi...
--Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio,
mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e
que não obteve, abandonou a regeneração...
--Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh
que alarve!
--Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que
nunca se pôde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que
até lhe fazia mal pensar na posição incommoda, em que haviam de viver
esses pobres diabos, se existissem...
--E um dia em que elle...
Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em
pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.
Todas as attenções e todos os olhares convergiram para alli.
Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos
olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido,
poucas disposições para expansão igual.
--É impagavel este homem!--dizia um dos que riam.
--Que foi? que foi?--perguntavam os que não faziam parte do grupo, rindo
já com anticipação tambem.
O dos ares constrangidos respondeu:
--Não façam caso; são doudos.
--Que foi? digam--insistiam todos na sala.
--É aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.
--Eu disse...--tentou este interromper.
--Silencio!--bradaram muitos a um tempo.
--O Claudio!--continuou um dos que mais ria--ouvindo aqui o Lourenço
fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro,
observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe
accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.
--Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.
A justificação foi suffocada por um côro geral de gargalhadas.
--O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a
Hollanda a uma geral inundação.
--Que terrivel capricho estomacal!
--Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a
Volney!
E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confusão subia
de ponto com isto.
Até que emfim uma voz dominou o tumulto.
--Reparem que são onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada
solemne nos bailes de mascaras.
Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo
o calix:
--Ás nossas conquistas d'esta noite!
--Apoiado!--disseram todos, imitando-o.--Ás nossas conquistas.
E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.
Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes
companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.
Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia.
Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou
então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal
seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi
commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas
aspirações no tubo do volumoso cachimbo.
--Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho... Por isso
vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso... Eu
gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um
coração para ecco. Almas de sensitiva...
Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a
ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho
poetico e improvisador do que fallava assim.
Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras
desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a
plenos pulmões o duetto da Lucia:
_O' sole più rapido a sorger t'apresta_
O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi
selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era
muito para produzir ecco nos corações:
No centro dos circulos
De nuvens de fumo,
Um deus me presumo,
Um deus sobre o altar!
Nem d'outros thuribulos
Me apraz tanto o incenso,
Como o d'este immenso
Cachimbo exemplar!
Em divans esplendidos,
Cruzadas as pernas,
Fuma, horas eternas,
O ardente Sultão.
Subindo-lhe ao cerebro
O magico aroma,
Esquece Mafoma,
Houris e Alcorão.
Longe, oh! longe o opio,
Que os sonhos deleita
Da misera seita
Dos Theriakis!
Horror ao narcotico
Que vem das papoulas!
E ao que arde em caçoulas,
No altar do Caciz!
Que a raça gentilica
Das zonas ardentes
Consuma as sementes
Do arabio café.
Despejem-se as chavenas
Da atroz beberagem
Da côr do selvagem
Da adusta Guiné.
E a tal folha exotica,
Delicias da China,
Por nossa má sina
Trazida de lá,
Servida em familia,
N'um morno hydro-ínfuso?...
Anathema ao uso
Das folhas do chá!
Nem tu, ó alcoolico
Humor dos lagares,
Terás meus cantares,
Meus hymnos terás.
Embora das amphoras
Vasado nas taças,
Aos outros tu faças
A lingua loquaz.
Cerveja britannica,
De furor espuma!
De cousa nenhuma
Me podes servir.
Quando ouço do lupulo
Gabarem proezas,
Ás bôcas inglezas,
Desato-me a rir.
Nem venha da camphora
Prégar maravilhas
O das cigarrilhas
Famoso inventor.
Raspail é scismatico
E eu sou orthodoxo,
O seu paradoxo
Não me ha de elle impôr.
Meu canto é da America,
Paiz do tabaco,
Perante o qual Baccho
Seu sceptro partiu.
A Europa, Asia, e Africa
E a terra hoje toda
Este heroe da moda
De fumo cobriu.
Até na Laponia,
Da gente pequena,
Se fuma; e no Sena,
No Tibre e no Pó,
No Volga e no Vistula,
No Tejo e no Douro;
Que immenso thesouro
Se deve a Nicot!
Meus áridos labios
Mais fumo inda aspirem
Que os parvos suspirem
Por beijos, aos mil.
Não quero outros osculos,
Não quero outra amante.
Qual mais doudejante
Que o fumo subtil?
Tornadas Vesuvios,
As bôcas fumegam.
De nuvens que cegam
Vomitam montões.
Fumar! Oh delicias!
Prazer de Nababo!
E leve o diabo
Do mundo as paixões!
--Bravo!--disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a
musa do recitador.
O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a
dissipar-se-lhe a nuvem.
--Quem compra uma senha?!
--S. João! quem quer?
--Doze vintens, meus amos, doze vintens.
Com estes analogos pregões caiu um bando de negociantes de senhas sobre
os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor
maneira possivel. Cêdo entravam no salão do theatro, onde já centenares
de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas,
apertadas, esmagadas quasi, aos encontrões dos mascaras, arrebatados
n'um galope vertiginoso.
O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem,
com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez
a operação, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob
pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos
fazem;--uma das mais poderosas razões dos nossos actos na vida.
Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diversão fóra dos
seus habitos, provavelmente mais pacificos--o que fiz só por a
necessidade que tinha de mostrar em acção o caracter do nosso heroe e
exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual--concordo em
que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem
consolam, nem divertem.
IV
UM ANJO FAMILIAR
Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as
scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda.
Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas
no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os
sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a
sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer
aventura incompleta do baile da vespera?
A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção
dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para
sonhos e repouso.
O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o
bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.
Esta nossa cidade--seja dito para aquellas pessoas, que porventura a
conhecem menos--divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por
physionomias particulares.
A região oriental, a central e a occidental.
O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o
brazileiro; o occidental, o inglez.
No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas
janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se
sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a
viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos
moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as
ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os
cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as
mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais
se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro
muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias
modernas que revestiu.
O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos
capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes
moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de
azulejo--azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral
azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve
com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de
estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro,
com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem
douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e
a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o
mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi
sempre algum capitalista ocioso.
O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o _habitat_
d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de
rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto... até de
preto!--Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas
rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.--Já uma
manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril
tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo
dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e
cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas.
Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de
fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas
encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças
de cabellos louros e de babeiros brancos.
Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo
desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra
classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem
estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas,
e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em
1855.
É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.
Richard, e sua familia.
O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições
mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.
A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido
artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado.
Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos,
retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão
intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos
de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas
irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.
A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão,
ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres
amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.
Era n'este pavilhão o quarto de Carlos.
Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo
_confortable_, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.
Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio,
tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes.
Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia
absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o
tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo
depois do meio dia.
Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão,
circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger
nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse
constrangimento prevía utilidade.
Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos
voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças
perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias
novas.
Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde
manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do
irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.
No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da
casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce
figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que
nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.
Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido
attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a
denunciar-lhe o acordar.
Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía
inspeccionar e dirigir os preparativos do _lunch_ de Mr. Richard, cujas
horas se aproximavam já.
N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão,
encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da
porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem
lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny.
A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle
perguntou-lhe:
--Como está sua mãe, José?
O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:
--Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.
--Hoje não sabe?!--exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do
corredor, que marcava onze horas e meia--Não sabe, e é perto de meio
dia!
--Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde...
--Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!... Sabe lá a falta que
lhe estará fazendo?
--Mas, se...
--Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.
--Então muito agradecido, minha senhora,--disse o rapaz, sensibilisado
com a bondade da sua joven ama.
Jenny continuou passeiando.
Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma
cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para
observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo
para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado.
O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos
inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo.
--Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?--perguntou ella a um criado,
com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.
--Varreram, sim, minha senhora--respondeu este.
--Repare--acrescentou Jenny.--A fallar verdade são bem pouco cuidadosos.
Veja esse corrimão cheio de pó.
--É que se tornou a sujar. O vento...
--Seria; mas não tira que se limpe outra vez.
--De certo; eu vou já.
--E olhe--continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o
jardim--passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços
e dê lustro aos metaes dos fechos.
--Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim;
depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso--lembrou o criado, como
todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos
outros do que em cumprir as suas.
Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala
de jantar.
Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha,
brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza.
Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do
serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.
--Pedro--chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira,
destinada a Mr. Richard.
O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.
--Então onde pôz a mostarda?
--Ai! é verdade.
O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da
cozinha britannica.
--Veja como dobrou esse guardanapo.
O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada.
--Aquelle pão não é o que o pae quer para os _lunchs_. Bem sabe.
--Tem razão, minha senhora.
O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.
--Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não;
chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou.
Ficou peior agora. Assim. Ponha o _Times_ ahi ao lado. Está bom. Póde
ir.
Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo,
attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de
que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a
final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para
dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e
voltou de novo ao corredor.
Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos
baixos e maneiras enleiadas.
--Que tem, Luiza?--perguntou-lhe Jenny.
--Venho dizer adeus a _miss_ Jenny, porque me vou hoje embora.
--Como vae embora! Quem a mandou?
--Ninguem, mas...
--Não está bem?
--Se estou, mas...
--Então?
--A _miss_ Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da
cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou
quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas
como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega?
Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á
enfermeira?... Quem pensa n'isso? Assim vou eu... e, quando ella se
achar melhor, se a _miss_ Jenny me quizer outra vez...
--A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora.
--Mas...
--Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi.
--Ó minha senhora...
--Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.
--Seja por amor de Deus...
--Olhe, Luiza--apressou-se a interrompel-a Jenny--vá ver se me aprompta
aquelles punhos que eu lhe disse, vá.
--Vou já fazel-o, minha querida senhora--disse a rapariga, a quem
palpitava o coração alvoroçado de contentamento.
N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram
parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza.
Vinham do andar superior aquelles gritos.
O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a
sorrir:
--É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!
--Pobre Kate!--murmurou Jenny, suspirando--e subiu com ligeireza as
escadas, que conduziam ao mirante.
Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma
criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora,
paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho
pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os
criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e
as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os
seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos
assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que
poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.
--Cães!--bradava ella agora, n'aquelle estranho _imbroglio_ linguistico,
impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a
seguravam--Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas
deixem estar que em vindo Dick... Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me!
Dick! Dick!--Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr.
Richard.--Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer?
Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu... Olha
que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios,
que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer?
Larguem-me!
E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou
os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no
rosto encarquilhado e contrahido.
N'isto entrou Jenny no quarto.
A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao
alcance da mão.
Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e
aproximou-se d'elle.
--Cuidado, _miss_ Jenny!--disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta
matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára.
--Cautela, menina!--repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos
arredores da Maia--Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões.
Jenny não as attendeu.
Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos,
delicadas e debeis.
A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador.
--Bons dias, Kate--disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto,
risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.
Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.
--Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?
A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não
desviava de Jenny os olhos espantados.
--Não me conheces, ama?--continuou esta, em tom mais affectuoso--Kate,
então? Já nem queres conhecer a Jenny?
O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem
quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo,
que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos
desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão
soltou a faca que ainda segurava.
--Eu logo vi que me conhecias--dizia Jenny, afastando-lhe
compassivamente os cabellos da fronte enrugada.--E has de estar quieta,
não has de?
--Sim, sim--dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em
volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando
com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.
--Sim, sim, _poor thing_; sim--repetia muitas vezes, cingindo-a a cada
momento mais a si.
--Ai, _miss_ Jenny, _miss_ Jenny!--dizia a despenseira aterrada.
Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a
saír.
A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a
adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com
a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente
Mr. Richard Whitestone.
Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:
Dorme, filho, que eu vigio,
E emquanto dormes, sorri;
Que a tua porção de lagrimas
Eu as chorarei por ti.
Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz
ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles
profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do
caracter do somno final, que não vem longe.
Adormeceu entoando em voz já mal percebida:
A tua porção de lagrimas...
Eu as chorarei... por ti...
Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou
a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.
No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto
entre as mãos e soluçando.
--Que é isso, Manoel?
O velho ergueu-se com sobresalto.
--Ai, menina Jenny, é que... veja.
E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso
de porcelana com uma preciosa begonia.
--Como foi isto?--perguntou Jenny.
--O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e
tanto cuidado me recommendou! e vae eu... veja a minha desgraça, logo ao
descer a escada escorrego... Valha-me Deus, valha!
--Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito...
--Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta
estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.
Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para
apresentar-se diante de Mr. Richard.
A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde
se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e
descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa.
--Onde vae, menina?--dizia o jardineiro admirado.
Jenny não lhe respondeu.
O velho seguiu-a.
Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de
jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:
--Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque... Ai!
Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á
entrada da estufa.
--Oh!--disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.
--Vêem, vêem!--dizia Jenny, fingindo-se consternada--como Deus me
castiga a presumpção!
--É verdade--disse Mr. Richard agachado--um vaso tão bonito! Creança!
Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!
--Está vingado, Manoel--continuou Jenny.--Eu a desconfiar de si, e
vae...
O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os
estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde
retiral-a a tempo.
Era meio dia.
--Vamos,--disse Jenny a Mr. Whitestone--perdôe-me a culpa e venha ao seu
_lunch_.
Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces
e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando,
a sorrir:
--Estouvada! buliçosa!
No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra,
que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o
percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.
--Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra...
--Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.
--Agora não, que são horas do seu _lunch_.
Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos
preparativos d'esta refeição matinal.
V
UMA MANHÃ DE MR. RICHARD
Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida
domestica. Logo pela manhã, depois de uma leitura de _Biblia_ e de uma
revista á preciosa collecção de aves e de insectos de Inglaterra, que
possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie,
e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das
bellezas matutinas e a exercer a sua paixão florista, cavando, mondando,
semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupação matinal de
Mr. Richard, forçoso é confessal-o, não era demasiadamente favoravel ao
horto, para com o qual elle tinha aliás as melhores intenções d'este
mundo.
Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros
de botanica e de horticultura desde a _Flora Londinensis_ de Curtis e as
obras completas de Lindley, até ás publicações periodicas das varias
sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer
sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores
theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel,
ensaiava ás vezes processos, não referidos nos manuaes de jardinagem,
com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisição, por
todo o preço, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente
no _Covent-Garden market_ e no _Pantheon de Oxford Street_.
A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da
arte do velho commerciante.
Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era
exclusivo nas affeições floristas. A uma unica planta dedicava, em cada
época do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram
as begonias as suas predilectas. Ia um destroço n'ellas, occasionado por
tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devéras
affeiçoado ás plantas.
Mr. Whitestone ensaiára nas pobres uma especie de rega, á qual grande
numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composição indigesta,
e em que elle procurára reunir todos os elementos, que julgára mais
proprios para lhes desenvolver a vegetação.
--Isso queima-lhe as folhinhas!--aventurára-se a dizer Manoel, vendo Mr.
Richard a temperar aquella caldeirada.
--Cala a bôca, tolo. Verás como ficarão viçosas.
Á vista do resultado, Mr. Richard teve porém de abandonar o processo,
mas sem se dar por vencido.
--É que estes vasos são pouco porosos... Hei de mandar vir de Londres
uns.
Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situações
apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era.
N'estes entretenimentos levava pois o tempo até á hora do _lunch_.
Voltava então a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer
refeição d'estas. O mercado do Porto a custo póde satisfazer as
exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os
quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O _roast-beef_ á ingleza,
ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de
consistencia pastosa forneciam tambem estes _lunchs_, accommodados á
robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto
seculo da era christã eram antropophagos--segundo affirma o auctor da
_Viagem de Jersey a Gran-ville_.
Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr.
Richard gostava de ver o filho junto de si, em tão solemnes momentos,
comquanto não trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os
cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o _Times_ e acompanhar o
acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a
apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro
prato.
Porisso a ausencia de Carlos n'esta manhã cavou-lhe uma ruga de
descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e
suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre
dentes vinha trauteando ao entrar na sala.
Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo
compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria
em Londres a multidão ávida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar
as proprias composições, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas,
nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na
America do Norte, lê-se em noticias d'essa época, repetiam-se as
composições d'este musico notavel, cujo caracter nacional se
aperfeiçoara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso,
diz-se, o cunho da originalidade.
De entre a collecção de melodias, ou cantos populares, publicadas
n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroço pelos amadores
nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre
todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala.
Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do
dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez,
para justificar de sobra esta preferencia.
É um canto de animação aos numerosos bandos de emigrados, que de todos
os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares, á procura da
riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do berço natal, que todavia amam
com fervor. Se é licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da
sociedade actual para conquistar a riqueza, póde ainda incidir um raio
d'aquelle esplendor épico, de que se illuminam os trabalhos analogos do
mythologico Jason, de certo os inglezes são os heroes d'essas epopeias
modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi
com fanatismo--a patria e a familia--, aquella coragem estoica, que os
alenta nos revézes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita
os somnos perigosos, dão a esses argonautas do commercio um prestigio
respeitavel, que certas ridiculas exterioridades não podem suffocar.
Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos
aqui a traducção dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles
afinado pelo sentir do honrado negociante.
Era esta mesma canção a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia,
durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os
instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular,
milhares de espectadores cantavam unisonos:
_Cheer, boys!, cheer..._
que são as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim:
«Eia! rapazes, eia! Longe de nós a ociosa tristeza. Almas varonis, a
coragem nos alentará no caminho! A esperança impelle-nos para diante, e
mostra-nos um esplendido ámanhã; esqueçamos portanto a escuridade de
hoje.
Adeus, pois, ó Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como nós te
amem.
Nós enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos
de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois,
adeus, Inglaterra! adeus para sempre.
Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!--Eia, rapazes! a vontade
forte imprime vigor ao braço. Eia! a riqueza recompensa o trabalho
honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz!
Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o
dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no
Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a
recompensal-as; além a abundancia sorrirá ás nossas penas; e nossas
serão as planicies e as florestas, e o grão dourado amadurecerá para nós
em campos sem limites.»
Foi pois a musica correspondente a esta canção que Mr. Richard
interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher
estava preparada a mesa.
--Carlos está ainda na cama?--disse, voltando-se para Jenny e n'um tom,
em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor.
Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha
e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e até segundo as regras de
uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu.
Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmão junto de Mr.
Richard, que, já bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do
seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de
indolencia filial.
Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard
olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer
n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concessões, tratava
sempre como inimigo.
Á interrogação paterna, Jenny respondeu:
--Ainda.
--Ho!--acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural
interjeição de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume.
Jenny acrescentou:
--Charles teve de se recolher hontem mais tarde...
--Escolheu bem o dia.
--Não se lembrava...
--Exquisito!
--Creia que se não esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho,
do anniversario do pae.
Mr. Richard sentou-se e pôz-se a ler o _Times_.
Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa.
--E, como se deitou tarde--proseguiu ella, passado tempo--e eu receei
que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o não
chamassem.
--Então veio muito tarde?
--Julgo que ... ás duas horas...--balbuciou Jenny.
O criado, que começára a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio
corrigindo:
--Perdão, miss Jenny, passava já das quatro.
--Ho!--repetiu Mr. Richard.
Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a
inconveniencia da correcção.
--Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos...--disse ella--e só
soube o dia que era, quando já não ia a tempo de recusar.
Mr. Richard não precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas
censuras. Tinha já perdido o habito de discordar da filha. Porisso só
respondeu, lendo o _Times_:
--Sim, sim. Está bom. O mal d'essas extravagancias é d'elle e porisso...
N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos cães felpudos,
pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos
exterminadores d'esta raça perseguida.
--_O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?_--exclamou Mr.
Richard, saudando o seu cão predilecto, que lhe estendeu a pata como
para um _shake-hand_. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de
fiambre, o que o inglez não indeferiu.
O pequeno quadrupede sentou-se então com familiaridade na cadeira
devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justiça ás sobras do
_lunch_, que lhe cabiam em partilha.
Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a
particularidades, futeis de mais para merecerem a observação do criado
ou de outrem, que não fosse uma filha.
N'uma d'estas occasiões, Mr. Richard, como se não tivesse perdido ainda
o fio da conversa anterior, disse a meia voz:
--É que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e ... é feio isso.
Jenny não respondeu.
Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o
mesmo pensamento occupára o espirito de ambos.
Receio que os redactores do _Times_ não tivessem d'esta vez conseguido
captivar a attenção do seu leitor.
Levantou-se por fim o inglez.
Lavando as mãos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do
jardim, murmurava ainda:
--Parece mal. É mau costume.
E saíu da sala para o gabinete.
Jenny acompanhou-o.
--E demais nem tanto custa--dizia elle ainda, pelo caminho.
Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mãos de Jenny o chapéo e a
bengala, continuou no mesmo tom:
--Dá logar a que se diga ... a que se repare...
Calçando as luvas de pellica côr de canna, por uma exquisitice
patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda:
--Não sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio.
E, passado um momento:
--É feio, é feio.
Parecia emfim disposto a saír, mas Jenny, costumada a observal-o,
descobria-lhe certa hesitação, como se se travasse n'elle uma lucta
entre duas resoluções encontradas.
--Até logo, Jenny--dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir.
--Não sei o que me esquece!--murmurou depois com manifesta perplexidade.
Jenny correu os olhos pelo quarto.
--O lenço?--perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador.
--Ah! o lenço, sim ... o lenço...
Era evidente que não estava satisfeito ainda.
--Agora ... não me falta nada; adeus.
Jenny julgou que d'esta vez sempre saíria.
--Ah! sim--continuava elle, parando novamente.
Jenny fitou-o com olhar interrogativo.
--Não sei o que... Ah!... Então... então Carlos... não se levanta esta
manhã?
--Se quer que o chame?
--Não, não... É que...
E depois, interrompendo-se:
--Não é nada.
--Deseja que lhe dê algumas ordens?
--Não... mas... Emfim, o que é tem tempo.
--Mas diga; Charles não deve tardar a erguer-se...
--É que...
E Mr. Richard, com certo modo embaraçado, aproximou-se da secretária,
abriu-a e tirou de lá um magnifico relogio e corrente, de construcção
ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para
presentear o filho no dia dos annos d'elle.
A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso
intento.
Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeição resistido inteira
ao delicto filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para
reprimir as expansões d'ella.
--Ahi está--dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido
tirar ás palavras a menor sombra de affecto.--Se quizeres, pódes dar
isso a teu irmão. Para elle é que eu o destinava, se hontem...
Jenny tomou o relogio das mãos do pae, a quem agradeceu com um sorriso
de ternura.
Mr. Richard proseguiu:
--Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço...
--O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor.
Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de
inveterado scepticismo, que não lhe saíu muito expressivo.
Jenny acrescentou:
--E de mais preço ainda, se das suas proprias mãos o recebesse.
--Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de me
aceitar as minhas prendas?--perguntou o pae com certo azedume.
--Mas se... logo ao jantar...
--Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia.
--Oh! se Carlos soubesse...
--Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres.
E, dizendo isto, saíu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco
tempo transpunha o portão da rua.
O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:
--Parece muito mal.
Mas, chegando á rua, já ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a
rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao
favorito _Butterfly_ phrases de cordial affecto e trauteava por entre
dentes o popular--_Cheer, boys, cheer!,..._
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
Só
Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
Farinha (Biblioteca Nacional Digital--http://bnd.bn.pt).
(This file was produced from images generously made
available by National Library of Portugal (Biblioteca
Nacional de Portugal).)
Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
de o «Só», pour le Portugal.
L.V.
SÓ
ANTONIO NOBRE
SÓ
PARIS
LÉON VANIER, ÉDITEUR
19, QUAI SAINT-MICHEL, 19
1892
Tous Droits Réservés
MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE
Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu... O velhinho ainda cà ficou,
Mas ella disse:--«Vou, alli adiante, à _Cova_,
Antonio, e volto jà...» E ainda não voltou!
Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever...
Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
*Antonio*
Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!
Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
Á beira-mar.
Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
Contavas-me historias:
Assim... desenterro, do val do passado,
As minhas Memorias.
Sou neto de Navegadores,
Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
Da India, d'Aquém e d'Além-mar!
Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:
E o vento mia! e o vento mia!
Que irà no mar!
Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distancia!
Vizões enterradas no adro da Igreja,
Branquinha, da Infancia...
Que noite! ó minha Irmã Maria,
Accende um cyrio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto mar...
Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
«Meu lindo menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!»
Ao mundo vim, em terça-feira,
Um sino ouvia-se dobrar!
E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com elle no peito,
Com elle crescia...)
Vim a subir pela ladeira
E, n'uma certa terça-feira,
Estive jà p'ra me matar...
Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
A _Esponja do Fel_...
Ides gelar, agoas dos montes!
Ides gelar!
A Tia Delphina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura...
E sou desgraçado!
Agoas do rio! agoas das fontes!
Cantigas d'agoa pelos monles,
Que sois como amas a cantar...
E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de cor!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar...
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mail-os francezes,
Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
Levava-me, ás vezes.
Assim como elles era eu d'antes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixae o Poeta trabalhar...
Santinho como ia, santinho voltava:
Peccados? Nem um!
E a instancias do padre dizia (e chorava):
«Não tenho nenhum...»
Ó Job, coberto de gangrenas,
Meu avatar!
As noites, rezava (e rezo ainda agora)
Ao pé da lareira.
(A chuva gemente caia lá fóra,
Fervia a chaleira...)
Conservo as mesmas tuas penas,
Mais tuas chagas e gangrenas,
Que não me farto de coçar!
--Que Deus se amercie das almas do Inferno!
--Amen! Oxalá...
E o moço rosnava, tranzido de inverno:
--Que bom lá está!
E a neve cae, como farinha,
Là d'esse moinho a moer, no Ar:
O sino da Igreja tocava, á tardinha:
Que tristes seus dobres!
Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
O caldo dos pobres...
Ó bom Moleiro, cautellinha!
Não desperdices a farinha
Que tanto custa a germinar...
Ó velhas criadas! na roca fiando,
Nos lentos serões...
Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
Com medo aos ladrões!
Andaes, à neve, sem sapatos,
Vos que nâo tendes que calçar!
O Zé do Telhado morara, alli perto:
A triste viuva
A nossa caza ia pedir, era certo,
Em noites de chuva...
Corpos au léu, vesti meus fatos!
Pés nus! levae esses sapatos...
Basta-me um par.
Ó feira das uvas! em tardes de calma...
(O tempo voou!)
Pediam-me os pobres «esmola pela alma
Que Deus lhe levou!»
Quando eu morrer, hirto da magoa.
Deitem-me ao mar!
E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
Mostrando a gangrena!
E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
Que eu tinha mais pena...
Irei indo de fragua, em fragua,
Até que, emfim, desfeito em agoa,
Hei-de fazer parte do mar!
Chegou uma carta tarjada: a estampilha
Bastou-me enxergar...
Coitados d'aquelles que perdem a filha,
Tão longe do lar!
No Panthéon, tragico, o sino
Dà meia-noite, devagar:
Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
Entre herva sedenta...
Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
Luar, agoa-benta...
É o Victor, outra vez menino,
A compor um alexandrino,
Pelos seus dedos a contar!
Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
Batiam: «Truz! truz!»
E o Avô que dormia, quietinho na valla,
Entrava, Jezus!
Que olhos tristes tem meu vizinho!
Ve-me comer e poe-se a ougar:
Nas sachas de Junho, ninguem se batia
Com nosso cazeiro:
Que espanto, pudéra! se da freguezia
Elle era o coveiro...
Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
Que eu dou-te um copo d'este vinho
E metade do meu jantar.
Morria o mais velho dos nossos criados,
Que pena! que dó!
Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
Á alminha da Avó...
Bairro-Latino! dorme um pouco!
Faze, meu Deus, por socegar...
Ó banzas dos rios, gemendo descantes
E fados do mundo!
Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
Com eiras no fundo!...
Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
Ó boulevard!
Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
Como astros no céu:
E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
O roto chapéu...
Boas almas, vinde ao meu seio!
Espiritos errantes no Ar!
Ó lua encantada no fundo do poço,
Moirinha da magoa!
O balde descia, chymeras de moço!
Trazia só agoa...
Sou médio: evoco-os, noite em meio,
Vos não acreditaes, eu sei-o...
Deixal-o não acreditar.
Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
Escriptos na cal:
Cantavam Aquella que é a roza mais linda
Que tem Portugal!
Se eu vos podesse dar a vista,
Ceguinhos que ides a tactear...
A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
Bailados na terra...
Luar é caleiro que, pallido, caia
Ermidas da serra...
Quanto essa sorte me contrista!
Mas ah! mais vale não ter vista,
Que um mundo d'estes ter d'olhar.
O conde de Furnas sabia o Horacio,
Tin-tin, por tin-tin!
E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
Licção de latim.
A Morte, agora, é a minha ama...
Que bem que sabe acalentar!
E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
N'essa hora da vida!
Uzava uma bluza, que linda que era!
E trança comprida...
Á noite, quando estou na cama:
«Nana, nana! Que a tua ama
Vem jà, não tarda! foi cavar...»
Os outros rapazes furtavam os ninhos
Com ovos a abrir;
Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
Deixava-os fugir...
Camões! ó lua do mar-bravo!
Vem-me ajudar...
Os prezos, ás grades da triste cadeia,
Olhavam-me em face!
E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
Pedir que os soltasse...
Tenho o nome do teu escravo;
Em nome d'elle e do mar-bravo,
Vem-me ajudar!
E quando um malvado moia a chibata
Um filho, ou assim,
Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
Bata antes em mim...»
E o vento geme! e o vento geme!
Que irà no mar!
E quando dobrava na terra algum sino
Por velho, ou donzella,
A meu Pae rogavam «deixasse o menino
Pegar a uma vela...»
Lobos d'agoa, que ides ao leme,
Tende cuidado! a lancha treme...
Orçar! orçar!
Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
Aos tristes cazaes!
Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
Saudes aos paes...
Meu velho cão, meu grande amigo,
Porque me estàs assim a olhar?
A Prima doidinha por montes andava,
Á lua, em vigilia!
Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
Na minha Familia...
Quando ou choro, choras commigo
Meu velho cão! és meu amigo...
Tu nunca me has-de abandonar.
E os annos correram, e os annos cresceram,
Com elles cresci:
Os sonhos que tinha, meus sonhos... morreram,
Só eu não morri...
Frades do Monte de Crestello!
Abri-me as portas! quero entrar...
Fui vendo que as almas não eram no mundo
Singellas e francas:
A minha que o era ficou, n'um segundo,
Cheiinha de brancas!
Cortae-me as barbas e o cabello,
Vesti-me esse habito singello...
Deixae-me entrar!
Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
Tal qual Pedro-Sem,
Que teve fragatas, que teve galeras,
Que teve e não tem...
Moço Luziada! criança!
Porque estàs trisle, a meditar?
Vieram as rugas, caiu-me o cabello
Qual musgo da rocha...
Fiquei para sempre sequinho, amarello,
Que nem uma tocha!
Ves teu paiz sem esperança,
Que todo allue, à semelhança
Dos castellos que ergueste no Ar?
E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pallido, diz:
«Meu pobre menino! que Nossa Senhora
Fez tão infeliz...»
Pariz, 1891.
*Menino e Moço*
Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
Que d'antes estendia as azas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa vizão de luar que vivia encantada,
N'um castello de prata embutido a marfim!
Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!
Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais...
Leça, 1885.
*Os Cavalleiros*
--Onde vaes tu, cavalleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'elle a ventar...
Não responde o cavalleiro,
Que vae absorto a scismar.
--Onde vaes tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vaes bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
--Vaes levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavalleiro, á passagem,
Faz as arvores vergar.
--Vaes escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não ha no mundo pedreiro
Que a mim se possa egualar!
Não responde o cavalleiro
E o vento torna a fallar:
--Dize, dize! vaes p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não ha cavallo na Terra
Que tenha tão bom andar...
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
--E as guerras has-de ganhal-as,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me á frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as arvores formam alas
Para os guerreiros passar.
--Vaes guiar as caravellas
Por sobre as agoas do mar?
Guiarei as tuas velas
Á feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janellas
E a lua vem espreitar...
--Onde vaes na galopada,
Á tua infancia, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vae longe a trovoada,
Vae de todo a alliviar.
--Vaes ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ella fia,
Ajudei-lh'o eu a seccar!
E o luar é a Virgem Maria...
Que lindo vae o luar!
--Vaes ver a tua mãesinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!...
E o cavalleiro caminha,
Caminha sem se importar!
--Vaes ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo geito
Ella o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
--Onde vaes tu? Aonde, aonde?
Phantasma! vaes-te cazar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar...
E o phantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
--Vaes á cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquelle que a procura
Que eu nunca a pude encontrar...)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavallo estacar:
--Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma chymera
E todo lhe ri o olhar...)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
--Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inuteis jornadas,
Nunca lá has-de chegar...
Palavras foram facadas
Que é vel-o, todo a sangrar...
E seus cabellos trigueiros
Começam de branquiar,
E olham-se os dois cavalleiros...
Quedam-se ambos a scismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os gallos cantar...
--Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar...
E o vento vae por hi fóra,
No seu cavallo, a ventar...
Pariz, 1891.
*Purinha*
O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará p'ra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
E negro como a capa das viuvas...
(Á maneira o trará das virgens de Belem
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhaes,
Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua bocca uma romã,
Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
Cabrinhas montezas da Serra da Estrella...
E ha-de ser natural como as hervas dos montes
E as rolas das serras e as agoas das fontes...
E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
E os rios ao passar hão-de cantal-a.
Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve... far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a lua para mim será como uma preta!
Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
E a minha fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar...
Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!
E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
Quando ainda no céu não bole uma aza,
A minha Noiva sairá de caza
Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos...
E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
E ficará, coitada! como morta!
E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda... olhando,
Com o avental seus olhos enxugando...
E hão-de cercal-a sete madrinhas,
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estreiar vestido novo!
E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo...
E o povo da freguezia
Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
E dir-me-ão que «já vae pintando a uva...»
E animados então (o povo é uma criança!)
Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
«Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
«Que seja mui feliz, Sr. Doutor...»
E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar...
E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
«Já nasce o dia!» eu olharei... mas não:
É a minha Noiva que parece dia,
Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
E dirá o pastor, com espanto tamanho,
Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
E o pescador explicará ao bom moleiro
Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
Que assim já foram as velhinhas scismarão,
E as netas, coitadas! que, um dia, o serão...
Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de...
E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
E, em seguida, será a nossa boda,
E festas haverá, na aldeia toda.
E as mais raparigas do sitio, solteiras,
Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
E cantigas dirão a seu respeito.
E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
Sorrirá com simplicidade para ellas.
E a noite, pouco e pouco, descerá...
E tudo acabará.
E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
E a sua mãe ha-de aabraçar... E hão-de chorar!
E a sua alcova deitará sobre o quintal,
Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama...
Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
Que este Palacio de Ventura encerra?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
E a minha fada com sua vara de condão
Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»
Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas! lindas meninas
Do Reino de Portugal!
O nosso lar!
Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
Que seja tal qual uma rezidencia,
Alegre, branca, rustica, por fóra.
Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora...»
Mas no interior ella ha-de ser sombria,
Como eu com esta melancholia...
E salas escuras, chorando saudades...
E velhos os moveis, de antigas idades...
(E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
E nas paredes telas de parentes...
E janellas abertas sobre os poentes...
(E a Chymera lerá o seu livro de rezas...)
E cravos vermelhos por cima das mezas...
E o relogio dará as horas devagar,
Como as palpitações de quem se vae finar...
E, dia inteiro, n'esta solidão,
Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
E a scismar e a scismar em que? em quem?
Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
Rogarei aos Espiritos remedio
E um bom Espirito virá tratar do doente
E ha-de tremer de susto a outra gente.
E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
Mas a Purinha, então, vindo da rua,
Toda de branco surgirá, como uma Lua!
E, então, acordarei d'essa desesperança
E pela mão me levará, como uma criança.
E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
«Não te afflijas...» dirá, baixinho...
E, assim, será piedoza para os mais:
E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
E será a Saude dos Enfermos!
E quando pela estrada encontrar um velhinho
Todo suado, carregadinho,
(Louvado seja Nosso Senhor!)
Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
E, aos sabbados, o dia das esmolas,
A Santa descerá ao patamar da escada,
Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
E mais aos alleijadinhos,
Mais aos que botam sangue pela bocca,
Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
Mais ás viuvas dos degredados...
E tudo seja pelos meus peccados!
E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
As velas rôtas dos pescadores
E a luz do seu olhar benzerá essas velas
E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
E accenderá os cyrios ao Senhor,
(Que sejam como ella no talhe e na cor!)
Quando houver temporal... e eu virei p'ra saccada
Ver os relampagos, ouvir a trovoada!...
E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
Fallar á alma que na angustia se consome,
Dar de comer a quem tem fome,
Dar de beber a quem tem sede...
E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede...»
E eu hei-de em minhas obras imital-a
E amal-a como á Virgem e adoral-a.
E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
As marés-vazas d'este doido coração
E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
Que para mim será a lua-nova!
E ha-de ir commigo para a mesma cova,
Pois que no dia em que eu morrer
Veneno tomará, n'uma colher...
Mas em que patria, em que nação é que se esconde
Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
E a minha fada com sua vara de marfim
Tocou meu peito... e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_...
Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!
Pariz, 1891.
*Elegia*
Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma criança...
Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar...
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o céu é todo estrellado...)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha...
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
Chegas!
E cae e cae no soalho alguma terra:
Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!
Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
Onde levavas as desgraças d'esta vida;
Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
(Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
E, mal acabem, te verei de novo... em breve!
E tu de novo me verás...
Ah! como deve
Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
Que a tua cova era a unica sem cheiro...
E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
Sem uma mão amiga e cheia de bondade
Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
Que abra a janella para tu veres o sol,
Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
Cobrir-te, dar-te as boas-noites... Sem ninguem!
Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!
Dobra era meu coração o sino da saudade...
Aqui, no meio d'esta fria soledade,
Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes...
Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
Devagar, devagar, como os ais d'um doente...
Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
Meio cerrados, como ao sol uma janella,
Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
E andava á solta pela caza, não fugia,
Que aos libres ares o cazulo preferia...
Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
Que tem o nome que tiveste... Vejo-a, ainda,
Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
No seu vestido rubro, uma papoila a andar...
Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas...
Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
E tu encommendando a alminha que voara...
Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos...
Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
(Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio...)
Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
D'um lado e eu de outro...
Que abençoado refeitorio!
Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
(Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
(Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio...)
Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
(Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
A janella ainda tem o mesmo parapeito
(Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
Na sala de jantar ainda se estende a meza
(Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
Vejo o relogio na parede como outrora
(Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora...)
O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
(Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
(Mas já não tem os olhos teus para a seguir...)
Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
(Mas não destraçam suas capas, como d'antes...)
Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
(Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas...)
As andorinhas ainda têm o mesmo fito
(Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto...)
Ainda dobra por defuntos e defuntas
(Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
Ainda lá está o figueiral com figos,
(Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos...)
O Ruy ainda traz a farda de soldado
(Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
(Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
(Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
Ainda lá estão os cravos, no jardim,
(Mas já não são as mesmas notas de clarim...)
Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
(Mas já não acho tão branquinha a sua agoa...)
A Margareth ainda é a papoila de outrora
(Mas a papoila... já está uma senhora!)
Ainda lá estão as papoilas em flor
(Mas a velhinha já não vae de regador...)
Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
(Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas...)
Vive ainda o Sol, vivo eu ainda... (Mas tu morreste!)
Tudo ficou, tudo passou...
Que mundo este!
Pariz, 1891.
*Os Sinos*
1
Os sinos tocam a noivado,
No Ar lavado!
Os sinos tocam, no Ar lavado,
A noivado!
Que linda criança que assoma na rua!
Que linda, a andar!
Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
Que vem a andar...
Tambem, algum dia, o povo na rua,
Quando eu cazar,
Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
Que vae cazar...
2
E o sino toca a baptizado
Que lindo fado?
E o sino toca um lindo fado,
A baptizado!
E banham o anjinho na agoa de neve,
Para o lavar,
E banham o anjinho na agoa de neve,
Para o sujar.
Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
Não soffre mais...
3
Os sinos dobram por anjinho,
Coitadinho!
Os sinos dobram, coitadinho...
Pelo anjinho!
Que aceiada que vae p'ra cova!
Olhae! olhae!
Sapatinhos de sola nova,
Olhae! olhae!
Ó lindos sapatos de solinha nova,
Bailae! bailae!
Nas eiras que rodam debaixo da cova...
Bailae! bailae!
4
O sino toca p'ra novena,
_Gratiae plena_,
E o sino toca, _gratiae plena_,
P'ra novena.
Ide, meninas, á ladainha,
Ide rezar!
Pensae nas almas como a minha...
Ide rezar!
Se, um dia, me deres alguma filhinha,
Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
Com sua mãe...
5
E o sino chama ao Senhor-fóra,
A esta hora!
Os sinos clamam, a esta hora,
Ao Senhor-fóra!
Accendei, vizinhos, as velas,
Allumiae!
Velas de cera nas janellas!
Allumiae!
E luas e estrellas tambem poem velas,
A allumiar!
E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
A allumiar...
6
E os sinos dobram a defuntos,
Todos juntos!
E os sinos dobram, todos juntos,
A defuntos!
Que triste ver amortalhados!
Senhor! Senhor!
Que triste ver olhos fechados!
Senhor! Senhor!
Que pena me fazem os amortalhados,
Vestidos de preto, deitados de costas...
E de olhos fechados! e de olhos fechados!
E de mãos postas!
E os sinos dobram a defuntos,
Dlin! dlang! dling! dlong!
E os sinos dobram, todos juntos,
Dlong! dlin! dling! dlong
Pariz, 1891.
*Terças-Feiras*
Ao Alberto
1
Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
Santo de minha extrema devoção,
Alma tamanha, que adorei de perto,
Lá na _Thebaida_ do Sr. João.
Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
Luar branco na minha escuridão!
Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!
A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
D'aquelle que nasceu, em terça-feira
E em terça-feira morrerá, talvez...
Quando eu for morto já, noites de inverno,
Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
Para eu ouvir de _lá_:
«Era uma vez...
Pariz, 1891.
2
Legenda do Santo
«Era uma vez um velho, mui velhinho,
Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
Dois saccos de Amargura a carregar.
O pobre velho, todo derreadinho,
Já não podia mais, queria arreiar;
Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
Eu deito-lhe uma mão para o ajudar...»
E o fidalgo desceu do seu cavallo:
Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
E aos hombros carregou com o maior!
E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»
Pariz, 1891.
3
Prologo
Em hora de afflicçãô, molhei a penna
Na chaga aberta d'esse corpo amado,
Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
Cheia de puz, de sangue já coalhado!
E depois, com a mão firme e serena,
Compuz este missal d'um torturado:
Talvez choreis, talvez vos faça pena...
Chorae! que immenso tenho eu já chorado.
Abri-o! Orae com devoção sincera!
E, à leitura final d'uma oração,
Vereis cair no solo uma chymera...
Moços do meu paiz! vereis então
O que é esta Vida, o que é que vos espera...
Toda uma Sexta-feira de Paixão!
Coimbra, 1889.
4
Natal d'um Poeta
Em certo reino, á esquina do planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor fôra não a ver jamais.
Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reaes!
E, embora eu seja descendente, um ramo
D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo ideal:
Nada me importas, Paiz! seja meu amo
O Carlos ou o Zé da Th'reza... Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal!
Coimbra, 1889.
5
Ai de Mim!
Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...
Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.
Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!
Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?
Boa Nova, 1887.
6
Conde
Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse um grande mal)
Torreão de gloria, o que é a phantasia,
Todo de lapis-lazzuli e coral!
N'aquellas redondezas, não havia
Quem se gabasse d'um dominio egual:
Oh o Torreão de gloria! parecia
O territorio d'um Senhor-feudal!
Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
Um vento secco de tortura e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,
O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já foi um poderoso Conde,
N'aquella idade em que se é conde assim...
Porto, 1887.
7
Ó Virgens!
Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me transporte ao meu perdido lar...
Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formozura, o luar!
Cantae! cantae as limpidas cantigas!
Das ruinas do meu lar desatterrae
Todas aquellas illuzões antigas
Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas;
Adormecei-me n'essa voz... Cantae!
Porto, 1886.
8
Á Luz de Lua!
Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.
Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D'uns noivos mortos ao cingir da estola...
A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!
Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga...
Porto, 1884.
9
Desobriga
Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
Contar-t'os? Para que, se não têm fim...
Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
Mas tu és mais que santa ao pé de mim!
A ti accendo cyrios perfumados,
Faço novenas, queimo-te alecrim,
Quando soffro, me vejo com cuidados...
Nas tuas rezas, lembra-te de mim!
Que eu seja puro d'alma e pensamento!
E que, em dia do grande julgamento,
Minhas culpas não sejam de maior:
Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
Um processo a correr n'essa comarca,
Cujo delegado é Nosso Senhor...
Hamburgo, 1891.
10
Que Aborrecido!
Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a bocca a bocejar sombrios:
Deslizam vagarozos, como os rios,
Succedem-se uns aos outros, egualmente.
Nunca desperto de manhã, contente.
Pallido sempre com os labios frios,
Oro, desfiando os meus rozarios pios...
Fôra melhor dormir, eternamente!
Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter, como têm os mais rapazes,
Olhos boiando em sol, labio vermelho!
Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim, emquanto moço,
O que serei, então, depois de velho...
Bellos-Ares, 1889.
11
Poveiro
Poveirinhos! meus velhos pescadores!
Na Agoa quizera com vocês morar:
Trazer o lindo gorro de trez cores,
Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!
Far-me-ia outro, que os vossos interiores
De ha tantos tempos, devem já estar
Calafetados pelo breu das dores,
Como esses pongos em que andaes no mar!
Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!
No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
_Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!
Leça, 1889.
12
O Sr. Abbade
Quando vem Junho e deixo esta cidade,
Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
Vou para o Seixo, para a minha herdade:
Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!
Tomo o regimen do Sr. Abbade,
E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
No seu direito olhar vejo a bondade,
E ás capellinhas vou ver os judeus.
Que homem sem par! Ignora o que são dores!
Para elle uma ramada é o pallio verde,
Os cachos d'uvas são as suas flores!
Ao seu passal chama elle o mundo todo...
Sr. Abbade! olhe que nada perde:
Viva na paz, ahi, longe do lodo.
Coimbra, 1850.
13
Maes, Vinde Ouvir!
Longe de ti, na cella do meu quarto,
Meu copo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!
Para fallar, assim, ve tu! já farto,
Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
Soffres por mim as dores crueis do parto
E trazes-me no ventre nove mezes!
Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, magica bebida!
Fôra melhor não ter nascido, fôra,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d'Africa da Vida...
Coimbra, 1889.
14
Sê Altivo!
Altos pinheiros septuagenarios
E ainda empertigados sobre a serra!
Sois os Enviados-extraordinarios,
Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.
A noite, sob aquelles lampadarios,
Conferenciaes com elle... Ha paz? Ha guerra?
E tomam notas vossos secretarios,
Que o _Livro Verde_ secular encerra.
Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
Tendes a linha, não vergaes as frontes
Na exigencia da côrte, ou beija-mão!
Voltaes aos homens com desdem a face...
Ai oxalá! que Pan me despachasse
Addido á vossa extranha legação!
Coimbra, 1888.
15
Sê de Pedra!
Não reparaste nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegraphicos da estrada,
Cantam as aves, desde que o sol nada,
E, á noite, se faz sol a lua cheia...
No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:
--Revolução!--Inutil.--Cem feridos,
Setenta mortos.--Beijo-te!--Perdidos!
--Emfim, feliz!--?--!--Desesperado.--Vem!
E as lindas aves, bem se importam ellas!
Continuam cantando, tagarellas:
Assim, Antonio! deves ser tambem.
Colonia, 1891.
16
Vae para um Convento!
Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
Torres por terra! As arvores sem ramos!
Ó meus amigos! todos nós falhamos...
Nada nos resta. Somos uns perdidos.
Choremos, abracemo-nos, unidos!
Que fazer? Porque não nos suicidamos?
Jezus! Jezus! Resignação... Formamos
No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.
Troquemos o burel por esta capa!
Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
Clamam por nós, convidam-nos a entrar...
Vamos semear o pão, podar as uvas,
Pegae na enxada, descalçae as luvas,
Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar...
Coimbra, 1889.
17
A França!
Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Gloria, em plena paz.
Terras da Patria somem-se na treva,
Agoas de Portugal ficam, atraz...
Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ancia em que jaz...
Ó Luzitania que te vaes á vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ella...)
Na minha _Nau Catharineta_, adeus!
Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa á gavea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!...
Oceano Atlantico, 1890.
18
Tempestade!
O meu beliche é tal qual o bercinho,
Onde dormi horas que não vêm mais.
Dos seus embalos já estou cheiinho:
Minha velha ama são os vendavaes!
Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais...
Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
Que foi moreante? Que dirão teus Paes?
Coragem! Considera o que has soffrido,
O que soffres e o que ainda soffrerás,
E ve, depois, se accaso é permittido
Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
Antonio, que o paquete fosse ao fundo!
Golpho de Biscaya, 1891.
19
Continua a Tempestade
Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
E vinha, de manhã, trazer-me o leite...
Aqui, não tenho um unico deleite!
Talvez... baixando, em breve, á Agoa fria,
Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
Sem uma flor, sem o menor enfeite...
Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
Lar adorado, em fumos, a distancia,
Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar...
Minha velha aia! conta-me essa historia
Que principiava, tenho-a na memoria,
«Era uma vez...»
Ah deixem-me chorar!
Canal da Mancha, 1891.
20
Vaidade, Tudo Vaidade!
Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.
Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...
Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!
Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?
Mar do Norte, 1891.
21
Paz!
E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão...
Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!
Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do _além_ e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha unica afflicção...
Toda a dor pode suspportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva... essa que traz...
Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar n'esse convento
Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!
Pariz, 1891.
22
Epilogo
Meu coração, não batas, pára!
Meu coração, vae-te deitar!
A nossa dor, bem sei, é amara,
A nossa dor, bem sei, é amara...
Meu coração, vamos sonhar...
Ao mundo vim, mas enganado.
Sinto-me farto de viver:
Vi o que elle era, estou massado,
Vi o que elle era, estou massado...
Não batas mais! vamos morrer...
Bati á porta da Ventura
Ninguem m'à abriu, bati em vão:
Vamos a ver se a sepultura,
Vamos a ver se a sepultura
Nos faz o mesmo, coração!
Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
Que a ambos nós vaes digerir...
Meu coração, a _Velha_ chama,
Meu coração, a _Velha_ chama...
Basta, por Deus! vamos dormir...
Coimbra, 1888.
*Carta a Manoel*
Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
A cuja influencia a minha alma não reziste,
Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem...
E pede ao vento que não uive e gema tanto:
Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
Peor que um diamante a riscar na vidraça!
Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
Tal a menina pelas vesperas da boda,
Atarefada mail-a ama, a arrumar...
O vento afoga o meu espirito n'um mar
Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
São todos feitos de luar, recordações.
Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
O grande evocador do vento evoca, evoca
Nosso verão magnifico, este anno passado,
(E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
O _tic-tac_ do relogio do fogão)...
Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
Na existencia que tive este verão na praia,
Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
No barco á vela do moreno Gabriel!
Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
Phantasmas do passado! encantadas vizões!
Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.
Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!
Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote...
E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
Tudo se foi...
Hoje, mais nada tenho que esta
Vida claustral, bacharelatica, funesta,
N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
Bem me dizias tu, como que adivinhando
O que isto para mim seria, Amigo, quando
O anno passado, vim contra tua vontade
Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
«Anto não vás...» dizias tu. Eu, fraco, vim.
Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
Que optimas prelecções as prelecções modernas,
Cheias de observação e verdades eternas,
Que faz diariamente o Proff. Oceano!
Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
Manoel! faltava um anno só para acabar
Meu curso de Psychologia com o Mar.
Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
Talvez... preguiça, eu sei... A _cabra_ é a cotovia:
As aulas, lá, começam mal aponta o dia!
Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança...)
Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
Tia Camella... só ficou a camelice.
Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
Que extraordinarias e medievas raparigas!
E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
Manoel! tão lindas são...»
Que pena que não ouças!
Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!
Olha... São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
Dos navegantes do seculo XVI?
Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
E magros! tristes! de cabeça derreiada!
Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
--E os doutores?--Ahi, os tens graves, á porta.
Porque te ris? Olhal-os tanto... Que te importa?
Ha duas excepções: o mais, são todos um,
Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum...
Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
Penedo!
Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
Mal diria eu em pequenito, quando a ama
Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
Imitava-te o andar, que não era bem de homem...
Eu tinha birras?--Ahi vem o lobishomem!
Dizia ella.--Bate á porta! Truz! truz! truz!
E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!
Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
E eternamente, para espanto de vindoiros:
No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.
Mas... toca a recolher. Dou uma falta: embora!
Saiamos...
Manoel, vamos por ahi fóra
Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
Por esses lindos, deliciozos arredores,
Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
Santos Logares, onde jaz meu coração!
Cada um é para mim uma recordação...
_Condeixa_?
Vamos ao arraial que, alli, ha.
--Sol, poeira, tanta gente!--É o mesmo, vamos lá!
Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
E sabemos das leis...» O que devem fazer
Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
Que estraga as plantações!--Que hão-de fazer? Bebel-as!
E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos...
Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!
_Tentugal_?
Que manhã! E não quereres vir...
Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
É logo alli: quinze kilometros, é perto.
Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados...
Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
Uma colonia de phtysicos, a ares!...
Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus...
Ó choupos, até lá... Adeus! adeus! adeus!
Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
Á natureza e o sol a semear Justiça!
Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
Mas o trem voa á desfilada...--Olá! arreda!
(Ia-o apanhando: foi por um fio de seda...)
E assim n'este galope, a charrette rodando,
Já de Tentugal se vae quazi approximando:
S. João do Campo já nos fica muito atraz...
Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
Emfim!
Tentugal toda a rir de cazas brancas!
A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
E contrariado vou de todas essas vezes.
Venho ao convento vizitar a linda freira,
Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira...
Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
Tem de recheio o coração da minha amada.
Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver...--Traz?--Não!
Regresso a Coimbra só com o meu coração.
Coimbra, 1888-1889-1890.
*Para As Raparigas de Coimbra*
1
Ó choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nós:
És tal qual meu avôzinho,
Falta-te apenas a voz.
2
Minha capa vos acoite
Que é p'ra vos agazalhar:
Se por fóra é cor da noite,
Por dentro é cor do luar...
3
Ó sinos de _Santa Clara_,
Por quem dobraes, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do céu!
4
A sereia é muito arisca,
Pescador, que estás ao sol:
Não cae, tolinho, a essa isca...
Só pondo uma flor no anzol!
5
A lua é a hostia branquinha,
Onde está Nosso Senhor:
É d'uma certa farinha
Que não apanha bolor!
6
Vou a encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu'é da tua agoa?
Qu'é dos prantos que eu chorei?
7
A _cabra_ da velha Torre,
Meu amor, chama por mim:
Quando um estudante morre,
Os sinos chamam, assim.
8
--E só porque o mundo zomba
Que poes luto? Importa lá!
Antes te vistas de pomba...
--Pombas pretas tambem ha!
9
Therezinhas! Ursulinas!
Tardes de novena, adeus!
Os corações ás batinas
Que diriam? sabe-o Deus...
10
Teu coração é uma igreja:
N'uma eça dorme, alli,
Manoel, bemdito seja,
Que morreu d'amor por ti.
11
Manoel no _Pio_ repoiza:
Todos os dias, lá vou
Ver se quer alguma coiza,
Perguntar como passou.
12
Agora, são tudo amores
A roda de mim, no _Caes_,
E, mal se apanham doutores,
Partem e não voltam mais...
13
Aos olhos da minha fronte
Vinde os cantaros encher:
Não ha, assim, segunda fonte
Com duas bicas a correr!
14
Nossa Senhora faz meia
Com linha feita de luz:
O novello é a lua-cheia,
As meias são p'ra Jezus.
15
Meu violão é um cortiço,
Tem por abelhas os sons
Que fabricam, valha-me isso,
Fadinhos de mel, tão bons...
16
Ó fogueiras, ó cantigas,
Saudades! recordações!
Bailae, bailae, raparigas!
Batei, batei, corações!
Coimbra, 1890.
*Luzitania no Bairro-Latino*
Só!
Ai do Luziada, coitado,
Que não tem mãe, nem tem avó,
Que não ama, nem é amado...
Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
Que triste foi o seu fado!
Antes fosse p'ra soldado,
Antes fosse p'ro Brazil...
Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que S. Silvestre fazia andar...
Formozas cabras, muito pequeninas,
Loiras vaquinhas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
Meus bibes eram da sua lã...
Antonio era o pastor d'esse rebanho:
Com ellas ia para os montes, a pastar.
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto d'ellas era o meu jantar...
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Com essas boas irmãzinhas
A quem só mingoava a falla
Para serem perfeitas criaturinhas...
E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
Que era da minha Torre a freguezia,
Batiam as _Trindades_,
Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_...
E as doces ovelhinhas imitavam-me.
Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite...
Um dia, os castellos cairam do Ar!
As oliveiras seccaram,
Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
Sairam-me os ladrões, só me deixaram
As velas do moinho... mas rôtas e velhas!
Que triste fado!
Antes fosse aleijadinho,
Antes doido, antes cego...
Ai do Luziada, coitado!
Veio da terra, mail-o seu moinho:
Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar agoas do Sena...
É negra a sua farinha!
Orae por elle! tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade...
Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanarios, ó luas cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que cegas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando...
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes mineraes,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!
Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?
Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca a fiar,
Cabello todo em caracoes!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzoes!
Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
Procissões com muzica e anjinhos!
Srs. Abbades d'Amarante,
Com trez ninhadas de sobrinhos!
Onde estaes? onde estaes?
Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
Cidade triste agazalhada entre choupaes!
Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia...
Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
Onde se enroscam como espozos as lagartas!
Sr. Governador a podar as rozeiras!
Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!
Que é feito de vós?
Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
Pelo porta-voz...
Arrabalde, maritimo da França,
Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
E do _Senhor de Calais_,
Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
Cujos cadaveres ainda vejo á tona...
Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
Para os vapores a fazer signaes!
Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
Diccionario magnifico de cores!
Alvas espumas, espumando a fragua,
Ou rebentando, á noite, como flores!
Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
Cheias de brigues como pinhaes...
Morenos mareantes, trigueiros pastores!
Onde estaes, onde estaes?
Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
Cuja Abbadessa secular é a Lua
E cujo Padre-capellão é o Vento...
Agoa salgada d'esses verdes poços,
Que nenhum balde, por maior, escua!
Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!
Corpo de virgem, que ainda veste a saia...
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadaver ainda com véu...
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta...
Boccas abertas que ainda soltam ais!
Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa...)
Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!
Onde estaes, onde estaes?
Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios...
Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
Engenheiros, medindo a estrada com a fita...
Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
Atracou, diz a Historia,
No dia... não estou lembrado;
Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
Onde o Senhor appareceu a uma velhinha...
Algas! farrapos do vestido da sereia!
Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
Sol-por, entre pinhaes...
Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!
Onde estaes?
2
Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
Traze o teu livro, toma as tuas notas:
Oh as lanchas dos poveiros
A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que extranho é!
Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
Á espera da maré,
Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar,
Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rozario de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:
_S^{nra} Nagonia_!
Olha, acolá!
Que linda vae com seu erro de ortographia...
Quem me dera ir lá!
_Senhora Da guarda_!
(Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
_Senhora d'ajuda_!
_Ora pro nobis_!
_Calluda_!
_Sêmos probes_!
_S^{enr} dos ramos_!
_Istrella do mar_!
_Ca bamos_!
Parecem Nossa Senhora, a andar.
_S^{ra} da luz_!
Parece o pharol...
_Maim de Jesus_!
É tal qual ella, se lhe dá o sol!
_S^r dos Passos_!
_Sinhora da Ora_!
Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
Parecem ermidas caiadas por fóra...
_S^{nr} dos Navegantes_!
_Senhor de Matuzinhos_!
Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
A mail-os quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar...
_Senhora aos aflitos_!
_Martyr Sao Sebastiao_!
_Ouvi os nossos gritos_!
_Deus nos leve pla mao_!
_Bamos em paz_!
Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!
Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
E das vagas, aos rythmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
«As armas e os barões assignalados...»
Lá sae a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira...
Como ella corre! com que força o vento a impelle:
_Bamos com Deus_!
Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
Por esse mar de Christo...
Adeus! adeus! adeus!
3
Georges! anda ver meu pàiz de romarias
E procissões!
Olha essas moças, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
Gula e luxuria dos Maneis!
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
Toca a bailar!
Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
Que hão de gostar!
Tira o chapéu, silencio!
Passa a procissão.
Estralejam foguetes e morteiros.
Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
Honestos e morenos cavalheiros.
Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
Parecem _Torres de David_, na amplidão!
Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
Olhos leaes fitos no vago... não sei onde!
Os anjinhos!
Vêm a suar:
Infantes de trez annos, coitadinhos!
Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
Que elles mal sabem andar...
Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
(Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
Seus doces olhos fazem luar...
Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
Mas perde tudo se vae jogar.
E esta que passa, toda de arminhos,
(Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)...
Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
Flor de criança que os não tem.
E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
Mal ella sabe, a innocentinha...
Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
Lá vem a _Lança_! A bainha
Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_...
Jezus!
Que maravilha de criança!
O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança...
Passa o ultimo, o _Sudario_!
O corpo de Jezus, Nosso Senhor...
Parece o sol-por!
E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
É o Oceano Atlantico!
O bom povinho de fato novo,
Nas violas de arame soluça, romantico,
Fadinhos chorozos da su'alma beata.
Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.
Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
Como a velha cabeça aureolada de Deus!
Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.
Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
_Pão de ló de Margaride_!
_Agoinha fresca da Moirama_!
_Vinho verde a escorrer da vide_!
Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
E uma netinha com um ramo de loireiro
Enxota as moscas, do moribundo...
Dança de roda mail-as moças o coveiro.
Clama um ceguinho:
«Não ha maior desgraça n'esta vida,
Que ser ceguinho!»
Outro, moreno, mostra uma perna partida!
Mas fede tanto, coitadinho...
Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira...»
E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
Labareda de cancros em fogueira,
Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
Ó Georges, ve! que excepcional cravina...
Que lindos cravos para por na botoeira!
Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
Tragicos, uivam «uma esmola plas alminhas
Das suas obrigações!»
Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar...
Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
Onde estão elles que não vêm pintar!
Pariz, 1890-1891.
*Os Figos Pretos*
--Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
Vós sois odiadas desde os seculos avós:
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!
--Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
Deixae-o fallar!
Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
Que bom que é amar!
--O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.
--Quando eu for defunta para os esqueletos,
Ponde uma ao meu lado:
Tristinha, chorando, darà figos pretos...
De luto pezado!
--Os aldeões para evitar vosso perfume
Sua respiração suspendem, ao passar...
Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
Os carpinteiros não vos querem aplainar.
--Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
Que incensa o Senhor!
Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
Para o meu amor...
--As outras arvores não são vossas amigas...
Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
Com essas folhas, sois como velhas mendigas
N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!
--Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
E cheias de figos!
Os ricos là passam e não vos dao nada,
Vos daes aos mendigos...
--Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
Utilizada para as forcas, onde as ha...
--Que màs creaturas! que injustas sois todas
Que injustas que sois!
Serà de figueira meu leito da bodas...
E os berços, depois
--Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!...
Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!
--Tambem era negro, de negro cegava
O pranto, o rosario,
Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
Alguem, no Calvario...
--E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
Se os figos caem de maduros, pelo chão:
Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
A chorar, a chorar sua alta traição!
--Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
Deixae-o fallar!
Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
Cantar e bailar...
Coimbra, 1889.
*Febre Vermelha*
Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
Para que em vosso seio o labio meu se atole:
Beber até cair, bebedo, para o lado!
Quero beber, beber até o ultimo gole!
Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
As ondas como o oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ophelias de luar...
Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis...
Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
E eu ando a construir meu cortiço de mel...
Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
Tintos da mesma cor os corações e as balas!...
Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus...
Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!
Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
O triste fado que me deu Nosso Senhor...
Scismo já farto de velar minha alma doente,
Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
A uivar, como os leões quando os ataca a sede!
Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
Por um Titan de bronze atirado a esses céus!
Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca...
Leça, 1886.
*Poentes de França*
--Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada...)
Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!
--Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
Ó poentes de França! não vos amo, não!
--Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!
Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
Á hora em que passam branquinhos moleiros,
Levando farinha p'ra cozer o pão!
--Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!
--Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
Ó poentes de França! não vos amo, não!
--_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!
Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
Quando vem das sachas o Sr. Joao...
--Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
Varaste os corações d'um exercito em fila!
--Ó hora em que as agoas rebentam das minas...
Ó poentes de França! não vos amo, não!
--Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
E roxos e cardeaes e amarellos e azues!
--Ó hora em que passam moças e meninas
Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
Com rozas nos seios e um livro na mão...
--Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
A tua saude erguer a minha taça ardente!
Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!
--Eu amo os poentes, mas sem agonias,
Ó poentes de França! não vos amo, não!
--Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
A tua porta os marinheiros vão bater:
Lá vejo os astros por seus calices de prata,
Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber...
Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
Ó poentes de França! não vos amo, não!
Pariz, 1891.
*Pobre Tysica*!
Quando ella passa á minha porta,
Magra, livida, quazi morta,
E vae até á beira-mar,
Labios brancos, olhos pizados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração poe-se a chorar...
Perpassa leve como a folha,
E suspirando, ás vezes, olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupillas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as azas para voar!
Veste um habito cor de leite,
Saiinha liza, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
«Noiva feliz, que vaes cazar...»
Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
Que, dentro em pouco, á fria cova
A irá de vez acompanhar...
O chão desnuda com cautella,
Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
Quando ella tosse, poe-se a uivar!
E, assim, sósinha com a aia,
Ao sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bébés, que é o seu logar...
E o Oceano, tremulo avôzinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vem ter com ella a conversar...
Fallam de sonhos, de anjos, e elle
Falla d'amor, falla d'aquelle
Que tanto e tanto a faz penar...
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Ha-de sarar...»
Sarar? Mizerrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encommendar:
Corpinho d'anjo, casto e inerme,
Vae ser amada pelo Verme:
O bichos vão-na desfructar...
Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fuzos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar...
E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
Eu julgo ouvir n'uma officina
Taboas do seu caixão pregar!
Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam igneas chammas...
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautella! O outomno está a chegar...
Leça, 1889.
*A Poezia do Outomno*
Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!
Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!
Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando...
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!
O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos...
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.
E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!
Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes...
Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
Do convento dos céus, a eterna freira!
Porto, 1886.
S.^{ta} Iria
N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
Pequenino baixel, a santa vae boiando...
Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
E, diluido, ve-se as agoas aloirando.
Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
E, com a graça etherea e meiga das crianças,
Formosa Iria vae boiando, vae boiando...
Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»
Ella entra, emfim, no Oceano... E escuta-se, ao luar,
A mãe do pescador, rezando a ladainha
Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar...
Leça, 1885.
*Enterro de Ophelia*
Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar... Deixal-a!
(Fallae baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ella se afogou...
Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...
O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...
Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!
Leça, 1888.
*Ballada do Caixão*
O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer,
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!...)
--Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva?--Vamos ver...
Olhou, mexeu na caza toda...
--Eis aqui um e bem barato.
--Está na moda?--Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda...)
--Quando posso mandar buscal-o?
--Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...)
Ó meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!
Pariz, 1891.
*Á Toa*
O Primeiro Homem
Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.
A Montanha
Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
E veias do meu corpo os azulados rios.
Os Rios
Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!
A Lua
Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra...
A Terra
E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!
A Macieira
Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
Abanae a macieira e cairão estrellas!
A Estrellas
No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_...
O Mar
Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
Accendei meu altar, relampagos vermelhos!
Os Relampagos
Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito...
O Infinito
Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
Aqui, vem desagoar o rio da Esperança...
A Esperança
Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.
Os Cyprestes
Para apontar os céus, como dedos funereos,
Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios...
Os Cemiterios
Porão, beliches, tudo cheio!... Os céus absortos!
Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!
Os Mortos
Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!
Porto, 1885.
*A Vida*
Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
Ó olhos negros como noites, como poços!
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
Ó puros como o céu! ó tristes como levas
De degredados!
Ó Quarta-feira de Trevas!
Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas...
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que vão na diligencia pela serra!
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha...
Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha...
Olhos tranquillos e serenos como pias!
Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
E milagrozos, e misericordiozos,
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
Ó olhos negros! como o céu das trovoadas...
Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
De que te serve ter uns astros sem eguaes?
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
O mar a uivar! A espuma verde das marés!
Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
A arder entre clarões de coleras! O orgulho
Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
Quantos suores sem proveito! quantas taças
A trasbordar veneno em espumantes boccas!
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
E aquella que não sae por ter uzada a saia!
E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
Olha essa procissão que passa: um torturado
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
E para ser feliz fez todos os esforços...
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
Como dez annos de prizão maior-cellular!
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar...
Olha o bébé que teve Torre de coral
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas...
Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
Olha esse olhar que têm os homens da politica!
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica...
Olha esse que não tem talento e o julga ter
E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever!
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
Olha um velhinho a carregar com a farinha
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
Olha a sair a barra a galera _Gentil_
E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão...
Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!
Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
A Terra!
Ó meu amor! antes fosses ceguinha...
Pariz, 1891.
*O Somno de João*
O João dorme... (Ó Maria,
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...)
Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engulil-o um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!
O João dorme... Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...
O João dorme... Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
Não acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...
Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vae sem se sentir.»
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!
E tu vel-o-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! Que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!
Mas para isso, ó Maria!
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...
E os annos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha tambem)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas:
Morrerá sem o sentir,
Isto é deixa de dormir...
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde elle veio...
Mas para isso, ó Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais davagar:
Não vá o João, acordar...
Pariz, 1891.
*Ao Canto do Lume*
Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
Ninguem, viv'alma... O que farão os mais?
Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen o d'estas noites immortaes!
Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama...)
Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
E quando todo se extinguir na aurea chamma,
Eu botarei (para que serve? já não ama...)
As cinzas brancas, meu vermelho coração!
Lá fóra o vento como um gato bufa e mia...
Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
Cautella... Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
Cheia de Graça_... Horror! Mortos! E a agoa tão fria!...
Que triste ver defuntos a boiar!
Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
Nada ha peior que este somnambulo abandono!
Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!
A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
Que felizes, sois prestes a partir!
Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!...
Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato... o vento...
Coitado! é o Georges, tysico, a tossir...
Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando...
Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer...
Oiço um apito. O trem que se vae... Engatar-te
Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te...
--Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
Coitado de quem fica... Adeus! adeus!
Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
--Americas! Japão! Indias! Calvario!... Quero
Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
E a Agueda beber agoa do Botareu...
Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
Paizes raros, Neves, Areiaes;
Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
Armei na França minha tenda de campanha...
E tedio, tedio, tedio e nada mais!
Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
Tal como aspirações irrealizaveis, ai!
Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
Agora, trago uma medalha sobre o seio
Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.
Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
E, hoje, não... Porque? Traço o parallelogrammo,
Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!
Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
Pelo luar da lua de Canaan:
Quero passar o _além_ que para além se alteia,
A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
E um logarejo a Estrella da Manhã!
(E a chuva cae...) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
Viv'alma! (O vento geme...) O que farão os mais?
Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen mortal o d'estas noites immortaes!
Pariz, 1890-1891.
*A Sombra*
Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
Que já a lua, a sentinella, rende
Na esplanada do céu, ás portas do Castello...
Oiço um rumor: talvez... Eil-a, é ella: ao longe, avisto
Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
Com o cabello separado ao meio,
Todo caido para traz, como o de Christo!
Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
Quantas lembranças d'este peito arranco!
Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!
Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
Os gallos cantam, annunciando a aurora!...
Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!
Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a...
Terá ainda a mesma voz tranquilla?
Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça...
Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
Foge. (Talvez, já seja tarde...) Ó Clara!
Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!...
E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
«Anda commigo...»
Coimbra, 1888.
*O Meu Cachimbo*
Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu, meu thuribudo sagrado!
Com que, bom Abbade, incenso
A Abbadia do meu passado.
Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que lá vae,
Quando fumava, ainda criança,
Ás escondidas do meu Pae.
Vejo passar a minha vida,
Como n'um grande cosmorama:
Homem feito, pallida Ermida,
Infante, pela mão da ama...
Por alta noite, ás horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para fallar comtigo a sós.
E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
Alli, mettido no buraco,
Fumo e, a fumar, ás vezes... choro.
Chorando (penso e não o digo)
Os olhos fitos neste chão,
Que tu és leal, és meu amigo...
Os meus amigos onde estão?
Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»...
Os trez, os intimos, _Aquelles_,
Estão na Morte, no extrangeiro...
Dos mais não sei, perdi-me d'elles.
Morreram-me uns. Por elles peço
A Deus, quando está de maré:
E, ás noites, quando eu adormeço,
Phantasmas, vêm, pé ante pé...
Tristes, nostalgicos da cova,
Entram. Sorrio-lhes e fallo...
Deixam-se estar na minha alcova,
Até se ouvir cantar o gallo...
Outros, por esses cinco oceanos,
Por esse mundo erram, talvez...
Não me escreveis, ha tantos annos!
Que será feito de vocês?
Hoje, delicias do abandono!
Vivo na paz, vivo no limbo:
Os meus amigos são o Outomno,
O Mar e tu, ó meu Cachimbo!
Ah! quando for do meu enterro,
Quando eu partir gelado, emfim,
No meu caixão de mogno e ferro,
Quero que vás ao pé de mim.
Santa mulher que me tratares,
Quando em teus braços desfalleça,
Caso meus olhos não cerrares,
Embora! Que isto não te esqueça:
Colloca, sob a travesseira,
O meu cachimbo singular
E enche-o, sollicita enfermeira,
Com _Gold-Fly_, para eu fumar...
Como passar a noite, amigo!
No _Hotel da Cova_ sem conforto?
Assim, levando-te commigo,
Esquecer-me-ei de que estou morto...
Coimbra, 1889.
*Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*
Memoria
A J. d'Oliveira Macedo,
Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.
Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
Vae dar o leite ás cazas do Infinito...
Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
Quando ha milagres e sublimes couzas
E caza o rouxinol com a andorinha...
Quando a alma das virgens religiozas,
Triste se envolve n'um burel de magoa
E os anjos noivam mail-as suas Rozas...
Quando o luar azula a espuma, a fragua,
E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
Como que tem os olhos razos de agoa...
N'essa hora indeciza, augustiada,
Em que o universo está, meio ás escuras,
Que não se sabe se é antes a alvorada:
Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
Essa radioza lagryma de pranto
Que despedem, morrendo, as criaturas.
E ao vir da noite, livido de espanto,
Vi uma estrella a mais no azul do céu:
É que um poeta, um justo, um bom, um santo,
Ás horas do crepusculo... morreu!
O simples coração de Julieta
Dentro da alma clara de Romeu!
Uma criação de Deus, mas incompleta:
Aguia, encerrando um coração de pomba,
Cedro que dava folhas de violeta!
Ah, quando vejo alguma flor que tomba
Meu coração estorce-se de dor,
De Deus minha alma inconsolavel zomba!
Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
Aos ventos, aos relampagos, ficou
N'este Valle de Lagrymas, Senhor!
Quem lhe dera a mortalha que levou
Toda coberta do cabello loiro
Da mystica menina que elle amou!
Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
Na janella que deita para o mar,
Soltas ao vento as suas tranças de oiro!
Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
Deixae do céu a vossa luz tombar!
Ó aves, que trazeis a primavera,
Para cobrir o solitario ninho,
Ide buscar á sua campa a hera!
Ó pombas de luar, pombas de linho,
Que ides tão alto, divagando errantes,
Quazi mortas, perdidas no caminho:
Do vento sobre as azas triumphantes
Prendei a aza e, assim, acompanhae
O scismador que vos cantava d'antes!
Elle precorre victoriozo, olhae!
Entre espumas de brancas andorinhas
O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!
Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
E beijos com as pallidas mãozinhas...
Mas elle vae boiando nos espaços,
Sendo o seu corpo uma subtil galera
Com leves remos de marfim, seus braços...
Onde vae elle? a que ditoza esphera
Velhinha Morte a sua alma guia?...
Que vida immensa, lá no céu, o espera!
Para ganhar o pão de cada dia
Cuidará da lavoira, mais das flores,
Lavrando as terras da Virgem Maria!
Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
N'uma herdade do céu, entre charruas,
A cavar entre simples lavradores,
Semeando estrellas e plantando luas...
E ainda o choram, que feliz desgosto!
O vento passa a uivar por essas ruas...
E um oleo algente, excepcional composto,
Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.
E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
Não chores mais estrella azul do Norte!
Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
E, como a juba d'um leao hirsuto,
O cedro curva, em tempestade, a fronte;
Os pallidos jasmins vestem de luto...
Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.
Formozo, branco, meigo, sorridente,
Com esses olhos que parecem soes,
Vaes repoizar na cova, eternamente.
O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
E allumia-te a bocca de criança,
O sorrizo dos virgens, dos heroes!
E o corpo teu na cova, essa esperança
Eterna como os seculos e as flores,
Entre verduras, afinal, descança...
Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
Abrem as campas, lugubres cavernas:
O coveiro é o melhor dos constructores!
Covas que elle abra são cazas eternas.
Leça, 1885.
*Quando Chegar a Hora*
Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
Olhe: eu mesmo lh'a meço...
O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas...
O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
Que m'a venha elle abrir.
E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
A minha alma é dia!
Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
De padres farão.
Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
Em tiras, para o ninho!
E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
Sugae! sugae! sugae!
Raro têm de comer. A pobreza consome
As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas...
De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato,
No dia em que nasci.
Seixo, 1886.
*Certa Velhinha*
1
Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes...
Cautella, velhinha, não vás tropeçar!
Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da _Barra_ puxado do sul?
Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!
Contava-me aquella que a tumba já cerra,
Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem...
Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes!
Quaes velas accezas que a vêm a guiar...
Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
É o céu estrellado vestido do envez...
Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor...
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
So no céu ha uvas com aquella cor...
A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha...
Que noite de inverno que parece verão!
Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!
Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
N'uma noite destas, eu vejo passar...
Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é...
--Jezus! Jezus!
2
Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
Já não é a velhinha que vae a passar:
Um grande cortejo cheiinho de luzes,
Anninhas da Eira que vae a enterrar.
Falla d'um pastor:
«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
Cantae, raparigas, cantae e chorae!
Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
Como um passarinho, sem soltar um ai.
Quando era pequeno, levava-me á escola,
E quando, mais tarde, cresci e medrei,
Oh danças nas eiras, ao som da viola!
Nas danças de roda, que beijos lhe dei!
Os annos vieram, os annos passaram,
Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
Perdi-a de todo, nunca mais a vi...
E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
N'uma noite d'estas com vento a ventar,
Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!
Olá! bons senhores, vestidos de preto,
Deixae a defunta, que a levarei eu!
O suor alagava-vos, eu levo o carreto...
O caixão de Anninhas é tambem o meu!
Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
A rezar por ella, sob o temporal!
Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
Cruzes da tapada, em forma de punhal!»
Mas os bons senhores, de preto vestidos,
Cigarros accezos, e velas na mão,
Lá passam ao vento, com sete sentidos,
Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão...
«Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
Com suas mãosinhas, agora tão frias,
Irá na viagem a dizer-me adeus...
Ó vento que passas! corcel de rajada!
Assenta-nos ambos no mesmo selim:
Quero ir mais ella na longa jornada...
Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!
Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
Quero ir como ella, assim de mãos postas...
Quero ir com Anninhas para onde ella for!
Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas...
Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»
3
Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
Que triste velhinha que vae a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes...
Aonde irá ella? Quem irá buscar?
Pariz, 1891.
*Males de Anto*
A Ares n'uma aldeia
Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia...
Comia terra, embebedava-me com luz!
Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
(Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos... Perdoae-me,
Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.
Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
Sentia renascer minha antiga bondade
N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
A minha bolsa pequenina, de estudante,
Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar...
E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
Costumava esconder-me em uma certa rocha,
Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!
Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
Que as tem maiores este filho de seus Paes!
Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!
Meu pobre coração toda a noite gemia
Como n'um hospital...
Entrae na enfermaria!
Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
Ó mornos vagalhões do coração humano,
Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!...
Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
A que horas é a baixamar, quem vos escua?
Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!...)
A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!
Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
De coleras! Horror...
Deixei fugir a escota,
Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!...
Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
Da minha vingança! ó Ophelias do perdão...
(Socega! Faze por dormir, meu coração!
Vae alta a noite...) E o sangue arde-me n'estas veias!
Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
O mundo jovial de guarda-sol aberto!
Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
E reis e generaes envoltos nas mortalhas!...
P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
Homens! criae outro systema de algarismos!
Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta...
Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me...
Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
E foi o dia 13... E os corcundas e o azeite
Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_...
Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
Vaes dormir... Ainda não! mais febre, suores frios
Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
De amor mystico! Amar freiras de habito branco
Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
Sob relampagos!...
Jezus! Jezus! Jezus!
Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
Quando os soes-postos são uma delicia, quando
Os aldeões andam a podar, cantarolando,
E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
Ceifam curvadas, como na haste as violetas!
Medico? Para que... A doença era d'alma.
Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
Onde perpassam os aldeões na caminhada
E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
Com um painel antigo sob um oratorio,
Que são as almas a penar no Purgatorio.
E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
Que mais penava eu... se ellas quizessem trocar...
E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
Deita uma pedra: cada pedra é uma oração...
Oh raras orações, que nunca findam, não!
Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!...
Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
Dizendo para mim: «se me matasse alguem...»
Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
E ninguem me matava...
Ah! vinham a essa hora
As moças da lavoira a cantar, a cantar,
(Faziam-me, Senhor! vontade de chorar...)
Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
Paravam de cantar e ficavam-me olhando...
E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»
Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
Lindos cabellos empoeirados de farinha:
Era uma flor, mas parecia uma velhinha...
--Vae melhorzinho?--Assim... vou indo, vou melhor...
--Pois seja pelas cinco chagas do Senhor...
E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
«Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
É que chama a attenção para a sua desgraça!
E, para bem coroar o meu tragico fado,
Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
«Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
E, grave, para si:
«A Sciencia abandonou-te!»
Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova...
Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
E ao ver as terras estrumadas, como lume,
Quedava-me a scismar no meu destino... estrume!
A pomba que passava era a minha alma a voar...
E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
Pensava... se estaria, alli, o meu lençol...
E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
A tiracollo a cerra, o martello e o formão...
Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar...
Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!
A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
Ó Natureza! tão amigos são os dois!...
E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho...
Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre...
Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
(Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
Quando para beber me debrucei na pia,
No fundo d'agoa, vi uma photographia...
Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
E o labio... Horror! Fugi! esse velhinho era eu!
Fugi!
E, desde então, não mais sai de caza.
Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio...
E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio...
Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!
Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
E já me resignei... Mas Carlota, esse amor,
Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
Eil-o que chega...
--Olá!... Ve-me a lingua vermelha,
Toma-me o pulso...--Está bem, isso não é nada,
Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
E, sobretudo, veja lá... nada de versos...
Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
Tysica d'Alma. Emfim...
Ó Carlota! ó Carlota!
Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
Já estaria bom, se me valessem rezas.
E, no Oratorio, tem duas velas accezas
Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
E sei, até, que prometteu uma novena,
Se eu escapar... Como tudo isso me faz pena!
E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
Com as iniciaes do meu nome em canella,
E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
E me appetece comer terra, algumas vezes
(Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
Foi ella que chorou... mas diz que «é da orvalhada...»
E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
E com um mimo que só sabe ter uma ama
Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
E não se vae deitar...
Onde ha, assim, uma avó?
A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
Trez legoas em redor manda saber de mim.
(Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
--Quem é?... E, então, olhae!
«É o Sr. Abbade
Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
«Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
«Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
«Que manda este peru e que pede desculpa»;
E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
Mandam coisas: sei lá... o que podem. E todos
Mandam tambem saber «como vae o menino...»
E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
Na noite a badalar as suas badaladas!
Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:
--Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero...
Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar...
Em pequenino era tão bom de aturar...
E depois era tão alegre, tão esperto!
E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
E tosse tanta vez! já arqueia das costas...
Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
E elle é tão bom, tem tão bons modos...
--Coitadinho!
--Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
E que se poe assim a esticar, a esticar?
Assim é o meu menino...
--Ó S.^{ra} Carlota,
E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu...
--Nunca foi assim: foi depois que se metteu
A fumar, a beber e lá com as po'sias.
Aquillo para mim foram as companhias.
Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
E nunca ia á licção, ficava sempre mal
Nos seus exames, escrevia no jornal;
E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
Com medo de o affligir... mas depois, quando estava
Mettido á noite, só, no seu quarto... scismava.
--O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
Lá dos estudos, de Coimbra...
--Antes fosse
Porque o remedio estava, alli, na Igreja... Adei...
--Mas se a menina não quizesse... eu sei, eu sei...
--S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
Depois, está aqui, está quazi formado...
Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
A minha perdição... Ás vezes, ergue o braço
E vae por hi fóra, por todas essas salas,
A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
(Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
Agoa no quarto?» e vae-se a ver... era o luar!
E quando foi para chamar o cirurgião?
Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano...
Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
Mas... nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.
E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
E as velas accendia á Senhora das Dores,
(Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto...)
Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
E uiva-lhe, assim:
«Antes as tuas sete espadas!»
E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.
Coimbra, 1890.
Pariz, 1891.
*Ah Deixem-me Dormir!*
O Poeta
Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova...
(Como eu estou molhado! é de chorar...)
O povo
O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
Jezus! que lindo...
Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
Que eu tenho somno, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar...
A S.^{ra} Julia
São as Janeiras da Lua!
O Coveiro
Os quartos, meu senhor, estão tomados
Mas se quizer na valla (que é de graça...)
Dormem, alli, somente os desgraçados:
Têm bom dormir... bom sitio... ninguem passa...
O Zé dos Lodos
A lua é a nossa vacca, ó Maria!
Mugindo...
Ainda lá, hontem, hospedei um moço
E não se queixa... E ha-de poupal-o a traça,
Porque esses hospedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.
O Dr. Delegado
A noite parece dia!
O Poeta
Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem...
Guia-me ao quarto... (a lua vae tão linda!)
Dize-me: quantos annos me dás? Cem?
O Sr. Abbade
E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
Trouxe a d'anjinho!
A Mulher do Moleiro
É o luar, Sr. Abbade, é o luar...
Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda...
Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
«Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
Foi lavar á _Fontinha de Belem_...»
O Astronomo
Isto lunar assim! Isto é o verao
De S. Martinho!
O Coveiro
Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
Colxão assim não acha em parte alguma!
Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumauma...
O Cego do Cazal
Faz solzinho, que horas são?
_Cantando_:
«Colxão de raizes e de folhas, lizo,
Lençoes de terra brandos como espuma,
Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo...»
Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?
Carlota
Ó luar, anda mais devagarinho!
Deixa dormir o meu menino...
Coitadinho!
O Poeta
Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão a abrir...
Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
A roupa chega para me cobrir...)
A Mãe do Poeta
Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
Tens o logar quentinho...
Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir,
Tu não me venhas acordar, embora
Chamem... Ah! deixa-me dormir, dormir!
Deus
Dorme, dorme.
Pariz, 1891.
FIM
TABOA
Antonio
Menino e Moço
Os Cavalleiros
Purinha
Elegia
Os Sinos
Terças-Feiras
Carta A Manoel
Para As Raparigas De Coimbra
Luzitania No Bairro-Latino
Os Figos Pretos
Febre Vermelha
Poentes De França
Pobre Tysica!
A Poezia Do Outonno
Sta. Iria
Enterro De Ophelia
Ballada Do Caixão
Á Toa
A Vida
O Somno De Joao
Ao Canto Do Lume
A Sombra
O Meu Cachimbo
Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
Quando Chegar A Hora
Certa Velhinha
Males De Anto
Ah Deixem-me Dormir!
Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.
Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze
Pour
LÉON VANIER
éditeur
Par
HENRI JOUVE
15, Rue Racine, 15
A Paris
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
Os Simples
Produced by João Miguel Neves, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
file was produced from images generously made available
by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de
Portugal).)
GUERRA JUNQUEIRO
*Os Simples*
PORTO
TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
MDCCCXCII
OS SIMPLES
IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:
1 exemplar em papel pergaminho
16 exemplares em papel Wathman
Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.
GUERRA JUNQUEIRO
*Os Simples*
PORTO
TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
MDCCCXCII
A F.
_Querida:
É este por emquanto o meu melhor livro.
Pertence-te.
teu J._
*PRELUDIO*
I
A CAMINHO
(_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)
Um Lavrador
(_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
Ides de caminho para algum logar?
O Peregrino
Vou dar volta ao mundo...
O Lavrador
Sem arnez ou lança?!
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
Penas e miserias é o que ireis achar!...
Uma Velhinha
(_mais adiante_)
Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
Ides com cuidados para um tal andar!...
O Peregrino
Vou a prender monstros, combater serpentes...
A Velhinha
Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
Os dragões ferozes vam-no espostejar!...
Uma Joven Camponeza
(_mais adiante_)
Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
Ides pela fresca para algum pomar?
O Peregrino
Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados...
A Camponeza
Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!...
Uma Pastorinha
(_mais adiante_)
Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
Vossos olhos disem que ides p'ra casar...
O Peregrino
Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes...
A Pastorinha
Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!...
Um Mendigo
(_mais adiante_)
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
Vossos olhos ardem como a luz solar!...
O Peregrino
Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!...
O Mendigo
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!...
A Estrella D'Alva
Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
Por infernos deixas tua paz, teu lar!...
O Peregrino
(_desaparecendo ao longe_)
Florirei as pedras pelos maus caminhos!
Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!...
II
DE VOLTA
(_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)
Um Lavrador
(_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)
Mendigo d'olhos sem esp'rança,
Vaes-te perder na escuridão...
Entra em meu lar; dorme, descança...
O Pobresinho
(_andando sempre_)
Quem dera a paz divina e mansa,
Velho, que tens no coração!...
Uma Velhinha
(_a resar à porta do moinho_)
Mendigo d'olhos sem ventura,
Dentro da azenha ha um enxergão;
Terás lençoes, terás fartura...
O Pobresinho
(_andando sempre_)
Eu só quizera essa candura,
Irmã da Graça e da Ilusão!...
Uma Camponeza
(_que vem da vindima_)
Mendigo d'olhos d'engeitado,
Na nossa casa ha vinho e pão;
E ha leite fresco; e ha mel doirado...
O Pobresinho
(_andando sempre_)
Tua alegria sem cuidado,
Eis o que eu busco... em vão! em vão!...
Uma Pastorinha
Mendigo d'olhos de coveiro,
Trago a merenda no surrão;
O queijo é bom, mas é grosseiro...
O Pobresinho
(_andando sempre_)
Dá-me o teu riso feiticeiro,
Lirio do monte inda em botão!
Um Pedinte
Mendigo d'olhos na agonia,
Dou-te o meu manto e o meu bordão;
Nada mais levo... a noite é fria...
O Pobrezinho
(_andando sempre_)
Apenas ai! desejaria
Tua cristã resignação!...
A Estrella Vesper
Ó sonhador louco d'outrora,
Teus sonhos lindos onde estão?!
Ebrio da luz, rico d'aurora,
Vi-te partir... e vejo agora
Um morto erguido d'um caixão!
Teus olhos fulvos namorei-os
De dia e noite, da amplidão:
Vi-os sorrir entre gorgeios,
Vi-os cantar e vi-os cheios
De pranto e febre e indignação!
Regressa emfim, é teu destino,
Á paz obscura, á submissão...
E outra vez meigo e pequenino
Deixa dormir, como um menino,
Teu velho e exhausto coração!...
O Pobresinho
(_chorando_)
Só tu, estrella, me conheces
Em minha dor, minha aflição!...
Só tu não dormes, não esqueces...
Só tu ouviste as minhas preces...
Bemdito, estrella, o teu clarão!
Setembro--91.
I
*A MOLEIRINHA*
A MOLEIRINHA
Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante.
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
A velhinha atraz, o jumentito adiante!...
Toc, toc, a velha vae para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E comtudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a córar ao sol.
Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
O gerico russo d'uma linda côr;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
Com o galho verde d'uma giesta em flor.
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...
Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia n'um burrico assim.
Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrellas, vivas, em cardume...
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume...
Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chan!
Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar á egreja,
Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!
Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vae n'uma frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!...
Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui creança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deos...
Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados cherubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...
Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que moe estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!...
Novembro de 1888.
II
*CADAVER*
I
PRESTITO FUNEBRE
Que alegrias virgens, campezinas, fremem
N'este imaculado, limpido arrebol!
Como os galos cantam!... como as noras gemem!...
Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
Refulgente e novo passarinha o sol!...
Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
Uma pequerrucha,--tro-la-ró-la-rá!--
Vae cantando e guiando o carro para a aldeia...
São os bois enormes, e a carrada cheia
Com um castanheiro apodrecido já.
Oh, que donairosa, linda boieirinha!
Grandes olhos garços, sorrisinho arisco...
D'aguilhada em punho lepida caminha,
Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.
Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
Fresca como os cravos pelo amanhecer;
Brincos de cerejas presos nas orelhas,
Na boquita rosea tres canções vermelhas,
Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!
Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
Nada mais esvelto, mais encantador!
Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo...
O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!...
E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
Vão como bondosos monstros enigmaticos,
Almas por ventura d'ermitões extaticos
Ruminando biblias pelos campos fora!...
Ao arado e ao carro presos noite e dia,
Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
E, submissos, uma pequerrucha os guia!
E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
As boninas riem-se e amadura o pão!...
Levam as serenas frontes magestosas
Enramalhetadas como dois altares:
Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
Abelhões ardentes desflorando rosas,
Borboletas claras em noivado, aos pares...
E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
Melros assobiam nos trigaes alem...
Heras amortalham-no em seu verde manto...
Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto...
Que feliz cadaver, que até cheira bem!...
Musgos, lichens, fetos,--chimica incessante!--
Fazem montões d'almas d'essa podridão...
Já n'esse esqueleto seco de gigante,
Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
Mil milhões de vidas polulando estão!...
Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
Do seu tronco ainda na caverna escura
Um enxame d'oiro rutilo murmura,
Construindo um favo candido de mel!...
Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
Meditando estranhas, incubas visões!...
Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
E por sobre os longos, torridos caminhos
Dos seus olhos caem bençãos e perdões...
Chorarão o velho castanheiro ingente,
Sob o qual dormiram sestas estivaes?
Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
Saberá acaso misteriosamente
Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!...
Castanheiro morto! que é da vida estranha
Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
E criou raizes, e se fez tamanha,
Que tresentos anos sobre uma montanha
Seus tresentos braços de colosso ergueu?!...
Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
Em tão varias formas que sonhou dizer?
Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
E desfeito o encanto, que nos não revelas,
Que aparencias novas tomará teu ser?...
Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso,
Boieirinha linda, linda d'encantar,
É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
Da candura d'alva que ha no teu olhar!...
Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
Quem me dera a vossa mansidão christã!
Arrotear os campos, fecundar a vinha,
E nos olhos garços d'uma boieirinha,
Ter duas estrellas virgens da manhã!...
E tambem quizera, mortos castanheiros,
Como vós erguer-me para o sol a flux,
Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!...
1889.
II
IN PULVIS...
Oh, que noite negra, que invernia brava!
Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
Como quando dizem que de dor chorava
Toda a santa noite em que expirou Jesus!...
Vem sanguinolentos gritos muribundos
Das soturnidades torvas do horisonte!...
Já nos ermos andam lobos vagabundos...
Já os rios cheios, com bramidos fundos,
N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!...
Em casal de serras arde o castanheiro,
Lampada de pobres a fazer serão;
De redor do grande, festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.
Queima-se o gigante, rude centenario,
Que jamais os astros hão-de ver florir...
E do seu cadaver o esplendor mortuario
Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!...
Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
--Morte negra, foge do telhado, ó, ó...--
E no lar as brasas simultaneamente
Dizem para o anjo:--tudo é oiro ardente...
Dizem para o velho:--tudo é cinza e pó!...
Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
Em pequeno, alegre como um colibri,
Não trepara aos braços todos verdejantes
D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!...
Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
Quantas noites, quantas! elle ali dormia
Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
E das restolhadas, quentes como um forno,
Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!...
Como não sentir um entranhado afecto,
Como não amal-o com veneração,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!
Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
Fez com elle as portas contra os vendavaes;
E com elle é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus paes!
E o bom velho embala o seu netinho doente...
--Morte negra, foge... dorme, dorme... ó, ó...--
E, fitando as chamas simultaneamente,
Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!...
A velhinha resa, resa afervorada...
Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
Entre palmas verdes até Deos levada
N'um andor de rosas pelos serafins...
Resa pelos mortos... resa á virgem pura...
Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
Quantos tem partido para a sepultura,
Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!...
Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
Muitas almas vivem mortas a sonhar!...
Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto...
Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
Nos seus labios roxos fosforece o luar...
E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
--Talisman da crença, magico poder!--
Frias como a neve vem do seu jasigo,
Vem sentar-se todas no logar antigo,
A chorar á roda do braseiro a arder!...
Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz...
D'esses desgraçados, mortos no abandono,
Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
Quando o vento uivando lhes perturba o somno
Pela treva errantes, como cães sem dono,
Andarão perdidas a ulular talvez!...
Pois até por essas que ninguem conforta
A velhinha chama... e todas ellas vem...
--Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!--
E a dos olhos garços pastorinha bella
Fia no seu fuso linho por corar;
É trigueiro o linho, trigueirinha é ella...
Rodopia o fuso... quando for donzella,
Já terá camisas para se ir casar!...
E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
Deu já cachos brancos como o branco arminho,
Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
Já sobre elle amando palpitaram azas!...
Fuso como giras em dedinhos breves
Prasenteiramente, com tão louco ardor!
Que estarás fiando?... que enxovaes?... que neves?
Se serão camisas, ou mortalhas leves,
Cama para bodas, ou lençoes de dor!...
No vetusto escano o lavrador sombrio
Pensa na courela... Santo Deos, Jesus!
Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
Como é que hade o gado pelo ardor do estio
Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!...
Choram ventanias!... panica tristeza!...
Sentem-se na loja bois a ruminar...
Queixas insondaveis vem da naturesa!...
Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
Contemplando a Noite sem poder fallar!...
Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
Almas misteriosas, em que sonharão?...
Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
De ter sido tigre lembra-se inda o gato?...
De ter sido hiena lembra-se inda o cão?...
Eis as brasas mortas... Eil-o já converso
O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do universo,
Circulo de enigmas, que ninguem traduz...
Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
Viverão, morrendo a toda a hora... sempre!...
Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
Serão tudo, tudo!... inconcebivel!... Sempre!
Mas a alma, as almas quem as ha criado?
Qual a origem d'onde a sua essencia emana?...
Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
Lançam as estrellas á miseria humana!...
Oh em vão!... que os astros, onde em sonho habito,
São tambem fogueiras sobrenaturaes,
Que na pavorosa noite do Infinito
Crepitando espalham seu clarão bemdito,
Suas alvoradas roseas, virginaes,
Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
A tremer com frio, a soluçar com dor,
Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
Atravez d'eternos turbilhões profundos,
N'um virtiginoso, angustioso horror!...
E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!...
E o mundo e os mundos a girar na altura
Como vós, ó velhos, morrerão tambem...
Blocos de materia fria, sem verdura,
Errarão na vaga imensidade escura,
Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!...
Dormirão? oh, nunca!... vão eternamente
Circular na eterna vida universal:
Nebulosa fluida, lavareda ardente,
Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!...
Formas da materia, que eu em vão desnudo,
Que invisiveis forças, e almas encobris?
Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo...
Mas o enigma impresso no seu labio mudo
Só na treva aos mortos é que a morte o diz!...
Só a Morte o sabe... mais a Fé que abrasa,
Que penetra as coisas com o seu olhar!
Não ha fé na alma, não ha luz na casa...
A rasão é um verme, mas a crença é aza...
Verme! aos infinitos poderás chegar!...
Ó velhinha santa, minha boa amiga,
Resa o teu rosario, move os labios teus!...
A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
Não importa! resa, minha boa amiga,
Que orações são lingoas de falar com Deos!...
Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
Que andam por agrestes, solitarios montes,
Sem errar a estrada, sem cahir jamais!...
Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
Com os seus farrapos mais o seu bordão,
Marcham por milagre na continua treva...
Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
Que prodigio oculto? que invisivel mão?
Pois, velhinha branca, tua crença pura,
Tua resa antiga, que me faz chorar,
É egual aos cegos, que na noite escura
Não precisam d'astros para ver a altura,
Não precisam d'olhos para ter olhar!
No Infinito mudo tua ingenua crença,
Tremula ceguinha de risonho alvor,
Eil-a andando, andando, como que suspensa,
Pelos descampados d'uma noite imensa,
Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!...
E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
A ceguinha debil, vagabunda, errante,
D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
N'um enlevo aereo perpassando vae!...
Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
Corta por abismos, plagas sem faroes,
Stepes infindaveis que ninguem descreve,
Lugubres desertos de mudez e neve,
Bategas de brasas, turbilhões de soes!...
Vae andando, andando, té que emfim cercada
D'uma aleluia mystica de luz,
Com o bordãosinho que a amparou na estrada
Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!...
Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
Põe-se de joelhos, em adoração...
Diz-lhe o anjo:--Toma, guarda esta lembrança:
Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
Que á velhinha humilde levarás na mão!
E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
Já com alimento para os filhos seus,
Eil-a que regressa por egual caminho,
E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
Tão amada ofrenda que te envia Deos!...
Resa esse rosario, santa lagrimosa!
Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
Triste da minh'alma!... vê, que desditosa!...
Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!...
Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!...
Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
Morta de miseria, morta de fadiga,
Deixa que ella durma na pureza antiga...
Que ella durma... sonhe... e não acorde mais!...
89.
III
*EIRAS AO LUAR*
EIRAS AO LUAR
Alvor da lua nas eiras,
Nem linhos de fiandeiras,
Nem veos de noivas ou freiras,
Nem rendas d'ondas do mar!...
Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
Na aleluia argentea do clarão do luar!...
Bailae sob as lagrimosas
Estrellinhas misteriosas,
Scintilações, nebulosas,
Fremitos vagos d'empyreos!...
Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!...
Ai, medas de prata e oiro,
De lua branca e pão loiro,
Malhadas no malhadoiro,
A enfeitiçar e a fulgir!...
Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
Que é a codea negra que ceaes a rir!...
Quem nas ladeiras e prados,
Com as lanças dos arados,
Abriu sulcos e valados
Na terra gelida e nua?
Oh, bailae á volta desses bois deitados,
Que estão d'olhos tristes adorando a lua!...
Que bandos de passarinhos,
Vem lá de campos maninhos,
De fraguedos, de caminhos,
Jantar aqui, merendar!...
Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
Oh, bailae cantando para os acordar!...
Entre as palhas do centeio,
Quantas esmolas no meio,
Que deixam lirios no seio
E as mãos escorrendo luz!...
Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
Oh, bailae á volta dos mendigos nus!...
Quanta hostia consagrada,
--Pão da ultima jornada!--
Dorme na meda encantada
Ao luar tão leve e tão lindo!...
Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
Que bailaes á volta de Jesus dormindo!...
Alvor da lua nas eiras,
Nem linhos de fiandeiras,
Nem veos de noivas ou freiras,
Nem rendas d'ondas do mar!...
Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
Na aleluia argentea do clarão do luar!...
Setembro--91.
IV
*AS ERMIDAS*
AS ERMIDAS
Alvas ermidinhas sob azues maguados,
Vejo-vos de longe n'uma adoração,
Como ninhos brancos de Ideal pousados
Lá n'esses fragosos montes escalvados,
Onde não ha agoa, nem germina o pão.
Serranias ermas, solidões contritas...
Azinheiras como velhos Briarcus....
Pedras calcinadas... gados parasitas...
Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
Que em burel d'estevas amortalha Deos!...
Pelas torvas, fundas noites de invernada,
Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
Que infinitos sustos n'uma tal morada,
Para debil virgem tão desamparada
Com um inocente nos seus braços... ai!
Como é que não treme pelo seu menino?
Como é que não chora seu piedoso olhar?
Como é que o seu labio, fresco e matutino,
Se abre n'um sorriso, precursor divino
Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!
Não receia feras quem de rosto ledo
Sofre sete espadas sobre o coração!...
E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!...
Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
Sem o bafo impuro que dos homens vem,
É que a mãe de Christo com as andorinhas,
E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
N'um casebre terreo se acomoda bem.
Bispos não precisa; servem-na pastores,
Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal...
Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
N'uma egrejasinha que é como um pombal.
E nas brutas, rudes solidões tão calmas
Ai, muito se engana quem a julga só!
Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
Para lá caminham romarias d'almas...
Todos nós lá fomos com a nossa avó!...
Oh, as invisiveis procissões piedosas,
Romarias fluidas, sobrenaturaes!
Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
Fica nos espaços um alvor de rosas
E uma angelisante tremulina d'ais!...
Almas de velhinhas, do palor silente
D'uma estrella, quando desmaiando está...
Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
Vão rogar a Gloria para os mortos já...
Almas de meninos, loiras como abelhas,
A sorrir ao colo d'almas a cantar...
Almas em noivados, roseas e vermelhas...
E almas de pastores ofertando ovelhas,
Chocalhinhos d'astros, velos de luar...
Almas d'assassinos dos montados ermos,
Com o seu remorso como um javali...
Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos...
Almas vagabundas, de perdidos termos,
Que atravessam agoas p'ra chegar ali!...
Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
Das aradas verdes, da campina em flor...
Almas de borregos, touros, passarinhos...
E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!...
E essas almas todas ella apasigua
Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
Verte sobre as penas sugestões de lua,
Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
Lagrimas aos crimes e ao remorso paz...
Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
E dos sonhos loucos o torpor febril...
Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
Faz fugir os lobos vendo o seu candil.
Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
Que á romagem d'oiro não acodem já!
Almas moribundas... Noites de procellas...
Olha nos casebres tremeluzem velas!...
É signal que a Morte anda a rondar por lá!...
Mas a sempre linda Virgem da Amargura
Baixa do altarzinho toda afadigada,
E atravez de serras, pela noite escura,
De menino ao colo,--santa creatura!--
Lá vae ella andando, não tem medo a nada!...
Lá vae ella andando... no caminho estreito
Deixa um rasto d'oiro pela escuridão...
Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
Põem-lhe um setestrello sobre o coração...
E de povo em povo, que é de serra em serra,
Almas na agonia visitando vae;
Quando chega, a Morte já as não aterra,
Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
Seu menino beijos p'ra levar ao Pae...
Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
Quantas noites, quantas! tremula de dor,
Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
A parir, balando como uma creança,
Entre fragaredos de meter horror!
A deshoras mortas eil-a vigilante,
Prompta a dar socorros ao menor queixume:
Acender estrellas para o navegante,
Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
Defender das cobras a ninhada implume...
Pois como não ha-de consolar as dores
Dos humildes, simples, engeitados, nus,
Se inda se recorda de só ver pastores,
Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
Na sagrada noite em que pariu Jesus!...
Sim! adora a rude gente da lavoira,
Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
Porque não se esquece da vaquinha loira,
Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
Quando nas palhinhas dormitava Deos...
E por isso arreda pestes, ventanias,
Fomes e procellas, bruxas e trovão,
Lá para malditas, negras penedias,
Onde silvam cobras doudas e bravias,
E onde não existe nem christão, nem pão!...
E por isso ex-votos, que relembram dores,
Cobrem de ternura todo o seu altar:
Bustos de meninos, mãos de cavadores,
Tranças de donzellas, soluçando amores...
Corações e peitos, de fazer chorar!...
Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
Sois n'essas alturas para os olhos meus,
Como ninhos virgens d'orações piedosas,
Miradoiros brancos de luar e rosas,
D'onde as almas simples entreveem Deos!...
90-91.
V
*CANÇÃO PERDIDA*
CANÇÃO PERDIDA
Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
Roxas macerações de dor e d'agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala...
Triste, canta uma voz na sincope do dia:
Alguem de mim se não lembra
Nas terras d'alem do mar...
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lha fosses levar!...
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lha fosses levar!...
Com o beijo do sol na face cadaverica,
Beijo que a morte esvae em palidez algente,
Eis a lua a boiar sonambula e chimerica...
Doce, canta uma voz melancolicamente:
O meu amor escondi-o
N'uma cova ao pé do mar...
Morre o amor, vive a saudade...
Morre o sol, olha o luar!...
Morre o amor, vive a saudade...
Morre o sol, olha o luar!...
Latescente a neblina opalica flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de lua...
Flebil, chora uma voz no letargo infinito:
Quem dá ais ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?...
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...
A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
Imponderalisou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...
Triste expira uma voz na canção derradeira:
Ó meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar,
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!...
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!...
Maio--91.
VI
*O PASTOR*
O PASTOR
Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!...
Velho tão velhinho nenhum outro havia...
P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
Ha noventa e quatro que era já pastor.
Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
Já de surrãosito cheio a tiracol,
A escalar montanhas com ardor, com ancia,
Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!...
A deserta, imensa, rustica paisagem,
Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
Tudo se invertera, por continua imagem,
Em heroica, em livre candidez selvagem
Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.
Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
Mordiscando a codea do seu pão centeio,
Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.
Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
Tal como tormentas de trovões de pedra!
Cada serrania alcantilada e brava,
Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
Recozida a febre e atordoada em lava,
Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!
E por essas fulvas, ingremes ladeiras
Pastoreava o gado, quasi morto já:
Só rochedos tristes, nus como caveiras,
E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
Acres como pragas d'uma boca má!
E depois as torvas, negras invernadas,
Noites formidandas, lobos a ulular,
Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
Carcavões abertos pelas enxurradas,
Troncos de sobreiros de raiz ao ar!...
Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
N'um covil de feras, ou algar deserto!...
E dormia ao lume sem temor, sem medo,
Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
Na ermidinha branca lhe ficava perto...
Mas no mez de Março pincaros maninhos,
Montes cenobitas, d'ossos e burel,
Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
E distilam favos de inocencia e mel!...
Era então alegre como o sol nascente,
Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
Anhos e cabritos, leite rescendente,
Pastos tão mimosos, que quizera a gente
Transformar-se em ave para os não calcar!
Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
Tinham-lhe gravado na expressão robusta
Como que uma sombra de grandeza augusta,
Junta a uma inocencia matinal de flor.
Que importavam gelos, ventanias, feras?
Peito nu, aberto; construção de touro!
Quasi me admirava que nas primaveras
D'esse peito rude não brotassem heras,
Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!
Ao relento a cama no orvalhado pasto,
Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
Que divino leito primitivo e casto,
Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
Sob a paz imensa do perdão de Deos!...
E esse gigantesco latagão corado
Era, como os santos ermitões, frugal:
Duas azeitonas, queijo do seu gado,
E de rala escura meio pão migado
N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.
Não jantava morte, assassinato, dores,
Hecatombes tristes que jantamos nós;
E por isso ria como riem flores,
Atrahindo em bandos aves de mil cores,
Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!...
Sua rude frauta de pastor ouvindo
Na misteriosa luz crepuscular,
Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
E desabrochava pelo azul infindo
Soluçante a lua como um nenufar!...
Que trinados vivos, d'argentino encanto
Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
N'essa frauta, quando de cajado e manto
Ia deitar loas ao menino santo
No altar-mór da egreja sorridente e nu!
Fôra lá creança, magica ventura!
Centenario quasi a derradeira vez...
E gorgeava a frauta com egual candura,
Pois a alma virgem, luminosa e pura,
Conservara-a sempre como Deos a fez.
N'ella penetrava, n'ella se embebia
Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
Fremito de pomba, voz de cotovia,
Canticos dos montes ao nascer do dia,
Lagrimas dos astros pela escuridão!...
Longe dos Pecados de raivosas presas,
Belzebuths famintos d'olhos de metal,
Longe das horriveis tentações acezas
No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
Pululantes larvas, vibriões do Mal,
O pastor ditoso envelheceu ridente
Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
E na fronte augusta de ermitão, de crente,
Lhe geavam anos luminosamente,
Como as pombas brancas sobre os campanarios!
Das ovelhas meigas,--intimas heranças!--
Recolhera toda a abnegação christã:
Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
Que com vosso leite sustentaes creanças,
E vestis os pobres com a vossa lã!
Aos noventa anos, festival, risonho,
Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
Sim! inda na boca risos de medronho,
E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
Dois miosotis virgens de candura e fé!
Com seu manto branco de burel grosseiro,
Cans de puro arminho, baculo na mão,
Alembrava um santo feito pegureiro,
Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
D'uma ogiva d'astros, em adoração!
Centenario quasi, recordava aspectos
De lendario tronco n'um feliz vergel,
Moribundo em meio de seus verdes netos,
Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,
E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
E que cego ao ether de esplendor ideal,
Com o ai extremo lança dois raminhos,
A chamar ainda por canções de ninhos
E a dizer aos astros um adeos final!
Tal o pastor santo, já de vez cahido,
Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
Arrimado ao velho baculo torcido,
Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
Vagamente olhando com o olhar absorto,
Ia pelos montes na tristeza infinda
D'um coração ermo, com a morte aceite,
A pedir aos anjos para ouvir ainda
Badalar ovelhas n'uma noite linda,
Quando a lua os campos alagasse em leite!...
Seu bisavô fora guardador de gado,
Guardador de gado seu avô, seu pae;
Creou filho e netos como foi creado,
E morreu ditoso porque o seu cajado
Seu rebanho ainda pastoreando vae!
Candido, na paz das solidões dormentes,
Ignorando o mundo rancoroso e vil
Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
Punha olhos claros, simples, inocentes,
Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!
Levará no esquife para os ceos a palma
Da grandeza mansa, da virtude austera.
Realisou no mundo a perfeição da Alma:
Porque foi bondoso como a lua é calma,
Porque foi um santo sem saber que o era!...
Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
Cesares, tiranos, capitães, heroes,
Epicas figuras de imortal memoria,
Que de serro em serro iluminaes a historia
Como crepitantes, tragicos faroes,
Na região do Imenso, no Infinito puro,
Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!
E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
Tão asselvajado, cabeludo e feio,
Que dissereis quasi que esse monstro veio
Da matriz da terra, como as pedras brutas,
Já liberto agora da Ilusão do mundo
Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
São rebanhos d'almas pelo azul profundo
As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!...
90-91.
VII
*O CAVADOR*
O CAVADOR
Dezembro, noite, canta o galo...
Rouco na treva canta o galo...
--Oh, dor! oh, dor!--
Aldeão não durmas!... Vae chamal-o,
Miseria negra, vae chamal-o!...
--Oh, dor! oh, dor!--
Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Miseria negra, o cavador!
O vento ulula... Tremem ninhos...
Na noite aziaga tremem ninhos...
--Oh, dor! oh, dor!--
A neve cae, fria d'arminhos...
Na escuridão, fria d'arminhos...
--Oh, dor! oh, dor!--
Passa maldito nos caminhos,
D'enxada ao hombro nos caminhos,
Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrella d'alvorada...
Vem morta a estrella d'alvorada...
--Oh, dor! oh, dor!--
Montanhas nuas sob a geada!...
Hirtas, de bronze, sob a geada...
--Oh, dor! oh, dor!--
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada.
Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou desde que é dia...
Cavou, cavou... Bateu meio dia...
--Oh, dor! oh, dor!--
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
--Oh, dor! oh, dor!--
Largando a enxada, «Ave Maria!...»
Resa em silencio... «Ave Maria!...»
Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou na serra agreste,
D'alva á noitinha em serra agreste...
--Oh, dor! oh, dor!--
E um caldo em premio tu lhe deste,
Meu Deos!... seis filhos tu lhe deste...
--Oh, dor! oh, dor!--
Batem trindades... «Pae celeste!...
Bemdito sejas, Pae celeste!...»
Resa, fantasma, o cavador!
Cavou cem montes... que é do trigo?!
Gerou seis bocas... que é do trigo?!
--Oh, dor! oh, dor!--
Bateu a Fome ao seu postigo...
Bateu a Morte ao seu postigo...
--Oh, dor! oh, dor!--
«Que a paz de Deos seja comigo!
Que a paz de Deos seja comigo!...»
Disse, expirando, o cavador!
Junho--91.
VIII
*OS POBRESINHOS*
OS POBRESINHOS
Pobres de pobres são pobresinhos,
Almas sem lares, aves sem ninhos...
Passam em bandos, em alcateias,
Pelas herdades, pelas aldeias.
É em Novembro, rugem procellas...
Deos nos acuda, nos livre d'ellas!
Vem por desertos, por estevaes,
Mantas aos hombros, grandes bornaes.
Como farrapos, coisas sombrias,
Trapos levados nas ventanias...
Filhos de Christo, filhos d'Adão,
Buscam no mundo codeas de pão!
Ha-os ceguinhos, em treva densa,
D'olhos fechados desde nascença.
Ha-os com f'ridas esburacadas,
Roxas de lirios, já gangrenadas.
Uns de voz rouca, grandes bordões,
Quem sabe lá se serão ladrões!...
Outros humildes, riso magoado,
Lembram Jesus que ande disfarçado...
Engeitadinhos, rotos, sem pão,
Tremem maleitas d'olhos no chão...
Campos e vinhas!... hortas com flores!...
Ai, que ditosos os lavradores!
Olha, fumegam tectos e lares...
Fumo tão lindo!... branco, nos ares!...
Batem ás portas, erguem-se as mães,
Choram meninos, ladram os cães...
Resam e cantam, levam a esmola,
Vinho no bucho, pão na sacola.
Fructa da horta, caldo ou toucinho,
Dão sempre os pobres a um pobresinho.
Um que tem chagas, velho, coitado,
Quer ligaduras ou mel-rosado.
Outro, promessa feita a Maria,
Deitam-lhe azeite na almotolia.
Pelos alpendres, pelos curraes,
Dormem deitados como animaes.
Em caravanas, em alcateias,
Vão por herdades, vão por aldeias...
Sabem cantigas, oraçõesinhas,
Contos d'estrellas, reis e rainhas...
Choram cantando, penam resando,
Ai, só a morte sabe até quando!
Mas no outro mundo Deos lhes prepara
Leito o mais alvo, ceia a mais rara...
Os pés doridos lh'os lavarão
Santos e santas com devoção.
Para laval-os, perfumaria
Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.
E embalsamados, transfigurados,
Tunicas brancas, como em noivados,
Viverão sempre na eterna luz,
Pobres bemditos, amen, Jesus!...
Outubro--91
IX
*CAMPO SANTO*
CAMPO SANTO
Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!...
Somno d'arminho... colxão de terra... lençol de flores!...
Cahi dormentes,
Cahi exanimes, trementes,
Palidos silencios do luar dorido!
Litanias fluidas do luar dorido!
Misereres brancos do luar dorido!
Balsamos, piedades, orações dolentes
Do luar dorido!...
Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!...
Cama tão fresca!... cobertor branco, de jasmineiros...
Cahi maviosas,
Cahi somnambulas, piedosas,
Concavas tristezas do luar magoado!
Resonancias d'orgão do luar magoado!
Extrema-unções profundas do luar magoado!
Sincopes, oblivios, quietações chorosas
Do luar magoado!...
Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!...
Cama de violetas!... que lhe fez a Virgem, sua madrinha...
Cahi radiantes,
Angelisantes,
Esfolhados lirios do luar divino!
Musselina argentea do luar divino!
Halitos de leite do luar divino!
Perolas, opalas, beijos e diamantes
Do luar divino!...
Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!...
Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!... que sonho lindo!...
Cahi cantando,
Cahi mas brando, muito brando,
Misticas nevadas do luar de prata!
Linho da candura do luar de prata!
Angelus da ermida do luar de prata!
Extasis boiando, sagrações ondeando
No luar de prata!...
Dormi, dormi!... que bellas camas!... ai, que bons lençoes!...
Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!...
Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!...
Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!...
Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!...
Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado...
Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas...
Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados...
Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados...
Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos...
Ai, que lindos fructos!... ai, que ricos vinhos!...
Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
Que no ceo os anjos regam com luar...
Ordenhando ovelhas andam serafins,
Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.
Outros nas arribas crestam as colmeias,
Grandes favos brancos como luas cheias.
Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!...
Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes...
Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
Ellas darão teias para os enxovaes...
Já no setestrello dançam nos terreiros,
Tamboris e violas, frautas e pandeiros...
Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
N'uma ermida branca revestida d'hera...
Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
Que no ceo com anjos vos ireis casar...
Ai, dormi, creanças! que no azul divino
Brincareis alegres com o Deos-menino...
Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
A laranja,--o mundo, que lá tem na mão...
Dormi, dormi, sem dor, sem penas...
Dormi, dormi!...
E em vossos leitos florescentes,
De rosas brancas e assucenas,
Caiam dormentes,
Caiam exanimes, trementes,
Graças do baptismo do luar alvissimo!
Beijos do noivado do luar purissimo!
Lagrimas da morte do luar tristissimo!
Canticos d'exequias, orações dolentes
Do luar santissimo!...
Abril--91.
*EPILOGO*
REGRESSO AO LAR
Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
D'este meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi ha vinte?... ha trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...
Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingenua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...
Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
Nunca eu sahira do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me déste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...
Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobresinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...
Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...
Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como á noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!...
90.
*NOTA*
NOTA
É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
liricas ineditas. Os outros dois--_Flores de Ideal_--e _Infinito_
(_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
mezes.
Duas palavras sobre os _Simples_.
Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
(como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
_morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
dizel-o, nem isso interessa seguramente.
A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
resoluto.
D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
meramente verbal e de superficie.
No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
verdadeiramente a alma essencial e geradora.
Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
Simples_.
Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
desejaram.
É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
minha alma, com o meu proprio ideal.
Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.
É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
campestres e bucolicos.
A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto--_In Pulvis_ é já de todo
transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama...
Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
penetração sublime e reveladora.
As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
divino espirito de Jesus.
Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.
A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
pertence-me.
E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.
Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.
14 de Maio de 1892.
_G. J._
*INDICE*
PRELUDIO
I--A Caminho
II--De Volta
I--A MOLEIRINHA
II--CADAVER
I--Prestito funebre
II--In Pulvis
III--EIRAS AO LUAR
IV--AS ERMIDAS
V--CANÇÃO PERDIDA
VI--O PASTOR
VII--O CAVADOR
VIII--OS POBRESINHOS
IX--CAMPO SANTO
EPILOGO
Regresso ao lar
NOTA
ERRATA
Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
de facil emenda para o leitor.
PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL
Exemplar unico em pergaminho 45$000
Exemplares em papel Wathman 4$000
_A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
requisições_.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
Os meus amores contos e balladas
Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
the original version, already available at Project
Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
original, já disponível no Project Gutenberg.)
OS MEUS AMORES
TRINDADE COELHO
*OS MEUS AMORES*
(Contos e Baladas)
_2.^a edição_
LISBOA
Livraria de António Maria Pereira
50, 52--Rua Augusta--52, 54
1894
_LISBOA_
Tipografia e Estereotipia Moderna
11--_Apóstolos_--11
Ao Doutor
António Xavier Perestrelo
«_Os Meus Amores_»
_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
As Desdémonas sois de um outro mouro.
As brancas horas que eu em sonhos douro,
Essas horas febris, iluminadas,
Ei-las fugindo, em tristes debandadas...
Levais nas asas todo o meu tesouro.
Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
Que o céu em estrelas vos converta e mude,
Lá nas longínquas ilusões que exalto;
Como as frementes águas de um açude,
Levai a Deus, no derradeiro salto,
O derradeiro adeus da juventude_...
_Luís Osório_.
IDÍLIO RÚSTICO
_A Fialho de Almeida_.
Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
estúrdia, a desoras...
Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
novo ele se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
que o eco levou para longe.
--Não gastes pólvora, António!--recomendou o pastor.--Ouviste?
E logo a voz do guardador:
--Madrugas hoje, Gonçalo!
--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
--Está bem. Adeus!
--Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo
de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
secas, onde algum réptil passasse vagaroso.
--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.--Busca,
valente!
À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
paciência,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
o Gonçalo desabafou:
--Uff! até que enfim!--E pensava aliviado:--Nada mais fácil do que
terem-me saído os lobos!...
Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
descuido involuntário--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
limitada a paisagem.
A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
manso, e sem o mínimo ruído.
Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.
--Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada...
E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:
--Ora se será ela?...
Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
--Ai, se fosse a Rosária!... dizia consigo.
E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.
«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser
outro que não a Rosária...»
Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.
No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
--Eh lá, Gonçalo, és?
O pastor desatou a rir.
--Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
--Não te esqueceu a moda, rapaz!
--Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária?--Se outra fosse que ma
tivesse ensinado...
Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:
--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
--Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?
--Basta!
E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
bravas.
A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
era como um talismã precioso para livrar de maiores
desgraças--naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.
Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
seguida do seu rebanho.
--Ora viva a Rosária!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
cachopa.
--Bons dias, Gonçalo; então que ventos?
Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
feira dos Caniços.
--Por sinal que nem rês se vendeu!--lembrou o Gonçalo.
--Por sinal!--disse com pena a Rosária.
Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
sonhar! Nanja ele...»
--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosária.
E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:
--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
como agora tinha acontecido, «tal e qual».
--Assim te Deus salve, ó Rosária?--atalhou rápido o pastor, a quem
enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.
--Assim; pois que dúvida?--tornou-lhe confiada a Rosária.
--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não hás-de dizer assim... Diz certo,
hás-de jurar direito.
--Pois assim me Deus salve...
--Como é verdade...--Diz tudo, Rosária!--suplicava o pastor.
--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava
que nos encontrávamos--concluiu por fim, muito risonha.
E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
ela lhe tinha ensinado.»
--Lembras-te?
A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
--Saem daqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosária, pede por
boca!
A Rosária pediu então a _Pastorinha_.
--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda.
--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá.
E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:
Onde _vás_, ó Pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosária a rir-se.
--É como vês!--afirmou contente o Gonçalo.
Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
confundidos, andavam na pastagem.
--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo.
--Também nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com júbilo.
--E nós também, ora também, Rosária?
--Também--respondeu afoita a pastora.
E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.
* * * * *
A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
e continuavam conversa.
Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
Rosária...
--Mas o cabelo assim cortado...--disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
nua, e passando a mão pela dele,--é que te não fica bem!
«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
mais, que era como ele gostava...»
--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosária--Lembranças... A
gente quando está aflita...
--...Quando está aflita...--repetiu como um eco o pequeno. E depois,
amuado:--Se promete os olhos...
A rapariga fitou-o, espantada.
--...é porque tos tirava!--concluiu convicto.
Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
--Não falas, Rosária?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
ela.
--Também tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois
animando-se:--Já foste à Senhora dos Remédios?
O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.
--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
para acabar com ela:
--Que enfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o
bilro nos dentes:
--Que às vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
fez este bilro?
--Foste tu, aposto.
Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou:
--Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
bem promessas fez, mas ela foi-se.
E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
--Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois
era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para
trás:--Lá anda ela a pastar!--concluiu desalentado.
--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosária,--que as promessas
sempre fazem, lá isso...
E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
firme na sua objecção:
--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
* * * * *
À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.
--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se eles
fossem tolos...
E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
então propôs que jogassem a pocinha.
--E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
tarde, bato-me com qualquer, sabias?
E generoso:--Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta...
Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
buscar o pauzinho, quando zinia longe.
--Turco, traz cá!
* * * * *
No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
tão viva a areia branca das margens.
Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:
--Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?
«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»
--E o mais, ó Rosária?--perguntou de novo com interesse.
A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
respondeu:
--Também.--E sorriu-se.--Pois eu...
Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
de partida, assobiando aos cães.
Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.
--É bonito!--fez notar o pastor.
A Rosária explicou logo:
--São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?
Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro--«boas tardes!
boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
carregados, tilintando campainhas.
--Adeus pequenos! cumprimentou.
--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.
E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada...
Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.
--Vês além... neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?
A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
--Então é ali?
--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha.
E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
repetiu-lhe muito contente:
--É mesmo além.
Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.
--Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
cavalo.
E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
saber:
--Estás triste, ó Rosária?
--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.
--Huum! Arrependeu-se...--volveu consigo o pastor.
* * * * *
Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
indefinido do céu.
--E os lobos?--perguntou a Rosária com medo.
--Não há perigo--tranquilizou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães.
* * * * *
Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
deixaram adormecer,--quando a história das moiras encantadas ia no seu
melhor episódio...
E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
crianças...
Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu...
--Bonito dia, Gonçalo!
--Bonito dia, Rosária! Olha...
...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
voando...
SULTÃO
(Copiado do Natural)
_Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.
I
Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
andar um dia inteiro a mourejar no campo.
--Meus pecados, boa tarde!--dizia ele para a mulher, com um sorriso a
afectar seriedade.
Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.
--Deus te abençoe.
--Pai, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno.
--Bem sei! atalhava logo o Tomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro.
E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:
--É que por este caminho não tenho um dia descansado... Nem uma hora...
Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim há-de chegar... A
modos que vou já cansando...
Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
sem ir campos fora, madrugador como um melro.
--Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.
Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.
Costume velho do Tomé:--mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
logo para o filho:
--Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».
O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
contente, dizendo cá da rua:
--«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!
No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
pálpebras pestanudas...
E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,--um grande riso de
alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».
Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono...
Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
a navalha de _meia-lua_:
--Então, «Sultão», não vens?
--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
na soleira, zap!
--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo?
E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
vontade...--que não fosse vê-lo o «Sultão»... Metia entre dentes um
pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:
--Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?
O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
fazendo-se humilde...
--Então se és, anda daí. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra
ti se vieres...
O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
cigano, entrava a tratá-lo por senhor--_sôr_ «Sultão»...
Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
da arrelia.
Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
como um perdido.
--Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.
No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:
--Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!
Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
superior, a tremer, e roubava-lho da mão.
Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
estrídulas.
--Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.--Até pareces
doido!
--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
o Tomé, nuns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da
merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.
Era precisamente o que o Tomé queria:--ver o «Sultão» a brincar.
...Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
causticantes e chuvas torrenciais.
Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
espavorida dos inimigos...
--«Sultão»! eh lá! «Sultão»!
Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
desse na bolha atacá-los... E abriam alas de repente, quando ele,
tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
se deixava cair,--derrotado!
--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
como um perdido.
Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquele demónio»!...
Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
viandante.
--Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.
E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
ganhava o terreno perdido--fitando impassível o cão... O bruto formava
então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:
--Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.
E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
ao correr a caravelha:
--Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
primeiro descer a ver o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na
direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.
Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
--Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.
E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
falou,--história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:
--Boas noites!
* * * * *
Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
enorme--gelada...
--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa!
A mulher assomou à janela, sobressaltada.
--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
--Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.
--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!
E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
três na gritaria, defronte do cortelho vazio:
--À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!
Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.
Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:
--Nada!...
II
Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
igreja, as paredes caiadas da escola.
A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
«medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
«medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
brincava, os da lavoura descansavam--vermelhos da soalheira intensa de
todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»--visto
que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
varrendo em roda num afã... Em certo ponto, carros vazios; um além, de
altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
gigantes.
Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
submissa...
Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
farta colheita do Tomé da Eira.
--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.--A primeira
da aldeia!
--Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
dizer, muita palha e pouco grão...
E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.
--Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
bem.
E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
dormir...
--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz aí no chão esse
«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
fiquem bem atados.
O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
ar, se era preciso mais alguma coisa.
--Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
deixa ir os animais a passo. Vai-te.
Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:
--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
bois para o lameiro.
Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:--«seria preciso vir por
eles?»
--Não vale a pena, lá irão.
E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
levava, aqueles dois sacos...
--Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?
«Eles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»
--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!
Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
passava nem à mão de Deus Padre!»
--A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?
Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
a cavalo.
--Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
pálido.--Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele...
Recordaram:--«estrela malhada na testa, a mão direita branca»...
--É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!
E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
estrada.
Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:
--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
a alma lhe deixa! Acudam!
Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
bandas da eira, os cães ladravam.
--Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
agarrados a ele.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!
--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
mais a vocês, se me não largam! Arreda!
E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.
--Vê, Sr. Tomé?!
«Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão!
--Um quê?
--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!
E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
raso--«com seiscentos milhões de diabos!»
Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.
--Já lhe disse que você é um ladrão!
--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
cerrados.--E não mo diga outra vez, que o racho!
Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.
Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o
comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»
--Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E
gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
Vês--aí está!
--Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.--Mente!
--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.
--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.
De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
amainou,--prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»
Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
resolver...»
--Serve-lhe o contrato?
--Qual contrato?
--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
bandas donde você vem... Você donde vem?
--Dos Casais.
--Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu...
--E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,--concluíram alguns do
grupo, conciliadores.
--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.
Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe
custara tirá-lo de casa.
--Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
Casais...--afirmou.
--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
dito?--quis saber o Tomé.
--Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.
Ia já a abrir a boca para dizer--«uma!»
--Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
festas ao animal.
E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»
--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!
O burro estremeceu... Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente...
--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!
E afastou-se para o lado, aguardando.
Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
roer as unhas, nervoso...
--Então você porque espera? perguntou.
Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:
--À uma!...
O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita...
--...às duas!
--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Tomé.
E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.
--...às três!
Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
o caso era para foguetes.
--Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!
--Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Tomé a rir.
Tenho-os com dois pés, que não valem metade...
--Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.
--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que
não é com vocês.
E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais...
Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
contínuo na soleira.
--Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!
Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.
--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.
Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
homem teria endoidecido...
--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.
E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
pulo.
--Ah!
A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.
--Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.
Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
qualquer coisa de tomo...
--Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.
--Nome do Padre...
--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!
--Nome do Padre, nome do Filho...
--A caneca! Venha de lá agora a caneca!
--...nome do Espírito Santo!
--Passa bem, ó mulher,--concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
dos demais.--Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!
E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:
--Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.
E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».
--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!
E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.
* * * * *
Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão--sem pinga...
Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.
--Colheita rica, sim senhores, um colheitão!
E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
remexendo o alguidar de barro:
--Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.
...Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
as sopas:
--Ámen!
ÚLTIMA DÁDIVA
_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.
Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.
De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
simplicidade.
No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.
--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado!
Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.
Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.
Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
gemido, e punha-se de novo a andar.
--Vens ou não vens?--perguntava ele, evocando com dorido esforço a
imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
fosse um relâmpago, apagava-se logo.
Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.
Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
onde a sombra era mais densa.
--Temos história...--resmungou consigo o rapaz.
E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
duas, para o caso de não acertar a primeira.
--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessá-la na direcção do
canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
lugar onde o rapaz estava.
--Melhor! Mais a jeito ficas...
E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
por onde elas tinham andado.
Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
deixou cair as pedras e perguntou:
--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís... Vossemecê que tem?
O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:
--Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?
--Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.
O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
a pedrada.
No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.
--Ó Tomás!
--Sr. José!--respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
barqueiro.
O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.
--Como tinha de madrugar...
--Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
que comece a amanhecer.--E como estavam à porta de casa:--Será bom
acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.--Iam à vela
se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
violentamente.
O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.
--Então, Sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
homem!--E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.--Limpe lá essas lágrimas, que
vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?
O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
olhos com a manga da camisa.
--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos
braços.--Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
vossemecê a pensar que o não torna a ver.
Mas era isso mesmo o que ele pensava...
--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu
a chorar o José Cosme.
--Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
aparece-lhe aí rico...
Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.
Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
se animasse para animar o pequeno--recomendava o barqueiro.
--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.
E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde
cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
paterno... O último sono! o último sono!
--Ainda se o deixássemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.
Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
pôr o barco a andar.
O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
praticar um grande crime:
--Filho, olha que são horas, meu filho...
Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.
--Adeus, pai!
--Adeus, filho!
Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
aquele abraço.
--Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!
O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.
--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de
olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.
Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
tocou com as pontas dos dedos...
--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.
A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
a bagagem do Joaquim.
Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
soluçando:
--Quando voltarás ao horto, meu filho?
O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as
árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.
Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
falavam alto.
--Pronto?--perguntou ainda de longe o Tomás.
Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.
Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
angústia, pelo deslizar monótono das águas... Aquilo confrangia o
barqueiro, ele também era pai... Por isso, mal chegaram à beira do rio,
apressou-se a dizer para o pequeno:
--Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.
Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
o filho:
--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te
veja ir.--E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
gente feliz.
--Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã...
Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
desvairado:
--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!
E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
uma vez.
--Com'assim, Sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com
força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
Cosme que suplicava de mãos postas:
--Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!--E o pobre pai caía de
joelhos na areia, numa atitude de súplica.
Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
ao colo a criança.
--Rema!--intimou em voz rápida.
O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
_plhau_! sobre a água.
Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.
--Adeus, Joaquim, adeus!
--Adeus, pai!
--Adeus!
Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
direcção do barco:
--Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.
Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:
--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!...
Reza-lhe, sim?!
E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
chegasse o pequeno para o último beijo...
Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
em região misteriosa de lágrimas... E no silêncio agoireiro da noite,
apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
longe--longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai--com o seu
fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno...
* * * * *
...Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
na direcção do horto silencioso...
COMÉDIA DA PROVÍNCIA
_A Alberto Braga_.
I
PRELÚDIOS DE FESTA
Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e
decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
tivesse tempo de o acabar.
--Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!
--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o
António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
falava noutra coisa.
--Então você já sabe?
--Já sei. A cegonha.
--A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...
--O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?
--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
Arauto Fiel_.
Enganava-se.
O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
aferidor.
--Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
arder.
O outro não percebeu. «Que se explicasse...»
--Um urso, no arraial queima-se um urso.
--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Também se lá
queima um burro.
Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
predilecção.
O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
dentro.
--Põe a tranca, se for preciso.
Mas então era cá da rua:
--Ó Sr. António!
E na porta as pancadas ferviam:
--Truz! truz! truz! Sr. António!
--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso.
--O senhor faz favor? É só uma palavrinha.
À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
nariz e a carta do foguetório na mão.
--O camelo? perguntava zangado.--O urso?! Camelos me parecem vocês,
ouviram? O que o homem diz é isto.
E lia a carta, rematando:
--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava
os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!
E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar
animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
José da Loja.
--Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio...
--Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!
--Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
soube.
E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
lendária:
--Como-te a alma se te mexes!
--E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
convictos.
Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.
--Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?
Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:
«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
como o pintavam.»
--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
Fagote. Do que ele é capaz sei eu.
Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!
Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
este ano.
--Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
«entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...»
--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das ideias do seu
António.»
--Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
assim me Deus salve!
--Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?
--Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.--Foi
este mindinho. Não falha.
E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
quantos andores, acho que meia dúzia!»
--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
ver assim o seu António.
E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
atar das sangrias!»
--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.
A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...»
--Mau que aí principiamos nós!--E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
no soalho, arreliado.--Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
dois eram os do _outro_, o ano passado.
A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.
--Agora não fanfas tu... insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.
A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.
--Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.
--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
de casarem...
--E olha que depois de casada... insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
enfiando a agulha. Cala-te boca.
Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...
--É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
vitela assada.
--O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!
--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.
--Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...
Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.
--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.
Era a criada da mestra régia, foram abrir.
--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.
Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
acender uma luz.
«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»
--Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.
--E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
a criada.
E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
lhe queria uma palavrinha.
Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
--Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.
--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
um favor, disse atrapalhada a criada.
--Se estiver na minha mão...
A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
papéis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho
afeição ao rapaz...
--Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
dizer alguma coisa.
--Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
chegar.
--Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.--E
dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.
--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
disso que eu lhe quero pedir um favor.
Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:
--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
estado! inda não há nada que saiu da cama.
--Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
a Sr.^a Luísa.--Muito longe!
--Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!
Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
que ela não sabia.
--A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
os mordomos. Não ouvi.
--Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--suplicou aflita a
rapariga.
--Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
a Sr.^a Luísa.--Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...
--Era só isto, muito agradecida à senhora.
Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
testa.
--Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
desculpe. Mas enfim que leia como puder.
--Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.
--Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
--Chh! fez admirada a rapariga.
--Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
uma horta, além no prado.
--Muita gente... disse a rapariga.
--Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro
pessoas...
A rapariga benzeu-se!
--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
Fagote.--Olhe: o pregador...
--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.
--É. Não o há melhor. Missionário...--explicou o juiz. Pois o pregador,
um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
os pequenos, dois, doze.
--A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.
--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
(_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
mais de vinte e quatro pessoas à mesa.--E a rir-se: Mas há-de sobrar
muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?
--Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
chão assim... E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
Assim...
Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de
estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se for preciso qualquer
coisa... ofereceu-se. As minhas fracas posses...
--Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
mestra...
--E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
Fagote.
E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
--Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.
A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.
--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o
macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
do macaco...
A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
bicho não viesse.
--Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá
daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.
--Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
aquilo já está fechado, o fio.
--Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
das dúvidas.
Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:
--Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.
--Hã? qual pau?
--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.
Ele riu-se.
--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
E como ela ficasse estupefacta.
--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
vinho noutra?
--Ah!...
--Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
satisfeito:
O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho
* * * * *
Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.
--Vai lá ver o que será, ó Luísa!--disse da cama o Fagote sobressaltado.
Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
--Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.
--Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.
--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.
--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?
--Pior do que isso! resumiu o José Manco.
--Pior do que isso, então não sei...
--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.
O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
chapéu.
--Pronto! cá estou!
--Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.
E rodaram rua acima.
--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote.
--Aguarde, que já vai saber. Não tarda.
De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.
--Roubaram Nosso Pai, aposto?!
--Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
e veja vossemecê isto, esta porcaria!
E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farófia_!
Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
com os olhos fitos no papel.
E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.
--Hum! resmungou. Bem sei...
--Não tem que saber,--fez o outro.
--O patife do José da Loja...
--Pois está visto.
--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
Fagote.--Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.
O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
era melhor botar o patife ao desprezo.
--Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
metendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!
Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
ele José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
burro não chegam ao céu».
--Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
disse num grande ar de condescendência o Fagote.--E você vá lá regar a
horta.
Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
daquela demora.
--Grande cão! grande cão! monologava.
Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
porta.
--Ó Sr. José.
--Dirá.
--Venho aqui saber de um caso.
Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
da cara:
--Foi o Sr. José que fez isto?
O outro olhou-o, atónito.
--Sim! se foi o Sr. José que fez isto?
--Nada, eu não senhor.
--Jura pela boa sorte dos seus filhos?
Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.
O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.
--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
barriga panda sob o casacório de lona.
--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.
Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
cumprir uma obra de misericórdia.
* * * * *
Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.
--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!
Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
que queria para o jantar.
Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
um foguete.
--Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
--P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em
calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
caso tinha estado sério!
Mentia.
--Hein? mas não o enganavam?
--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
rua:
--Senhor abade! ó senhor abade!
--Que é lá?
--Chegue à janela, faz favor?
--Mas está muito sol, entre você, se quer.
--Só duas palavras:
O abade, um rapaz novo, assomou à janela.
--Que é?
--Chegou o homem!
--O homem! que homem?
--O fogueteiro, quem há-de ser?
--Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?
--De cara.
--Faz-me então um favor?
--Dirá.
--Dê-lhe recados meus.
E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
aquilo tinha sido o fogueteiro.
--Grande homem! com seiscentos diabos!
Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
fogueteiro, com fúria.
--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
amigo, seu grande amigo».
--Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
solene.--Viva o senhor fogueteiro!
--Viva!
...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
que o António Fagote--chorou!...
II
TIPOS DA TERRA
Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a
praça_.»--Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
com casas em volta,--o que na vila havia de melhor em construções.
Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
sete: aquele--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia
ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
o sol.
Eram as sete. Àquela hora é que os--«_figuros_»--da terra, quase tudo
empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
passeavam,--seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
outros do mesmo feitio cavaqueavam,--coletes desabotoados, perna
cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janelas em volta,
nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quase tudo maiores
burocratas:--o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:
--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
lanço fora.»
E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
tais coisas... De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,--um
poucochinho beato,--diziam-lhe.
--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.
E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
um poucochinho sibiladas nos _ss_.
--Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
desses fortes.
Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.
--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
vintém por oito cigarros.--Guarde-os!
«O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»
--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
idiota! forte cavalgadura!
O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.
--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
outros.
Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:--«alguém
era servido?»
Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois
quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
receberia!»--E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
ofício...
Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não há
dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia...
O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.
--Estender as pernas,--disse. Quem vem daí?
Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
sensaboria da praça.
--Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?
--Apareço, vou à desforra.
E cumprimentando em roda:
--Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.
Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.
--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
diga _bem-haja_...
Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dívidas nos outros estancos.--Em toda
a parte.--Lá em casa a família passava fomes.--Um batoteiro de marca.
Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o
lisonjear nos seus despeitos.--Bem bom freguês!
Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
de mártir resignado. E não disse palavra--p'ra falar daquele tinha de
falar também deles...
Mandaram vir limonadas,--três limonadas!
--Aí vão trinta réis!
Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,--e
sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.
O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
onde grandes manjericões floriam:
--Ó Emília! Emilinha!
A mulher assomou, gorducha, muito mole.
--Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.
As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,
_Vai alta a lua na mansão da morte_
com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
tinha uma coisa boa--a caligrafia.--Um talhe de letra
bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês naquelas
calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
palerma, pechisbeque...
Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
marcha, contrafeito.
--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
telhudo? E isto:--e pôs-se a imitar o escrivão.
Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
em acróstico.
--Isso é o Teles!--fez um que vinha da praça.--Aquilo é um intrujão.
Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
daquilo que _ferve_?
O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia...
--Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas...
--Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas...
--Ora é isso mesmo, nem mais.
--Bem sei.
Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
tostão...
--Eram aos três para beber uma garrafa...
--Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
uma soda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.
--E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
sujava tudo de escuma?
Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
seiscentos diabos!
--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.
E com um sorriso de desdém, exclamou:
--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...
Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
três.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de propósito!
Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
súcia lhe chupava o refresco:
--Tó Ruça! já lá vai esse tempo.
Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:--Que
provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
estar bom...
Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
aquelas coisas.
--Obrigado, ó Melo!
--Obrigado, ó menino!
E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
e limpando os beiços.
Quando o Melo ia sair,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito
cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se ali não tinha,
depois. Isso era o mesmo...
--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado
o Melo.
--Do açúcar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.
Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
princípio.--E saiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Três
vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...
Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:--que lhe
contassem--«_o escândalo_».
Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vai o outro
chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!
--Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?--quis saber o Melo. Aquilo
há-de ser escrito por alguém, está claro.
Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
eles...
--Quem, então?
Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.
--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga...
Mas o da ideia insistiu, renitente:--havia ali suas coisas que o faziam
lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.
--Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
como um alarve, mente da primeira linha até à última!--disse firmemente
o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.
De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura...
Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.
--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
Engrácia, pobre velha...
--A quem?--interrogaram uns poucos. À Dona quê?
--À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
aos missionários é ela. Presumo eu que é ela--fazia o Nunes das
correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
deitei.
Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
com a D. Joana, a do--«_chá de erva-cidreira_.»--Outra canalhice! A D.
Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
viu:--que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
correspondência. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
telegramas de... amor_.--Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem
sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?
No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria...
Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.
--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
vocês deixem falar,--tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a
frase, entalado,--por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
fazer suspeitar.
Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:
--Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
franco.
Saltaram-lhe:
--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o
Alves dos Pesos e Medidas.
Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
via, pelo que se podia julgar...
--Léria!--disseram todos.
O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!
O Nunes observou modesto, quase agradecido:
--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente.
Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
está...
--Vocês é um modo de falar,--emendaram alguns.
--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondências,--explicou
sofisticamente o Nunes.
Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
cumprimentá-las, submisso.
--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a
mão:--Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
Assim... assim...
Então? que diziam àquele calor?
--Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!
--O Brasil tal e qual--reforçou o Nunes.
Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
de truz, aquilo sim!
--Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi
pena! O Abelzito andava constipado.
A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
noitadas.--E em voz mais baixa, quase dolente:
--Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.
--Não há tal!--fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
senhor Nunes.
E por pouco que não chorava ao dizer isto.
O Nunes afectou um sentimento profundo:--Era melhor não falar nisso,
não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:
--Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois... e
depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição!
Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu
desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.
As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
aquele vestido à Amélia.
Não podiam subir, talvez à volta.
--Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
pronto, que trabalhão!
Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
Coisas de anjinhos:
--Verás.
Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,--homens com malhos, e
mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.
--Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco
Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.
O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
pedia a rir, boçalmente:
--Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.
E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era
preciso, o Fernandinho ia pelo violão.
--É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
Fernando?
--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
Olhem que pergunta!
Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.
--Então, ó Paula...--suplicava o administrador.
--Está fechado o realejo... Depois.
Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.
--Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! «gramou» um
entalão que se consolou.
--Quatro coroas.--Na véspera tinha ganho um quartinho.
Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
chapéu, ele passou gravemente, cortejando.
--Quem eu te quero à perna é o _Aramis_...--rosnou o Teles escrivão que
embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda ele não
sabe tudo...--insinuava perfidamente.
--Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
verso--fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.
O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
analfabetos.
--E eu a brutos, sabe você?
Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício... Ó senhores,
lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
o outro. Pelo contrário.
O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
essa importância, essa honra.
O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
tesas.
--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.
Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
portuguesas,--ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.
Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.
--Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei
que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
que mando para público sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no
peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
triunfante.--Não roubo! nunca roubarei!--afirmou mais alto o
Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como
ele!--E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.
Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
dizer.
--As provas...--e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
ímpeto:--as provas, vê-las aqui estão!
Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.--Era do ano
que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
tinha entregado ele mesmo.
--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem.
O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos--zás!
versalhada para o _Lembranças_...
--Era colaborador--disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
Teles.--Era colaborador.
--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
orelha.--Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
ele. Nunca o admitiram.
--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
versos--insistiu o Antunes.
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Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Os Lusíadas
Canto Primeiro
1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene.
5
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.
6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antígua liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;
7
Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)
8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;
9
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.
10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de til gente.
11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,
12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
A cítara para eles só cobiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.
13
Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro,
O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.
14
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Fizeram, só por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.
15
E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que pelo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras, e do Oriente os marços,
16
Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tethys todo o cerúleo senhorio
Tem para vós por dote aparelhado;
Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.
17
Em vós se vêm da olímpica morada
Dos dois avós as almas cá famosas,
Uma na paz angélica dourada,
Outra pelas batalhas sanguinosas;
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos tem lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.
18
Mas enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Para que estes meus versos vossos sejam;
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.
19
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas
20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu formoso,
Vêm pela Via-Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.
21
Deixam dos sete Céus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que só co'o pensamento
Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
Ali se acharam juntos num momento
Os que habitam o Arcturo congelado,
E os que o Austro tem, e as partes onde
A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.
22
Estava o Padre ali sublime e dino,
Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano.
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com uma coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.
23
Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses todos assentados,
Como a razão e a ordem concertavam:
Precedem os antíguos mais honrados;
Mais abaixo os menores se assentavam;
Quando Júpiter alto, assim dizendo,
C'um tom de voz começa, grave e horrendo:
24
"Eternos moradores do luzente
Estelífero pólo, e claro assento,
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente,
Como é dos fados grandes certo intento,
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
25
"Já lhe foi (bem o vistes) concedido
C'um poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
Pois contra o Castelhano tão temido,
Sempre alcançou favor do Céu sereno.
Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.
26
"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que coa gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra romana tanto se afamaram;
Também deixo a memória, que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que peregrino
Fingiu na cerva espírito divino.
27
"Agora vedes bem que, cometendo
O duvidoso mar num lenho leve,
Por vias nunca usadas, não temendo
De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
Que havendo tanto já que as partes vendo
Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e porfia
A ver os berços onde nasce o dia.
28
"Prometido lhe está do Fado eterno,
Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
Nas águas têm passado o duro inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra, que deseja.
29
"E porque, como vistes, têm passados
Na viagem tão ásperos perigos,
Tantos climas e céus experimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
Que sejam, determino, agasalhados
Nesta costa africana, como amigos.
E tendo guarnecida a lassa frota,
Tornarão a seguir sua longa rota."
30
Estas palavras Júpiter dizia,
Quando os Deuses por ordem respondendo,
Na sentença um do outro diferia,
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo
Que esquecerão seus feitos no Oriente,
Se lá passar a Lusitana gente.
31
Ouvido tinha aos Fados que viria
Uma gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da índia tudo quanto Dóris banha,
E com novas vitórias venceria
A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória,
De que Nisa celebra inda a memória.
32
Vê que já teve o Indo sojugado,
E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
Por vencedor da Índia ser cantado
De quantos bebem a água de Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão célebre nome em negro vaso
D'água do esquecimento, se lá chegam
Os fortes Portugueses, que navegam.
33
Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga tão amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela,
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.
34
Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que há de ser celebrada a clara Deia,
Onde a gente belígera se estende.
Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
E o outro pelas honras, que pretende,
Debatem, e na porfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.
35
Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura,
Com ímpeto e braveza desmedida;
Brama toda a montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto levantado,
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
36
Mas Marte, que da Deusa sustentava
Entre todos as partes em porfia,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
De entre os Deuses em pé se levantava:
Merencório no gesto parecia;
O forte escudo ao colo pendurado
Deitando para trás, medonho e irado,
37
A viseira do elmo de diamante
Alevantando um pouco, mui seguro,
Por dar seu parecer, se pôs diante
De Júpiter, armado, forte e duro:
E dando uma pancada penetrante,
Com o conto do bastão no sólio puro,
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
Um pouco a luz perdeu, como enfiado.
38
E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
Tudo aquilo obedece, que criaste,
Se esta gente, que busca outro hemisfério,
Cuja valia, e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério,
Como há já tanto tempo que ordenaste,
Não onças mais, pois és juiz direito,
Razões de quem parece que é suspeito.
39
"Que, se aqui a razão se não mostrasse
Vencida do temor demasiado,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
Pois que de Luso vem, seu tão privado;
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque enfim vem de estâmago danado;
Que nunca tirará alheia inveja
O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.
40
"E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinação, que tens tomada,
Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada.
Mercúrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve, e à seta bem talhada,
Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
Da índia, e onde a gente se reforme."
41
Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabeça inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso,
E néctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lácteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Para os determinados aposentos.
42
Enquanto isto se passa na formosa
Casa etérea do Olimpo onipotente,
Cortava o mar a gente belicosa,
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses, que Tifeu
Com o temor grande em peixes converteu.
43
Tão brandamente os ventos os levavam,
Como quem o céu tinha por amigo:
Sereno o ar, e os tempos se mostravam
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam,
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar descobrindo lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.
44
Vasco da Gama, o forte capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Para se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece:
Por diante passar determinava;
Mas não lhe sucedeu como cuidava.
45
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça, e de alegria
Não sabe mais que olhar a causa dela.
Que gente será esta, em si diziam,
Que costumes, que Lei, que Rei teriam?
46
As embarcações eram, na maneira,
Mui veloces, estreitas e compridas:
As velas, com que, vêm, eram de esteira
Dumas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira,
Que Faeton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.
47
De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados:
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçados:
Da cinta para cima vêm despidos;
Por armas têm adargas o terçados;
Com toucas na cabeça; e navegando,
Anafis sonoros vão tocando.
48
Co'os panos e co'os braços acenavam
As gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas já as proas ligeiras se inclinavam
Para que junto às ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam,
Como se aqui os trabalhos se acabassem;
Tomam velas; amaina-se a verga alta;
Da âncora, o mar ferido, em cima salta.
49
Não eram ancorados, quando a gente
Estranha pelas cordas já subia.
No gesto ledos vêm, e humanamente
O Capitão sublime os recebia:
As mesas manda pôr em continente;
Do licor que Lieo prantado havia
Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
Os de Faeton queimados nada enjeitam.
50
Comendo alegremente perguntavam,
Pela Arábica língua, donde vinham,
Quem eram, de que terra, que buscavam,
Ou que partes do mar corrido tinham?
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas respostas, que convinham:
"Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.
51
"Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado,
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos, e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.
52
"E por mandado seu, buscando andamos
A terra Oriental que o Indo rega;
Por ele, o mar remoto navegamos,
Que só dos feios focas se navega.
Mas já razão parece que saibamos,
Se entre vós a verdade não se nega,
Quem sois, que terra é esta que habitais,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?"
53
"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
Estrangeiros na terra, Lei e nação;
Que os próprios são aqueles, que criou
A natura sem Lei e sem razão.
Nós temos a Lei certa, que ensinou
O claro descendente de Abraão
Que agora tem do mundo o senhorio,
A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
Informações. A Ilha de Moçambique.
54
"Esta ilha pequena, que habitamos,
em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha Moçambique.
55
"E já que de tão longe navegais,
Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem sejais
Guiados pelas ondas sabiamente.
Também será bem feito que tenhais
Da terra algum refresco, e que o Regente
Que esta terra governa, que vos veja,
E do mais necessário vos proveja."
56
Isto dizendo, o Mouro se tornou
A seus batéis com toda a companhia;
Do Capitão e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto Febo nas águas encerrou,
Co'o carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à irmã, que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.
57
A noite se passou na lassa frota
Com estranha alegria, e não cuidada,
Por acharem da terra tão remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer então consigo cuida e nota
Na gente e na maneira desusada,
E como os que na errada Seita creram,
Tanto por todo o mundo se estenderam,
58
Da Lua os claros raios rutilavam
Pelas argênteas ondas Neptuninas,
As estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Pelas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.
59
Mas assim como a Aurora marchetada
Os formosos cabelos espalhou
No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
Ao claro Hiperiónio, que acordou,
Começa a embandeirar-se toda a armada,
E de toldos alegres se adornou,
Por receber com festas e alegria
O Regedor das ilhas, que partia.
60
Partia alegremente navegando,
A ver as naus ligeiras Lusitanas,
Com refresco da terra, em si cuidando
Que são aquelas gentes inumanas,
Que, os aposentos cáspios habitando,
A conquistar as terras Asianas
Vieram; e por ordem do Destino,
O Império tomaram a Constantino.
61
Recebe o Capitão alegremente
O Mouro, e toda a sua companhia;
Dá-lhe de ricas peças um presente,
Que só para este efeito já trazia;
Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
Não usado licor, que dá alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe;
E muito mais contente come e bebe.
62
Está a gente marítima de Luso
Subida pela enxárcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo e uso,
E a linguagem tão bárbara e enleada.
Também o Mouro astuto está confuso,
Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
E perguntando tudo, lhe dizia
"Se por ventura vinham de Turquia?"
63
E mais lhe diz também, que ver deseja
Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
Para ver se conforme à sua seja,
Ou se são dos de Cristo, como Crê.
E porque tudo note e tudo veja,
Ao Capitão pedia que lhe dê
Mostra das fortes armas de que usavam,
Quando co'os inimigos pelejavam.
64
Responde o valeroso Capitão
Por um, que a língua escura bem sabia:
"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
De mim, da Lei, das armas que trazia.
Nem sou da terra, nem da geração
Das gentes enojosas de Turquia:
Mas sou da forte Europa belicosa,
Busco as terras da índia tão famosa.
65
A lei tenho daquele, a cujo império
Obedece o visíbil e ínvisíbil
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra, enfim desceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.
66
Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros, que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
Que nunca as queiras ver como inimigo."
67
Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vêm arneses, e peitos reluzentes,
Malhas finas, e lâminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos, e sagitíferas aljavas,
Partazanas agudas, chuças bravas:
68
As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêem fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode, e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.
69
Porém disto, que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que viu com olho atento
Um ódio certo na alma lhe ficou,
Uma vontade má de pensamento.
Nas mostras e no gesto o não mostrou;
Mas com risonho e ledo fingimento
Tratá-los brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.
70
Pilotos lhe pedia o Capitão,
Por quem pudesse à Índia ser levado;
Diz-lhe que o largo prémio levarão
Do trabalho que nisso for tomado.
Promete-lhos o Mouro, com tenção
De peito venenoso, e tão danado,
Que a morte, se pudesse, neste dia,
Em lugar de pilotos lhe daria.
71
Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
Que aos estrangeiros súbito tomou,
Sabendo ser sequazes da verdade,
Que o Filho de David nos ensinou.
ó segredos daquela Eternidade,
A quem juízo algum nunca alcançou!
Que nunca falte um pérfido inimigo
Aqueles de quem foste tanto amigo!
72
Partiu-se Disto enfim coa companhia,
Das naus o falso Mouro despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos, e fingido.
Cortaram os batéis a curta via
Das águas de Neptuno, e recebido
Na terra do obsequente ajuntamento
Se foi o Mouro ao cógnito aposento.
73
Do claro assento etóreo o grão Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento Lusitano
Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destruído.
E enquanto isto só na alma imaginava,
Consigo estas palavras praticava:
74
"Está do fado já determinado,
Que tamanhas vitórias, tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das Indianas gentes belicosas.
E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei de sofrer que o fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça?
75
"Já quiseram os Deuses que tivesse
O filho de Filipo nesta parte
Tanto poder, que tudo submetesse
Debaixo de seu jugo o fero Marte.
Mas há-se de sofrer que o fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
Demos lugar ao nome Lusitano?
76
"Não será assim, porque antes que chegado
Seja este Capitão, astutamente
Lhe será tanto engano fabricados
Que nunca veja as partes do Oriente.
Eu descerei à Terra, e o indignado
Peito revolverei da Maura gente;
Porque sempre por via irá direita
Quem do oportuno tempo se aproveita."
77
Isto dizendo, irado e quase insano,
Sobre a terra africana descendeu,
Onde vestindo a forma e gesto humano,
Para o Prasso sabido se moveu.
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em Moçambique conhecido
Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.
78
E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
A sua falsidade acomodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras,
Estas que ora de novo são chegadas;
Que das nações na costa moradoras
Correndo a fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que com pactos de paz sempre ancoravam.
79
E sabe mais, lhe diz, como entendido
Tenho destes cristãos sanguinolentos,
Que quase todo o mar têm destruído
Com roubos, com incêndios violentos;
E trazem já de longe engano urdido
Contra nós; e que todos seus intentos
São para nos matarem e roubarem,
E mulheres e filhos cativarem.
80
"E também sei que tem determinado
De vir por água a terra muito cedo
O Capitão dos seus acompanhado,
Que da tensão danada nasce o medo.
Tu deves de ir também co'os teus armado
Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
Porque, saindo a gente descuidada,
Cairão facilmente na cilada.
81
"E se inda não ficarem deste jeito
Destruídos, ou mortos totalmente
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil, que te contente:
Manda-lhe dar piloto, que de jeito
Seja astuto no engano, e tão prudente,
Que os leve aonde sejam destruídos,
Desbaratados, mortos, ou perdidos."
82
Tanto que estas palavras acabou,
O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
Os braços pelo colo lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho;
E logo nesse instante concertou
Para a guerra o belígero aparelho,
Para que ao Português se lhe tornasse
Em roxo sangue a água, que buscasse.
83
E busca mais, para o cuidado engano,
Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
De quem fiar-se possa um feito grande.
Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
Por tais costas e mares com ele ande,
Que, se daqui escapar, que lá diante
Vá cair onde nunca se alevante.
84
Já o raio Apolíneo visitava
Os montes Nabatêos acendido,
Quando o Gama, colos seus determinava
De vir por água a terra apercebido.
A gente nos batéis se concertava,
Como se fosse o engano já sabido:
Mas pode suspeitar-se facilmente,
Que o coração pressago nunca mente.
85
E mais também mandado tinha a terra,
De antes, pelo piloto necessário,
E foi-lhe respondido em som de guerra,
Caso do que cuidava mui contrário;
Por isto, e porque sabe quanto erra
Quem se crê de seu pérfido adversário,
Apercebido vai como podia,
Em três batéis somente que trazia.
86
Mas os Mouros que andavam pela praia,
Por lhe defender a água desejada,
Um de escudo embraçado e de azagaia,
Outro de arco encurvado e seta ervada,
Esperam que a guerreira gente saia,
Outros muitos já postos em cilada.
E, porque o caso leve se lhe faça,
Põem uns poucos diante por negaça,
87
Andam pela ribeira alva, arenosa,
Os belicosos Mouros acenando
Com a adarga e co'a hástia perigosa,
Os fortes Portugueses incitando.
Não sofre muito a gente generosa
Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
Qualquer em terra salta tão ligeiro,
Que nenhum dizer pode que é primeiro.
88
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a formosa dama desejada,
O touro busca, e pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena, e brada,
Mas o animal atroce, nesse instante,
Com a fronte cornígera inclinada,
Bramando duro corre, e os olhos cerra,
Derriba, fere e mata, e põe por terra:
89
Eis nos batéis o fogo se levanta
Na furiosa e dura artilharia,
A plúmbea péla mata, o brado espanta,
Ferido o ar retumba e assovia:
O coração dos Mouros se quebranta,
O temor grande o sangue lhe resfria.
Já foge o escondido de medroso,
E morre o descoberto aventuroso.
90
Não se contenta a gente Portuguesa,
Mas seguindo a vitória estrui e mata;
A povoação, sem muro e sem defesa,
Esbombardeia, acende e desbarata.
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
Que bem cuidou comprá-la mais barata;
Já blasfema da guerra, e maldizia,
O velho inerte, e a mãe que o filho cria.
91
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
Sem força, de covarde e de apressado,
A pedra, o pau, e o canto arremessando;
Dá-lhe armas o furor desatinado.
Já a ilha e todo o mais desemparando,
A terra firme foge amedrontado;
Passa e corta do mar o estreito braço,
Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço
92
Uns vão nas almadias carregadas,
Um corta o mar a nado diligente,
Quem se afoga nas ondas encurvadas,
Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
Arrombam as miúdas bombardadas
Os pangaios subtis da bruta gente:
Desta arte o Português enfim castiga
A vil malícia, pérfida, inimiga.
93
Tornam vitoriosos para a armada,
Co'o despojo da guerra e rica presa,
E vão a seu prazer fazer aguada,
Sem achar resistência, nem defesa.
Ficava a Maura gente magoada,
No ódio antigo mais que nunca acesa;
E vendo sem vingança tanto dano,
Somente estriba no segundo engano.
94
Pazes cometer manda arrependido
O Regedor daquela iníqua terra,
Sem ser dos Lusitanos entendido,
Que em figura de paz lhe manda guerra;
Porque o piloto falso prometido,
Que toda a má tenção no peito encerra,
Para os guiar à morte lhe mandava,
Como em sinal das pazes que tratava.
95
O Capitão, que já lhe então convinha
Tornar a seu caminho acostumado,
Que tempo concertado e ventos tinha
Para ir buscar o Indo desejado,
Recebendo o piloto, que lhe vinha,
Foi dele alegremente agasalhado;
E respondendo ao mensageiro a tento,
As velas manda dar ao largo vento.
96
Desta arte despedida a forte armada,
As ondas de Anfitrite dividia,
Das filhas de Nereu acompanhada,
Fiel, alegre e doce companhia.
O Capitão, que não caía em nada
Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
Dele mui largamente se informava
Da Índia toda, e costas que passava.
97
Mas o Mouro, instruído nos enganos
Que o malévolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
Dando razões dos portos Indianos,
Também tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.
98
E diz-lhe mais, com o falso pensamento
Com que Sinon os Frígios enganou:
Que perto está uma ilha, cujo assento
Povo antigo cristão sempre habitou.
O Capitão, que a tudo estava a tento,
Tanto com estas novas se alegrou,
Que com dádivas grandes lhe rogava,
Que o leve à terra onde esta gente estava.
99
O mesmo o falso Mouro determina,
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
A Moçambique esta ilha, que se chama
Quíloa, mui conhecida pela fama.
100
Para lá se inclinava a leda frota;
Mas a Deusa em Citere celebrada,
Vendo como deixava a certa rota
Por ir buscar a morte não cuidada,
Não consente que em terra tão remota
Se perca a gente dela tanto amada.
E com ventos contrários a desvia
Donde o piloto falso a leva e guia.
101
Mas o malvado Mouro, não podendo
Tal determinação levar avante,
Outra maldade iníqua cometendo,
Ainda em seu propósito constante,
Lhe diz que, pois as águas discorrendo
Os levaram por força por diante,
Que outra ilha tem perto, cuja gente
Eram Cristãos com Mouros juntamente.
102
Também nestas palavras lhe mentia,
Como por regimento enfim levava,
Que aqui gente de Cristo não havia,
Mas a que a Mahamede celebrava.
O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
Virando as velas, a ilha demandava;
Mas, não querendo a Deusa guardadora,
Não entra pela barra, e surge fora.
103
Estava a ilha à terra tão chegada,
Que um estreito pequeno a dividia;
Uma cidade nela situada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edifícios fabricada,
Como por fora ao longe descobria,
Regida por um Rei de antiga idade:
Mombaça é o nome da ilha e da cidade.
104
E sendo a ela o Capitão chegado,
Estranhamente ledo, porque espera
De poder ver o povo batizado,
Como o falso piloto lhe dissera,
Eis vêm batéis da terra com recado
Do Rei, que já sabia a gente que era:
Que Baco muito de antes o avisara,
Na forma doutro Mouro, que tomara.
105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
106
No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Canto Segundo
1
Já neste tempo o lúcido Planeta,
Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava à desejada e lenta meta,
A luz celeste às gentes encobrindo,
E da casa marítima secreta
Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
Quando as infidas gentes se chegaram
As naus, que pouco havia que ancoraram.
2
Dentre eles um, que traz encomendado
O mortífero engano, assim dizia:
"Capitão valeroso, que cortado
Tens de Neptuno o reino e salsa via,
O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
Da vinda tua, tem tanta alegria,
Que não deseja mais que agasalhar-te,
Ver-te, e do necessário reformar-te.
3
"E porque está em extremo desejoso
De te ver, como cousa nomeada,
Te roga que, de nada receoso,
Entres a barra, tu com toda armada:
E porque do caminho trabalhoso
Trarás a gente débil e cansada,
Diz que na terra podes reformá-la,
Que a natureza obriga a desejá-la.
4
"E se buscando vás mercadoria
Que produze o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria,
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo
Com que faças o fim a teu desejo."
5
Ao mensageiro o Capitão responde
As palavras do Rei agradecendo:
E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
Não entra para dentro, obedecendo;
Porém que, como a luz mostrar por onde
Vá sem perigo a frota, não temendo,
Cumprirá sem receio seu mandado,
Que a mais por tal senhor está obrigado.
6
Pergunta-lhe depois, se estão na terra
Cristãos, como o piloto lhe dizia;
O mensageiro astuto, que não erra,
Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
Desta sorte do peito lhe desterra
Toda a suspeita e cauta fantasia;
Por onde o Capitão seguramente
Se fia da infiel e falsa gente.
7
E de alguns que trazia condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Por que pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Por que notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e por que vejam
Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
8
E por estes ao Rei presentes manda,
Por que a boa vontade, que mostrava,
Tenha firme, segura, limpa e branda;
A qual bem ao contrário em tudo estava.
Já a companhia pérfida e nefanda
Das naus se despedia e o mar cortava:
Foram com gestos ledos e fingidos,
Os dous da frota em terra recebidos.
9
E depois que ao Rei apresentaram,
Co'o recado, os presentes que traziam,
A cidade correram, e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaras
De lhes mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malícia, está o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.
10
Mas aquele que sempre a mocidade
Tem no rosto perpétua, e foi nascido
De duas mães, que urdia a falsidade
Por ver o navegante destruído,
Estava numa casa da cidade,
Com rosto humano e hábito fingido,
Mostrando-se Cristão, e fabricava
Um altar sumptuoso, que adorava.
11
Ali tinha em retrato afigurada
Do alto e Santo Espírito a pintura:
A cândida pombinha debuxada
Sobre a única Fénix, Virgem pura;
A companhia santa está pintada
Dos doze, tão torvados na figura,
Como os que, só das línguas que caíram,
De fogo, várias línguas referiram.
12
Aqui os dous companheiros conduzidos
Onde com este engano Baco estava,
Põem em terra os giolhos, e os sentidos
Naquele Deus que o mundo governava.
Os cheiros excelentes, produzidos
Na Pancaia odorífera, queimava
O Tioneu, e assim por derradeiro
O falso Deus adora o verdadeiro.
13
Aqui foram de noite agasalhados,
Com todo o bom e honesto tratamento,
Os dous Cristãos, não vendo que enganados
Os tinha o falso e santo fingimento.
Mas assim como os raios espalhados
Do Sol foram no mundo, e num momento
Apareceu no rúbido horizonte
Da moça de Titão a roxa fronte,
14
Tornam da terra os Mouros co'o recado
Do Rei, para que entrassem, e consigo
Os dous que o Capitão tinha mandado,
A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
E sendo o Português certificado
De não haver receio de perigo,
E que gente de Cristo em terra havia,
Dentro no salso rio entrar queria.
15
Dizem-lhe os que mandou, que em terra
Sacras aras e sacerdote sinto; viram
Que ali se agasalharam o dormiram,
Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
E que no Rei e gentes não sentiram
Senão contentamento e gosto tanto,
Que não podia certo haver suspeita
Numa mostra tão clara e tão perfeita.
16
Com isto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que subiam;
Que levemente um ânimo se fia
De mostras, que tão certas pareciam.
A nau da gente pérfida se enchia,
Deixando a bordo os barcos que traziam.
Alegres vinham todos, porque crêm
Que a presa desejada certa têm.
17
Na terra, cautamente aparelhavam
Armas e munições que, como vissem
Que no rio os navios ancoravam,
Neles ousadamente se subissem;
E, nesta treição determinavam
Que os de Luso de todo destruíssem,
E que incautos pagassem deste jeito
O mal que em Moçambique tinham feito.
18
As âncoras tenaces vão levando
Com a náutica grita costumada;
Da proa as velas sós ao vento dando
Inclinam para a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande, e tão secreta,
Voa do Céu ao mar como uma seta.
19
Convoca as alvas filhas de Nereu,
Com toda a mais cerúlea companhia,
Que, porque no salgado mar nasceu,
Das águas o poder lhe obedecia.
E propondo-lhe a causa a que desceu,
Com todas juntamente se partia,
Para estorvar que a armada não chegasse
Aonde para sempre se acabasse.
20
Já na água erguendo vão, com grande pressa,
Com as argênteas caudas branca escuma;
Cloto eo'o peito corta e atravessa
Com mais furor o mar do que costuma.
Salta Nise, Nerine se arremessa
Por cima da água crespa, em força suma.
Abrem caminho as ondas encurvadas
De temor das Nereidas apressadas.
21
Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
Vai a linda Dione furiosa;
Não sente quem a leva o doce peso,
De soberbo com carga tão formosa.
Já chegam perto donde o vento teso
Enche as velas da frota belicosa;
Repartem-se e rodeiam nesse instante
As naus ligeiras, que iam por diante.
22
Põe-se a Deusa com outras em direito
Da proa capitaina, e ali fechando
O caminho da barra, estão de jeito,
Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
Põem no madeiro duro o brando peito,
Para detrás a forte nau forçando;
Outras em derredor levando-a estavam,
E da barra inimiga a desviavam.
23
Quais para a cova as próvidas formigas,
Levando o peso grande acomodado,
As forças exercitam, de inimigas
Do inimigo inverno congelado;
Ali são seus trabalhos e fadigas,
Ali mostram vigor nunca esperado:
Tais andavam as Ninfas estorvando
A gente Portuguesa o fim nefando.
24
Torna para detrás a nau forçada,
Apesar dos que leva, que gritando
Mareiam velas; ferve a gente irada,
O leme a um bordo e a outro atravessando;
O mestre astuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estava um marítimo penedo,
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.
25
A celeuma medonha se alevanta
No rudo marinheiro que trabalha;
O grande estrondo a Maura gente espanta,
Como se vissem hórrida batalha;
Não sabem a razão de fúria tanta,
Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
Cuidam que seus enganos são sabidos,
E que hão de ser por isso aqui punidos.
26
Ei-los subitamente se lançavam
A seus batéis velozes que traziam;
Outros em cima o mar alevantavam,
Saltando n'água, a nado se acolhiam;
De um bordo e doutro súbito saltavam,
Que o medo os compelia do que viam;
Que antes querem ao mar aventurar-se
Que nas mãos inimigas entregar-se.
27
Assim como em selvática alagoa
As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
Se sentem por ventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando, o charco soa,
Por fugir do perigo que se sente,
E acolhendo-se ao couto que conhecem,
Sós as cabeças na água lhe aparecem:
28
Assim fogem os Mouros; e o piloto,
Que ao perigo grande as naus guiara,
Crendo que seu engano estava noto,
Também foge, saltando na água amara.
Mas, por não darem no penedo imoto,
Onde percam a vida doce e cara,
A âncora solta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto dela amaina.
29
Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos, ou das águas sem corrente,
Que a nau passar avante não podia,
Havendo-o por milagre, assim dizia:
30
"Ó caso grande, estranho e não cuidado,
Ó milagre claríssimo e evidente,
Ó descoberto engano inopinado,
Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
Quem poderá do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo sabiamente,
Se lá de cima a Guarda soberana
Não acudir à fraca força humana?
31
"Bem nos mostra a divina Providência
Destes portos a pouca segurança;
Bem claro temos visto na aparência,
Que era enganada a nossa confiança.
Mas pois saber humano nem prudência
Enganos tão fingidos não alcança,
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti não pode ser guardado!
32
"E se te move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos."
33
Ouviu-lhe essas palavras piedosas
A formosa Dione, e comovida,
Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
Ficaram desta súbita partida.
Já penetra as Estrelas luminosas,
Já na terceira Esfera recebida
Avante passa, e lá no sexto Céu,
Para onde estava o Padre, se moveu.
34
E como ia afrontada do caminho,
Tão formosa no gesto se mostrava,
Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
E tudo quanto a via namorava.
Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
Uns espíritos vivos inspirava,
Com que os Pólos gelados acendia,
E tornava do Fogo a esfera fria.
35
E por mais namorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
Na selva Idea, já se apresentara.
Se a vira o caçador, que o vulto humano
Perdeu, vendo Diana na água clara,
Nunca os famintos galgos o mataram,
Que primeiro desejos o acabaram.
36
Os crespos fios d'ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava, e não se via;
Da alva petrina flamas lhe saíam,
Onde o Menino as almas acendia;
Pelas lisas colunas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.
37
C'um delgado sendal as partes cobre,
De quem vergonha é natural reparo,
Porém nem tudo esconde, nem descobre,
O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
Mas, para que o desejo acenda o dobre,
Lhe põe diante aquele objeto raro.
Já se sentem no Céu, por toda a parte,
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
38
E mostrando no angélico semblante
Co'o riso uma tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
E se torna entre alegre magoada,
Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
Mais mimosa que triste ao Padre fala:
39
"Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
Que, para as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afábil e amoroso,
Posto que a algum contrário lhe pesasse;
Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
Sem que to merecesse, nem te errasse,
Faça-se como Baco determina;
Assentarei enfim que fui mofina.
40
"Este povo que é meu, por quem derramo
As lágrimas que em vão caídas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo!
Por ele a ti rogando choro e bramo,
E contra minha dita enfim pelejo.
Ora pois, porque o amo é mal tratado,
Quero-lhe querer mal, será guardado.
41
"Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,
O rosto banha em lágrimas ardentes,
Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
Calada um pouco, como se entre os dentes
Se lhe impedira a fala piedosa,
Torna a segui-la; e indo por diante,
Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.
42
E destas brandas mostras comovido,
Que moveram de um tigre o peito duro,
Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
Torna sereno e claro o ar escuro,
As lágrimas lhe alimpa, e acendido
Na face a beija, e abraça o colo puro;
De modo que dali, se só se achara,
Outro novo Cupido se gerara.
43
E co'o seu apertando o rosto amado,
Que os soluços e lágrimas aumenta,
Como menino da ama castigado,
Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
Por lhe pôr em sossego o peito irado,
Muitos casos futuros lhe apresenta.
Dos fados as entranhas revolvendo,
Desta maneira enfim lhe está dizendo:
44
"Formosa filha minha, não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ninguém comigo possa mais,
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
Há-de fazer nas partes do Oriente.
45
"Que se o facundo Ulisses escapou
De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilíricos e a fonte de Timavo;
E se o piedoso Eneias navegou
De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo irão mostrando.
46
"Fortalezas, cidades e altos muros,
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacíssimos e duros,
Deles sempre vereis desbaratados.
Os Reis da índia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados;
E por eles, de tudo enfim senhores,
Serão dadas na terra leis melhores.
47
"Vereis este, que agora pressuroso
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno, de medroso
Sem vento suas águas encrespando.
Ó caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
Ó gente forte e de altos pensamentos,
Que também dela hão medo os Elementos!
48
"Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
Que inda há-de ser um porto mui decente,
Em que vão descansar da longa via
As naus que navegarem do Ocidente.
Toda esta costa enfim, que agora urdia
O mortífero engano, obediente
Lhe pagará tributos, conhecendo
Não poder resistir ao Luso horrendo.
49
"E vereis o mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado:
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.
50
"Vereis a inexpugnábil Dio forte,
Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
Ali se mostrará seu preço e sorte,
Feitos de armas grandíssimos fazendo.
Invejoso vereis o grão Mavorte
Do peito Lusitano fero e horrendo:
Do Mouro ali verão que a voz extrema
Do falso Mahamede ao Céu blasfema.
51
"Goa vereis aos Mouros ser tomada,
A qual virá depois a ser senhora
De todo o Oriente, e sublimada
Co'os triunfos da gente vencedora.
Ali soberba, altiva, e exalçada,
Ao Gentio, que os ídolos adora,
Duro freio porá, e a toda a terra
Que cuidar de fazer aos vossos guerra.
52
"Vereis a fortaleza sustentar-se
De Cananor, com pouca força e gente;
E vereis Calecu desbaratar-se,
Cidade populosa e tão potente:
E vereis em Cochim assinalar-se
Tanto um peito soberbo e insolente,
Que cítara jamais cantou vitória,
Que assim mereça eterno nome e glória.
53
"Nunca com Marte instructo e furioso,
Se viu ferver Leucate, quando Augusto
Nas civis Actias guerras animoso,
O Capitão venceu Romano injusto,
Que dos povos da Aurora, e do famoso
Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
A vitória trazia, e presa rica,
Preso na Egípcia linda e nego pudica.
54
Como vereis o mar fervendo aceso
Colos incêndios dos vossos pelejando,
Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
De nações diferentes triunfando.
E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
Até ao longínquo China navegando,
E as ilhas mais remotas do Oriente,
Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.
55
"De modo, filha minha, que de jeito
Amostrarão esforço mais que humano,
Que nunca se verá tão forte peito,
Do Gangético mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas ao Estreito,
Que mostrou o agravado Lusitano,
Posto que em todo o mundo, de afrontados,
Ressuscitassem todos os passados."
56
Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto o sossegado,
Para onde sem receio a frota venha;
F, para que em Mombaça, aventurado,
O forte Capitão se não detenha,
Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
A terra, onde quieto repousasse.
57
Já pelo ar o Cileneu voava;
Com as asas nos pés à Terra desce;
Sua vara fatal na mão levava,
Com que os olhos cansados adormece:
Com esta, as tristes almas revocava
Do Inferno, e o vento lhe obedece.
Na cabeça o galero costumado.
E desta arte a Melinde foi chegado.
58
Consigo a Fama leva, por que diga
Do Lusitano o preço grande e raro,
Que o nome ilustre a um certo amor obriga
E faz, a quem o tem, amado e caro.
Desta arte vai fazendo a gente amiga,
Co rumor famosíssimo, e perclaro.
Já Melinde em desejos arde todo
De ver da gente forte o gesto e modo.
59
Dali para Mombaça logo parte,
Aonde as naus estavam temerosas,
Para que à gente mande que se aparte
Da barra amiga e terras suspeitosas:
Porque mui pouco val esforço e arte,
Contra infernais vontades enganosas;
Pouco val coração, astúcia e siso,
Se lá dos Céus não vem celeste aviso.
60
No feio caminho a noite tinha anelado,
E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
Tinham o largo Mundo alumiado;
E só co'o sono a gente se recreia.
O Capitão ilustre, já cansado
De vigiar a noite que arreceia,
Breve repouso então aos olhos dava,
A outra gente a quartos vigiava;
61
Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
Da cilada que o Rei malvado tece,
Por te trazer ao fim, e extremo dano;
Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
Sereno o tempo tens e o Oceano,
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes seguro agasalhar-te.
62
"Não tens aqui senão aparelhado
O hospício que o cru Diomedes dava,
Fazendo ser manjar acostumado
De cavalos a gente que hospedava;
As aras de Busíris infamado,
Onde os hóspedes tristes imolava,
Terás certas aqui, se muito esperas.
Fuge das gentes pérfidas e feras.
63
"Vai-te ao longo da costa discorrendo,
E outra terra acharás de mais verdade,
Lá quase junto donde o Sol ardendo
Iguala o dia e noite em quantidade;
Ali tua frota alegre recebendo
Um Rei, com muitas obras de amizade,
Gasalhado seguro te daria,
E, para a índia, certa e sábia guia."
64
Isto Mercúrio disse, e o sono leva
Ao Capitão, que com mui grande espanto
Acorda, e vê ferida a escura treva
De uma súbita luz e raio santo.
E vendo claro quanto lhe releva
Não se deter na terra iníqua tanto,
Com novo espírito ao mestre seu mandava
Que as velas desse ao vento que assopravam.
65
"Dai velas, disse, dai ao largo vento,
Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
Que um mensageiro vi do claro assento
Que só em favor de nossos passos anda."
Alevanta-se nisto o movimento
Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
Levam gritando as âncoras acima,
Mostrando a ruda força, que se estima.
66
Neste tempo, que as âncoras levavam,
Na sombra escura os Mouros escondidos
Mansamente as amarras lhe cortavam,
Por serem, dando à costa, destruídos;
Mas com vista de linces vigiavam
Os Portugueses, sempre apercebidos.
Eles, como acordados os sentiram,
Voando, e não remando, lhe fugiram.
67
Mas já as agudas proas apartando
Iam as vias húmidas de argento;
Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
Com suave e seguro movimento.
Nos perigos passados vão falando,
Que mal se perderão do pensamento
Os casos grandes, donde em tanto aperto
A vida em salvo escapa por acerto.
68
Tinha uma volta dado o Sol ardente
E noutro começava, quando viram
Ao longe deus navios, brandamente
Co'os ventos navegando, que respiram:
Porque haviam de ser da Maura gente,
Para eles arribando, as velas viram:
Um, de temor do mal que arreceava,
Por se salvar a gente à costa dava.
69
Não é o outro que fica tão manhoso;
Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
Sem o rigor de Marte furioso,
E sem a fúria horrenda de Vulcano;
Que como fosse débil e medroso
Da pouca gente o fraco peito humano,
Não teve resistência; e se a tivera,
Mais dano resistindo recebera.
70
E como o Gama muito desejasse
Piloto para a Índia que buscava,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
Mas não lhe sucedeu como cuidava,
Que nenhum deles há que lhe ensinasse
A que parte dos céus a Índia estava;
Porém dizem-lhe todos, que tem perto
Melinde, onde achará piloto certo.
71
Louvam do Rei os Mouros a bondade,
Condição liberal, sincero peito,
Magnificência grande e humanidade,
Com partes de grandíssimo respeito.
O Capitão o assela por verdade,
Porque já lhe dissera, deste jeito,
Cileneu em sonhos; e partia
Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.
72
Era no tempo alegre, quando entrava
No roubador de Europa a luz Febeia,
Quando um e outro corno lhe aquentava,
E Flora derramava o de Amalteia:
A memória do dia renovava
O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
O selo pôs a quanto tinha feito;
73
Quando chegava a frota àquela parte,
Onde o Reino Melinde já se via,
De toldos adornada, e leda de arte
Que bem mostra estimar o santo dia.
Treme a bandeira, voa o estandarte,
A cor purpúrea ao longe aparecia;
Soam os atambores o pandeiros,
E assim entravam ledos e guerreiros.
74
Enche-se toda a praia Melindana
Da gente que vem ver a leda armada,
Gente mais verdadeira, e mais humana,
Que toda a doutra terra atrás deixada.
Surge diante a frota Lusitana,
Pega no fundo a âncora pesada;
Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.
75
O Rei, que já sabia da nobreza
Que tanto os Portugueses engrandece,
Tomarem o seu porto tanto preza,
Quanto a gente fortíssima merece:
E com verdadeiro ânimo e pureza,
Que os peitos generosos enobrece,
Lhe manda rogar muito que saíssem,
Para que de seus reinos se servissem.
76
São oferecimentos verdadeiros,
E palavras sinceras, não dobradas,
As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
Que tanto mar e terras tem passadas.
Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
E galinhas domésticas cevadas,
Com as frutas, que então na terra havia;
E a vontade à dádiva excedia.
77
Recebe o Capitão alegremente
O mensageiro ledo e seu recado;
E logo manda ao Rei outro presente,
Que de longe trazia aparelhado:
Escarlata purpúrea, cor ardente,
O ramoso coral, fino e prezado,
Que debaixo das águas mole cresce,
E como é fora delas se endurece.
78
Manda mais um, na prática elegante,
Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
E que de não sair naquele instante
De suas naus em terra o desculpasse.
Partido assim o embaixador prestante,
Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava:
79
"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
Foi da suma Justiça concedido
Refrear o soberbo povo duro,
Não menos dele amado, que temido:
Como porto mui forte e mui seguro,
De todo o Oriente conhecido,
Te vimos a buscar, para que achemos
Em ti o remédio certo que queremos.
80
"Não somos roubadores, que passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
Mas da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.
81
"Que geração tão dura há hi de gente,
Que bárbaro costume e usança feia,
Que não vedem os portos tão somente,
Mas inda o hospício da deserta areia?
Que má tenção, que peito em nós se sente,
Que de tão pouca gente se arreceia?
Que com laços armados, tão fingidos,
Nos ordenassem ver-nos destruídos?
82
"Mas tu, e quem mui certo confiamos
Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
E aquela certa ajuda em ti esperamos,
Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
A teu porto seguro navegamos,
Conduzidos do intérprete divino;
Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
Que és de peito sincero, humano e raro.
83
"E não cuides, ó Rei, que não saísse
O nosso Capitão esclarecido
A ver-te, ou a servir-te, porque visse
Ou suspeitasse em ti peito fingido:
Mas saberás que o fez, porque cumprisse
O regimento, em tudo obedecido,
De seu Rei, que lhe manda que não saia,
Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.
84
"E porque é, de vassalos o exercício,
Que os membros tem regidos da cabeça,
Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
Que ninguém a seu Rei desobedeça;
Mas as mercês e o grande benefício,
Que ora acha em ti, promete que conheça
Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Enquanto os rios para o mar correrem."
85
Assim dizia; e todos juntamente,
Uns com outros em prática falando,
Louvavam muito o estâmago da gente,
Que tantos céus e mares vai passando.
E o Rei ilustre, o peito obediente
Dos Portugueses na alma imaginando,
Tinha por valor grande e mui subido
O do Rei que é tão longe obedecido.
86
E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
"Toda a suspeita má tirai do peito,
Nenhum frio temor em vós se imprima;
Que vosso preço e obras são de jeito
Para vos ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento,
Não pode ter subido pensamento.
87
"De não sair em terra toda a gente,
Por observar a usada preminência,
Ainda que me pese estranhamente,
Em muito tenho a muita obediência;
Mas, se lho o regimento não consente,
Nem eu consentirei que a excelência
De peitos tão leais em si desfaça,
Só porque a meu desejo satisfaça.
88
"Porém, como a luz crástina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo, há tantos dias;
E se vier do mar desbaratada,
Do furioso vento e longas vias,
Aqui terá, de limpos pensamentos,
Piloto, munições e mantimentos."
89
Isto disse; e nas águas se escondia
O filho de Latona; e o mensageiro
Coa embaixada alegre se partia
Para a frota, no seu batel ligeiro.
Enchem-se os peitos todos de alegria.
Por terem o remédio verdadeiro
Para acharem a terra que buscavam;
E assim ledos a noite festejavam.
90
Não faltam ali os raios de artifício,
Os trêmulos cometas imitando;
Fazem os bombardeiros seu ofício,
O céu, a terra e as ondas atroando.
Mostra-se dos Ciclopas o exercício
Nas bombas que de fogo estão queimando;
Outros com vozes, com que o céu feriam,
Instrumentos altíssonos tangiam.
91
Respondem-lhe da terra juntamente,
Co'o raio volteando, com zunido;
Anda em giros no ar a roda ardente,
Estoura o pó sulfúreo escondido.
A grita se alevanta ao céu, da gente;
O mar se via em fogos acendido,
E não menos a terra; e assim festeja
Um ao outro, a maneira de peleja.
92
Mas já o Céu inquieto revolvendo,
As gentes incitava a seu trabalho,
E já a mãe de Menon a luz trazendo,
Ao sono longo punha certo atalho;
Iam-se as sombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra em frio orvalho,
Quando o Rei Melindano se embarcava
A ver a frota, que no mar estava.
93
Viam-se em derredor ferver as praias
Da gente, que a ver só concorre leda;
Luzem da fina púrpura as cabaias,
Lustram os panos da tecida seda;
Em lugar das guerreiras azagaias
E do arco, que os cornos arremeda
Da Lua, trazem ramos de palmeira,
Dos que vencem, coroa verdadeira.
94
Um batel grande e largo, que toldado
Vinha de sedas de diversas cores,
Traz o Rei de Melinde, acompanhado
De nobres e seu Reino e de senhores:
Vem de ricos vestidos adornado,
Segundo seus costumes e primores;
Na cabeça uma fota guarnecida
De ouro, e de seda e de algodão tecida.
95
Cabaia de Damasco rico e dino,
Da Tíria cor, entre eles estimada,
Um colar ao pescoço, de ouro fino,
Onde a matéria da obra é superada,
C'um resplendor reluze adamantino;
Na cinta, a rica bem lavrada;
Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.
96
Com um redondo emparo alto de seda,
Numa alta e dourada hástia enxerido,
Um ministro à solar quentura veda.
Que não ofenda e queime o Rei subido.
Música traz na proa, estranha e leda,
De áspero som, horríssono ao ouvido,
De trombetas arcadas em redondo,
Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.
97
Não menos guarnecido o Lusitano
Nos seus batéis, da frota se partia
A receber no mar o Melindano,
Com lustrosa e lograda companhia.
Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Mas Francesa era a roupa que vestia,
De cetim da Adriática Veneza
Carmesi, cor que a gente tanto preza:
98
De botões douro as mangas vêm tomadas,
Onde o Sol reluzindo a vista cega;
As calças soldadescas recamadas
Do metal, que Fortuna a tantos nega,
E com pontas do mesmo delicadas
Os golpes do gibão ajunta e achega;
Ao Itálico modo a áurea espada;
Pluma na gorra, um pouco declinada.
99
Nos de sua companhia se mostrava
Da tinta, que dá o múrice excelente,
A vária cor, que os olhos alegrava,
E a maneira do trajo diferente.
Tal o formoso esmalte se notava
Dos vestidos, olhados juntamente,
Qual aparece o arco rutilante
Da bela Ninfa, filha de Taumante.
100
Sonorosas trombetas incitavam
Os ânimos alegres, ressoando;
Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
Os toldos pelas águas arrojando;
As bombardas horríssonas bramavam,
Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
Amiúdam-se os brados acendidos,
Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.
101
Já no batel entrou do Capitão
O Rei, que nos seus braços o levava;
Ele coa cortesia, que a razão
(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
C'umas mostras de espanto e admiração,
O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Como quem em mui grande estima tinha
Gente que de tão longe à índia vinha.
102
E com grandes palavras lhe oferece
Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
E que, se mantimento lhe falece,
Como se próprio fosse, lho pedisse.
Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
A gente Lusitana, sem que a visse;
Que já ouviu dizer, que noutra terra
Com gente de sua Lei tivesse guerra.
103
E como por toda África se soa,
Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
Quando nela ganharam a coroa
Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
E com muitas palavras apregoa
O menos que os de Luso mereceram,
E o mais que pela fama o Rei sabia.
Mas desta sorte o Gama respondia:
104
"Ó tu, que só tiveste piedade,
Rei benigno, da gente Lusitana,
Que com tanta miséria e adversidade
Dos mares experimenta a fúria insana;
Aquela alta e divina Eternidade,
Que o Céu revolve e rege a gente humana,
Pois que de ti tais obras recebemos,
Te pague o que nós outros não podemos.
105
"Tu só, de todos quantos queima Apolo,
Nos recebes em paz, cio mar profundo;
Em ti dos ventos hórridos de Eolo
Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
Enquanto apascentar o largo Pólo
As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
Onde quer que eu viver, com fama e glória
Viverão teus louvores em memória."
106
Isto dizendo, os barcos vão remando
Para a frota, que o Mouro ver deseja;
Vão as naus uma e uma rodeando,
Porque de todas tudo note e veja.
Mas para o céu Vulcano fuzilando,
A frota coas bombardas o festeja,
E as trombetas canoras lhe tangiam;
Co'os anafis os Mouros respondiam.
107
Mas depois de ser tudo já notado
Do generoso Mouro, que pasmava
Ouvindo o instrumento inusitado,
Que tamanho terror em si mostrava,
Mandava estar quieto e ancorado
N'água o batel ligeiro que os levava,
Por falar de vagar co'o forte Gama,
Nas cousas de que tem notícia e faina.
108
Em práticas o Mouro diferentes
Se deleitava, perguntando agora
Pelas guerras famosas e excelentes
Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hespéria última, onde mora;
Agora pelos povos seus vizinhos,
Agora pelos úmidos caminhos.
109
"Mas antes, valeroso Capitão,
Nos conta, lhe dizia, diligente,
Da terra tua o clima, e região
Do mundo onde morais distintamente;
E assim de vossa antiga geração,
E o princípio do Reino tão potente,
Co'os sucessos das guerras do começo,
Que, sem sabê-las, sei que são de preço.
110
"E assim também nos conta dos rodeios
Longos, em que te traz o mar irado,
Vendo os costumes bárbaros alheios.
Que a nossa África ruda tem criado.
Conta: que agora vêm co'os áureos freios
Os cavalos que o carro marchetado
Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
O vento dorme, o mar e as ondas jazem.
111
"E não menos co'o tempo se parece
O desejo de ouvir-te o que contares;
Que quem há, que por fama não conhece
As obras Portuguesas singulares?
Não tanto desviado resplandece
De nós o claro Sol, para julgares
Que os Melindanos têm tão rudo peito,
Que não estimem muito um grande feito.
112
"Cometeram soberbos os Gigantes,
Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
O Reino de Plutão horrendo e escuro.
Se houve feitos no mundo tão possantes,
Não menos é trabalho ilustre e duro,
Quanto foi cometer Inferno o Céu,
Que outrem cometa a fúria de Nereu.
113
"Queimou o sagrado templo de Diana,
Do subtil Tesifónio fabricado,
Heróstrato, por ser da gente humana
Conhecido no mundo e nomeado:
Se também com tais obras nos engana
O desejo de um nome avantajado,
Mais razão há que queira eterna glória
Quem faz obras tão dignas de memória."
Canto Terceiro
1
Agora tu, Calíope, me ensina
O que contou ao Rei o ilustre Gama:
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assim o claro inventor da Medicina,
De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
Te negue o amor devido, como soe.
2
Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
Como merece a gente Lusitana;
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana.
Deixa as flores de Pindo, que já vejo
Banhar-me Apolo na água soberana;
Senão direi que tens algum receio,
Que se escureça o teu querido Orfeio.
3
Prontos estavam todos escutando
O que o sublime Gama contaria,
Quando, depois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assim dizia:
"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
De minha gente a grão genealogia:
Não me mandas contar estranha história,
Mas mandas-me louvar dos meus a glória.
4
"Que outrem possa louvar esforço alheio,
Cousa é que se costuma e se deseja;
Mas louvar os meus próprios, arreceio
Que louvor tão suspeito mal me esteja;
E para dizer tudo, temo e creio,
Que qualquer longo tempo curto seja:
Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
Irei contra o que devo, e serei breve.
5
"Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer.
Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei da larga terra,
Depois direi da sanguinosa guerra.
6
"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Meta setentrional do Sol luzente,
E aquela que por f ria se arreceia
Tanto, como a do meio por ardente,
Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
Com suas salsas ondas o Oceano,
E pela Austral o mar Mediterrano.
7
"Da parte donde o dia vem nascendo,
Com Ásia se avizinha; mas o rio
Que dos montes Rifeios vai correndo,
Na alagoa Meotis, curvo o frio,
As divide: e o mar que, fero e horrendo,
Viu dos Gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tróia triunfante
Não vê mais que a memória o navegante.
8
"Lá onde mais debaixo está do Pólo,
Os montes Hiperbóreos aparecem,
E aqueles onde sempre sopra Eolo,
E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
Aqui tão pouca força tem de Apolo
Os raios que no mundo resplandecem,
Que a neve está contido pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
9
"Aqui dos Citas grande quantidade
Vivem, que antigamente grande guerra
Tiveram, sobre a humana antiguidade,
Co'os que tinham então a Egípcia terra;
Mas quem tão fora estava da verdade,
(Já que o juízo humano tanto erra)
Para que do mais certo se informara,
Ao campo Damasceno o perguntara.
10
"Agora nestas partes se nomeia
A Lápia fria, a inculta Noruega,
Escandinávia Ilha, que se arreia
Das vitórias que Itália não lhe nega.
Aqui, enquanto as águas não refreia
O congelado inverno, se navega
Um braço do Sarmático Oceano
Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.
11
"Entre este mar e o Tánais vive estranha
Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
Sármatas outro tempo; e na montanha
Hircínia os Marcomanos são Polónios.
Sujeitos ao Império de Alemanha
São Saxones, Boêmios e Panónios,
E outras várias nações, que o Reno frio
Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.
12
"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
Estão os Traces de robusto peito,
Do fero Marte pátria tão querida,
Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
Ao Otomano está, que submetida
Bizâncio tem a seu serviço indino:
Boa injúria do grande Constantino!
13
"Logo de Macedónia estão as gentes,
A quem lava do Axio a água fria;
E vós também, ó terras excelentes
Nos costumes, engenhos e ousadia,
Que criastes os peitos eloquentes
E os juízos de alta fantasia,
Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
E não menos por armas, que por letras.
14
"Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
Onde Antenor já muros levantou,
A soberba Veneza está no meio
Das águas, que tão baixa começou.
Da terra um braço vem ao mar, que cheio
De esforço, nações várias sujeitou,
Braço forte, de gente sublimada,
Não menos nos engenhos, que na espada.
15
"Em torno o cerca o Reino Neptunino,
Co'os muros naturais por outra parte;
Pelo meio o divide o Apenino,
Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
Mas depois que o Porteiro tem divino,
Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
Pobre está já de antiga potestade:
Tanto Deus se contenta de humildade!
16
"Gália ali se verá que nomeada
Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
Que do Séquana e Ródano é regada,
E do Giruna frio e Reno fundo.
Logo os montes da Ninfa sepultada
Pirene se alevantam, que segundo
Antiguidades contam, quando arderam,
Rios de ouro e de prata então correram.
17
"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio o glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
Que lhe não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.
18
"Com Tingitânia entesta, e ali parece
Que quer fechar o mar Mediterrano,
Onde o sabido Estreito se enobrece
Co'o extremo trabalhado Tebano.
Com nações diferentes se engrandece,
Cercadas com as ondas do Oceano;
Todas de tal nobreza e tal valor,
Que qualquer delas cuida que é melhor.
19
"Tem o Tarragonês, que se fez claro
Sujeitando Parténope inquieta;
O Navarro, as Astúrias, que reparo
Já foram contra a gente Mahometa;
Tem o Galego cauto, e o grande e raro
Castelhano, a quem fez o seu Planeta
Restituidor de Espanha e senhor dela,
Bétis, Lião, Granada, com Castela.
20
"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.
22
"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiros.
22
"Desta o pastor nasceu, que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve;
Cuja fama ninguém virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
Esta, o velho que os filhos próprios come
Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:
23
"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
Que por armas sanguinas, força e manha,
A muitos fez perder a vida o a terra;
Voando deste Rei a fama estranha
Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
Muitos, para na guerra esclarecer-se,
Vinham a ele e à morte oferecer-se.
24
"E com um amor intrínseco acendidos
Da Fé, mais que das honras populares,
Eram de várias terras conduzidos,
Deixando a pátria amada e próprios lares.
Depois que em feitos altos e subidos
Se mostraram nas armas singulares,
Quis o famoso Afonso que obras tais
Levassem prémio digno e dons iguais.
25
"Destes Anrique, dizem que segundo
Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E, para mais sinal d'amor profundo,
Quis o Rei Castelhano, que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tornou posse.
26
"Este, depois que contra os descendentes
Da escrava Agar vitórias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes,
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prémio destes feitos excelentes,
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.
27
"Já tinha vindo Anrique da conquista
Da cidade Hierosólima sagrada,
E do Jordão a areia tinha vista,
Que viu de Deus a carne em si lavada;
Que não tendo Gotfredo a quem resista,
Depois de ter Judeia sojugada,
Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
Para seus senhorios se tornaram;
28
"Quando chegado ao fim de sua idade,
O forte e famoso Úngaro estremado,
Forçado da fatal necessidade,
O espírito deu a quem lhe tinha dado,
Ficava o filho em tenra mocidade,
Em quem o pai deixava seu traslado,
Que do mundo os mais fortes igualava;
Que de tal pai tal filho se esperava.
29
"Mas o velho rumor, não sei se errado,
Que em tanta antiguidade não há certeza,
Conta que a mãe, tomando todo o estado,
Do segundo himeneu não se despreza.
O filho órfão deixava deserdado,
Dizendo que nas terras a grandeza
Do senhorio todo só sua era,
Porque, para casar, seu pai lhes dera.
30
"Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
Se chamava, do avô tomando o nome,
Vendo-se em suas terras não ter parte,
Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
Imagina consigo como as tome.
Revolvidas as causas no conceito,
Ao propósito firme segue o efeito.
31
"De Guimarães o campo se tingia
Co'o sangue próprio da intestina guerra,
Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terra.
Com ele posta em campo já se via;
E não vê a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amor;
Mas nela o sensual era maior.
32
"Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
Se em vossos próprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,
Olhai que inda Teresa peca mais:
Incontinência má, cobiça feia,
São as causas deste erro principais:
Cila, por uma, mata o velho pai,
Esta, por ambas, contra o filho vai.
33
"Mas já o Príncipe claro o vencimento
Do padrasto e da iníqua mãe levava;
Já lhe obedece a terra num momento,
Que primeiro contra ele pelejava.
Porém, vencido de ira o entendimento,
A mãe em ferros ásperos atava;
Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
Tanta veneração aos pais se deve!
34
"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
Para vingar a injúria de Teresa,
Contra o tão raro em gente Lusitano,
A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
Em batalha cruel o peito humano,
Ajudado da angélica defesa,
Não só contra tal fúria se sustenta,
Mas o inimigo aspérrimo afugenta.
35
"Não passa muito tempo, quando o forte
Príncipe em Guimarães está cercado
De infinito poder; que desta sorte
Foi refazer-se o inimigo magoado;
Mas, com se oferecer à dura morte
O fiel Egas amo, foi livrado;
Que de outra arte pudera ser perdido,
Segundo estava mal apercebido.
36
"lulas o leal vassalo, conhecendo
Que seu senhor não tinha resistência,
Se vai ao Castelhano, prometendo
Que ele faria dar-lhe obediência.
Levanta o inimigo o cerco horrendo,
Fiado na promessa e consciência
De Egas Moniz; mas não consente o peito
Do moço ilustre a outrem ser sujeito.
37
"Chegado tinha o prazo prometido,
Em que o Rei Castelhano já aguardava
Que o Príncipe, a seu mando sometido,
Lhe desse a obediência que esperava.
Vendo Egas que ficava fementido,
O que dele Castela não cuidava,
Determina de dar a doce vida
A troco da palavra mal cumprida.
38
"E com seus filhos e mulher se parte
A alevantar com eles a fiança,
Descalços e despidos, de tal arte,
Que mais move a piedade que a vingança.
--"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
De minha temerária confiança,
Dizia, eis aqui venho oferecido
A te pagar, coa vida, o prometido.
39
"Vês aqui trago as vidas inocentes
Dos filhos sem pecado e da consorte;
Se a peitos generosos e excelentes,
Dos fracos satisfaz a fera morte.
Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
Nelas sós exprimenta toda a sorte
De tormentos, de mortes, pelo estilo
De Cínis e do touro de Perilo"!--
40
"Qual diante do algoz o condenado,
Que já na vida a morte tem bebido,
Põe no cepo a garganta, e já entregado
Espera pelo golpe tão temido:
Tal diante do Príncipe indinado,
Egas estava a tudo oferecido.
Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.
41
"Ó grão fidelidade Portuguesa,
De vassalo, que a tanto se obrigava!
Que mais o Persa fez naquela empresa,
Onde rosto e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa,
Que mil vezes dizendo suspirava,
Que mais o seu Zopiro são prezara,
Que vinte Babilónias que tomara.
42
Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
D'além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno.
43
"Em nenhuma outra cousa confiado,
Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo batizado,
Que para um só cem Mouros haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia,
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que para um cavaleiro houvesse cento.
44
"Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
Imitando a formosa e forte Dama,
De quem tanto os Troianos se ajudaram,
E as que o Termodonte já gostaram.
45
"A matutina luz serena e fria,
As estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando quem lhe aparecia,
Na Fé todo inflamado assim gritava:
--"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
E não a mim, que creio o que podeis!"
46
"Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos imigos, gritando o céu tocavam,
Dizendo em alta voz:--"Real, real,
Por Afonso alto Rei de Portugal."
47
"Qual co'os gritos e vozes incitado,
Pela montanha o rábido Moloso,
Contra o touro remete, que fiado
Na força está do corno temeroso:
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo mais ligeiro que forçoso,
Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
Do bravo a força horrenda se quebranta:
48
"Tal do Rei novo o estâmago acendido
Por Deus e pelo povo juntamente,
O Bárbaro comete apercebido,
Co'o animoso exército rompente.
Levantam nisto os perros o alarido
Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
As lanças e arcos tomam, tubas soam,
Instrumentos de guerra tudo atroam.
49
"Bem como quando a flama, que ateada
Foi nos áridos campos (assoprando
O sibilante Bóreas) animada
Co'o vento, o seco mato vai queimando;
A pastoral companha, que deitada
Co'o doce sono estava, despertando
Ao estridor do fogo que se ateia,
Recolhe o fato, e foge para a aldeia:
50
"Desta arte o Mouro atónito e torvado,
Toma sem tento as armas mui depressa;
Não foge; mas espera confiado,
E o ginete belígero arremessa.
O Português o encontra denodado,
Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
Uns caem meios mortos, e outros vão
A ajuda convocando do Alcorão.
51
"Ali se vêem encontros temerosos,
Para se desfazer uma alta serra,
E os animais correndo furiosos
Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
Golpes se dão medonhos e forçosos;
Por toda a parte andava acesa a guerra:
Mas o de Luso arnês, couraça e malha
Rompe, corta, desfaz, abola e talha.
52
"Cabeças pelo campo vão saltando
Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
E doutros as entranhas palpitando,
Pálida a cor, o gesto amortecido.
Já perde o campo o exército nefando;
Correm rios de sangue desparzido,
Com que também do campo a cor se perde,
Tornado carmesi de branco e verde.
53
"Já fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o grão Rei no campo fiei.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos,
54
"E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memória em vária tinta,
Daquele de quem foi favorecido.
Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
Porque assim fica o número cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.
55
"Passado já algum tempo que passada
Era esta grão vitória, o Rei subido
A tomar vai Leiria, que tomada
Fora, mui pouco havia, do vencido.
Com esta a forte Arronches sojugada
Foi juntamente, e o sempre enobrecido
Scalabicastro, cujo campo ameno,
Tu, claro Tejo, regas tão sereno.
56
"A estas nobres vilas sometidas,
Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
E nas serras da Lua conhecidas,
Sojuga a fria Sintra o duro braço;
Sintra, onde as Naiades, escondidas
Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
Onde Amor as enreda brandamente,
Nas águas acendendo fogo ardente.
57
"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
Facilmente das outras és princesa,
Que edificada foste do facundo,
Por cujo engano foi Dardânia acesa;
Tu, a quem obedece o mar profundo,
Obedeceste à força Portuguesa,
Ajudada também da forte armada,
Que das Boreais partes foi mandada.
58
"Lá do Germânico Albis, e do Rene,
E da fria Bretanha conduzidos,
A destruir o povo Sarraceno,
Muitos com tensão santa eram partidos.
Entrando a boca já do Tejo ameno,
Co'o arraial do grande Afonso unidos,
Cuja alta fama então subia aos Céus,
Foi posto cerco tos muros Ulisseus.
59
"Cinco vezes a Lua se escondera,
E outras tantas mostrara cheio o rosto,
Quando a cidade entrada se rendera
Ao duro cerco, que lhe estava posto.
Foi a batalha tão sanguina e fera,
Quanto obrigava o firme pressuposto
De vencedores ásperos e ousados,
E de vencidos já desesperados.
60
"Desta arte enfim tomada se rendeu
Aquela que, nos tempos já passados,
A grande força nunca obedeceu
Dos frios povos Cíticos ousados,
Cujo poder a tanto se estendeu
Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
Que à terra de Vandália nome deram.
61
"Que cidade tão forte por ventura
Haverá que resista, se Lisboa
Não pôde resistir à força dura
Da gente, cuja fama tanto voa?
Já lhe obedece toda a Estremadura,
Óbidos, Alenquer, por onde soa
O tom das frescas águas, entre as pedras,
Que murmurando lava, e Torres Vedras.
62
"E vós também, ó terras Transtaganas,
Afamadas co'o dom da flava Ceres,
Obedeceis às forças mais que humanas,
Entregando-lhe os muros e os poderes.
E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
Se sustentar a fértil terra queres;
Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
E Alcácere-do-Sal estão rendidas.
63
"Eis a nobre Cidade, certo assento
Do rebelde Sertório antigamente,
Onde ora as águas nítidas de argento
Vem sustentar de longo a terra e a gente,
Pelos arcos reais, que cento e cento
Nos ares se alevantam nobremente,
Obedeceu por meio e ousadia
De Giraldo, que medos não temia.
64
"Já na cidade Beja vai tomar
Vingança de Trancoso destruída
Afonso, que não sabe sossegar,
Por estender coa fama a curta vida.
Não se lhe pode muito sustentar
A cidade; mas sendo já rendida,
Em toda a cousa viva a gente irada
Provando os fios vai da dura espada.
65
"Com estas sojugada foi Palmela,
E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
Sendo ajudado mais de sua estrela,
Desbarata um exército potente:
Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
Que a socorrê-la vinha diligente
Pela fralda da serra, descuidado
Do temeroso encontro inopinado.
66
"O Rei de Badajoz era alto Mouro,
Com quatro mil cavalos furiosos,
Inúmeros peões, d'armas e de ouro
Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
Sentindo gente o bruto e cego amante
Salteia o descuidado caminhante:
67
"Desta arte Afonso súbito mostrado
Na gente dá, que passa bem segura,
Fere, mata, derriba denodado;
Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
Dum pânico terror todo assombrado,
Só de segui-lo o exército procura;
Sendo estes que fizeram tanto abalo
Não mais que só sessenta de cavalo.
68
"Logo segue a vitória sem tardança
O grão Rei incansábil, ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja usança
Era andar sempre terras conquistando.
Cercar vai Badajoz, e logo alcança
O fim de seu desejo, pelejando
Com tanto esforço, e arte, e valentia,
Que a fez fazer às outras companhia.
69
"Mas o alto Deus, que para longe guarda
O castigo daquele que o merece,
Ou, para que se emende, às vezes tarda,
Ou por segredos que homem não conhece,
Se até que sempre o forte Rei resguarda
Dos perigos a que ele se oferece;
Agora lhe não deixa ter defesa
Da maldição da mãe que estava presa.
70
"Que estando na cidade, que cercara,
Cercado nela foi dos Lioneses,
Porque a conquista dela lhe tomara,
De Lião sendo, e não dos Portugueses.
A pertinácia aqui lhe custa cara,
Assim como acontece muitas vezes,
Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
A batalha, onde foi vencido e preso.
71
"Ó famoso Pompeio, não te pene
De teus feitos ilustres a ruína,
Nem ver que a justa Némesis ordene
Ter teu sogro de ti vitória dina,
Posto que o frio Fásis, ou Siene,
Que para nenhum cabo a sombra inclina,
O Bootes gelado e a linha ardente,
Temessem o teu nome geralmente.
72
"Posto que a rica Arábia e que os ferozes
Eníocos e Colcos, cuja fama
O Véu dourado estende, e os Capadoces,
E Judeia, que um Deus adora e ama,
E que os moles Sofenos, e os atroces
Cilícios, com a Arménia, que derrama
As águas dos dous rios, cuja fonte
Está noutro mais alto e santo monte;
73
"E posto enfim que desde o mar de Atlante
Até o Cítico Tauro monte erguido,
Já vencedor te vissem, não te espanto
Se o campo Emátio só te viu vencido,
Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
Tudo render-se ser depois rendido.
Assim o quis o conselho alto e celeste,
Que vença o sogro a ti, e o genro a este.
74
"Tornado o Rei sublime finalmente,
Do divino Juízo castigado,
Depois que em Santarém soberbamente
Em vão dos Sarracenos foi cercado,
E depois que do mártire Vicente
O santíssimo corpo venerado
Do Sacro Promontório conhecido
A cidade Ulisseia foi trazido;
75
"Porque levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda o lasso velho
Que às terras se passasse d'Alentejo,
Com gente e co'o belígero aparelho.
Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
Avante passa, e faz correr vermelho
O rio que Sevilha vai regando,
Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.
76
"E com esta vitória cobiçoso,
Já não descansa o moço até que veja
Outro estrago como este, temeroso,
No Bárbaro que tem cercado Beja.
Não tarda muito o Príncipe ditoso
Sem ver o fim daquilo que deseja.
Assim estragado o Mouro, na vingança
De tantas perdas põe sua esperança.
77
"Já se ajuntam do monte a quem Medusa
O corpo fez perder, que teve o Céu;
Já vem do promontório de Ampelusa
E do Tinge, que assento foi de Anteu.
O morador de Abila não se escusa,
Que também com suas armas se moveu,
Ao som da Mauritana e ronca tuba,
Todo o Reino que foi do nobre Juba.
78
"Entrava com toda esta companhia
O Miralmomini em Portugal;
Treze Reis mouros leva de valia,
Entre os quais tem o ceptro imperial;
E assim fazendo quanto mal podia,
O que em partes podia fazer mal,
Dom Sancho vai cercar em Santarém;
Porém não lhe sucede muito bem.
79
"Dá-lhe combates ásperos, fazendo
Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
Mina secreta, aríete forçoso:
Porque o filho de Afonso não perdendo
Nada do esforço e acordo generoso,
Tudo provê com ânimo e prudência;
Que em toda a parte há esforço e resistência.
80
"Mas o velho, a quem tinham já obrigado
Os trabalhosos anos ao sossego,
Estando na cidade, cujo prado
Enverdecem as águas do Mondego,
Sabendo como o filho está cercado
Em Santarém do Mauro povo cego,
Se parte diligente da cidade;
Que não perde a presteza coa idade.
81
"E coa famosa gente à guerra usada
Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
A Portuguesa fúria costumada
Em breve os Mouros tem desbaratados.
A campina, que toda está coalhada
De marlotas, capuzes variados,
De cavalos, jaezes, presa rica,
De seus senhores mortos cheia fica.
82
"Logo todo o restante se partiu
De Lusitânia, postos em fugida;
O Miralmomini só não fugiu,
Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
A quem lhe esta vitória permitiu
Dão louvores e graças sem medida:
Que em casos tão estranhos claramente
Mais peleja o favor de Deus que a gente.
83
"De tamanhas vitórias triunfava
O velho Afonso, Príncipe subido,
Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
Da larga e muita idade foi vencido.
A pálida doença lhe tocava
Com fria mão o corpo enfraquecido;
E pagaram seus anos deste jeito
A triste Libitina seu direito.
84
"Os altos promontórios o choraram,
E dos rios as águas saudosas
Os semeados campos alagaram
Com lágrimas correndo piedosas.
Mas tanto pelo mundo se alargaram
Com faina suas obras valerosas,
Que sempre no seu Reino chamarão
"Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.
85
"Sancho, forte mancebo, que ficara
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já se exprimentara,
Quando o Bétis de sangue se tingia,
E o bárbaro poder desbaratara
Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
E mais quando os que Beja em vão cercaram,
Os golpes de seu braço em si provaram;
86
"Depois que foi por Rei alevantado,
Havendo poucos anos que reinava,
A cidade de Silves tem cercado,
Cujos campos o bárbaro lavrava.
Foi das valentes gentes ajudado
Da Germânica armada que passava,
De armas fortes e gente apercebida,
A recobrar Judeia já perdida.
87
"Passavam a ajudar na santa empresa
O roxo Federico, que moveu
O poderoso exército em defesa
Da cidade onde Cristo padeceu,
Quando Guido, coa gente em sede acesa,
Ao grande Saladino se rendeu,
No lugar onde aos Mouros sobejavam
As águas que os de Guido desejavam.
88
"Mas a formosa armada, que viera
Por contraste de vento àquela parte,
Sancho quis ajudar na guerra fera,
Já que em serviço vai do santo Marte.
Assim como a seu pai acontecera
Quando tomou Lisboa, da mesma arte
Do Germano ajudado Silves toma,
E o bravo morador destrue e doma.
89
"E se tantos troféus do Mahometa
Alevantando vai, também do forte
Lionês não consente estar quieta
A terra, usada aos casos de Mavorte,
Até que na cerviz seu jugo meta
Da soberba Tui, que a mesma sorte
Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.
90
"Mas entre tantas palmas salteado
Da temerosa morte, fica herdeiro
Um filho seu, de todos estimado,
Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
No tempo deste, aos Mouros foi tomado
Alcácere-do-Sal por derradeiro;
Porque dantes os Mouros o tomaram,
Mas agora estruídos o pagaram.
91
"Morto depois Afonso, lhe sucede
Sancho segundo, manso e descuidado,
Que tanto em seus descuidos se desmede,
Que de outrem, quem mandava, era mandado.
De governar o Reino, que outro pede,
Por causa dos privados foi privado,
Porque, como por eles se regia,
Em todos os seus vícios consentia.
92
"Não era Sancho, não, tão desonesto
Como Nero, que um moço recebia
Por mulher, e depois horrendo incesto
Com a mãe Agripina cometia;
Nem tão cruel às gentes e molesto,
Que a cidade queimasse onde vivia,
Nem tão mau como foi Heliogabalo,
Nem como o mole Rei Sardanapalo.
93
"Nem era o povo seu tiranizado,
Como Sicília foi de seus tiranos;
Nem tinha como Fálaris achado
Gênero de tormentos inumanos;
Mas o Reino, de altivo e costumado
A senhores em tudo soberanos,
A Rei não obedece, nem consente,
Que não for mais que todos excelente.
94
"Por esta causa o Reino governou
O Conde Bolonhês, depois alçado
Por Rei, quando da vida se apartou
Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
Este, que Afonso o bravo, se chamou,
Depois de ter o Reino segurado,
Em dilatá-lo cuida, que em terreno
Não cabe o altivo peito, tão pequeno.
95
"Da terra dos Algarves, que lhe fora
Em casamento dada, grande parte
Recupera co'o braço, e deita fora
O Mouro, mal querido já de Marte.
Este de todo fez livre e senhora
Lusitânia, com força e bélica arte;
E acabou de oprimir a nação forte,
Na terra que aos de Luso coube em sorte.
96
"Eis depois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina.
Com este o Reino próspero florece
(Alcançada já a paz áurea divina)
Em constituições, leis e costumes,
Na terra já tranquila claros lumes.
97
"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Monde-o a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.
98
"Nobres vilas de novo edificou
Fortalezas, castelos mui seguros,
E quase o Reino todo reformou
Com edifícios grandes, e altos muros.
Mas depois que a dura Átropos cortou
O fio de seus dias já maduros,
Ficou-lhe o filho pouco obediente,
Quarto Afonso, mas forte e excelente.
99
"Este sempre as soberbas Castelhanas
Co'o peito desprezou firme e sereno,
Porque não é das forças Lusitanas,
Temer poder maior, por mais pequeno.
Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
A possuir o Hespérico terreno
Entraram pelas terras de Castela,
Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.
100
"Nunca com Semirâmis gente tanta
Veio os campos idáspicos enchendo,
Nem Atila, que Itália toda espanta,
Chamando-se de Deus açoute horrendo,
Gótica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno bárbaro estupendo,
Co'o poder excessivo de Granada,
Foi nos campos Tartésios ajuntada.
101
"E vendo o Rei sublime Castelhano
A força inexpugnábil, grande e forte,
Temendo mais o fim do povo hispano,
Já perdido uma vez, que a própria morte,
Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
Lhe mandava a caríssima consorte,
Mulher de quem a manda, e filha amada
Daquele a cujo Reino foi mandada.
102
"Entrava a formosíssima Maria
Pelos paternais paços sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lágrimas banhados;
Os cabelos angélicos trazia
Pelos ebúrneos ombros espalhados:
Diante do pai ledo, que a agasalha,
Estas palavras tais, chorando, espalha:
103
--"Quantos povos a terra produziu
De África toda, gente fera e estranha,
O grão Rei de Marrocos conduziu
Para vir possuir a nobre Espanha:
Poder tamanho junto não se viu,
Depois que o salso mar a terra banha.
Trazem ferocidade, e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.
104
--"Aquele que me deste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co'o pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe está da Maura espada;
E se não for contigo socorrido,
Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
Viúva e triste, e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino, e sem ventura.
105
"Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
O corrente Muluca se congela,
Rompe toda a tardança, acude cedo
A miseranda gente de Castela.
Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
De pai o verdadeiro amor assela,
Acude e corre, pai, que se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres."--
106
"Não de outra sorte a tímida Maria
Falando está, que a triste Vénus, quando
A Júpiter, seu pai, favor pedia
Para Eneias, seu filho, navegando;
Que a tanta piedade o comovia
Que, caído das mãos o raio infando,
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Pesando-lhe do pouco que lhe pede.
107
"Mas já co'os esquadrões da gente armada
Os Eborenses campos vão coalhados:
Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
Vão rinchando os cavalos jaezados.
A canora trombeta embandeirada,
Os corações à paz acostumados
Vai às fulgentes armas incitando,
Pelas concavidades retumbando.
108
"Entre todos no meio se sublima,
Das insígnias Reais acompanhado,
O valeroso Afonso, que por cima
De todos leva o colo alevantado;
E somente co'o gesto esforça e anima
A qualquer coração amedrontado.
Assim entra nas terras de Castela
Com a filha gentil, Rainha dela.
109
"Juntos os dous Afonsos finalmente
Nos campos de Tarifa estão defronte
Da grande multidão da cega gente,
Para quem são pequenos campo e monte.
Não há peito tão alto e tão potente,
Que de desconfiança não se afronte,
Enquanto não conheça e claro veja
Que co'o braço dos seus Cristo peleja.
110
"Estão de Agar os netos quase rindo
Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
As terras como suas repartindo
Antemão, entre o exército Agareno,
Que com título falso possuindo
Está o famoso nome Sarraceno.
Assim também com falsa conta e nua,
À nobre terra alheia chamam sua.
111
"Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
Do rei Saul, com causa, tão temido,
Vendo o pastor inerme estar diante,
Só de pedras e esforço apercebido,
Com palavras soberbas o arrogante
Despreza o fraco moço mal vestido,
Que, rodeando a funda, o desengana
Quanto mais pode a Fé que a força humana:
112
"Desta arte o Mouro pérfido despreza
O poder dos Cristãos, e não entende
Que está ajudado da Alta Fortaleza,
A quem o inferno horrífico se rende.
Co ela o Castelhano, e com destreza
De Marrocos o Rei comete e ofende.
O Português, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.
113
"Eis as lanças e espadas retiniam
Por cima dos arneses: bravo estrago!
Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
Uns Mafamede, e os outros Santiago.
Os feridos com grita o Céu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros meios mortos se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.
114
"Com esforço tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
De alcançar tal vitória tão barata
Inda não bem contente o forte braço,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando está co'o Mauritano.
115
"Já se ia o Sol ardente recolhendo
Para a casa de Tethys, e inclinado
Para o Ponente, o Véspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro grande e horrendo
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortandade, que a memória
Nunca no mundo viu tão grã vitória.
116
"Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co'o sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno asperíssimo contrário
Do Romano poder, de nascimento,
Quando tantos matou da ilustro Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma.
117
"E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro de Cocito,
Quando a santa Cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito:
Permissão e vingança foi celeste,
E não força de braço, ó nobre Tito,
Que assim dos Vates foi profetizado,
E depois por Jesu certificado.
118
"Passada esta tão próspera vitória,
Tornando Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.
119
"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
120
"Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
121
"Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam:
De noite em doces sonhos, que mentiam,
De dia em pensamentos, que voavam.
E quanto enfim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memórias de alegria.
122
"De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
123
"Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co'o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?
124
"Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade:
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela com tristes o piedosas vozes,
Saídas só da mágoa, e saudade
Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
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Os fidalgos da Casa Mourisca
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OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA
OS FIDALGOS
DA
CASA MOURISCA
CHRONICA DA ALDEIA
POR
*JULIO DINIZ*
*VOLUME I*
*PORTO*
TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31
1871
OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA
I
A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se
remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas.
Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É,
porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz
habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança
os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades
do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos.
Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão
se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na
soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação
extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços
invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
palavra magica.
Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é
propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros
por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já
não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os
descobrir.
Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente
facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria
da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a
lendaria e mysteriosa época dos mouros.
Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos,
que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
Fidalgos da Casa Mourisca.
Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição
pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que
mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a
qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente
respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me
imponham a obrigação de descrevel-a miudamente.
Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á
aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.
Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado
pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.
Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o
velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e
além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da
capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro,
abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita:
e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
serie de melancolicas reflexões.
E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a
familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
primeiros e espontaneos juizos.
Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
Jorge, ainda não completára vinte e tres annos.
A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
os muros de circunscripção das quintas.
Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra
pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte.
Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um
verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse
para morgado.
Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de
mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
o tractavam com uma deferencia excepcional.
Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande
sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não
abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna,
casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa
corte, encarregado de negocios politicos.
Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar
diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
scenas politicas d'essa época.
Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
amarguraram o resto da vida.
Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal.
D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e
irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava.
O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á
perseguição.
O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á
vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais
tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
generosos e juvenis.
Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras
das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão,
não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.
Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle
rancor.
O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi
imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus
perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
emancipação politica.
Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu
porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
inscrever o seu nome.
A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um
golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella
convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.
Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus
despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos
da humanidade.
O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
organisação social.
Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia
ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos
liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli
homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia.
A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a
tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava
assim.
A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio
pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem
aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga
consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a
mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns
remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade,
com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
encarniçára o odio do implacavel realista.
Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima
lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do
combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a
quem tanto queria.
D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria
da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que
a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores
particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra
companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na
Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão
que fallecêra.
Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos
d'aquella familia.
Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia,
cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
os seus caracteres infantis.
Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois
rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão
retirado da provincia, como aquelle era.
Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas
por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano.
A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um
profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia
liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia
guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia.
Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa
prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de
que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
dos mestres.
Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos
seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação
heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.
Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão.
O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles
tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
ultimo suspiro recolhêra.
As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um
encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do
Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra
de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.
As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
de tantos feitos heroicos.
E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
os amarem de reflexão.
Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia.
A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos
sacrificios.
D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel
aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a
procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando
recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um
obstaculo áquella ruina.
O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada
residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.
Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio,
que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que
fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação.
Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é
certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
só.
Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.
Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as
lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe
ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No
fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.
D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não
havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração
d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.
O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos,
queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato
refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com
tanta força sabia odiar.
E não era só o pae que experimentava essa influencia.
Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós
com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender
o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo.
Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o
continham nos desvarios.
Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião.
Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
labios, e prostrou-a exanime no tumulo.
Fez-se então devéras escuro no espirito do pae.
Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão
vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se
assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada
fulmina inesperada cegueira.
Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e
concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos,
das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua
mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem.
Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.
Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi
immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.
O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a
companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
sua antiga côrte.
Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel
enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões
do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.
O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com
impaciencia as horas da comida.
Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na
Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao
fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo
a familia inteira.
D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia
n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano,
satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o
contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
remoques encapotados do procurador.
Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae
procural-a a nossa narração.
Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum
prático.
D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A
nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos
principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados
no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este
territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só
se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!
Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida,
cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.
Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
mais a differença se pronunciava.
Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido.
Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou
pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o
como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca
um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.
As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás
mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
podem vir perigos desconhecidos.
Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu
primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de
galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão
tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.
Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias
tinha uma memoria ingrata.
Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario
tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como
reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente
a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe
haviam imposto como dogmas.
A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam
passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.
Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A
sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente
inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o
espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.
Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição
d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em
Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.
Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já
suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não
passaria ella tambem desapercebida.
Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia
as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.
O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.
Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o
futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria,
o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um
celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras
vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do
palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais
modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o
serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras
para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes
a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa
Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
melancolico.
Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
espirito de Jorge o espectro que o entristecia.
O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma
fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco
tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia
numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.
Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão
pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?
Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito
de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da
propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.
II
Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
de que já fallamos.
Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.
Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.
O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.
E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.
Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
latidos e cabriolas.
Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:
--Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
desespero de te vêr um dia fazer versos.
Jorge respondeu, encolhendo os hombros:
--Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então...
--Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?
Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
Monté sur la montagne en presence des cieux?
E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
cuidados seus.
Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
monte.
Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:
--Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.
E acrescentou, suspirando:
--Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!
Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.
Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:
--Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.
--Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.
--Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.
--Qual era então?
--Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!
--Ora adeus!--exclamou Mauricio--é justamente o que me não roubaria um
momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.
Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:
--Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.
--Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
muito longe.
--Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
prejudica a belleza d'esta paisagem?
--Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
fundo que lhe fazem os castanheiros!
--Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
realidades--observou Jorge, suspirando.
Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
fitou, Jorge correspondeu, dizendo:
--Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
Mauricio?
--Pobreza?!
--Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.
Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.
Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:
--Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia... oh! essa
deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
da opulencia.
--Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
enthusiasmo e de fé no futuro.
Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
erguendo-se e com affectado estouvamento:
--Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é...
é... é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!
--No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!--acudiu Jorge--Mas
antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.
--Não o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.
--O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.
--Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
bom para dissipar visões.
--Não estou hoje para caçar.
--Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?
--Não, vou reatal-o acolá.
--Vaes á Herdade?!
--Vou.
--Fazer o quê?
--Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.
--Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?
--Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.
--Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
vêr-te ao jantar de melhor aspecto.
--Adeus, Mauricio.
E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
Herdade.
III
Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde
desejar-se.
«Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o
homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
alegria.
Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.
Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes
laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo
superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade
toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou
outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição
dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o
Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.
Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua
aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
desalentos.
Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos
trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.
Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;
sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.
Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
eiras e quinteiros da Herdade.
E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo
a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e
da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta
mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.
--Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me
arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça... Ó meu maluco, não
reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo
isso, que eu não quero nada desperdiçado... Está quieto, João, vae para
casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,
menino! Ai que tu... Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles
homens.... Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por
causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje
não posso olhar por isso... Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu
fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
milho que eu te disse; corre... O moleiro já veio? Pois as azenhas já
moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora... Ó Manoel, arreda
esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de
Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;
elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que
podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.
Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para
os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?
Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.
Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.
No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi
Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:
--Ai, ó Thomé, olha quem alli está!
O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do
quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo
espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.
Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A
granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma
lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.
Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em
casa do fidalgo.
Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações
com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de
seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que
houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com
elle.
Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não
voltarem lá.
Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas
possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do
fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
mulher:
--Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de
morrer.
Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o
rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.
--Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas
emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.
Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar, é melhor entrar
lá para dentro.
--Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou
sentado.
--Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda
então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?
--Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta
lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
de cima: por isso desci.
--Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles
meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.
E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com
grandes olhos para Jorge.
--São todos seus?--perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
joelhos.
--E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.
--Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?
--Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e
nada mais.
--Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o
seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.
--Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia--acrescentou olhando para o
sol--d'aqui a nada vae esta gente jantar e... Para onde levas tu esse
carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos... Eu
attendo-o já.
E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e
encaminhou o carro na direcção conveniente.
--Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões
este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge--disse elle,
regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.
Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.
--Como está crescido e fero--dizia ella, olhando-o com curiosidade e
complacencia--e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
ponte do Giestal. Pareceu-me bom.
--E como está seu pae, snr. Jorge?--perguntou Thomé gravemente.
Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia
recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.
Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando
o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos
presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:
--Venham jantar.
Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo
ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.
--São horas do seu jantar, Thomé--disse Jorge, levantando-se para sahir.
--Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde
attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe
offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar
uma volta por os campos emquanto elles jantam...
--Se lhe não causar incommodo...
--Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que
mandei abrir lá em baixo.
E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé
obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.
E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns
pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a
quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na
construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,
onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.
Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando
grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da
categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
lavoura.
E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que
por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;
acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que
Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.
Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas
informações.
Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
exigido para a elevar a esse grau de florescencia.
Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a
melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.
A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a
fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:
--E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de
ortigas e saramagos, Thomé?
Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia
até o fundo do pensamento de uma pessoa.
--Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?--perguntou elle logo depois,
com um tom de voz serio e quasi triste.
--Quero, sim.
--É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o
fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.
Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:
--É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e
porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o
menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de
serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua
que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o
suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem
confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi
está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás
terras--acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a
allusão, que não escapára a Jorge.
--Mas como se explica isto, Thomé?--continuou Jorge com a docilidade de
um discipulo--os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;
passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes
visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa
casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje...
--Isso lá... Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e
não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa
robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,
não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um
certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno
que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?
--Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de
que--proseguiu Jorge pensativo--n'aquelles tempos, as classes
privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado
as condições sociaes, e agora ao acordarem...
Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:
--E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?
Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.
--Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.
--Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
arvores--observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
solar e para os bosques seculares que o rodeavam.
--Talvez deitasse--disse Thomé--póde bem ser que o fizesse, porque lá
amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,
que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes
negras, porque alli passei um tempo... mau era elle de certo... mas
emfim... sempre tinha vinte annos..., eu, que me não atreveria a
deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que
esteve.
Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se
para a Casa Mourisca:
--Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para
vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não
destruir na reforma.
Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com
dignidade:
--Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?
--Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer
um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.
--Senhor Jorge--acudiu Thomé com um ar quasi solemne--resolva-se devéras
a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto
e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os
n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde
chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os
capitaes, chegará o credito.
--É uma esmola que me offerece, Thomé?--perguntou Jorge, mas sem o menor
signal de irritação.
--Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,
menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha
um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se
um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro
que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica
mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem
emprestado?
--Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o
emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.
--Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?...
Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois
se tenho razão no que digo.
E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:
--Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,
que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer
de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos
açudes e o palheirito que fica ao lado?
--Bem sei.
--Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.
--Ainda tenho uma ideia de o vêr.
--Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre
prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,
as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.
--Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.
--A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e
atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das
arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não
houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
Menezes.
--E elle?
--Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as
pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então
o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª
sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora
se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E
você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É
celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro
que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,
ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do
seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me
deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
proximo.»
--Bella alma!--exclamou Jorge commovido pela narração.
Thomé continuou:
--«Em todo o caso--disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor--você fez hoje
um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu
visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
capital e hoje arranjou-o.
--Que queria elle dizer n'isso?
--Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,
mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que
tractar.»
--E que lhe queria elle?--perguntou Jorge, cada vez mais attento.
--No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,
sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a
sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto
de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o
menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de
arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
«Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e
você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e
estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,
disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços
para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,
torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao
desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem
fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
não esfomeassem a terra.
--Mas esse homem era um grande philosopho!--observou Jorge.
--«Vá você para lá--continuou elle--tracte-me bem d'aquillo, e os
capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia
apostar que ambos havemos de lucrar.
--E o Thomé foi?
--Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e
depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava
com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.
Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,
dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a
longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da
mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a
ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não
abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo
quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que
fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto
vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava
em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me
tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me
elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te
chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um
cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que
negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o
caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.
--Mas a final sempre comprou?
--Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era
ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.
doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra
todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que
nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a
isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e
remir a divida.
Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé
da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos
radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.
--Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação
no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma
criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como
um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá
dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!
Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,
que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas
arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final.... quer que lhe
diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!
beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito
trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim
na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e
que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um
cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento
era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.
Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu
pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.
Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:
--Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e
n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.
--Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda
a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o
menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer
missas, porque depois...
--Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque
meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu
pae...
Thomé da Povoa não o deixou concluir.
--Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da
casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto
que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,
eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não
gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os
serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.
Jorge disse finalmente com resolução:
--Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será
impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.
--E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro
escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.
A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
jantar esperava por elle.
Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,
que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter
com o pae.
Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e
realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.
A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
voltou para a eira, cantando.
Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.
IV
Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
capellão-procurador frei Januario dos Anjos.
Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.
Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
para se devassar de prompto.
D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas--a liberdade de
imprensa--; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.
De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
pelo governo, que nunca tinha razão.
Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
que eram fulminados os homens da época.
Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
Os intervallos das refeições eram para elle seculos!
--Humh!--disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
com o que lêra--Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
de estrada de Valle-escuro!
--Fartos sejam elles de estradas!--acudiu logo frei Januario--Para esta
gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.
Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
elle não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom,
acrescentou:
--Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.
E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
jantar.
D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
padre, que entrou indignado.
--Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
errado... Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
não...
D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.
D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
abatêra, resultando muitas victimas.
A indignação do padre exaltou-se.
--Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
os homens da Carta! Isto é bonito!
E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
subsidios e de lhe dar importancia demasiada.
A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.
D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
contrahida synthese:
--Isto vae cada vez melhor, frei Januario.
--Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma--secundou o padre.
--O peior é o futuro--tornou o fidalgo, assombrado.
--Ai, o futuro ha de ser fresco!--repetiu o procurador, fungando uma
pitada.
--Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
torrente.
--E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
por que vão as coisas...
--Ai, pobre Portugal!--exclamou melancolicamente D. Luiz.
--Que vaes á vela--concluiu o padre.--Desde que puzeram a cabeça á roda
a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos
mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
governe... Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
servidos!
O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.
--O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
aos pobres rapazes!--disse o fidalgo, suspirando com escuras
apprehensões sobre a posição precaria da familia.
--Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
homens!--exclamou com vehemencia o padre--É não fazer como a sobrinha de
v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.
--É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
em parte preparado por nós--insistia o fidalgo.--Tambem peccamos.
--Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
dinheiro.
--O Thomé da Herdade!--repetiu D. Luiz com amargura--Esse é que
prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!
--Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
alguem?
--A Bertha?
--Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
para algum dos seus filhos.
D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.
--Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella
tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me
dirá v. exc.ª?
--Todos hoje teem aspirações a subir--reflectiu D. Luiz com ironia.--A
maré sóbe.
--Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido
e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje
todos por lá tem excellencia!
N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as
instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a
ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus
desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
para ir vêr se o jantar estava servido.
Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.
Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.
D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o
capellão.
Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao
sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.
D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.
--Então os senhores não ouviram a sineta?
--Os senhores ainda não vieram.
--Nem Jorge?--perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
Mauricio.
--Nem um, nem outro.
--O snr. D. Mauricio--observou o padre, que temia um adiamento do
jantar--sahiu para a caça; quando virá elle agora?
E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.
--E Jorge?--insistiu o pae.
--O snr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja ahi por alguma parte.
O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar
a jantar sem elles.
O jantar correu em silencio.
O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo
ao dialogo.
Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.
D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.
Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
silencioso.
Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:
--Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
que viu por esses campos?
--Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural--respondeu Jorge.
--Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.
--Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
vejo o movimento dos outros?
A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.
--Causou-me sensação isto hoje--proseguiu Jorge.--Quem subir ao alto do
outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
--Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois
que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
mudaram. Quem não está por o que elles querem...
--Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?
--O que os outros fazem, diz elle! Os outros... os outros... e quem são
os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.
--Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.
--Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
é muito boa!
--E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?
--Á miseria... á miseria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e...
As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
energia e irritação:
--Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
responda, snr. frei Januario.
--Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?
--E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
por ahi se arruinam?
--Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
certa gente!
--O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
diz que eram uns miseraveis?
--Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.
--Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
nos enleia e que nos ha de afogar a todos.
--Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!
--Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
administração?
--Os meus planos?!... Ora essa!... Então que planos quer que sejam os
meus? Systema de administração!... isso é phrase de côrtes... Humh!
tenho entendido... É o que eu digo... Ó snr. Jorge, ora falle-me a
verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
ora diga.
--Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
grandeza do mal que nos opprime.
--E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?
--Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
pelo trabalho honrado.
--Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!
--Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.
--Que vae fazer, snr. Jorge?
--O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.
--Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora... ora... ora... ora
esta não está má!
--Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
que ainda temos, para comprar dois bois.
--Mas...
--Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.
--Mas...
Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
assustado, o chamou.
--Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
que os liberaes...
--Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!... Os liberaes o
que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.
--Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
casa devia ser muito bem servida com ellas?
--Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
administrada não póde pois perder com ellas.
--Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
de gostar--argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
apanhava em falso o seu adversario.
Jorge respondeu serenamente:
--E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
politico.
--Ai... ai... ai... O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!...
Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
illustres do reino... Ai, como elle está!...
--Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
saberá das consequencias d'elle.
E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.
--Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho... já estou de
pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
uma coisa muito appetitosa... Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
deixar de trabalhar... Ah! ah! ah.
Aqui bocejava o egresso.
--Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
estou. Como elle fallou nos morgados!... Provará que é tão pateta que,
sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae... Não
declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
deixem... O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
quem puder deixar de trabalhar...
Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.
Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
angulos da Casa Mourisca.
V
Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.
A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
applicação pratica qualquer.
Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.
Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
consultava.
A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
ao fechar da tarde.
Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.
Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
irmão, interrogou-o:
--Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?
--Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de
raiva?
--Contra quem?
--Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!
--Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.
--É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
sangue nas veias e pundonor no coração.
--E sangue tambem no coração--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem
é lá preciso.
--Não rias, Jorge! Por quem és!--tornou o irmão despeitado.--Bem vês que
fallo seriamente.
--Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.
--Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
de fallar nas dividas da nossa casa?
--Quem as contrahiu e não procura pagal-as--respondeu, triste mas
placidamente, Jorge.
E logo depois acrescentou:
--Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.
--O que foi?
--Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.
--Inevitaveis?! Eu te juro...
--Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
que me fez pensar.
--Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?
--Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.
--Sim, mas de que maneira?
--Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.
--Queres então fazer-te lavrador?
--Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
genealogicas; desengana-te.
--Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?
--Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
desprezar do que nós a elles.
--Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio.
--Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?
--Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que...
--Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
salvar, se quizermos ser homens.
--E como?
--Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.
--Mas...
--D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
certa.
--Mas que entendes tu de administração?
--Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.
Mauricio ficou pensativo.
A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
duração.
Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
uma impetuosidade juvenil:
--Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.
Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
habitual serenidade:
--Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
ficar a montear por estas aldeias.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07
Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
Digital--http://bnd.bn.pt).
OPUSCULOS
*OPUSCULOS*
POR
A. HERCULANO
SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.
*TOMO VII*
*QUESTÕES PUBLICAS*
TOMO IV
1.^a EDIÇÃO
LISBOA
TAVARES CARDOSO & IRMÃO--EDITORES
_5, Largo de Camões, 6
1898
Typ. da Empreza Litteraria e Typographica
Rua de D. Pedro, 184--Porto
ADVERTENCIA
O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
effectuadas segundo a lei de 1846.
Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
prosperidade e força politica.
Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.
1898.
Os editores.
DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA
1843
Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.
D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
isso.
Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
motivo tal foi a architectura sincera.
Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
ou de Tertulliano.
Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
na primeira metade do seculo XVIII.
Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.
O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.
Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
tem procellas.
O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
foi riscado do livro dos eternos destinos.
Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
incontestavelmente sido o nosso principal progresso.
Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
monumentos que significarão o espirito do presente.
Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
e gratidão de nossos filhos!
Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.
A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
o amor do trabalho.
Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.
A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
serão no futuro bençãos da posteridade.
O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?
A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
mais vale, em fructos de verdadeira gloria.
Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
conjuncto--o orgulho tendo por fundamento o nada.
Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.
O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
progressivo pensamento d'este seculo.
Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
hoje.
O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.
Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
se bom ou máu.
Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.
As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
luzerna que não fosse transplantada.
O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.
A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo--o noroeste. Este vento
sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
extensos e bem ordenados viveiros.
Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.
Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
paiz construidos com perfeição.
Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
da sciencia--o alimento para o espirito.
O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
intelligencias que fizeram surgir um e outro.
BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA
1849
Ajuda, 8 de março de 1849
Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.
Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
proveito para o futuro.
O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
da religião.
Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.
Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
insinuar n'estes importantes verdades.
A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.
Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
cereaes.
Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
natureza a supprir a alimentação dos animaes.
Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.
As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
o cultivador fica sempre miseravel.
A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
uma abundancia mais apparente que real.
Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
_d'intensidade_ na agricultura nacional.
Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
diversos modos a nossa situação deploravel.
De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
actividade intellectual e material.
Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.
Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
para resistir ás incertezas das estações?
O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.
Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»
Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.
E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
mais admiravel?
Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
perdição.
Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.
O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
exclusiva.
A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
dos animaes.
Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.
Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
vir.
E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
economicas, os meios de progresso material, as indicações da
experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
nosso dominio.
S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
vão prolongando até a beira do oceano.
Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
tem-n'a ás miserias da terra.
Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
pretensão de justa, e a intenção de progressiva.
E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.
Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
aconteceu assim.
O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
Pinta o paiz.
Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.
Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
grande parte da serra.
Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
que carneiros. O bom Sancho era um typo!
Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
logico.
Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
converter em combustivel.
E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?
No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.
Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
oppõe ao verdadeiro progresso agricola.
Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?
Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.
A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
distribuição e applicação dos maninhos.
A GRANJA DO CALHARIZ
1851
Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
(para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
_rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
gloriosa... mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
teem até certo ponto razão?
D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
escala? Parece-me que sim.
E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
accommodadas sempre a este solo e a este clima?
Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.
Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
_de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.
Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.
PROJECTO DE DECRETO
1851
Senhora!
O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
assim um desenvolvimento vigoroso de população.
Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
propriedade e a familia sejam completamente annulladas.
Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
similhante natureza.
Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
com prudencia.
Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
propriedade sabem inspirar.
Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.
Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
prosperidade do paiz.
Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
progressivo da renda publica.
A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.
Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
que se destina o presente decreto.
Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
esphera separada.
Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?
Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
portanto o desenvolvimento da população.
Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
accessiveis á industria fabril.
A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.
Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.
Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
para o bem commum n'esta parte seria absurdo.
Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
o que se fez n'este projecto de decreto.
É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
suspeitos em demasia de seus adversarios.
Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.
Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
decreto.
Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
Magestade o seguinte:
DECRETO
Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
do presente decreto.
Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
e o emphyteuta.
Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
estipulado por este com o senhorio directo.
Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
condições e com as limitações seguintes:
§ 1.^o--A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.
§ 2.^o--A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
permanentes, para se verificar a exempção concedida.
§ 3.^o--A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
terços forem applicados ao plantio de oliveiras.
§ 4.^o--Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
predio forem applicados á cultura da vinha.
§ 5.^o--Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.
Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.
Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.
§ unico--Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
extensão do terreno emprazado.
Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.
Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
artigo 4.^o.
Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.
Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.
Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
quaesquer outros motivos ou pretextos.
Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
contractos ficarão incorporados no vinculo.
Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.
Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.
Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
successão d'esses bens pelo direito commum.
Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
procurador regio.
Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
por hypothecas.
Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.
O PAIZ E A NAÇÃO
(ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL--«o PAIZ»)
1851
I
Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.
O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
seculo, a fabula e o escarneo das gentes.
Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
ignorantes.
Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
_Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
saudosas por bem diversos monumentos.
Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
_anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?
Sois singularmente esquecidos!
Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
sobre nós, da sentina do absolutismo?
N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
benemerito da monarchia.
Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
tyrannia.
Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.
O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
_ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
antepassados.
Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.
Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.
Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
aos passageiros nús, famélicos, espoliados.
A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
que amaldiçoaes.
Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.
Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
_bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
vão.
Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.
Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
exiguidade.
Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.
Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.
Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
genio do duque de Bragança não os houveram salvado.
Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.
II
Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
da redacção da _Nação_ comnosco.
O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
_Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
_Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
duramente. Foi um proceder ferino.
Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
corrupção e da tyrannia.
No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
_Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
(sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
_Raio_.
Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
gentis façanhas dos defensores do passado!
Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.
III
Os sete seculos
Agora nós.
Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
resignação christã.
Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
apenas por cima da cabeça dos inimigos.
Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
_Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.
Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
taipas e páus podres de que era construida.
Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
convento absurdo de Mafra.
Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.
Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.
Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.
Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
constitucional com que crescera e vigorava o paiz?
Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
que está elevado, para o ar e para o céu.
É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem--falsificaste,
inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
factos,--traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
instituições primitivas?
Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
sociedade politica.
Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.
Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
breve, novas da boa-saude do direito divino.
Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
tranquillamente sobre o paiz.
Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
_nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
_reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
Ide, miseraveis, punir-nos!
Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
_pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.
Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
gargalhadas, o direito dos gemidos.
Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
privados por uma serie de traições cobardes e indignas.
Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
_subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.
Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
e soberanamente ridiculo.
Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?
E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
cabralismo?
Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
incontroverso!
Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
_liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
liberdade a outra de servidão.
A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
conezias, e os beneficios succulentos.
_Sic valeas ut farina es_.
IV
As prestações foraleiras e a fidalguia
Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
as ambições de todos nós.
O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
imprudencia?
Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.
D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
_Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
terrores do absolutismo?
Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?
Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
descamisados.
Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
muito despedaçadas. Pouco deviam valer.
Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
que vos convidâmos a desmentir.
A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.
O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.
Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
illustres suissos d'aquelle tempo.
Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
recordasse a fixidade do feudalismo.
Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
principe.
Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.
Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
_quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
infanteria ligeira, tudo gratuito.
Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
corôa.
Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.
Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
a independencia do paiz.
Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.
Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.
O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
_pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
estado subsequentemente viveu.
Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.
O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
_mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
commendas, prebendas e beneficios.
Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
demagogos e para os pedreiros livres.
E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.
Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
Por isso é impossivel a volta do absolutismo.
E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
principes.
Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
(como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?
Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
_propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
contribuintes.
Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
vossas idéas de justiça politica? Respondei.
Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.
Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.
Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.
V
No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
_Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
uteis para os mortos do que as dos tribunaes.
Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
de accusar o jornal realista.
De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.
Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].
REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO
1854
Senhor.
A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
seus concidadãos.
Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
importantes d'esta representação.
Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
commum.
Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
é n'este caso a igualdade real.
Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
os effeitos da desigualdade das contribuições.
Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
cobravam pela alfandega das Sete Casas.
Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.
No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
que lhes resultam do contacto com a capital_.
Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
administrados a visinhança da capital.
Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
concelho.
Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.
Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
sobra por desvantagens reaes.
A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
impostos extraordinarios.
Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
indirectamente sobre elles.
Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
em que laboram os agricultores do nosso territorio.
A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.
Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
existir para tão flagrante desigualdade.
Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.
Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
constituido municipalmente.
Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
das suas communicações com Lisboa.
A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
Carta constitucional.
Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
_quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.
Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
absolutamente infundada.
E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.
Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
benefica não é possivel desconhecer.
A camara, Senhor, diz--intenção benefica--e dil-o mui de proposito.
Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
ser removidos pelo legislativo.
A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.
Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
da limpeza, a dos vencimentos, etc.?
Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
contribuição.
Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.
Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
justamente lhe pertence.
Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
justiça.
A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
indestructiveis.
A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.
Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
impossiveis.
Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.
Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
havemos mister,--Camara 11 de fevereiro de 1854--O presidente, Alexandre
Herculano--João Ferreira Godinho--João José Teixeira--José Street
d'Arriaga e Cunha--Visconde da Junqueira.
REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO
1854
Senhores deputados da nação portugueza.
A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
tão grave assumpto.
N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.
Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.
Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
geral.
Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
que por certo não serão inuteis na discussão da materia.
A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
cessar.
Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
para tirar todos os pretextos á espoliação.
Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
_direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
todos os economistas desde Adam Smith até hoje.
A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
realisaram.
Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
dos Ministros o seguinte periodo:--«os concelhos novamente creados,
ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
vantagem em relação ao seu estado anterior.»--Examinemos se os factos
condizem com estas affirmativas.
O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.
Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
altamente significativo, observado na historia do rendimento das
Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
preencher os fins a que era destinada.
O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
desfalque.
Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.
Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
tem com elle o fisco ou os seus subrogados.
Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
Ministro que viesse perante o Parlamento dizer--«tenho nas barreiras da
capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
incapacidade dos meus propostos e subordinados»,--o Parlamento
rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
Ministerio.
Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.
Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
immobilisados.
Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
Representantes do paiz.
Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.
Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
favoravel!
A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
remontar ás suas causas.
É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
isto, venhamos aos factos.
Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
dizem que os dous concelhos são obrigados:
«A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»
«A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
addicionaes.»
Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?
Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
dizia assim:
Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
presente anno.
N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
departisse.
Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
portaria:
«Ministerio da Fazenda.--Direcção Geral das Alfandegas.--Sua Magestade a
Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
leis posteriores a similhante respeito.»
O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
_carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!
Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
obrigada a manter?
O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
nacional.
Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
deploraveis.--Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
contacto com a capital.»
Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
_carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
1844.--Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
_preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.
Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
_carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.
Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.
De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
culpados.
A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
as suas palavras textuaes:
«Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
como antes estava...»
Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
que sob o regimen das Sete-Casas.
Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
da monarchia.
Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
elle o imposto excepcional.
N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
sobre o presente assumpto.
E.R.M.
Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
João Ferreira Godinho--José Street d'Arriaga e Cunha--Joaquim Ferreira
Pinto Basto--João José Teixeira Leal--Mathias Antonio Vieira.
PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS
1855
Senhor.
A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
as suas varias disposições.
Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
absolutamente consideradas.
A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.
Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
d'este genero caracterisam-se assim.
O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
cada alqueire de trigo.
Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.
Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
preoccupação dos agricultores.
Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.
Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
instituições de credito agricola não vão além da propriedade
territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.
Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.
As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.
Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
para o seu dinheiro um preço mais subido?
Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
credito, desacreditados ainda antes de emittidos.
Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
agricultores.
Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.
Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
tróca.
Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
suas relações com a Caixa.
A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
emprestimo.
Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
trazer a ruina da mesma Caixa.
Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
constituir.
Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
que o fundo augmentar.
A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
da sua renda liquida:
+----------+--------+---------+---------+----------+----------+----------+
| |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
|FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
| |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
|----------+--------+---------+---------+----------+----------+----------|
|Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | -- | 2 |
| | | | | | | |
|Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
| | | | | | | |
|S. Pedro | | | | | | |
|d' | | | | | | |
|Alcantara | -- | 2 | 11 | 10 | 3 | -- |
| | | | | | | |
|Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
| | | | | | | |
|S. | | | | | | |
|Sebastião | | | | | | |
|da | | | | | | |
|Pedreira | -- | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
| | | | | | | |
|Carnide | -- | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
| | | | | | | |
|Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
| |--------+---------+---------+----------+----------+----------|
|7 | | | | | | |
|Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
+----------+--------+---------+---------+----------+----------+----------+
Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
ser de 57:175$000 reis.
Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
instituição. Eis o mappa:
+------------+-------+------+------+------+------+------+-------+-------+
| FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
|------------+-------+------+------+------+------+------+-------+-------+
|Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | -- | 1 | -- | -- |
| | | | | | | | | |
|Ajuda | 19 | 19 | 67 | -- | -- | 1 | -- | -- |
| | | | | | | | | |
|S. Pedro | | | | | | | | |
|d'Alcantara | 13 | 6 | -- | 2 | 1 | -- | 1 | -- |
| | | | | | | | | |
|Bemfica | 89 | 61 | 219 | -- | 25 | -- | 3 | -- |
| | | | | | | | | |
|Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | -- |
| | | | | | | | | |
|Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
| | | | | | | | | |
|S. Sebastião| | | | | | | | |
|da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | -- | 3 | -- |
| |-------+------+------+------+------+------+-------+-------|
| | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
+------------+-------+------+------+------+------+------+-------+-------+
As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
de 35:000$000 reis.
O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.
Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.
A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
instituição, cuja utilidade é inquestionavel.
Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
mister.--Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.
O Presidente--_Alexandre Herculano_.
_Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.
_João José Teixeira Leal_.
_Matheus Antonio Vieira_.
_José Street d'Arriaga e Cunha_.
CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS
Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.
Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.
§ unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.
Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
d'entre si.
Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
emprestimos annuaes aos cultivadores.
Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.
Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.
§ 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
pomares.
§ 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
d'esse grangeio em cada uma d'ellas.
Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
que corresponde a quota do tributo directo.
Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.
Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.
Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.
Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
data da transacção.
§ 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
artigo, será lançada n'uma folha separadamente.
§ 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
publica de divida.
§ 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
concelho.
§ 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
substituirá sempre o nome do mutuario.
Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.
Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
pelos impostos devidos.
Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.
§ 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
capital e juro.
§ 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
que venha denuncial-o á direcção da Caixa.
§ 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.
§ 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.
Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.
Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
o emprestimo ao respectivo cultivador.
Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
razão ascendente da menor renda liquida para a maior.
Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
havida da Caixa de Soccorros Agricolas.
Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.
§ 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
no prazo prefixo.
§ 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
novos emprestimos.
§ 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.
§ 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.
Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
emprestimo dentro das seguintes limitações:
1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
emprestimo.
2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
para o pagamento do juro.
3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
Administrativo.
Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
responsabilidade á direcção.
Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
da mesma camara.
Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
para isso proposta da direcção.
Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.
Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.
§ _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
encorporado.
Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
Conselho de Districto.
Camara de Belem, 27 de março de 1855.
_Alexandre Herculano_.
SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES
1858
Meu amigo.--Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.
A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
pouco vulgar.
Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
pagava. As gerações são solidarias.
Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.
É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?
Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
acceitar a doutrina da correspondencia.
Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.
Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.
Julho, 10 de 1858.
_A. Herculano_.
FIM DO VOLUME VII.
NOTAS
[1] O novo artigo não veio a publico.
_Nota dos editores_.
[2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
mez.
_Nota dos editores_.
INDICE
Advertencia
Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra
Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola
A Granja do Calhariz
Projecto de decreto
_O Paiz e A Nação_
Representação da Camara Municipal de Belem ao governo
Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento
Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas
Sobre a questão dos foraes
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Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05
Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha
OPUSCULOS V
*OPUSCULOS*
POR
A. HERCULANO
SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.
*TOMO V*
CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS
TOMO II
LISBOA
VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a
73, Chiado, 75
M DCCC LXXX VI
COIMBRA--IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
AO
ILL-^{MO} E EX.^{MO} SENHOR CONSELHEIRO
ANTONIO DE SERPA PIMENTEL
DEDICAM
OS EDITORES
Compõe-se este volume de tres escriptos já impressos em outras épochas,
mas provavemente desconhecidos da maior parte dos leitores actuaes, e
bem assim de um notavel estudo inedito ácerca do Feudalismo, que o
auctor não chegou a concluir, e em que trabalhava quando a morte o
surprehendeu.
Pouco diremos a respeito d'aquellas primeiras composições.
As noticias da vida e obras de alguns historiadores portuguezes são
extrahidas do _Panorama_. Destinadas, apenas, a satisfazer a curiosidade
dos leitores habituaes d'este genero de publicações, nas quaes a
variedade e a concisão são requisitos essenciaes, essas noticias não
teem todo o desenvolvimento que o auctor hoje lhes daria, se houvesse de
aproveital-as para algum d'estes volumes; mas, apezar d'isso, cremos que
o leitor folgará de as encontrar aqui reunidas, não só pelo seu
indisputavel merecimento, mas tambem por serem invocadas em todos os
artigos do _Diccionario bibliographico_, onde coube ao laborioso
Innocencio da Silva tractar dos escriptores a que ellas dizem respeito.
As _Cartas sobre a historia de Portugal_ sairam á luz nos tomos 1.^o e
2.^o da _Revista universal lisbonense_, precedidas das seguintes
palavras do illustre redactor d'este semanario: «Temos em nosso poder a
preciosa serie de cartas, cuja primeira publicamos hoje. N'ellas
descobre o nosso infatigavel e eloquentissimo antiquario, o sr.
Alexandre Herculano, um grande numero de importantes verdades ácerca dos
principios de Portugal--da constituição, natureza e relações mutuas das
classes, n'esses tempos tão obscuros e tão pouco averiguados. N'estes
escriptos, que não são mais do que o preludio de uma obra, que sem falta
sairá cabal, sobre a materia, faz o sr. Herculano á sua pátria, e
geralmente á sciencia, um presente de altissima valia, de que a _Revista
universal_ devidamente aprecia a honra de ser mensageira.» Com effeito,
estas cartas, publicadas em dezeseis numeros d'este semanario, desde 7
de abril de 1842 até 3 de novembro do mesmo anno, foram então
interrompidas, porque o auctor, conscio já das proprias forças, dedicou
d'ahi em deante todos os cuidados ao immenso valor da obra monumental,
que lhe havia de conquistar o primeiro logar entre os historiadores do
seu paiz.
O terceiro dos opusculos agora reunidos, isto é, a carta em defeza de
algumas asserções do primeiro volume da _Historia de Portugal_,
appareceu, tambem, na _Revista universal_. O auctor mantem e defende as
suas idéas, combatendo um artigo de critica publicado em 2 de abril de
1846, e firmado com as iniciaes D. S. M. de Vilhena Saldanha, que
suppômos serem a assignatura do respeitavel ancião D. Sancho Manuel,
fallecido em 30 de maio de 1880. Como esta carta não trazia titulo, e
nós tinhamos de lhe dar algum, pareceu-nos conveniente alludir á pessoa
que escreveu o artigo a que ella responde: tanto mais que a cortezia de
ambas as composições tornava desnecessario qualquer resguardo.
Até aqui falámos de trabalhos que já tinham visto a luz publica, e a
respeito dos quaes é sufficiente o que fica dicto. Agora, porém,
chegados á parte inedita e mais valiosa do presente volume, procuraremos
satisfazer a justa curiosidade do leitor, descrevendo minuciosamente o
manuscripto, e declarando o systema que seguimos ao dal-o à estampa.
O luminoso estudo ácerca da existencia ou não existencia do feudalismo
em Portugal compõe-se (no estado em que chegou ás nossas mãos) de oito
capitulos completos e um apenas começado, além de algumas folhas
avulsas, de que adeante nos occuparemos.
Os primeiros seis, que neste livros abrangem as paginas 193 a 242, foram
escriptos em 1875, isto é, dois annos depois da publicação do _Ensaio
sobre la historia de la propriedad territorial en España_, como o auctor
declara, e chegaram a estar no escriptorio da _Revista occidental_, onde
todavia não poderam sair impressos, por ter acabado esta _Revista_ em
julho do mesmo anno. Acham-se lançados em meias folhas de papel almaço,
escriptas de um só lado, e promptos para a imprensa, não offerecendo,
por isso, difficuldade alguma de leitura. O grande escriptor calculava
n'esse tempo ser esta a terça parte do que lhe seria necessario dizer em
relação a tão interessante e debatido ponto historico.
Ou por essa occasião ou pouco tempo depois, accrescentou os capitulos
VII e VIII, não já em meias folhas, mas em oitavos do mesmo papel,
formato que lhe permittia, não só intercalar quaesquer novas provas ou
argumentos, que lhe fossem occorrendo, mas ainda dar diversa collocação
aos paragraphos, se de futuro a deducção das idéas e a harmonia da
composição o exigissem.
Incommodos de saude mais ou menos graves, trabalhos litterarios de outra
indole, e varios negocios domesticos, impediram então o auctor de
proseguir n'este importante assumpto, e foram causa de não possuirmos
hoje completo mais um livro serio, coisa de extrema raridade nos tempos
que vão correndo.
Quando, d'ahi a muitos mezes, recuperada a saude e dispondo do tempo
necessario, pôde dedicar-se de novo ao exame da obra do sr. Cárdenas,
tudo nos persuade de que trazia profundamente alterado o plano primitivo
do seu trabalho. Achou-se, sem duvida, apertado e tolhido nos estreitos
limites em que a principio o circumscrevera, e resolveu abrir mais largo
campo, onde podesse desenvolver a grande copia de noticias que
enthezourara, e que directa ou indirectamente se prendian com o assumpto
em discussão.
Foi este, a nosso, ver, o motivo por que, voltando atraz, tomou nota de
numerosas proposições do _Ensayo_, transcrevendo as passsagens
respectivas em meias folhas de papel de pequeno formato, e pondo no alto
da primeira a cota: «_IV_ (_Continuação_)». O leitor encontrará este
additamento desde paginas 242 até o fim do capitulo.
Resolvido, pois, a dar maior amplidão ao seu trabalho, tractou o auctor
de reconstruir os capitulos VII e VIII, que hoje apresentam em mais de
um logar graves difficuldades de leitura, por causa das transposições,
emendas, entrelinhas e accrescentamentos, de que estão cheios os
respectivos borrões.
Apezar d'isso, o capitulo VII--o magistral estudo do _Codigo
wisigothico_--póde considerar-se completamente organisado, tanto na
doutrina como na forma, embora deixe vêr, aqui ou alli, «as arestas
vivas do cunho», porque o auctor não chegou a pôr-lhe a ultima lima.
Não acontece, porém, outro tanto com o VIII, destinado ao estudo do
_Direito consuetudinario_. Este capitulo compõe-se de 32 oitavos de
papel, que a principio tinham tido outra ordem, e cuja disposição
definitiva não ficou claramente marcada senão até o 17, isto é, até
paginas 283 d'este livro. D'ahi em deante os embaraços crescem, porque
alguns d'esses oitavos não teem numeração antiga nem moderna, e,
formando sentido completo, sem dependencia de outros anteriores ou
posteriores, tornam sobremodo difficil acertar com o seu verdadeiro
logar: quer-nos parecer, porém, que não contrariámos demasiado a
intenção do auctor, dando-lhes a ordem em que vão impressos.
Além dos já referidos, encontrámos uma serie de oitavos numerados de 1
até 10, mas sem designação do capitulo a que eram destinados. O ultimo
d'elles está acabar, o que indica que foi ahi que se interrompeu o
trabalho do insigne escriptor. Por esta circumstancia, e tambem por ser
a materia de que ia tractar (a divisão da propriedade territorial) a que
justamente se devia esperar, na ordem dos apontamentos que tomara do
livro do sr. Cárdenas, não tivemos duvida em os considerar como
principio do capitulo IX, marcando, comtudo, entre paretheses este
numero de ordem.
Restavam ainda duas folhas da primeira composição, que não tinham sido
aproveitadas, nem podiamos introduzir no texto, embora se conheça que
deviam fazer do capitulo que ficou por acabar. São, porém, tão
importantes, e formam por si sós um corpo de doutrina tão perfeito, que
julgamos prestar um serviço, formando com ellas o Esclarecemento A, no
fim do volume.
No mesmo caso está uma nota relativa á intelligencia que se deve dar á
palavra _Feudo_, nas raras vezes que apparece nos documentos d'aquella
edade. Esta nota estava lançada tambem em folhas inteiras, e tanto pode
servir de elucidação ao que se diz na Carta 3.^a sobre a Historia de
Portugal (pag. 79), como de prova da affirmativa do auctor a pag. 199,
onde fizemos a competente chamada. Constitue o Esclarecimento B.
Resumindo: os primeiros seis capitulos estavam promptos para serem
impressos, segundo o plano primitivo; a continuação do VI, o VII e o
VIII, conservavam-se no primeiro borrão, e portanto dependentes de
ulteriores modificações, tanto na sua disposição geral, como no estylo,
que não tinha recebido ainda as ultimas correcções; o que reputamos IX
ficou apenas principiado; e as folhas avulsas, que aproveitámos para
Esclarecimento, esperavam o seu futuro destino.
Se attendermos, agora, ás doutrinas contidas nos extractos do livro do
sr. Cárdenas, com que o auctor ampliou o capitulo VI do seu trabalho,
reconheceremos que elle se propunha estudar detidamente a divisão da
propriedade territorial, as relações das diversas classes entre si, o
serviço militar, a administração da justiça, o poder central e seus
representantes locaes; a organisação social, em summa, do nosso paíz
n'aquellas épochas remotas. Já não era, pois, um simples opusculo que
tinhamos a esperar da sua penna auctorisada: era um livro precioso, que
viria supprir, em grande parte, o V volume da _Historia de Portugal_, se
não no desenvolvimento e discussão erudita de todos os pontos
controvertidos ou ignorados, com certeza nos resultados finaes a que
chegara o seu longo estudo e admiravel lucidez de espirito.
Entre Fernão Lopes e fr. Antonio Brandão mediaram dois seculos. Entre o
douto cisterciense e o auctor d'este livro outros dois, e bem medidos.
Oxalá que, d'esta vez, seja mais curto o prazo, em que tenha de
apparecer o continuador idoneo dos trabalhos, que Alexandre Herculano
deixou interrompidos.
(1881).
_Os editores_.
HISTORIADORES PORTUGUEZES
1839--1840
I
*Fernão Lopes*
Tão raros ou tão pouco lido andam os antigos escriptores portuguezes,
que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de
nome os conhecem, e frequentes vezes nem de nome. Grave mal, por certo,
e mui de lamentar é tal e tão ingrato desamor áquelles que assim lidaram
em suas doutas vigilias ou para nos transmittirem as heroicas façanhas
de nossos antepassados, ou para nos doutrinarem com virtuosos conselhos,
ou para nos consolarem com um brado de poesia de mais singelas eras, ou,
finalmente, para nos herdarem sua sciencia; que muita e boa a tiveram.
Assustam os livros pesados e volumosos do tempo passado as almas debeis
da geração presente: a aspereza e severidade do estylo e linguagem de
nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao
polido e suave dos livros francezes. Sabemos assim quaes são os
documentos em que estribam glorias alheias: ignoramos quaes sejam os da
propria, ou, se os conhecemos, é porque estranhos nol-os apontam,
viciando-os quasi sempre. Symptoma terrivel da decadencia de uma nação é
este; porque o é da decadencia da nacionalidade, a peior de todas;
porque tal symptoma só apparece no corpo social quando este está a ponto
de dissolver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel
dos brutos. Desenterra a Allemanha do pó dos cartorios e bibliothecas
seus velhos chronicons, seus poemas dos Nibelungos e Minnesingers; os
escriptores encarnam na poesia, no drama e na novella actual as
tradições populares, as antigas glorias germanicas, e os costumes e
opiniões que foram: o mesmo fazem a Inglaterra de hoje á velha
Inglaterra, e a França de hoje á velha França: os povos do Norte saúdam
o Edda e os Sagas da Irlanda, e interrogam com religioso respeito as
pedras runicas, cobertas de musgos e sumidas no amago das selvas: todas
as nações, emfim, querem alimentar-se e viver da propria substancia. E
nós? Reimprimimos os nossos chronistas? Publicamos os nossos numerosos
ineditos? Revolvemos os archivos? Estudamos os monumentos, as leis, os
usos, as crenças, os livros, herdados de avoengos?
Não.--Vamos todos os dias ás lojas dos livreiros saber se chegou alguma
nova semsaboria de Paul de Kock; alguma exaggeração novelleira do
pseudonymo Michel Massan; algum libello antisocial de Lamennais. Depois,
corremos a derrubar monumentos, a converter em latrinas[1] ou tabernas
os logares consagrados pela historia ou pela religião...
E, depois, se vos perguntarem: de que nação sois? respondereis:
Portuguezes!
Callae-vos; que mentis desfaçadamente.
Mas nós faremos lembrada, ao menos aqui, a nossa gloria litteraria.
Como o pae da historia nacional, como o velho Fernão Lopes, começámos a
escrever as memorias que d'elle restam moralisando primeiro, do mesmo
modo que elle moralisava antes de entrar na materia. Não se nos leve a
mal um defeito, se o é, em que já caiu o nosso principal chronista,
quando é d'elle que devemos fallar.
Escassas são as noticias que chegaram até nós ácerca de Fernão Lopes. A
epocha do seu nascimento ignora-se; mas parece que devia ser na da
gloriosa revolução de 1380, ou alguns annos antes. O abbade Barbosa e
outros dizem que fôra secretario d'el-rei D. Duarte, quando infante, e
de seu irmão D. Fernando, e cavalleiro da casa do infante D. Henrique.
Em 1418 foi encarregado por D. João I da guarda do real archivo, cargo
que até então andava unido a um emprego da fazenda publica.
Por trinta e seis annos serviu Fernão Lopes de guarda dos archivos, e de
todo este tempo existem varias certidões, passadas por elle, _das
escripturas da torre do castello da cidade de Lisboa_. Depois de tão
largo periodo foi substituido por Gomes Eannes de Azurara, que D.
Affonso V nomeou em logar de Fernão Lopes, _por este ser já tam velho e
flaco, que per sy non podia bem servir o dicto officio_, dando-o a
outrem _por seu prazimento e por fazer a elle mercê, como é rezom de se
dar aos boõs servidores_, segundo diz a carta de nomeação de Azurara. A
epocha da morte do chronista ignora-se absolutamente; mas sabe-se que
ainda vivia em 1459, cinco annos depois de ter sido exonerado do cargo
de guarda do archivo.
Quando D. Duarte subiu ao throno (1434) deu _carrego a Fernão Lopes, seu
escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys, que antygamente em
Portugal forom; e esso mesmo os grandes feytos e altos do muy vertuoso e
de grandes vertudes El-Rey seu senhor e padre_ (D. João I), dando-lhe
por isto quatorze mil libras cada anno, mercê que foi confirmada em nome
do moço principe, por influencia do infante D. Pedro, tão sabio quanto
infeliz, pae e protector das letras.
Foi, com effeito, Fernão Lopes o primeiro que poz em _caronyca_, isto é,
em ordem, as _estorias_ da primeira dynastia dos reis portuguezes, e fez
a bella Chronica de D. João I. Até ahi havia apenas algumas memorias
espalhadas, alguns breves compendios dos successos publicos. N'este
numero deve entrar um manuscripto que existia em Sancta Cruz de Coimbra,
feito, segundo parece, nos fins do seculo XIV, em que mui de leve se
mencionam os acontecimentos mais notaveis dos tres primeiros reinados, e
d'elle talvez se houvessem de contar as antigas chronicas, que Duarte
Nunes reformou, ou estragou, e que muito desconfiamos sejam as mesmas
que _colligiu_ Acenheiro no principio do seculo XVI, e que serviram de
fundamento a Ruy de Pina e Galvão: sobre tudo o que pesam ainda muitas
sombras, ao menos para nós, parecendo-nos, todavia, indubitavel que
alguma cousa havia escripta antes de Fernão Lopes; porque a alguma cousa
eram essas _estorias_ dos antigos reis, mencionadas na carta de nomeação
de Fernão Lopes, e que n'esse documento se distinguem claramente dos
_feitos_ de D. João I.
De quanto Fernão Lopes escreveu, o que hoje existe conhecido e impresso
é a Chronica de D. Pedro I, a de D. Fernando e a D. João I. Comtudo, por
averiguado se tem que elle escrevera as dos outros reis anteriores, e
até Damião de Goes lhe attribue uma de D. Duarte. Seja o que for, é
certo que para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos as tres
chronicas que d'elle existem.
O nosso celebre critico Francisco Dias, o homem, talvez, de mais apurado
engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores,
diz que Fernão Lopes fôra o primeiro, na moderna Europa, que dignamente
escrevera a historia: com razão o diz, e poderia accrescentar que poucos
homens teem _nascido_ historiadores como Fernão Lopes. Se em tempos mais
modernos e mais civilisados houvera vivido e escripto, não teriamos por
certo que invejar ás outras nações nenhum dos seus historiadores. Além
do primor com que trabalhou sempre por apurar os successos politicos,
Lopes adivinhou os principios da moderna historia: a _vida_ dos tempos
de que escreveu transmittiu-a á posteridade, e não, como outros fizeram,
sómente um esqueleto de successos politicos e de nomes celebres. Nas
chronicas de Fernão Lopes não ha só historia: ha poesia e drama: ha a
edade media com sua fé, seu enthusiasmo, seu amor de gloria. N'isto se
parece com o quasi contemporaneo chronista francez Froissart; mas em
todos esses dotes lhe leva conhecida vantagem. Com isto, e com chamar a
Fernão Lopes o Homero da grande epopea das glorias portuguezas, teremos
feito a tão illustre varão o mais cabal elogio.
II
*Gomes Eannes de Azurara*
A Fernão Lopes succedeu no cargo de guarda dos archivos Gomes Eannes de
Azurara, como dissemos no primeiro artigo, com o consentimento d'elle,
que por velho e doente de boa vontade resignou o emprego, que tão
dignamente servira. Foi Gomes Eannes filho de João Eannes de Zurara ou
de Azurara, conego de Evora e de Coimbra. Entrou, sendo mancebo, na
ordem de cavalleria de Christo, onde chegou a ter o grau de commendador
de Alcains, a qual commenda possuia em 1454, e que depois trocou pelas
do Pinheiro-grande e da Granja de Ulmeiro, que achamos serem suas pelos
annos de 1459.
Parece que durante a sua mocidade Gomes Eannes, segundo o costume dos
cavalheiros d'aquelles tempos, se occupou inteiramente no exercicio das
armas, sem curar de instruir-se nas boas letras. Verdade é que o abbade
Barbosa o faz erudito na historia desde mancebo; mas o mestre Matheus de
Pisano, seu contemporaneo, preceptor de D. Affonso V e auctor de uma
chronica da conquista de Ceuta, escripta em latim, diz que, sendo já de
idade madura, se applicàra ao estudo, mas que até então fôra
inteiramente hospede em litteratura.
Foi depois d'esta epocha que Gomes Eannes entrou no serviço d'el-rei D.
Affonso V, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de
sua nomeação, passada a 6 de Junho de 1454; como bibliothecario da
livraria real fundada por aquelle monarcha, do que nos informa mestre
Matheus na obra citada; e como encarregado de escrever varias chronicas
das cousas portuguezas, conforme o diz o proprio Azurara no capitulo II
da Chronica do conde D. Pedro de Menezes.
Documentos d'aquelle tempo provam D. Affonso V fizera grande estimação
de Gomes Eannes. Morava este em umas casas d'el-rei á porta do paço de
Lisboa; tinha uma tença de doze mil reaes brancos; e fez-se-lhe mercê,
em 1467, de uma capella que vagara para a corôa, graça esta que, como
observa o abbade Corrêa da Serra, era n'aquelles tempos assaz
extraordinaria. Doou-lhe, tambem, el-rei umas casas em Lisboa, do que se
acha memoria no livro 3.^o dos Misticos. Antes d'isto, porém, Gomes
Eannes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos.
Ácerca d'este chronista se conserva ainda uma lembrança curiosa no
Archivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma pelliteira viuva e rica, chamada
Joanna Eannes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O já
citado abbade Corrêa nota, com razão, que tal adopção de um homem
nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavalleiro, feita por uma
plebea, era inteiramente opposta ás idêas do seculo XV, devendo-se por
isso suspeitar que Azurara foi d'aquellas pessoas, para quem o respeito
ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.
São incertissimas todas as datas relativas á vida de Gomes Eannes:
apenas se póde dizer que vivera pelo meado do seculo XV. A maior parte
das memorias que d'elle fallam não mencionam nem a epocha do seu
nascimento, nem a da sua morte. Algumas ha que dizem fôra nomeado
chronista em 1459: ignoramos se existe ainda a carta de tal nomeação;
mas d'isso duvidamos. O que se póde affirmar é que Azurara acabou uma
das suas chronicas (a do conde D. Pedro) em 1463, porque elle proprio o
diz. Antes d'esta compozera a da tomada de Ceuta, que serve de terceira
parte á de D. João I escripta pelo immortal Fernão Lopes; e depois
d'ella a de D. Duarte de Menezes. Estas são as tres obras, que com
certeza se podem attribuir a Azurara. Quer, todavia, Damião de Goes que
na Chronica d'el-rei D. Duarte, attribuida vulgarmente a Ruy de Pina, e
cuja melhor parte elle julga de Fernão Lopes, houvesse tambem alguma
cousa de Gomes Eannes.
Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus
contemporaneos, parece que o seu immediato successor lhe levou n'isso
conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em merito.
Azurara, tendo de escrever sobre cousas de Africa, passou áquellas
partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os logares e
circumstancias das façanhas que tinha de narrar. Estando alli, recebeu a
celebre carta de D. Affonso V, que anda impressa no principio da
Chronica de D. Duarte de Menezes. Este documento prova quão bella era a
alma d'aquelle monarcha, a quem podemos sem receio chamar o ultimo rei
cavalheiro, e cuja honrada memoria teem pretendido escurecer aquelles
que só em seu filho encontram um grande homem. Vê-se nesta carta que D.
Affonso entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o engenho um
throno. De irmão para irmão não houvera mais affavel e affectuosa
linguagem, e mais generosas animações e mercês. Bem nos pêsa que não
seja possivel, pela extensão d'esse documento, o lançal-o n'este logar;
não para exemplo de reis, mas de quem mais do que elles carece de tão
formosa lição, neste seculo que se diz allumiado, e em que ha homens que
em nome da patria votam miseria e fome para àquelles que mais bem
merécem.
Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves
palavras o que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano
Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre um
auctor de chronicas e um poeta dramatico. E todavia muito ha em um que
do outro se possa dizer: ambos chegaram á idade viril sem possuirem os
rudimentos sequer das boas letras: nos escriptos de ambos apparece o
resultado d'esta falta de educação litteraria: ha em um e outro certa
inflexibilidade feroz e ausencia inteira d'aquellas graças de estylo que
nascem do coração amaciado desde a infancia pela cultivação do espirito:
as concepções nascem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de
Jupiter, cubertas, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em
Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que lança em
rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos que tiveram, os
erros e culpas em que cairam: n'isto se parece tambem, de certo modo,
com Alfieri. Mas nós preferimos o systema de Froissant e Fernão Lopes:
para cada um dos seus heroes havia n'estas almas generosas um typo ideal
a que procuravam assemelhal-os, engrandecendo-os: e por ventura que mais
proficua é assim a historia ao genero humano. Para acabarmos um
parallelo, que poderiamos levar mais longe, notaremos a tendencia dos
dois escriptores, que collocámos em frente um do outro, para
_philosophar trivialidades_, e ostentar elegancias rhetoricas e
erudições suadas para elles, impertinentes para os leitores. Move a riso
ver o pobre Azurara a lidar em pôr claro como a luz do dia, com a
auctoridade de S. Jeronymo, Sallustio, Fulgencio, e _casy todolos outros
auctores_, que são temiveis as más linguas, como causa somno o observar
os tractos que o illustre dramaturgo italiano dá ao juizo para nos fazer
odiar a tyrannia, ácerca da qual escreveu um volume, cousa muito
escusada na moderna litteratura. Todavia, em ambos elles a sinceridade
das intenções suppre de algum modo a aridez e o vazio da obra.
Posto, porém, que Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não
deixou de fazer com seus escriptos bom serviço à litteratura patria.
João de Barros o tinha em subida conta, e até no estylo d'elle se
comprazia. Não assim Damião de Goes, que foi o primeiro em notar-lhe as
affectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Goes era melhor juiz;
e a posteridade, confirmando a sentença do perspicaz chronista de D.
Manuel, rejeitou o parecer do historiador da India.
III
*Vasco Fernandes de Lucena--Ruy de Pina*
O nome de Lucena parece vir pouco a ponto em uma noticia dos
historiadores portuguezes, porque d'elle não resta uma só pagina
_original_ sobre historia; mas julgamos dever fazer menção de Vasco
Fernandes, não só por ter sido um dos homens mais celebres do seu tempo,
como tambem, e principalmente, por ser d'entre elles o primeiro que,
depois de Azurara, teve o cargo de chronista-mór. Encarregado de varias
missões politicas nos reinados de D. Duarte, D. Affonso V e D. João II,
e vivendo, por tal motivo, a maior parte da vida em paizes extranhos,
occupado, além d'isso, quando residíu no reino, em grandes negocios
d'estado, não pôde provavelmente occupar-se dos estudos historicos
necessarios para poder desempenhar as obrigações do seu cargo, do qual
fez desistencia em Ruy de Pina no anno de 1497.
Escreveu, todavia, Vasco de Lucena varias obras que, ou se perderam, ou
jazem manuscriptas em parte que se não sabe. Da _Instrucção para
Principes_, de Paulo Vergerio, traduzida por elle de ordem do infante D.
Pedro e que Barbosa diz existir na bibliotheca real, não achámos o menor
vestigio, apesar de consultarmos um catalogo anterior, segundo nos
parece, a 1807. Das outras obras suas, de que faz menção Barbosa, tambem
nenhum rasto encontramos, ao passo que existe uma, que não duvidamos de
lhe attribuir, e que o nosso illustre bibliographo não conheceu. É esta
uma traducção franceza de Quinto Curcio, feita no anno de 1468, a qual
pertenceu a Philippe de Cluys, commendador da ordem de S. João de
Jerusalem, e que actualmente se guarda entre os manuscriptos do Museu
britannico.[2]
* * * * *
Ruy de Pina succedeu, como dissemos, a Vasco Fernandes, em 1497, no
cargo de chronista-mór, postoque muito antes exercitasse o officio de
historiador. Dos primeiros annos de Ruy de Pina apenas se sabe que foi
natural da Guarda, mas ignora-se o anno do seu nascimento, ainda que
haja algumas suspeitas de fosse pelos annos de 1440. Em 1482 diz elle
que fôra por secretario da embaixada mandada por D. João II a Castella,
e o mesmo cargo serviu d'ahi a dous annos na embaixada de Roma. Parece
que, voltando de desempenhar esta commissão, o encarregou el-rei de
escrever as chronicas do reino, apesar de então ser chronista-mór
Lucena, o que se deprehende de uma provisão de D. João II, em que lhe
manda dar uma tença de nove mil e seiscentos réis «esguardando ao
trabalho e á occupação grande que Ruy de Pina escripvão da nossa camara
tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos
famosos _asy nossos_ como de nossos regnos que _em nossos dias são
passados_, e ao diante se fizerem[3].» Em outra provisão lhe concede
tambem seis mil réis de mantimento.
Depois d'esta epocha ainda Ruy de Pina serviu em outra embaixada a
Castella e andou envolvido nos difficeis negocios publicos d'aquelle
tempo, até que, succedendo na corôa D. Manuel, não só lhe confirmou as
mercês do seu antecessor, mas fez-lhe outras novas, dando-lhe finalmente
o cargo de chronista-mór, e guarda-mór da Torre do Tombo e da livraria
real.
Em 1504 tinha Ruy de Pina concluido os seus trabalhos historicos, porque
n'esse anno recebeu de D. Manuel uma nova tença de trinta mil réis pelas
chronicas de D. Affonso V e de D. João II, accrescentando a esta somma
cinco moios de trigo em Ceuta e um cazal d'el-rei no termo da Guarda.
«Cheio de honras e de recompensas, diz o abbade Corrêa, que para aquelle
tempo eram grandes, viveu Ruy de Pina todo o reinado de el-rei D.
Manuel, alcançando ainda alguns annos do d'el-rei D. João III, que lhe
encommendou a chronica de seu pae, que deixou adiantada até a tomada de
Azamor, e de que Damião de Goes confessa ter-se servido para a
composição da sua.»
É Ruy de Pina de todos os nossos antigos chronistas o de que nos restam
maior numero de chronicas. Escreveu elle a de D. Sancho I, D. Affonso
II, D. Sancho II, D. Affonso III, D. Diniz, D. Affonso IV, D. Duarte, D.
Affonso V e D. João II. As duas ultimas são sem duvida escriptas
originalmente por elle. Na de D. Duarte, segundo parece a Damião de
Goes, o substancial da historia é de Fernão Lopes; o que é relativo á
expedição de Tangere, de Gomes Eannes de Azurara; e de Ruy de Pina
apenas a coordenação d'esses diversos trabalhos. Quanto ás da primeira
dynastia, quer o mesmo Goes (e esta opinião prevalece hoje) que não
sejam mais que uma recopilação ou resumo do primeiro volume das
chronicas de Fernão Lopes, que existia em poder de um tal Fernão de
Novaes, e que D. João II mandou fosse entregue a Ruy de Pina. Impossivel
parece hoje averiguar até a certeza esta opinião; porque esse volume de
Lopes ou se perdeu, ou foi aniquilado por Pina, que, ambicioso de pouco
suada gloria, quiz, pobre corvo de D. João II, adornar-se com as
brilhantes pennas de pavão do Homero de D. João I.
Segundo o testemunho de João de Barros, Ruy de Pina foi uma potencia
litteraria no seu tempo. O historiador da India refere que o grande
Affonso de Albuquerque tivera a fraqueza de enviar joias a Ruy de Pina,
para que se não esquecesse d'elle na sua historia. Aquella cujo nome
devia encher o mundo não teve a consciencia de que era o maior capitão
do seculo, é creu que a sua immortalidade dependia de um chronista
obscuro! Triste documento de que os genios mais portentosos estão como
os homens ordinarios sujeitos às mais ridiculas fraquezas.
O abbade Corrêa da Serra põe Ruy de Pina acima dos chronistas que o
precederam. É talvez o juizo litterario mais injusto que se tem
pronunciado na republica das letras. Que elle exceda Azurara não o
contestaremos nós; mas que seja anteposto a Fernão Lopes é no que não
podemos consentir: as narrações de Ruy de Pina, postoque superiores ás
de Gomes Eannes, estão mui longe da vida e _côr local_ que se encontra
nos escriptos do patriarcha dos chronistas portuguezes.
Parece que os fados de Ruy de Pina eram ganhar nome e celebridade á
custa do trabalho alheio: ajudou elle o seu destino em quanto vivo;
ajudaram-lh'o outros depois de morto. Em 1608 publicou-se em Lisboa um
volume em 8.^o com o titulo de _Compendio das grandezas e cousas
notaveis d'entre Douro e Minho_, obra que no frontispicio é attribuida a
Ruy de Pina. Este livro, porém, nada mais é do que o que compoz mestre
Antonio, _fisiquo e solorgiam_, natural de Guimarães, e que em antigos
codices anda juncto ás chronicas de Ruy de Pina, bastando ler uma pagina
d'elle para nos convencermos de que é escripto em um periodo da lingua
anterior á epocha d'este chronista, e que elle talvez não fez mais que
copial-o, com intento de lhe chamar seu, podendo-se-lhe applicar aquelle
distico francez:
Pour tout esprit que le bon homme avait, Il compilait, compilait,
compilait.
IV
*Garcia de Rezende*
Com os começos do reinado de D. Manuel os horizontes da nossa
litteratura estenderam-se consideravelmente. Era a epocha do esplendor
nacional e, ao passo que as nossas conquistas e poderio se dilatavam,
dilatavam-se tambem os progressos litterarios dos portuguezes. A
imprensa tinha produzido o magnifico livro da _Vita-Christi_, e com isso
dava mostra de que Portugal possuia, esse motor maravilhoso que devia
conduzir a Europa com passos agigantados pela estrada da civilisação e
do progresso. N'este reinado de gloria e de predominio--mas de uma
gloria differente da antiga e de um predominio que assentava sobre base
tão incerta como eram os milhões de ondas do oceano em que elle se
estribava--proseguiu em maior escala o triste systema de D. João II de
substituir a agricultura pelo commercio, como fonte principal da riqueza
publica. Era então que a monarchia, aniquilando os derradeiros restos da
sociedade feudal nas Ordenações Manuelinas, e assentando-se na larga e
firme base do direito romano, realisava e completava, por um lado o
pensamento politico, por outro o pensamento economico do manhoso filho
do nosso ultimo rei cavalleiro. As palavras _e da conquista, navegação e
commercio da Ethiopia_, etc., que D. Manuel accrescentava ao dictado de
_senhor de Guiné_, que D. João para si tomara, eram a expressão mais
simples e mais exacta da idêa commercial e monarchica, isto é, de que o
commercio obtido por meio das conquistas e navegações pertencia ao
_senhorio real_, e a historia dos ciumes de D. João II e do seu
successor sobre os novos descobrimentos confirma a nossa opinião. Assim
o estado se confundia ou, antes, se incorporava na corôa, e se
constituiam essas formas politicas dos reinados seguintes que resumbram
em toda a legislação posterior, e a que, talvez, possamos chamar meio
termo entre o absolutismo e o despotismo, como a organisação social
portugueza antes das côrtes de 1481 se póde também considerar como um
meio termo entre o absolutismo e a monarchia representativa.
Substituida, portanto, a agricultura, que era do povo, pelo commercio
exclusivo, que era da corôa, e extinctas as tradições feudaes na nova
compilação Manuelina, a idade media morrera, com o seu systema de luctas
e resistencias, e começara esse seculo XVI, cujo caracter essencial em
politica foi a unidade monarchica. Este phenomeno explica o novo aspecto
que tomou a historia e o apparecimento de uma litteratura cortezan e
paceira, que visivelmente se distingue nos poetas mais modernos do
cancioneiro, nas obras latinas que por esse tempo appareceram,
principalmente nas de Cataldo Siculo, e nos autos do Aristophanes
portuguez Gil-Vicente, compostos para alegrar as horas de tedio nos
paços de D. Manuel. A chronica tomou logo o sabor do elogio historico, e
Garcia de Rezende, velho cortezão, escreveu a vida de D. João II debaixo
dos tectos dos sumptuosos paços da Ribeira. A este pobre homem não cabe,
todavia, a gloria da invenção d'aquelle genero historico: Ruy de Pina
foi o seu inventor. A Chronica de D. João II escripta por este foi o
modelo ou, antes, o original da de Garcia de Rezende, que apenas lhe
accrescentou alguns dictos e feitos do seu heroe, algumas anecdotas
desenxabidas e triviaes de antecamara, em que não esqueceram as
acontecidas com o proprio auctor. Garcia de Rezende não fez senão
aperfeiçoar a chronica individual e tornal-a, ainda mais que Ruy de
Pina, uma biographia real. E que outra fórma podia ter a historia n'uma
epocha em que a organisação social tinha sumido o povo, a nobreza, e
ainda o clero, debaixo do throno do monarcha?
Seria uma das comparações mais curiosas a do caracter historico da
Chronica de D. João I por Fernão Lopes com o da Chronica de D. João II
por Garcia de Rezende, se ao mesmo tempo se comparasse o estado da
sociedade portugueza no meado do seculo XV com o em que se achava no
principio do XVI. Esta comparação nos parece serviria para explicar as
formulas historicas pelas politicas, e vice-versa estas por aquellas.
Que distancia espantosa não ha, com effeito, entre o grande poema de
Lopes e a mesquinha collecção de historietas de Garcia de Rezende, onde
apenas avultam algumas paginas com o supplicio de um nobre, o assassinio
de outro, e o mysterio de um rei que morre, ao que parece; envenenado?
Que distancia espantosa de um cadafalso, de um punhal, e de uma taça de
veneno, ao cerco de Lisboa, à batalha d'Aljubarrota, ao baquear de
Ceuta? No livro de Garcia de Rezende vê-se o aspecto triste, e a vida de
agonia, e o sorrir forçado de um rei sem familia, rodeado de cortezãos,
cujos nomes pela maior parte se resolvem em fumo com o morrer de seu
senhor, a quem seguem os ginetes de Fernão Martins, os bésteiros e
espingardeiros da guarda, não para pelejarem com estranhos, mas para o
defenderem contra os odios de seus naturaes. Ahi o vulto real abrange
quasi os horizontes do quadro, e só lá no fundo, mal desenhadas e
indistinctas, se enxergam as personagens historicas d'aquella epocha, e
as multidões agitadas ou tranquillas a um volver d'olhos do monarcha,
mas nullas tanto em um como em outro caso. Na chronica de Fernão Lopes
ha, pelo contrario, a historia de uma geração: é um quadro immenso de
muitas figuras no primeiro plano. Nos degráus do throno de D. João I
estão assentados guerreiros e _sabedores_, e monges e clerigos, e povo
que tumultua e brada com vóz de gigante--_patria_! Ao pé da imagem
homerica de Nunalvrez vê-se a fronte serena e sancta do arcebispo de
Braga, e a face meditabunda e enrugada de João das Regras, e os vultos
terriveis do Ajax portuguez Mem Rodrigues, e do esforçadissimo Martim
Vasques, e de tantos outros cavalleiros a quem difficilmente sobrepuja o
rei popular, o Mestre de Aviz. O chronista faz-vos acompanhar as
multidões quando rugem amotinadas pelas ruas e praças; guia-vos aos
campos de batalha onde se dão e recebem golpes temerosos; abre-vos as
portas dos paços ao celebrar das côrtes, ao discutir dos conselhos;
arrasta-vos aos templos onde trôa a voz do monge eloquente; lança-vos,
emfim, no existir dos tempos antigos, e embriagando-vos com o perfume da
idade media, e deslumbrando-vos com o brilho da epocha mais gloriosa da
historia d'esta nossa boa terra portugueza, evoca inteiro o passado, e
rasgando-lhe o sudario em que jaz, com o sopro do genio dá alma, e vida,
e linguagem ao que era pó, e morte, e silencio.
Em Ruy de Pina raro se encontra a historia da nação: em Garcia de
Rezende talvez nunca. Fernão Lopes e Azarara tinham escripto no tempo de
Affonso V: estes escreviam no de D. Manuel. D'ahi provém a differença.
Em poucas palavras o pouco que se sabe da biographia de Rezende.
Ignora-se a epocha do seu nascimento; mas sabe-se que era natural de
Evora é irmão do celebre André de Rezende, o traductor de Cícero. Foi
pagem da escrevaninha de D. João II e seu predilecto. Grato por isto,
lhe escreveu a vida, a qual se imprimiu Evora em 1554.[4] Compoz tambem
uma relação da ida infanta D. Beatriz para Saboia, e outra da viagem
d'el-rei D. Manuel a Castella, e finalmente umas trovas satyricas que
intitulou _Miscellanea_. Colligiu em um volume as poesias avulsas que no
seu tempo tinham mais celebridade, tanto dos poetas d'quella epocha,
como de outros mais antigos. Este volume, que foi dado á luz por elle em
Lisboa em 1516 com o titulo de _Cancioneiro Geral_, é hoje um dos mais
raros monumentos da nossa litteratura, e o verdadeiro titulo de gloria
de Garcia de Rezende.
Em 1514 foi a Roma como secretario de embaixador Tristão da Cunha,
mandado ao papa por el-rei D. Manuel. Voltando á patria morreu em Evora,
não sabemos em que anno, e jaz no convento do Espinheiro.
CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL
1842
*CARTA I*
1 d'abril de 1842.
Srs. Redactores da _Revista universal lisbonense_.--A reforma ha pouco
feita no seu estimado jornal; o agasalhado que n'elle se concede a tudo
quanto se chama fructo de sciencia humana; a maior extensão de
escriptura que nas suas paginas se póde hoje encerrar; e sobretudo a
ambição, que desperta nos entendimentos ainda humildes, de se acharem á
meza da sciencia em tão honrada companhia litteraria como a dos
collaboradores da _Revista_; tudo isso me excitou a dirigir-lhes esta
carta, que folgarei mereça a honra da publicação, e que se o merecer
será seguida por outras sobre o mesmo objecto, porque traçando e
alevantando a _Revista_ um formoso edificio de civilisação n'esta pobre
terra de Portugal, posto que eu saiba serem as pedras que posso cortar e
carrear para o monumento toscas e mal desbastadas, sei tambem que até
estas teem sua cabida e serventia, quando para mais não sejam ao menos
para sumir lá nos alicerces e na grossura dos muros, em quanto os
artifices de primor vão aperfeiçoando as portadas, columnas, cimalhas,
remates, e mais exterioridades de desenho, em que os architectos da obra
põem as suas complacencias d'artistas.
Entendi eu, que o entreter alguns momentos os leitores da _Revista_ com
diversos estudos sobre a nossa antiga antiga historia, não seria
fazer-lhes mau serviço. Ha n'este fallar das recordações de avós o que
quer que é saudoso e sancto, porque a historia patria é como uma d'estas
conversações d'ao pé do lar em que a familia, quando se acha só, recorda
as memorias do pae e mãe que já não são, de antepassados e parentes que
mal conheceu. Mais saboroso pasto d'espirito que esse não ha talvez,
porque em taes lembranças alarga-se o ambito dos nossos affectos: com
ellas povoamos a casa de mais entes para amarmos; explicamos pelos
caracteres e inclinações dos mortos os caracteres e inclinações dos que
vivem; os habitos actuaes pelos habitos e costumes dos nossos velhos.
Se, abastados e engrandecidos, viemos de humildes e pobres, pretendemos
muitas vezes fazer esquecer ao mundo o nosso berço; mas no abrigo
familiar, deixada tão viciosa vergonha, abrimos o larario domestico e
tiramos d'elle os deuses da meninice, grosseiros simulacros da imagens
paternas, e folgamos de os contemplar, e de recontar ou de ouvir a sua
historia, que temos recontado e ouvido mil vezes, que todos os da casa
bem sabem, mas que sempre narramos ou escutamos com attenção e deleite,
e talvez com enthusiasmo. As recordações da terra da patria não são,
porém, mais que as memorias de uma numerosa familia.
Ha muito que para ellas voltei as minhas predilecções. E não sei, até,
quem possa deixar de o fazer em tempos como os que ora correm. Se o rico
e poderoso que nasceu dos minguados e chãos vai pedir ao passado frescor
e regalo para o espirito, como deixará o que se vê abatido e em
amarguras de lembrar-se de opulentos e nobres avós? Qual será a nação
que amarrada ao poste do padecer, ludibriada e appupada por tudo,
despida, cuberta de lodo, cheia de pisaduras e de feridas, se não volte
para os tempos que passaram quando esses tempos foram feracissimos de
muitos generos de grandezas e de glorias, e como o Salvador no Calvario
lhes não diga: _Tenho sêde_? Quem, vendo diante de si desfolharem-se-lhe
uma a uma todas as esperanças, se não retrahe do presente, e não vai
pelo campo sancto dos seculos buscar e colher saudades de consolação?
Separado, e não de poucos dias, d'esse tumulto e ruido da sociedade
actual, que Deus louvado não entendo nem desejo entender, e em cujas
opiniões e idéas, ou por demasiado grandiosas ou por vergonhosamente
pequeninas, não acho medida pela qual afira e concerte as minhas, que
não passam de triviaes e means; ajuramentado com a propria consciencia
para deixarmos seguir o mundo seu caminho, bom ou mau, com tanto que não
nos embargue o nosso, tenho procurando estudar algumas epochas da tão
poetica e formosa historia da gente portugueza. É para varios d'esses
estudos imperfeitissimos que eu peço algumas columnas da _Revista
universal_, não porque elles preencham completamente os fins da
instituição d'este Jornal--a instrucção; mas porque poderão mover os que
valem e sabem muito a que, pretendendo corrigir erros sobejos, em que
por certo cairei; instruam verdadeiramente o commum dos leitores da
_Revista_, e os chamem a contemplar o espectaculo da nossa sociedade
antiga.
Estes estudos, feitos por um systema d'historia como me pareceu que
elles deviam ser feitos, apparecerão na _Revista_ soltos, em quanto de
mais perfeito modo os não posso trazer á luz da imprensa. Fragmentos são
os que unicamente se hão-de e devem lançar nas columnas de uma folha
volante, entre cujos meritos a variedade é talvez o que mais se busca.
Trabalhos completos são para livros, e livros d'historia estou eu (sem
humildade hypocrita o digo) bem longe ainda de os poder fazer. Todavia
darei a estas Cartas, quanto em mim couber, um certo nexo, que a
natureza da materia requer. Um dos principaes defeitos dos trabalhos
historicos do nosso paiz parece-me ser a _insulação_ de cada um dos
aspectos sociaes de qualquer epocha, que nunca se conhecerá, nem
entenderá, em quantop a sociedade se não estudar em todas as suas formas
d'existir, em quanto se não contemplar em todos os seus caracteres.
Estas Cartas, se merecerem a approvação de vv. ss., poderão algum dia
servir, no que tiverem bom, se tiverem, de esclarecimento e notas a uma
parte da Historia Portugueza, como eu concebo que ella se deveria
escrever: historia não tanto dos individuos como da Nação; historia que
não ponha á luz do presente o que se deve ver á luz do passado;
historia, emfim, que ligue os elementos diversos que constituem a
existencia de um povo em qualquer epocha, em vez de ligar um ou dois
d'esses elementos, não com os outros que com elle coexistem, mas com os
seus affins na successão dos tempos, grudados pelos tôpos
chronicologicos com massa de papel feita das folhas _Arte de verificar
as datas_.
*CARTA II*
Quando, volvendo os olhos para os tempos remotos, indagamos a historia
de nossos antepassados e da terra em que nascemos, a primeira pergunta
que nos occorre para fazermos ás tradições e monumentos é naturalmente a
seguinte: onde, quando, e como nasceu este individuo moral chamado a
Nação? O berço da sociedade de ser, com effeito, a primeira pagina da
sua historia.
Quem, examinando uma carta topographica da Peninsula espanhola, vê esta
faixa de terra chamada Portugal, estreitada entre o oceano e o vulto
enorme da Hespanha, sem divisões nascidas da natureza do solo e fundadas
na geographia physica, que a separem naturalmente della, e quando depois
disto sabe que por sete seculos, com a curta interrupção de sessenta
annos, os habitadores deste cantinho do mundo conservaram intacta a sua
independencia e individualidade nacional, prevê desde logo nesses
homens, que assim souberam conservar-se livres d'estranho jugo, grandes
virtudes e generoso esforço, e na organisação social do paiz uma
extraordinaria robustez e uma harmonia notavel com as suas necessidades
e indole; porque as instituições e costumes de qualquer povo são a sua
physiologia, pela qual se lhe explica principalmente o curto ou o
dilatado da vida. A curiosidade então volta-se para a primeira infancia
desse povo, para a epocha em que disse a si mesmo: _Eu existo_. Na
disposição daquelles tenros annos devem-se-lhe achar já os annuncios do
vigor da juventude e da idade viril.
Tanto que o imperio wisigodo desabou em ruinas ao embate violento do
enthusiasmo e pericia militar dos arabes, e a policia e civilisação
destes substituiu nas Hespanhas a muito mais viciosa e incompleta
civilisação dos godos, a reacção christã e europea contra a violencia
mahometana e asiatico-africana começou immediatamente. Desde a batalha
do Chryssus ou Guadalete, em que expirou o imperio fundado por
Theodorico e estabelecido em toda a Peninsula por Leovigildo, até o
encontro de Canicas ou Cangas, em que pôde dizer nasceu o reino de
Asturias, bem curto espaço mediou. Restituido pela desgraça a esse
punhado de godos o antigo valôr e energia, em quanto os arabes perdiam o
primeiro nos ocios do triumpho, nos deleites de uma civilisação immensa,
e malbaratavam a segunda nas luctas intestinas, os territorios e o
poderio christão cresceram e prosperaram até o tempo d'Affonso III rei
d'Oviedo, ao passo que o imperio arabe se achava já decadente no rei
reinado de Abdallah, antecessor e avô do celebre Abderranhhman III
(Annassir). Mas Abderrahhman, o maior dos Ommaijadas, restabelecendo a
unidade do governo na Hespanha arabe, regendo os povos com justiça e
sabedoria, resistindo aos valentes reis de Leão e Asturias, Ordonho II e
Ramiro II, e aproveitando habilmente, depois da morte destes, as
dissenções dos christãos para exercitar sobre elles uma especie de
patronato, segurou para largos annos na Peninsula o dominio do Islam.
Seguiram-se as variadas e terriveis guerras de mais de dous seculos
entre as duas raças inimigas que disputavam o dominio das Hespanhas, e a
representação dos dramas ensanguentados que mancham torpemente tanto as
paginas dos annaes christãos como as dos musulmanos. Ora os arabes levam
de vencida os netos dos godos, ora estes os arabes; de dia para dia as
fronteiras indecisas das duas nações inimigas circumscrevem-se ou
alargam-se prodigiosamente: as divisões intestinas de um dos campos são
por via de regra o signal de victoria para o campo contrario; grandes
capitães sobem aos thronos, e d'ahi a pouco os thronos se derrocam
debaixo dos pés de reis inhabeis, viciosos, ou crueis.
Durante mais de cinco seculos a Peninsula foi um cahos, e a sua historia
é um mixto confuso e monstruoso de todas as virtudes e de todas as
atrocidades. Entre os arabes, apezar da cultura intellectual,
predominava a barbaria moral: as letras e as sciencias, levadas a um
alto gráu d'esplendor, não suavisaram jámais os costumes ferozes dos
mahometanos, porque a civilisação moral nunca existiu na terra senão por
beneficio do christianismo. Nos estados christãos, pelo contrario, era a
rudeza intellectual que destruia as influencias moraes do evangelho. As
paixões desenfreadas no meio do estrondo de uma lucta de morte entre
homens diversos por origem, lingua, instituições e religião, corriam
despeadas, e os fratricidios, os homicidios, os roubos, as violações, os
incendios, os sacrilegios multiplicavam-se por toda a parte. As leis
calavam-se, a espada imperava, e a bruteza do povo era tal, que o
proprio clero, classe distincta no tempo dos wisigodos por sua cultura,
tinha caído na extrema barbaridade. Ainda nos fins do seculo XI os
conegos de Compostella eram comparados por um escriptor, que vivia entre
elles, a animaes brutos e indomados[5], comparação que justificam
milhares de successos conservados nos documentos e memorias desses
tempos.
Da somma, porém, dos acontecimentos daquella epocha vêem-se resultar
dous factos geraes--a decadencia da sociedade arabe, e os progressos de
organisação na sociedade christã. Tendia a dissolver a primeira a grande
variedade de tribus e nações africanas, asiaticas e europeas, que
estanceavam pelas diversas provincias da Hespanha, umas vezes sujeitas
ao khalifado de Cordova, outras rebelladas contra elle[6]. Estas tribus
e nações, unidas unicamente pela crença commum, guerreavam-se atrozmente
a todos os instantes, e para maior desordem por entre ellas vivia a raça
gothica-romana, conhecida pelo nome pouco proprio de mosarabes[7] que,
sujeitando-se aos arabes na occasião da conquista, forçosamente devia
desejar o triumpho e predominio dos seus correligionarios. Por outro
lado a civilisação dos arabes, assentando sobre a falsa base do
Islamismo, brevemente envelheceu e tornou-se em corrupção de costumes,
enfraquecendo e envilecendo os animos. O quadro da decadencia moral da
Hespanha mahometana no meado do Seculo XII, que no livro intitulado
_Regimento de principes e capitães_ faz Ben Abdelvahed, é espantoso, e
quanto ao estado politico a situação dos arabes não era melhor. Não
havia paz nem segurança em parte alguma, e o imperio caía em pedaços no
meio das dissenções civis[8]. Accrescentavam o mal as estreitas relações
e unidade politica do imperio de Cordova com as provincias da
Mauritania, cujas revoluções estendiam os seus effeitos até a Peninsula;
e as repetidas mudanças de predominio das tribus e dynastias, por via de
regra, procediam das alterações e guerras que se alevantavam na Africa.
Pelo contrario os reinos christãos da Hespanha eram mais homogeneos:
havia ahi muitas dissidencias de ambição; porém as incompatibilidades de
raça quasi que não existiam, porque só no reinado de Affonso VI os
francezes vieram influir na Peninsula, mas como individuos e não como
nação, e esta influencia foi ainda ecclesiastica do que politica. Não
houve uma colonisação franceza nos dominios de Affonso VI: houve sim a
collocação de bispos daquelle paiz em muitas dioceses, o chamamento de
muitos principes e cavalleiros da França aos cargos politicos e
militares. Estes estrangeiros traziam as idéas e as instituições da sua
terra natal, traziam ás vezes a oppressão, mas incorporavam-se na raça
goda. Se impunham habitos e costumes estranhos, acceitavam tambem muitos
usos e idéas da nova patria, os seus filhos eram inteiramente
hespanhoes, e este elemento adventicío de povoação, em vez de contribuir
para o enfraquecimento da força social, servia realmente para a
fortalecer.
Os resultados das invasões e conquistas, que de continuo arabes e
christãos faziam mutuamente nos territorios dos seus a adversarios, eram
tambem diversos. Ainda rebaixando no que dizem os escriptores arabes
sobre a excessiva povoação das Hespanhas, é indubitavel que nas
provincias dominadas pelos serracenos ella foi muito mais numerosa do
que hoje é. Esta povoação, porém, era em grande parte romano-gothica ou
mosarabe, e, como já disse, para ella as invasões feitas pelos homens da
mesma crença não podiam ser consideradas como destinadas a subjuga-la
mas a quebrar-lhe o jugo dos infieis. Esta circumstancia tornava-se
tanto mais importante, quanto é certo que os wisigodos que acceitaram o
dominio arabe, ficaram na mesma situação civil[9] em que se achavam no
momento da conquista, e por consequencia possuidores de riquezas,
senhores de servos, superiores por isso forçosamente a uma parte da
população arabe, e iguaes da mais abastada. Assim não só eram um
poderoso auxilio para os christãos no meio dos inimigos, mas por muitas
vezes bastaram por si sós para expulsar d'algumas povoações os
conquistadores sarracenos[10].
Desde os meados do undecimo seculo apparece na Hespanha um systema
regular d'organisação. O concilio, ou côrtes, de Leão convocado em 1020
por Affonso V constitue uma data importante na historia social da
Peninsula. N'este concilio, ou côrtes, se estabeleceram leis politicas e
civis geraes para todas as provincias do reino leonez, que eram Leão,
Galliza, Asturias e Castella. Fernando I celebrou igualmente côrtes em
1046, 1050, e 1058.
O caracter principal das resoluções d'estes parlamentos (á excepção do
ultimo que elle convocou para dar validade á divisão do reino entre seus
tres filhos) é o de regular e fixar o direito de propriedade. A par
d'estas leis geraes, os _fueros_ propriamente dictos (foraes) tendiam a
augmentar a povoação, estabelecendo as communas e ligando-as por muitos
modos ao corpo politico. Alguns d'estes foraes conhecidos remontam ao
tempo de Affonso V, mas multiplicam-se cada vez mais com o correr dos
tempos. Isto é, o pensamento de organisação vigora e cresce cada vez
mais. A sociedade christã da Hespanha revela no seculo XI um progresso
constante de vida, de ordem, e de energia.
E a sociedade arabe?--A queda do imperio dos Ommaijadas (1037), o qual
durara perto de tres seculos, foi o resultado das dissenções civis.
Tirado este centro d'unidade, que nos seus ultimos tempos era apenas um
nome, os diversos bandos travaram luctas duradouras e sanguinolentas. A
Hespanha arabe retalhou-se em tantos principados, quantos eram os
cabeças de partido. A guerra civil prolongou-se por quasi todo o seculo
XI; e bem que nos estados christãos as houvesse tambem entre os tres
filhos de Fernando Magno, estas tinham passado rapidamente, e Affonso
VI, vencidos seus irmãos, reinava por fim tranquillo nas Asturias,
Galliza, Leão e Castella, e rei de uma nação energica e unida
conquistava, ou fazia tributarias da sua corôa, as principaes cidades e
provincias dos sarracenos da Peninsula.
Para as suas guerras brilhantes muitos nobres cavalleiros francezes
atravessaram os Pyreneus. Foi entre estes que Henrique de Borgonha veio
á Hespanha, para ser o fundador da independencia dos portuguezes.
*CARTA III*
A origem da independencia de Portugal, e a sua separação do reino
leonez, tem sido uniformente attribuida pelos nossos historiadores ao
casamento do principe borgonhez Henrique com D. Thereza, filha de
Affonso VI. É cousa assentada que o rei leonez, casando sua filha, lhe
dera _em dote_ a terra de Portugal, que, tendo estado já separada da
Galliza, então o foi de novo ficando-lhe servindo de limite o Minho.
Esta opinião que até hoje tem passado inconcussa, sendo ainda recebida
por um sabio dos nossos dias, respeitavel por todos os titulos,
parece-me todavia involver difficuldades insuperaveis.
Até á invação dos arabes, os godos conservaram nas Hespanhas tenazmente
as instituições germanicas ácerca dos dotes. Pelas suas leis, contrarias
ao que estatuiam as leis romanas, era noivo quem dotava a mulher.
Similhante costume dos barbaros, porventura mais nobre que o romano, foi
regulado por uma lei de Chindaswintho, inserida no _Codigo
wisigothico_[11]. Esta lei, assim como as mais disposições d'aquelle
codigo, atravessando o dominio dos arabes, que deixaram aos vencidos o
governarem-se civilmente pela sua legislação e pelos seus magistrados,
continuou a vigorar, não só até o tempo de Affonso VI, mas porventura
até a publicação da lei das Partidas[12]. Não havia pois na legislação
d'Hespanha, nem nos usos nacionaes, n'esta parte perfeitamente accordes
com ella, causa alguma para o rei de Leão se lembrar de pôr em pratica,
no casamento de sua filha, um costume romano, provavelmente até ignorado
por elle.
Seria este acto insolito uma imitação de costumes francezes? Fica dicto
foi no reinado de Affonso VI, principalmente, que as idéas e
instituições francezas se introduziram na Peninsula. Nas suas vastas
empresas contra os arabes, este rei ajudou-se grandemente de cavalleiros
francezes, a quem enriquecia e honrava, ao mesmo passo que enchia as
cadeiras episcopaes de bispos d'aquella nação.
A predilecção que elle sempre mostrou pelas cousas de França, e que
tanto contribuiu para alterar os costumes wisigodos, podiam tê-lo movido
a seguir, casando suas filhas com os principes borgonhezes Raimundo e
Henrique, e outra com o conde de Tolosa, os costumes d'aquelle paiz, se
elles n'esta parte fossem contrarios aos das Hespanhas.
Mas não acontecia assim. Ainda n'aquelle seculo era commum por toda a
Europa a instituição germanica ácerca dos dotes. Em Ducange, á palavra
_Dos_, se acham colligidas as disposições dos diversos codigos europeus
a este respeito, bem como documentos de que os factos não eram
contrarios á legislação: o que sempre é necessario examinar na historia
da idade media, na qual a confusão social, e a ignorancia em que jaziam
todas as nações, faziam que a pratica das relações civis contrastasse ás
vezes com os preceitos legaes.
A difficuldade de acceitar a tradição de um facto incomprehensivel para
os individuos por quem se diz praticado seria bastante para o tornar
mais que suspeito. Mas ainda occorrem contra elle outras considerações.
É incontestavel que Raimundo, o marido de D. Urraca, senhoreou a Galliza
e Portugal, antes de Henrique; e que a porção do territorio hespanhol
dado a este para governar como conde, ou consul, foi desmembrada do
territorio governado pelo conde Raimundo antes do fallecimento d'este.
Se Portugal foi dado em dote a D. Theresa com direito hereditario,
segundo affirma a chronica latina do imperador Affonso Raimundez,
provindo d'essa circumstancia o governo de Henrique, como se ha-de
suppor que D. Urraca, filha mais velha e incontestavelmente legitima,
não recebesse em dote tambem, _jure haereditario_, as terras que seu
marido governou? E se assim foi, como e porque se destruiu em parte este
direito, dando em dote de outra filha uma porção do que já era dote de
D. Urraca, e isto sem que Raimundo se queixasse, antes fazendo pactos de
concordia e mútua alliança, como o que fez com o conde Henrique?
Além d'isso, D. Elvira, irmã de D. Theresa e casada com o conde de
Tolosa, não recebeu em dote terras algumas: diz-se que fôra a causa
d'isto o possuir Raimundo de S. Gil estados em França. Mas que lei ou
costume d'Hespanha obstava a que elle possuisse um condado em outro
paiz, conjunctamente com os estados que tivesse em Leão? E se não havia
legislação ou uso em contrario, porque consentiu este principe, mais
poderoso que os outros dois, que fossem para elles estas liberalidades,
ao passo que ficava sem quinhão na monarchia hespanhola, que assim se
faz retalhar loucamente pelo habil Affonso VI?[13].
Mas admittindo que isto acontecesse, ainda resta difficuldade maior.
Além de Urraca, Theresa e Elvira, Affonso VI teve uma filha chamada
Sancha e outra Elvira[14], nascidas da rainha Isabel, a primeira das
quaes casou com o conde Rodrigo Gonçalves e a segunda com Rogerio, duque
de Sicilia. Quanto a este, nada accrescentarei ao que já disse ácerca do
conde de Tolosa, Raimundo de S. Gil. Mas no conde Rodrigo Gonçalves não
se dava por certo a circumstancia de ser principe estrangeiro, com
estados fóra d'Hespanha, e todavia não consta que el-rei dotasse a
infanta D. Sancha com terras ou provincias que elle devesse possuir
_hereditariamente_, antes pelo contrario, possuindo o conde Rodrigo as
honras de Asturias de Santillana, lhe foram estas tiradas por suas
turbulencias, e reconciliado depois com Affonso VI lhe deu el-rei o
governo de Segovia, e a alcaidaria de Toledo, que tornou a tirar-lhe
passados tempos, ao que parece, por seu genio inquieto[15]. Porque seria
excluido, porém, o conde Rodrigo, nobre, natural, e poderoso, do
beneficio que recebera um estrangeiro pobre, embora illustre e valente?
É na verdade inexplicavel similhante contradicção.
A estes raciocinios, fundados em factos incontroversos, nenhum
argumento, nenhuma auctoridade se póde oppor senão uma phrase do
chronista anonymo de Affonso Raimundez, que, fallando de D. Theresa, não
directamente mas por occasião da guerra de Affonso VII com seu primo
Affonso Henriques, diz--que Affonso VI a casara com o conde Henrique, e
a dotara magnficamente, dando-lhe a terra portugalense com _dominio
hereditario_. Este testemunho singular, porque todas as outras memorias
coevas guardam silencio a similhante respeito, será porém de tal peso
que nos faça acreditar um facto contrario á legislação e aos costumes da
epocha, e laborando nas difficuldades que apontei? Não o creio. A
chronica latina é proxima, porém não contemporanea do reinado de Affonso
VII, segundo o diz seu auctor, _que ouviu contar os successos d'aquelle
reinado aos que os tinham presenciado_[16], o que por certo não poderia
dizer do reinado de Affonso VI, começado, pela segunda vez, 54 annos
antes do de seu neto. E sendo d'aquelle reinado o casamento de D.
Theresa, deve-se confessar que para o A. da chronica eram as
circumstancias d'elle tradições um pouco remotas.
Ajunte-se a isso que d'esta historia apenas restavam copias incorrectas
e incompletas quando, depois de Berganza, a publicou Flores, e que ella
passou pelas mãos do celebre falsario, consocio de Fr. Bernardo de
Brito, o padre Higuera[17]. Será portanto bastante por si só para
dissolver as dúvidas apontadas? Aconselha-lo-ha a boa critica? Parece-me
que não.
Mas suppondo a chronica d'Affonso VII esteja correcta e sem
interpollação, e que a sua auctoridade se deva acceitar como a de um
testemunho contemporaneo, ainda assim ella provaria quando muito que D.
Affonso VI dera a seu genro, em attenção a D. Theresa, o governo de
Portugal para si e seus filhos perpetuamente, visto que o hereditario se
ía introduzindo nos cargos administrativos como na corôa. Tal seria pois
n'esse caso a significação da palavra _dote_, que então era mui diversa
da que hoje lhe damos, e correspondia a _donatio_, como se vê claramente
dos diplomas que vão indicados em nota[18].
Mas o conde Henrique governou Portugal em quanto viveu. D. Theresa o
governou igualmente depois da morte d'elle, em 1112[19], até seu filho a
desapossar da suprema auctoridade em 1128. Este, finalmente, tomando o
titulo de rei, firmou para sempre a separação e independencia de
Portugal dos reinos de Leão e Castella. Como se consummou similhante
facto? Qual foi a historia d'este successo, verdadeira ou pelo menos
provavel?[20]
Como seu primo Raimundo conde de Borgonha; como os demais cavalheiros
francezes que n'aquella epocha vinham exercitar nas Hespanhas a maxima
virtude do seculo--o guerrear o Islamismo, Henrique IV, filho de outro
Henrique senhor de Borgonha ducado, serviu ao que parece por muito tempo
nos exercitos de Affonso VI. As conquistas de Fernando Magno tinham
alargado os ambitos do imperio leonez. Affonso VI seguiu a carreira
gloriosa de seu pae, e Toledo, a antiga capital dos godos, caiu em suas
mãos. Pelo lado de Portugal os dominios de Fernando Magno tinham-se
estendido até Coimbra. Seu filho continuou a guerra por esta parte, e
chegou a apossar-se temporariamente de Santarem, Lisboa e Cintra, mas
empregou principalmente as forças para o lado de Toledo. O conde
Raimundo de Borgonha, marido de sua filha D. Urraca, foi por elle
encarregado do governo da Galliza, incluindo n'esse territorio tudo o
que corre desde o Minho até o Mondego, e depois até o Téjo: o que n'esse
tempo ora se considerava como parte da Galliza, ora como um ou mais
condados distinctos d'ella[21], constituindo no todo, talvez, a mais
vasta provincia do reino de Leão e Castella.
Mas esta mesma grandeza tornava necessaria a divisão do territorio;
porque, estabelecida a auctoridade militar, civil, e politica no centro
da actual Galliza, não era facil nem admnistrar bem os logares mais
remotos para o sul, nem preseguir com energia e actividade a guerra na
frontaria dos mouros. Este pensamento deu provavelmente origem á escolha
de Henrique para governar as terras que se estendiam desde o Minho até
as raias da provincia conhecida entre os arabes pelo nome generico
d'_Algarb_;[22] e por ventura a derrota que padece o conde Raimundo
n'uma entrada que fizera até Lisboa[23] pelos annos de 1094 serviu para
apressar a realisação d'este pensamento. Ou Henrique fôsse já conde e
genro d'el-rei, ou n'esta occasião casasse, e recebesse esse titulo[24]
pelo governo que se lhe encarregava, o que é certo é que no principio de
1095 elle governava Coimbra, em 1096 o territorio de Braga,
incontestavelmente desde o Minho até o Téjo em 1097.[25] Se ao principio
esteve subordinado a Raimundo na administração parcial de Coimbra e de
Braga; se logo governou independente d'elle toda a parte de Portugal
moderno, conquistada já então aos mouros, é cousa que me parece não se
poder affirmar nem negar, e que talvez algum dia se haja de resolver,
quando venha a ser conhecido maior numero de documentos d'aquella
epocha.
O novo conde deu provavelmente então toda a actividade á guerra com os
sarracenos; ainda que as noticias dos primeiros annos do seu governo
sejam bastante escassas. A viagem, porém, que emprehendeu á Terra-Santa
nos primeiros annos do XII seculo retardou por certo as suas conquistas.
Esta viagem, intentada depois de 1100, estava indubitavelmente concluida
em 1106, em que Henrique apparece fazendo uma doação a dous presbyteros
de uma herdade em Céa.[26] Desde então até à sua morte, em 1112[27],
elle proseguiu na administração do territorio que lhe fora confiado por
Affonso VI, e foi no periodo que decorre de 1109, epocha da morte do rei
de Leão, que elle se prepararou para tornar estado independente o
condado que lhe fora dado para reger como simples consul ou governador.
É a este tempo que me parece pertencer o pacto successorio entre
Henrique e Raimundo, isto é, aos fins de 1106 ou principios de 1107,
anno do fallecimento de Raimundo[28]. Henrique foi mais feliz
sobrevivendo ao sogro, e recusando depois da morte d'este reconhecer a
supremacia de D. Urraca, que succedera a seu pae por falta d'herdeiro
varão, tendo morrido na batalha d'Uclés o infante D. Sancho, para quem,
parece, elle procurava a eleição dos hespanhoes, por seu fallecimento.
Affonso VI foi incontestavelmente um habil e valoroso rei: a morte porém
de Sancho destruiu todos os seus intentos, e abreviou-lhe por ventura a
vida. Proximo a morrer, viu que a Hespanha leoneza se dividiria em
facções, e a experiencia do passado lhe ensinava que isto seria a causa
da sua ruina. Assim, tendo já dado dous annos antes a investidura da
Galliza a seu neto Affonso Raimundez[29], cuja mãe e sua filha mais
velha, a viuva D. Urraca, ficava, na falta de filho varão, successora do
reino, ordenou a esta casasse com Affonso o _Batalhador_, rei d'Aragão,
rude e grosseiro soldado, mas por isso mesmo capaz de conservar a
integridade do estado do leonez[30]. Por morte de D. Urraca a corôa
devia passar para Affonso Raimundez, que entretanto possuiria a Galliza.
Estas disposições de Affonso VI cumpriram-se; mas não produziram todo o
effeito salutar, que elle d'ahi esperava, pelo caracter das personagens
a quem respeitavam, ou que deviam contribuir para o seu cumprimento.
A dissolução dos costumes n'aquelles seculos era geral, e D. Urraca não
escapou a ella. Naturalmente d'ahi nasceram as suas dissensões com o rei
aragonez, que com a brutalidade propria dos tempos chegou a
espanca-la[31]. A separação dos dous conjuges deu aso á guerra civil, e
ás suas terríveis consequencias n'uma epocha em que o vicio, a
perversidade, e a cubiça se apresentavam em todo o seu vigor barbaro, e
sem o veu hypocrita com que n'estes tempos mais politicos se costumam
esconder. Os nobres e cavalleiros, a titulo de pertencerem a este ou
àquelle bando, apossavam dos castellos de que eram alcaides, ou
construiam-nos de novo, e d'alli faziam guerra por sua conta, ou os
convertiam em covis de salteadores, d'onde sahiam a roubar ou matar os
viandantes e mercadores. Tal é pelo menos o quadro que do estado da
Galliza faz a _Historia Compostellana_, e que era provavelmente
similhante no resto do imperio leonez. Tal pelo menos no-lo devem fazer
suppôr as palavras de Pelaio de Oviedo, quando assevera que por morte
d'Affonso VI o lucto e as tribulações cobriram o solo da Peninsula.
Foi no meio d'estas perturbações que o conde Henrique pôde assegurar,
senão de direito ao menos de facto, a independencia das terras que
governava. Ora mostrando-se favoravel ao moço Affonso Raimundez contra a
mãe e padrasto, que se tinham temporariamente congraçado, e incitando
Pedro Froylaz, conde de Trava, aio do infante, a sustentar animosamente
a causa do seu pupillo, quando o veio[32] sobre isso consultar; ora
colligando-se com o rei d'Aragão contra D. Urraca, divorciada de novo do
marido no anno seguinte de 1111[33]. Henrique evidentemente procurava
aproveitar nas dissensões civis a occasião de constituir independente o
seu condado, e, com effeito, procrastinadas as perturbações da Hespanha
quasi até 1126, elle falleceu em 1112[34], deixando o governo a sua
mulher D. Theresa, sem nunca submetter o collo ao jugo de D. Urraca.
É resumidamente nisto que me parece encerrar-se a historia da separação
de Portugal da monarchia leoneza. Sobre a origem d'este facto tem-se
discursado muito, porque com a legitimidade d'elle quizeram legitimar a
nossa independencia os escriptores portuguezes, e com a sua
illegitimidade impugna-la os escriptores castelhanos. Ha um ou dois
seculos tal materia poderia ainda parecer grave á luz politica; hoje,
porém, não sei eu se tocaria, a similhante luz, as raias de ridicula.
Qual é a nação que não vae achar no seu berço uma violencia ou uma
illegalidade? E que tem com isso o presente? _Somos independentes porque
o queremos ser_: eis a razão absoluta, cabal, inconstrastavel, da nossa
individualidade nacional. E se essa não bastasse, ahi estão escriptos
com sangue, desde Valdevez até Montes-Claros, por toda esta nobre e
livre terra de Portugal, os títulos da nossa alforria. Com subtilisar ou
torcer a historia não é que se defende a patria: a sua defensão está em
saberem seus filhos pelejar por ella, quando o soldado estrangeiro ousar
accommetter a terra que nos herdaram nossos paes, e onde elles morreram
livres, como nós havemos de morrer.
O eruditissimo auctor das _Memorias_ sobre as origens de Portugal e
sobre o conde Henrique segue algumas opiniões acerca d'estes primeiros
tempos da monarchia differentes das minhas. O peso, que o respeitavel
nome d'aquelle sabio dá a todos os seus escriptos, obriga-me a
accrescentar varias considerações em abono da opinião, que o estudo
d'essa epocha e dos seus monumentos me constrange a seguir.
Destruida, como me parece ficou, a tradição de haver sido dado _em dote_
a D. Theresa _o dominio_ de Portugal, resta averiguar se não se fundaria
em outros motivos legaes o procedimento do conde Henrique,
alevantando-se com o condado de Portugal, e convertendo-o em estado
independente.
Digo _alevantando-se_, e digo-o muito de proposito, porque esta
expressão é a que designa exactamente o facto que resulta dos documentos
d'aquella epocha. A somma dos diplomas que colligiu J. P. Ribeiro[35],
relativos ao governo em Portugal do conde Henrique, levam á evidencia
que, emquanto viveu Affonso VI, seu genro se considerou sempre como um
consul ou governador de provincia dependente do rei, segundo o systema
politico e administrativo da Hespanha, e que por morte d'aquelle
principe é que este reconhecimento de dependencia desapparece dos
documentos. Não constando, porém, de acto ou diploma algum publico a
separação legal do condado d'Henrique, antes pelo contrario, não se
fazendo menção d'ella ajunctamento que antes de morrer, para deixar a
Galliza a seu neto, e fazer acceitar D. Urraca por successora da
monarchia, póde concluir-se que a independencia do conde foi apenas uma
revolta, que as circumstancias das divisões intestinas coroaram de bom
successo.
O respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ diz que «a
practica d'aquella edade parece _em certo modo_ favoravel ás pretenções,
que os leonezes e castelhanos tiveram a este respeito. Os muitos e
grandes senhores, que então havia em Leão, Castella e Galliza, e
governavam algum grande territorio com o titulo de condes, eram sujeitos
_como feudatarios_ aos reis...» Seja-me permittido dizer que n'estas
palavras ha talvez uma notavel confusão d'idéas. Eram as _instituições_,
não a _practica_, que, não _em certo modo_, mas _postivamente_, eram
favoraveis a essas pretenções. Os grandes senhores que governavam
condados eram sujeitos á corôa, não _como feudatarios_, mas como
exercendo uma _delegação do soberano_. As instituições feudaes
essencialmente diversas das da Hespanha christã, central e occidental.
Um conde, um senhor (_princeps terrae_), um alcaide de castello
(_municeps_) eram n'este paiz existencias e castelleiros (_castellani_)
dos paizes feudaes. A influencia franceza introduziu na Hespanha muitas
fórmulas da organisação aristocratica chamada feudalismo, mas na
essencia a indole wisigothica da sociedade hespanhola subsistiu sempre
atravez d'essa influencia. É isto o que nos dizem claramente as leis e
os factos, os documentos, os monumentos e a historia.
No seculo XI o systema feudal chegou ao seu desenvolvimento completo. Os
feudos, amoviveis a principio, tinham-se tornado hereditarios, e a
feudalidade tinha-se estendido não só á terra, mas aos cargos, ao
serviço publico, a tudo. A perpetuidade foi o seu primeiro caracter: a
soberania do feudatario em seu feudo, o segundo. Satifeitas as
obrigações dos serviços do senhor territorial para com o suzerano, elle
exercitava livremente em suas terras todos os actos, que n'um governo
absoluto dos tempos modernos póde exercitar o rei. O terceiro caracter
do feudalismo, que consistia nas relações mutuas entre os nobres e entre
estes e o monarcha ou suzerano supremo, era todo, por assim dizer,
exterior á organização interna do dominio feudal. Estes tres caracteres
são os que distinguem essencialmente aquelle systema politico. Tudo o
mais é variavel, accessorio, incerto[36]. Dão-se porém esses caracteres
no que se chama feudalidade hespanhola? Não; porque as instituições do
paiz lhes eram contrarias. O feudalismo invadindo a Peninsula aninhou-se
geralmente nas fórmulas, mas nunca pôde penetrar no amago da organização
social.
Eu já lembrei o absurdo que resulta de suppôr que ao _dote_ de D. Urraca
se tirou uma porção para dar tambem _em dote_ a D. Theresa. O mesmo
absurdo resultaria de suppôr que ao feudo do conde Raimundo se tinha
tirado um fragmento para infeudar a Henrique. Mas já na instituição
d'aquelle feudo da Galliza occorre outra difficuldade: ou os condes e
senhores, que vemos governarem differentes districtos de Galliza e
Portugal antes de Raimundo, tinham todos morrido e _sem filhos_, quando
este foi posto no governo do territorio gallego e portuguez, ou d'este
successo resulta igual absurdo. Associar com taes factos a idéa de
feudalismo é em meu intender gerar uma monstruosidade; é pretender
destruir incompatibilidades indestructiveis; é tirar ao feudalismo o seu
primeiro caracter.
A célebre carta de Affonso VI ao conde Henrique, ácerca da demanda que
corria entre o bispo de Coimbra e um tal D. Cibrão sobre a aldêa de
Golpelhares, em que diz que não a concederá (_outorgabo_) ao D. Cibrão
se pertencer ao mosteiro de Vacariça[37], seria um attentado flagrante
contra o direito feudal, como elle se achava já constituido n'aquella
epocha; seria offender a soberania do feudatario dentro dos seus
territorios, se Portugal fosse possuido pelo conde segundo os principios
da jurisprudencia feudal.
Lemos na _Historia Compostellana_[38] que, tendo o conde Raimundo feito
uma lei para obviar a certas vexações que padeciam os burguezes de
Compostella, na qual impunha aos transgressores penas pecuniarias, vindo
depois Affonso VI fazer as suas devoções a Sanctiago, os cidadãos e o
proprio consul Raimundo lhe pediram a confirmação d'ella para que fosse
valedoura no futuro. Ou Raimundo, tendo vindo do paiz do feudalismo,
ignorava completamente os principios essenciaes do direito feudal, ou
não se considerava de modo algum como senhor feudatario da Galliza,
aliás regeitaria similhante confirmação.
Poderia citar centenares de factos análogos, que estão demonstrando que
taes feudatarios não existiam na Hespanha. Mas a demonstração capital
d'esta verdade resulta da impossibilidade em que estava o paiz de
admittir esses extensos feudos.
As situações hierarchicas dos senhores de terras nos paizes feudaes eram
n'aquelle tempo diversas. Os _vavassores majores_, ou _barões_, eram os
feudatarios da corôa; abaixo d'estes ficavam os simples _vavassores_ e
_castellani_, subfeudatarios dos primeiros[39]. Esta graduação era
possivel em França, por exemplo, porque no tempo das conquistas dos
francos nas Gallias, os capitães das hostes (_herzoge, koninge_),
tomando para si vastas extensões de territorio, as tinham repartido pelo
seus guerreiros. Passando da vida errante á existencia fixa, os barbaros
sentiram logo a necessidade do principio hereditario applicado á
propriedade territorial. D'aqui os feudos e subfeudos, e as obrigações
diversas inherentes aos possuidores d'elles. Mas as hierarchias não se
alteravam á mercê suzerano supremo; o filho do barão era barão como seu
pae, o filho do vavassor, vavassor como este. Os factos que se possam
apresentar de algum modo em contrario, ou foram practicados em terras
que fossem primitivamente _allodios reaes_ (correspondentes aos nossos
_reguengos_), que o rei podia infeudar a um vavassor para o elevar á
hierarchia de _Baro_, ou custaram muitas guerras, incendios, e mortes;
isto é, nasceram da violencia e da extra-legalidade, e não das
instituições feudaes, a que seriam perfeitamente contrarios.
Na Hespanha, porém, a elevação de Raimundo e de Henrique não foi
resultado de uma conquista. Os territõrios da Galliza dados áquelle, e
os de Portugal dados a este, para governarem como condes, estavam
libertados do jugo árabe, na sua maxima parte, e regidos por condes,
senhores, maiorinos, alcaides, etc., que, admittindo ser então a
organisação politica da sociedade Hespanhola feudal, eram (pelo menos os
condes) _barões_, isto é, feudatarios immediatos do rei. E como
consentiriam estes _vavassores majores_ em passar para a classe de
simples _vavassores_, o que de necessidade aconteceria se na realidade
se tivessem creado então estes dous grandes feudos? Como não apparece o
menor vestigio de resistencia a essa violação do direito politico do
paiz?
Sei que os que imaginam existirem na Hespanha instituições feudaes
poderão talvez soccorrer-se ás clausulas, que no pacto successorio entre
Raimundo e Henrique assentam nos principios de direito feudal[40].
D'estas passagens muitas outras se poderiam colligir dos diplomas e
memorias d'esse tempo; mas n'este documento, que era um tractado
secreto, não admira que os dous principes, sendo ambos francezes,
contractassem debaixo dos principios da jurisprudencia patria, ou que,
bem como acontece nos outros diplomas, em que se acham passagens
analogas, houvesse n'elle um abuso de terminologia feudal accommodada ás
instituições hispanicas, vindo assim a significarem as palavras _ut sis
inde meus homo, et de me eam habeas domino_, que o conde Henrique
ficaria com o governo de Toledo, como conde delegado n'aquella
provincia, reconhecendo a supremacia real de Raimundo n'esse districto,
emquanto Portugal ficava sendo estado separado e independente.
Que se fazia este abuso de termos da Peninsula é incontestavel. O
_Feudum reddibile_ não existia ainda n'aquella epocha, porque só
appareceu quando, degeneradas as instituições feudaes, a palavra
_feudum_ começou a servir para indicar todo o genero de transmissão
incompleta de propriedade[41]. Não podia, portanto, ser conhecido na
Hespanha no principío do seculo XII um genero de falso feudo, que se
oppunha á mesma essencia da propriedade feudal--o hereditario e a
perpetuidade. Todavia a _Historia Compostellana_ assevera que o
arcebispo de Santiago dera ao de Braga certas propriedades _ad tempus
pro feudo_, e este declara que as recebera _in praestimonium sive
feudum_, d'onde claramente se vê que então se tomava _feudo_ por
synonymo de _prestano_, sendo aliás coisas diversissimas[42]. A rainha
D. Urraca, tendo comprado ao mesmo arcebispo de Santiago o castello de
Cira, pediu-lh'o depois _in pheodum_, diz o historiador compostellano, e
elle lh'o concedeu com a condição de que logo que lhe fosse pedido o
entregasse[43]. Se entendessemos, porém, a palavra _pheodum_ na sua
verdadeira accepção, não houvera sido impossivel similhante contracto?
Vemos, pois, que a idéa de ter sido dado Portugal em feudo ao conde
Henrique é tão repugnante e inadmissível como a de lhe ter vindo em dote
de sua mulher. Resta só um meio para deixar de attribuir pura e
simplesmente á revolta do conde a sua independencia politica.
Este meio consiste em suppôr que, morrendo Affonso VI sem filhos varões,
o conde julgasse que o reino se devia dividir entre suas filhas; que a
sua mulher tocava, pelo menos, a provincia que elle governava; e que
finalmente se estribasse n'este fundamento para não se reconhecer
subdito de D. Urraca. Similhante idéa parece ter occorrido ao
respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, quando por
occasião do célebre pacto successorio, diz que «_os dois condes_, vendo
que a _herança_ de tão vastos e ricos estados, a que por suas mulheres
_tinham direito_, lhes escapava das mãos..... isto devia.....
inspirar-lhes o pensamento de se prevenirem, etc.»
Tal reflexão, creio eu, não fizeram os dois condes pela mui simples
razão de que não a podiam fazer; tal motivo não tiveram porque não o
podiam ter. A razão do pacto, a meu ver, não foi mais que um calculo de
forças: os dois condes unidos assim eram naturalmente mais fortes que
qualquer outro competidor ao throno que por morte de Affonso VI se
alevantasse. O conde Raimundo entendeu, e entendeu bem, que valia a pena
de sacrificar uma parte de territorio á ambição de Henrique, com a
condição de cingir a corôa d'Hespanha. Do theor o pacto successorio se
vê que este negocio começou a ser tecido em Cluni; porque este celebre
mosteiro era então o foco de todos os grandes enredos politicos, e
exercia uma influencia immensa na curia romana, sempre prompta para
proteger novidades uma vez que estas lhe produzissem as celebres
_benedictiones_[44], de que tantas vezes falla á _Historia
Compostellana_. E com effeito o negocio tinha assim todas as
probabilidades de bom resultado, se a morte, como costuma, não viesse
baralhar as combinações humanas.
Disse que Raimundo e Henrique não podiam ter tido por motivo do pacto a
consciência de um direito commum a ambos; porque tal direito seria
sonhado. Que!? A coròa do reino leonez-castelhano era alguma herdade,
aldêa, mosteiro, _testamento_[45] emfim, que se repartisse entre
herdeiros, ficando a este o quarto, a outro o sexto, a aquell'outro o
resto? Se o fosse, que deveriamos nós chamar a Raimundo, o qual se
contentava com tomar para seu quinhão _hanc totam terram Regis
Aldephonsi_, ou ao conde Henrique, que promettia ajuda-lo em tão sancta
e louvavel empreza? Porque haviam assim de ser espoliadas as outras
filhas de Affonso VI, entre as quaes se contam algumas com mais
segurança legitimas que a mulher de Henrique?[46] Raimundo poderia
talvez julgar-se com justiça na successão, por ser sua mulher a filha
mais velha de Affonso VI: o hereditario da corôa começara de havia muito
a fixar-se por direito consuetudinario opposto ao direito politico
escripto, e Urraca devia succeder a seu pae por este _costume_, que
apenas deixava a sentença do codigo wisigothico a tal respeito, como
simples e mera formalidade: Henrique, porém, nada tinha que vêr em
similhante negocio, e só legalmente lhe cumpria obedecer ao novo
monarcha, como obedecia a Affonso VI.
Mas, dir-se-ha, Raimundo podia d'antemão ceder uma parte da monarchia,
que lhe havia de pertencer, a Henrique, seu cunhado, primo e companheiro
d'armas, a fim de que este o ajudasse com a força a tornar effectivo o
seu direito de successão, se este direito existia[47]. Não! A indole das
instituições hespanholas oppunha-se formalmente a similhante cessão.
É preciso em todas estas averiguações não esquecer nunca um grande facto
social d'aquella epocha, facto que o historiador-philosopho Martinez
Marina provou irrecusavelmente, e que derruba pelos fundamentos essas
explicações violentas de um acontecimento mui simples--a revolta do
conde Henrique. Este acontecimento não deshonra o conde, porque elle não
podia ter as idéas de estreita legalidade, que nós hoje exigimos e
devemos exigir dos homens politicos. No seu tempo a força corria
trivialmente parelhas com o direito: era esta uma das infinitas e
pessimas consequencias moraes da barbaria e rudeza dos tempos. Do mesmo
modo nenhuma nódoa póde pôr nos fastos gloriosos da nação essa origem
menos ajustada pelas regras da jurisprudencia politica d'aquellas eras.
Toda a nação independente legitimamente o é, seja qual for a historia do
apparecimento da sua individualidade ou da sua organisação. Nem a França
recusa a usurpação de Pepino, ou de Hugo, nem a Inglaterra a conquista
de Guilherme o _Normando_: essas nações possuem sobeja luz de gloria
para desvanecer taes sombras. Será o velho Portugal mais pobre e obscuro
do que ellas?
O facto, digo, de que nunca nos devemos esquecer é, que a monarchia
fundada por Pelaio nas Asturias, e que depois se chamou Leão e Castella,
não foi uma nova sociedade que appareceu; não foi uma nova raça que pela
conquista substituísse no dominio da terra uma sociedade conquistada o
dissolvida. A monarchia leoneza foi a reacção wisigothica contra a
invasão arabe: mais nada. O throno de Leovigildo recuou deante do throno
dos califas até as margens do Deva, e d'abi voltou a Toledo. Ida e volta
foi por uma estrada coberta de cadaveres, e a viagem gastou tres
seculos. Mas com esse throno, na fuga e no triumpho, as instituições, as
leis, quasi os costumes, que o rodeavam, subsistiram por largo tempo. As
_Partidas_ de Affonso o _Sabio_ são a declaração de que a sociedade
wisigothica tinha emfim expirado, depois de dilatada agonia. Este codigo
feudal-canonico-romano é o verdadeiro ponto d'intersecção entre a
monarchia germanica e a monarchia moderna; e ainda áquem das _Partidas_,
quantas reminiscencias, quantos costumes, quantas leis, enraizadas no
solo Peninsula pela cuidadosa cultura dos godos, melhor radicadas talvez
ainda, como as arvores robustas, pelo tufão terrivel da conquista arabe,
não ficaram vivas, perennes, activas, no meio da sociedade moderna!
Ninguem mais que nós os filhos das Hespanhas se abraça ternamente com as
usanças do passado. É que ainda em nossas veias gira muito sangue dos
godos. Na historia das instituições, os povos da Peninsula são mais
velhos do que elles pensam.
Todos sabem que o codigo das _Partidas_ pertence á segunda metade do
seculo XIII, e que a epocha de Affonso VI pertence aos fins do XI, e
primeiros annos do XII. Para outro logar deixamos o exame das
alterações, quasi todas formaes e poucas substanciaes, que os francos
introduziram na organisação politica da Hespanha: é, porém, indubitavel
que a natureza da monarchia não tinha sido mudada. A substituição do
hereditario ao electivo na successão havia-se convertido em uso, é
verdade; mas este uso não pertencia exclusivamente aos tempos
posteriores a Pelaio. Anteriormente aos arabes, os godos tinham
conhecido a vantagem immensa d'aquelle systema de transmissão da corôa
ao systema electivo; e a successão de paes a filhos começava a fixar-se
como principio politico na côrte de Toledo, quando justamente uma
offensa feita a esse principio na enthronização de Rudericus (Rodrigo)
produziu a guerra civil, que abriu o caminho aos conquistadores
sarracenos.
A eleição do rei lá ficou, todavia, escripta na lei da terra, no codigo
wisigothico, e as consequencias naturaes do principio electivo
designadas nesta lei, e além d'isso traduzidas nos factos. A acclamação
do novo imperante, o _hominium_ ou preito e menagem que lhe faziam os
barões convocados a côrtes (_concilium_), e até a expressão de
_electus_, de que muitos reis de Oviedo e Leão usaram nos diplomas
fallando de si, provam que elles não se esqueciam de qual era o
fundamento legal da sua existencia politica[48]--a escolha dos godos.
D'esta circumstancia, d'este pensamento, que por assim dizer se achava
como incorporado no facto contrario--a successão hereditaria--e
modificava esse facto, nascia que todas as outras disposições do codigo
wisigothico, relativas ás obrigações contrahidas pelos reis no momento
da acclamação, se conservavam em vigor como nos tempos em que a
monarchia era na realidade electiva. Entre estas obrigações era uma das
mais importantes o prestarem juramento de nunca alhearem os bens ou
estados da corôa, e de não herdarem a seus filhos senão as terras ou
bens que adquirissem antes de subirem ao throno, ficando no patrimonio
do estado tudo o que depois da sua eleição n'elle tivessem
accrescentado[49]. Era a esta lei, observa Martinez Marina[50], que D.
Affonso o _Sabio_ se referia no seculo XIII, dizendo: «foro e
estabelecimento fizeram antigamente em Hespanha, que o senhorio do rei
nunca se dividisse ou alheasse.»[51] A tradição d'esta antiga
jurisprudencia veio ainda reflectir de algum modo entre nós na feitura
da _Lei mental_.
Similhante instituição obsta a que qualquer cessão de Raimundo a seu
primo tivesse validade ainda quando subisse ao throno, quanto mais sendo
apenas um simples pretendente. Assim, ao passo que se vê não ser o pacto
successorio mais que um documento da ambição dos dous condes, conhece-se
tambem que é escusado procurar n'elle o titulo da independencia
portugueza. Ainda, repito, subindo ao throno, Raimundo teria exorbitado
das suas attribuições: teria offendido uma das partes essencialissimas
do direito politico da Hespanha, se houvesse alheado da corôa uma tão
importante porção de territorio como Portugal, sem consentimento do
_concilium_, ou _côrtes_. Fernando Magno tinha entendido isto
perfeitamente quando, para dividir a monarchia em tres estados que
herdassem seus tres filhos, as convocou em Leão a fim de obter o
consentimento nacional[52].
Nestas considerações, a meu ver, está a razão capital de se dever
recusar a sancção historica a essas tradições de dotes, d'infeudações,
de direitos hereditarios, que se tem acceitado de antigas chronicas com
demasiada boa fé.
Não concluirei já agora, sem accrescentar alguns reparos aos argumentos
negativos, que faz o sabio auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, a
favor da opinião que sustenta a legalidade do acto de separação que deu
origem á monarchia portugueza.
Aquelle erudito illustre observa que, practicando o conde depois da
morte d'Affonso VI todos os actos de um soberano independente (e isto,
creio eu, ninguem contesta hoje), não appareceu um documento público em
que os leonezes accusassem Henrique e depois D. Theresa de _rebeldes_,
ou em que exigissem vassalagem d'elles; que não _ha prova alguma
positiva e certa de que por esse singular motivo fizessem a guerra aos
portuguezes_; que finalmente nenhuma das _numerosas_ chronicas
d'aquelles tempos haja feito menção da dependencia de Portugal, salvo a
_Historia Compostellana_, a que, n'esta parte, o illustre auctor das
citadas _Memorias_ parece recusar o seu assenso por ser obra d'estylo e
modo d'historiar _exaggerado_, e ás vezes manifestamente apaixonado.
O governo do conde Henrique divide-se em dois periodos distinctos: o
primeiro, que corre de 1096 até 1109, isto é, até a morte _d'Affonso_
VI: o segundo desde esta epocha até a morte d'elle proprio em 1112[53].
Quanto á primeira não pode haver questãpo sobre a sua dependencia do
monarcha: os diplomas d'esse tempo não consentem a menor sombra de
dúvida a similhante respeito. Quanto á segunda tambem me parece
indubitavel que o conde saccudiu o jugo de Leão; mas o que não posso
admittir é que os leonezes legalisassem este facto com o seu
reconhecimento antes do tempo de D. Affonso Henrique.
Bastaria dizer aqui que um argumento negativo bem pouco fôrça pode ter
contra provas em contrario deduzidas da propria natureza, instituições,
leis e costumes do paiz. Mas não ha só isso; considerando em si o
argumento, elle não parece dos mais vehementes no seu genero. Vejamos.
Primeiro que tudo, _as numerosas chronicas d'esses tempos_ parece-me uma
expressão demasiado vaga e incerta. Se o respeitavel sabio, a que
alludo, intende por _chronicas d'esses tempos_ os escriptores
_contemporaneos_ do conde e ainda de D. Theresa, que lhe sobreviveu 18
annos, eu desejaria saber onde existe esse grande numero d'ellas, para
as lêr, e evitar assim os avultados erros, em que por ignorancia das
fontes historicas terei provavelmente caído. Se intende os escriptores
dos tempos immediatos, seja-me permittido lembrar-lhe que Rodrigo de
Toledo, escrevia na primeira metade do seculo XIII[54], concorda com a
_Historia Compostellana_ em chamar _rebellião_ ao procedimento do
conde[55], e n'esse caso não é _singular_ o testimunho d'aquella
importante historia.
Eu sei que existe um certo numero de _chronicons d'esses tempos_,
publicados pela maior parte nos appendices da _Hespanha Sagrada_. Mas
infelizmente para o nosso caso, aquelles em que os successos vem mais
particularisados, e que mereceriam não o nome de _historias_, mas
talvez, alguns pelo menos, o de _chronicas_[56], não ultrapassam a
epocha d'Affonso VI. Taes são o d'Isidoro de Béja, o do Biclarense, o de
Sebastião de Salamanca, o de Sampiro, o Monge de Sillos etc. Os que
passam áquem da morte d'Affonso VI são apenas um aggregado de datas
relativas aos seculos XII e XIII e aos anteríores, datas estremes de
nascimentos, batalhas, obitos e phenomenos naturaes. Em taes monumentos,
essencialmente chronologicos, como fôra possivel encontrar a menção do
facto que pela sua propria natureza devia ser lento, e concluido por uma
série de actos graduaes e escuros, praticados successivamente durante
annos? Como se poderia achar uma historia politica em rudes apontamentos
de monges ignorantes, que muitas vezes para indicarem uma batalha
importante contentavam-se com dizer: _Era de tal_--_Foi a de Sagralias:
foi a d'Ucles_? Eu, ao menos, não creio que similhante espécie ahi se
podesse encontrar.
Mas, se abstrairmos d'estes _chronicons_, que obras historicas nos
restam escriptas n'esse tempo ou proximamente, com tal extensão, que
devamos buscar n'ellas noticia d'este facto politico e complexo? Conheço
apenas tres: a _Historia Compostellana_, a _Chronica d'Affonso VII_, e o
livro de D. Rodrigo Ximenes _Das coisas de Hespanha_. Como já notei, a
primeira e terceira chamam rebellião a esse facto: a segunda é que
guarda silencio a similhante respeito. Tire d'aqui o leitor a conclusão
que quizer, não se esquecendo que já ponderei sobre o valor historico
que me parece têr a _Chronica d'Affonso VII_.
O clarissimo auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ regeita, ao que
parece, n'este ponto a auctoridade dos historiadores compostellanos
(postoque na _Memoria sobre a origem de Portugal_ os houvesse
qualificado de _não suspeitos_) por serem _exaggerados_ e _apaixonados_.
Esta observação é exactissima. Quem ler dez ou vinte capitulos d'aquella
chronica ficará plenamente convencido de tão inquestionavel verdade, sem
que lhe seja preciso ter presente a extensa dissertação de Masdeu a este
respeito.[57] Mas o que _exaggeram_ os tres conegos de Sanctiago
auctores do livro?--A perversidade de D. Urraca, e as virtudes do
arcebispo Diogo Gelmirez. Não ha injúria que elles não vomitem repetidas
vezes contra aquella rainha, que sem ser sancta, ou pelo menos beata,
como a pinta Flores, não foi tão detestavel mulher como os tres honrados
conegos a descreveram. Por outra parte não ha lisonja ridicula ou louvor
despropositado que não dirijam ao seu velhaco, hypocrita, cubiçoso e
violento patrono. Porque serão pois elles suspeitos mostrando-se
favoraveis ás pretensões de D. Urraca ácerca de Portugal, quando, além
d'isso, não tinham motivo nenhum de odio contra D. Theresa, que
beneficiou a sé de Compostella, e que até, andando Diogo Gelmirez com a
rainha D. Urraca devastando o Minho, lhe deu aviso de que sua irmã o
queria prender ou matar? É realmente incomprehensivel para mim o motivo
por que na questão da legitimidade ou illegitimidade da separação de
Portugal a _Historia Compostellana_ haja de ser-nos suspeita por
exaggeração e parcialidade.
Finalmente, a exigencia de um documento leonez, pelo qual conste a
pretendida sujeição de Portugal, parece-me demasiado violenta. Qual
devia ser o documento? Um manisfesto? No seculo XII não creio existisse
ainda essa divindade dos homens honestos, chamada opinião pública. Nas
questões politicas recorria-se ás armas para obter justiça ou desforço,
e não se faziam allegações. Se apparecesse um tal documento, a prova da
sua falsidade seria a sua existencia; e todavia só por um manifesto
poderiam constar directamente as pretensões de D. Urraca e de Affonso
VII. Indirectamente, porém, na propria _Memoria_, a que alludo, se
lembra seu respeitavel auctor do que D. Urraca se intitúlava _rainha de
toda a Hespanha_. Que mais podia fazer? Doações em Portugal de bens da
corôa? Ninguem lh'as quizera, porque não se effeituariam, visto que
Portugal não a tinha por senhora. Providencias governativas? Não lhe
obedeceriam. De que titulo, pois, pode resultar a prova directa que se
exige?
Prova directa digo, porque só esta tinha em mente por certo o sabio, de
cuja opiniões me vejo constrangido a afastar-me, quando escreveu que não
existe documento pelo qual _conste a pretendida sujeição_[58]. Era
impossivel que elle se não lembrasse do tractado que traz Brandão[59] em
cujo preambulo se lê: «É este o juramento e convenio que faz a _rainha_
D. Urraca a sua irmã a _infanta_ D. Theresa.» Desejaria eu saber porque,
intitulando-se a viuva do conde Henrique constantemente _regina_ nos
documentos de Portugal, consentiu em um tractado de paz com sua irmã que
esta reservasse para si similhante titulo, e lhe désse unicamente o
d'_infanta_? Como se registou tal denominação no _Liber Fidei_ de Braga,
d'onde a tirou Brandão, sendo assim offensiva da legitima independencia
e senhorio real de D. Theresa?
Accrescentarei uma conjectura. O documento produzido por Brandão não tem
data. Quem lêr attentamente os capitulos 40 e 42 do livro 2.^o da
_Historia Compostellana_ poderá talvez attribui-lo ao anno de 1121, em
que D. Urraca acompanhada do guerreiro arcebispo Diogo Gelmirez entrou
por Portugal dentro, e o devastou, chegando D. Theresa ás estreitezas de
se ver cercada no castello de Lanhoso. Distraídos pelos perigos do seu
heroe Gelmirez, que n'esta occasião D. Urraca, dizem elles, quiz prende,
esqueceram-se de narrar expressamente as consequencias politicas da
guerra. Mas dos factos referidos n'esses capitulos se pode deduzir que
as duas irmãs fizeram pazes, e até os dois campos inimigos conviveram
familiarmente[60]. Aquelle tractado não é por ventura mais que o
desfècho da invasão; bem como as condições vantajosas que por elle devia
obter D. Theresa, o repentino intento de prender o arcebispo, e a
notoria perfidia e turbulencia d'aquelle sancto varão, me fazem
suspeitar que elle tramaria alguma traição contra a sua soberana, a qual
odiava cordialmente, e tractando secretamente com D. Theresa (cujo
repentino accésso de amor por um homem que lhe devastava o paiz é aliás
inexplicavel) pretenderia com a juncção das suas forças ás portuguezas
aniquilar D. Urraca. Se assim foi, porque isto é apenas uma conjectura
verosimil, habilmente andou a rainha em conceder uma paz vantajosa a sua
irmã, para poder desaggravar-se da traição de Gelmirez. Admittida esta
hypothese, o documento do _Liber Fidei_ e a _Historia Compostellana_
concorda e explicam-se excellentemente.
O titulo d'_infanta_, dado com exclusão de outro a D. Theresa, não
apparece unicamente no _Liber Fidei_. Remettendo Bernardo, arcebispo de
Toledo, a Diogo Gelmirez copia de certas letras apostolicas relativas ao
celebre Mauricio Bordino, arcebispo de Braga, envia-lhe com ellas outras
dirigidas á _infanta dos portuguezes_[61]. Vê-se d'esta passagem, da
carta do primaz que tal era o titulo diplomatico com que na côrte de
Toledo se designava D. Theresa; titulo vago, que mostra, a meu vêr, a
incerteza d'aquella côrte entre o facto, que provavelmente não tinha
fôrça para annullar, e o direito de supremacia, que julgava evidente.
Ficarei aqui pelo que toca ao facto da origem da independencia de
Portugal: algum dia examinaremos como ella se consolidou e legalisou.
Chama-nos mais grave assumpto--a historia social do nosso paiz n'essa
épocha.
*CARTA IV*
A folhinha d'algibeira, tecendo o catalogo dos nossos reis, divide-se em
quatro dynastias: a 1.^a Luso-Capêta, a 2.^a, do Mestre d'Aviz, a 3.^a
dos Philippes, a 4.^a Brigantina. A folhinha resume e representa o
estado da sciencia historica do nosso paiz.
Mas a folhinha, salvo o incompleto e inexacto d'aquellas divisões
dynasticas, tem razão. Ella tece o catalogo das familias reaes. Quem não
tem razão é a sciencia, que, annunciando a _Historia de Portugal_, em
vez de distribuir as épochas chronologicas pelas transformações
essenciaes da sociedade, sujeita a ordem dos acontecimentos sociaes ás
mudanças das raças reinantes. Isto é altamente absurdo.
Mr. Thierry, fallando das divisões dynasticas applicadas á historia
franceza, já observou a impropriedade de similhante systema[62].
«Supponde (diz elle) que um estrangeiro, pessoa de juizo, que não seja
hospede na leitura dos historiadores originaes da decadencia do imperio
romano, e que nunca houvesse aberto um volume moderno da nossa historia;
supponde, digo, que ao encontrar a primeira vez um livro d'estes lhe
corra o indice, e divise ahi por balizas, ou antes por fundamentos da
obra, a distincção das diversas raças. Que idéa quereis que faça d'estas
raças e do pensamento do auctor? Ha-de provavelmente crer que tal
distincção corresponde á de diversas gentes, ou gaulesas ou peregrinas,
cuja mistura produziu a nação franceza; e quando souber que se enganou,
que são unicamente diversas familias de principes, sobre as quaes versa
todo o systema da nossa historia, ficará sem duvida cheio
d'assombro.»--Esta reflexão do mais célebre historiador francez da
épocha presente, é inteiramente applicavel ao nosso paiz.
Com effeito, quem, á vista das diversões estabelecidas na _Historia de
Portugal_, imaginará, por exemplo, que os acontecimentos sociaes do
ultimo quartel do seculo XIII, isto é, do reinado de D. Diniz, consituem
uma divisão naturalissima, uma verdadeira épocha historica, ao mesmo
tempo que a intrusão dos Philippes apenas mereceria tal nome? Quem
adivinhará que no reinado de D. João II se completa uma revolução
capital na indole da organisação politica do paiz, ao passo que a
revolução de 1640 traz á sociedade portugueza levissimas mudanças no seu
mode de existir? Ninguem o crerá, se attendendo unicamente ás épochas
assentadas pelos historiadores se persuadir de que a historia é a
biographia dos individuos eminentes.
A historia pode comparar-se a uma columna polygona de marmore. Quem
quizer examina-la deve andar ao redor d'ella, contempla-la em todas as
suas faces. O que entre nós se tem feito, com honrosas excepções, é
olhar para um dos lados, contar-lhe os veios da pedra, medir-lhe a
altura por palmos, pollegadas e linhas. E até não sei dizer ao certo se
estas indagações se teem applicado a uma face ou unicamente a uma
aresta.
Mas é similhante trabalho desprezivel? Não por certo. Este exame miudo,
feito com consciencia, tem grande applicação, e ainda em si é
importante; mas dar-nos isso como a historia da nação é, salvo erro,
enganar redondamente o genero humano; é não perceber os fins da
historia, a sua applicação como sciencia; é sobretudo fazer uma coisa, a
que podêmos chamar novella, distincta sómente d'aquellas a que se dá tal
titulo, pelo tedioso, árido e sem sabor da leitura que offerece.
As divisões historicas actuaes nasceram d'este modo falso (por
incompleto) de considerar o passado. A necessidade de estabelecer uma
chronologia rigorosa era evidente: os factos politicos e a vida dos
homens publicos precisavam de ser fixados com exacção no correr dos
tempos, principalemente para o julgamento dos diplomas, genero de
monumentos, em que as gerações extinctas se pintam melhor, que em
nenhuns outros. O erro, a meu vêr, foi acreditar que ficando-se aqui
existia a historia: erro digo, e completo; porque nem se quer a
biographia dos homens eminentes surgiu de taes averiguações. Temos a
certidão do seu nascimento, baptismo, casamento e morte. Se foi um
guerreiro, temos a descripção das suas batalhas; se legislador, a medida
intellectual e moral de seu espirito, os seus habitos e costumes, não os
conhecemos. E porque? Porque esse homem é uma abstracção: está separado
do seu seculo. As opiniões, os costumes, os usos, todos os modos, emfim,
de existir da épocha em que viveu, são desconhecidos para nós; e todavia
tudo isso, toda essa existencia complexa de muitos milhares de homens, a
que se chama nação, devia ter uma influencia immensa, absoluta,
n'aquella existencia individual do homem illustre, que o historiador
acreditou poder fazer-nos conhecer com os simples extractos de quatro
chronicas, cosidos com bom ou máu estylo ás respectivas certidões de
baptismo, de casamento e de obito.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04
Produced by Isabel Calderon Dinis (Projecto Enclave) and
edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
Digital--http://bnd.bn.pt)
OPUSCULOS
*OPUSCULOS*
POR
A. HERCULANO
SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.
*TOMO IV*
QUESTÕES PUBLICAS
TOMO III
LISBOA
*VIUVA BERTRAND & C.^a* SUCCESSORES CARVALHO & C.^a
73, Chiado, 75
M DCCC LXXIX
*COIMBRA--IMPRENSA DA UNIVERSIDADE*
ADVERTENCIA
Propondo-nos continuar a interrompida compilação dos _Opusculos_ do
fallecido escriptor Alexandre Herculano, importa dizermos em breves
palavras qual é o nosso intuito, para que não se tomem á conta de
insensato arrojo as timidas diligencias que fazemos por cumprir um
dever, que reputamos impreterivel.
Quem leu a primorosa _Advertencia previa_ do primeiro volume d'esta
collecção sabe que o auctor resolvera imprimir de novo, de envolta com
alguns trabalhos seus ainda ineditos, os numerosos escriptos que, no
dilatado periodo de quasi quarenta annos, dera á luz, ou em folhetos
avulsos, cujas edições estavam esgotadas, ou em folhas periodicas,
algumas pouco conhecidas hoje, e todas mais ou menos difficeis de reunir
e compulsar. Como elle proprio declara, um dos motivos, se não o
principal, que o levava a «ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
parte do seu passado intellectual», era o desejo de ser um dia julgado,
com imparcialidade e justiça, pelas idéas que emittira e pelas opiniões
que sustentara. E foi para tornar mais justa semelhante apreciação que
assentou em conservar escrupulosamente a parte doutrinal dos opusculos
primitivos, junctando-lhes, apenas, as datas da sua composição; porque,
«sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
entendia que a responsabilidade seria ora maior ora menor, se porventura
se attendesse á epocha em que essas opiniões foram manifestadas.»
Fiel a estes principios, e obedecendo ao plano que traçara, conseguiu
ainda o sabio escriptor dar á luz os tres primeiros volumes da presente
collecção, nos quaes inseriu grande parte dos trabalhos que maior abalo
produziram no animo publico, pela elevação, desassombro e energia com
que ahi são tractados os mais melindrosos assumptos. Muitos outros,
porém, estavam virtualmente destinados a formar novos livros, que por
fim haviam de completar os elementos necessarios do processo, sobre que
tinha de recair a sentença definitiva dos juizes imparciaes, a quem elle
com tamanha confiança entregava o julgamento da sua causa; e são esses
trabalhos dispersos, entre os quaes ha não poucos inteiramente
desconhecidos da geração actual, que diligenciamos reunir e publicar.
É grave, sem duvida, a responsabilidade moral e litteraria que
contrahimos, escasso o tempo de que podemos dispor, debeis as forças,
nulla a competencia. Erraremos, necessariamente, na escolha dos artigos,
na ordem em que os collocarmos, na preferencia que lhes dermos, e acaso,
até, na inserção de algum que o proprio auctor excluiria, O que, porém,
podemos affirmar ao leitor é que empregaremos os maximos esforços para
que seja fidelissima a transcripção d'esses artigos: fidelissima,
dizemos, em quanto ao texto; porque a orthographia deixamol-a ao cuidado
da imprensa. Seria muito moroso, além de sujeito a frequentes
irregularidades, querer reduzir escriptos de tão differentes epochas, e
publicados em desvairadas folhas periodicas, sem unidade orthographica,
ao systema que o auctor ultimamente seguia.
Para este quarto volume da collecção geral dos _Opusculos_, e terceiro
das _Questões publicas_, escolhemos dois trabalhos egualmente
importantes, e que nos parece terem intima correlação.
O primeiro é um largo e consciencioso estudo ácerca da instituição
vincular, onde são maduramente apreciadas as vantagens e os
inconvenientes d'este modo de ser da propriedade, bem como as
difficuldades que offerecia, n'aquella epocha, a sua immediata abolição.
Este estudo, que encontrámos completo e mostra ter sido escripto sem
interrupções, ficou, todavia, inedito na sua maior parte; porque apenas
se imprimiram os tres primeiros capitulos, no jornal _A Patria_ de 8, 17
e 25 de fevereiro de 1856, e o quinto, d'ahi a tres annos, nos numeros 5
e 7 do _Archivo Universal-, a instancias do mallogrado escriptor Rodrigo
Paganino. Quaes foram os motivos que impediram a publicação dos
restantes, n'uma conjunctura em que as luminosas reflexões do auctor
podiam auxiliar a resolução do grave problema, não nos foi possivel
descobril-os; mas, com quanto a abolição dos vinculos fosse, poucos
annos depois, levada a effeito, pelas leis de 30 de junho de 1860 e de
19 de maio de 1863, aos homens competentes pertence o decidir se n'essas
leis foram, ou não, previstas com lucidez, e resolvidas com acerto todas
as diffículdades que faziam vacillar um espirito tão esclarecido e um
animo tão resoluto.
Compõe-se o segundo trabalho de uma serie de cartas, dirigidas ao sr.
conselheiro Carlos Bento da Silva, nas quaes o auctor manifesta, com a
sua habitual lealdade e franqueza, a opinião que tinha ácerca da
emigração para a America, assumpto que então preoccupava muito os
espiritos, e hoje parece não dar excessivo cuidado a ninguem. Publicadas
na _Revista agricola_ e no _Jornal do Commercio_, e sustentando
doutrinas contrarias, em grande parte, às que eram geralmente seguidas,
estas cartas levantaram clamores, que, não só interromperam um estudo
cheio de bom senso e de generosas aspirações, mas arrastaram, em breve,
para o terreno ingrato das luctas politicas a discussão, que só podia
ser proveitosa mantendo-se nas regiões serenas da sciencia. Não é, por
conseguinte, o dezejo de avivar a lembrança de uma controversia
desagradavel, que nos leva a reproduzir, sem a menor alteração, algumas
paginas mais calorosas deste trabalho litterario: fazemol-o, porque era
impossivel mutilar um escripto de tanta importancia, justamente na parte
em que o auctor, além de responder ás objecções do seu antagonista,
desenvolve e reforça com argumentos novos as suas proprias idéas.
Como succede a todos os homens que, súperiores ás preoccupações do seu
tempo e movidos por um sentimento innato de rectidão, não encobrem o seu
modo de pensar, nem sacrificam a verdade, embora tenham de censurar
amigos ou de dar razão a adversarios, Alexandre Herculano foi, por via
de regra, mal avaliado pelo commum dos seus concidadãos, e victima
frequentes vezes de infundadas e contradictorias accusações. Têm,
comtudo, os grandes engenhos e as consciencias immaculadas certa no
futuro a justiça que os contemporaneos lhes negaram; e nós cremos que o
leitor desapaixonado, comparando estes dois opusculos, distanciados até
aqui por um intervallo de cerca de vinte annos e reunidos agora no
presente volume, encontrará n'elles, como em todas as obras do auctor,
os mais claros testemunhos da coherencia das suas idéas, da
imparcialidade dos seus juizos, e da pureza das suas intenções.
_Os legatarios_.
OS VINCULOS
1876
I
*Preliminares*
O caracter mais prominente dos actos legislativos promulgados durante a
dictadura do duque de Bragança, foi a tendencia para alterar na sua
essencia, melhorando-a, a condição das classes laboriosas e productoras,
aquellas em que verdadeiramente reside a força vital da sociedade.
As leis d'essa epocha singular da nossa moderna historia tinham de
ordinario por fim principal desmoronar os alicerces do antigo systema
politico, e tornar impossivel a sua restauração. Era uma idéa grandiosa,
implacavel como o destino, que presidia á redacção de todas ellas; mas,
em quasi todas, ao pensamento da lei ou ás suas provisões ligava-se a
idéa de um allivio ou o de um incitamento á quasi unica industria do
paiz--a agricultura. Assim a lei dos foraes e a abolição dos dizimos,
destruindo os recursos de certas corporações de mão-morta e de certa
aristocracia de berço, em cuja influencia fatal se estribava
principalmente o velho systema, livravam ao mesmo tempo a propriedade e
o trabalho rural dos mais gravosos impostos; e a extincção das milicias,
dos capitães-móres e das ordenanças, ao passo que desorganisava as
resistencias locaes ás novas instituições, restituia ao lavrador e ao
obreiro dos campos o uso integral do fructo do seu suor.
A restauração era grandemente revolucionaria nas suas manifestações
legislativas; mas, como todas as revoluções vivedoiras, ella
representava uma revolução politica e ao mesmo tempo uma revolução
social e economica.
Em quanto Mousinho da Silveira influiu nos conselhos do duque de
Bragança, a restauração conservou os caracteres que lhe imprimira esse
homem singular. Os actos subsequentes da dictadura, sem deixarem de ser
logicos com os que até ahi se haviam practicado, deixaram de ter egual
alcance. A extincção, por exemplo, das ordens monasticas, ao mesmo tempo
que desprezava direitos legitimos, os que os monges tinham ás suas
dotações, e condemnava á miseria muitos individuos innocentes e
respeitaveis, atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem
previsão um enorme cumulo de propriedade territorial, que, alienada por
um systema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais util á
prosperidade geral do que realmente foi.
A suppressão das ordens religiosas e a extincção do papel-moeda
constituem os dois unicos actos de verdadeira audacia revolucionaria
practicados pelos successores de Mousinho. As chagas sociaes em que elle
não puzera o ferro ficaram. Taes foram as complicações do direito
emphyteutico, que tornam absurda essa excellente fórma de transmissão e
conservação de propriedade; taes os vinculos, instituição incompativel
com o espirito da nossa epocha e com o regimen da liberdade; taes as
contribuições municipaes sobre o consumo; taes os pastos communs, que
offerecem embaraços permanentes a uma revolução agricola, que as
circumstancias tornaram indispensavel. Toda essa farragem do passado
teria provavelmente desapparecido, se o genio de Mousinho houvesse
dirigido por mais algum tempo os destinos de Portugal.
O movimento mais ou menos bem regulado d'aquella grandiosa revolução
tinha por principal incentivo a febre de uma guerra civil violenta,
especie de duello gigante entre o passado e o futuro. Quando a lucta
cessou, o impulso reformador foi esmorecendo, e a reacção começou, como
era natural apoz tamanho abalo, a modificar os espiritos. Houve quem
parasse nos limites do justo; mas outros passaram além. Movia á piedade
a situação do clero regular; causava graves apprehensões a
desorganisação do secular; e o systema de administração franceza, cuja
adopção fôra um erro de Mousinho, funccionava mal. Estes lados da
reforma eram os menos defensaveis, e tinham contra si por um lado o
sentimento religioso offendido, e por outro o incommodo dos povos nas
suas relações administrativas. Explorou-se a mina: buscou-se tirar
partido a favor dos velhos abusos das confissões leaes d'aquelles que,
addictos ás doutrinas generosas da dictadura, eram assaz sinceros para
condemnarem os erros que se haviam commettido. Animados por essas
confissões, os interesses illegitimos, que a revolução havia ferido
profundamente, agítaram-se e conspiraram contra ella. No meio das luctas
civis que sobrevieram de novo, posto que menos violentas, e das
incertezas e perturbações publicas, devidas umas aos nossos erros e
paixões, outras a circumstancias independentes da vontade do paiz e das
parcialidades, as tradições do duque de Bragança esqueceram
gradualmente. Os exemplos de tentativas para sophismar ou destruir as
suas leis economicas não foram raros. Houve mais d'um Oza que estendesse
a mão á arca santa, não para a amparar, mas para a derribar, sem que
cahisse fulminado. Nada prova mais esse progresso gradual de reacção do
que os diversos projectos de refórma do decreto de 13 de agosto de 1832,
chamado vulgarmente lei dos foraes, e as respectivas discussões nas duas
camaras, reacção que veiu a formular-se na lei de 22 de junho. A questão
do restabelecimento completo ou incompleto dos dizimos chegou a
agitar-se nas commissões do parlamento. A idéa da reorganisação das
milicias tem passado uma e outra vez pelas cabeças de homens assaz
influentes, e porventura ahi vive ligada á existencia dos denominados
batalhões nacionaes, que successivamente perecem e renascem. O jury,
combatido a principio cora vantagem, como succede a todas as
instituições novas que por via de regra funccionam mal, accusado por
algumas das suas decisões, que a maior parte das vezes procediam e
procedeam de causas alheias à instituição, foi pouco a pouco
restringido, desnaturado, e posto á mercê dos juizes chamados letrados,
designação infelizmente inexacta em relação a muitos. Não se ponderou
que não ha jurados sem segurança publica, e que essa segurança não
existia; que não os ha sem juizes habeis, e que muitos d'elles o não
eram; que não os ha sem ensino primario, amplo na extensão e
intensidade, e que o ensino era entre nós, como ainda é, incompletissimo
em ambas as relações. Reagiu-se, em summa, no que se pôde, desde a
vaidade de ter em Lisboa um patriarcha e um simulacro de patriarchal,
inutilidades dispendiosas que a dictadura annullara, até o imposto sobre
a pesca, vexame intoleravel abolido pelo duque de Bragança em favor de
uma classe e de uma industria, que a humanidade e as boas doutrinas
economicas mandavam proteger com a melhor das protecções, a plena
liberdade.
A reacção manifestada nestes e em outros factos parece incutir já
receios em muitos homens publicos, que reflectem. N'outros uma especie
de instincto politico suppre a falta da intelligencia superior e da
razão esclarecida. Sente-se que é preciso conter o movimento retrogrado.
Em nossa opinião o remedio é simples: é voltar aos bons principios; é
comprehender bem a indole da restauração; é applicar as suas doutrinas,
modificando-as nas applicações pelo que a experiencia de vinte annos nos
deve ter ensinado. A dictadura do duque de Bragança foi demasiado curta
e tempestuosa. Fez muito; mas não podia fazer tudo. Completae a sua
obra; favorecei o augmento e o bem estar das classes productoras; ligae
os seus interesses á manutenção das instituições, e a reacção reduzida á
impotencia de uma vã theoria cessará de se reproduzir nos factos.
As questões de direito publico são graves: o respeito pelas fórmulas e
garantias da liberdade não merecem por certo o desdem com que alguns
escriptores, aliás sinceramente liberaes, as tem às vezes tractado,
desdem de que bem desejamos, por nós e por elles, não tenham ainda de
arrepender-se. Entretanto é indubitavel que o meio mais seguro de
colligir uma força moral que as mantenha é crear interesses de tal modo
ligados com a existencia d'ellas, que toda e qualquer reacção os ameace
collectivamente. É necessario que esses interesses se contraponham á
organisação social, ao modo de ser da propriedade, ao systema de
administração e de impostos, á distribuição das classes, congenitos com
a monarchia absoluta. Não ha evolução completa de progresso sem as duas
condições do melhoramento material e do aperfeiçoamento social. Podem
dar-se factos que realisem a primeira, e que todavia sejam estranhos á
fórmula politica do paiz onde se verificam. Nenhum descobrimento
contribuiu tanto para o augmento da civilisação como o vapor e os
caminhos de ferro, e todavia o vapor e os caminhos de ferro tem-se
estabelecido em maior ou menor extensão, mas com as mesmas facilidades e
vantagens, tanto na Inglaterra e nos Estados-Unidos, como na Austria ou
na Russia, sem que alterem ou devam alterar por em quanto a indole
politica ou social d'esses paizes. O erro deploravel dos adeptos de
certa escola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no
melhoramento social e moral dos povos, e aquelle que só melhora a sua
condição physica. Esses taes não contestam a superioridade do primeiro,
porque isso seria demasiado imprudente; mas julgam ter cumprido com o
que devem ás doutrinas que professam, limitando-se a applaudir quaesquer
tentativas mais ou menos imperfeitas para se obter o ultimo. Dir-se-hia
que para elles o homem interior em relação ao homem physico equivale a
zero á esquerda de qualquer algarismo. E todavia não é assim. Se o povo,
deduzindo as ultimas consequencias de certas maximas que elles ás vezes
proclamam sem reflexão, se entregasse nas mãos do primeiro despota que
lhe promettesse o bem estar material; se essa triste philosophia do luxo
e dos gosos, que dominava no imperio romano sob a tyrannia dos Cesares,
chegasse a gangrenar inteiramente as sociedades modernas, horrorisados
da obra para que teriam contribuido, apressar-se-hiam a renegar a
propria escola e a alistar-se n'aquella, que, sem desprezar o homem
exterior, não esquece que ha n'elle uma coisa interior chamada a
consciencia, que reclama a liberdade e a dignidade como condições
impreteriveis em todo e qualquer progresso das sociedades humanas.
É debaixo da impressão d'estas doutrinas, e convencidos da sua
importancia, que vamos escrever. Os estudos que iremos successivamente
publicando não são um trabalho completo; porque talvez n'elles nenhuma
questão seja considerada sob todos os seus aspectos. São apenas
reflexões soltas que temos lançado ao papel nas diversas epochas em que
circumstancias especiaes nos obrigaram a volver a attenção para os
negocios publicos: são simples apontamentos, posto que coordenados e
ampliados agora. Podem ter erros; mas a intenção que os dictou é leal. O
auctor nunca poz a penna a soldo de partidos ou de escolas; nunca
mercadejou com a sua razão, nem com a sua consciencia. Á falta de outro
merecimento, estes estudos tem o da convicção sincera.
II
*Processo agricola.--Propriedade rural.--Opportunidade da discussão*
Apezar do impulso dado ao desinvolvimento agricola pelas leis da
dictadura de 1832, as consequencias de certos factos historicos, de
certas instituições abusivas, que por seculos haviam esmagado o paiz,
ainda em parte se experimentam. Remover essas instituições; neutralisar
os effeitos d'aquelles factos é completar a revolução politica pelo
complemento da revolução economica.
A extincção dos dizimos, das milicias, das ordenanças, das prestações
foraleiras deram á lavoira uma extensão imprevista, e a situação do
cultivador portuguez melhorou sensivelmente. Se por uma parte os
methodos sempre cambiantes da percepção dos tributos, aliás viciosos na
sua essencia, não houvessem substituido por gravames novos os gravames
antigos, posto que em muito menor escala; se, por outra parte, a grande
propriedade não fosse ainda demasiado preponderante; se a falta de
proporção entre o accrescimo da cultura e o accrescimo da população não
houvesse augmentado, pela subida do salario, o custo das producções,
cujo valor a concorrencia nos mercados tem ido progressivamente
diminuindo; se a falta de instituições de credito agricola e a derivação
dos recursos pecuniarios do paiz para a agiotagem, resultado de uma
pessima administração da fazenda publica, não houvessem tornado o
capital esquivo á agricultura; se o quasi nenhum melhoramento das vias
de communicação não pesasse indirectamente sobre os productos; se o
atrazo da instrucção popular não inhabilitasse o homem do campo para
simplificar os methodos e instrumentos de cultura; se finalmente um
falso systema de protecção não difficultasse indirectamente ao productor
portuguez o accesso aos mercados estrangeiros; a industria agricola
entre nós teria chegado ou chegaria em breve a uma situação brilhante.
Descentralisação administrativa; divisão razoavel de propriedade;
construcção de estradas geraes e caminhos concelhios; simplicidade e
ordem no systema tributario, tanto geral como municipal; meios de crear
o credito rural accommodado aos habitos e necessidades do paiz; impulso
á instrucção popular, ou antes nacional, substituindo o impulso, talvez
excessivo, dado á instrucção litteraria e superior; mudança gradual e
reflectida do systema protector para o systema da livre permutação, a
que só se poderá chegar pela descentralisação administrativa; eis o que,
em nosso intender, constituiria em geral o complemento da revolução de
1832. Por esses meios, desinvolvidas as forças productivas da terra em
toda a sua energia, o accrescimo da população acompanharia o accrescimo
de trabalho; o valor d'este se harmonisaria com o das subsistencias; o
producto liquido guardaria sempre proporcionalidade com o producto
bruto, ou, pelo menos, seria bastante para se accumular em capital e
converter-se em instrumento de producção; e emfim a grande industria
nacional, livre de peias e, ainda melhor, de uma falsa protecção,
influiria poderosamente no progresso da industria fabril e do commercio,
cuja prosperidade é impossivel onde a agricultura definha debaixo do
peso de instituições ou incompletas ou absurdas.
De todas estas questões, cuja solução importa a este grande problema,
nenhuma, se exceptuarmos a da liberdade do commercio, é tão grave,
difficil e importante como a da divisão do sólo, isto é, da fórma e
condições da propriedade territorial em relação á industria agricola.
Debatendo-a, não só se discute uma das principaes materias economicas:
discutem-se, digamos assim, as bases da sociedade civil.
A revolução de 1832, a unica revolução séria que tem havido em Portugal,
occorreu, entre outras coisas, ao damno e á vergonha, a que os erros dos
nossos antepassados nos haviam conduzido, de comprarmos aos
estrangeiros, durante uma parte do anno, a subsistencia de uma população
pouquissimo numerosa em relação ao nosso territorio, e que uma
insignificante industria fabril por certo não distrahia do trabalho
agricola. Mas as grandes providencias d'essa epocha não deram nem podiam
dar á industria e á população rural um impulso de maxima energia.
Deram-lhes apenas o que procede da libertação da terra, da cessação de
certas rapinas senhoriaes e fiscaes, e, consequentemente, o impulso
indirecto que provinha da maior facilidade de produzir subsistencias,
cuja abundancia e barateza, sempre progressivas, nos tem efficazmente
convertido, no fim de quinze ou vinte annos, de importadores em
exportadores. Os outros meios de augmento de população e de industria
agricola, que eram consectarios do largo systema que a revolução
adoptara, não se pozeram por obra desde que os dois elevados espiritos
que tinham encetado a reforma radical do paiz desappareceram, um no
tumulo, outro no esquecimento ingrato dos seus concidadãos.
A redempção da terra pela destruição dos antigos vexames devia
completar-se, de feito, por instituições e leis cujas tendencias fossem
accordes com as da revolução. Desde que pelas providencias da dictadura
de D. Pedro se entrava no caminho da reforma; desde que se fazia sair a
agricultura da immobilidade e somnolencia em que jazera por seculos;
desde que se lhe dizia «caminha!» era necessario acabar de lhe pôr
franca a estrada, removendo todos os obstaculos á sua marcha ulterior.
Não succedeu, porém, assim. Um dos factos mais importantes da historia
da nossa fazenda publica prova que o systema da revolução, ou não foi
comprehendido, ou foi promptamente abandonado por aquelles que deviam
manter as tradições d'essa epocha.
A lei dos foraes e, ainda mais do que ella, a extincção da maior e mais
opulenta parte das corporações de mão morta trouxeram á massa de bens
publicos uma porção avultadissima de propriedade rural. Calcular com
alguma certeza os valores, os capitaes possuidos por essas corporações
abolidas, ou rehavidos pela reversão gradual dos bens da corôa, é
dífficillimo, senão impossivel, pelo pessimo methodo com que taes bens
foram e tem sido incorporados na fazenda e depois alienados. Não será
porém excessivo o algarismo de cincoenta a sessenta mil contos. Mas
esses bens eram na sua maxima parte predios rusticos, ou censos e
pensões sobre elles, symbolo do senhorio directo e portanto equivalentes
de um capital. Tendo-se aberto uma nova era ao progresso da agricultura,
os homens publicos d'então deviam pensar que não seria indifferente e
sem influencia na economia social do paiz o destino que se désse a tão
avultada somma de instrumentos de trabalho rural. N'um paiz de vinculos,
de commendas, de bens de corôa, devia suppôr-se que a grande propriedade
não estava em equilibrio com a pequena. Não era, porém, necessario
suppol-o. Sabia-se que só na provincia do Minho preponderava a ultima, e
que nas outras províincias predominava a primeira, sendo quasi exclusivo
esse predominio na mais extensa de todas, o Alemtejo. Cumpria, portanto,
comparar os resultados económicos e sociaes da grande e da pequena
propriedade. Este exame mostraria, quanto a nós, a necessidade de
favorecer a multiplicação dos pequenos predios, sobretudo no centro e no
sul do reino. Não se fez, porém, isto. A massa enorme de riqueza
territorial possuida então pelo Estado, a qual na maxima parte poderia
ter cabido em mãos laboriosas e humildes por emprasamentos de superficie
limitada, ou que, pelo menos, poderia ser vendida depois de retalhada,
alienou-se por um systema absolutamente contrario. Dividida a
propriedade tornar-se-hia accessivel a todas as condições e fortunas
pelo emprasamento, e pela venda a milhares de pequenos peculios. Em vez
d'isso cahiu geralmente nas mãos de homens opulentos, trocou-se por
capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que
conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto
n'um mercado onde reinava pela abundancia a depreciação do genero, e
onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter
muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais
importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindicação parcial
dos bens da corôa para o patrimonio publico, e da extincção das
corporações religiosas.
Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuasão de que a grande
propriedade era mais util do que a pequena? Não o cremos. A verdadeira
razão era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado
as indemnisações; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os
lucros cessantes, as perseguições que se haviam padecido por causa de
opiniões. A religião do juramento, a fé nos principios, a lealdade á
dynastia legitima deixaram de ser uma herança de honra para se legar
como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os
heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdicação moral quasi
completa, a que a historia fará justiça. Para as indemnisações a
alienação em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da
conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do _Deve_
em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no
governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos,
judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que
tinham ante si, e talharam a reparação pelo valor da presa cubiçada.
Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os
bens nacionaes, maior porção d'elles seria necessaria para satisfazer
indemnisações exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que não
serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial,
desbaratou-se por preços insignificantes. Os capitalistas vieram
substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os
heroes e os capitalistas foram ao templo dar graças aos deuses. A
republica estava salva.
Então seguiram-se quinze a vinte annos de revoluções tão estrondosas
como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram,
digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes,
vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e
cubiçosos (os ambiciosos são raros no nosso paiz) que ora se apoderaram
do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando não no exilio: houve
todas as convulsões, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal,
de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. Só
faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da acção
administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento
innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a
consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos
actos da revolução de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro
talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi
compensou o bem que fez com os males cuja semente lançou á terra,
transportando do campo da theoria para o dos factos as idéas
proteccionistas. Ainda eram, comtudo, idéas: ainda era um reflexo de
1832. Depois só houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso,
independente das instituições, das leis e da acção administrativa, que
se realisou n'este periodo, tem-se devido ás idéas e aos esforços
particulares, á razão e á actividade dos cidadãos, movendo-se n'um
ambiente de liberdade intellectual; porque é preciso confessar que
n'esta longa epocha de pequenas paixões e de turbulencias interminaveis
a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, fóra da esphera
politica, tem sido geralmente respeitada.
O cansaço quebrou por fim a violecia das facções e trouxe o periodo do
repoiso. Boas ou más que fossem as doutrinas dos partidos militantes,
ellas eram bandeira, não crença. A prova ahi está na historia dos
ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opiniões,
porque não tinham sido senão o estandarte dos interesses particulares, e
porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles
interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combinação politicamente
possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava
de muitos, descreu de todos. É um mal ou um bem absoluto? O futuro o
dirá. O que é certo é que desanimou e tornou-se indifferente aos
partidos. Entretanto é incontestavel que vivemos n'uma quadra
tranquilla. Que os homens influentes da situação o attribuam, não á
indifferença do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos
sanguinolentos e devastadores, mas sim á illustração, á justiça, á
moralidade e ao liberalismo do poder, e á sua propria philosophia
politica, que se remonta acima da comprehensão de nós outros homens
vulgares, que importa? É uma rixa domestica; é uma questão entre os
labios e a voz intima do coração. Nada temos com isso. O que nos importa
é o facto, e o facto é que gosamos de paz e de liberdade de discussão
ácerca de todas as materias politicas e sociaes. A quem nos deixa isto
deve-se perdoar alguma coisa. Pode-se ter qualquer sentimento a respeito
dos homens da situação: ter-lhes odio seria impossivel. Estão abaixo e
além d'isso.
E no meio da paz e da liberdade da palavra e da escripta apparecem
tendencias, e mais do que tendencias, esforços para a realisação de
novos progressos. O governo actual é arrastado pela opinião publica,
como o seria qualquer outro que o substituisse, a melhorar as
communicações internas, e no Minho ergue-se o povo para tomar n'esta
parte a iniciativa. As questões d'instrucção popular, que passavam
desapercebidas, excitam já a attencão e o interesse: não tardará que a
opinião reclame a sua solução practica tão imperiosamente como reclama
as estradas. As doutrinas da liberdade da industria e do commercio não
só combatem face a face as preoccupações contrarias, mas até são
chamadas á prova, e legitimam-se pelos resultados. Os espiritos começam
a comprehender que o credito rural pode deixar de ser uma utopia, a
associação uma vã palavra. No parlamento é atacada a instituição dos
vinculos, e parece aproximar-se a ultima ruina d'estes. O governo,
emíim, abriu o caminho para se chegar um dia ao verdadeiro systema
tributario, sem o qual o triumpho completo do livre commercio e da livre
industria é impossivel. Por ora a repartição do imposto directo,
substituida á decima, pouco mais é do que uma troca de palavras, e Deus
queira que não deixe de o ser antes de tempo; mas o povo vai-se afazendo
á idéa, e é essa uma grande difficuldade vencida para o futuro.
Estes factos são importantes, e estão, em geral, no espirito da
revolução de 1832; mas todos elles tem uma desenvolução posterior, e
essa desenvolução é que ha-de aproximal-os ou afastal-os do systema
d'aquella epocha. Oppõem-se-lhes as tendencias reaccionarias, algumas
das quaes já se manifestam nas leis e traduzem-se nos factos. Quando em
muitos animos preponderam os desejos da restauração do passado; quando
estes desejos começam a apparecer na legislação, é preciso estar de
sobreaviso para que a reacção se não introduza no progresso sob o manto
da imparcialidade. É esse o perigo das doutrinas, que nos aconselham
afastemos os olhos das questões de ordem moral para só pensarmos no
melhoramento material. Servirão taes doutrinas a tal ou tal situação,
porque precisará d'ellas para se absolver a si propria; mas não servem
ao paiz, e podem ser ainda fataes áquelles mesmos que as propugnam.
Cumpre na desenvolução de cada reforma ligal-a pelas suas condições ao
systema da liberdade.
Se repetidos exemplos de corrupção fizeram descrer o paiz dos homens
publicos, o progresso material, desligado e independente das condições
politicas da sociedade actual, pode fazel-o descrer d'essas condições. O
governo representativo não é commodo nem barato. É preciso que o povo
considere as vantagens do bem estar como inseparaveis dos incommodos e
sacrificios que as instituições exigem. O triste espectaculo, que hoje
presenceamos, de uma grande nação privada dos seus fóros é a mais
tremenda lição que nos offerece a historia sobre as consequencias de
converter o porco de Epicuro em symbolo exclusivo da religião social.
III
*Abolição dos vinculos*
O pró e o contra
Entre as reformas pendentes merece attenção particular a abolição dos
vinculos. Agita-se hoje essa questão, á roda da qual vêm accumular-se
outras mais graves. Considerada em si, e só em relação aos seus
resultados economicos, a extincção d'esta fórma de propriedades
realisar-se-ha de um modo. Considerada em relação a todas as
consequencias da medida, tanto economicas como sociaes e politicas,
ha-de realisar-se de outro. A abolição dos morgados e capellas pode, até
certo ponto, remediar o mal que resultou do systema inconveniente
adoptado na distribuição e alienação dos bens nacionaes, se essa
abolição se reputar um problema subordinado, uma hypothese que entra na
questão geral da organisação da propriedade em relação ao bem estar
material, moral e politico da sociedade. A esta luz a solução da questão
geral determina forçosamente a da hypothese. Não é possivel, portanto,
separal-as. Nas considerações que vamos fazer, considerações talvez
incompletas, mas que cremos uteis, procuraremos quanto fôr possivel
attingir á generalidade.
As principaes objecções que se podem oppôr á existencia dos vinculos são
de diversa ordem: moraes, politicas e economicas. Uma parte d'ellas
entram na questão geral da grande e da pequena propriedade. Outras
pertencem á ordem politica e á ordem moral.
Oppõe-se aos vinculos que, sendo estes uma fórma de propriedade em que o
direito de testar é tirado ao possuidor d'ella, convertido em simples
administrador, falta a este o principal estimulo para os melhoramentos
permanentes. Tudo pelo contrario o incita a tirar dos predios que possue
a maxima utilidade pessoal. Salvas as hypotheses de viva affeição
áquelle, que, não elle, mas a lei e a instituição fazem seu herdeiro, ou
de uma decisiva paixão pela agricultura, o administrador do vinculo será
sempre o peior entre os proprietarios ruraes, e a terra vinculada será
constantemente um modelo de atrazamento e de incuria, um obstaculo
permanente ao progresso agricola. A historia e o estado dos vinculos em
Portugal demonstram _a posteriori_ a verdade e o alcance d'esta
objecção.
A instituição vincular é injusta excluindo os irmãos menores de egual
quinhão na herança paterna, tornando-os dependentes, por um subsidio, do
irmão mais velho, ao passo que não podem obstar a que este annulle os
recursos para o pagar. Aquelle incerto meio de subsistencia é, alem
d'isso, um incentivo de preguiça e ignorancia, uma fonte de irremediavel
miseria para o homem a quem um berço illustre poz sem culpa sua fora do
direito commum.
O vinculo é a negação permanente de uma das primeiras condições da
propriedade: n'elle os dois dominios estão incorporados n'um só, mas
esse dominio não está _actualmente_ em parte nenhuma. Ficou, digamos
assim, chumbado na campa de um tumulo: o tumulo retem-n'o até o fim das
gerações. O morto desmentiu o direito dos vivos. O seu herdeiro, o homem
que lhe succedeu na posse da terra e que elle chamou a isso por um acto
livre e espontaneo, é pouco mais que um simples usufructuario. Mas ha
outro que deva depois d'elle succeder com pleno direito, porque o
affecto nascido dos laços domesticos ou do sentimento da gratidão moveu
o instituidor a tornal-o proprietario d'essa terra apoz o
quasi-usufructuario? Não ha. Ha só uma serie de descendentes que o
instituidor desconhece, e, na falta d'estes, os de collateraes que não
lhe importam. O fundador de um vinculo não fez mais do que empilhar os
corpos de individuos tirados das diversas gerações para sobre elles
assentar o throno da sua vaidade. Decretou-se homem grande: teve pena de
que o futuro esquecesse personagem tão importante. Certa escola
socialista mais moderada nega no que possue o direito de testar: os que
estabeleceram a jurisprudencia dos morgados foram os precursores d'essa
escola. Os antigos sacrificavam ao Deus desconhecido, _ignoto deo_; os
instituidores de vinculos sacrificam _ignoto homini_.
Os vinculos refogem, pela condição da inalienabilidade, aos impostos
sobre transmissão por venda. Tornam, n'esta parte, em virtude de um
privilegio, impossivel de se realisar ácerca d'elles a proporcionalidade
constitucional das contribuições.
A existencia dos vinculos, derivando de um privilegio, está
absolutamente em antinomia com a lei política, não se provando que essa
existencia seja de utilidade publica.
Admittidos entre nós os vinculos em epochas, nas quaes o atrazo agricola
tornava pouco productiva a terra, esta só podia constituir um morgado ou
capella importante, vinculando-se uma immensa extensão de solo. No meio,
porém, de população rara e de cultura pouco intensa e pouco frequente,
elles não ofereciam grande obstaculo á exploração da terra. Agora,
porém, que já o agricultor arrosta com os terrenos de segunda qualidade,
e que a população se desenvolve e cresce, cada decada, cada anno, cada
dia estão mostrando mais claramente o absurdo de se conservarem
terrenos, muitas vezes de primeira ordem, incultos ou mal cultivados por
causa de uma instituição, cuja existencia não é legitimada por nenhum
motivo attendivel.
A propriedade d'esta especie esta em regra condemnada á ruina e ao
atrazamento. O predio vinculado, passando livre ao successor, é uma
pessima hypotheca. O capital não se põe em contacto com elle senão por
meio de exorbitantes usuras. Comprehende-se como um mau administrador de
vinculo para satisfazer os proprios appetites ou paixões sacrifique á
agiotagem um futuro que é seu; mas não se comprehenderia egual
sacrificio da parte de um homem cordato, que pretendesse applicar um
capital avultado aos melhoramentos de propriedades arruinadas pelo
desleixo e falta de economia dos seus antecessores. Embora as
bemfeitorias sejam encargo transmissivel, é certo que o dinheiro seria
sempre incomparavelmente mais caro para elle do que para o proprietario
cujos bens podem ser executados, e o dinheiro caro é para a agricultura
do nosso paiz como se não existisse.
Na verdade, trazida sem restricções a propriedade vinculada ao direito
commum, o mau administrador desbarataria facilmente os proprios haveres;
mas o bom poderia com uma parte d'esses bens, por qualquer modo
alienados, tornar solido o resto da sua fortuna: mais; poderia tirar do
sacrificio os meios de dar á porção salva um valor egual ou maior do que
tinha todo o vinculo. Por certo que para isso necessitava de actividade,
de economia e de intelligencia; mas favorecer taes dotes não seria uma
das menores vantagens da abolição.
Se a facil divisão do solo tem em geral uma grande importancia economica
e social; se a tem egualmente a facil transmissão pelos contratos de
compra e venda; os vinculos, contradizendo completamente esses dois
factos, devem cessar de existir.
Taes são as considerações principaes que se offerecem ou podem offerecer
para se abolir esta forma especial de propriedade. Os seus defensores
recorrem não raro a subterfugios e a razões insignificantes. Ha todavia
algumas considerações que parecem favorecer os vinculos. Contrapol-as às
allegações em contrario é mostrar que se busca sinceramente a verdade.
O direito de propriedade é virtualmente atacado na abolição dos
vinculos. O instituidor de qualquer d'elles estabeleceu-o em bens seus
inteiramente livres, e sem offensa das leis de successão. Se elle tinha
o direito de testar esses bens, tinha tambem o direito de regular o modo
de succeder, de limitar e impôr condições á fruição do que era seu.
Nas monarchias representativas considera-se a existencia das
aristocracias como um facto social legitimo. Pelas instituições esse
facto é convertido em principio politico manifestado no pariato: ou,
antes, o facto indestructivel da desegualdade social é circumscripto por
aquellas instituições dentro da orbita politica, ficando ao mesmo tempo
excluido das relações civis legaes. Desde que, porém, a aristocracia,
representante da desegualdade, é considerada como elemento politico,
torna-se necessario garantil-a. Os vinculos, destinados a manter e
perpetuar as familias aristocraticas, estão portanto essencialmente
ligados á existencia da monarchia representativa.
A divisão indefinita do solo tem os inconvenientes que a França, onde as
instituições de direito publico e de direito civil a favorecem
excessivamente, já experimenta em larga escala. A idéa de allodialidade
absoluta da terra, e de favor para a subdivisão contínua da propriedade,
prevalecendo entre nós no commum dos espiritos, e manifestando-se já nas
tendencias de certas leis, ha-de emfim vir a produzir os mesmos males
que produz em França e em outros paizes, e contra os quaes varios
estados de Allemanha tratam de prevenir-se por via de leis positivas e
terminantes. A existencia dos morgados estabelece uma compensação a
similhantes tendencias, e equilibra a grande e a pequena propriedade.
Suppondo, porém, que em geral a grande propriedade prepondere hoje;
suppondo ainda que a parte allodial d'ella se não transforme pelo
decurso do tempo, e que resista ás tendencias e leis que favorecem a
divisão do solo; nem ainda assim os vinculos devem ser abolidos por
manterem a grande propriedade. Esta não pode ser considerada como um
inconveniente, visto parecer demonstrado que a grande cultura produz
mais barato, que dá em resultado maior producto liquido, e que não ha
grande cultura sem vasta propriedade. Deduzir da situação accidental dos
vinculos, situação que ainda se não examinou se podia ser melhorada,
argumentos contra a essencia de uma instituição, que pode contribuir
para a creação de importantes valores, parece pessima logica e ainda
peior economia politica.
Na hypothese, porém, de que a propriedade perfeitamente livre tenda sem
remedio a subdividir-se indefinidamente, opinião que tem por si os
factos e as previsões de distinctos economistas, abolidos os vinculos,
que é o que fica para satisfazer á necessidade economica da existencia
de grandes predios ruraes?
A centralisação é o grande defeito dos governos representativos:
centralisação da soberania; centralisação da administração pelo
executivo; centralisação da justiça; centralisação da força publica. Mas
todos os poderes centraes tendem a destruir a independencia ou a acção
uns dos outros e a elevar-se acima d'elles. Não raro acontece isto, e a
experiencia ensina-nos que por via de regra é o executivo quem triumpha,
sobre tudo pelos meios de corrupção, triumpho tanto mais perigoso,
quanto é certo que se mantem de ordinario as apparencias
constitucionaes, e que esse absolutismo é mais facil de sentir do que de
demonstrar quando acata certas formulas tornadas estereis. A força dos
agentes administrativos é, n'esta hypothese, immensa; porque se
multiplica de um modo incalculavel a energia da centralisação já d'antes
exaggerada. Abolindo-se os morgados e capellas, e destruindo-se por esse
modo a grande propriedade e as influencias dos nomes historicos, não se
faz mais do que remover obstaculos ás demasias dos delegados do poder
central. O _cavalheiro de provincia_, essa entidade com recursos
materiaes e moraes para contrastar a autocracia do funccionalismo,
cessará de existir. Retalhados os predios allodiaes pelas heranças, os
morgados seriam o ultimo e unico refugio da resistencia legal ao
despotismo da centralisação administrativa.
Ainda outros argumentos a favor da manutenção dos vinculos se costumam
deduzir de certa ordem de considerações moraes. Tal é a difficuldade de
os abolir sem offender direitos adquiridos ou as regras da equidade. Mas
tambem os adversarios dos vinculos vão buscar nessa mesma ordem de idéas
considerações que se oppõem á sua conservação. Subsequentemente teremos
de avaliar alguns d'esses encontrados argumentos quando a successão das
idéas nol-os suggerir. Aqui só quizemos indicar as ponderações mais
graves que mutuamente se contrapõem sobre um problema, de cuja solução
pendem muitos interesses, não só geraes mas tambem particulares, e em
que por isso as exaggerações e argucias são frequentes e é difficil a
imparcialidade.
Basta porém attender ás considerações principaes para se conhecer que a
sua confirmação ou refutação dependem do modo de resolver os mais serios
problemas sociaes, taes como a indole e fins das aristocracias nas
sociedades modernas, a organisação do poder central, e o equilibrio
politico pela descentralisação administrativa, as vantagens e os
inconvenientes da grande e da pequena propriedade, da grande e da
pequena cultura, as leis que determinam o augmento da riqueza publica,
tudo, emfim, quanto mais intimamente se liga com o progresso material e
moral do paiz. Importa ter idéas claras ácerca d'esses graves assumptos
para dar um voto sobre a questão dos morgados. Sem isto os instinctos ou
os interesses de classe, de partido ou de individuos influirão
exclusivamente na abolição ou não abolição, e, supposta a primeira
hypothese, nas disposições da lei por que forem abolidos.
IV
*O principio vincular considerado na sua legitimidade*
A primeira consideração que parece favorecer a conservação dos vinculos
é de ordem juridica; liga-se com a maxima questão social--o direito de
propriedade. O commum dos morgados em Portugal foram instituidos em
terças, de que os instituidores podiam livremente dispor; e quando, com
licença do rei, então arbitro supremo, abrangiam os bens de legitima,
resalvavam-se os alimentos, a que se entendia terem jus os filhos por
direito natural, que ao rei não era licito infringir. Os instituidos,
com permissão regia, em bens de corôa, em commendas, etc., ou fundados
por individuos sem herdeiros forçados, é evidente que não offendiam
direito algum particular, e que o instituidor não fazia senão practicar
um acto legitimo, dando esse futuro destino a bens que podia livremente
testar, ou de que a auctoridade suprema lhe consentia dispor para esse
fim como de cousa propria. Assim a abolição, destruindo a fórma e
condições impostas na transmissão da propriedade pelo proprietario,
negaria retroactivamente o uso de um direito legitimo. A lei pode
prohibir as novas instituições vinculares; mas não pode converter o
administrador em proprietario, nem regular a successão dos bens de
vinculo pelo direito commum.
Na verdade os instituidores de morgados tinham o direito de transmittir
a propriedade de que livremente podiam dispor com as condições que
entendessem; mas as consequencias que d'ahi se deduzem estão longe de
serem incontestaveis. Se admittis a doutrina que apenas estriba o
direito de propriedade nas leis positivas, é evidente que ellas podem
modificar, restringir e até annullar esse direito. Se, com mais razão,
considerais a propriedade como de direito natural, ainda assim as
difficuldades subsistem. As opiniões variam ácerca da extensão d'esse
direito. Ha quem negue que a successão testamentaria e _ab intestato_ se
inclua n'elle; não seja de pura instituição civil: ou, por outra, que o
direito de propriedade possa subsistir além do tumulo. O acto, porém, de
instituir um vinculo não é mais do que levar o exercicio d'esse direito
não só além da morte, mas tambem á perpetuidade. Supponhamos, todavia,
que a successão esteja envolvida no direito natural da familia. Não se
comprehende melhor como a successão vincular se haja de fundar em tal
direito. Que é o que transmittiu o instituidor? Apenas uma parte do
dominio. Nenhum dos seus herdeiros tem o dominio absoluto dos bens do
vinculo: o que tem é, digamos assim, apenas meia propriedade. Resulta
d'aqui um facto. Pela nossa jurisprudencia os morgados extinguem-se: e
esta extincção dimana da sua natureza. Quando ao ultimo administrador
não restam parentes consanguineos, que tambem por consanguinidade o
sejam do instituidor, o morgado acabou. Os bens vinculados devolvem-se
então á corôa, á fazenda publica, á sociedade. Por mais intimos que
sejam os laços de familia que unam o derradeiro possuidor com outros
individuos, esses individuos são excluidos. Comtudo a legitimidade da
successão nos vinculos, como em outra qualquer propriedade, estriba-se
forçosamente ou na lei civil revogavel, ou no direito natural da
familia. N'esta ultima hypothese o vinculo repugna ao principio da sua
propria validade. Porque veiu a succeder o Estado? O dominio residia
n'elle? Dir-se-hia que sim. A idéa de semi-propriedade é uma idéa de
restricção, limitativa: cumpre por isso que exista a cousa restringida,
limitada. Concebe-se, por exemplo, perfeitamente o usofructo nos bens
não vinculados: após o usofructuario ha sempre um herdeiro definitivo.
Nos morgados não acontece assim. Existe á limitação sem a cousa
limitada, se não suppozermos o Estado revestido d'aquelle dominio que
não existe no possuidor. Em relação, pois, ao direito natural da
propriedade a existencia dos vinculos é uma cousa incoherente,
contradictoria, inexplicavel.
Mas ha uma consideração ainda mais grave a oppor áquelles que invocam os
fundamentos do direito em favor d'essa instituição. É que, para
subsistir, ella carece absolutamente das leis de privilegio. A sociedade
deve proteger o livre uso da propriedade e as disposições testamentarias
em quanto ellas se conformam com o direito commum. Lei de excepção para
taes ou taes hypotheses é que não deve nem pode admittir senão por um
motivo que virtualmente o faça entrar na regra geral--a utilidade
publica; e a utilidade publica só pode qualificar-se por uma declaração
legal, por uma disposição de direito positivo. Declarada não util a
existencia dos vinculos, o direito politico faz desapparecer
necessariamente desde logo as leis que mantêm os vinculos. Revogadas
estas, como se não pode conceber propriedade sem proprietario, ou o
dominio completo dos bens de morgado será considerado como _nullius_ e
recahirá no Estado, ou esse dominio se incorporará no meio dominio,
convertendo-se o administrador em proprietario. Seria, com effeito,
absurdo que qualquer individuo tivesse o direito de regular a applicação
e uso dos proprios bens _post mortem_ por tal arte que não se houvesse
de realisar a sua vontade sem certas disposições especiaes de direito
positivo, e que a sociedade fosse constrangida a promulgar ou a manter
semelhantes disposições. A soberania de tal homem excederia a da razão
publica, unica de legitimidade indubitavel.
A abolição, pois, dos vinculos, ou, para falarmos mais exactamente, a
revogação das leis positivas que os protegem, e sem as quaes a sua
existencia não se comprehende, respeita o direito de propriedade. A
questão pode versar sobre a conveniencia ou não conveniencia do
principio vincular, e sobre a maneira da abolição ou da conservação, mas
nunca sobre o direito que o paiz tem de retirar o seu apoio a esta
antiga instituição.
Tirada, porém, a base de um direito primitivo e indestructivel, os
defensores dos morgados appellam para o direito politico. A monarchia
representativa consagra o principio da desegualdade social, fazendo-a
representar pela aristocracia de berço, cuja conservação forçada deriva
da indole do pariato hereditario. Exigindo-se para este, além de outras
habilitações, uma renda avultada, importa que as instituições e as leis
mantenham a perpetuidade d'essa renda, em harmonia com as que consagram
a perpetuidade das funcções. A permanencia dos vinculos assegura esse
resultado, ao passo que a sua abolição importa a não existencia do
pariato hereditario.
A lei politica estabelece o pariato hereditario e o vitalicio; mas nem
determina a proporção de um ou de outro, nem, rigorosamente, exige a
existencia simultanea de ambos. Não a exige, porque seria absurda essa
exigencia. Sem as leis organicas e com a Carta na mão, o rei poderia
substituir o par fallecido sem herdeiro que o representasse por um par
vitalicio. Esta hypothese verificada em vinte ou trinta casos teria
acabado com o pariato hereditario. Vice-versa o rei poderia deixar de
supprir os logares vagos por morte dos pares vitalicios, ou tornal-os
hereditarios e acabar assim com a não hereditariedade.
A lei de 11 de abril de 1845, exigindo, além de outras habilitações, uma
certa renda ao individuo que succede no pariato, levou em mira a
manutenção da dignidade e independencia dos membros da camara alta. Ora
essas condições não podem verificar-se com uma renda imaginaria: é
preciso que esta seja real e effectiva. Mas são justamente os vinculos
que menos asseguram a realidade e effectividade de semelhante renda, e
que ao mesmo tempo offerecem mais meios para ser sophismada a letra e
desmentido o espirito da lei. O mau administrador de morgado (e a regra
é ser mau administrador do fundo quem não passa de pouco mais de
usufructuario) pode reduzir-se a si proprio á miseria dentro de um ou
dous annos, e perder a independencia e a dignidade que a lei requer
n'elle: pode, até, transmittir ao seu successor a propria miseria,
porque são vulgarmente sabidos os alvitres de que usa o capital, ou, se
quizerem, a agiotagem, para illudir o principio da immunidade vincular.
Na apparencia, porém, a renda exigida pela lei continua a subsistir: o
fundo não desapparece: o administrador actual lá possue nominalmente
_uma casa_ de quatro, seis ou oito contos de réis. Na verdade hoje não
tem que almoçar, ámanhã não terá que jantar; ao seu successor acontecerá
o mesmo; mas que importa? A letra da lei está salva: o que se annullou
completamente foi o seu intuito, o seu espirito, a razão que a
sanctificava. Se os bens do par fossem sujeitos á lei commum, este facto
servir-lhe-hia de poderoso incentivo para ser um cidadão economico,
activo e bem morigerado; porque a manutenção da dignidade de par, em si
e n'aquelle que houvesse de succeder-lhe, dependeria d'essas virtudes,
virtudes que aliás não deixariam de influir nas suas opiniões e no seu
procedimento politico, e de reverterem em beneficio da republica.
Mas admittamos por um momento que o pariato hereditario seja inseparavel
da existencia dos vinculos. Não se segue d'ahi a necessidade de os
conservar. É facil reformar o artigo constitucional que consagra
simultaneamente a hereditariedade e o vitalicio no pariato, reduzindo-o
a esta ultima fórmula. Se a abolição dos vinculos involve um grande
interesse social, a solução mais razoavel será a suppressão da
hereditariedade do pariato, suppressão que em nosso modo de ver
representaria um verdadeiro progresso na organisação politica, acabando
com uma idéa falsa.
Esta idéa, na qual se estriba o pariato por successão, é a de que a
aristocracia, elemento politico, é forçadamente o mesmo que a
aristocracia de linhagem: ou, por outra, que o facto indestructivel da
desegualdade humana se ha de manifestar eterna e quasi exclusivamente na
fórmula dos tempos feudaes.
É uma opinião que vale a pena de se examinar.
V
*Desegualdade e personalidade*
A desegualdade natural entre os homens tem sido negada de um modo
absoluto nos tempos modernos: tem-se empregado todas as subtilezas da
philosophia do direito para demonstrar a possibilidade de destruir um
facto indestructivel. Tudo nasce, em nosso entender, de se confundirem
as idéas de diversa ordem.
A egualdade civil não é só possivel, é necessaria. Deriva do direito
natural que cada um tem de desenvolver a sua actividade até onde não
impede a desenvolução da actividade alheia. Esse direito suppõe deveres
correlativos. A sociedade existe para manter aquelle e estes. É por isso
que o estado social é inseparavel da humanidade, e que o homem da
natureza, sonhado por alguns philosophos do seculo passado como anterior
á sociedade, não passa de uma chimera. Um simples exemplo fará sentir
melhor esta incontestavel doutrina do que longas dissertações. O que,
trabalhando, deu valor a um tracto de terra desoccupado e inculto e o
fez fructificar, desenvolveu legitimamente a propria actividade. Se
outrem quizer colher os fructos ou substituir-se ao primeiro occupador
do campo agricultado exorbitará da esphera legitima da propria
actividade, e deixará de cumprir o dever de respeitar a livre acção
alheia. N'este exemplo se resumem e symbolisam as infinitas relações
civis que a sociedade mantém e que correspondem ás idéas de egualdade.
As instituições que asseguram o livre movimento do individuo dentro da
esphera da propria acção, sejam quaes forem, são instituições de
liberdade, porque mantém a egualdade civil.
Mas a egualdade civil importa a desegualdade social. Outro exemplo
tornará tambem evidente esta doutrina. Se em campina illimitada e
fertil, mas sem dono e inculta, dous individuos occuparam dous tractos
de terra diversos, e um d'elles dotado de maiores forças physicas, de
melhores instrumentos, de maior energia e actividade, assignalou mais
extensa área aos proprios esforços e accumulou maior somma de trabalho
intelligente, e por consequencia maior somma de productos, nem por isso
o menos forte e menos habil pode queixar-se de que elle penetrou na sua
esphera de legitima actividade. Se pretendesse que a sociedade
repartisse com elle uma parte dos valores creados pelo seu vizinho,
pretenderia uma injustiça--a quebra da egualdade civil. Por outro lado,
se o mais robusto e intelligente, pretextando a incapacidade relativa,
physica e moral, do menos energico e menos habil, pretendesse
apoderar-se da terra e dos instrumentos do pequeno cultivador, a
sociedade seria injusta se lhe désse razão; se tolerasse que elle
estendesse a esphera da propria actividade até penetrar na esphera da
acção alheia: toleraria a quebra da egualdade civil, se não mantivesse
cada qual na orbita que lhe fôra assignalada pelo supremo direito da
natureza.
Se a manutenção, porém, do livre exercicio da actividade dos vizinhos
era n'este caso equivalente á manutenção da egualdade e da justiça, as
consequencias que derivassem d'esse facto, e só d'elle, seriam tambem
incontroversamente legitimas. Ora uma d'ellas, a mais importante, havia
de ser forçosamente a desegualdade social; a desegualdade d'aquellas
relações cujas normas se estabelecem, em parte, pelas regras a que
chamamos direito publico, direito que a razão e a historia nos
apresentam como mais cambiante, menos conforme no espaço, e menos
permanente no tempo, do que as regras das relações civis. A desegualdade
social dos dois vizinhos manifestar-se-ia em muitos factos
impreteriveis. O que por excesso de energia e de trabalho tivesse obtido
melhores, mais numerosos, e mais variados productos, gosaria mais, e
necessariamente, pela intelligencia e pelos recursos materiaes,
exerceria maior influxo no animo dos outros homens. A sua generosidade
fora mais ampla, a sua hospitalidade mais opulenta, o seu tracto mais
aprazivel, a sua opinião mais seguida: isto é, elle seria socialmente um
algarismo em relação ao qual o seu vizinho representaria outro bem
inferior. E todavia a desegualdade nascida da egualdade não offenderia o
direito, não seria senão justiça.
O arroteador do grande predio é o symbolo da aristocracia: como emanação
do direito fundamental que virtualmente a gera é que esta se absolve e
legitíma. Mas d'ahi nasce o corollario de que ella é essencialmente
individual, personalissima. A desegualdade não é de gerações, de
linhagens predestinadas: é de individuos. Por isso as suas manifestações
collectivas, para serem naturaes e logicas, devem ter ao mesmo tempo o
sello da individualidade. A aristocracia, como entidade real, é uma
concreção necessaria, mas artificial; é a generalisação da idéa das
desegualdades individuaes; é a incorporação das maximas forças sociaes;
é o reconhecimento e a organisação de um facto impreterivel.
Na verdade, superioridade social herdada e derivando do direito natural
da familia pode em alguns casos ser legitima; mas é accidental, e vem
entrar em ultima analyse na regra da superioridade individual. Se o pae,
que era um membro da aristocracia pela sua riqueza, a legar ao filho,
este o será como seu pae, independentemente de todas as instituições
positivas, do mesmo modo que deixará de o ser na realidade desde o dia
em que perder essa herança, sejam quaes forem as leis que pretendam
manter-lhe um caracter social que lhe desappareceu da fronte.
A fórma por que adquiriu os valores, que o convertem em uma força de
excepção, nada importa, uma vez que seja legitima. É indifferente que
lh'os désse o trabalho, a intelligencia ou o berço. O importante, o
indispensavel é que elle actualmente os possua: que exista um facto que
a força bruta pode destruir, mas que a razão publica não pode deixar de
reconhecer.
O influxo moral de um nome illustre, herdado de antepassados, é tambem
uma força social. Esse influxo constitue a nobreza, a qual, não sendo em
rigor um facto indestructivel, é todavia uma realidade. A democracia,
quando o condemna ou o nega, engana-se. O valor da _aristocracia de
sangue_ assenta n'uma ordem de idéas extranha ao direito; procede do
sentimento, digamos assim, poetico das sociedades, porque todas as
sociedades tem a sua poesia. A esta luz nada mais legitimo do que a
fidalguia; porque o senso esthetico é uma condição natural das
sociedades civilisadas, e o orgulho pelas tradições gloriosas do passado
constitue uma parte da sua vida moral. A nobreza de linhagem é um
monumento do passado. Os que pretendem expungil-a da lista das
manifestações da vida social devem por maioria de razão mandar destruir
os tumulos dos heroes e dos sabios, e dispersar-lhes as cinzas ao vento,
quebrar-lhes os bustos e as estatuas, arrazar os templos, os obeliscos,
os monumentos, sejam quaes forem, que ligam as glorias do passado ao
presente pelas recordações. Aquelle que affirma ser coisa absolutamente
van a herança de um grande nome, não chame vandalo ao que derriba a
quadrella da muralha ou a torre do castello antigo para calçar as ruas.
Este não faz mais do que elle: nega a significação dos monumentos; nega
tudo aquillo que só a poesia nacional sanctifica. N'este systema a unica
maneira de ser rigorosamente logico é ir até aonde foi a revolução
franceza de 1793. É necessario que ao lado das pedras, que desabam,
rolem pelo chão as cabeças.
O facto social, em que se estriba a aristocracia de linhagem, está,
porém, ligado a uma condição que forçadamente dá a esta o mesmo caracter
de personalidade, que é indelevel nas outras especies de aristocracia.
Essa condição deriva do principio de que o poetico é inseparavel do
moral, o bello do bom. Ora o que se eleva acima dos outros, porque
herdou um nome venerado pela opinião, está adstricto a respeitar a
moralidade dos seus actos para não perder essa _força_ herdada, que não
póde existir sem a sua condição philosophica. Esta doutrina é confirmada
plenamente pela observação practica. Os netos degenerados dos homens
grandes, se os depojardes de todas as distincções facticias que servem
de encobrir o vicio e a incapacidade, invocarão debalde o nome de seus
avós como uma _desegualdade_, uma _força_, que os eleva _socialmente_
acima d'aquelles que _civilmente_ são seus iguaes. O sentimento moral,
que exteriormente se traduzia em consideração e respeito, desappareceu
ao passo que a lei esthetica se annullou. Assim a nobreza hereditaria,
dependendo inteiramente da acção do individuo, entra na lei geral da
aristocracia--a personalidade.
O erro dos escriptores democraticos, que entendem ser possivel a
destruição _effectiva_ de uma classe aristocratica, procede de
confundirem a fidalguia hereditaria com a do corpo aristocratico; de
tomarem a especie pelo genero. É possivel que a especie chegue a
desapparecer temporariamente, ou por degeneração moral dos individuos
que representam as velhas linhagens, ou pela extincção d'estas; mas o
tempo sanctificará as novas illustrações que se alevantam, e em quanto
as nações tiverem o sentimento do bom e do bello, isto é, em quanto
tiverem uma condição sem a qual não podem existir, a progenie d'esses
homens summos herdará a força moral de seus nomes, e só a perderá
destruindo-a pela _villania_ pessoal.
Mas extincta ou existente, brilhante ou obumbrada, a fidalguia não é uma
formula essencial da aristocracia. Para ser revalidado o protesto da
desegualdade social em todas as gerações, não é necessaria a assignatura
das castas; não é preciso que esse protesto seja firmado com sellos
blasonados. O genero fica, embora a especie desappareça.
Reflectiram bem os que dizem que as sociedades caminham á completa
egualdade democratica, porque se facilita o caminho das mais elevadas
situações, das mais poderosas influencias, a todas as vontades
energicas, a todos os talentos fecundos, e porque, do fastigio das
grandezas e do poderio, familias e individuos caem facilmente na
obscuridade e na impotencia social? Esta observação, que muitos julgam
profunda, não passa de uma trivialidade sem alcance. A questão é se esse
fastigio, esse poderio, essas influencias, essas manifestações, em
summa, da desegualdade humana desappareceram; se podem desapparecer ou
se ha sempre, ou não ha, sujeitos em quem ellas se personalisem; se,
collocados em situação identica e tendo interesses communs, elles
constituem ou não uma entidade moral juxtaposta ou sobreposta á
democracia. Eis a questão. Que importa se a preeminencia do individuo se
explica por um testamento, por um berço, pelo genio, pelo trabalho, ou
por um acaso feliz? Seja qual for a origem d'essa preeminencia, d'essa
força, a sociedade pode negal-a, combatel-a, annullal-a temporariamente;
o que não pode é impedir a sua reproducção. A desegualdade é a lei: a
aristocracia a sua manifestação indestructivel.
No mosaismo e no brahmismo o sacerdocio foi e é a herança de tribus ou
de castas privilegiadas; no christianismo, porém, o sacerdocio acceitou
sempre homens de todas as condições e hierarchias. Desde a dignidade do
metropolita até ás humildes funcções do ostiario, que situação houve ou
ha na igreja, a que igualmente não houvessem ou não hajam de ser
chamados o nobre, o burguez, o filho da plebe? E todavia o clero foi por
seculos a mais poderosa aristocracia conhecida. As tradições de
influencia e predominio do corpo ecclesiastico perderam-se, alteraram-se
acaso, porque não era a hereditariedade do berço que as mantinha? Não
era e não é o corpo do clero a negação da familia, e por consequencia da
hereditariedade? Houve nunca, especialmente durante a idade media, uma
classe social mais compacta, mais distincta das outras, com interesses
mais exclusivos, com uma acção collectiva mais irresistivel e incessante
na vida das nações? O clero que combatia nos campos, nas conspirações, e
nos parlamentos contra o poder central; que não raro o fazia ceder, e
que o esmagava algumas vezes, valia bem mais do que essa fidalguia
hereditaria dos ultimos seculos, que vivia das migalhas distribuidas
pela côroa, e que, sem iniciativa nem vigor, comprava com genuflexões
nos paços do rei a altanaria que ostentava nas ruas e praças do povo.
Parece-nos evidente que a aristocracia, ao passo que é indestructivel
como elemento social, é no concreto e em relação aos individuos
essencialmente pessoal e por consequencia movel. Assim, na sua
manifestação politica, não pode perder esse caracter que lhe é
essencial.
Pouco tardará a epocha em que a razão triumphe das preoccupações, a
realidade de hoje das tradições de uma sociedade que deixou de existir.
O pariato deve tornar-se em breve simplesmente vitalicio e talvez
amissivel. Dado e não concedido que a existencia dos vinculos fosse uma
condição impreterivel do pariato hereditario, a abolição d'elles não
faria senão apressar n'esta parte convenientemente a reforma das
instituições politicas.
VI
*Os vinculos garantia de liberdade*
Demonstrado, como parece, que nem na abrogação do direito vincular se
offende principio algum de justiça absoluta, nem a manifestação politica
das desegualdades sociaes está ligada á existencia dos vinculos, antes
de entrar nas difficeis questões economicas que este debate suscita,
passemos a examinar o que ha mais grave nas objecções politicas que se
offerecem contra a abolição d'esta fórma especial de propriedade. As
considerações sobre as resistencias, que uma aristocracia territorial
permanente e hereditaria pode oppôr ás demasias de um poder central
excessivamente forte, parecem-nos fundadas, e nunca se poderão
desprezar, em quanto o nosso systema administrativo fôr, como é, uma
copia, mais ou menos mal delineada, do systema administrativo da França.
Na verdade hoje a unica resistencia séria, que os abusos do executivo e
dos seus delegados podem encontrar em certas provincias, é a d'essa
especie de aristocracia rural, que vulgarmente se designa pelo nome de
_cavalheiros_. A illustração e a riqueza, não excessiva mas solida,
consistindo geralmente em bens territoriaes, pertencem principalmente a
esta classe nos districtos do norte do reino, onde predomina quasi
exclusivamente a pequena propriedade. Sem a fundação de municipios assaz
vastos e poderosos, mas organisados de modo que a vastidão do territorio
não faça com que a administração se difficulte aos administrados; sem as
magistraturas municipaes recuperarem a força primitiva que
successivamente perderam; sem um novo methodo de renovação d'essas
magistraturas, que mantenha na administração dos concelhos a sequencia e
unidade de systema e de idéas; sem se lhes restituirem as funcções que
lhes são proprias e que a centralisação lhes traz alheadas; sem, em
summa, restaurar a vida municipal, de que resta apenas um vão simulacro;
o correctivo contra os abusos do poder central só pode consistir nas
resistencias legaes e pacificas dos individuos que, pelo respeito
tradicional do povo ao nome da sua familia, pelos recursos materiaes de
que dispõem, pela maior cultura intellectual, pelos instinctos generosos
que lhes inspira uma educação mais elevada, constituem um elemento
poderoso de equilibrio. Quem tem residido nas provincias do norte ou por
ellas viajado sabe que naquella classe é que principalmente se dão essas
condições de superioridade individual, que suppre até certo ponto nas
relações politicas a falta ou o incompleto das instituições locaes.
É preciso notar aqui um facto, que ao diante havemos de ponderar mais
detidamente. Os vinculos nas provincias do norte não tem em geral os
mesmos caracteres que nas provincias do sul: aproximam-se mais, nas suas
condições economicas, dos bens emphyteuticos, e não é raro achar
individuos que se denominam morgados e que não passam de possuidores de
prazos. Tão facil é neste ponto a confusão das cousas pelos accidentes
externos. Em geral, o vinculo dos districtos do norte ou é instituido em
uma ou mais propriedades de mediocre grandeza, ou em propriedades e em
direitos dominicaes. Mas o que em todo o caso se pode affirmar é que as
grandes fortunas vinculares são raras. Os poucos inconvenientes
economicos dos vinculos mediocres havemos de avalial-os n'outra parte.
Para o intuito presente o que importa é attender ás consequencias
politicas da sua abolição. Ou mediocres em si, ou compostos de diversas
e pouco vastas propriedades, e de censos e pensões senhoriaes, entrando
esses vinculos no direito commum, as leis da successão e os accidentes
da vida, que accumulam ou dissolvem mais rapidamente as pequenas do que
as grandes fortunas, fariam desapparecer em breve a aristocracia
provincial, e por conseguinte um poderoso elemento de resistencia ás
demasias da auctoridade central, e uma importante garantia de liberdade.
Mas, dir-se-ha, assim como a desvinculação, o livre movimento da
propriedade, produziria a dissolução das fortunas e das familias
patricias, tambem esse movimento elevaria, como já eleva, outras
familias, crearia, como já cria, outras fortunas, e uma especie de
aristocracia movel e pessoal substituiria a hereditaria como elemento de
resistencia e equilibrio. Em these a resposta é concludente: o que não
tem é applicação á hypothese.
'Nesta, o argumento a favor dos vinculos estriba-se em factos
transitorios e especiaes, factos que só o tempo e os progressos sempre
lentos da civilisação moral e material podem destruir. De certo os
vinculos não são de um modo absoluto obstaculo ás demasias do poder
nesta especie de organisação plethorica, de apoplexia administrativa
eminente em que vivemos. São-no relativamente. A restauração da vida
municipal, a descentralisação bem caracterisada; seria o remedio natural
e completo contra os excessos do executivo. Com elle, não só a
aristocracia permanente e hereditaria, mas tambem a individual e movel
seriam inuteis como obstaculos ou instrumentos de equilibrio. Mas
tracta-se do presente, e no presente as condições da nossa sociedade dão
todo o valor ás considerações politicas em que os defensores dos
vinculos estribam a manutenção delles.
A riqueza maior ou menor não basta para que o cidadão saiba, queira e
possa defender o seu direito ou erguer a voz a favor do opprimido. É
necessario que a educação o habituasse a uma nobre altivez ou á
independencia moderada mas firme do homem livre, e que a cultura do
intendimento o habilitasse para discernir e apreciar os proprios
direitos e deveres, e os direitos e deveres dos agentes do poder. Ora
esses dotes, nos districtos da Beira, Traz-os-Montes e Minho, dão-se
principalmente entre os cavalheiros, que, alem das idéas que lhes
inculcam na educação domestica, frequentam de ordinario os estudos
juridicos, e que, ainda abandonando a cultura das letras, não perdem
nunca, digamos assim, o verniz litterario e as idéas geraes que
adquiriram na universidade; porque a universidade, com todos os seus
defeitos, ainda é o foco d'onde irradia a luz da civilisação
intellectual para a maxima porção do paiz. Os advogados, os
facultativos, um certo numero de ecclesiasticos, e os administradores de
vinculos, constituem quasi exclusivamente a classe illustrada das
provincias sertanejas. Na verdade, o filho de um ou de outro lavrador
mais abastado, de um ou de outro industrial ou commerciante, recebe a
educação universitaria, e despido de ambições honra-se de seguir a
condição paterna; mas o geral d'estes busca na carreira das letras uma
situação mais elevada ou pelo fôro ou pela medicina ou pelas funcções
publicas. Os possuidores de direitos territoriaes ou de predios assaz
consideraveis para não serem obrigados a cultival-os pelas suas proprias
mãos, e para não procurarem um supprimento de renda pelo exercicio de
uma profissão scientifica, são quasi unicamente os administradores dos
vinculos. 'Nelles reside, por tanto, e residirá por muito tempo a
principal força de resistencia, a quasi unica barreira que encontra uma
centralisação excessiva.
Nos districtos sertanejos, nesses tractos do paiz onde vive a maxima
parte da sua população, só muito excepcionalmente apparecem os grandes
capitaes monetarios, as grandes industrias, o grande commercio, e, como
já dissemos, nos do norte até é rara a vasta propriedade. Não ha, por
consequencia, ahi as poderosas influencias pessoaes que resultam de
factos puramente economicos. As grandes influencias só podem proceder de
se darem no mesmo individuo condições de diversa ordem--a superioridade
da intelligencia, a superioridade da fortuna, a superioridade de um nome
illustre que o povo está costumado a venerar, e a elevação de animo
resultado da educação domestica, elevação de que é consectario o valor
civil indispensavel para defender a liberdade e os outros direitos, ou
proprios ou dos pequenos e humildes. Com a ruina das familias nobres
essas influencias salutares desapparecerão quasi completamente, e o
imperio das portarias e das circulares não achará limites.
O celebre dr. Johnson, fallando das substituições inglezas, dizia que
tinham a vantagem de não produzirem senão um tolo em cada familia. O dr.
Johnson fazia um epigramma de mau gosto, porque era falso. A historia
diplomatica, militar, naval, administrativa e parlamentar da Inglaterra
prova que os primogenitos da aristocracia ingleza podem ser tanto homens
grandes como os segundo-genitos, ou como os filhos da raça puramente
saxonia. Entre nós o epigramma do dr. Johnson é uma preoccupação
popular, preoccupação que invade até espiritos que tinham obrigação de
serem superiores a ella. A idéa da incapacidade dos administradores de
vinculos é tão verdadeira como a da ignorancia e imbecilidade mental dos
cistercienses, que não eram nem mais ignorantes nem mais imbecis do que
outros quaesquer frades. Os que tem visitado os districtos interiores do
reino sabem por experiencia que é no seio das familias aristocraticas
onde se encontram mais vestigios do que o antigo caracter portuguez
tinha generoso, elevado e bom, e onde se acha mais illustração, embora
misturada com os preconceitos nobiliarios. É nessa categoria que
predomina uma benevolencia efficaz e real para com as classes
inferiores, benevolencia muito mais rara entre a duvidosa burguezia
saída d'essas mesmas classes.
Esta burguezia das provincias, considerada em geral, está longe por
emquanto de ser uma forte barreira aos excessos da auctoridade central.
Os seus destinos politicos tem de ser grandes quando existirem no paiz
instituições congenitas com a indole das tradições primitivas d'elle;
quando nos cançarmos de traduzir _ad usum_ administração franceza em
portuguez bastardo. Por emquanto faltam-lhe os principaes elementos dos
que constituem a força da opinião e o espirito publico; falta-lhe a
cultura intellectual, que nos habilita para irmos até ás raias do nosso
direito sem as ultrapassar; falta-lhe o orgulho da independencia, que
está principalmente na consciencia e no caracter. Tudo isto tem
excepções, e excepções notaveis; mas fallamos da regra geral. A
burguezia mais ou menos opulenta das provincias, e sobretudo dos
districtos do centro e do norte, forma-se pela pequena industria, pelo
commercio de retalho, e pelos mediocres grangeios agricolas. Fóra das
duas cidades mais populosas, as grandes fabricas, as vastas emprezas
commerciaes, em summa, as applicações de avultados capitaes e a
existencia d'estes na mão de um individuo, são cousas raras. Mas é acaso
de esperar d'aquelle, que começou obscura e quasi pobremente a edificar
uma fortuna modesta pelo trabalho, pela parcimonia, pelos habitos da
obediencia passiva, quasi da subserviencia, sem educação politica, sem
educação litteraria, sem idéas geraes, e que depois de vinte ou trinta
annos de esforços, de prudencia, de abnegação, de sacrificios moraes e
materiaes, creou uma riqueza, que aliás poderia servir-lhe de esteio, e
inspirar audacia para manter a dignidade e independencia de cidadão de
um paiz livre; é de esperar, dizemos, de tal homem que lhe chegue tão
tarde o sentimento e a convicção profunda do seu direito e o valor
politico para o fazer respeitar do poder? Que o leitor busque a resposta
na sua razão, e, ainda melhor, na sua experiencia.
Para nós é grave, pois, a questão da existencia ou não existencia de uma
especie de aristocracia provinciana, que tenha, em geral, por titulo da
sua preponderancia o nome, a educação, e a fortuna, em quanto o
municipio fôr entre nós pouco mais de que um vão nome, ou de que uma
tapeçaria das salas administrativas. É grave essa questão, porque são
ainda graves, ao menos para nós, as questões da liberdade e da dignidade
humanas. Quando as resistencias d'essa aristocracia aos excessos a que
tende naturalmente uma centralisação exaggerada fossem demasiado
egoistas, e nunca servissem de egide ás classes democraticas
desorganisadas e opprimidas, quereriamos mantel-a como protesto, como
laço entre as tradições do passado e a organisação do futuro. Se a
historia serve para alguma cousa, lembremo-nos de que o absolutismo se
erguia em Portugal á altura de uma instituição quando a um chefe da
aristocracia do paiz rolava a cabeça pelo cadafalso, e outro cahia
apunhalado aos pés d'aquelle monarcha, tão caro a uma democracia
inintelligente, que substituiu a vontade real, como principio politico,
ao rude esboço de monarchia representativa com que a sociedade
portugueza vivera e progredira durante mais de tres seculos. Diminuir as
resistencias individuaes ao absolutismo do executivo, em quanto se não
criam resistencias collectivas, é um erro profundo. Direitos, que não
tem força para se traduzirem em factos, são, por nos servirmos de uma
phrase de Shakespeare, palavras, palavras e mais palavras. São isto, e
nada mais.
VII
*Difficuldades moraes e economicas na abolição dos vinculos*
Se considerações de ordem politica parece aconselharem a manutenção
temporaria dos pequenos mas numerosos vinculos das provincias do norte,
na questão practica da abolição da propriedade vincular suscitam-se
dificuldades de ordem economica e de ordem moral, que tendem
indirectamente a manter uma instituição, a qual, absolutamente
considerada, não tem motivo nenhum racional de existencia. A apreciação
d'essas difficuldades deve influir nas resoluções que se hajam de tomar
sobre tão grave assumpto.
Supponhamos que abolimos os vinculos; que fazemos entrar essa parte de
propriedade territorial no direito commum; que lançamos esse capital
immobilisado no vortice das evoluções economicas, fazendo-o mover
livremente por toda a esphera da sua acção. Foi, em these, um
melhoramento social importante. Falta o modo practico de conseguir esses
resultados salutares.
A lei proclamou que o principio vincular pereceu; que o direito commum
rege toda a propriedade. Mas não basta proclamar a regra geral: é
preciso ver o modo de a applicar aos factos.
Quaes são estes factos?
Até agora havia certa especie de propriedade, em que uma porção de
dominio pertencia não sabemos a quem (porque o considerar como
co-proprietarios os _successores_, entidades contingentes, não passa de
uma subtileza juridica), e outra porção d'esse dominio, que se confunde
quasi com o usofructo, pertencia a um individuo chamado administrador de
morgado. É esta fórmula da propriedade a que deixou de existir.
O administrador do morgado passou a ser proprietario d'aquillo de que
era pouco mais que usufructuario: pode hypothecar, doar, vender,
emprazar, testar, como outro qualquer possuidor de bens allodiaes. Este
facto, porém, deve forçosamente produzir consequencias juridicas e
economicas.
A primeira é para o Estado. O Estado é sempre, ao menos potencialmente,
um dos successores, mas successor que existe já, que não é uma entidade
contingente. Extincta a linha chamada pelo instituidor, o herdeiro
definitivo é o Estado, que não morre, ao passo que as linhas
successorias vem mais tarde ou mais cedo a extinguir-se. Convertendo o
vinculo em bens livres, a sociedade despojou-se de um direito em
beneficio de um homem que não tem motivo nenhum especial para
beneficiar.
Os vinculos tem encargos pios, que, ou pela propria instituição ou por
effeito de providencias legislativas, revertem muitas vezes em beneficio
de instituições, cuja existencia as doutrinas economicas não podem
condemnar. Seja qual for a resolução que se tome a este respeito
abolindo-se os vinculos, ou a propriedade que se quiz fazer allodial
ficará forçadamente censitica, ou serão espoliados os institutos de
caridade.
Embora os jurisconsultos considerem ou não os bens vinculados como
hypotheca dos alimentos dos irmãos do administrador, o que é certo
economicamente é que esses alimentos constituem uma renda, e que essa
renda é representada necessariamente por um capital incluido na somma
dos bens vinculados, porque as subtilezas juridicas não alteram a
essencia das cousas. Desvinculados aquelles bens, ficarão as pensões dos
segundo-genitos consideradas como onus e seguindo os bens atravez de
todas as phases de venda, emphyteuticação e hypotheca? Qual será o valor
de troca dos predios gravados por pensões cuja duração é indeterminada?
Serão os segundo-genitos espoliados dos alimentos para tornar a
propriedade inteiramente livre?
Á luz economica, a utilidade real do administrador era poder, em quanto
vivo, consummir a renda liquida do vinculo, excepto a parte destinada
aos encargos. Rigorosamente, ao menos em grande numero de hypotheses, as
pensões dos segundo-genitos representando uma renda e correspondendo a
um capital estavam no caso da renda fruida pelo administrador. Porque,
pois, não entregar aos segundo-genitos como allodiaes porções de bens ao
menos equivalentes ao capital das respectivas pensões? Porque ha-de a
lei favorecer desegualmente o mais velho convertendo-o só a elle em
proprietario? Não repugna esse facto a um dos motivos que se invocam
para a abolição--a desegualdade de direitos entre os irmãos? Desde que a
lei reconhece que essa desegualdade é uma injustiça pode reservar a
reparação d'ella para a geração seguinte?
Mas juncto a este direito ha outro direito antinomico, inconciliavel com
elle. É o do immediato successor. Salvos os raros casos da lenta
devolução ao Estado, o vinculo sempre tem um successor immediato, porque
a successão vai até o millesimo gráu de parentesco. O nascimento deu a
esse individuo, quem quer que seja, o direito de succeder integralmente
no morgado, embora onerado com alimentos. Desde que a obrigação de os
solver cessar, por morte dos pensionistas ou por outra qualquer
circumstancia, a fruição d'essa parte da renda liquida será sua. Se,
reduzidos os bens vinculados a allodiaes, uma parte d'esses bens tiver
passado aos irmãos do antecedente administrador, elle será espoliado do
seu direito n'essa parte pela lei.
Estatuindo-se, porém, que a applicação d'esta sómente se verificasse por
morte do administrador actual, evitar-se-hiam esses inconvenientes? Não
por certo. O direito do successor existe já durante a vida do
administrador. Como pois serão partiveis os bens entre elle e seus
irmãos sem offensa grave do anterior direito, sem uma espoliação? Na
verdade, em relação á sua legitima elle passa a possuir com pleno
dominio; mas servir-lhe-ha isso de compensação ao que perde? Estribado
n'um direito que as leis lhe garantiam, achou-se collocado n'uma
situação social accorde com os seus futuros recursos. Educação, habitos,
profissão, relações de familia, tudo foi calculado para elle ou por elle
á luz d'esse direito. Sem culpa sua, a sociedade retira-lhe, digamos
assim, a base da sua vida civil. Será isto justo? A lei que proclamou
como iniqua a indivisibilidade dos vinculos, e que todavia a manteve em
beneneficio do administrador, no momento em que a morte d'este chama o
successor a uma situação perfeitamente identica cessa de tolerar a
iniquidade que tolerou até ahi.
Removendo o facto da abolição para a epocha da morte do immediato
successor, uma parte d'estes inconvenientes da ordem moral poderiam
evitar-se; mas nem se evitariam todos, nem a abrogação do principio
vincular teria grande importancia. Apenas indicámos aqui uma parte das
difficuldades que cumpria resolver, conforme á consciencia e á justiça,
em relação á familia. Muitas se apresentariam ainda quando a
transformação do direito e do facto houvessem de verificar-se n'uma
epocha mais remota. Legislar, porém, sobre factos economicos, que só
poderiam realizar-se depois de quarenta ou cincoenta annos, parece-nos
absurdo. Suppondo a media da vida humana de 30 annos, e portanto a media
da vida que resta aos administradores actuaes de 15, pode tambem
calcular-se a media da extincção de todos os administradores e
immediatos successores em 45 annos. O que é incalculavel é o progresso
que terão feito n'este periodo as idéas politicas e economicas, e a
relação em que estaria uma lei actual de desvinculação com essas idéas e
com o estado da sociedade: podendo-se affirmar, sem receio de erro, que
no fim de tão largo periodo uma tal lei seria obsoleta antes de ser
applicada.
Depois, a solução da questão dos vinculos é uma instante necessidade.
Este modo de ser da propriedade, conservado sem modificação, embaraça
profundamente o progresso economico, ao menos n'uma parte do reino.
Veremos adiante como a nossa situação exige que se pense attentamente na
maneira por que a população está distribuida pela superficie do paiz, e
o movimento que cumpre dar á translação e divisão da propriedade
rustica. Os vinculos são um grande obstaculo á satisfação d'essa
necessidade, e o unico modo legal de desvincular a propriedade--a
subrogação--não corresponde ás exigencias da situação presente, antes a
contraría como teremos occasião de observar.
Mas a jurisprudencia que regula as subrogações é sobretudo immoral e
antieconomica. A subrogacão faz-se, em regra, por inscripcões ou
apolices de divida fundada, e o que se exige n'esse contracto é o
equivalente não do capital mas da renda. A renda media da propriedade
territorial não excede a tres por cento, em quanto a das inscripções é,
ainda hoje depois de reduzido o juro, de seis a sete por cento, visto
que o valor nominal das apolices é mais que duplo do seu valor de
mercado. Assim 47$000 réis em dinheiro, convertidos n'uma apolice de cem
mil réis, crearão uma renda de 3$000 réis; em quanto, convertidos em
propriedade territorial, apenas darão 1$410 reis. Trocado por
inscripções o predio, resta portanto um capital de mais de metade do
valor d'esse predio, de que o administrador de vinculo parece poder
livremente dispor. Como, porém, taes actos para serem válidos necessitam
da acquiescencia do successor do vinculo, cumpre repartir com elle: e se
o successor é menor, recorre-se não raro á corrupção para obter o
consentimento dos seus tutores e curadores; porque a subrogação por
inscripções é sempre para elle um mal. O remanescente divide-se de
ordinario entre o novo proprietario e o administrador; porque, em regra,
semelhantes transacções são feitas debaixo da pressão de necessidades
urgentes: o luxo, o jogo, as devassidões, a miseria são as mais das
vezes os conselheiros d'estes deploraveis negocios, e a situação mais ou
menos apurada do possuidor do vinculo determina as deducções mais ou
menos fortes a favor do capitalista. Raras vezes acontece reverter
integralmente o agio da transacção em beneficio do primeiro.
A lei em que se estriba esta especie de contractos não pertence á nossa
epocha. É o alvará de 13 de maio 1797, que permitte a subrogação por
apolices. Semelhante meio de aggredir as instituições vinculares não é
uma transacção entre o passado e o futuro, porque estas podem e devem
fazer-se quando grandes e radicados interesses se oppõem a uteis
innovações: é apenas uma astucia indigna de figurar na jurisprudencia de
nações livres. Se entendeis que não existe outro meio de libertar a
terra vinculada se não destruindo absolutamente os vinculos, matae-os,
mas não os _assassineis_. Os expedientes da timidez são os peiores de
todos. N'este meio capcioso não ha, porém, só isso: ha outros
inconvenientes não menos graves. É o primeiro o jogo de bolsa, a
agiotagem dos fundos publicos feita pela lei; é a creação de um elemento
de falso credito. Milhares de contos de inscripções, procurados
successivamente no mercado, e procurados para se amortisarem, para não
voltarem a elle, tem contribuido e contribuem de certo para a elevação
do preço dos titulos de divida fundada. Mas essa elevação, que em regra
é um indicio de credito, deixa de o ser n'este caso, porque a procura
significa, não a confiança, mas a necessidade creada pela lei. Na compra
pelo capitalista e na venda immediata que este faz ao administrador de
vinculo a troco da propriedade territorial, ao primeiro não importa o
que lhe custam os titulos que compra, nem a sua futura depreciação, em
quanto o segundo, indifferente até certo ponto a isso, visto que só lhe
interessa a manutenção do juro e a regularidade do pagamento d'este,
considera como uma vantagem o trocar a propriedade por titulos o mais
depreciados que for possivel, porque maior será o seu lucro individual
n'aquella operação, operação que desmente as leis do mercado, por isso
que é essencialmente viciosa.
A procura dos fundos publicos, resultado de especulações livres,
podendo, em resultado de outras especulações, converter-se brevemente em
offerta, não incita os governos a abusarem do credito; ao passo que a
procura das apolices para subrogações é um incitamento para novas
emissões, e portanto um meio de facilitar o augmento da divida do
Estado. Averbadas nos titulos dos vinculos, essas inscripções
immobilisaram-se, e o governo pode ir substituindo-as gradualmente com
diversos pretextos, sem que o mercado se resinta, ao menos de um modo
facil de appreciar, do augmento da divida publica. Por ventura esse
unico pensamento explica o alvará de 1797.
Não são os administradores de moderados vinculos, que os cultivam por si
proprios em todo ou em parte, e a quem o modico rendimento d'elles
obriga a viver longe dos grandes centros da população e do luxo, os que
de ordinario recorrem a estas transacções deploraveis. São, por via de
regra, os donos de grandes casas, os cortesãos, os titulares, os homens
para quem os habitos de uma vida dissipada ou luxuaria se converteram em
segunda natureza, os opulentos possuidores dos vastos predios do sul,
incapazes não raro de se dedicarem a uma administração complicada e
trabalhosa, que mal se accommoda com a sua educação; são de ordinario
estes, quando a desordem dos seus negocios os tem collocado em
difficuldades insoluveis, que se precipitam na voragem das subrogações.
Não faltam exemplos de ser o lavrador abastado, o proprio rendeiro do
predio destinado á subrogação, quem se aproveita das circumstancias para
se apoderar do solo onde exerce a sua industria. Succede isto quando
elle casualmente vem, n'uma conjunctura de angustia, tentar com o cumulo
das suas lentas economias a miseria ostentosa do administrador
arruinado. 'Nesta hypothese o mal das subrogações é menor. Na verdade
aquelle capital, accumulado por privações, por honestos e longos
esforços, seria mais utilmente empregado em augmentar as forças
productivas do solo; mas ao menos o industrial agricola consolida a
propriedade com o trabalho, e as novas economias irão d'ahi ávante
preencher fins mais positivos para a sociedade. É, todavia, commum esta
hypothese? Não por certo. O desperdicio, o luxo, as noites febris do
jogo, os affectos de bastidor, as vãs ambições da vaidade, os extravios
de um sensualismo que a saciedade leva até o delirio; as paixões ruins
em summa, que arruinam tantas familias das classes mais elevadas, só
raramente consentem que nos cataclysmos das grandes fortunas vinculares
aquella hypothese se verifique. É o cabedal monetario do especulador, a
quem, não sabemos se com justiça, se dá o nome insultuoso de agiota, o
que vai de ordinario trocar-se pela propriedade territorial. A razão é
obvia. O capitalista está sempre prompto para empregar dinheiro n'uma
transacção vantajosa, e elle sabe que o desleixo, a incapacidade, ou os
vicios dos administradores dos vinculos são campos feracissimos para a
especulação.
Mas posto que a abolição completa dos morgados, ainda que fosse em
virtude de uma lei irreflectida e imprevidente, valesse mais que a
existencia d'elles com o systema da destruição lenta pelo meio indirecto
das subrogações, é certo que a abolição traria tambem, em muitos casos,
ou uma difficuldade insoluvel, ou uma vantagem para os mutuantes de
capitaes, que não seria menos immoral do que as subrogações, porque
equivaleria a uma espoliação dos mutuarios. Fallamos do que succederia a
respeito dos vinculos, cujos administradores contrahiram dividas mais ou
menos avultadas, ficando hypothecados á divida os rendimentos dos bens
vinculares durante a vida d'elles, ou d'elles e dos immediatos
successores, se os ultimos intervieram no contracto com o seu
assentimento.
Diz-se que a agiotagem mais infrene preside commummiente a esta especie
de negocios. Cremos que nisto ha pelo menos exaggeração. De certo que o
juro de ura emprestimo de tal ordem deve ser avultado; mas pode ser
avultado sem ser excessivo. Não ha ahi só a renda do capital mutuado: ha
um juro de risco. É evidente que a restricção legal de passarem livres
aos successores os bens vinculados pode modificar de mil modos as
condições do mutuo. Na hypothese de intervir no contracto o immediato
successor, o risco é menor mas não deixa de ser grandissimo. A garantia
é dupla, mas egualmente incerta: é a instabilidade de duas vidas em
logar da de uma. Depois, a idade mais ou menos avançada do administrador
do vinculo, ou d'este e do successor quando o successor intervem, os
seus habitos de maior ou menor dissipação, a existencia de outras
dividas, a deterioração dos bens vinculados e por consequencia a
diminuição gradativa do rendimento; esses factos e dezenas de outros
analogos determinam a maior ou menor elevação do juro em contractos que,
considerados de um modo absoluto, seriam altamente usurarios, mas que as
poucas probabilidades do pagamento integral talvez plenamente
justifiquem.
Mas como se representa esse juro de risco? Uma lei inepta, impotente
sempre para impedir a usura, e que, taxando o lucro do capital, não
discrimina as circumstancias que o devem fazer variar, fixa ao dinheiro
determinado preço para todas as hypotheses. A necessidade, porém, e o
capital são astutos: o capitalista e o administrador do morgado sabem
como se illude a lei. O juro de risco representa-se no capital e no juro
da parte nominal d'este. Quando se recebe uma somma, o contracto
refere-se ao duplo; a mais ou menos, conforme o valor do dinheiro, a
gravidade do risco, a necessidade do mutuario e a consciencia do
mutuante. A transacção, respeitando na apparencia a lei, ludibria-a na
essencia: sorte de todas as leis civis, que radicalmente contradizem as
economicas.
Qual é, porém, a consequencia d'estes factos, que constituem a historia
da avultadissima divida que grava os vinculos? É que uma parte d'essa
divida representa apenas um juro e juro de risco. No contracto que lhe
deu existencia houve um verdadeiro jogo sobre um calculo de
probabilidades. O capitalista arriscou-se a perder a somma que realmente
emprestou, recebendo como premio no caso de amortisação o capital
nominal, além dos juros legaes; a eventualidade d'esse premio
equilibrou-se portanto com a possibilidade da não amortisação. Entre as
vantagens e as desvantagens deu-se a mutua compensação.
Desvinculae, porém, a propriedade vincular e sujeitae-a ao direito
commum. Em relação ás dividas que pesam sobre ella violaes um contracto,
irregular na verdade, mas irregular porque as leis que sanctificavam a
exempção hereditaria dos vinculos, e as que fixavam o juro do
emprestimo, o tornavam tal forçadamente. Supponde illicitas, criminosas
as transacções d'esta especie: considerae, se quizerdes, o mutuante como
usurario e o mutuario como prodigo. A desvinculação pune este e premeia
aquelle. A divida nominal, escripta no contracto, é uma; a real é outra.
O mutuante receberá, porém, ou por execução ou por outro qualquer modo,
o valor expresso. O que terá desapparecido é a desvantagem do risco.
A iniquidade é flagrante, e tem-se reconhecido que o é. Como meio de a
evitar lembram-se varios arbitrios para restringir a acção do credor
sobre os bens desvinculados. De todos esses arbitrios o mais simples e o
que parece mais justo e exequivel é o de considerar taes bens como ainda
vinculados em relação ás dividas contrahidas, limitando-se o direito do
credor á percepção da renda, durante a vida d'aquelle ou d'aquelles que
contrahiram o encargo, se n'este periodo não se verificar a amortisacão
completa. Mas qual será o resultado d'esta nova situação d'aquella
especie de propriedade? A quasi impossibilidade da alienação. Ninguem
compraria um predio cuja renda está hypothecada por um periodo
indeterminado (e a que, portanto, não se pode fixar o valor) senão por
um preço infimo, que salvasse todas as eventualidades, e que o vendedor
não acceitaria. A transacção só poderá effeituar-se com o proprio
credor; mas este, certo de que é impossivel a competencia, ha-de levar
as suas pretensões até onde chegar a possibilidade de se realisarem as
vantagens que aliás lhe dá o proprio direito. Assim a transacção tem de
ser forçosamente lesiva para o vendedor; lesiva a ponto de impedir a
alienação, ou de se realisar a expoliação que se pretendera evitar.
A consequencia ordinaria de tal arbitrio seria, pois, a immobilidade dos
bens ainda depois de desvinculados; ou, por outra, a desvinculação pelo
que respeita aos grandes morgados, sobre cujos redditos pesam
avultadissimos encargos e que são os mais numerosos, não alteraria as
principaes condições da sua existencia actual que justificam a abolição.
O livre movimento do dominio territorial, a subdivisão da propriedade, o
desenvolvimento da população e da cultura, o augmento das sizas; tudo
isso ficaria, em regra, suspenso até á morte dos individuos pessoalmente
responsaveis pelas dividas. É outra vez o adiamento, que parece
tornar-se inevitavel desde que, partindo da idéa da abolição absoluta,
se pretende legislar sobre a propriedade privilegiada, na qual o
interesse publico exige modificações immediatas.
VIII
*Os vinculos considerados em relação á grande e á pequena propriedade, á
grande e á pequena cultura*
Antes de debater em relação a Portugal uma questão ventilada com ardor
na Europa ha mais de um seculo, a da grande e da pequena propriedade,
consideremol-a successivamente como resolvida em favor de um e de outro
systema, e indaguemos que influencia possa exercer no predominio de um
ou de outro a conservação ou a abolição dos vinculos. Vendo-os a esta
luz, os que defendem a sua manutenção presuppõem a grande propriedade
como ligada á grande cultura, e a grande cultura como preferivel á
pequena. Os que sustentam a abolição presuppõem vantajosa a divisão
indefinita da propriedade, embora acompanhada da pequena cultura, que em
regra é a consequencia da subdivisão illimitada do solo, e ácerca de
cujas vantagens variam as opiniões d'aquelles mesmos que mais
ardentemente desejam a suppressão de todas as instituições tendentes a
impedir a livre divisão do solo.
Os que, preferindo os vastos predios e a grande lavoura aos pequenos
casaes, cuja cultura principalmente se caracterisa pelo trabalho braçal,
vêem nos vinculos um meio poderoso de manter o systema agricola que
suppõem mais vantajoso, podem acaso invocar em seu abono os factos?
Podem invocal-os os que pensam de modo contrario? Comecemos pelos
exemplos do nosso paiz, que são os primeiros que nos importa estudar.
Já n'outra parte nos referimos á differença profunda que se dá entre os
vinculos das provincias septemtrionaes e os das provincias meridionaes
do reino. Nos districtos do norte a constituição moral dos vinculos é a
mesma dos vinculos situados nos districtos do sul; mas a sua
constituição material é diversa. Em geral os vinculos do norte são
constituidos, em relação á propriedade territorial, n'um maior ou menor
numero de predios de dimensões taes que a designação de latifundios lhes
seria inteiramente inapplicavel. São quintas, casaes, bouças, campos;
nunca ou raramente uma granja, uma herdade analoga áquillo a que damos
estes nomes nos districtos do sul. O senhorio directo de predios
emphyteuticos e os censos completam para o administrador do morgado o
cumulo da renda territorial. Todas as fórmas de exploração agricola se
manifestam n'aquella multidão de propriedades vinculadas: a cultura
directa, a parçaria, o arrendamento, o colonato. Discorrei pelo Minho.
Certos edificios nas villas, nas aldeias, mais grandiosos, ornados de
pedras-d'armas, hão-de revelar-vos a existencia de centenares de
morgados: mas os campos e a sua cultura, as quintas e as suas dimensões
não vos dirão nada; porque a allodialidade, a emphyteuse, o vinculo na
sua influencia sobre a agricultura não imprimem aos campos caracteres
especiaes que distingam estas diversas especies de propriedade, ou
diversifiquem as culturas.
Penetremos agora no Alemtejo, sobretudo no Alemtejo central e
meridional. Como o Minho é o typo da propriedade e da cultura
septemtrionaes do reino, o Alemtejo é o typo mais acabado da propriedade
e da cultura meridionaes. As outras provincias são a transição entre os
dous extremos. Como o Minho é a terra classica da subdivisão
territorial, o Alemtejo é a terra classica dos latifundios. Grande parte
d'estes latifundios pertencem a importantes morgados; mas o resto
constitue geralmente propriedades allodiaes, sendo os prasos n'aquella
provincia, em contradicção com o que succede no Minho, apenas uma
excepção rara, e ainda assim caracterisados ás vezes pela indole geral
da propriedade no Alemtejo--a extensão demasiada. Um systema de cultura
uniforme é applicado ahi sem distincção aos predios livres e aos
vinculados.
Na Extremadura e na Beira occidental, mas principalmente na Extremadura,
predomina a cultura media e a propriedade media, se exceptuarmos as
margens do Tejo desde a Barquinha até perto de Lisboa, onde a extensão
da propriedade, como na Beira-baixa, annuncia, por assim nos
exprimirmos, a aproximação do Alemtejo. Mas, no meio de todos estes
cambiantes nas dimensões dos predios rusticos, vemos os vinculos
amoldarem-se a todas as fórmas de propriedade e de cultura, e
amortizarem em si a quinta, o casal, a granja, o praso, a horta, o
pinhal, o montado, a charneca interminavel; com a mesma facilidade com
que se amoldam ás manifestações extremas da grande e da pequena
propriedade e da pequena cultura.
Que se infere d'estes factos? Que outras causas alheias á instituição
vincular determinam a maior ou menor vastidão dos predios rusticos e o
seu systema de grangeio. Umas são puramente historicas, outras
juridicas, outras agronomicas, outras economicas. Não queremos dizer com
isto que a instituição não influa, n'um ou n'outro caso, no facto de
maior ou menor dimensão dos predios, e na sua situação agricola; mas
cremos que de todas as causas esta é a menos importante. Desejariamos
que os defensores da manutenção dos vinculos como garantia de grande
propriedade nos explicassem a existencia dos vastos allodios do
Alemtejo, a sua força de cohesão contra os effeitos do direito commum da
successão, pelo engenhoso expediente dos _quinhões_, de que n'outra
parte teremos de falar. Esses predios estão provando que não é
necessario o principio vincular para impedir a disgregação das grandes
propriedades rusticas; que o interesse individual bem ou mal avaliado,
as condições do solo e clima, a natureza das culturas dependentes
d'essas condições, o estado economico do respectivo districto, e, até,
os habitos e preconceitos, podem assegurar a união de amplos tractos de
terra, embora deixe de existir uma instituição que o espirito publico
reprova, por motivos que, posto sejam especiosos ás vezes, são em grande
parte subejamente justificados.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02
Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha
*OPUSCULOS*
POR
A. HERCULANO
SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.
QUESTÕES PUBLICAS
*TOMO II*
LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRANDA & C.^a--CHIADO, N.^o 73
M DCCC LXXIII
MONUMENTOS PATRIOS
1838
I
Diz-se que uma das mais bellas missões da imprensa é defender a boa
razão, a arte, e a honra e gloria da patria. Imagina-se ampla colheita
de renome, de bençãos, de vantagens de toda a especie para o escriptor
que alevanta a voz a favor do bom, do justo e do bello, se a voz do que
escreve é assás poderosa para se esperar que mova os animos dos seus
concidadãos. E com effeito, indicar a estes o recto caminho, quando
transviados; tentar affeiçoá-los a nobres e puros sentimentos; fazê-los
amar o solo natal; despertar-lhes affectos pelo que foi grande e nobre
na historia do paiz, parece que deveria produzir fructos de benção para
o escriptor que o tentasse. Não é, todavia, assim. Ha para isso um
obstaculo quasi insuperavel; a superstição pelas idéas e tendencias do
presente, mais cega que a superstição pelas crenças do passado. As
paixões são mais energicas do que as reminiscencias, as aspirações que
as saudades. Gloria, lucro, respeito, bençãos são para aquelle que afaga
com palavras mentidas as preoccupações populares; para aquelle que, sem
discrime, louva, adorna ou repete como echo as opiniões que ao redor
delle, talvez por cima delle, esmagando-lhe a consciencia, passam como
torrente. Tumultua o genero humano correndo ao longo dos seculos: o
louvador, ás vezes o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu
imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que
corre ebria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As corôas voam-lhe do
meio do tropel sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo do tanto lidar elle
se despenhará com essa geração no abysmo do passado; verdade é que o
abysmo se fechará para elle com o sêllo da reprovação de cima, e que,
porventura, não tardará que o futuro passe por ahi a sorrir, ou se
afaste com tedio do sepulchro dealbado do erro ou da villania. Mais isso
que importa? O homem que vendeu ao seculo a consciencia e o engenho, que
Deus não lhe deu para mercadejar com elle, foi bemquisto e glorificado
emquanto vivo; foi antesignano do progresso, embora este seja avaliado
algum dia como progresso fatal!
Mas que póde esperar aquelle que, nessa longa e ampla estrada do tempo,
por onde o genero humano corre desordenado, quizer vir, do lado do
futuro e em nome do futuro, dizer á geração a que pertence:--parae lá--?
Embora a sua voz troveje: embora as suas palavras devam fazer vibrar
todas as cordas do coração e despertar todas as convicções da alma: não
espere ser ouvido. As multidões continuarão a passar desattentas.
Escarnecido, amaldicçoado talvez, dormirá esquecido na morte, e os
sabios e prudentes cultores de uma philosophia corrompida e egoista
dirão, com insultuosa compaixão, ao passar pelo que jaz no pó:--Pobre
louco, recebeste o premio de querer contrastar o seculo!
O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Ha nesta epocha dous
caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipicios,
mas que conduz á prostituição da intelligencia; outro, vereda estreita,
tortuosa, malgradada, mas que se dirige ao applauso da propria
consciencia. Aquelles cujas esperanças não vão além dos umbraes do
cemiterio e que ahi veem, não o termo da sua perigrinação na terra, mas
o remate da existencia, que sigam a facil estrada. Nós, porém, que
guardâmos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o
bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda despinhos.
Resignar-nos-hemos nos desprezes e, como os soldados do eremita Pedro,
que, pondo a cruz vermelha no hombro para irem morrer na Palestina,
clamavam--«Deus assim o quer! Deus assim o quer!»--diremos
tambem:--«soffrâmos o menoscabo e o vilipendio: soffrâmos que assim o
quer Deus.»
É contra a indole destruidora dos homens de hoje que a razão e a
consciencia nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita,
todos os animos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos
um brado a favor dos monumentos da historia, da arte, da gloria
nacional, que todos os dias vemos desabar em ruinas. Esses que julgam
progresso apagar ou transfigurar os vestigios venerandos da antiguidade
que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos tambem,
mas de lastima, e as gerações mais illustradas que hão de vir decidirão
qual destes sorrisos significava a ignorancia e a barbaridade, e se não
existe uma superstição do presente como ha a superstição do passado.
A mais recente quadra de destruição para os monumentos, tanto artisticos
como historicos, de Portugal, póde dividir-se em duas epochas bem
distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vivemos.
A ultima metade do seculo XVIII e os annos já decorridos deste seculo
tem sido um periodo de reforma ou antes de revolução. A revolução não é
de hontem. Quasi sempre as manifestações ruidosas e, digamos assim,
externas das epochas de grandes transformações vem muito depois de
iniciadas estas. No seio da formula social que vai fenecer ha a gestação
da formula social que surge. Quando as labaredas rompem pelas janellas
do edificio, ha muito que o incendio lavra pelo interior dos aposentos.
Entre nós, as reformas começou-as um homem grande, mas que era homem do
seu tempo. Genio positivo e mui pouco especulativo, ministro de um rei
absoluto, e sabendo que, se não caminhasse depressa, ficaria no caminho,
o marquez de Pombal fez resurgir de salto sciencia, artes, industria e
administração. A maioria do paiz obedecia ás reformas, mas sem as
comprehender. O circulo dos individuos que alcançavam o valor dellas e o
influxo que deviam ter no futuro, era assás limitado. A iniciação estava
feita, mas o fogo tinha de lavrar muito tempo debaixo da cinzas.
Exteriormente, a maior parte das reformas, destoando de habitos
inveterados, repugnando não raro a opiniões vulgares, devendo ter
resultados remotos, que o commum dos espiritos não sabiam antever, nem
podiam apreciar, definharam-se ou morreram logo que se quebrou o braço
de ferro que as realisára e mantivera, sorte ordinaria de todos os
commettimentos sociaes que antecedem a diffusão das idéas que
representam. O conde de Oeiras, pondo os estudos ao nivel dos do resto
da Europa, fez acceitar o movimento scientifico desta; mas as
intelligencias reconduzidas de salto ao bom caminho, sem transições
graduaes, acceitaram mais as fórmas do que comprehenderam o espirito.
O que succedeu na sciencia succedeu na litteratura. Acabaram os
acrostichos, os restos do gongorismo, os sermões de antitheses e
argucias, os elogios e conferencias palavrosas e retumbantes da Academia
da Historia, onde o proprio reformador tambem peccara: ficámos, porém,
com a litteratura á Luiz XIV, cuja influencia em Portugal começara a
despontar no horisonte desde o começo daquelle seculo e que, depois, os
nossos innocentes Arcades acceitaram como emanação legitima da arte
grega e romana. Peior do que na sciencia, a regeneração litteraria,
desprovida de nacionalidade, alheia ás tradições portuguesas, nascia,
digamos assim, morta. O mau gosto desapparecera, mas em logar delle
ficava cousa que pouco mais valia; a inspiração pautada, o estro
convencional e a vacuidade da idéa escondida debaixo da opulencia da
fórma.
Se, em parte, as sciencias e a industria foram introduzidas, ou como
inventadas, no reinado do marquez de Pombal, as artes plasticas, e
principalmente a architectura, cuja historia, mais do que a de nenhuma
arte, neste momento nos importa, já anteriormente existiam. A epocha de
D. João V foi uma epocha de luxo e riqueza lançados sobre um paiz
miseravel, como alfombra preciosa em pavimento carunchoso e podre. Esse
luxo e riqueza, que brotavam das minas da America, foram favoraveis aos
artistas. As obras magnificas do nosso Luiz XIV, ou antes do simia de
Luiz XIV, e mais que tudo a edificação do fradesco palacio de Mafra
fizeram apparecer estatuarios, esculptores, architectos. Achou-os o
conde de Oeiras, e deu aos seus talentos nova applicação. Ao gosto
corrompido da architectura italiana, que era a seguida em Portugal, fez
substituir um gosto mais severo, mais util e mais mesquinho. Era o homem
politico, o homem da vida practica dirigindo as artes: eram as artes
reduzidas pura e simplesmente a um ramo de administração. Compare-se o
caracter geral do convento de Mafra com o das grandes obras do marquez
de Pombal, o plano da nova Lisboa, o Terreiro do Paço, a Alfandega, o
Arsenal da Marinha, a parte moderna dos edificios da Universidade de
Coimbra. Em Mafra, achar-se-hão a exageração de ornatos e os primores do
cinzel, mas nenhuma inspiração verdadeiramente nobre e grande;
achar-se-ha o desmesurado supprindo o sublime: nas obras do marquez, só
se encontram largas moles desadornadas, edificios monotonos, postoque
uteis ou necessarios, uma praça magnifica, onde campeiam monolithos
enormes e que seriam admiraveis se não estivessem cobertos de remendos e
parches, e cujas paredes se pintaram de ochre para poupar alguns palmos
de silharia, alguns palmos de marmore n'uma collina de marmore. O plano
de qualquer obra publica desta epocha dir-se-hia sempre traçado na mente
de um negociante hollandês. O despotismo ignorante e presumido estragara
a arte com a puerilidade; o despotismo illustrado estragou-a com a
razão. Mafra é um poema da Fenix-Renascida: a Lisboa do marquez de
Pombal um soneto de Diniz ou uma ode de Garção. A cidade depois do
convento é o Novo-methodo do padre Pereira expulsando das escholas
latinas a grammatica do padre Alvares.
Morreu D. José I, facto insignificante em si, mas grave pelas suas
consequencias. Com a morte desse homem desappareceu da scena politica o
forte espirito que reinara em vez delle. Portugal soçobrou então; apenas
sobre o seu vortice de perdição boiaram por algum tempo as letras e a
sciencia sustentadas ao de cima pelo braço do duque de Lafões. A
architectura, que n'um paiz pequeno e pobre, como o nosso, depende quasi
exclusivamente do governo para existir, não decahiu porque estava já
decadente: o que fez foi retroceder das fórmas mesquinhas, mas graves e
simples, que adoptara, para os fogaréus e burriés e repolhos e espiraes
e grinaldas da epocha anterior. Quereis saber o que ella foi d'ahi
ávante? Olhae para o mais notavel edificio do subsequente reinado, para
o convento do Coração de Jesus. Como o pensamento unico do governo era
desmentir o bom, o mau, o indifferente, tudo, em summa, quanto se fizera
no antecedente reinado, buscou-se restaurar a architectura de Mafra,
menos a vastidão, menos a opulencia. Caricatura de caricatura. Aquelles
portaes microscopicos, aquellas columnas disformes e deformes,
encostadas á portada da igreja, especie de polypos de pedra, guardados
alli para servirem de pilares em outro monumento que delles viesse a
carecer; aquelle atrio que recorda o _vomitorium_ dos amphitheatros
romanos; aquellas torres onde não se pouparam nem columnellos inuteis,
nem franjas e avellorios de marmore; tudo isso é amostra do gosto da
epocha, gosto que tem durado e que ainda campeia nas fachadas de varios
armazens ao divino construidos nos ultimos sessenta annos e baptisados
com a pomposa denominação de templos.
Tal foi em Portugal a architectura durante seculo e meio. O
renascimento, que condemnou em peso, como barbaras, as origens das
nações modernas e especialmente o que desdizia das diversas
manifestações da civilisação grega e romana, envolveu n'esta
condemnação, em muitos casos injusta ou inepta, os admiraveis monumentos
de arte que a idade media legara aos tempos modernos. As gerações
subsequentes, educadas n'uma adoração irreflexiva de tudo quanto viera
da Grecia e de Roma pagans, não podiam comprehender a sublime magestade
e, digamos assim, o espiritualismo da arte christan. Os paços, os
castellos, as pontes, os cruzeiros, as galilés das praças, as portas, as
torres, os pelourinhos das cidades e villas, construidos desde o XI até
o XV seculo quasi que desappareceram. Conservaram-se alguns mosteiros e
sanctuarios, algumas cathedraes e parochias, não por serem obras da
arte, mas por serem logares consagrados a instituições religiosas, e
talvez por terem faltado os recursos para os substituir por novas
edificações.
Ainda assim, restar-nos-hiam hoje em mosteiros, em cathedraes e em
outros edificios consagrados ao culto inestimaveis monumentos, se nesta
terra, desamparada de Deus e da arte, tivesse havido sequer um vislumbre
de gosto e de veneração pelo passado, e não fosse justamente entre o
clero, isto é, entre os guardadores naturaes desses mesmos monumentos,
que surgissem os seus mais funestos adversarios. Porém os bispos sabiam
theologia e direito canonico; os conegos e parochos, alguns sabiam
latim; os frades, pelo menos os membros das antigas ordens monachaes,
eram eruditos e homens de letras; mas nem os bispos, nem os conegos e
curas d'almas, nem os frades entendiam de architectura. Entregaram tudo
aos architectos e mestres de obras, que estragaram tudo. Quasi que
escaceiava a pedra para se converter em cal. Os batefolhas não tinham
mãos a medir. Columnas, capiteis, abobadas, torres, portaes, arcarias,
claustros, tudo foi caiado, dourado, enfeitado, estragado. Procurae na
maior parte das nossas sés, das nossas collegiadas, das nossas velhas
parochias, um desses pilares polystylos, desses capiteis e cimalhas
rendadas, desses bocetes e penduroes variados, dessas gargulas ás vezes
insolentes, ás vezes terrificas, ás vezes finamente epigrammaticas, e
nada achareis do que foi. Aquelles livros de pedra, complexos como os
poemas de cavallaria, ingenuos como os poemas do Cid ou dos Nibelungen,
converteram-se em palimpsestos donde se raspou a historia das crenças,
dos costumes, dos trajos, das alfaias de antigas eras; onde se apagaram
os vestigios de successos notaveis, de dramas populares, de lendas
poeticas, e até retratos unicos de varões singulares. Nesses livros
preciosos, em vez do seu primitivo conteúdo, só achareis as rasuras que
mãos ineptas ahi fizeram e os caracteres que sobre essas paginas,
outrora eloquentes, traçou a peior das barbarias, a barbaria pretenciosa
e civilisada. Passou por lá o picão do reformador, a colher do
estucador, o mordente do dourador. Paredes, pilares, capiteis, laçarias,
ogivas estão rebocados, alvos, polidos, dourados. A luz do sol já não
bate no pavimento do templo convertida em luz baça e saudosa pelos
vidros córados das frestas esguias, dos espelhos circulares: agora alaga
em torrentes essas paredes brancas e lisas, que fingem ás vezes
absurdamente pedras impossiveis estendidas pela colher do alveneu sobre
a face rugosa, mas secular e veneranda, da verdadeira pedra. O templo de
Deus é como a sala do baile, como a sala dos legisladores, como a sala
do theatro, como a praça publica, sem mysterios, sem tradições, sem
saudades.
Mas se a culta barbaria dos nossos avós e de nossos paes forcejou por
cobrir com remendado véu os monumentos dos primeiro seculos da
monarchia, deixou em muitos delles ao menos, os seus formosos e ideaes
perfis, as suas linhas architectonicas. O pensamento que inspirou essas
concepções grandiosas como que se alevanta d'entre as devastações
perpetradas pelo camartélo, pela picareta e pelos boiões de cal delida,
e apesar de se haverem dirigido sem tino, sem gosto, sem harmonia as
restaurações dos edificios que as injurias do tempo em parte haviam
arruinado, resta ainda muito que estudar e admirar nesses monstros. Até,
em alguns delles, é possivel supprimir, pela imaginação, o moderno e pôr
em logar deste o antigo. A poesia ainda não desamparou de todo o
mutilado monumento.
Mas durarão por muito tempo esses restos da mais formosa e magnifica de
todas as artes? Não o esperamos; mas lavraremos aqui, ao menos, um
protesto contra o vandalismo actual. Nossos paes destruiram por
ignorancia e ainda mais desleixo: destruiram, digamos assim,
negativamente: nós destruimos por idéas ou falsas ou exageradas;
destruimos activamente; destruimos, porque a destruição é uma vertigem
desta epocha. Feliz quem isto escreve, se podesse curar alguem da febre
demolidora; salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos!
II
Falámos da decadencia da architectura durante seculo e meio; porque as
manifestações dessa decadencia foram sempre as mesmas em tão largo
perido. Vê-se a arte na sua lenta agonia rodeiada de curandeiros que se
propõem sará-la, mas que a transfiguram, sem alcançarem qual é o achaque
intimo que a devora: vêmos acumular columnas a proposito e
desprositadamente: vêmos gesso, ouro e talha: vêmos converter os velhos
monumentos em monstros de Horacio; pôr ao lado da torre ou do curucheu
gothico zimborios á Buonaroti ou portadas á Barrozio; enxertar a capella
do seculo XVIII na parede de nave do seculo XIV semelhante a um viveiro
de cogumélos, nascidos por entre as fisgas humidas da pedraria, a favor
da meia obscuridade daquellas profundas arcadas: vêmos alteiar edificios
que representam o gosto architectonico do mercador de retalho, e erguer
templos cujo indecente e ridiculo elogio é o de serem _bonitos_: vêmos
as grandes praças de Lisboa, bem esquadriadas, bem symmetricas, bem
prosaicas: vêmos igrejas, como a da Encarnação ou a dos Martyres,
caiadas, pulidas, alindadas, onde não móra um só pensamento de Deus. A
arte entendeu-se assim por largos dias. Ao passo que se imprimia a
Poetica do padre Freire, que se coroava a Osmia, e que se publicavam por
ordem superior as poesias, assim chamadas, de Ribeiro dos Sanctos,
encostavam-se columnas disformes pelas paredes de um pio armazem,
conhecido vulgarmente pelo nome de igreja de S. Domingos, ladeiavam-se
com ellas os portaes dos edificios publicos e as frestas do atrio tyscio
do convento do Coração de Jesus. No meio daquellas semsaborias
architectonicas parecia sentir-se uma tendencia instinctiva para a
regeneração; mas essa tendencia, que buscava uma solução ao problema nas
tradições da arte romana ou antes grega, não podia lá encontrá-la. Fora
o renascimento; fora a admiração dessas tradições, até certo ponto
justa, mas exagerada depois, que dentro de pouco mais de cem annos
chegara, de modificação em modificação, até a architectura do seculo
XVII, á architectura da Sé nova de Coimbra, do Seminario de Santarem, á
architectura jesuita. Não só a regeneração litteraria e a politica, mas
tambem a da arte devia consistir em considerar o renascimento, não como
phase, mas como lacuna na vida das nações christans, das sociedades
novas; em descer logicamente do crer e sentir da sua idade viril. Embora
a arte seja uma só; embora seja sempre e em toda a parte a expressão
sensivel do ideal, tanto este como as suas manifestações é que são
diversos nas diversas epochas e em sociedades differentes. Naquelle
dilatado periodo de decadencia o que sobretudo faltava á architectura
era a luz, o horisonte, a atmosphera respiravel, em que podesse viver e
produzir.
A decadencia, porém, na epocha em que vivêmos é outra, e mais profunda.
Já não ha a corrupção do gosto, o inapplicavel das theorias, o erro do
entendimento. Agora é o instincto barbaro, a malevolencia selvagem, a
philosophia da brutalidade. Dura ha poucos annos; mas esses poucos annos
darão maior numero de paginas negras á historia da arte do que lhe deu
seculo e meio. O picão e o camartello só ha bem pouco tempo que podem
dizer--triumphámos. Até então escaliçavam-se paredes, roçavam-se
esculpturas, faziam-se embréchados; mas agora derribam-se curuchéus,
partem-se columnas, derrocam-se muralhas, quebram-se lousas de
sepulturas, e vão-se apagando todas as provas da historia. Faz-se o
palimpsesto do passado. Corre despeiado o vandalismo de um a outro
extremo do reino, desbaratando e assolando tudo. Comico perfeito,
desempenha todos os papeis, veste todos os trajos. Aqui é vereador, alli
administrador de concelho: ora é ministro, logo deputado: hoje é
escriptor, ámanhan funccionario. Corre na carruagem do fidalgo, faz
assentos de debito e credito no escriptorio do mercador, dá syllabadas
em latim de missaes, préga nos botequins sermões d'economia politica e
do direito publico, capitaneia soldados, vende bens nacionaes, ensina
sciencias; em summa, é tudo e mora por toda a parte. Attento ao menor
murmurio dos tempos que foram, indignado pela mais fugitiva lembrança
das gerações extinctas, irrita-se com tudo que possa significar uma
recordação. Assim excitado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O
eretismo dos nervos só póde affrouxar-lho, como as harmonias
melancholicas de harpa eolia, o ruido de algum monumento que desabe.
Apesar da ferocidade nervosa do vandalismo, não se creia, todavia, que
elle é desalinhado no vestuario, carrancudo na catadura, descomposto nos
meneios. Nada disso. O vandalismo é aprimorado no trajo, lhano e grave a
um tempo no porte, pontual na cortezia. Encontrá-lo-heis nas sallas
requebrando as damas, dançando, tomando chá; no theatro palmeiando com
luvas brancas os lances dramaticos. Entende francês e leu jà Voltaire,
Pigault-Lebrun e os melhores tractados do wisth: quasi que sabe ler e
escrever português. O vandalismo é culto, instruido, civil, affavel.
Tirem-lhe de diante os monumentos; será o epilogo de todos os dotes e
boas qualidades; será a mansidão incarnada.
Mas, infelizmente para elle, o velho Portugal estava cuberto de
recordações do passado. Cada facto historico tinha uma igreja, uma casa,
um mosteiro, um castello, uma muralha, um sepulchro, que eram os
documentos perennes desse facto e da existencia dos individuos que nelle
haviam intervindo. Encontrando tantas injurias mudas á decadencia
presente, o vandalismo irritou-se, ergueu-se e falou em feudos, em
dizimos, em corrupções fradescas, em maninhádegos, em servos de gleba,
em direitos de osas, em superstições; catou, em summa, todas as
vergonhas e deshonras do passado que pôde e soube, entresachando-as com
sentenças e logares communs do cathecismo politico de Ramon Salas e, por
uma logica incomprehensivel, por uma logica sua, chamou os homens do
alvião e da picareta e começou a derribar, victoriado pelo povo. Só
elle, immovel no meio da mobilidade do nosso tempo, no meio das opiniões
encontradas, das luctas, das commoções, tem apontado constante ao seu
alvo, a demolição indiscriminada do passado. Assim, pertence a todos os
bandos politicos, acceita todos os principios, curva-se a todos os
jugos, comtanto que o deixem roer os testemunhos da historia e da arte;
que o deixem fazer-nos esquecer da gloria nacional e de que somos um
povo de illustre ascendencia. Este pensamento é o seu pensamento unico,
perpetuo, inabalavel.
Ha pouco que que da villa de Peniche nos escreviam o seguinte: «Tendo
havido quem ousasse revolver e desfazer o tumulo em que jazia o cadaver
de D. Luiz de Athaide, na igreja do extincto convento do Bom-Jesus desta
villa, o facto excitou nos que concorreram a observar os despojos
mortaes daquelle heroe vivos desejos de ouvirem falar da sua vida e
feitos.» Não nos fallecem cartas em que se contenham noticias de
analogas profanações. De todos os angulos do reino se alevantam brados
de homens generosos, que lamentam a ruina dos velhos edificios, a
profanação das sepulturas, a destruição de todas as memorias da arte e
da historia. Quem hoje quizesse escrever as biographias dos nossos
homens illustres, talvez já não podesse dizer onde actualmente jazem os
restos da maior parte delles. O braço omnipotente do vandalismo
estendeu-se para os sepulchros; as campas estalaram e os ossos de nossos
avós lançaram-se aos cães e rolam pelo pó das estradas e pelas
immundicies das ruas. As inscripções lapidares vão-se enterrando por
alicerces e paredes, não á face destas, porque ahi alguem ainda poderia
lê-las; mas no fundo dos cavoucos ou no amago dos muros. Sem isso, não
nos vangloriariamos com inteira justiça de ter completamente renegado de
nossos maiores.
Referiu-nos um respeitavel viajante hespanhol que, entre os entulhos do
convento de S. Domingos de Lisboa, vira uma lagea onde se lia o
epitaphio de Fr. Luiz de Granada. Sollicitou dos demolidores que a
tirassem do meio das ruinas, porque essa pedra era valiosa memoria.
Provavelmente os economistas da alavanca, os philosophos da picareta
riram a bom rir do desvario daquelle hespanhol fanatico. A lapide
sepulchral de um dos homens mais sabios e eloquentes que a Peninsula
gerou lá jazerá a estas horas nos fundamentos de algum edificio, cujo
rendimento, abatidos decima e concertos, o vandalismo e o dono acharão
de certo preferivel á gloria de Fr. Luiz de Granada.
Oh, civilisação!
Levaram-nos a Coimbra em 1834 obrigações de serviço publico. Residiamos
ahi quando foi supprimido o mosteiro de Santa-Cruz. Correu então a
noticia de que se pretendia pedir ao governo que esse bello edificio
fosse doado ao municipio. Mas, para que? Para a camara o arrasar e fazer
uma praça. Não se realisou o nefando alvitre; mas os bons desejos não
faltaram. Uma praça no logar onde estivera Sancta-Cruz; uma praça
calçada com os fragmentos dos rendados umbraes do velho templo, com as
lageas quebradas dos tumulos de Affonso Henriques e de Sancho I e dos
demais varões illustres que alli repousam! Ha ahi, porventura, quem
avalie a sublimidade de tal pensamento e meça a incommensuravel
distancia que vai d'um edificio monumento, onde apenas ha historia,
arte, poesia, religião, a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem
possa estirar-se regaladamente ao sol? Infelizmente; a cidade
litteraria, a _alma mater_, ficou privada deste documento ineluctavel da
sua illustração.
Pelas largas que tem tomado o vandalismo, podemos assegurar que dentro
deste seculo não haverá em Portugal um monumento. O Mexico ufanar-se-ha
do seu templo de Palenque, da sua pyramide de Tehuantepec; a India dos
subterraneos de Ellora e de Elephanta, e até, os habitantes barbaros da
Australia terão que mostrar aos estrangeiros os _moraes_ dos seus
antigos deuses. Só nós os portugueses não lhes poderemos dizer:--«eis os
testemunhos indubitaveis de que fomos uma nação antiga e gloriosa».
Correi as principaes cidades do reino; buscae os mais veneraveis
edificios. Ou jazem por terra ou foram applicados a usos que lhes estão
produzindo a ruina. A bella e grandiosa igreja de S. Francisco do Porto,
único monumento importante do seculo XV que possuia aquella cidade, foi
consagrada a armazem da alfandega. O mosteiro dos Jeronymos em Belem,
obra prima da architectura média entre ao néo-gothica e a da chamada do
renascimento, edificio magnifico de uma epocha de transição na arte,
como Sancta Sophia de Constantinopla o é de uma epocha analoga, foi
deturpada, não nos importa por quem, e o seu maravilhoso claustro
ludibriado com tapumes caiados e convertido em dormitorios forçamente
humidos e malsãos. A Batalha, Alcobaça, o convento da ordem de Christo
em Thomar cáhem em ruinas, e diz-se--«que importa?» Barbaros! Importa a
arte, as recordações, a memoria de nossos paes, a conservação de cousas
cuja perda é irremediavel, a gloria nacional, o passado e o futuro, as
obras mais admiraveis do engenho humano, a historia, a religião. Vós,
homens da destruição, dos alinhamentos, dos terreiros, da civilisação
vandalica, é que importaes bem pouco; porque, semelhantes a vermes,
roeis e não edificaes; porque não deixareis rasto no mundo depois de
apagar tantos vestigios alheios; porque nada valendo, menoscabaes os que
valeram muito; porque se um templo, um mosteiro, um castello duraram
seis ou oito seculos e durariam, sem vós, outros tantos, as vossas
picaretas, as vossas alavancas, os vossos camartellos estarão comidos de
ferrugem e informes antes de vinte annos, e são essas as unicas e
tristes memorias da vossa ominosa passagem na terra.
Desprezar os monumentos é brutal; persegui-los é impio e sacrilego. Os
que os desprezam fazem o que faziam os lombardos, apoderando-se da
Italia, ás formosas obras da architectura greco-romana. Deixavam-nas
perecer; porém não as destruiam. Os que as arrasam ou mutilam são
adeptos de uma velha heresia que resurge; são iconoclastos redivivos.
Procurae hoje, por exemplo, em Lisboa as antiquissimas igrejas
parochiaes de Sancta Marinha e de S. Martinho: achareis os logares onde
estiveram, e achá-los-heis, porque aos hunos encapados em lemiste não é
dado supprimir um fragmento do orbe terraqueo. Os homens desta Lilliput
da intelligencia estão desentulhando aquelles terrenos para fazerem
casas. Onde haviam elles de morar, senão fizessem alli mais umas casas?
Sancta Marinha encerrava memorias anteriores á monarchia, e a parochia
de S. Martinho prendia-se com a historia da grande crise por que
Portugal passou nos fins do XIV seculo. Mas de que momento é essa
consideração, se attendermos a que lá, onde estiveram os dous templos
ricos de idade e de tradições, se podem construir duas moradas bem
pintadas, bem alvas exteriormente, com sua beirada vermelha e seu rodapé
amarello? Que importa que se dispersem os ossos do conde Andeiro ou se
desfaça a sepultura do conde de Alvor? As cinzas dos mortos podem jazer
tão tranquillas debaixo do balcão de uma taberna, como aos pés de um
altar, á sombra da eterna cruz. Bemdicta sejas tu, geração philosophica,
geração arrasadora, geração camartelladora! O futuro, está certa disso,
ha de fazer-te justiça.
Uma das mais notaveis obras do seculo XIV foi, sem duvida, a muralha com
que el-rei D. Fernando cingiu Lisboa. Todos julgavam impossivel a sua
edificação, dizem os chronistas, porque suppunham que levaria cem annos
a construir: aquelle principe soube, porém, acabá-la em dous. Os povos
foram chamados de grandes distancias a trabalhar nella, fazendo-se
aliás, todas as prevenções para suavisar aquella especie de anudúva
extraordinaria. A esta muralha deve hoje Portugal não ser uma provincia
d'Hespanha, porque salvou Lisboa de cahir nas mãos d'el-rei de Castella.
Se isto se tivesse realisado, o reino estava perdido. Considerada a
semelhante luz, a muralha de D. Fernando era, talvez, o nosso mais
importante monumento historico. O progressivo accrescimo da capital
tinha-a em grande parte destruido; mas restava ainda, além de outros, um
lanço importantissimo. Era o angulo que fechava a cidade pelo lado do
bairro dos judeus. Por este angulo, onde houvera uma porta e onde ainda
restavam os vestigios de uma torre que a defendia, a torre de Alvaro
Paes, se podia delinear quasi exactamente a direcção que seguiam os dous
lanços de norte e de oeste. Era, assim, uma especie de padrão que
indicava os limites septemtrionaes e occidentaes da povoação, e uma
reliquia que demonstrava a grossura e solidez da antiga muralha, mui
superior á de outras porteriormente construidas em epochas mais ricas e
mais civilisadas.
Este angulo, este fragmento, testemunha do periodo mais glorioso da
nossa historia, lá se está derribando para se fazer uma praça quanto
possivel ampla. Homens gigantes, como nós, não cabem onde couberam
nossos avós, pygmeus conquistadores da Africa e da India. Far-se-ha pois
uma praça, que, se não prestar para mais nada, poderá servir de mercado
de hortaliça. Uma pyramide de repolhos substituirá o adarve, por onde,
em noite sem lua, se viam a espaços scintillar as armaduras dos
escudeíros ou cavalleiros idos em sobrerolda a vigiar as roldas dos
besteiros do conto da cidade, quando pela terceira vez no reinado de D.
Fernando os castelhanos a accommettiam com grande poder. Alli, no sitio
daquella porta, por onde o, depois tão celebre, Nunalvares sairia muitas
vezes nessa conjuctura a espalhar o terror e a morte entre os homens de
armas inimigos, venha a lide incruenta sobre o preço da couve, sobre o
viçoso ou murcho das favas, substituir o grito clamoroso de S. Jorge,
que chamava nosso avós, os rudes burgueses do seculo XIV, aos combates
em defesa da patria.
O que estes netos de Attila, de collarinhos e peitilhos engommados, são,
sobretudo, é ridiculos.
Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros tem mostrado maior veneração
pelas antiguidades do nosso paiz do que os portugueses. Um estrangeiro
salvou no convento dominicano de Bemfica a antiga capella de D. João de
Castro. Ha pouco ouvimos outro, em cujos olhos chammejava a indignação,
clamar altamente contra a barbaria com que se deixavam estragar no
mosteiro de Belem varios quadros magnificos de eschola portuguesa, nos
quaes os passaros, entrando pelas frestas mal reparadas do edificio, vão
amontoando as immundicies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem
qual seja o valor dos monumentos da arte e da historia. Nós é que temos
perdido o sentimento e a intelligencia para apreciar essas cousas.
Se com a nossa incuria aggressiva e com a nossa raiva assoladora
desmentimos o passado, para darmos em tudo documento de insipiencia
desmentimos, até, essas mesmas opiniões e tendencias do presente, a que
recorremos para condemnar em nome do progresso, sem distincção nem
juizo, o mau e o bom de eras antigas. É a economia politica a sciencia
do nosso tempo: todos falam em capitaes, em industria, em riquezas
sociaes, em valores. Mas que serão os monumentos? Que serão essas
admiraveis aggregações de marmore ou de granito? São o resultado ou
_producto_ da concepção, da applicação e da execução: vem a ser,
portanto, uma riqueza social. E por quê e para quê annullaes vós essa
riqueza? Dado que representasse um capital improductivo, com que intuito
o deitaes fóra? Não o são, porém, na sua maxima parte, os monumentos.
Quando a arte ou os factos historicos os tornam recommendaveis,
convertem-se em capital productivo. Calculae quantos viajantes terão
atravessado Portugal neste seculo. De certo que não vieram cá para
correrem nas nossas commodas diligencias pelas nossas bellas estradas,
ou navegarem nos nossos rapidos vapores pelos nossos amplos canaes; de
certo que não vieram para aprenderem a agricultar com os nossos
agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes; mas para
admirarem os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e de Belem, a sé velha
Coimbra, a cathedral, a igreja de S. Francisco e o templo romano de
Evora, a matriz de Caminha e a collegiada de Guimarães, os castellos da
Feira e de Almourol, e emfim, tantas obras primas de architectura que
encerra este cantinho do mundo. Crêdes que esses romeiros da arte voltam
da romagem aos seus lares sem dispender muito ouro, e esqueceis que esse
ouro ficou por mãos portuguesas? E falaes de economia politica, e
anniquilaes o capital dos monumentos? Adoradores do camartello, por
qualquer lado que se observe a vossa obra, não se descobre senão o
absurdo.
Quizeramos que os homens deste paiz que tem coração português fizessem
uma associação, cujo trabalho de patriotismo ligasse os seus membros
dispersos por todo o reino; que os residentes em Lisboa constituissem
uma especie de juncta, á qual os das provincias, logo que á sua noticia
chegasse a demolição de algum monumento da historia ou da arte,
remettessem uma breve nota, individuando as circumstancias do edificio
destruido e o nome do arrasador, quer este fosse magistrado ou
funccionario publico ou municipal, quer fosse individuo particular.
Quizeramos depois que essa breve nota, sem reflexões, sem affrontas,
estampada em todos os jornaes, se legasse á posteridade. Nenhuma lei
prohibe que se narre, singelamente e sem o qualificar, um facto que o
seculo julga indifferente. Ninguem, por certo, teria a queixar-se de
semelhante publicação. Eram simplesmente factos que se transmittiam á
apreciação da posteridade; era apenas um trabalho historico.
«Mas isso provocava as maldicções dos vindouros.--E que importam as
maldicções dos vindouros ao que não cura nem da arte, nem do passado,
nem do futuro, nem da gloria nacional, nem da memoria de seus avós, nem
dos sepulchros, nem das tradições, nem sequer, emfim, dos interesses
materiaes que resultam e hão de resultar da conservação dos monumentos?
Que importa isso áquelles para quem os horisontes da vida são
exclusivamente os horisontes da terra? Nada. Ririam desse corpo de
delido de terrivel processo. Mas, talvez, seus filhos e netos não
rissem, vendo-se obrigados a renegar de um nome, no qual gerações mais
allumiadas e mais nobres haviam forçosamente de imprimir o ferrete de
perpetua deshonra.
III
Os xeques da tribu arabe de Bka estavam um dia, pela volta da tarde,
assentados juncto das columnas de um templo, na extremidade oriental da
acrópole de Balbek.
D'aqui, pondo a mão sobre os olhos para os resguardarem do sol que os
deslumbrava, os chefes da tribu de Bka alongavam a vista para a banda do
poente.
E o sol, que descia rapido, mandava a sua luz suave atravez daquellas
arcarias gigantes o immensas; daquellas columnas monolithas, a menor das
quaes os braços de dez mil árabes não valeriam a erguer.
A hora era de meditação e de melancholia, e os xeques olhavam com
aspecto carregado para a ossada grandiosa da erma cidade, que é como um
olhar de desdem com que o mundo antigo contempla o mundo moderno, e é ao
mesmo tempo demonstração solemne da vaidade disso a que se chama poderio
e gloria, cuja duração se confunde na eternidade com a duração de um
dia.
E por entre aquellas rumas de mármores e de syenites viam-se passar,
buscando as suas leves e moveis habitações, dispersas entre as ruinas,
os arabes do deserto, semelhantes aos gusanos que refervem no cadaver
meio apodrecido do elephante abandonado pelos caçadores nas margens
solitarias do Zambeze.
E depois de largo silencio, um dos xeques abaixou os olhos e, com voz
presa de furor intimo, disse para os companheiros:
«Porque consentiremos nós, os filhos do Propheta, que estes gigantes de
pedra estejam continuamente assoberbando a tenda humilde do arabe, que
passa livre no mundo?
Se a nossa vida é um instante, o homem não deve construir edificios
destinados a transpor seculos. É quasi blasphemia revestir o transitorio
com o trajo da eternidade. A eternidade não é da terra; é do paraiso.
Porque haviam de querer os que já não são immobilisar no deserto para os
seus ultimos netos esse arraial quasi interminavel de tendas de pedra?
Para que semeiaram as gerações passadas uma seara immensa de abysmos
pelos pendores do Ante-Libano, arrancando delle pedreiras macissas, como
se fossem os grãos de areia, com que ergue collinas movediças o sopro do
Simúm quando varre o deserto?
Que temos nós com os tempos que já passaram, para que elles venham
increpar-nos com a muda insolencia dos monumentos o nosso livre e solto
viver, e instituir parallelos offensivos entre a decadencia actual e o
esplendor das artes e a magnificencia laboriosa e incommoda daquellas
eras de grandeza e poderio?
Que importa que então saissem da Assyria os conquistadores da Asia e as
frotas que descobriam novos céus e novos mares, ou que os poetas de
então tivessem para cantar lendas de façanhas quasi incriveis?
Em vez das conquistas, a liberdade. Hoje não ha acto que seja defeso ao
arabe do deserto. Corremos livres por livres descampados. Embora o
reluzir do sabre de um spahi de Ibrahim faça fugir aterrados cem
cavalleiros nossos, e o frangue do occidente nos despreze como barbaros.
Saboreamos quietamente o pão esmolado ou arrebatado ao que o cultivou
para nós. Da bolsa do viandante o ouro cai-nos aos pés com seu dono. O
nosso trabalho é apenas erguer aquelle quando este cai. Depois de uma
vida sem sacrificio, sem amarguras, que nenhum monumento contará aos
vindouros, dormiremos na paz do esquecimento, porque não deixaremos
vestigios da nossa jazida. Não se revolvem os ossos dos mortos, quando o
seu ultimo abrigo é a amplidão do nosso oceano de areias, que não
consente nem lapides, nem inscripções, nem edificios na sua face
tristemente pallida.
Porque, pois, continuarão eternamente erguidos estes templos, estes
palacios, estas muralhas, reprehensão ou antes injuria perpetua ao nosso
viver?
Que se ajunctem os filhos das profundas solidões do deserto, e que, dia
a dia, vão esboroando uma parte, minima que seja, desses pannos de muros
de cem covados, formados de poucas pedras; dessas columnatas, sobre
cujos frizos e arestas pousa á noite o abutre, como costuma pousar sobre
a cumiada de longa serrania, a que essa obra de homens se assemelha.»
Callou-se o xeque. Os outros abaixaram as cabeças com lento meneio, como
quem approvava o dicto.
Se eu, se vós, chegassemos neste momento ao pé do velho templo de Balbek
e ouvissemos o discursar do beduino, o que diriamos no primeiro impeto
de justissima indignação?
Diriamos que o xeque era uma vibora, que, esmagada debaixo de vinte
seculos, queria voltar contra a historia os dentes envenenados, como se
a peçonha da sua colera podesse anniquilar a historia.
E antes que a nefanda obra que elle traçava e os demais applaudiam
começasse a ser executada, falariamos assim áquelles loucos:
«Vós outros quereis derribar a memoria das gerações que foram, porque a
magestade do passado pesa mais sobre a vossa consciencia do que pesam
sobre esse chão que parece acurvar-se e gemer debaixo de tantas
grandezas, os pylones macissos, as sphinges gigantes, as arcarias
profundas, as pedras de dez covados inseridas em muralhas
indestructiveis. Melhor fora que forcejasseis por ser tambem grandes,
convertendo-vos á virtude antiga, e que, em vez de constituir um bando
de miseraveis, vos tornasseis n'uma nação illustrada e forte, capaz de
legar á posteridade monumentos como estes, quando lhe chegasse a sua
ultima hora; porque a morte abrange todas as sociedades, todas as
civilisações, como abrange todos os individuos.
Credes que a luz do sol occidental, batendo nas columnas avermelhadas do
velho templo, vos reflecte nas faces envilecidas o rubor que as tinge?
Não sentis o sangue que estas palavras vos fazem subir do coração ao
gesto? É o sangue e não o marmore; é que, mau grado vosso, ellas foram
despertar uma voz que não podeis soffocar, a da consciencia, que vos
reprehende da actual decadencia. A vermelhidão que surgiu nessas faces
crestadas não reflecte da pedra lisa; reflecte-se das almas que se
rebellam contra si mesmas.»
Ouzariamos nós, em verdade, dizer isto aos beduinos, sem que tambem o
rubor viesse tingir-nos as faces?
Não; porque somos como elles; porque, bem como elles, nos persuadimos de
que, varrendo todos os vestigios do Portugal antigo, poderemos esconder
aos estranhos a nossa decadencia actual; porque, além disso, cremos que
para ser deste seculo, é preciso renegar dos antepassados.
Todavia, ainda ha quem deplore a destruição das memorias venerandas de
melhores tempos; ainda ha quem lucte contra a torrente de barbaria que
alaga este paiz tão rico de recordações, recordações que tantos animos
envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de
indignação acham echo em muitos corações. Temos visto e recebido cartas
acerca deste assumpto escriptas com a eloquencia da convicção e de
profundo despeito. São protestos solemnes de que nem todos os filhos
desta terra venderam a alma ao demonio da devastação. Provam ellas que o
ruido dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão,
da consciencia e do amor patrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias
contra essa idéa fatal que entrou na maioria dos espiritos, de que tudo
quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a peior cousa que ha é
essa idéa, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais
destestavel a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua
infancia a inscripção que o atheismo decreta para os sepulchros:--aqui é
a jazida do nada.
É singular, por exemplo, a historia das recentes vicissitudes por que
tem passado a collegiada de Sancta Maria da Oliveira em Guimarães.
Guimarães parece fadada para victima desta especie de escandalos. A
igreja da collegiada de Guimarães era um dos mais bellos monumentos de
architectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente
lavradas constituia com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza
de Portugal neste genero, porque, durante a idade média, empregava-se
geralmente a abobada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as
bem proporcionadas arcarias, os capiteis adornados de esculpturas
variadas e subtis, as tres naves magestosas divididas por elegantes
columnas, inspiravam em subido grau aquelle respeito melancholico e
saudoso que é um segredo das igrejas chamadas gothicas. Os annos não
tinham deslisado em vão por cima do monumento: arruinado em partes,
carecia de reparos. O cabido ajunctou para isso grossas sommas.
Chamaram-se obreiros, e ha sete ou oito annos que estes lidam por apagar
todos os vestigios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capiteis
e cornijas: substituiram-se com pedras lisas: estas pedras cubriram-se
de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do
Mestre d'Aviz lá está alindado; lá está cuberto de arrebiques. Os que
deviam manter-lhe a magestade das cans; os que deviam dispender seus
thesouros accumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o
venerando aspecto e as rugas dos seculos, fizeram da casa do Senhor um
velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flaccidez do
gesto. Blasphemaram de Deus, não com blasphemias de palavras, mas com a
blasphemia das obras. Deram emfim documento indubitavel de que não havia
alli quem soubesse a harmonia que existe entre a architectura e a
religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dous
typos sensiveis, dous verbos que inspiram, um directamente ao espirito,
outro symbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de
que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escripto, mas que tambem é
impio rasgar o livro de pedra.
E que disseram os habitantes de Guimarães durante oito annos em que os
vermes andaram a roer naquelle cadaver?
Louvaram o _bonito_ da obra. O longo tasquinhar do cabido
despertou-lhes, até, o appetite. Alguns lembram-se já de demolir as
muralhas da villa reconstruidas por D. Dinis. Talham ainda banquete mais
lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique;
dos paços onde Affonso I nasceu. A gloria dos conegos de Santa Maria da
Oliveira, tão dispendiosamente conquistada, offuscar-se-hia, assim, por
pouco dinheiro, como a luz pallida da lua nos esplendores do surgir do
sol.
Arrasados, pois, os muros reconstruidos pelo rei lavrador, apagados os
ultimos vestigios dos paços dos nossos primeiros monarchas, raspado e
serapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de
ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trahir, lhe
restará uma ruga na face: o frontispicio da collegiada. Mas se a
picareta do municipio pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita,
o colherim, as tigellas de ochre e vermelhão e as broxas canonicaes,
vingue-se o illustrissimo cabido arranjando mais alguns vintens, e
mandando á custa delles picar e caiar aquelle frontispicio. Depois, para
esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triumphantemente
a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado.
Mas haverá um governo que tolere tantos desvarios, tantas devastações
brutaes? Póde haver, e ha. Não seria difficil encontrar ministros e
administradores geraes, que, se não fora o defeito de lerem sem
soletrar, symptoma altamente suspeito para os eleitores, dariam
excellentes vereações aos concelhos desta terra, onde o sangue dos
conquistadores suevos parece ter ficado predominando nas veias dos seus
habitantes. Mais de um governo tem disputado ás camaras municipaes
primores de barbaridade. Já alludimos á igreja de S. Francisco do Porto
convertida em armazem da alfandega; ao claustro de Belem convertido em
dormitorio; ao abandono dos conventos de Thomar, da Batalha e de
Alcobaça. Ha, porém, mais. Vede essa igreja de S. Domingos de Santarem.
As suas velhas e grossas portas estão fechadas e o convento está vazio
dos seus antigos habitadores. Não é, todavia, provavel que o templo
mandado edificar pelo malfadado Sancho II e de cuja primitiva fabrica
ainda resta inteira a capella mor, ficasse deserto de culto, como o
convento ficou ermo de frade. A suppressão das ordens monasticas não foi
a abolição das solemnidades religiosas. Vede, pois, o templo, que, se
agora está fechado, não tardará a ecchoar com orações e psalmos.
Transportae-vos pela imaginação para o interior da igreja na hora em que
os canticos e o incenso se alevantam ante o altar; em que o orgam sólta
a sua voz melancholica; em que a nave está cheia de povo e o sacerdote
ora por elle e com elle; na hora em que o sol coado através das esguias
janellas reflecte pelas pedras que o tempo amarelleceu uma luz
suavemente pallida; imaginae essa hora, e vereis que, se o convento se
despovoou, nem por isso ficou despovoado o templo. A oração do
dominicano não é necessaria nas solemnidades da igreja. Não o abandonou
á soledade a pia sollicitude dos fieis. De noite, as lampadas,
penduradas ao longo da nave, ou brilhando na escuridão das capellas,
como estrellas engastadas em céu profundo, despedem frouxos raios que
vão quebrar-se por cima de campas onde se divisam, em caracteres
confusos e gastos nomes de varões illustres que alli vieram repousar das
lidas da vida á sombra da cruz. Lá estão os sepulchros de Gil e de
Martim d'Ocem, cuja voz exprimia a summa razão e a summa sciencia nos
conselhos dos reis; lá alveja o jazigo do infante D. Affonso, filho de
Affonso IV, e o de Fernando Sanches, a quem Fr. Luiz de Sousa chama
_bastardo querido_ de D. Dinis. Por ahi dormem muitos pobres frades,
cuja vida obscura, mas cuja morte foi invejada. Misturam-se alli os
ossos dos que foram grandes na terra com os dos que reputamos grandes no
céu; e uns e outros são como testemunhas que tornam mais solemne o
culto, esse laço que liga ao céu a terra. Mas as portas do edificio
sagrado rangem nos quicios de ferro, para se abrirem de par em par.
Ondas de povo vão precipitar-se pelo estreito ádito e espraiar-se até
juncto do altar. O sacerdote vai começar o sacrificio incruento, e o
orgam acompanhar as orações com as suas harmonias. Entremos.
Não! Refujamos! Orações, psalmos, harmonias, luzes, incenso, sacerdotes,
povo, nada disso ha ahi. Há só as trevas da nave pesando sobre as trevas
dos sepulchros. O velho templo é um palheiro do Commissariado...
E quem fez isso? Foi o vereador boçal de um concelho obscuro? Não. Foi o
governo de uma nação que se diz civilisada, ou que pelo menos toma
assento no convivio das nações da Europa.
Quasi contiguo á igreja palheiro existe outra, modelo em muitas cousas
da mais elegante architectura ogival. É a do extincto convento de S.
Francisco. Lá, na parte da nave sobposta ao côro, o tumulo da infanta D.
Constança, cujos lavores se vão diariamente quebrando e oblitterando,
serve de cabide a sellins e arreios de cavallaria. Applicação igual e
igual fim vai tendo o del-rei D. Fernando, que anteriormente os frades
tinham transferido da nave para o côro.
Com estes exemplos do governo não é de admirar que ahi mesmo em Santarem
se derribem as portas das velhas muralhas para calçar as ruas, ou que na
antiga villa da Torre-de-Moncorvo, hoje Moncorvo só, a antiquissima
torre que dera origem e nome á povoação, fosse deitada por terra com o
mesmo intuito; que, emfim, se tracte de dar ás muralhas da Guarda
identico destino. Aqui o vandalismo confunde-se com a demencia. Na
Guarda, ninho d'aguias, collocado no cimo de um cerro de granito, a
pedra vai calçar a pedra. D'antes, no inverno, o viver alli era bem
duro, quando os edificios estavam abrigados atraz da solida cerca.
Agora, o vento gelado que passa pelas cumiadas da serra da Estrella virá
precipitar-se rugindo por aquellas ruas meio desertas e tornar
inhabitavel a povoação. A Guarda, que em si propria é um monumento, e
que encerra uma cathedral magnifica, estará no decurso, talvez, de
poucas décadas convertida n'um covil de féras.
Dos males que os seculos passados legaram ao presente nenhum foi tal
fatal como a ignorancia em que deliberadamente se conservavam as
multidões. Essa ignorancia que ha de levar annos, talvez seculos, a
dissipar, era incomparavelmente menos nociva em epochas de servidão,
quando o poder absoluto, concentrado em poucas mãos, podia facilmente
reunir n'um foco as luzes intellectuaes do paiz e aproveitá-las
desassombradamente na solução das questões de administração. Hoje que o
vassalo se converteu em cidadão; hoje que os erros e preoccupações das
intelligencias incultas se despenham de todos os lados na torrente da
opinião publica e se confundem de modo inextricavel com as idéas
sensatas; hoje, finalmente, que é necessario não afrontar essa torrente,
nem querer fazê-la refluir á força, os resultados fataes da ignorancia
são incomparavelmente mais difficeis de evitar e remediar. Se as portas
dos ministerios estivessem fechadas para os arrasadores professos, e
fosse exigivel dos pretendentes a pastas uma justificação de que, nem
pelo lado paterno, nem pelo materno, descendiam de algum soldado de
Genserico, ainda assim, dada a competencia dos magistrados municipaes, e
o valor moral que resulta para os seus actos da sua origem electiva, um
governo illustrado, mas que não quizesse ultrapassar os limites da
propria auctoridade, não poderia talvez reduzir completamente ao
silencio o fragor das demolições que reboa por todos os angulos do
reino. O camartello é o enlevo, o bezerro d'ouro, o Moloch, o Baal da
nossa burguesia. Um camartellão deitado sobre uma ara de pedra em frente
dos paços do concelho deveria substituir os seculares pelourinhos
(tambem já, em parte, roidos ou despedaçados), como symbolo do poder
municipal.
Imaginemos, de feito, cinco, seis, ou mais figurões assentados ao redor
d'uma banca, falando sem juizo, ás vezes sem decencia, sempre sem
grammatica, sobre a administração do municipio, e ponderando os
proveitos e aformoseamentos que para este hão-de resultar da destruição
de um monumento da arte ou da historia. Lá pede a palavra um delles,
logista gordo, ensebado, vermelho, quasi-virtuoso, e cujas unhas e cuja
barba estão accusando a tesoura e a navalha de vergonhoso desleixo no
desempenho das respectivas funcções. É o Demosthenes do conciliabulo.
Aprendeu a ler pela Historia de Carlos Magno e dos Doze Pares, e é
assignante das traducções de Paul de Kock, para se exercitar. Um
palacio, um muro, uma igreja de eras remotas fazem-no estremecer de
horror. Ao lado de cada ameia do castello ermo lhe parece enxergar um
cavalleiro cuberto de armas ferrugentas; em cada torre crê ouvir soar as
badaladas da campa feudal. Escutam com assombro os outros cidadãos
vereadores o Mirabeau logista. Os animos commovem-se: os cabellos
arripiam-se. A sentença contra o monumento vai ser fulminada. Ha um
instante de terrivel silencio. O presidente pede votos.--«A terra»:--diz
o homem gordo.--«A terra»:--vão repetindo com voz solemne os outros
membros do sanhedrim. Então o secretario lavra o fatal accordam. Por
entre aquellas letras, logo á nascença amarellas, e escriptas com penna
de duvidosa classificação ornithologica, surge magestosa no meio de cada
palavra uma letra capital, como que protegendo as que a precedem e
seguem. Acabou-se emfim a magistral composição: o erudito secretario
estende o papel ao presidente, que, enlevado na voz melodiosa da
consciencia a asseverar-lhe que fez desmarcado serviço á patria, o
recebe ás avessas, e lhe lança no topo, com ademan desdenhoso, a cruz de
seu signal. Passa aos outros juizes a acta fulminante. O logista que,
por incessantes exercicios gymnasticos nas paginas de Paul de Kock, já
soletra com rapidez vertiginosa, e conhece n'um relance o erro do
presidente, cujo pundonor litterario não ousa, aliás, ferir advertindo-o
do lapso, escreve o proprio nome, em menos de dez minutos, no seu devido
logar, e debaixo da garatuja do Mirabeau burguês, os outros magistrados
municipaes vão plantando as respectivas cruzes n'um devoto calvario.
Emfim, o secretario assigna, e o crime está consummado.
Torre, muro, paço, ou o que quer que sejas, cuja ruina foi decretada,
para ti já não ha salvação. Amanhan, nos teus lanços desconjunctados, no
teu cimento desfeito, nas tuas pedras estouradas, nos teus fundamentos
revoltos, estará escripto á ponta de picareta e de alavanca a palavra
fatal--«a terra!»--extrahida do calvario municipal.
Mas--dir-se-ha--que quereis que se faça ácerca dos monumentos? Que
queremos que se faça?! Que se deixem em paz. Não pedimos museus; porque
estes não são, digamos assim, senão necropoles, em relação á
architectura. Depois, em muitos casos, os monumentos não se transportam,
nem cabem lá. Os fragmentos de um edificio, tirados do seu logar, sem
destino, sem união, são mortos; são cinza e pó de cadaveres. Reunam-se
em bibliothecas e em galerias os livros e os quadros que não foram
roubados, estragados ou abandonados por ignorancia crassissima; mas as
pedras só pedem repouso. Que os representantes do paiz lhe salvem os
seus titulos mais nobres. Haja no seio do parlamento uma voz que se
alevante energica a favor do passado. Essa voz achará eccho em todos os
districtos do reino, porque em todos elles há homens sisudos e peitos
generosos. Appareça uma lei ácerca do assumpto, efficaz pela sancção do
castigo, já que, n'um seculo corrompido e de decadencia, as
palavras--pundonor e gloria--vão insensivelmente passando para o
glossario dos archaismos. Entenda-se, emfim, que nenhum monumento
historico pertence propriamente ao municipio em cujo ambito jaz, mas sim
á nação toda. Por via de regra, nem a mão poderosa que o ergueu regía só
esse municipio, nem as sommas que ahi se despenderam sairam delle só,
nem a historia que transforma o monumento em documento é a historia de
uma villa ou cidade, mas sim a de um povo inteiro. Se, por exemplo, aos
habitantes de Guimarães, de Coimbra, do Porto ou de Lisboa não importa
que desappareçam as mudas testemunhas dos factos que ahi se deram, dos
homens que ahi passaram; se não lhes importa que o viajante vá examinar
os monumentos que os livros dizem existir ahi, e que, achando-os
convertidos em pavimentos das ruas, fuja espavorido temendo alguma
fréchada ou azagaiada, suppondo-se, por illusão momentanea, nos sertões
invios da Cafraria; se não curam da propria reputação, consentindo que
os seus eleitos vão assentar praça posthuma nas extinctas legiões
d'Attila, e que o seu clero se filie na seita dos modernos iconoclastas,
ao menos que o governo e o parlamento não deem ao mundo documento de
igual ignorancia e barbaria, mas acudam ao que ainda resta. Que uma lei
salvadora aposente de vez os picões e alviões e alavancas que tantas
esculpturas tem roçado, tantas campas profanado, tantas columnas
quebrado e tantas torres, muros, ameías, campanarios, arcarias, galilés
derribado e desfeito.
DA PROPRIEDADE LITTERARIA E DA RECENTE CONVENÇÃO COM FRANÇA AO VISCONDE
D'ALMEIDA GARRETT
1851
APPENDICE
1872
Senhor Visconde.--Ha dias que no _Diario do Governo_ se publicaram
varios documentos assignados por v. ex.^a, entre os quaes um, cujo
verdadeiro nome e indole ignoro pela minha pouca noticia dos ritos
diplomaticos e formulas officiaes. Neste documento, no meio de graves
ponderações dirigidas á Soberana por v. ex.^a ácerca da convenção
recentemente celebrada com a republica francesa, vem citado o meu nome
em abono, se não daquella triste convenção, ao menos do decreto que
creou e legitimou em Portugal a propriedade litteraria. A honra que v.
ex.^a me faz citando o meu nome, e citando-o conjunctamente com o do
illustre Silvestre Pinheiro, exigiria da minha parte o mais vivo
reconhecimento, se eu podera acceitá-la. Infelizmente prohibe-m'o a
consciencia. Enganaria os meus conscidadãos; enganaria a v. ex.^a, se
com o silencio désse a minha fraca sancção á doutrina da propriedade
litteraria, a qual considero mais que disputavel, ou á convenção com
França, que, além de consagrar opiniões que reputo profundamente
inexactas, é prejudicialissima por diversos modos aos interesses da
nossa terra. E torna-se tanto mais indispensavel esta minha
manifestação, quanto é certo que, não só em conversações particulares,
mas tambem pela imprensa, desapprovei altamente a feitura desse ruinoso
convenio. N'um jornal, em que eu collaborava, appareceram varias
considerações, que supponho não serem de desprezar, contra os ajustes
celebrados com França a semelhante respeito. Essas considerações eram
minhas: adopto-as hoje, como então as exarei, sem lhes ajunctar a minha
assignatura, porque um nome não dá nem tira força a um raciocinio, e um
absurdo não fica mais ou menos absurdo quando é ou deixa de ser adoptado
por um engenho grande ou pequeno. Todos sabiam que o artigo do _Paiz_
contra a convenção litteraria era meu: foi, até, por isso,
accidentalmente me constou a publicação do papel dirigido por v. ex.^a a
S. M. a Rainha; foi por isso, e só por isso, visto que nunca leio o
_Diario_, e nomeiadamente a parte official, com temor de chegar a
esquecer a grammatica geral, e a indole e propriedade da nossa lingua.
Por alguem, que suppôs ver ahi uma refutação do que eu tinha escripto,
soube da existencia de tal papel, que, no entender dessa pessoa,
affectava com arte ser uma especie de prevenção contra objecções
futuras. Busquei o _Diario_, e desenganei-me de que haviam dado ao
documento uma interpretação inexacta e malevola. Lendo-o, convenci-me de
que a alta razão de v. ex.^a reluctava contra a obra fatal do convenio,
e de que a voz dos sophistas, que v. ex.^a suppunha ouvir do lado do
futuro, era a da propria intelligencia, que condemnava a illusão em que
se transviara. Tentando persuadir a Soberana, v. ex.^a, sem talvez o
saber, persuadia-se a si proprio. Era malevola e injusta, portanto, a
significação que se dava áquelle e aos outros documentos publicados no
_Diario_ a este proposito. Se v. ex.^a intentasse refutar as
considerações do _Paiz_, te-lo-hia feito directamente, francamente,
lealmente: sobejam-lhe para isso recursos. V. ex.^a teria apreciado as
razões dos que condemnam a convenção, e não se limitaria a qualificá-los
de sophistas, sem mostrar que o sophisma estava do lado delles. V. ex.^a
é uma intelligencia demasiado superior, para não recorrer a essa pobre
argumentação _ad odium_, de que contra mim mesmo a hypocrisia ignorante
e irritada ainda ha pouco tempo deu nesta terra tão deploraveis
exemplos. Só nas circumstancias em que v. ex.^a escrevia, quando a
imprensa não tinha interposto o seu voto sobre a materia, e quando v.
ex.^a estava provavelmente persuadido de que ás doutrinas em que se
funda o tractado e ás provisões delle se não opporiam senão sophismas;
só nessas circumstancias, digo, v. ex.^a poderia empregar as duras
phrases com que condemnou os adversarios possiveis da convenção
litteraria.
Persuadido de que isto era assim, e de que os termos geraes, em que v.
ex.^a se expressava, não destruiam na minima cousa as minhas posteriores
observações, eu teria evitado o para mim, por muitas razões,
ingratissimo trabalho de escrever a v. ex.^a sobre o assumpto, se v.
ex.^a me não houvera, até certo ponto, chamado á auctoria sobre a
doutrina que serve de fundamento tanto ao decreto de 8 de Julho, como á
convenção, que se reputa seu corollario. Mas, podendo concluir-se das
palavras com que v. ex.^a quiz honrar-me, que eu commungo nas suas idéas
sobre a propriedade litteraria, o que não sería exacto, devo rectificar
os factos a que v. ex.^a allude, e expôr depois as duvidas que tenho
contra a legitimidade das doutrinas de v. ex.^a nesta materia, bem como
os inconveniente que, na minha opinião, resultam para Portugal da
applicação de taes doutrinas á feitura do tractado ou convenção, em que
v. ex.^a foi um dos plenipotenciarios.
Diz v. ex.^a que eu e Silvestre Pinheiro tinhamos approvado e
aperfeiçoado o trabalho de v. ex.^a sobre o direito de propriedade
litteraria, o qual hoje se acha convertido em lei do reino. Pelo que me
toca, posso assegurar a v. ex.^a que de tal approvação e aperfeiçoamento
não conservo outra memoria que não seja a seguinte: estando eu e v.
ex.^a na camara dos deputados na legislatura de 1840, tinha v. ex.^a
apresentado um projecto de lei sobre aquella materia. Pertencia eu á
minoria da camara, e no seu zelo por fazer passar uma providencia, que,
sinceramente o creio, reputava util e justa, v. ex.^a teve a bondade de
falar comigo e com outros membros da opposição, para que não a
fizessemos a esse projecto sobre que ía deliberar-se. D'entre os
individuos com quem v. ex.^a tractou o assumpto, recordo-me de quatro,
dos srs. Soure, Ferrer, Marreca e Seabra, o ultimo dos quaes, conforme
minha lembrança, reluctou antes de acceder aos desejos de v. ex.^a Eis a
memoria que conservo de semelhante negocio. Se v. ex.^a me mostrou então
o seu projecto, e se eu lhe propús a alteração ou o accrescentamento de
algum artigo, nem o affirmo, nem o contesto. São cousas que
completamente me esqueceram. Mas, se o fiz, que se deduz d'ahi a favor
ou contra o pensamento da lei; a favor ou contra o direito de
propriedade litteraria? Esses additamentos ou observações podia
submettê-los á consideração de v. ex.^a, acceitando hypotheticamente a
doutrina, sem a fazer minha; podia propô-los em attenção ao
desenvolvimento logico do projecto, ou ás circumstancias externas que
devessem modificá-lo, sem adoptar a idéa geradora delle. Se, porém, v.
ex.^a quer que por esse facto eu mostrasse seguir então as idéas de v.
ex.^a, declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de mim
qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me.
Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e eu não me
envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me
envergonho de raciocinar e aprender. O que me traria o rubor ás faces
seria alterar doutrinas e crenças para promover os meus interesses;
duvidaria, até, de o fazer, se tal mudança, por caso fortuito, se
ligasse com vantagens para mim. Mercê de Deus, nessa parte tenho sido
feliz. É desgraça que ainda me não succedeu.
Permitta-me v. ex.^a que, antes de lhe expôr as duvidas que tenho ácerca
da propriedade litteraria, eu invoque, para desculpar a minha descrença,
o scepticismo d'uma das primeiras intelligencias de Portugal neste
seculo, que é v. ex.^a mesmo. Parecendo sustentar como incontroversa a
doutrina que serviu de fundamento ao decreto e á convenção, affirmar que
a moral e o direito seriam offendido se essa doutrina não se reduzisse á
practica legal, equiparar a contrafacção á fraude, ao roubo e á
falsificação, considerar como blasphemos e sophistas os que duvidam da
legitimidade moral da sua theoria, v. ex.^a assevera, comtudo, que não
estipularia definitivamente o artigo 8.^o do convenio, que fere os
interesses provenientes da contrafacção, nem as mais provisões que delle
se deduzem, se não houvera verificado que era minima a somma das nossas
importações de livros da Belgica. V. ex.^a, consinta-me dizê-lo,
calumniar-se-hia a si proprio se houvessemos de dar a estas proposições
encontradas um valor absoluto. Se v. ex.^a estivesse perfeitamente
convencido das nequicias e immoralidades que lhe apraz atribuir á
contrafacção, e da legitimidade _sacratissima_ que presuppõe na
propriedade litteraria, v. ex.^a não poderia hesitar na estipulação do
artigo 8.^o, fossem quaes fossem os proveitos que tirassemos da sua
eliminação; porque nas doutrinas indisputaveis de moral e de justiça
quem é capaz, não digo de deixar de proceder em conformidade d'ellas,
mas sequer de hesitar, é tambem capaz de trahir o seu dever, e v. ex.^a
nunca por certo o seria. Se v. ex.^a, para resolver o negocio, julgou
opportuno examinar a questão d'interesse, para admittir ou repellir o
artigo 8.^o da convenção, cumpre-me acreditar que reputava duvidosa a
legitimidade da sua doutrina.
Examinemos a essencia dessa doutrina.
O que é o direito propriedade? É o direito transmissivel de possuir e
transformar um valor creado pelo trabalho do que o possue, ou
transforma. Esse direito complexo existe desde o momento em que o homem
applicou o trabalho intelligente á materia, e creou assim um valor. As
modificações, os limites que a sociedade lhe impõe vem da indole e das
necessidades della; não são inherentes ao mesmo direito.
A propriedade litteraria (abstrahindo das obras d'arte para simplificar
a questão) não póde ser senão o direito sobre um valor creado pelo
trabalho dos que o crearam; sobre a representação material da idéa;
porque esse valor está ligado a um objecto que se chama o _livro_, na
accepção vulgar e sensivel desta palavra.
O que é o livro? Um complexo de phrases unidas entre si para
representarem uma certa somma de idéas, fixadas no papel para se
transmittirem á intelligencia, e repetidas certo numero de vezes para
aproveitarem a muitos individuos; mas para aproveitarem ainda mais ao
auctor.
Como nasce o livro? Pelos esforços combinados do escriptor, do
capitalista que empregou o capital para a sua publicação, do fabricante
de papel, do compositor, do impressor, etc. São estes esforços junctos
que criam o valor do livro, valor que, antes ou depois de trocado, se
reparte pelos que trabalharam em creá-lo.
Qual é a parte que pertence ao auctor nesse complexo de esforços? A
correspondente ao seu trabalho, no sentido vulgar da palavra, porque só
o trabalho material, embora dirigido pela intelligencia, como todo o
trabalho productivo, póde crear verdadeiramente um valor de troca. Esta
quota, indeterminada em si, é fixada em cada um dos casos pelas
convenções espontaneas e livres entre os individuos que concorreram para
a existencia do valor venal que o livro representa.
Como se procede ordinariamente nessa operação economica? O editor, seja
o proprio auctor, seja pessoa diversa que subministre o capital,
retribue o trabalho de todos os outros individuos e realisa o valor da
mercadoria, conjunctamente com a renda do capital, por meio da venda.
Todos esses esforços e factos economicos que delles derivam foram
calculados, avaliados. A totalidade dos exemplares de qualquer
publicação representa a totalidade desses diversos valores; é
determinada por elles e determina-os ao mesmo tempo, porque ha uma
condição extranha que a restringe, a das probabilidades maiores ou
menores da procura no mercado.
Estas phases que se dão na industria dos livros, na sua fabricação e
commercio, são as mesmas que se dão n'outra qualquer industria. As leis
civis que a protegem devem, portanto, ser as mesmas que protegem as
outras. A igualdade civil não consente que sejam nem mais nem menos.
O direito de propriedade litteraria, como v. ex.^a o entende, cria,
porém, um valor ficticio para crear uma propriedade que não o é menos.
De feito, o que é que se transfere de uma edição para outra? Unicamente
as idéas, as phrases, as palavras, combinadas deste ou daquelle modo.
Pois isso póde ser propriedade de ninguem? Menos ainda, se é possivel,
que o ar, o calorico, a chuva, a luz do sol, a neve, ou o frio. Como
cada um destes phenomenos naturaes, essas idéas, essas phrases, essas
palavras podem ser uteis; mas a _utilidade_ não é o _valor_; porque nada
d'isso é susceptivel de uma apreciação de troca. O professor, por
exemplo, não vende as suas doutrinas e as formulas com que as exprime;
vende o tempo e o trabalho que emprega em ensiná-las; vende o tempo e o
trabalho que emprega em ensiná-las; vende o tempo e o trabalho que
consumiu em adquiri-las. O discipulo que as ouviu uma ou mais vezes, e
que as decorou, póde ir repeti-las, ensiná-las a outros, sem que ninguem
se lembre de o considerar como um contrafactor. Onde está a razão para
se darem naturezas diversas á concepção escripta e á concepção falada? A
lei, para ser logica, deve prohibir a repetição do discurso proferido
seja onde fôr, na cadeira, no pulpito, nas assembléas consultivas e
deliberantes, uma vez que o acto da repetição possa produzir lucro. Se a
idéa que se manifesta se torna pelo simples facto da manifestação uma
propriedade, é preciso que assim se verifique sempre e em todas as
hypotheses; porque a qualidade de escriptor não dá a ninguem melhor
direito do que ao resto dos cidadãos.
Permitta-me v. ex.^a que eu procure um exemplo onde se possa bem sentir
o diverso modo por que cada um de nós concebe a questão. Um individuo
quis edificar uma habitação mais ou menos sumptuosa, mais ou menos
commoda, para negociar o predio depois de acabado. Chamou um architecto
e ajustou com elle retribuir-lhe o desenho na proporção do lucro da
venda. O architecto delineou o edificio: o edificador reuniu o cimento,
a pedra, as madeiras e os outros materiaes para a edificação. Veio então
o mestre d'obras com os seus obreiros: lançaram-se os fundamentos;
altearam-se as paredes; travaram-se os madeiramentos; assentaram-se os
tectos; dividiram-se e adornaram-se os aposentos; pôs-se, emfim, remate
ao edificio. Vendeu-se este depois, e o architecto recebeu a retribuição
do seu trabalho. Em rigor que tinha elle feito? Manifestara o seu
pensamento; escrevera um livro, e imprimira-o n'um unico exemplar, para
haver uma quota, proporcional e livremente ajustada, do producto da
venda desse exemplar. Quanto a mim, recebida esta quota, a especie de
co-propriedade que elle tinha no predio cessou. O comprador podia fazer
reproduzir o edificio tal qual n'outra ou n'outras partes; podiam
reproduzi-lo todos que o vissem. Se, porém, fosse verdadeira a doutrina
de v. ex.^a era necessario que se chamasse o architecto a cada nova
edificação que se emprehendesse, e que de novo se lhe pagasse o desenho,
como lho pagara o primeiro emprezario. A theoria da propriedade
applicada ás manifestações da intelligencia para ser lógica comsigo
mesma tem de ir até o absurdo. E senão, imaginemos outras hypotheses.
Um marceneiro ideou uma cadeira elegante e commoda; deu depois
existencia e vulto á sua concepção, fabricando uma duzia ou um cento de
cadeiras, em que essa concepção se manifestou, e vendeu-as com um lucro
mais ou menos avultado. Os que crêem na propriedade das idéas devem
invocar o direito de propriedade para a concepção do marceneiro, porque
o marceneiro é tão cidadão como o escriptor: devem declarar contrafactor
outro qualquer individuo da mesma profissão, que, vendo a procura no
mercado daquella fórma de moveis, os imitou sem licença do inventor; sem
lhe pagar o preço da idéa, o preço da sua propriedade intellectual.
Um cultivador, á força de observações e de meditação, tendo unido ao
estudo da sciencia de agricultar o da natureza do solo e das condições
do clima em que habita, achou emfim um systema de rotação e um methodo
de cultura muito mais perfeito que o dos seus vizinhos. Esses methodo e
systema, applicados á terra, produziram-lhe, em vez de dez sementes,
vinte; em vez de uma colheita annual, duas. Os vizinhos, convencidos da
utilidade das idéas do cultivador, applicaram o novo systema de rotação,
o novo methodo de amanhos aos proprios campos: _contrafizeram_ o livro
do lavrador, escripto a ferro de charrua nas vastas paginas da terra.
Venha uma lei que véde este attentado contra a propriedade sacratissima
das idéas.
E essa lei protectora que se estenda a tudo quanto o espirito humano
póde conceber: prohiba-se a luz que o trabalho da intelligencia derrama
no meio da sociedade, e que se chama a civilisação; annulle-se a obra de
Deus que pôs no mundo os homens summos como apostolos da sua sabedoria
eterna, como instrumentos da sua providencia; neguem-se os destinos de
perpetuo progresso, que são os do genero humano, e cujo mais poderoso
mobil é a imitação, se essa luz, se essa civilisação, se esse progresso
não for comprado na praça publica; se não se respeitar o direito da
propriedade litteraria, que não é, que não póde ser senão o direito de
propriedade das idéas manifestadas, não importa com que formulas;
materialisadas, não importa por que meio, nos objectos sensiveis.
Todavia, dir-se-ha, o trabalho dos auctores com essa protecção dada ao
livro só como uma especie de manufactura para que elles contribuiram,
não fica dignamente retribuido. Depois, não é isso fazer descer o homem
de talento ao nivel do rude obreiro? Não é envilecer o nobre mister de
escriptor? Absurdo tudo isso! Desde que pondes a retribuição do engenho
á mercê da procura no mercado, é necessario que elle se submetta ás
condições do mercado. Quem o reduz unicamente à qualidade de fabricante
de livros sois vós com as vossas leis de propriedade. Se o quereis
recompensar como é recompensado o lavrador, o industrial, não exijaes
para elle um direito diverso. O auctor de um volume, que custou um anno
de trabalho, realisada a venda de mil exemplares que se imprimiram,
lucrou, supponhamos, 300$000 réis. Que meio tendes para verificar que o
seu trabalho não está pago? Que outra cousa, senão o mercado, regula o
valor dos serviços? Quem vos disse, que, attribuindo ao auctor o direito
exclusivo de reimprimir o livro, elle ou seus herdeiros, tantas vezes
quantas o exigir a procura, durante a sua vida e mais trinta annos
depois da sua morte, nem mais um mez, nem menos um mez, é que a
retribuição correspondeu ao lavor? Onde está a vossa balança, o vosso
metro? Respondei.
E cabe aqui repetir uma observação a que por parte dos defensores da
propriedade litteraria nunca se deu resposta que tivesse o senso commum.
Se as idéas e as phrases de um livro constituem uma propriedade, um
valor, um capital accumulado e fixo; se esta propriedade é sacratissima,
ou por outra, se é sagrada entre as mais sagradas, porque lhe recusaes a
vantagem que o direito assegura sem excepção a todo o outro capital
accumulado e activo, a perpetuidade? Porque espoliaes os herdeiros do
auctor no fim de trinta annos? O capital não se consummiu, porque o
livro ahi está. Em virtude de que principio moral ou juridico hão-de
elles ser privados de uma herança sacratissima? Em virtude da utilidade
publica? Mas as expropriações de outra qualquer propriedade menos
sagrada, em proveito commum, por mais remota que seja a origem desse
capital accumulado, pagam-se. A expropriação publica não é mais do que
uma troca regulada, como todos os valores, pelo preço do mercado.
O que me parece ineluctavel, sr. visconde, á vista destas ponderações, é
que o escriptor, ao mesmo tempo homem de trabalho e evangelisador da
civilisacão e do progresso, exerce na terra um duplicado mister. Na
feitura de um livro ha dous phenomenos distinctos: um material, outro
immaterial. O material é o lavor visivel que essa feitura custou. O
auctor consumiu horas e horas sobre os livros, emprehendeu viagens,
trabalhou nos laboratorios, revolveu bibliothecas e archivos, penetrou
nas minas e subterraneos, herborisou por valles e serras, observou os
ceus, sondou os mares, e depois, encerrado no seu gabinete, durante dias
inteiros, no ardor da canicula; durante longas noites nos rigores do
inverno, ennegreceu o papel com a traducção visivel das reflexões ou dos
factos que o seu espirito havia coordenado. Em todas estas occupações,
em todos estes phenomenos exteriores não houve da parte delle senão a
obediencia á lei commum do genero humano; a condição do trabalho imposta
a nossos primeiros paes. Exteriormente, a sua situação é a mesma do
official mechanico, que, depois de cinco annos de aprendizagem, obteve
meios de trabalhar de sol a sol para ganhar um salario. Nenhum principio
de moral, de justiça lhe dá melhor direito que ao operario que funde o
ferro, que acepilha a madeira, que ara a terra. Sob este aspecto, a
sociedade nada mais lhe deve do que as garantias da retribuição do seu
trabalho dentro das regras ordinarias de apreciação. Ao lado, porém, de
esforços grosseiros houve outros immateriaes e inapreciaveis pela
craveira commum. São os da cogitação, da inspiração, do genio; são os
que elevam o engenho acima do vulgo; são os que trazem á terra as
centelhas da infinita sciencia, da immensa sabedoria de Deus; são os que
attingem os mysterios, as harmonias do universo, que o escriptor vem
revelar; são aquelles com que aspiramos estas perennes emanações do
Verbo que se espargem sobre a humanidade, transfusas pela intelligencia,
e que se chamam a civilisação; são os que dão ao homem de letras uma
especie de sacerdocio, o sacerdocio da imprensa. Estes esforços
immateriaes não se apreciam, não se medem, não se recompensam como a
creação e o transporte ao mercado d'alguns saccos de trigo, ou como o
covado de chita produzido pelo tear do operario fabril.
Não! Se a imprensa é um sacerdocio, não confundamos o que ha nella
elevado e espiritual com o trabalho venal e externo; não instituamos a
simonia como um direito; não equiparemos a idéa pura, que vem de Deus ao
homem como os raios do sol que nos illuminam, como o ar que respirâmos,
como todas as utilidades gratuitas que a Providencia nos concede; não a
equiparemos ao ouro amoedado, á geira de terra; não meçamos a obra onde
predomina a inspiração pela bitola com que medimos aquella em que
predominam os esforços dos musculos.
Para os que não são capazes de apreciar _a priori_ as antinomias que ha
na applicação do direito de propriedade material aos trabalhos do
espirito será útil examinar os resultados practicos dessa applicação. A
propriedade material, o capital accumulado e activo produz uma renda:
esta renda é maior ou menor conforme a importancia desse capital. Se
1:000$000 réis em terras produz 50$000 réis, 20:000$000 réis hão-de
produzir 1:000$000 réis; se 200$000 réis empregados na agiotagem
produzem 40$000 réis, 600$000 réis hão-de produzir 120$000 réis: esta
lei é constante e uniforme, quando circumstancias accidentaes e
extranhas não a modificam. Nas letras succede exactamente o contrario.
Supponde que cogitações, que contensão d'espirito, que calculos, que
raciocinios, que observações custaram a Pedro Nunes, a Leibnitz, a
Newton, a Vico, a Brotero, a Kant os livros que nos deixaram. Que
thesouros accumulados, que capital d'estudo, ideas! E todavia,
protegidos pela lei da propriedade litteraria, esses homens summos,
esses homens cujos nomes são immortaes, teriam com ella morrido de fome;
porque os seus escriptos publicados, os seus meios de obter uma renda,
seriam lentos e insufficientes. Comparae agora com elles os romancistas
modernos, os Arlincourts, os de Kocks, os Balzacs, os Sues, os Dickens.
Estes homens, cujos estudos se reduzem a correr os theatros, os bailes,
as tabernas, os lupanares, a viajar commodamente de cidade para cidade,
de paiz para paiz, a gosar os deleites que cada um delles lhes offerece,
a adornar os vicios, a exaggerar as paixões, a trajar ridiculamente os
affectos mais puros, a corromper a mocidade e as mulheres; estes homens,
que só buscam produzir effeitos que subjuguem as multidões; que
espreitam as inclinações do povo para as lisonjeiarem, os seus gostos
depravados para os satisfazerem; a estes operarios da dissolução e não
da civilisação, a estes sim, aproveitam as doutrinas da propriedade
litteraria! Para elles a recompensa do mercado; para elles os grossos
proventos do industrialismo litterario, que ó o grande incitamento dos
seus infecundos trabalhos. A litteratura-mercadoria, a
litteratura-agiotagem, tem na verdade progredido espantosamente á sombra
de tão deploraveis doutrinas! Um dos nossos escriptores modernos, que
mais abusou do talento, e que mais proventos auferiu do systema ignobil
do industrialismo nas letras, o padre Macedo, disse, não me recordo em
que escripto, que a folhinha era e seria sempre a desesperação dos
auctores, porque nenhum livro tinha ou teria nunca tantas edições. Neste
dicto está resumida toda a critica do falso direito de propriedade
litteraria. Silvestre Pinheiro, o grande pensador português deste
seculo, com cujo nome v. ex.^a acaba de me fazer a honra de associar o
meu, e João Pedro Ribeiro, o restaurador dos estudos historicos em
Portugal, morreram n'uma situação vizinha da penuria. É como teriam
morrido sob o regimen da propriedade litteraria; porque para elles foi
como se esse regimen já existisse: ninguem lhes contrafez, ninguem lhes
contrafará os seus livros. Sabe v. ex.^a quem ganharia immensamente em
viver hoje? O auctor do Carlos-Magno. As edições daquelle celebre rol de
semsaborias e despropositos ainda não cessaram de repetir-se.
Que propriedade será esta, em que os terrenos de alluvião,
cuidadosamente cultivados, só geram espinhos, e as gredas inferteis
produzem messes opulentas, sem nenhum cultivo?
Permitta-me, sr. visconde, que eu duvide da inteireza da sua fé na
doutrina da propriedade litteraria. V. ex.^a cedeu antes a um generoso e
nobre impeto de coração do que a reflectidas convicções. N'uma situação
elevada, v. ex.^a não esqueceu os seus antigos companheiros nesta rude
peregrinação das letras, em que o seu glorioso exemplo foi incitamento a
nós todos. Não se envergonhou de nos estender a mão aos que pouco
podemos e valemos diante dos grandes do mundo. Pensou que uma lei de
propriedade litteraria nos seria grandemente util; util, sobretudo
áquelles que, desvalidos e pobres, vem no verdor dos annos associar-se a
nós os que já podemos chamar-nos os veteranos da imprensa. V. ex.^a não
previu todos os inconvenientes de ordem moral e litteraria que do novo
direito introduzido no paiz podem provir. Mas sejam quaes forem os
tristes desenganos que elle nos traga, nem eu me queixo, nem creio que
ninguem deva queixar-se das intenções de v. ex.^a; dôo-me só, devemos
doer-nos todos de que em materia tão grave falhasse uma tão bella
intelligencia.
O direito de propriedade litteraria, sr. visconde, já existia
virtualmente entre nós nos tempos da censura e da inquisição; já viveu
largos annos nessas más companhias. Aquelle direito vigorava de certo
modo em resultado dos nossos usos administrativos. No seculo XVI ou XVII
os _privilegios de impressão_ creavarn os mesmos factos juridicos que
resultam da lei aconselhada por v. ex.^a A differença estava em ser uma
jurisprudencia que assentava em praxes administrativas e não em lei
geral. Dava-se ao auctor ou editor auctorisação exclusiva para publicar
uma edição de qualquer livro: esgotada a edição, repetia-se igual
concessão, e os que não a tinham ficavam inhibidos de o reproduzir.
Fazia-se mais: almotaçava-se o genero; taxava-se o preço de cada
exemplar. Applicavam-se-lhe as idéas economicas d'então sobre as
transacções do mercado. Já se vê que a theoria de propriedade
litteraria, do industrialismo applicado á missão elevada e pura do
escriptor, não é nova. Succede-lhe o que succede a muitas das
providencias legaes, que, com rotulos trocados, nos andam ahi a carrear
de Londres e de Paris, sirvam ou não para cá.
Foi debaixo desse regimen do _privilegio de impressão_, que um genio a
quem Portugal deve em gloria quanto uma nação póde dever a um homem; foi
com duas edições dos Lusiadas feitas dentro do mesmo anno, e defendidas
pela garantia de obra grossa chamada privilegio, ou propriedade
litteraria, que Luiz de Camões foi morrer entre as angustias da miseria
e do abandono na pobre enxerga d'um hospital. Pouco depois os jesuitas,
imprimindo aos milhares em diversos formatos e typos as _Cartas do
Japão_, lisonjeiando o gosto popular com as narrativas dos próprios
milagres no oriente, mettiam nos cofres de S. Ignacio bons cruzados
extorquidos á credulidade, e, especulando na superstição, faziam as
vezes dos Balzacs e de Kocks, que especulam nas paixões más e viciosas
de sociedades corrompidas e gastas.
Porém--dir-se-há--se essa mesma recompensa, que retribue na razão
inversa do merito, se tirasse ao cultor da sciencia, reduzido a receber
o preço do seu trabalho como simples obreiro; se as concepções uteis e
civilisadoras do espirito; se as grandes e nobres idéas, que encerram os
elementos do progresso futuro, não tivessem premio condigno, as fontes
desse progresso estancar-se-hiam na sua origem; e o homem d'engenho
preferiria o trabalho braçal, que fortifica os membros e prolonga a
vida, ás contensões do espirito que a devoram. D'accordo. Mas, em logar
de estabelecer recompensas, identicas na essencia, na fórma, nas
condições para esforços perfeitamente heterogeneos, que se movem em
espheras absolutamente distinctas, eu concebo e desejo retribuições
diversas para os diversos casos. Pague o mercado o trabalho material;
mas retribua a sociedade a obra do espirito, que não é destinada ao
commodo d'um ou d'outro individuo, mas sim á utilidade commum.
E ella retribue; ha de retribui-la sempre, com leis de propriedade
literaria ou sem ellas; com o poder publico ou apesar delle. Que é a
gloria? Que são a consideração, os respeitos, as distincções com que a
sociedade tracta o homem que perante o seu tribunal deu provas
indubitaveis de talento ou de genio; que collocou algumas pedras no
immenso e interminavel edificio da civilisação? Que é essa voz da
opinião publica, que esmaga tantas invejas, que faz calar tantos odios,
e que os pune com a irrisão, quando ousam manifestar-se; que vos cria
amigos nos logares onde nunca estivestes, entre individuos que nunca vos
viram; que transpõe os mares; que se dilata por toda a parte, em que o
vosso livro fez bater um coração, ou saciou um espirito sedento de
sciencia? Quanto dariam ás vezes os ricos e os felizes e os poderosos
para comprarem ou imporem essas affeições mysteriosas que o escriptor
pobre e desvalido vai despertar, por uma acção invisivel, no seio das
multidões? A consciencia, que vos assegura que tendes tudo isso em grau
mais ou menos subido, recompensa-vos dos vossos esforços intellectuaes.
Vaidade ou orgulho legitimo, essa persuasão é um goso, e o goso é a
causa final de todas as ambições, de todo o trabalho humano. São na
verdade diversas as utilidades que provém da riqueza das que provém do
engenho. Predominam naquellas os commodos materiaes, nestas a satisfação
interior; mas por isso mesmo; tanto n'umas como n'outras, ha a
homogeneidade, a harmonia entre os esforços e as recompensas.
Se v. ex.^a, interrogando a propria consciencia, volver os olhos para a
sua carreira litteraria, ha de forçosamente convir na exacção destas
observações. Quando, por exemplo, um dos dramas, a que não faltou senão
a fortuna de ser escripto em alguma das duas linguas principaes da
Europa, o francês ou o allemão, para ser um dos mais notaveis monumentos
litterarios da nossa epocha; quando _Fr. Luiz de Sousa_ fazia correr as
mudas lagrymas de um auditorio extasiado, ou lhe arrancava ruidosos
applausos d'enthusiasmo, pensava acaso v. ex.^a nas edições legitimas ou
contrafeitas, no honorarios da representação, nas provisões da lei de
propriedade litteraria? Atrevo-me a protestar que não: atrevo-me a jurar
que v. ex.^a se reputava sobejamente pago com sentir-se grande, com
fazer vibrar as cordas da dor e da piedade em tantas almas; com essas
manifestações ardentes que respondiam ao verbo de seu genio, digamos
assim, incarnado n'um espectaculo scenico.
Mas--arguir-se-ha novo--se o trabalho do escriptor é duplo e
heterogeneo, tambem a sua existencia o é. Se a mente o eleva acima do
vulgo; se o illumina mais do que ao vulgo um raio da intelligencia
divina, os seus pés rasgam-se tambem, como os delle, nos abrolhos da
vida. A dor, as privações, todos os males humanos, todas as necessidades
pesam do mesmo modo sobre o engenho. A virtude da abnegação, o animo
para luctar com a miseria e ainda para viver na estreiteza não são mais
communs no homem de letras do que nos outros homens. Limitados a uma
retribuição de ordem moral pelo lavor litterario, e equiparados ao
operario pelo trabalho material, muitos abandonariam o seu ingrato
mister, com detrimento do progresso e civilisação do paiz, e da propria
sciencia. Torno a repetir que concordo plenamente nessa parte. O
remedio, porém, para taes inconvenientes não está na lei de propriedade
litteraria. Creio tê-lo provado. A civilisação de qualquer povo não é um
negocio d'individuos, é uma questão da sociedade, de que depende o seu
futuro: é uma religião que tem ministros, e estes ministros são os
homens de letras ou de sciencia. Se estabeleceis distincções,
privilegios, subvenções para o sacerdocio do culto externo, porque não
haveis de subministrar os commodos da vida, as recompensas, reguladas
pela jerarchia intellectual, para o sacerdocio da imprensa? É por este
arbitrio que as retribuições materiaes se tornam possiveis, não pela
falsa medida da procura commercial. A sociedade, creando uma existencia
aprazivel áquelle que lhe util, não estabelece equações impossiveis
entre as idéas e os cruzados novos; mas proporciona os gosos do
individuo aos gosos que elle lhe deu. Em vez da anarchia deleteria e
repugnante que o regimen da propriedade litteraria produz, e em que o
homem de talento, mas immoral, envenena as multidões para se locupletar,
emquanto o genio de sciencia e consciencia morre de fome, um systema de
recompensas publicas prudentemente organisado traria a ordem e a
justiça, e substituiria o verdadeiro progresso ás orgias intellectuaes,
á veniaga da corrupção moral, resultado infallivel da conversão das
idéas em capital productivo.
O direito de propriedade litteraria! Que aproveita esse direito ao
mancebo desconhecido, em cuja alma se eleva a sancta aspiração da arte
ou da sciencia, e para quem, no berço, a fortuna se mostrou avara? Como
entrará elle nesse mercado do espirito, onde a marca de um nome illustre
é necessaria para se tentarem com vantagem as luctas da concorrencia?
Esse direito, que se diz protector do talento e das fadigas do espirito,
como é que protege os neophytos das letras, aquelles que mais carecem de
protecção? Suppre elle alguma das instituições que realmente fazem
progredir a cultura do espirito humano?
Uma lei de recompensas nacionaes seria a verdadeira lei protectora dos
tabalhos da intelligencia. Nos paizes onde existe a jurisprudencia
introduzida agora em Portugal existem ao lado della fundações
poderosissimas, que são as que suscitam os livros realmente uteis. Em
França o premio Monthyon e os outros analogos, as pensões academicas, as
empresas litterarias ou scientificas do governo, o professorado, os
provimentos de certos cargos destinados, inventados talvez, unicamente
para dar pão aos homens de letras, tem sido os incitamentos mais
efficazes para se escreverem as obras graves e civilisadoras. A lei de
propriedade litteraria, ou antes a lei d'envilecimento, que pendura a
idea no mercado entre o barril da manteiga e a sacca de algodão, essa o
que produz em regra é os taes livros absurdos, frivolos, prejudiciaes,
que, na opinião de v. ex.^a, são quasi os unicos cujas contrafacções nos
subministra a Belgica.
Quando, ex.^{mo} sr., o direito creado neste paiz pelo decreto de 8 de
julho não tivesse contra si as precedentes considerações, e outras que
omitto para não fazer um livro em vez de uma carta, bastaria um facto
para condemnar esse decreto, e conseguintemente a convenção com França,
que, embora anterior, se estriba no pensamento daquelle decreto e fica
sendo um corollario delle. Toda a lei inutil é má, e esta é
inutilissima. Desejaria que se me apontasse uma contrafacção, uma unica,
feita entre nós; um exemplo desses delictos que as provisões do decreto
tendem a cohibir. Se existe, é tão obscuro que não chegou á minha
noticia.
Examinada a pouca solidez de alicerce em que assenta a convenção
litteraria com França, consinta-me v. ex.^a que eu passe a fazer algumas
ponderações ácerca dessa mesma convenção. Não sei se as razões que me
obrigam a considerá-la como um acto diplomatico deploravel tem algum
valor, ou se me condemnam a entrar na categoria dos sophistas, contra os
quaes v. ex.^a quiz prevenir de antemão a Soberana no papel que lhe
dirigiu. Seja v. ex.^a o meu juiz.
Já tomei a liberdade, sr. visconde, de dizer que duvidava da inteireza
da sua fé no direito de propriedade litteraria. Agora começarei por
dizer que não acredito na dos homens d'estado da França, que mandam
sollicitar nos paizes pequenos e atrazados convenções em que seja
sanctificado esse mais que controverso direito. Ha nisto, a meu ver, a
arte vulpina de quem quer fazer triumphar uma idéa em cuja energia e
legitimidade não crê. Se a França estivesse convencida da justiça e
moralidade do principio que pretende introduzir no direito publico da
Europa, não vinha tractar comnosco, nem com o Piemonte: dirigia-se aos
dous grandes focos da imprensa; aos dous paizes seus rivaes na sciencia,
e tambem no industrialismo litterario, a Allemanha e a Inglaterra. Era
caminhar direito ao alvo; era provar uma convicção sincera.
A falta desta convicção deduz-se tambem do exame dos motivos immediatos
do convenio. O que fere sobretudo os interesses da França é a
contrafacção belga: e esse convenio é uma phase da guerra declarada ao
industrialismo litterario da Belgica pelo industrialismo litterario da
França. Os franceses poseram-nos nas mãos, a nós e aos piemonteses, os
riffles dos seus arsenaes, e lançam-nos em atiradores para a frente do
inimigo. Se os homens de estado daquelle paiz estivessem persuadidos de
que a propriedade litteraria é a mais inquestionavel de todas as
propriedades, como a v. ex.^a apraz chamar-lhe, não procederiam assim;
porque o seu procedimento sería indigno de uma grande nação. Segundo a
nova doutrina, centenares, talvez milhares de franceses estão sendo
roubados pelos belgas no mais legitimos e sagrados dos seus haveres.
Bruxellas é o Alger do mundo litterario. Supponhamos agora que este
facto escandaloso se verificava em haveres menos sagrados; que, durante
annos e annos, Lamartine, Dumas, Sue, Thiers, e cem, e mil outros
personagens influentes e respeitados, passando por aquella Achem da
Europa, por aquella horrenda _spelunca latronum_, eram constantemente
desvalijados á porta das hospedarias por grupos dos chananeos
bruxellenses, sem que os magistrados ou a força publica interviessem a
favor dos espoliados estangeiros. Crê v. ex.^a que nesta hypothese a
França nos viria pedir que não comprassemos a matalotagem daquellas
illustres victimas; que fechassemos os nossos portos aos adellos das
margens do Senne? Não. Reclamações instantes, ameaçadoras e violentas
partiriam de Paris para Bruxellas, e fariam entrar o gabinete e a nação
belgas no caminho da moralidade e da justiça. Se essas reclamações
fossem desattendidas, veriamos as esquadras de Rochefort e de Brest
navegarem para a foz do Scalda, e as brigadas francesas passarem a
fronteira. Porque não succede isto n'um caso que se diz mais grave? É
porque os que proclamam em França a sanctidade do industrialismo
litterario não acreditam na validade moral das proprias theorias. O
governo francês, actuado pelas poderosas influencias da imprensa,
desejoso de conciliar a benevolencia dos fabricantes do genero
litteratura, protege pelos meios que póde uma industria importante: e
faz bem. Nós é que não sei se o fazemos, ajudando-o nesse empenho com
prejuizo proprio.
Se á convenção de 12 de abril falta a base moral em que se quis fundar,
falta-lhe ainda mais a base racional e de conveniencia; porque, se á
primeira se pôde dar certa plausibilidade com pretextos e phrases, que
não admira illudam as comprehensões vulgares, quando, até, illudiram a
alta intelligencia de v. ex.^a, não vejo necessidade, circumstancia,
utilidade, ou consideração alguma que favoreça a segunda. Por esta parte
a convenção, sem nos trazer um unico bem, acarreta-nos muitos males,
sobre os quaes, com permissão de v. ex.^a, offerecerei aqui varias
ponderações, além daquellas que já expús no jornal _O Paiz_. As
principaes que então expendi foram, em resumo, que, ainda admittindo que
á fabricação dos livros contrafeitos se associasse um acto immoral,
seria cousa inaudita que uma nação prohibisse a entrada de qualquer
objecto industrial só porque no acto da sua producção concorresse alguma
circumstancia menos conforme com as regras da ethica e do direito; que,
se tal principio se houvesse de estabelecer, sería necessario ordenar um
inquerito moral sobre a industria e o commercio estrangeiros, e fechar
depois os nosses portos a tudo aquillo em que achassemos esse vicio de
origem; que, não se contrafazendo em França os nossos escriptos, nem
comprando aquelle paiz senão por excepção algum livro português
contrafeito ou não contrafeito, não póde haver neste caso reciprocidade
entre Portugal e França; e de feito, n'um commercio puramente passivo,
todo e qualquer tractado, que não seja para o ligar com outro commercio
activo, será sempre inconveniente; que, creando embaraços á diffusão da
leitura em Portugal, a convenção contrariava poderosamente os progressos
da civilisação entre nós; que, pelas condições actuaes do nosso trafico
de livros com o Brazil, para cujo movimento não contribuem só as
publicações portuguesas, mas tambem as reexportações de livros
estrangeiros; o tractado, tornando estas geralmente inexequiveis, longe
de favorecer os auctores portugueses, os privaria em boa parte dos
beneficios da concorrencia no mercado brazileiro; que o sello ordenado
no artigo 13.^o da convenção para legitimar a posse das contrafacções,
não só era injusto, punindo quem comprou na boa fé do direito existente,
mas tambem involvia a imposição de um tributo, que, embora se
considerasse válido como acto da dictadura, traria o absurdo de não
poder ser annullado pelo parlamento, visto achar-se estatuito n'um
convenio feito com um paiz estrangeiro; que, finalmente, esse imposto do
sello era exigido antes de se verificar, pelos meios que a propria
convenção assignala, quaes são os livros contrafeitos, o que o torna
inexequivel. Taes foram as objecções que me occorreram ao escrever o
artigo do _Paiz_, e que não são talvez metade das que poderiam fazer-se
áquelle infeliz tractado, se o comportassem os breves limites das
columnas d'um jornal politico, mas que me pareceram só por si
sufficientes para pensarmos desde logo em remediar um tal erro, apenas
expire o praso durante o qual somos forçados a respeitar a convenção
litteraria.
Entretanto não leve v. ex.^a a mal que n'uma publicação avulsa eu aponte
varias outras provisões dessa convenção que reputo inconvenientes ou
injustas. Move-me a fazê-lo o desejo de não passar aos olhos de v. ex.^a
por um daquelles sophistas contra que v. ex.^a invectiva no papel em que
se congratula com o Chefe do Estado pela conclusão de um negocio, que a
meus olhos é o mais deploravel que ha muitos annos temos concluido com
um paiz estrangeiro, embora a nossa historia diplomatica não seja a mais
gloriosa do mundo.
Considerados em geral os ajustes celebrados entre v. ex.^a e mr. Barrot,
affigura-se-me a mim que v. ex.^a cahiu n'uma singular illusão. A sua
mente era, se não me engano, que esta convenção, ao passo que consagrava
os principios da moral e do direito, fosse favorecer aquelles--«que
trabalham no silencio do gabinete, rodeiados da penuria e da fome tantas
vezes, victimas da sciencia, martyres da civilisação, que não poucas o
tem pago com a vida, que pela maior parte sacrificam fortuna, saude, o
futuro de seus filhos á gloria das letras, do seu paiz, e da especie
humana».--Eis-aqui os que v. ex.^a queria que fossem protegidos por um
tractado que vai ferir os contrafactores, e sobretudo os contrafactores
belgas. Isto dizia v. ex.^a á soberana: dizia-o sinceramente, na minha
opinião, arrastado por um nobre e generoso, embora inexacto, pensamento.
Mas que dizia tambem v. ex.^a ao ministro do reino no seu officio de 28
de maio ácerca deste mesmo assumpto?--«As nossas quasi unicas
importações da livraria belga são de maus livros, de romances absurdos,
de quanto ha mais frivolo e prejudicial na litteratura francesa
contemporanea; pois todos os outros livros, os bons, os uteis, os
civilisadores, directamente os havemos de França, e os lemos nas edições
legitimas, sem prejuizo de seus proprietarios».
Se, porém, v. ex.^a supunha que isto era assim, como é possivel que
associasse o seu illustre nome áquella fatal convenção? Para os
escriptores franceses de livros bons, uteis, civilisadores, é ella
perfeitamente inutil. A sua propriedade, na opinião de v. ex.^a, está
segura e defendida no estado actual das cousas. A quem pois favorece o
tractado? Que propriedade vai elle garantir, admittindo tal propriedade?
A dos maus livros, a dos romances absurdos, a de quanto ha mais frivolo
e prejudicial na litteratura francesa contemporanea. Que triste illusão
foi esta, sr. visconde, que levou v. ex.^a a convencionar favores
exclusivos para a insensatez, para a corrupção e para a immoralidade?
Felizmente por um lado e infelizmente por outro, o presupposto de v.
ex.^a, quanto ás contrafacções da Belgica, não é todavia exacto. Se v.
ex.^a verificasse quaes tem sido no ultimo decennio as importações dos
livros belgas; se examinasse os catalogos dos livreiros de Lisboa, Porto
e Coimbra, comparando-os com os catalogos dos diversos estabelecimentos
typographicos de Bruxellas, convencer-se-hia de que não compramos só
livros maus á Belgica; de que nem sempre o trabalho da imprensa é alli
apllicado ás obras de simples distracção, e de que não raro os prelos
belgas reproduzem os escriptos graves e uteis, postoque, na verdade, em
proporção inferior, e provavelmente mais de uma vez com perda. Mas a
superioridade numerica dos livros inuteis e insignificantes encontra do
mesmo modo nas publicações _legitimas_ de todos os paizes, e é o
resultado, não da contrafacção, mas sim do industrialismo litterario,
industrialismo que as doutrinas da propriedade, mal applicadas ao
pensamento, não fazem senão promover. Ao redor de mim, no momento e no
logar onde escrevo, tenho muitos volumes datados de Bruxellas, que não
me parecem nem insignificantes nem inuteis, e estou certo de que v.
ex.^a me faz a justiça de acreditar que não me entretenho demasiado com
leituras frivolas. Estes livros de edição belga (que por signal não
estou inclinado a mandar sellar, collocando-me assim em manifesta
rebellião) preferi-os por serem mais baratos, circumstancia attendivel
para mim, que não sou abastado, e muito mais attendivel para os que,
menos felizes do que eu, _rodeiados de penuria, victimas da sciencia, e
martyres da civilisação_ tem de cortar pelo necessario á vida physica
para comprarem o alimento da vida immaterial. Para estes quizera eu, não
convenções litterarias que, accrescentando afflicções ao afflicto, lhes
tolham satisfazer a primeira necessidade do homem de letras, a dos
livros, mas instituições que os amparassem na aspera peregrinação em que
vão consumindo a existencia. Quando mancebos desta geração que vem após
nós, e que confio em Deus será a todos os respeitos melhor do que a
nossa, desprezados, esquecidos, e tanto mais desprezados e esquecidos,
quanto mais um nobre orgulho os conserva arredados do grande receptaculo
de corrupções chamado o poder, luctam debalde com a pobreza para crearem
pelos esforços da intelligencia uma situação no mundo! Como eu, v. ex.^a
não ignora quantas vezes essas almas predestinadas, e que annunciam a
este paiz a aurora de melhor futuro, se vêem constrangidas a ir vender
por vil preço ao minotauro da imprensa periodica escriptos imperfeitos,
na lingua, no estylo, no desenho, no pensamento, mas onde centelham as
faiscas do genio. E nós, nós que fazemos tractados, cujo resultado, se
fosse possivel tê-lo, seria grangeiar para os romancistas, para os
poetas, para os especuladores litterarios da França mais uma noite de
orgias, ou os meios de dar mais uma vez por anno verniz nas suas
carruagens, sorrimo-nos das faltas grammaticaes, das incorrecções
d'estylo, dos erros de sciencia dos pobres desvalidos, que nasceram como
nós nesta terra, sem nos lembrarmos de que no seu balbuciar litterario
lhes serve frequentemente de musa a urgente necessidade, quando não a
miseria! Nós, os homens feitos, que temos centenares de contos de réis
para construir theatros, que sejam ao mesmo tempo aleijões artisticos e
escandalos administrativos, e que não temos vinte contos, dez contos,
cinco contos para dar pão aos talentos desafortunados, vamos em troco
d'isso privá-los dos meios d'instrucção; vamos privá-los de livros!
JIM - Assistente
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