Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro
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Farinha, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team.
BREVES
INSTRUCÇÕES
AOS CORRESPONDENTES
DA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS
DE LISBOA
SOBRE
AS REMESSAS DOS PRODUCTOS,
E
NOTICIAS PERTENCENTES
Á
HISTORIA DA NATUREZA,
PARA FORMAR HUM MUSEO NACIONAL.
_Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria_.
LISBOA
NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.
ANNO M.DCC.LXXXI.
_Com licença da Real Meza Censoria_.
1781
ADVERTENCIA.
As relações, por mais exactas e completas que sejão, nunca chegão a
dar-nos huma idéa tão perfeita das coisas, como a sua mesma presença:
por esta causa se tem occupado os Sabios, particularmente neste seculo,
em ajuntar com a protecção dos Principes os exemplares de varios
individuos das diversas especies de Animaes, Vegetaes e Mineraes, que se
encontrão em differentes paizes, para apresentarem do modo possivel á
vista dos curiosos hum como compendio das principaes maravilhas da
Natureza.
Considerando pois a Academia das Sciencias de Lisboa, cujos trabalhos se
encaminhão todos ao bem público, a grande utilidade, que de huma
similhante Collecção, sendo bem ordenada, póde resultar para o
adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos os mais ramos da
Economia; propoz-se o projecto de formar nesta Capital hum Museo
Nacional, onde principalmente se ajuntem e conservem os productos, ao
menos os mais notaveis, que se achão dentro do Reino e das suas
Colonias.
Como porém muitas vezes succede, que alguns dos exemplares,
particularmente quando são remettidos de paizes distantes, chegão
damnificados e por isso indignos de se guardarem nos Gabinetes, por não
terem sido devidamente escolhidos, preparados e acondicionados; e como
além disso nem todas as pessoas, que he necessario encarregar das
remessas e das noticias que devem acompanhallas, se suppõem igualmente
instruidas no melhor methodo de satisfazer as suas Commissões, julgou
conveniente a mesma Academia apontar as seguintes Instrucções, pelas
quaes poderáõ dirigir-se, os que dellas necessitarem.
Adverte-se com tudo a cada hum dos Correspondentes e Commissarios, que,
quando por alguns motivos, que occorrão, lhes não seja possivel
satisfazer em tudo, satisfação ao menos em parte, e do melhor modo que
poderem, ao que nestas Instrucções se recommenda, em quanto ao numero e
perfeição dos exemplares que se pedem, e em quanto ao methodo de os
preparar e remetter.
BREVES INSTRUCÇÕES
Sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes á Historia da
Natureza, para formar hum Museo Nacional.
*§. I.*
_Das remessas dos Animaes_.
As remessas dos individuos do reino animal são as mais difficultosas
pelas preparações, que he necessario fazer, a fim de impedir a
corrupção, a que estão mais sujeitos, que os individuos dos outros dois
reinos. E como estas preparações varião algum tanto conforme a variedade
de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que são
proprias de cada huma dellas.
Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes
destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos,
sem exceição alguma, com a cabeça inteira; os quadrupedes com todas as
unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e
pés, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda;
em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os
Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois
de feita a preparação, ficar, quanto for possivel, no seu estado
natural.
_Dos Quadrupedes_.
Como he impraticavel conservar sem corrupção por muito tempo com a carne
os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a
sua pelle com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma
exterior, que tinhão em quanto vivos.
Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha
na pelle ou huma incisão direita desde a parte mais inferior do ventre
até o _anus_, ou duas incisões, cada huma das quaes principie no mesmo
_anus_, e continue pela parte interior das coxas até á juntura destas
com as pernas.
Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais
conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento
accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tiraráõ estas para
fóra, cortando-as pelas articulações, que as unem com as pernas, cujos
ossos se descarnaráõ, quanto for possivel.
Depois se continuará a despegar a pelle das costas até chegar á cauda, a
qual, se não se puder esfollar, se cortará pela juntura, que a une ao
tronco.
Feito isto, se voltará para a cabeça do animal a parte posterior da
pelle, que já está separada do corpo; e puxando-a até ás espaduas, se
fará nos braços o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas
articulações das canellas; as quaes tambem se descarnaráõ da mesma sorte
que as pernas.
Continuar-se-ha a puxar a pelle até descobrir ametade da cabeça para a
descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pescoço, se
extrahirá toda a substancia do cérebro; e depois de bem limpa a
cavidade, se encherá esta com estopa, ou algodão misturado com pedra
hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo, como
tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
therebentina.
Com esta mesma composiçao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e
descarnar bem os queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada
á cabeça.
Tambem se arrancaráõ os olhos, de modo que se não rompão as palpebras; e
depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se
encheráõ com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos
olhos arrancados se metteráõ outros artificiaes ou de vidro, ou de
esmalte, ou de outra materia sólida, que imitem na figura e cores os
naturaes; e quando isto se não possa fazer com a perfeição devida,
remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma relação
exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.
Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com
algum instrumento de aço pouco affiado, para que a não rompa, e
esfregar-se com sabão desfeito em agoa tepida, até que fique sem o menor
resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrupção.
Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizará a mesma parte
interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a pó por si mesma,
ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a
temperar a sua actividade. Esta pulverização póde repetir-se huma e mais
vezes, até que se conheça que a pelle está inteiramente secca. E para
extinguir todos os insectos, que possão causar algum damno ao cabello,
será muito conveniente defumar as pelles já seccas com o vapor de
enxofre inflammado; e se embrulharáõ logo em pannos bem tapados para
evitar que outros infectos venhão de novo depositar nellas os seus óvos.
Acabadas estas operações, encher-se-ha todo o espaço, que occupava o
corpo do animal, com a mesma composição, com que se encheo a cavidade da
cabeça, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas,
e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos á proporção da
grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dará ao
pescoço, aos pés, á cauda e a todo o volume a sua postura natural.
Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou
gordura, que no tempo da preparação tiver contrahido, se accommodará a
pelle assim preparada dentro do caixão em que ha de ser transportada,
pondo-a e segurando-a, de modo que não balance; e tapando as juntas do
caixão com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e
acres, para impedir que entre a humidade.
Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana
grandeza não póde praticar-se com os demaziadamente grandes, bastará que
se remettao as suas pelles com a cabeça pegada, e com todas as unhas.
Estas pelles devem preparar-se com todas as precauções que já apontámos:
e quando estas não sejão bastantes para as seccar bem, e extinguir todos
os infectos, se metteráõ pelo espaço de seis horas em fornos, cujo gráo
de calor seja o maior que as pelles possão supportar, sem que se queime
o cabello; depois do que se defumaráõ, como acima dissemos, com o vapor
de enxofre inflammado; e se embrulharáõ cada embrulharão cada huma á
parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras
therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o
mais se fará, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.
Mas, como só as pelles não bastão para dar huma idéa justa da fórma e
postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto
com ellas hum desenho, ou huma descripção exacta, ao menos daquelles,
que não são vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de
extraordinario.
Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda
receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante
da sua residencia, que não fossem logo depois de separadas do corpo
devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de
corrupção principiada, as mettão promptamente e conservem pelo espaço de
dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem
nos caixões pelo methodo acima exposto.
Os quadrupedes pequenos, que não possão preparar-se, como os de mediana
grandeza, se preparão facilmente deste modo. Por huma incisão pequena
junto ao _anus_ se extrahiráõ todos os seus intestinos; e depois de bem
limpa e enxuta a cavidade que fica, se encherá esta com estopa ou
algodão misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos.
Arrancados os olhos com as advertencias já expostas, se metteráõ os
corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez.
Depois se acamaráõ em vasos cheios de licor composto de tres partes de
agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma
boa porção de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que hão
de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel,
com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de cêra e rezina; e os
mesmos vasos accommodados nos caixões de modo que não quebrem, se forem
de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.
Os esqueletos dos animaes, que tambem entraõ na classe das preciosidades
que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, não precisaõ de
preparações tão delicadas, para se remetterem sem perigo de corrupção.
Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha
um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem
uns com os outros. Por meio desta numeração será facil armar novamente o
esqueleto, para lhe dar a sua fórma natural.
Os ossos de cada animal devem empacotar-se á parte, para não haver
confusão; e accommodallos de sorte nos caixões, que se não quebrem no
transporte.
Como póde succeder que algumas vezes não haja toda a commodidade de se
remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venhão ao
menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros,
aquellas partes que tenhão alguma coisa de extraordinario.
_Das Aves_.
O methodo de preparar as _aves_ grandes pouco differe, do que acima se
expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se póde
principiar a operação por huma unica incisão feita no ventre desde o
_anus_ até o osso do peito, he melhor que se facão duas de sorte que,
nascendo ambas do _anus_, vá cada huma dellas correndo ao comprido das
coxas até terminar no encontro da aza da mesma parte.
Pegando no vertice do angulo, que fórmão no _anus_ as duas incisões, se
irá separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento
accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabeça da
ave até chegar aos encontros das azas.
Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para
fóra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos serão
bem descarnados, se continuará a operação, separando de vagar a pelle
das costas até chegar ao uropigio, o qual se cortará com huma tisoura
pela articulação que o une ao corpo.
Feito isto, se pegará na parte posterior já esfollada do corpo da avecom
a mão esquerda, e com a direita se irá tirando com sentido, para que se
não rompa, o resto da pelle, até chegar ás azas; as quaes se devem
separar do tronco pelas suas articulações, descarnando, o mais que for
possivel, os ossos que ficão pegados á pelle.
Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pescoço, até descobrir parte
do cranio, o qual se cortará transversalmente hum pouco acima da sua
união com o pescoço; separando deste modo do resto do corpo a cabeça
junta com a pelle.
Por esta abertura feita no cranio se extrahirá toda a substancia do
cerebro; e se fará tudo o mais que pertence á preparação interior da
cabeça, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.
Porém nas aves aquaticas, e outras de cabeça grande, cujo pescoço não he
facil de se esfollar até descobrir o cranio, sem o perigo de romper a
pelle, separar-se-ha da cabeça o pescoço pela ultima juntura; e depois
de revirada a pelle, se fará a extracção do cerebro por hum buraco feito
de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.
Antes de revirar a pelle se raspará levemente o interior della, para
purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizará com pós, que
constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de
solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta,
e outras quatro de tabaco.
Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se terá feito
passar antes da operação pelos narizes da ave hum fio comprido e forte,
o qual servirá para puxar a cabeça fóra, e dar á pelle a sua situação
natural.
O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he
inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta só advertir, que esta
preparação das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua
pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.
Depois de bem concertadas as pennas, se envolveráõ estas aves em huma
tira de panno, principiando pela cabeça; e se accommodaráõ entre
materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos
caixões, com todas as mais cautelas, que já dissemos.
Este methodo de preparar as aves não he facil de praticar-se com algumas
dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua
pelle. Neste caso poderáõ enviar-se em vasos cheios de licor
espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a
remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de
quebrar-lhes o osso do peito, para não ficarem com difformidade, e de as
envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno,
para se não descomporem as suas pennas.
Se a distancia não for muito grande, quaesquer que sejão as aves,
bastará que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de
expôr, se lancem de infusão pelo espaço de quinze dias em espirito de
vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa porção de pedra
hume e alcanfor. E sem outra maior preparação podem remetter-se com as
cautelas já indicadas.
Os _óvos_, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos
Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno
buraco feito de proposito em hum dos seus pólos, ou em ambos, se for
preciso, se acamaráõ em bocetas com algodão, ou outra materia molle e
secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que porém se mandão para
fecundarem, antes de se metterem nos caixões, se cobriráõ bem de verniz
pelo methodo sabido de _Reaumur_.
Os _ninhos_, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do
naturalista, se accommodaráõ da mesma sorte, e com as mesmas precauções
em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente
trazem, se metteráõ em hum forno, que só tenha o gráo de calor
necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em
pannos, para impedir novos insectos.
_Dos reptís_.
A preparação de todo o genero de _reptís_, _serpentes_, e _cobras_
grandes, cuja pelle póde separar-se do corpo, he inteiramente a mesma,
que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo
de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que
pertence ao modo de os accommodar nos caixões.
Só deve advertir-se, que a incisão, por onde principião todas as mais
operações, nos reptís, como o sardão e outros, deve fazer-se da parte do
ventre ao menos desde o meio da cauda até o pescoço, conduzindo-a pelo
interior das coxas e braços até ás suas articulações; e nas cobras
grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as
escamas das costas se ajuntão com as do ventre. Estas se accommodaráõ
nos caixões, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem,
em quanto vivas.
Os reptís pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se
tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o
cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.
_Dos peixes_.
Aquelles _peixes_, que os Naturalistas chamão _cetaceos_, e cujas pelles
são tão fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo
que estes; excepto que a incisão se deve fazer na parte inferior por
todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes,
que forem demaziadamente grandes, bastará mandar as pelles seccas e
preparadas, como dissemos dos quadrupedes.
Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de
sorte, que possão seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento
accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se
lançaráõ de infusão em agoa ardente pelo espaço de doze até quinze dias.
Findos estes, se estenderá o peixe com o lado mais branco para baixo
sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular
cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situaçao
natural: e para que estas á medida, que forem seccando, se não torção, e
descomponhão; depois de concertadas, e em quanto estão humidas e com a
sua cólla natural, se lhe pregaráõ pela parte de cima algumas tiras de
papel, que serviráõ para as conservar sempre na mesma posição.
Feito isto, se exporá ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados
quatro ou sinco dias, se despegará o peixe por meio de huma agulha de
fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e
a lamina, se faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar
as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido
contrario.
Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se exporá segunda vez
ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, até que
se conheça estar o peixe perfeitamente secco, se untará por fóra com bom
verniz transparente, e se accommodará nos caixões com todas as cautelas
já indicadas.
Os peixes _escamosos_, que pela muita delicadeza da sua pelle não podem
fer preparados como os _cetaceos_; nem tão pouco pela grande grossura da
sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortaráõ em
duas partes, conduzindo o córte pelo embigo desde a cabeça até á cauda;
e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e
pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina
para se conservar, se alimpará da parte das escamas com o gume de huma
faca, que a toque levemente, e corra desde a cabeça até á cauda; porque
em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre
consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.
Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se irá
despegando pouco a pouco toda a carne, até que fique só a pelle com a
ametade da cabeça pegada. Desta se tirará o cerebro que restar, e todas
as porções de ossos, que fórmão differentes separações no interior do
cranio. Tambem se extrahirá toda a substancia do olho, cuja figura e
cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta
com outro artificial. Se a cabeça do peixe for muito curva, se aplanará,
pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter
por baixo e por cima da cabeça alguma materia molle.
Esta meia pelle assim preparada se pegará pela parte interior com a sua
mesma cólla natural a huma folha de papel; e sua porão as barbatanas e
cauda na sua fórma e situação natural. Depois de bem secca se untará com
verniz transparente, e se metterá no caixão com as precauções
necessarias.
Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, não
poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de expôr, se
enviaráõ em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser
mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer
para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o
mais, que já se disse, sobre este genero de remessas de animaes
pequenos.
_Dos animaes crustaceos_.
Todos os animaes, a que os Naturalistas dão este nome, ou habitem no
mar, ou nos rios, ou na terra, se preparão do mesmo modo, attendendo
unicamente á sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto
á sua preparação, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando
pela sua pequenez se não puderem evacuar de toda a sua substancia molle
e corruptivel, ou quando não possão seccar-se sem detrimento sensivel da
sua fórma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas
pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se não
quebrarem, se embrulharáõ, cada hum á parte, em hum pequeno panno, que
se envolverá com hum fio; e assim embrulhados se lançaráõ em espirito de
vinho para se remetterem.
Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se fará,
separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, á qual ficão
pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirará
toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que está dentro das pernas,
senão de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas
as cavidades, que ficão depois de extrahida a substancia interior, se
encheráõ com as mesmas materias, que já apontámos, fallando dos outros
animaes. Antes de os encaixotar, devem expôr-se ao ar o tempo necessario
para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodaráõ em bocetas com
todas as precauções precisas, para que cheguem inteiras todas as suas
partes, ainda as mais delicadas. Para isso será conveniente, que cada
hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua
situação natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que
hão de ser remettidos, tenhão capacidade bastante, para não ser
necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.
_Dos insectos_.
No que pertence ao modo de preparar os _insectos_ destinados para o
Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como
repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma
preparação particular.
Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e
assás forte para conservar depois de secca a sua fórma exterior, se
metteráõ em fórnos, que só tenhão o gráo de calor necessario para
dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem
conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poderá
supprir a falta de fórnos, principalmente nos Paizes quentes.
As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das
borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos,
ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos
consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas
cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e
que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se
apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e
assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão
perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as
cautelas necessarias.
Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que
depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas
cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo
methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.
Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas
requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as
suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os
Naturalistas para distinguir as diversas especies.
_De outras producções pertencentes ao reino Animal_.
Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de
conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem
algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as
_Estrellas do mar_, em que se observão sinaes menos equivocos de
sensibilidade.
Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter
alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para
coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo
necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de
corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ
com as cautelas já sabidas.
Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca
poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso
extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias;
e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.
Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se
fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas,
da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que
fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por
este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo,
que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a
substancia corruptivel.
Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua
posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as
pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão
vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual
ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas
postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou
quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as
operações, que acabamos de expôr.
Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos
agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo
na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a
substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem
com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se
accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando
todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não
quebrem os seus espinhos.
Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se
conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas
costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua
fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu
merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que
se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com
hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa
fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o
faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está
vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa
doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da
concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita
facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso
esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu
desenho.
Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum
pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ
com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem
remetter-se com todas as mais cautelas.
Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de
as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque
o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se
corrupção.
*§. II.*
_Das remessas dos Vegetaes_.
Como estas instrucções não tem por objecto formar hum Jardim Botanico;
mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos
o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros
para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido
admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a
Academia, se o julgar necessario, reduzirá a instrucções compendiosas em
outro papel á parte. Por ora só se trata do modo mais facil de remetter
as plantas seccas com todas as partes, que as caracterizão.
Para este fim se colheráõ as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas,
flores e frutos. Das plantas, que não produzem no mesmo tempo as flores
e os frutos, se colheráõ dois pés, cada qual tenha huma das duas coisas.
Das arvores, arbustos e plantas maiores bastará colher hum ou dois dos
ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda
não se poder enviar todas estas partes juntas, se enviaráõ separadas;
com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.
Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se
estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos,
se comprimiráõ em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de
pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, até que esteja de
todo extrahida a sua humidade. Para maior segurança, depois desta
operação, será conveniente expôr por algum tempo ao calor do Sol estas
plantas, quando se tirão a ultima vez da imprensa.
Feito isto, se estenderáõ segunda vez os individuos de cada especie
separadamente em diversos papeis, os quaes se acamaráõ em caixas de
folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que
já se tem advertido sobre as outras remessas; não esquecendo introduzir
dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como
alcanfor, ou tabaco de fumo.
Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas,
frutos, e flores são tão espeços e succulentos, que não podem seccar-se
pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes só
podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as
cautelas já indicadas para outras remessas similhantes.
Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito
tempo sem corrupção, se colheráõ maduros, e se exporáõ algum tempo ao
calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e
depois se metteráõ nas caixas, em que devem enviar-se.
Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se
conservão muito tempo sem corrupção, como o _gingibre_, _curcuma_,
_amomum_, e outras. A estação mais favoravel de as tirar da terra nos
paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se
as mais fortes, se porão em algum lugar enxuto á sombra até se evaporar
a sua primeira humidade; e se metteráõ depois em caixões com arêa bem
secca, para se remetterem.
Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela
casca, que as veste, se conservão com mais facilidade sem corrupção, se
preparão da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.
Não se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de
balsamos, rezinas, gommas, e outras producções similhantes, que
pertencem ao reino vegetal, ou sejão solidas ou líquidas; porque são bem
conhecidas no commercio, e já a experiencia tem mostrado o melhor modo
de fazer as suas remessas.
Tambem merecem entrar nas collecções proprias de hum Museo as diversas
cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem
algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem
notaveis, ou pelo polido, de que são susceptiveis, ou pela singular
contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra
qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se póde
tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de peças he
facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu
destino.
Tudo o que póde dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a
não as colher, senão depois de maduras; e a mettellas, estando bem
enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com arêa bem secca e
miuda dentro dos caixões, em que se hão de remetter. As sementes grandes
tambem se podem cobrir de cêra derretida em hum pouco de oleo de
therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura até
o ponto, em que o calor não possa causar-lhe damno.
Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve
indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies
necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se não
confundão. Não usando da mistura de musgo, ou arêa, podem remetter-se,
para evitar esta confusão, cada huma das especies de sementes embrulhada
á parte em hum papel encerado; observando na sua accommodação dentro das
bocetas as precauções necessarias, para que cheguem inteiras.
Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em
que mais facilmente se conservão, será conveniente, e não menos commodo
mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas
bocetas do mesmo modo que fica dito.
*§. III*
_Das remessas dos Mineraes_.
Os productos do reino mineral são os que menos cautelas requerem, para
chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e
saber procurallos. No que respeita ás suas remessas, que he o unico
objecto destas Instrucções, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e
_fossís_.
As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos
differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum
sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a faça notavel,
principalmente pelo uso, que póde ter nas Artes.
Das pedras, ou sejão de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente
as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenhão, ou pela
sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes,
agathas, marmores, congelações, amiantos, &c.
As amostras de todo o genero de fossís, que puderem ajuntar-se, são
dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser
conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes,
que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero
de petrificações, crystallizações, bitumes fossís, lavas, pyrites, &c.
remettão os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.
Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e
fossís, devem remetter-se em caixões separados, podendo ser, para evitar
confusão; e embrulhados á parte com numeros differentes, que
correspondão aos numeros da relação, de que adiante fallaremos.
Accommodar-se-hão nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do
transporte lhes não cause algum damno; e se observaráõ as mais cautelas
necessarias, para que a humidade os não prejudique.
Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a
natureza produz no seio do mar, ha algumas, que fórmão em certo modo
huma classe á parte; e que por essa mesma causa parece não devião
confundir-se com as outras producções pertencentes aos tres reinos. Esta
são as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos
com a fórma, exterior reduzirão á classe das plantas marinhas; e outros,
attendendo á sua dureza, julgárão ser especie de pedras.
Todas estas producções se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas,
pela grande variedade da figura e disposição de seus ramos, e por outras
particularidades não menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que
forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas
vezes sahem pegadas a pedaços de rócha, e entrelaçadas humas com outras,
assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes
são igualmente dignas da attenção do Filosofo.
Como porém nenhuma destas substancias he sujeita a corrupção, basta que
se accommodem nos caixões cercadas de materias molles, e seguras com
travessas de madeira, para se não quebrarem com o movimento.
Estas singulares producções não são mais, que huma collecção de pequenas
casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se
multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que
crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos
enviar á parte, se metteráõ logo, apenas se tirarem do mar, as massas
duras, que os contém, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem
pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma
lente, se for necessario, se divisaráõ parte de cada hum dos animaes,
fóra de suas pequenas grutas. Não se deixará escapar este momento; e com
algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prenderá o animal; e
arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lançará logo em
espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle não tenha tempo
de se contrahir, e perder a sua fórma natural antes de morrer. No mesmo
espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como
todo o genero de polypos: e as suas remessas se farão do mesmo modo, e
com as mesmas cautelas, que já se advertírão, fallando dos insectos.
Ha outras producções marinhas além das sobreditas, que pela sua figura,
miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivocão mais com as plantas.
Os Botanistas lhes dão vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou
corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce até depôrem
todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em
differentes papeis com todas as mais precauções já expostas sobre as
remessas das plantas terrestres.
Como porém estas mesmas corallinas pelas ultimas observações se tem
conhecido constarem de pequenas casas, em que habitão animaes, da mesma
sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para
separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que
devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tirão de
differentes substancias, para se não confundirem as suas especies, as
quaes differem entre si conforme a differença das massas, em que se
achão.
Além de todas estas producções marinhas ha outras muitas, que não só tem
a fórma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o são, como o
sargaço, e outras. Estas, como já advertimos, devem lavar-se primeiro em
agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotaráõ, como as outras
plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.
As esponjas marinhas, cuja natureza ainda não he bastantemente conhecida
por falta de observações, mas que facilmente se distinguem das outras
especies pela sua fórma exterior, merecem tambem ser conservadas nos
Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e
seccas, se accommodaráõ nos caixões com algodão, sargaço ou estopa, sem
as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito
sobre a preparação exterior das caixas, em que se remettem os mais
productos da natureza.
Parece escusado dar instrucções sobre as remessas de algumas obras de
artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas,
instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas
similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas.
Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico
artificio consista na sua diversa disposição, como são algumas carapuças
e cinturas de pennas de diversas cores, de que usão alguns póvos da
Africa e America, se remetteráõ com as cautelas, que deixamos apontadas
sobre as remessas das mesmas producções naturaes, de que são compostas.
Finalmente as instrucções antecedentes poderáõ accommodar-se a alguns
productos, de que aqui se não faz menção, conhecida a sua natureza, e a
classe a que pertencem.
*§. IV.*
_Das noticias pertencentes á Historia Natural_.
As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou
dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o
Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno,
em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que o
habitão.
Em quanto á primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se
aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caixões, ou
bocetas mandem huma relação exacta de todas as coisas que contém.
Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e
distintas com numeros diversos, na relação debaixo dos mesmos numeros
respectivos se declarará 1.° o nome tanto indigeno, como estrangeiro da
dita especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas.
2.° Notar-se-hão todas as suas qualidades mais attendiveis, e
particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que
remette, expressará todos os factos constantes e uniformes, que
distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto,
instinto, artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais
particularidade se demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde
resultar para a vida humana. Na relação das qualidades dos vegetaes
declarará os lugares do seu nascimento, a estação propria da sua
plantação, o tempo da sua frutificação, os usos, que a experiencia tiver
mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para
todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que
mandar as amostras, não se esquecerá o Correspondente de expressar os
lugares, em que se achão, a profundidade de seus veios, a natureza dos
terrenos circumvizinhos, e os usos, que já tem no paiz, e os que podem
ter na Sociedade.
Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz,
devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma relação, em
que se dê huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes
dão os mesmos póvos, que dellas se servem.
Além destas relações particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos
caixões das remessas, será conveniente que se mande á parte huma relação
geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza.
Desta deixará o Correspondente huma copia fiel na sua mão, para não
remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter
novamente os que se lhe pedirem.
Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, só servem para
dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como não interessa menos
conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que
mandem tambem huma descripção Geografica delle, que comprehenda com a
exacção possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno
da attenção de hum Filosofo. E para procederem sem confusão, podem
ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v.
g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem
á agoa.
Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a
respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimensões, a sua situação a
respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passaráõ a
coisas mais particulares. 1.° Em quanto aos montes, devem declarar, se
ha muitos, se poucos; se alguns delles são promontorios, e vulcanos;
qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como
a respeito da superficie do mar; quaes as suas direcções, quaes as
grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores.
2.° Em quanto á natureza do terreno devem expôr, quaes são os animaes
terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se
produzem e habitão; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os
mineraes, que das suas entranhas se costumão, ou podem extrahir em maior
abundancia; quaes finalmente são os usos, a que os habitantes do paiz
applicão todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.° Em
quanto aos homens, descreveráõ a sua estatura e fórma exterior, o feitio
do seu rosto, a sua força, e côr naturaes; e além de todas estas
propriedades, notaráõ nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a
facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doenças
communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser
attribuidas. 4.° Em quanto á estructura interior do terreno, devem
descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas,
os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de
terras, &c.
No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.° em
quanto ás suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua
subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus
gráos de calor ou de frio. 2.° Em quanto aos meteoros do ar, devem
mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns
aos outros, e o tempo da sua duração; mas particularmente declararáõ,
quaes são os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em
fim o numero, principio e duração das estaçoes, que pelo decurso do anno
varião regular, ou irregularmente no paiz. 3.° Em quanto aos effeitos do
mesmo ar, devem declarar-se as doenças tanto epidemicas, como
ordinarias, a que estão mais commummente sujeitos os habitantes do paiz,
e que trazem a sua origem da intemperança do ar.
No que pertence á agoa, he preciso indicar 1.° em quanto ao mar, a sua
profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas
distancias e alturas; a differença do seu sabor, conforme a differença
dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras
producções marinhas, que nelle se achão; o periodo de suas marés
combinado com as variações da Lua, &c. 2.° Em quanto aos rios,
descreveráõ os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso,
as suas inundações periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os
peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais
raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde passão.
3.° Além das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as
mineraes com huma exacta exposição das suas qualidades e virtudes,
descreveráõ todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.°
Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas
costas; e declarar todas as variações, que nellas se observão nas
diversas estações do anno. Por conclusão, todas as observações, que
tiverem feito sobre o fysico do paiz, serão bem acceitas; principalmente
aquellas, que possão de algum modo ser uteis para o augmento do
commercio e das Artes.
Para satisfazer a este importantissimo fim, que a Academia se propõe,
não será menos conveniente, que os seus Correspondentes ajuntem ás
noticias Geograficas do fysico do paiz todas as que puderem alcançar,
depois de serios exames, relativas ao moral dos póvos que o habitão. E
para observarem nesta relação a ordem, que em tudo he necessaria,
poderáõ reduzir todas as noticias, que examinarem, a titulos diversos,
preferindo sempre a divisão mais natural; v.g. Religião, Politica,
Economica, Artes, Tradições, &c.
Em quanto á Religião, devem expôr com toda a sinceridade 1.° as idéas
geraes que dominão em todo o paiz sobre a natureza da Divindade, sobre
as suas obras, e sobre o culto que lhe he devido; 2.° as seitas
diversas, e os pontos em que differem humas das outras; e juntamente os
effeitos, que costumão resultar da diversidade de sentimentos nesta
materia; 3.° a fórma do seu culto, a simplicidade ou extravagancia de
suas ceremonias, os seus casamentos, os seus lutos e funeraes, os seus
sacrificios, e finalmente todas as suas superstições.
Em quanto á Politica, devem explicar 1.° a fórma do seu governo; a
qualidade de suas leis, se as tiverem; o modo de administrar a justiça
na distribuição dos premios e castigos; o numero e qualidade das
pessoas, em quem reside a authoridade suprema; 2.° a fórma de seus
contratos, e os ritos, que costumão acompanhallos; 3.° as suas guerras,
o modo de as fazer, as armas de que usão.
Em quanto á Economica, devem referir 1.° a maneira de educar os filhos,
a qualidade e fórma de suas habitações, os seus mais communs exercicios;
2.° os seus alimentos, e o modo de os preparar, a materia e feitio de
seus trajes; 3.° as propriedades da sua lingua, e fórma dos caracteres,
se usarem de algum genero de escritura.
Em quanto ás Artes, mostraráõ 1.° o estado da sua agricultura, os usos e
defeitos de seus instrumentos de lavoura; 2.° o modo de fazerem as suas
caças e pescas; 3.° as plantas, de que se servem para sustento, vestido,
remedios, tintas, &c.; 4.° os animaes que empregão no trabalho, e em
outros serviços domesticos; 5.° os mineraes que extrahem da terra, os
usos a que os applicão, e o modo de os reduzir a esses mesmos usos; 6.°
a perfeição ou imperfeição das artes, manufacturas, e de todo o genero
de industria, e commercio que houver no paiz.
Em quanto ás Tradições, devem examinar 1.° a sua origem, antiguidade,
universalidade, probabilidade ou extravagancia; 2.° o modo de as
conservar, e defender; 3.° se no paiz houver algum genero de monumento,
se dará delle huma exacta descripção. Finalmente dar-se-ha huma idéa do
melhor modo possivel dos costumes dos Póvos, cuja noticia possa influir
de alguma sorte no Bem da Sociedade.
FIM.
Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro
Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Rita
Farinha, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team.
BREVES
INSTRUCÇÕES
AOS CORRESPONDENTES
DA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS
DE LISBOA
SOBRE
AS REMESSAS DOS PRODUCTOS,
E
NOTICIAS PERTENCENTES
Á
HISTORIA DA NATUREZA,
PARA FORMAR HUM MUSEO NACIONAL.
_Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria_.
LISBOA
NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.
ANNO M.DCC.LXXXI.
_Com licença da Real Meza Censoria_.
1781
ADVERTENCIA.
As relações, por mais exactas e completas que sejão, nunca chegão a
dar-nos huma idéa tão perfeita das coisas, como a sua mesma presença:
por esta causa se tem occupado os Sabios, particularmente neste seculo,
em ajuntar com a protecção dos Principes os exemplares de varios
individuos das diversas especies de Animaes, Vegetaes e Mineraes, que se
encontrão em differentes paizes, para apresentarem do modo possivel á
vista dos curiosos hum como compendio das principaes maravilhas da
Natureza.
Considerando pois a Academia das Sciencias de Lisboa, cujos trabalhos se
encaminhão todos ao bem público, a grande utilidade, que de huma
similhante Collecção, sendo bem ordenada, póde resultar para o
adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos os mais ramos da
Economia; propoz-se o projecto de formar nesta Capital hum Museo
Nacional, onde principalmente se ajuntem e conservem os productos, ao
menos os mais notaveis, que se achão dentro do Reino e das suas
Colonias.
Como porém muitas vezes succede, que alguns dos exemplares,
particularmente quando são remettidos de paizes distantes, chegão
damnificados e por isso indignos de se guardarem nos Gabinetes, por não
terem sido devidamente escolhidos, preparados e acondicionados; e como
além disso nem todas as pessoas, que he necessario encarregar das
remessas e das noticias que devem acompanhallas, se suppõem igualmente
instruidas no melhor methodo de satisfazer as suas Commissões, julgou
conveniente a mesma Academia apontar as seguintes Instrucções, pelas
quaes poderáõ dirigir-se, os que dellas necessitarem.
Adverte-se com tudo a cada hum dos Correspondentes e Commissarios, que,
quando por alguns motivos, que occorrão, lhes não seja possivel
satisfazer em tudo, satisfação ao menos em parte, e do melhor modo que
poderem, ao que nestas Instrucções se recommenda, em quanto ao numero e
perfeição dos exemplares que se pedem, e em quanto ao methodo de os
preparar e remetter.
BREVES INSTRUCÇÕES
Sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes á Historia da
Natureza, para formar hum Museo Nacional.
*§. I.*
_Das remessas dos Animaes_.
As remessas dos individuos do reino animal são as mais difficultosas
pelas preparações, que he necessario fazer, a fim de impedir a
corrupção, a que estão mais sujeitos, que os individuos dos outros dois
reinos. E como estas preparações varião algum tanto conforme a variedade
de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que são
proprias de cada huma dellas.
Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes
destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos,
sem exceição alguma, com a cabeça inteira; os quadrupedes com todas as
unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e
pés, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda;
em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os
Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois
de feita a preparação, ficar, quanto for possivel, no seu estado
natural.
_Dos Quadrupedes_.
Como he impraticavel conservar sem corrupção por muito tempo com a carne
os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a
sua pelle com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma
exterior, que tinhão em quanto vivos.
Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha
na pelle ou huma incisão direita desde a parte mais inferior do ventre
até o _anus_, ou duas incisões, cada huma das quaes principie no mesmo
_anus_, e continue pela parte interior das coxas até á juntura destas
com as pernas.
Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais
conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento
accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tiraráõ estas para
fóra, cortando-as pelas articulações, que as unem com as pernas, cujos
ossos se descarnaráõ, quanto for possivel.
Depois se continuará a despegar a pelle das costas até chegar á cauda, a
qual, se não se puder esfollar, se cortará pela juntura, que a une ao
tronco.
Feito isto, se voltará para a cabeça do animal a parte posterior da
pelle, que já está separada do corpo; e puxando-a até ás espaduas, se
fará nos braços o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas
articulações das canellas; as quaes tambem se descarnaráõ da mesma sorte
que as pernas.
Continuar-se-ha a puxar a pelle até descobrir ametade da cabeça para a
descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pescoço, se
extrahirá toda a substancia do cérebro; e depois de bem limpa a
cavidade, se encherá esta com estopa, ou algodão misturado com pedra
hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo, como
tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
therebentina.
Com esta mesma composiçao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e
descarnar bem os queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada
á cabeça.
Tambem se arrancaráõ os olhos, de modo que se não rompão as palpebras; e
depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se
encheráõ com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos
olhos arrancados se metteráõ outros artificiaes ou de vidro, ou de
esmalte, ou de outra materia sólida, que imitem na figura e cores os
naturaes; e quando isto se não possa fazer com a perfeição devida,
remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma relação
exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.
Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com
algum instrumento de aço pouco affiado, para que a não rompa, e
esfregar-se com sabão desfeito em agoa tepida, até que fique sem o menor
resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrupção.
Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizará a mesma parte
interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a pó por si mesma,
ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a
temperar a sua actividade. Esta pulverização póde repetir-se huma e mais
vezes, até que se conheça que a pelle está inteiramente secca. E para
extinguir todos os insectos, que possão causar algum damno ao cabello,
será muito conveniente defumar as pelles já seccas com o vapor de
enxofre inflammado; e se embrulharáõ logo em pannos bem tapados para
evitar que outros infectos venhão de novo depositar nellas os seus óvos.
Acabadas estas operações, encher-se-ha todo o espaço, que occupava o
corpo do animal, com a mesma composição, com que se encheo a cavidade da
cabeça, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas,
e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos á proporção da
grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dará ao
pescoço, aos pés, á cauda e a todo o volume a sua postura natural.
Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou
gordura, que no tempo da preparação tiver contrahido, se accommodará a
pelle assim preparada dentro do caixão em que ha de ser transportada,
pondo-a e segurando-a, de modo que não balance; e tapando as juntas do
caixão com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e
acres, para impedir que entre a humidade.
Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana
grandeza não póde praticar-se com os demaziadamente grandes, bastará que
se remettao as suas pelles com a cabeça pegada, e com todas as unhas.
Estas pelles devem preparar-se com todas as precauções que já apontámos:
e quando estas não sejão bastantes para as seccar bem, e extinguir todos
os infectos, se metteráõ pelo espaço de seis horas em fornos, cujo gráo
de calor seja o maior que as pelles possão supportar, sem que se queime
o cabello; depois do que se defumaráõ, como acima dissemos, com o vapor
de enxofre inflammado; e se embrulharáõ cada embrulharão cada huma á
parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras
therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o
mais se fará, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.
Mas, como só as pelles não bastão para dar huma idéa justa da fórma e
postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto
com ellas hum desenho, ou huma descripção exacta, ao menos daquelles,
que não são vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de
extraordinario.
Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda
receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante
da sua residencia, que não fossem logo depois de separadas do corpo
devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de
corrupção principiada, as mettão promptamente e conservem pelo espaço de
dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem
nos caixões pelo methodo acima exposto.
Os quadrupedes pequenos, que não possão preparar-se, como os de mediana
grandeza, se preparão facilmente deste modo. Por huma incisão pequena
junto ao _anus_ se extrahiráõ todos os seus intestinos; e depois de bem
limpa e enxuta a cavidade que fica, se encherá esta com estopa ou
algodão misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos.
Arrancados os olhos com as advertencias já expostas, se metteráõ os
corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez.
Depois se acamaráõ em vasos cheios de licor composto de tres partes de
agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma
boa porção de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que hão
de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel,
com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de cêra e rezina; e os
mesmos vasos accommodados nos caixões de modo que não quebrem, se forem
de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.
Os esqueletos dos animaes, que tambem entraõ na classe das preciosidades
que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, não precisaõ de
preparações tão delicadas, para se remetterem sem perigo de corrupção.
Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha
um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem
uns com os outros. Por meio desta numeração será facil armar novamente o
esqueleto, para lhe dar a sua fórma natural.
Os ossos de cada animal devem empacotar-se á parte, para não haver
confusão; e accommodallos de sorte nos caixões, que se não quebrem no
transporte.
Como póde succeder que algumas vezes não haja toda a commodidade de se
remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venhão ao
menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros,
aquellas partes que tenhão alguma coisa de extraordinario.
_Das Aves_.
O methodo de preparar as _aves_ grandes pouco differe, do que acima se
expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se póde
principiar a operação por huma unica incisão feita no ventre desde o
_anus_ até o osso do peito, he melhor que se facão duas de sorte que,
nascendo ambas do _anus_, vá cada huma dellas correndo ao comprido das
coxas até terminar no encontro da aza da mesma parte.
Pegando no vertice do angulo, que fórmão no _anus_ as duas incisões, se
irá separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento
accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabeça da
ave até chegar aos encontros das azas.
Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para
fóra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos serão
bem descarnados, se continuará a operação, separando de vagar a pelle
das costas até chegar ao uropigio, o qual se cortará com huma tisoura
pela articulação que o une ao corpo.
Feito isto, se pegará na parte posterior já esfollada do corpo da avecom
a mão esquerda, e com a direita se irá tirando com sentido, para que se
não rompa, o resto da pelle, até chegar ás azas; as quaes se devem
separar do tronco pelas suas articulações, descarnando, o mais que for
possivel, os ossos que ficão pegados á pelle.
Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pescoço, até descobrir parte
do cranio, o qual se cortará transversalmente hum pouco acima da sua
união com o pescoço; separando deste modo do resto do corpo a cabeça
junta com a pelle.
Por esta abertura feita no cranio se extrahirá toda a substancia do
cerebro; e se fará tudo o mais que pertence á preparação interior da
cabeça, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.
Porém nas aves aquaticas, e outras de cabeça grande, cujo pescoço não he
facil de se esfollar até descobrir o cranio, sem o perigo de romper a
pelle, separar-se-ha da cabeça o pescoço pela ultima juntura; e depois
de revirada a pelle, se fará a extracção do cerebro por hum buraco feito
de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.
Antes de revirar a pelle se raspará levemente o interior della, para
purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizará com pós, que
constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de
solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta,
e outras quatro de tabaco.
Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se terá feito
passar antes da operação pelos narizes da ave hum fio comprido e forte,
o qual servirá para puxar a cabeça fóra, e dar á pelle a sua situação
natural.
O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he
inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta só advertir, que esta
preparação das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua
pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.
Depois de bem concertadas as pennas, se envolveráõ estas aves em huma
tira de panno, principiando pela cabeça; e se accommodaráõ entre
materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos
caixões, com todas as mais cautelas, que já dissemos.
Este methodo de preparar as aves não he facil de praticar-se com algumas
dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua
pelle. Neste caso poderáõ enviar-se em vasos cheios de licor
espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a
remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de
quebrar-lhes o osso do peito, para não ficarem com difformidade, e de as
envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno,
para se não descomporem as suas pennas.
Se a distancia não for muito grande, quaesquer que sejão as aves,
bastará que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de
expôr, se lancem de infusão pelo espaço de quinze dias em espirito de
vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa porção de pedra
hume e alcanfor. E sem outra maior preparação podem remetter-se com as
cautelas já indicadas.
Os _óvos_, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos
Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno
buraco feito de proposito em hum dos seus pólos, ou em ambos, se for
preciso, se acamaráõ em bocetas com algodão, ou outra materia molle e
secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que porém se mandão para
fecundarem, antes de se metterem nos caixões, se cobriráõ bem de verniz
pelo methodo sabido de _Reaumur_.
Os _ninhos_, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do
naturalista, se accommodaráõ da mesma sorte, e com as mesmas precauções
em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente
trazem, se metteráõ em hum forno, que só tenha o gráo de calor
necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em
pannos, para impedir novos insectos.
_Dos reptís_.
A preparação de todo o genero de _reptís_, _serpentes_, e _cobras_
grandes, cuja pelle póde separar-se do corpo, he inteiramente a mesma,
que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo
de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que
pertence ao modo de os accommodar nos caixões.
Só deve advertir-se, que a incisão, por onde principião todas as mais
operações, nos reptís, como o sardão e outros, deve fazer-se da parte do
ventre ao menos desde o meio da cauda até o pescoço, conduzindo-a pelo
interior das coxas e braços até ás suas articulações; e nas cobras
grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as
escamas das costas se ajuntão com as do ventre. Estas se accommodaráõ
nos caixões, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem,
em quanto vivas.
Os reptís pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se
tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o
cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.
_Dos peixes_.
Aquelles _peixes_, que os Naturalistas chamão _cetaceos_, e cujas pelles
são tão fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo
que estes; excepto que a incisão se deve fazer na parte inferior por
todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes,
que forem demaziadamente grandes, bastará mandar as pelles seccas e
preparadas, como dissemos dos quadrupedes.
Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de
sorte, que possão seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento
accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se
lançaráõ de infusão em agoa ardente pelo espaço de doze até quinze dias.
Findos estes, se estenderá o peixe com o lado mais branco para baixo
sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular
cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situaçao
natural: e para que estas á medida, que forem seccando, se não torção, e
descomponhão; depois de concertadas, e em quanto estão humidas e com a
sua cólla natural, se lhe pregaráõ pela parte de cima algumas tiras de
papel, que serviráõ para as conservar sempre na mesma posição.
Feito isto, se exporá ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados
quatro ou sinco dias, se despegará o peixe por meio de huma agulha de
fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e
a lamina, se faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar
as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido
contrario.
Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se exporá segunda vez
ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, até que
se conheça estar o peixe perfeitamente secco, se untará por fóra com bom
verniz transparente, e se accommodará nos caixões com todas as cautelas
já indicadas.
Os peixes _escamosos_, que pela muita delicadeza da sua pelle não podem
fer preparados como os _cetaceos_; nem tão pouco pela grande grossura da
sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortaráõ em
duas partes, conduzindo o córte pelo embigo desde a cabeça até á cauda;
e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e
pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina
para se conservar, se alimpará da parte das escamas com o gume de huma
faca, que a toque levemente, e corra desde a cabeça até á cauda; porque
em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre
consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.
Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se irá
despegando pouco a pouco toda a carne, até que fique só a pelle com a
ametade da cabeça pegada. Desta se tirará o cerebro que restar, e todas
as porções de ossos, que fórmão differentes separações no interior do
cranio. Tambem se extrahirá toda a substancia do olho, cuja figura e
cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta
com outro artificial. Se a cabeça do peixe for muito curva, se aplanará,
pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter
por baixo e por cima da cabeça alguma materia molle.
Esta meia pelle assim preparada se pegará pela parte interior com a sua
mesma cólla natural a huma folha de papel; e sua porão as barbatanas e
cauda na sua fórma e situação natural. Depois de bem secca se untará com
verniz transparente, e se metterá no caixão com as precauções
necessarias.
Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, não
poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de expôr, se
enviaráõ em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser
mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer
para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o
mais, que já se disse, sobre este genero de remessas de animaes
pequenos.
_Dos animaes crustaceos_.
Todos os animaes, a que os Naturalistas dão este nome, ou habitem no
mar, ou nos rios, ou na terra, se preparão do mesmo modo, attendendo
unicamente á sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto
á sua preparação, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando
pela sua pequenez se não puderem evacuar de toda a sua substancia molle
e corruptivel, ou quando não possão seccar-se sem detrimento sensivel da
sua fórma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas
pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se não
quebrarem, se embrulharáõ, cada hum á parte, em hum pequeno panno, que
se envolverá com hum fio; e assim embrulhados se lançaráõ em espirito de
vinho para se remetterem.
Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se fará,
separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, á qual ficão
pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirará
toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que está dentro das pernas,
senão de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas
as cavidades, que ficão depois de extrahida a substancia interior, se
encheráõ com as mesmas materias, que já apontámos, fallando dos outros
animaes. Antes de os encaixotar, devem expôr-se ao ar o tempo necessario
para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodaráõ em bocetas com
todas as precauções precisas, para que cheguem inteiras todas as suas
partes, ainda as mais delicadas. Para isso será conveniente, que cada
hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua
situação natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que
hão de ser remettidos, tenhão capacidade bastante, para não ser
necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.
_Dos insectos_.
No que pertence ao modo de preparar os _insectos_ destinados para o
Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como
repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma
preparação particular.
Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e
assás forte para conservar depois de secca a sua fórma exterior, se
metteráõ em fórnos, que só tenhão o gráo de calor necessario para
dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem
conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poderá
supprir a falta de fórnos, principalmente nos Paizes quentes.
As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das
borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos,
ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos
consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas
cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e
que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se
apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e
assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão
perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as
cautelas necessarias.
Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que
depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas
cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo
methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.
Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas
requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as
suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os
Naturalistas para distinguir as diversas especies.
_De outras producções pertencentes ao reino Animal_.
Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de
conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem
algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as
_Estrellas do mar_, em que se observão sinaes menos equivocos de
sensibilidade.
Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter
alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para
coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo
necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de
corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ
com as cautelas já sabidas.
Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca
poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso
extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias;
e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.
Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se
fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas,
da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que
fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por
este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo,
que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a
substancia corruptivel.
Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua
posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as
pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão
vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual
ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas
postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou
quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as
operações, que acabamos de expôr.
Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos
agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo
na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a
substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem
com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se
accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando
todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não
quebrem os seus espinhos.
Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se
conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas
costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua
fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu
merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que
se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com
hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa
fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o
faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está
vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa
doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da
concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita
facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso
esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu
desenho.
Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum
pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ
com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem
remetter-se com todas as mais cautelas.
Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de
as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque
o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se
corrupção.
*§. II.*
_Das remessas dos Vegetaes_.
Como estas instrucções não tem por objecto formar hum Jardim Botanico;
mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos
o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros
para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido
admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a
Academia, se o julgar necessario, reduzirá a instrucções compendiosas em
outro papel á parte. Por ora só se trata do modo mais facil de remetter
as plantas seccas com todas as partes, que as caracterizão.
Para este fim se colheráõ as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas,
flores e frutos. Das plantas, que não produzem no mesmo tempo as flores
e os frutos, se colheráõ dois pés, cada qual tenha huma das duas coisas.
Das arvores, arbustos e plantas maiores bastará colher hum ou dois dos
ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda
não se poder enviar todas estas partes juntas, se enviaráõ separadas;
com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.
Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se
estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos,
se comprimiráõ em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de
pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, até que esteja de
todo extrahida a sua humidade. Para maior segurança, depois desta
operação, será conveniente expôr por algum tempo ao calor do Sol estas
plantas, quando se tirão a ultima vez da imprensa.
Feito isto, se estenderáõ segunda vez os individuos de cada especie
separadamente em diversos papeis, os quaes se acamaráõ em caixas de
folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que
já se tem advertido sobre as outras remessas; não esquecendo introduzir
dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como
alcanfor, ou tabaco de fumo.
Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas,
frutos, e flores são tão espeços e succulentos, que não podem seccar-se
pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes só
podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as
cautelas já indicadas para outras remessas similhantes.
Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito
tempo sem corrupção, se colheráõ maduros, e se exporáõ algum tempo ao
calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e
depois se metteráõ nas caixas, em que devem enviar-se.
Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se
conservão muito tempo sem corrupção, como o _gingibre_, _curcuma_,
_amomum_, e outras. A estação mais favoravel de as tirar da terra nos
paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se
as mais fortes, se porão em algum lugar enxuto á sombra até se evaporar
a sua primeira humidade; e se metteráõ depois em caixões com arêa bem
secca, para se remetterem.
Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela
casca, que as veste, se conservão com mais facilidade sem corrupção, se
preparão da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.
Não se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de
balsamos, rezinas, gommas, e outras producções similhantes, que
pertencem ao reino vegetal, ou sejão solidas ou líquidas; porque são bem
conhecidas no commercio, e já a experiencia tem mostrado o melhor modo
de fazer as suas remessas.
Tambem merecem entrar nas collecções proprias de hum Museo as diversas
cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem
algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem
notaveis, ou pelo polido, de que são susceptiveis, ou pela singular
contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra
qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se póde
tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de peças he
facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu
destino.
Tudo o que póde dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a
não as colher, senão depois de maduras; e a mettellas, estando bem
enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com arêa bem secca e
miuda dentro dos caixões, em que se hão de remetter. As sementes grandes
tambem se podem cobrir de cêra derretida em hum pouco de oleo de
therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura até
o ponto, em que o calor não possa causar-lhe damno.
Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve
indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies
necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se não
confundão. Não usando da mistura de musgo, ou arêa, podem remetter-se,
para evitar esta confusão, cada huma das especies de sementes embrulhada
á parte em hum papel encerado; observando na sua accommodação dentro das
bocetas as precauções necessarias, para que cheguem inteiras.
Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em
que mais facilmente se conservão, será conveniente, e não menos commodo
mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas
bocetas do mesmo modo que fica dito.
*§. III*
_Das remessas dos Mineraes_.
Os productos do reino mineral são os que menos cautelas requerem, para
chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e
saber procurallos. No que respeita ás suas remessas, que he o unico
objecto destas Instrucções, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e
_fossís_.
As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos
differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum
sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a faça notavel,
principalmente pelo uso, que póde ter nas Artes.
Das pedras, ou sejão de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente
as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenhão, ou pela
sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes,
agathas, marmores, congelações, amiantos, &c.
As amostras de todo o genero de fossís, que puderem ajuntar-se, são
dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser
conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes,
que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero
de petrificações, crystallizações, bitumes fossís, lavas, pyrites, &c.
remettão os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.
Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e
fossís, devem remetter-se em caixões separados, podendo ser, para evitar
confusão; e embrulhados á parte com numeros differentes, que
correspondão aos numeros da relação, de que adiante fallaremos.
Accommodar-se-hão nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do
transporte lhes não cause algum damno; e se observaráõ as mais cautelas
necessarias, para que a humidade os não prejudique.
Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a
natureza produz no seio do mar, ha algumas, que fórmão em certo modo
huma classe á parte; e que por essa mesma causa parece não devião
confundir-se com as outras producções pertencentes aos tres reinos. Esta
são as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos
com a fórma, exterior reduzirão á classe das plantas marinhas; e outros,
attendendo á sua dureza, julgárão ser especie de pedras.
Todas estas producções se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas,
pela grande variedade da figura e disposição de seus ramos, e por outras
particularidades não menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que
forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas
vezes sahem pegadas a pedaços de rócha, e entrelaçadas humas com outras,
assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes
são igualmente dignas da attenção do Filosofo.
Como porém nenhuma destas substancias he sujeita a corrupção, basta que
se accommodem nos caixões cercadas de materias molles, e seguras com
travessas de madeira, para se não quebrarem com o movimento.
Estas singulares producções não são mais, que huma collecção de pequenas
casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se
multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que
crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos
enviar á parte, se metteráõ logo, apenas se tirarem do mar, as massas
duras, que os contém, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem
pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma
lente, se for necessario, se divisaráõ parte de cada hum dos animaes,
fóra de suas pequenas grutas. Não se deixará escapar este momento; e com
algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prenderá o animal; e
arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lançará logo em
espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle não tenha tempo
de se contrahir, e perder a sua fórma natural antes de morrer. No mesmo
espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como
todo o genero de polypos: e as suas remessas se farão do mesmo modo, e
com as mesmas cautelas, que já se advertírão, fallando dos insectos.
Ha outras producções marinhas além das sobreditas, que pela sua figura,
miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivocão mais com as plantas.
Os Botanistas lhes dão vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou
corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce até depôrem
todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em
differentes papeis com todas as mais precauções já expostas sobre as
remessas das plantas terrestres.
Como porém estas mesmas corallinas pelas ultimas observações se tem
conhecido constarem de pequenas casas, em que habitão animaes, da mesma
sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para
separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que
devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tirão de
differentes substancias, para se não confundirem as suas especies, as
quaes differem entre si conforme a differença das massas, em que se
achão.
Além de todas estas producções marinhas ha outras muitas, que não só tem
a fórma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o são, como o
sargaço, e outras. Estas, como já advertimos, devem lavar-se primeiro em
agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotaráõ, como as outras
plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.
As esponjas marinhas, cuja natureza ainda não he bastantemente conhecida
por falta de observações, mas que facilmente se distinguem das outras
especies pela sua fórma exterior, merecem tambem ser conservadas nos
Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e
seccas, se accommodaráõ nos caixões com algodão, sargaço ou estopa, sem
as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito
sobre a preparação exterior das caixas, em que se remettem os mais
productos da natureza.
Parece escusado dar instrucções sobre as remessas de algumas obras de
artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas,
instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas
similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas.
Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico
artificio consista na sua diversa disposição, como são algumas carapuças
e cinturas de pennas de diversas cores, de que usão alguns póvos da
Africa e America, se remetteráõ com as cautelas, que deixamos apontadas
sobre as remessas das mesmas producções naturaes, de que são compostas.
Finalmente as instrucções antecedentes poderáõ accommodar-se a alguns
productos, de que aqui se não faz menção, conhecida a sua natureza, e a
classe a que pertencem.
*§. IV.*
_Das noticias pertencentes á Historia Natural_.
As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou
dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o
Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno,
em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que o
habitão.
Em quanto á primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se
aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caixões, ou
bocetas mandem huma relação exacta de todas as coisas que contém.
Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e
distintas com numeros diversos, na relação debaixo dos mesmos numeros
respectivos se declarará 1.° o nome tanto indigeno, como estrangeiro da
dita especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas.
2.° Notar-se-hão todas as suas qualidades mais attendiveis, e
particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que
remette, expressará todos os factos constantes e uniformes, que
distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto,
instinto, artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais
particularidade se demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde
resultar para a vida humana. Na relação das qualidades dos vegetaes
declarará os lugares do seu nascimento, a estação propria da sua
plantação, o tempo da sua frutificação, os usos, que a experiencia tiver
mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para
todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que
mandar as amostras, não se esquecerá o Correspondente de expressar os
lugares, em que se achão, a profundidade de seus veios, a natureza dos
terrenos circumvizinhos, e os usos, que já tem no paiz, e os que podem
ter na Sociedade.
Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz,
devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma relação, em
que se dê huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes
dão os mesmos póvos, que dellas se servem.
Além destas relações particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos
caixões das remessas, será conveniente que se mande á parte huma relação
geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza.
Desta deixará o Correspondente huma copia fiel na sua mão, para não
remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter
novamente os que se lhe pedirem.
Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, só servem para
dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como não interessa menos
conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que
mandem tambem huma descripção Geografica delle, que comprehenda com a
exacção possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno
da attenção de hum Filosofo. E para procederem sem confusão, podem
ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v.
g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem
á agoa.
Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a
respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimensões, a sua situação a
respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passaráõ a
coisas mais particulares. 1.° Em quanto aos montes, devem declarar, se
ha muitos, se poucos; se alguns delles são promontorios, e vulcanos;
qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como
a respeito da superficie do mar; quaes as suas direcções, quaes as
grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores.
2.° Em quanto á natureza do terreno devem expôr, quaes são os animaes
terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se
produzem e habitão; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os
mineraes, que das suas entranhas se costumão, ou podem extrahir em maior
abundancia; quaes finalmente são os usos, a que os habitantes do paiz
applicão todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.° Em
quanto aos homens, descreveráõ a sua estatura e fórma exterior, o feitio
do seu rosto, a sua força, e côr naturaes; e além de todas estas
propriedades, notaráõ nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a
facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doenças
communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser
attribuidas. 4.° Em quanto á estructura interior do terreno, devem
descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas,
os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de
terras, &c.
No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.° em
quanto ás suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua
subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus
gráos de calor ou de frio. 2.° Em quanto aos meteoros do ar, devem
mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns
aos outros, e o tempo da sua duração; mas particularmente declararáõ,
quaes são os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em
fim o numero, principio e duração das estaçoes, que pelo decurso do anno
varião regular, ou irregularmente no paiz. 3.° Em quanto aos effeitos do
mesmo ar, devem declarar-se as doenças tanto epidemicas, como
ordinarias, a que estão mais commummente sujeitos os habitantes do paiz,
e que trazem a sua origem da intemperança do ar.
No que pertence á agoa, he preciso indicar 1.° em quanto ao mar, a sua
profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas
distancias e alturas; a differença do seu sabor, conforme a differença
dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras
producções marinhas, que nelle se achão; o periodo de suas marés
combinado com as variações da Lua, &c. 2.° Em quanto aos rios,
descreveráõ os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso,
as suas inundações periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os
peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais
raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde passão.
3.° Além das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as
mineraes com huma exacta exposição das suas qualidades e virtudes,
descreveráõ todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.°
Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas
costas; e declarar todas as variações, que nellas se observão nas
diversas estações do anno. Por conclusão, todas as observações, que
tiverem feito sobre o fysico do paiz, serão bem acceitas; principalmente
aquellas, que possão de algum modo ser uteis para o augmento do
commercio e das Artes.
Para satisfazer a este importantissimo fim, que a Academia se propõe,
não será menos conveniente, que os seus Correspondentes ajuntem ás
noticias Geograficas do fysico do paiz todas as que puderem alcançar,
depois de serios exames, relativas ao moral dos póvos que o habitão. E
para observarem nesta relação a ordem, que em tudo he necessaria,
poderáõ reduzir todas as noticias, que examinarem, a titulos diversos,
preferindo sempre a divisão mais natural; v.g. Religião, Politica,
Economica, Artes, Tradições, &c.
Em quanto á Religião, devem expôr com toda a sinceridade 1.° as idéas
geraes que dominão em todo o paiz sobre a natureza da Divindade, sobre
as suas obras, e sobre o culto que lhe he devido; 2.° as seitas
diversas, e os pontos em que differem humas das outras; e juntamente os
effeitos, que costumão resultar da diversidade de sentimentos nesta
materia; 3.° a fórma do seu culto, a simplicidade ou extravagancia de
suas ceremonias, os seus casamentos, os seus lutos e funeraes, os seus
sacrificios, e finalmente todas as suas superstições.
Em quanto á Politica, devem explicar 1.° a fórma do seu governo; a
qualidade de suas leis, se as tiverem; o modo de administrar a justiça
na distribuição dos premios e castigos; o numero e qualidade das
pessoas, em quem reside a authoridade suprema; 2.° a fórma de seus
contratos, e os ritos, que costumão acompanhallos; 3.° as suas guerras,
o modo de as fazer, as armas de que usão.
Em quanto á Economica, devem referir 1.° a maneira de educar os filhos,
a qualidade e fórma de suas habitações, os seus mais communs exercicios;
2.° os seus alimentos, e o modo de os preparar, a materia e feitio de
seus trajes; 3.° as propriedades da sua lingua, e fórma dos caracteres,
se usarem de algum genero de escritura.
Em quanto ás Artes, mostraráõ 1.° o estado da sua agricultura, os usos e
defeitos de seus instrumentos de lavoura; 2.° o modo de fazerem as suas
caças e pescas; 3.° as plantas, de que se servem para sustento, vestido,
remedios, tintas, &c.; 4.° os animaes que empregão no trabalho, e em
outros serviços domesticos; 5.° os mineraes que extrahem da terra, os
usos a que os applicão, e o modo de os reduzir a esses mesmos usos; 6.°
a perfeição ou imperfeição das artes, manufacturas, e de todo o genero
de industria, e commercio que houver no paiz.
Em quanto ás Tradições, devem examinar 1.° a sua origem, antiguidade,
universalidade, probabilidade ou extravagancia; 2.° o modo de as
conservar, e defender; 3.° se no paiz houver algum genero de monumento,
se dará delle huma exacta descripção. Finalmente dar-se-ha huma idéa do
melhor modo possivel dos costumes dos Póvos, cuja noticia possa influir
de alguma sorte no Bem da Sociedade.
FIM.
JIM - Assistente
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Bases da ortografia portuguesa
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Team. The images for this file were generously made available by
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BASES
DA
ORTOGRAFIA PORTUGUESA
POR
A. R. GONÇALVES VIANNA
Romanista
G. DE VASCONCELLOS ABREU
Orientalista
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1885
_Impresso para circular gratuitamente_
_OFERTA DOS AUTORES_
Ex.^mo Sr.
Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
ciéncia, arte e literatura--Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
ortografia assenta.
Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.
Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
chamar-se +Ortografia Portuguesa+.
No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
individual, seja quem for seu autor.
[1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.
O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.
Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
sistema de ortografia.
São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
(a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.
São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.
Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
Imprensa da Universidade--estes plurais são a expressão real de um
facto, sem censura pessoal.
Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
das verdadeiras condições da vida nacional--existéncia de ortografia
+uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
+Ortografia Portuguesa+.
Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
respeito.
De V. Ex.ª
+atentos veneradores+
Lisboa, outubro de 1885.
A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.
BASES
DA
ORTOGRAFIA PORTUGUESA
I
PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA
1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
alterá-la fundamentalmente.
2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
da sociedade cujas relações serve.
3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.
4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.
5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
da língua.
6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
próprio e exclusivo.
7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
silabização.
8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.
_Escólio_.--É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
latim clássico e as línguas jermánicas.
II
PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA
O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
prática, ao ensino de:
I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.
II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.
III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.
IV. Silabização.
V. Homónimos e parónimos.
VI. Função dos sufixos.
VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
das enclíticas.
Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.
«ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.
Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
Pedro I, D. Fernando I e D. João I.
Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
evolução glotolójica neo-latina ou románica.
I--DA ACENTUAÇÃO
1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
vocábulo.
Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.
_Escólio._--A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
excepção à regra jeral.
2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
agudo. Marca, porém, êste acento:--vogal tónica aberta em parónimos:
_fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
_real_);--_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
_reúne, moínho, ruím_;--a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
(cf. 4.º): _argúe, argúi_.
3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
_modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
_córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
_vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
mercê_.
4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
exclusivamente em tres circunstáncias:--na crase da preposição _a_ com o
artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;--na sílaba átona cuja
vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
_crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);--no _u_ de prolacão
_gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
lingùística_.
_Escólio._--Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
ex.: _consecuente, consecuéncia_.
5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.
5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.
6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
não teem acento gráfico.
6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.
7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.
7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.
_Escólio_.--Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.
_Corolário_.--Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
_alar_).
_N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
_porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.
É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
(_órdêes, viájêes_).
8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
expostos.
II--DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES
Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
representação de fonemas articulados. São estes factos:
_a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
_x; s, ç; s, z_.
_b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
u_), _qu_.
_c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
fonema modulado precedente.
_d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.
II _a_.--EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES
1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
_c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.
1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
_quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
_quilómetro_[1], _quilograma_, etc.
2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.
Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:
_th_ = _t_.--_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
_tio_.
_ph_ = _f_.--_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.
_ch_ = _q_(_u_).--_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
_chimera_ = _quimera_.
_ch_ = _c_(_a, o_).--_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
_mecánica_.
_y_ = _i_.--_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.
Consoantes dobradas:--_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
_prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.
Grupo de consoantes:--_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
_Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
_Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
_tísica_.
Influência da consoante na modulação precedente:--Vejam-se exemplos em
_c_, páj. 11.
1.º _Escólio_.--Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
_e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
_connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.
2.º _Escólio_.--Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.
[1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
«metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
«burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
grego?
3.º _Escólio_.--Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
conservação da aspirante _h_.
II _b_.--ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES
_a)_--1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
da grafia _ch_.
2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
etc. Cf. _d)_.
3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.
4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
etc. Determinação histórica e comparação.
5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
comparação.
6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
_posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
_preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.
7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.
8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.
_Corolário_.--Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
_zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
_-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
_-ização_.
_Escólio_.--Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
_pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.
_b)_--1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).
2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
_g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
_q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
_gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
_Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.
_Escólio_.--É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.
_c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._
_Escólio_.--Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
_edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
_corrupção_.
_d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
nada mais pode fazer--estabelece o padrão, dá a norma--para que se
dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.
Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.
III--DOS DITONGOS
Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.
O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.
IV--DA SILABIZAÇÃO
Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
princípios:
1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.
2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.
3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
_traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta--bandeira,
guarda--fato, clara--boia; luso--brasileiro; deu--m'o, louva--lhe,
démo'--lo, louva--o, louvá--lo, arrepender--se, domá--lo--ia_.
V--DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS
1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
paço_,--parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
_s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
_houve, ouve; dê-se, dêsse_.
_Escólio._--Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
_per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
(cf. _pélo, pelo_).
2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
_pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
(verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
(verbo), _batéis; caia, caía_; etc.
VI--DOS SUFIXOS
Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.
É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
_organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.
VII--DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS
Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
inconsciente.
É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
_haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
hão_.
É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
= (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
(hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
_descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.
III
O NOSSO INTUITO
Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.
Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
_idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
passeamos, passeais, passeiam_;--passeava, passeavas_, etc.;--_passeei,
passeaste_, etc.;--_passearei, passearás_, etc.;--_passearia_,
etc.;--_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
eles;--que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;--passear, passeando,
passeado_. O radical português é _passe-_.
É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
método sem contradições:--se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
nomes.
Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
ORTOGRAFIA PORTUGUESA.
+ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+
POR A. R. GONÇALVES VIANNA
Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
Professor Faulmann.--Porto, 1881.
Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
dialecte de Lisbonne.--Paris, 1883.
Études de Grammaire Portugaise.--Louvain, 1884.
Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
português).--Paris, 1885.
POR G. DE VASCONCELLOS ABREU
Questions Védiques.--Paris, 1877.
Sobre a Séde originaria da Gente Árica.--Coimbra, 1878.
Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.--Lisboa, 1878.
Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.--Lisboa,
1878.
Contribuições mythologicas.
Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.--Lisboa, 1879.
Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
(publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
«Buddhist Legends from Fragmentos ... by G. de Vasconcellos Abreu.
Translated with additional notes. Ceylon).--1880.--1884.
O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
recensão Bengali).--Lisboa, 1878.
Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
Grammatical.--Lisboa, 1881-1882.
De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
l'Asie.--Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).
A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.--Paris,
1885.
Bases da ortografia portuguesa
Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading
Team. The images for this file were generously made available by
Biblioteca Nacional Digital (hhtp://bnd.bn.pt).
BASES
DA
ORTOGRAFIA PORTUGUESA
POR
A. R. GONÇALVES VIANNA
Romanista
G. DE VASCONCELLOS ABREU
Orientalista
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1885
_Impresso para circular gratuitamente_
_OFERTA DOS AUTORES_
Ex.^mo Sr.
Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
ciéncia, arte e literatura--Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
ortografia assenta.
Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.
Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
chamar-se +Ortografia Portuguesa+.
No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
individual, seja quem for seu autor.
[1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.
O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.
Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
sistema de ortografia.
São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
(a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.
São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.
Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
Imprensa da Universidade--estes plurais são a expressão real de um
facto, sem censura pessoal.
Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
das verdadeiras condições da vida nacional--existéncia de ortografia
+uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
+Ortografia Portuguesa+.
Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
respeito.
De V. Ex.ª
+atentos veneradores+
Lisboa, outubro de 1885.
A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.
BASES
DA
ORTOGRAFIA PORTUGUESA
I
PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA
1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
alterá-la fundamentalmente.
2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
da sociedade cujas relações serve.
3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.
4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.
5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
da língua.
6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
próprio e exclusivo.
7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
silabização.
8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.
_Escólio_.--É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
latim clássico e as línguas jermánicas.
II
PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA
O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
prática, ao ensino de:
I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.
II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.
III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.
IV. Silabização.
V. Homónimos e parónimos.
VI. Função dos sufixos.
VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
das enclíticas.
Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.
«ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.
Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
Pedro I, D. Fernando I e D. João I.
Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
evolução glotolójica neo-latina ou románica.
I--DA ACENTUAÇÃO
1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
vocábulo.
Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.
_Escólio._--A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
excepção à regra jeral.
2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
agudo. Marca, porém, êste acento:--vogal tónica aberta em parónimos:
_fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
_real_);--_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
_reúne, moínho, ruím_;--a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
(cf. 4.º): _argúe, argúi_.
3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
_modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
_córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
_vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
mercê_.
4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
exclusivamente em tres circunstáncias:--na crase da preposição _a_ com o
artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;--na sílaba átona cuja
vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
_crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);--no _u_ de prolacão
_gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
lingùística_.
_Escólio._--Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
ex.: _consecuente, consecuéncia_.
5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.
5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.
6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
não teem acento gráfico.
6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.
7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.
7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.
_Escólio_.--Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.
_Corolário_.--Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
_alar_).
_N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
_porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.
É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
(_órdêes, viájêes_).
8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
expostos.
II--DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES
Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
representação de fonemas articulados. São estes factos:
_a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
_x; s, ç; s, z_.
_b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
u_), _qu_.
_c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
fonema modulado precedente.
_d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.
II _a_.--EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES
1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
_c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.
1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
_quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
_quilómetro_[1], _quilograma_, etc.
2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.
Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:
_th_ = _t_.--_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
_tio_.
_ph_ = _f_.--_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.
_ch_ = _q_(_u_).--_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
_chimera_ = _quimera_.
_ch_ = _c_(_a, o_).--_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
_mecánica_.
_y_ = _i_.--_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.
Consoantes dobradas:--_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
_prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.
Grupo de consoantes:--_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
_Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
_Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
_tísica_.
Influência da consoante na modulação precedente:--Vejam-se exemplos em
_c_, páj. 11.
1.º _Escólio_.--Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
_e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
_connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.
2.º _Escólio_.--Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.
[1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
«metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
«burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
grego?
3.º _Escólio_.--Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
conservação da aspirante _h_.
II _b_.--ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES
_a)_--1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
da grafia _ch_.
2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
etc. Cf. _d)_.
3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.
4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
etc. Determinação histórica e comparação.
5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
comparação.
6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
_posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
_preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.
7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.
8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.
_Corolário_.--Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
_zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
_-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
_-ização_.
_Escólio_.--Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
_pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.
_b)_--1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).
2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
_g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
_q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
_gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
_Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.
_Escólio_.--É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.
_c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._
_Escólio_.--Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
_edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
_corrupção_.
_d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
nada mais pode fazer--estabelece o padrão, dá a norma--para que se
dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.
Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.
III--DOS DITONGOS
Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.
O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.
IV--DA SILABIZAÇÃO
Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
princípios:
1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.
2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.
3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
_traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta--bandeira,
guarda--fato, clara--boia; luso--brasileiro; deu--m'o, louva--lhe,
démo'--lo, louva--o, louvá--lo, arrepender--se, domá--lo--ia_.
V--DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS
1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
paço_,--parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
_s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
_houve, ouve; dê-se, dêsse_.
_Escólio._--Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
_per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
(cf. _pélo, pelo_).
2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
_pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
(verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
(verbo), _batéis; caia, caía_; etc.
VI--DOS SUFIXOS
Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.
É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
_organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.
VII--DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS
Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
inconsciente.
É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
_haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
hão_.
É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
= (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
(hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
_descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.
III
O NOSSO INTUITO
Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.
Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
_idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
passeamos, passeais, passeiam_;--passeava, passeavas_, etc.;--_passeei,
passeaste_, etc.;--_passearei, passearás_, etc.;--_passearia_,
etc.;--_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
eles;--que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;--passear, passeando,
passeado_. O radical português é _passe-_.
É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
método sem contradições:--se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
nomes.
Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
ORTOGRAFIA PORTUGUESA.
+ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+
POR A. R. GONÇALVES VIANNA
Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
Professor Faulmann.--Porto, 1881.
Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
dialecte de Lisbonne.--Paris, 1883.
Études de Grammaire Portugaise.--Louvain, 1884.
Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
português).--Paris, 1885.
POR G. DE VASCONCELLOS ABREU
Questions Védiques.--Paris, 1877.
Sobre a Séde originaria da Gente Árica.--Coimbra, 1878.
Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.--Lisboa, 1878.
Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.--Lisboa,
1878.
Contribuições mythologicas.
Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.--Lisboa, 1879.
Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
(publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
«Buddhist Legends from Fragmentos ... by G. de Vasconcellos Abreu.
Translated with additional notes. Ceylon).--1880.--1884.
O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
recensão Bengali).--Lisboa, 1878.
Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
Grammatical.--Lisboa, 1881-1882.
De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
l'Asie.--Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).
A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.--Paris,
1885.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas,1882-11_12
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE N.º 2
NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
SUMMARIO
Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.
* * * * *
«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
Está approvado.»
Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
* * * * *
Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
venia e diz:
«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»
E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
* * * * *
Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
oratoria sacra.
Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
para este effeito invisivel.
Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
com as marionettes.
N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
accordo.»
Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
para approvar.
* * * * *
Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
herva crescer.
* * * * *
Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
perigos, apertando-se de mais com o fiado.
Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
nossas intimidades com o Divino.
É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
divino.
Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
no espaço,
Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
apoplexia.
Acontecem d'estas ás vezes!
Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
terrestre.
* * * * *
O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
d'hostias quotidianas.
Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.
* * * * *
Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.
Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
* * * * *
O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
cherubins no gallinheiro celeste.
* * * * *
O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
parte do snr. França Neto.
Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
simples ciprestal sentado,--com defluxo.
Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.
* * * * *
Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
morto, e nunca mais resuscitará.»
Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
religião.
Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
decretos ou por castigos humanos.
«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
deem em toda a parte onde fordes escravos.»
Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
* * * * *
Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
historia das ideias clericaes.
O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
liberdade.
Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
_liberdade da sciencia_.
Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
civilisação.
Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
gremio da egreja.
N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
liberaes, julgaram impossivel transpôr.
* * * * *
Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
* * * * *
A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
todas as sessões.
Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
as adhesões da mulher?
Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
d'aldeia e o padre de sala.
* * * * *
Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
aventureiros e os mysticos.
Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
pretos do que elles são.
Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
inhospitas e selvagens.
Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
o outro:
--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
* * * * *
O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
estonteadores.
As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
no arraial.
Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.
Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
* * * * *
O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
boleeiro, o creado de farda e a preta.
As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
dos seminarios.
É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
_chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
chão!
E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_
--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»
Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
Alguém á noite pergunta:
--Que é feito do padre João?
E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
responde lentamente:
-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
meio de uma ligeira admoestação corporea.
--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!
--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
pelo lado _cunhos_.
* * * * *
De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.
O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
pecaminosa.
Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
foram manufacturados.
* * * * *
Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.
Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!
Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
de Castello Melhor. Que contraste!
Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.
A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.
A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
e a pratica da devoção.
O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
vae para padre, isto é, por simples estupidez.
Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.
As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
* * * * *
Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
debalde, transformal-as em obras.
Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
infestam, sevandijam e conspurcam.
Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
vigentes.
O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
de pistola.
Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
dos seus compatriotas.
Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
consternação em que todos se achavam_.
E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
profunda de tão excelso quão sensivel principe.
* * * * *
Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
têem os povos egualmente?
Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
como os reis choram pelos seus bons subditos?
Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
a queda de um honrado cidadão que morre?
Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
perfeitamente a mesma coisa!
Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
das proezas do tiro ao alvo.
* * * * *
Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
* * * * *
A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
banca e o dos parceiros.
O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
_algum dinheiro e mobilia._
Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
e desapercebidos.
No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
as jogatinas.
Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
discutir com ellas sobre esta questão.
* * * * *
O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
Senhora da Luz.
No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
circulos concentricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
apostas.
Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
que scintillava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
que tinha mais proximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
cartas que em seguida sahia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
trez de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
--Mata o rei?
Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
--Mato-o, sim senhor!
Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
cartas 3$000 que tinha posto.
O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
que comprimia nos dedos.
A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
parada egual á minha.
Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
bem caracteristicamente mediocre.
Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
recebida n'esse mesmo dia.
Fiquei na batota até pela manhã.
Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
pautava luminosamente d'azul.
Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
raivosamente pelos pontos.
O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
o collarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
d'ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
sovaco.
--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
estrangulada.
E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
os olhos torvos!
--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
janella.
E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
modo que me está a appetecer isso, a mim!
E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
sempre velados pelo mysterio.
* * * * *
Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
batota!
Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
solto.
E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
assalta e sequéstra as batotas!
Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
chalaça!
* * * * *
Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
_Frei Bandalho_.
Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
vulgarisação da litteratura jornalistica.
Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
_Bisborria_ e o _Pulha_.
A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
* * * * *
S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.
Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
Inclinemo-nos com reverencia!
Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
Tornemos a inclinar-nos!
E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
meiados do decimo setimo seculo.....
Prostremo-nos por terra!
* * * * *
D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
conde de Sabugosa.»
É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
pena de experimentar....
De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
os gostos d'horta ou de capoeira.
O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
* * * * *
Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
de escamas de corvina.
Tambem folgamos muito com isto.
Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
artes do desenho.
Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
suas boas mestras!
Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
Leopoldo!
Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
* * * * *
Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
aprehendidos.
O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
propriamente--uma _vacca_.
* * * * *
Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
gracejo_.
O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
chamado a resolver questões d'olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
que entre esses dois amantes se passou!
O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
ironica:
--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
Oh! amor!... amor!
Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
juizo.
Diz o jurado:
_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
ôlho á queixosa?_
Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
XVII pelas damas illustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
obrigação d'este é por-se de rôjos.
* * * * *
Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
Bragança Junior.
Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
da patria.»
Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
a descobrir que ella era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
* * * * *
Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
moveis artisticos.
Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
desafogo de alguns commentarios.
* * * * *
A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
João v.
Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
ferros-velhos.
* * * * *
É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
* * * * *
Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
quanto talvez ephemera.
Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
bem dissolvente!
Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
* * * * *
Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
foi victima o mais bello gato de sua magestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
* * * * *
Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
reconhecel-o e a lamental-o.
* * * * *
Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
archeologicas.
* * * * *
«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
nação portuguesa!»
* * * * *
Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
pé outra vez.
Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
primeiro repente gostamos d'elle.
Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!
Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
ninguem.
Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
peiores de todos!
Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
e o arcebispo de Bragança.
O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
que é fazenda.
Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
gallinha!
Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
exercito das trevas_.
Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
melros. Rua, que é a sala dos cães!
Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
escusa-se de bispos.
Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?
E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--
Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
_Nação?..._
Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
que ha pouco demos á nossa cosinheira:
--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
* * * * *
Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
propicio para cardinalisar Masella.
Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
Oh! não.
Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
distribuição dos barretes phrygios.
O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
tostões e meio.
De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
dizer em tal conjuntura:
--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
* * * * *
Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
Eis o caso:
* * * * *
Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
pessimos alguns dos bispos propostos.
--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
precisamente opposta á que eu tenho!?...
--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex.ª me consultava....
-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
liberrimo governo da nação portugueza.
--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
e snr, agora, o vereis!
_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
* * * * *
Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
folha:
_O nuncio desacatou sua excellencia_.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
periodicos ministeriaes.
_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
um calor_.
* * * * *
Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
occasião d'este jubiloso successo.
* * * * *
E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?
* * * * *
Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
pensadores?...
Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
Vejamos, sinceramente:
Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
confessar mulheres?...
Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
a fallar n'isso.
Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
bispos.
Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!
* * * * *
A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
republicano de opposição ao governo.
Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
Parabens a sua excellencia!
* * * * *
Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
Carnaxide.
Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
gorgeios.
Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
magestoso acima do narravel.
Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
vida em direcção á faia virente.
Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
ao lado.
Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
as nuvens, exclamou:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
negocios do reino.
Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!
E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
exprimir-se em prosa:
--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
penna e de governação.
Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:
--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
quebrada da serra?
E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
Nossa Senhora Apparecida,
--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
templo!...
Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
publica:
D. Miguel foi á Sé,
Sentou-se n'uma cadeira,
E disso para os malhados:
Esta perna está inteira!
Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
submissos em giolhos.
E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
repetir aos montes e ás hervinhas:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
de nunca ter visto Lisboa.
Gloria pois a s.ex.ª!
* * * * *
Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
A patria explorava-o e ria-se d'elle.
Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
agraciou a regia munificencia.
Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
extrangeiro.
Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
Lisboa 15 de dezembro de 1882.
_Ramalho Ortigão._
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As Farpas, 1873-01_02
[Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
2.º ANNO
Janeiro a Fevereiro de 1873
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos
estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O
enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força
armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os
srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
e Pickuick.
Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para
findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito
projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
immobilidade oriental.
Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!
Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
alargar-se d'estes termos.
_Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»
_Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»
Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.
* * * * *
Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.
As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que
tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.
Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.
E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
tem de aprender a ser digno e honrado!
* * * * *
Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.
Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
da Companhia.
Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:
«Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»
Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
srs. deputados votariam calados.
Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.
Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.
Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede
viveres.»
Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
socego e da ordem.
Hoje porém:
Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;
Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
mesmas;
Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
a maior parte dos poderes delegados nos governantes;
Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
via da eleição representem a vontade popular:
Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
de poder que ellas asseguram ao povo.
Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
uma monarchia parlamentar.
A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
por chefe do poder executivo--um presidente eleito.
A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
executivo--um rei hereditario.
O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
de juizo para governar.
Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
monarchia representativa.
A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de
quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um
presidente eleito.
O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
França poderia introduzir na organisação do trabalho.
A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o
constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.
Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
distincção: um e outro affirmam um governo livre.
A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
é:
Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.
Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.
Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os
unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
não seja--a de desafinarem.
Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
livre sob a monarchia portugueza.
Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto
existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
elle encerra....
E que digamos a suas excellencias:
Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
eleitos.
Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
monarchia parlamentar.
Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
portuguez?
Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
pedirá--herva.
* * * * *
Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na
republica, e teremos--a escravidão na monarchia.
* * * * *
Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia
e que parece não ter caracter.
Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
_Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.
Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
o machinismo constitucional.
Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
todo ha um surdo descontentamento geral.
Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.
Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
seccas.
Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
de fadiga, apupado e corrido.
Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.
O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!
A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para
discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.
O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
hypothecada.
Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!
Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
dando dinheiro e recebendo papeis.
A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
e como critico as consciencias dos outros pela justiça.
* * * * *
A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.
Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
rebaixa.
* * * * *
Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas;
faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
interesses pessoaes e a ambição dos individuos.
Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
_mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.
Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.
* * * * *
O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
não seja para nós um irremediavel perigo.
Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
immediatamente de manter os abusos.
Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
melhor politica.
Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.
Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
como se é homem de bem.
Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
falta da virtude.
Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.
Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.
Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
gangrena e a dissolução latente do estado.
Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á
conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.
De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
liberdade.
Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da
perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
aos negros e dar a paz á America.
* * * * *
Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
prudente e justo.
No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
Theagenes em Megara.
O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.
Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
desfallecimento e a morte.
Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse
principio sob a sua forma philosophica--na razão.
* * * * *
O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
intelligentemente armadas e equipadas da Europa....
A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que
as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
o jornal e tomar o café--para os estribos.
O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
desde hoje e para todo sempre invenciveis.
Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os
pés!
De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
de piugas.
* * * * *
Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
pés quentes!
Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.
Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés
quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!
* * * * *
Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
Tavira_.
Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!
Eis a moção:
«A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»
Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
os srs. deputados.
* * * * *
O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:
«Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
constitucional.»
Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
apparecer.
E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
illibados.
* * * * *
Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
ha dois annos.»
Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:
«A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
independencia, e passa á ordem do dia.»
Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:
Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.
* * * * *
Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
Palhés e a villa de Mangualde.»
Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:
«A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»
* * * * *
Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o
que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.
* * * * *
Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.
No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não
certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.
O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
moção:
«Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
as instituições.»
Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
instituições, de respeito e affeição á dynastia_!
O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
conspirações continuadas.
O partido historico caiu victima de uma conspiração.
O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
ao mais a que se podia chegar_.»
Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!
* * * * *
Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.
* * * * *
Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
funeral.
Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.
Dizia-se fallando-se d'ella:
«Deixou pouco.»
«Que fez ella ao que tinha?»
«Que miseravel! que mesquinha!»
E um jornal catholico escreveu:
«O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
cautellas de vinte e cinco.»
Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
homens deseguaes.
Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.
Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
o descanço eterno.
E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.
As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de
imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
similhantes condições e com eguaes amarguras!
Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
considerar-se menos que quaesquer outros.
* * * * *
É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
pela mulher digna e virtuosa que morreu.
* * * * *
Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
feridos e dois mortos.
Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
ninguem era ferido.
Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.
Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
delicto? _«Por abuso de defesa»_.
Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
defeza_.
* * * * *
Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»
E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!
Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...
Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...
Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
Melicio vela!
* * * * *
A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.
* * * * *
Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.
O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
deputado, com voz pausada e firme disse:
«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
a quem verdadeiramente podemos chamar ...»
Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
um raio de enthusiasmo fecundo e creador!
O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
Vozes: Muito bem! muito bem!)
* * * * *
Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.
Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
á beira dos golphos innundados de azul ...
Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
_Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
com brisa fresca!_
* * * * *
Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
seguintes:
Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
inspirada voz!
Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
assembléa, labio tão selecto como attico!
Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).
Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!
(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).
Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...
(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
um desconhecido).
* * * * *
_Áquelle que jurou assassinar-me_
Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:
«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»
Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
de occupar-se do caso.
Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.
Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.
Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
opinião:
Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!
Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
ordinariamente comsigo.
Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
fecha o discurso.
Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
e o jornalista Courrier.
Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!
Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
implacaveis da desgraça!
No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
sentia a displicencia, a melancholia.
Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...
Vermes!
O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!
E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
mas discreta.
A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!
Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.
--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!
--Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...
--O que trazia o bigode assim?...
--Esse mesmo!
--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...
E algumas outras coisas doces e impereciveis.
E do meu amigo dirão apenas:
«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»
Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
branco.
* * * * *
Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.
Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
o vate:
_Aos infieis, senhores, aos infieis!_
* * * * *
D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
ministro do reino.
O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
pasta para ir adoptar o seu livro.»
O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
de membro do actual gabinete.
É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.
O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
o chão.
Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.
Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
sorrisos, com a malevolencia das allusões?
Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!
Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
domestica.
A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
_virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
publica da sua virtude.
Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.
Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.
Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
viveu.
Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
passado no mundo.
O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.
* * * * *
Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
_Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
periodicos portuguezes são--anonymos.
* * * * *
Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
este:--não assignar.
Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
as antipathias que tenha podido suscitar.
Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.
* * * * *
A primeira razão por que se não assigna é esta:
A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
dignidade e da razão.
Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
_responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
catastrophe para a justiça.
Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
quanto mais se lê peor se escreve.
Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.
Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
jornal rouba-o o jornal á educação do povo.
Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
_galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
salchicheiro.
Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
magnezia.
* * * * *
Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
representativo nacional.
Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
abalisam uma época, enquadram um seculo.
Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:
«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»
* * * * *
O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
varões extraordinarios!
No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!
Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
nunca!»
Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
geographia--e á canalha!
Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
perra vil!
E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
ôlho de perdiz!
Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
peninsulas!
* * * * *
Agora--Barros.
Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.
Como o explica, como o justifica elle?
Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!
* * * * *
Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:
«Elle tem alguma coisa na cabeça!»
Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
parisiense de Champfleury!
Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!
Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
o povo--e o passarinho!
Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!
Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...
Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
amplidões do azul em phantasticos arabescos....
E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!
Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!
* * * * *
Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.
Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!
O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:
Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
visitas n'um só bote!
E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.
* * * * *
Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!
Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
maiores!
O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.
* * * * *
No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.
Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
novos ceus, novas floras e novas faunas.
Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.
Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
pessoas.
Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
com a Russia européa.
Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!
Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
gelados nove mezes por anno.
Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
Strelitz.
Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
caravanas do chá....
E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
subditos do grande Filho do Ceu.
E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!
E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
barril immundo para um fino cristal facetado!
* * * * *
A camara dos srs. deputados....
Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
que palpita, ao longe!
E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....
A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:
Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
barril, uma pipa ou um tonel!
E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:
«Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
vasilhas.»
Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
da Europa a este milagre:
_Engarrafar vasilhas_.
* * * * *
E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
camoeza!
Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!
Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
um capitalista ou um sabio.
Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.
Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.
Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.
Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
grande.
Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.
Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
teu voltarete.
Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque
elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
orthographia, nem mão de redea!
O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
como o foste--na politica! Não tornes cá.
Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas
moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)
Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
Proofreading Team
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
NOVA SERIE TOMO X
Agosto a Setembro 1877
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P. J. Proudhon
SUMMARIO
Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções
musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.
O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
14 de setembro de 1877.
Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.
Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
inimitavel mestre.
O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.
* * * * *
Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_
* * * * *
Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
sociedades vivas a elaboração do progresso.
* * * * *
Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.
O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
divina verdade.
* * * * *
A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
uma catastrophe para a geração moderna.
Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.
Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.
A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
patifes, com os seus pés miseraveis.
A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.
A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
que a devia prender estreitamente á grande alma popular.
A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.
Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
importantemente o nosso estado social.
Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o
partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.
Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
convivencia e pela cultura da historia.
Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.
Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
sentimento nacional.
* * * * *
Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
dotára.
Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
mão.
Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.
Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.
Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
dirigentes, não tem esse direito.
A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.
E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
submetter-se aquelles que estão vivos.
A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.
O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.
Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
arduo e penoso rumo do dever.
* * * * *
Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.
Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
como um de seus membros, eis o que proporiamos.
* * * * *
A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
_Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.
Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das
côrtes de Lamego.
O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
aspecto,--o aspecto das nossas superstições.
As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.
De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.
Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
leis fundamentaes da nossa evolução social.
A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.
* * * * *
Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.
CAPITULO I
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.
CAPITULO II
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.
CAPITULO III
Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
Quatorze e por Cysne innarravel.
CAPITULO IV
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
Jubilo povo augmenta.
CAPITULO V
Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
_touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.
CAPITULO VI
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
povo.
CAPITULO VII
Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
povo.
CAPITULO VIII
Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
fôr.
CAPITULO IX
Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
zenith.
CAPITULO X
Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
impossivel descrever palavras humanas.
CAPITULO XI
Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
delirante.
CAPITULO XII
Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.
CAPITULO XIII
Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.
CAPITULO XIV
Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
vertiginoso.
CAPITULO XV
Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.
CAPITULO XVI
Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.
CAPITULO XVII
Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.
NOTAS
AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
A
_Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
reproduzidas.
Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
matta.
Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.
O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
residencias de suas magestades.
Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
solução d'este problema:
Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
vezes sem se destapar o tacho;
Pergunta-se:
Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.
Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
publicas o sr. estofador Alcobia.
O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.
E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
da coroa Alcobia e Barros e Cunha!
B
_Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
detidamente o episodio narrado n'este capitulo.
El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.
Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:
--Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
immunda.
Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
rapazes onde era a escola.
Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.
Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.
São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
successivo das cadeias e dos hospitaes.
Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
medas ou a debulhar o milho.
Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
chamar:--o premio Monthyon da malandrice.
* * * * *
Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
da corôa, o sr. Barros e Cunha.
Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.
Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.
* * * * *
Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.
Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
sabia inglez.
Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
ex.ª.
Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
como a de quem falla por um nariz de assucar.
No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.
Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
adormecida.
Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.
Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.
* * * * *
Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
«caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
corôa.
Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.
Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.
No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
liberdade.
Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
hebdomadarias:
S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.
* * * * *
Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
espinha de cebo.
Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
fardamento, uma calva e uma nodoa.
Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
do seu zelo como novo aulico.
Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos
outros.
Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.
Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
em um dos lanços da estrada alludida.
* * * * *
Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
começamos por transcrever:
«Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
considerando:
«1.° Que esse contrato se encontra viciado;
«2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;
«3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;
«4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:
«Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.
«O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
officio datado de 26 de junho ultimo.
«Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._
«Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».
* * * * *
Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.
O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
portaria, um contracto de similhante natureza:
O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:
_Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
outro que o prejudica.
A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
intervenção do sr. Burnay.
A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.
As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
réis é uma calumnia.
Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
não do individuo com quem elle contractou?
Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
similhante arbitrio?
Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
contractado?
Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
delicto egual ao da camara?
Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
calumniosa, e infamante.
É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
cidadãos.
* * * * *
O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.
A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
liberdade e contra a propriedade de um cidadão.
Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).
A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:
«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»
Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.
* * * * *
Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
que os estados se moralisam e se enriquecem.
Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
governa.
* * * * *
Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
suas faculdades não lhe permittirão defender-se.
D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A
logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
de zabumba em theatro de feira.
E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
commercio e industria.
Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.
Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.
A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.
Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
não fizeram senão prejudical-a.
Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
o mesmo.
* * * * *
O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
attenção que lhe é devida.
* * * * *
_As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
as fontes da inspiração artística.
Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a
força da pancadaria.
Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.
Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
transformar o paiz n'uma almondega.
Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.
As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
victimas.
Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
polka.
Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
o caso em musica e em dansa de roda!
Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!
Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
primeira!
Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!
Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a
musica_.
Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
costume, despicaste-te com uma polka especial.
As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_
O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
tyrannia a vindicta dos povos.
Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,
ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...
Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!
Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_
* * * * *
O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
ellas_!
Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.
Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.
Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
das Mercês.
* * * * *
_A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_
Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
alliança da religião e do _chic_.
Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:
--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?
E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
os olhos ao céu.
--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.
E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
conversaremos:
--Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!
--E começa a ter crenças?
--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
meu anjo da guarda!...
--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
Pontifice, não acredita?
--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...
--Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!
--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...
--Deus do céu!
--Entre a costelleta e a omelette...
--Virgem Maria!
--Misturada com vinho de Pauillac...
--Santos e Santas da côrte celeste!
--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...
--Mas vae para o inferno essa alma!
--Está claro que sim. E é bem feito!
--Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.
--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!
--Amen! Amen, Jesus Maria José!
Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
nossas soirées ao divino.
* * * * *
Aos srs. advogados
Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.
De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.
Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
meu varapau.
Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.
Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
para o outro dia.
É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
regras.
* * * * *
Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
advogado para que este o illucide.
Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
o principio da auctoridade, recorre ao letrado.
--Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
papel official.
--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
nos olhos, atando as mãos na cabeça.
--Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
tinha alma de lhe beber o sangue!
Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.
Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.
Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
os que tyrannisam o orphão.
Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
contraria.
Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
que deseja pagar.
Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.
O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
defensor.
* * * * *
Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.
* * * * *
Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
mais ou menos do teor seguinte:
* * * * *
«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»
* * * * *
A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
collegios de Lisboa.
A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
_réclames_ das suas distribuições de premios.
Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
egual exito com relação á lingua ingleza.
O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:
_Elvira Fernandez me fecit._
* * * * *
Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
conhecimentos theoricos da formação das palavras.
Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
_Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
poltronas.
Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no
estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
esposa, e finalmente como mãe.
* * * * *
De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
chamada na familia.
* * * * *
Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante
obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
Jeronyma o direito de a levarem a exame.
* * * * *
_Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
espirito virginal de uma menina,--ao
interrogatorio official de um mestre que durante
vinte minutos vae exercer sobre aquella
alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
na educação de um rapaz, para quem
o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
civil; na educação de uma menina portugueza
similhante prova é inadmissivel e equivale
a uma amputação do decoro.
Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
tornar mais educada.
Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
maioridade e de emancipação legal.
* * * * *
Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
dialogo:
_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?
_A examinanda_--Quando me vou deitar...
_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.
_A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.
_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz
depois de se despir?
_A examinanda_--Tenho vergonha...
_O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!
_A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...
E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
emittere_.
O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.
É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
sabem ou não «civilidade».
* * * * *
Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.
A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
que a da instrucção dos homens.
As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.
Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:
1.° Curso de aceio e de arranjo;
2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).
3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.
* * * * *
No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
idéas, as seguintes noções praticas:
Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
pequenos jantares.
Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.
No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.
O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
boa digestão.
Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
nacional.
Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
perfeitamente transparente.
Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
_substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
_substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
papão!
Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
governa o mundo e determina o destino das sociedades.
Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
cozinhas dos differentes póvos, etc.
A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.
Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.
O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
anno em que elles houverem de ser feitos.
* * * * *
No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
sabiamente dirigida.
* * * * *
Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
doce refugio.
Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
dotar-se a mulher.
* * * * *
Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.
Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
meteorologia nas obras dos arabes.
Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.
Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.
* * * * *
A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.
O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
impõe.
Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.
Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
contemporaneas.
Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
_ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
permanentes.
Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.
O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.
Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
réclame de modas.
Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
publicados nas _Transactions of international association for the
promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:
_Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;
_Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
inferiores_, por Mary Carpenter;
_Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;
_Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;
_A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
Bessie Parkes;
_A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
Remand;
_Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
mulheres,_ por Jone Crowe, etc..
Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
uma vida extremamente simples e retirada.
Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
nem dá literatas.
Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]
Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora
5--PATEO DO ALJUBE--5
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883
LISBOA
EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA
Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em
nome do rei.
SUMARIO
Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o
acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel
parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do
príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de
sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas
convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha
na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o
cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A
viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o
príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao
throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que
for servido.
LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883
SENHOR!
E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos
traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.
O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia
garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o
Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de
usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em
que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente
do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey
nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.
Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos
deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio
da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,
correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.
D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.
Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas
pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar
vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e
das coisas da civilisação entre gentes extranhas.
Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada
pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois
abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As
Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica
e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se
tratava.
Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,
atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,
quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para
encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento
presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que
vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa
acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação
remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar
dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques
debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa
alteza.
Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as
instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade
Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria
Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,
quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,
que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria
do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.
Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas
o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.
Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do
trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos
pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os
Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As
academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão
nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as
pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes
oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo
com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:
--O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe
seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o
immortalisarem no eterno jubilo das gentes!
E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da
sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta
perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra
cathedralesca.
Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.
Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso
dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da
educação d'alguem que seja n'este mundo?
Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!
Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente
fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual
Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e
porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para
o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da
_Delphina do mal_.
Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se
achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se
lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...
Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!
Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,
sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e
em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes
ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador
berrava:
--Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa
com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do
que os rapazes precisam para ir para leis!
Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem
religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho
d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de
Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira
do predio.
Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos
lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois
é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação
capaz.
Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a
mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,
_que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!
E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou
enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,
que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro
ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!
Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar
no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;
mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro
das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito
de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de
magica no theatro de D. Maria.
Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles
pegaram n'uma questão d'arte?!...
Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual
reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção
d'arte com _quatro potes etruscos_.
Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira
parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram
por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa
presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças
familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde
muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.
Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes
exprimiram com unanimidade:
--Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!
--O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão
inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus
extrangeiros!...
--Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e
subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em
potes.
E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito
supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte
nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,
nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual
a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra
de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por
quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns
dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas
antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo
que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,
só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de
compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!
Tal é a camara, ó serenissimo principe!
E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia
corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.
Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de
assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva
em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a
deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação
nacional é o boi gordo.
Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o
trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros
e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.
Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.
Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,
considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso
foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com
prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em
portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de
instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e
applauso geral dos doutos.
Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.
Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros
e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo
que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_
presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade
geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados
e iam a ministros.
A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica
portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo
_odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres
entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.
De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o
entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola
pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.
A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da
sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos
fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a
amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.
Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa
alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o
primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos
desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e
muito em especial dos de vossa alteza serenissima.
Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus
illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam
com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje
de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.
De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario
publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,
jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e
luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava
dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.
Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.
_As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que
vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio
dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que
vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um
cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura
nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por
um simples phyloxera.
_As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de
flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem
luvas.
Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o
decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de
vossa alteza, se nós, seus criticos.
Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção
secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de
hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica
e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse
sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que
era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr
defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,
pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na
Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a
explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim
o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.
Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os
dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe
acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio
pão.
Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem
ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema
nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o
estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu
mestre.
Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,
do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a
educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica
Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos
bar-baças aposentados da magistratura e da academia.
Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os
pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da
natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,
cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas
sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás
engommadeiras virtuosas.
Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?
Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos
principes como o proprio livro de Machiavel.
Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a
tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.
É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha
agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo
da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,
applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se
apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real
banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na
caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se
retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da
regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,
mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de
gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural
affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e
metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o
vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar
os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava
escripturado.
Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se
ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos
duros encargos da publica governação espreitando um momento pela
fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza
Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,
apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de
chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que
dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e
cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira
por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com
o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.
--Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz
acre.
--Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza
Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não
tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.
--Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo
na testa e com os braços cruzados no peito.
Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
orelhas, o rei disse-lhes:
--Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido
aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo
tres perus gordos e emborrachados!
Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito
pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se
lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos
_deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.
Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos
seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,
que a pena ultima lhes seja commutada.
Piedade, principe, piedade!
Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As
Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio
de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a
sua familia, com a sua côrte?...
Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento
encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as
maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do
palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos
cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das
caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.
Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa
alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos
_louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?
Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha
cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da
rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e
de peixe frito?...
Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom
gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto
de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do
recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente
e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da
Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.
Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os
individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de
instrucção.
Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto
d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas
linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:
_Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite
ir extrangeiro principes, e se vae._
E recebemos a seguinte resposta:
_Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir
Collares burros, e não vou._
Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!
O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a
honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o
detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de
sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao
feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos
nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás
ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá
licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á
vontade, que o bebe por conta do lavrador.
Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!
Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse
major_.
Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os
derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,
para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos
reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,
sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos
dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o
abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando
chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.
Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ... Um chimico,
senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um
troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além
d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos
que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham
o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa
satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á
avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain
d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á
França:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai
seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!
E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com
malicia, terá de acrescentar:
--_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_
Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...
E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que
ha que ver por esse mundo!
Um olheiro, de galochas de borracha na vista!
Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão
até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o
seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno
incognoscivel!
Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos
sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que
dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida
nenhuma que vae perfeito!
E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,
quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café
Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é
precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão
alguma, a do bissulfato de potassa.
Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa
alteza vae concluir na sua proxima viagem.
Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
d'essa educação no seguinte quadro:
_«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,
hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.
Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
para o estudo superior da philosophia do direito.
Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
systematica da philosophia.
Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da
philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto
antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da
administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.
Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas
e analyse de seu systema eleitoral.
Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo
sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte
Lagueronière.
Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
até a actualidade.
Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de
Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.
Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;
tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
commercio d'este mesmo anno.
Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua
alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._
Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.
Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do
direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
(1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,
como meios economicos.
Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de
fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
applicação á organisação de Portugal.
Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.
Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem
podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.
Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»
É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o
comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem
detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em
frente de um testemunho authentico, de um documento historico.
Analysemol-o.
Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu
cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda
a intelligencia.
Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está
redigida esta exposição.
Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza
rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou
pelo estudo aprofundado ... Depois começou os estudos de philosophia ...
Começou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o
estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que
vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.
Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás
escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que
o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade
d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por
objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do
universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa
investigação ás seis ordens seguintes:
1.--Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,
ou phenomenos _mathematicos_.
2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas
distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.
3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
acustica, ou phenomenos _physicos_.
4.--Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos
_chimicos_.
5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.
6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
_sociaes_.
Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de
dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos
da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª
sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.
Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções
mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.
Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina
scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.
As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
fundamentaes.
Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo
e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da
astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da
chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a
_observação critica_ e a _filiação historica_.
A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas
grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e
tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais
segura das chaves para a coordenação das ideias.
Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:
«Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma
verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a
contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não
sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr
senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a
funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar
primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente
accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na
especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é
tambem no conjuncto.»
Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na
ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A
genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da
genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos
conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis
biographicas e á vida historica da especie.
Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de
ministrar-lhe.
_Sua alteza_--diz a informação que analysamos--_começou pelo estudo
aprofundado da philosophia_.
Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance
pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.
Principiar pela philosophia!!
Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
dogmatismo dos mestres.
O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo
espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos
phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino
do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?
Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
abstracção psychologica de fim e de origem?
O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino
é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
applicação.
Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o
conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
factos particulares?
Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão
extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos
numeros?...
É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de
Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke
ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o
scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É
o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o
idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de
Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de
Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o
evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?
A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á
redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
esta cruel duvida.
Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
é a _philosophia racional e moral_.
Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
_objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo
que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
mas que não é d'essas que se trata.
Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a
philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É
triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa
que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
_desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de
virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.
O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta
que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo
superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em
seguida o estudo do direito natural_.
Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até
os nossos dias.
Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias
pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
funerario_ e do _Livro dos mortos_.
Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço
da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.
Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas
indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da
Syria.
Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo
quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a
respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.
Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,
Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os
_Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,
comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um
anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.
Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas
investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros
sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos
conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.
O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a
reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.
Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.
Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em
Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma
manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se
conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente
porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque
seja um ideal innato á natureza do homem.
O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os
philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam
recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos
processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a
natureza é immoral e é iniqua.
A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o
estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma
eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?
Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e
expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A
theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»
Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
equitativa distribuição dos bens.
O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma
reacção contra essa lei.
A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a
protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela
vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.
Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em
conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao
paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom
divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.
Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de
cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.
Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o
direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
_nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.
Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de
ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos
idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.
Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um
facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,
no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só
palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.
Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a
qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de
redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,
a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o
milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é
o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um
menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino
emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á
tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que
ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
internacionaes,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho
que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
kilo da carne ou o litro do azeite!
Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção
intellectual do homem.
É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de
vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas
publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não
vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
companheiros.
É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da
mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a
primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade
humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais
perfeita do individuo á communidade.
E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as
curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a
que pertencemos.
Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado
atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão
prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a
responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem
agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as
«companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do
caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
filhos.
O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas
ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
lhe respondera:--não. «Senti-me então desfallecer,--diz elle;--todas as
fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr
apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,
revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe
communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração
palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o
reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,
cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
amantes celebres.
A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se
ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o
não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se
fazer um homem.
Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr
Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,
abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina
haurida nos compendios do snr José Garnier.
Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões
feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia
que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver
opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que
teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se
adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel
conhecer e tratar.
É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca
da educação dos seus filhos.
Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos
burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.
O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de
Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma
universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,
filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram
em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais
estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,
irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,
beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e
cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em
Heisterbach.
O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,
fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.
O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é
alumno das universidades de Iena e de Leipzig.
O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de
Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.
O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é
egualmente formado em Bonn.
O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da
conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um
curso de economia politica.
O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em
Paris, no lyceu Louis-le-Grand.
Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de
Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe
imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros
são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa
alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em
tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão
cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação
dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na
convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á
desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em
capacidade, entre os homens eguaes em condição.
Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na
Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta
republica helvetica.
O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe
Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas
publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e
de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu
valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam
finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e
constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.
Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,
conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o
seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus
affectos desempregados.
Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa
alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:
_Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir
dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos
seus filhos._
Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante
intervenção!
É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do
encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem
devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.
A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos
quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos
que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos
quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.
As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções
physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que
nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como
nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.
Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades
intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o
d'ella.
Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de
que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues
e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de
couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta
verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua
meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do
amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas
cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.
Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja
convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas
faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.
A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a
honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique
para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós
arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o
fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.
O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade
scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,
cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada
das suas azas desdobradas e pendentes.
E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do
coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente
doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das
amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração
no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,
escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou
sobre a nossa infancia a perola da candura.
Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou
já a fructificar.
Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias
ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um
amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.
Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em
periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a
vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu
peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos
beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,
feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo
Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e
confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da
Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial
mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os
anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.
Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida
que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está
destinada.
A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão
acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre
mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que
praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que
delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa
alguma.
É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos
tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com
tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da
responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.
E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a
universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma
mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no
conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa
alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas
tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza
em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.
Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,
conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos
seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que
cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua
immobilidade mental ás gerações mortas.
Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe
venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,
antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a
mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para
que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe
servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa
alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome
do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da
Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar
simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a
Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.
Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,
e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a
excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos
Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como
quem vae preso para o calabouço.
Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder
executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que
assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações
de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas
lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza
saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,
e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza
tem por missão deslindal-os.
Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações
internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa
alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é
substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza
corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom
conselheiro.
Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é
segundo tenente da armada.
É summamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira
das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in
absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,
dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e
litterarias.
Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito
doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com
vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial
da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.
Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario
natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da
faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e
progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é
alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia
muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado
em direito.
Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das
quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de
devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente
eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos
seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e
logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar
significados.
Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o
seu proprio capellão ... Vossa alteza é extremamente bom e amavel em
sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito
sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não
é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.
Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o
obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar
livre dentro de uma estufa pôdre.
Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen
no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.
Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os
reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,
mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente
á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço
constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a
luz.
Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos
principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da
educação de vossa alteza se resume n'isto:
Que o libertem!
Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é
preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos
bastardos--sem pae e sem padrinho.
Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos
homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos
camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.
Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:
o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do
throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia
do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada
uncção como a da santa chrisma.
Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes
e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou
chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a
educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se
atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua
unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de
um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por
aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou
por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir
a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como
official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também
não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã
e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no
governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na
lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade
individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como
o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de
Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de
Washington, como o de Lincoln.
Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua
vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção
inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação
nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na
Suecia.
A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa
resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da
obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como
um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr
Aguiar, dentro da jaula da disciplina.
E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição
isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e
fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de
todas as outras lições funestas que lhe teem dado.
É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma
vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,
para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para
cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia é o systema da
negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,
perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser
um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que
se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,
porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.
Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre
um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para
ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de
um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.
Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza
o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,
inrelligente e honrado.
Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões
officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a
fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente
aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua unica
e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.
Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.
A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente
intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a
humanidade.
Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a
educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens
de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo
elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos
paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó
do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha
sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que
affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a
educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos
Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais
veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,
a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no
escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento
singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito
encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos
parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e
de confiança illimitada.
Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,
quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle
mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos
estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão
viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do
violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e
extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,
docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia
que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,
espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.
Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por
meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua
mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para
Paris com o seu preceptor.
Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem
verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O
menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus,
parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de
um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e
pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando
o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em
dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se
repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final
uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um
perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o
cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde
o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do
cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.
Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario
para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma
mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias
positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de
proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no
conhecimento do occorrido.
O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne
n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE
d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître
d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por
um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal,
deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á
traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou
unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e
implacavel bigode.
Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não
enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou,
fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas
indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora
marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido
miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu
filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem
perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer
parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.
E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e
acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um
theatro que os escripturou como violinos.
Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica
que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu
braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura
se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam
juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos
boulevards.
Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A
nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum
instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que
exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte,
e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o
arnez theologico do seu amavel aio.
E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem,
para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa
no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos
_gentlemen_.
Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real
senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são
insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.
Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.
Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão!
Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples
d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter
uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de
si o mundo inteiro que dar para esses legumes.
Tudo mais é simples detalhe.
Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho
de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á
linha, um cavallo pronto e ligeiro.
Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e
_Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps,
o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante,
immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas,
redondas, avidas, nervosas e palpitantes.
Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando
ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés,
prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.
Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!
Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que
rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para
a banda! a etiqueta que estoire!
A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.
Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?
Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou
á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.
Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da
Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão
desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de
toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade
sacrosanta de _touriste_.
Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe
prestar defesa e homenagem.
Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a
coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o
defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o
habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de
noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á
sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus
inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia
Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.
Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem
impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto,
chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.
--Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da
força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo
civilisado.
Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe
herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que
se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não
houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu
reino.
A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon
esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a
commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer
coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais
fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente,
como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém
de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um
antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara
familia de Nassau.
Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem
violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a
demover jamais de Paris a sua mala grande.
Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam
algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as
convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no
foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho
pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:
--O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a
Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a
minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.
Acceite os meus parabens.
Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:
--Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já ...
Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu
herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz
na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser
um _viveur_ morto do que um rei vivo.
Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um
_entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o
Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de
litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que
devem constituir a sua primeira roda de companheiros.
Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no
mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista,
para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o
snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o
introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda,
tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o
levar ao mundo onde a gente se diverte.
Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em
Paris.
Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas
suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples!
Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a
gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se
instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo
em que entra lhe mostrar que não sabe.
Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da
manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com
agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo
irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de
Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em
seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de
França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de
Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao
Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a
volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five
o'clock_.
A' noite--como se não é principe impunemente--as conveniencias exigem a
toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e
a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer
que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os
prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.
Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de
conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena
theatro.
Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que
seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de
Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o
snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a
explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios
antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!
De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber
cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro
branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a
um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida
provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.
Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro
tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a
chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a
decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a
ninguem.
Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio
social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do
dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a
cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.
De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado,
casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás
burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o
abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a
perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.
Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente
algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição
social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam
por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de
ficar ao pé d'ellas para toda a vida!
Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces
horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se
d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr
pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa
alteza.
Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres,
aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento
excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres
da categoria a que nos estamos referindo ...
(O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha
incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar
ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a
_timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)
A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se
essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a
alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de
coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam
jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos
hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de
Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe,
os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.
Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est
des nôtres!_
Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa
alteza elle dissesse outro tanto.
Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza,
vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...
Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!
Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou
obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a
importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam,
das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus
similhantes.
É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao
ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno
de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando
tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico
ou mais bello.
Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra,
impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a
aspiração immortal do espirito do homem.
É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.
É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados
pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela
profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo
sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma
ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão
da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset,
Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura
do vulgo, e ser um homem.
Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!
Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para
outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção
technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.
Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um
homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem,
fica sempre um subalterno.
No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as
sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis
mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens
mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os
moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza
unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas
trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente
instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere
como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!
Portanto, e em conclusão:
Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na
sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á
natureza um sadio e valente animal.
A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é
indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes
deve:--desgostos!
Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão
dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr
Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.
N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de
vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós
abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom
senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma
subscripção nacional.
Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas
que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.
Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza
põe em nosso lábio o sello da reserva.
Faremos fervorosos a subscripção.
O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e
tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que
Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro
dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as
revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós
somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos
descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe
perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.
_Ramalho Ortigão_.
JIM - Assistente
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As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE N.º 2
NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
SUMMARIO
Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.
* * * * *
«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
Está approvado.»
Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
* * * * *
Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
venia e diz:
«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»
E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
* * * * *
Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
oratoria sacra.
Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
para este effeito invisivel.
Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
com as marionettes.
N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
accordo.»
Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
para approvar.
* * * * *
Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
herva crescer.
* * * * *
Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
perigos, apertando-se de mais com o fiado.
Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
nossas intimidades com o Divino.
É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
divino.
Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
no espaço,
Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
apoplexia.
Acontecem d'estas ás vezes!
Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
terrestre.
* * * * *
O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
d'hostias quotidianas.
Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.
* * * * *
Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.
Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
* * * * *
O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
cherubins no gallinheiro celeste.
* * * * *
O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
parte do snr. França Neto.
Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
simples ciprestal sentado,--com defluxo.
Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.
* * * * *
Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
morto, e nunca mais resuscitará.»
Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
religião.
Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
decretos ou por castigos humanos.
«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
deem em toda a parte onde fordes escravos.»
Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
* * * * *
Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
historia das ideias clericaes.
O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
liberdade.
Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
_liberdade da sciencia_.
Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
civilisação.
Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
gremio da egreja.
N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
liberaes, julgaram impossivel transpôr.
* * * * *
Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
* * * * *
A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
todas as sessões.
Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
as adhesões da mulher?
Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
d'aldeia e o padre de sala.
* * * * *
Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
aventureiros e os mysticos.
Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
pretos do que elles são.
Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
inhospitas e selvagens.
Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
o outro:
--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
* * * * *
O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
estonteadores.
As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
no arraial.
Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.
Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
* * * * *
O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
boleeiro, o creado de farda e a preta.
As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
dos seminarios.
É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
_chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
chão!
E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_
--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»
Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
Alguém á noite pergunta:
--Que é feito do padre João?
E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
responde lentamente:
-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
meio de uma ligeira admoestação corporea.
--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!
--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
pelo lado _cunhos_.
* * * * *
De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.
O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
pecaminosa.
Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
foram manufacturados.
* * * * *
Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.
Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!
Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
de Castello Melhor. Que contraste!
Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.
A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.
A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
e a pratica da devoção.
O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
vae para padre, isto é, por simples estupidez.
Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.
As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
* * * * *
Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
debalde, transformal-as em obras.
Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
infestam, sevandijam e conspurcam.
Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
vigentes.
O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
de pistola.
Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
dos seus compatriotas.
Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
consternação em que todos se achavam_.
E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
profunda de tão excelso quão sensivel principe.
* * * * *
Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
têem os povos egualmente?
Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
como os reis choram pelos seus bons subditos?
Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
a queda de um honrado cidadão que morre?
Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
perfeitamente a mesma coisa!
Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
das proezas do tiro ao alvo.
* * * * *
Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
* * * * *
A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
banca e o dos parceiros.
O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
_algum dinheiro e mobilia._
Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
e desapercebidos.
No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
as jogatinas.
Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
discutir com ellas sobre esta questão.
* * * * *
O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
Senhora da Luz.
No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
circulos concentricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
apostas.
Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
que scintillava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
que tinha mais proximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
cartas que em seguida sahia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
trez de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
--Mata o rei?
Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
--Mato-o, sim senhor!
Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
cartas 3$000 que tinha posto.
O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
que comprimia nos dedos.
A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
parada egual á minha.
Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
bem caracteristicamente mediocre.
Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
recebida n'esse mesmo dia.
Fiquei na batota até pela manhã.
Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
pautava luminosamente d'azul.
Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
raivosamente pelos pontos.
O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
o collarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
d'ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
sovaco.
--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
estrangulada.
E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
os olhos torvos!
--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
janella.
E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
modo que me está a appetecer isso, a mim!
E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
sempre velados pelo mysterio.
* * * * *
Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
batota!
Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
solto.
E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
assalta e sequéstra as batotas!
Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
chalaça!
* * * * *
Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
_Frei Bandalho_.
Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
vulgarisação da litteratura jornalistica.
Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
_Bisborria_ e o _Pulha_.
A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
* * * * *
S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.
Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
Inclinemo-nos com reverencia!
Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
Tornemos a inclinar-nos!
E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
meiados do decimo setimo seculo.....
Prostremo-nos por terra!
* * * * *
D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
conde de Sabugosa.»
É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
pena de experimentar....
De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
os gostos d'horta ou de capoeira.
O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
* * * * *
Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
de escamas de corvina.
Tambem folgamos muito com isto.
Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
artes do desenho.
Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
suas boas mestras!
Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
Leopoldo!
Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
* * * * *
Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
aprehendidos.
O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
propriamente--uma _vacca_.
* * * * *
Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
gracejo_.
O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
chamado a resolver questões d'olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
que entre esses dois amantes se passou!
O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
ironica:
--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
Oh! amor!... amor!
Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
juizo.
Diz o jurado:
_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
ôlho á queixosa?_
Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
XVII pelas damas illustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
obrigação d'este é por-se de rôjos.
* * * * *
Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
Bragança Junior.
Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
da patria.»
Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
a descobrir que ella era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
* * * * *
Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
moveis artisticos.
Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
desafogo de alguns commentarios.
* * * * *
A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
João v.
Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
ferros-velhos.
* * * * *
É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
* * * * *
Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
quanto talvez ephemera.
Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
bem dissolvente!
Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
* * * * *
Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
foi victima o mais bello gato de sua magestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
* * * * *
Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
reconhecel-o e a lamental-o.
* * * * *
Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
archeologicas.
* * * * *
«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
nação portuguesa!»
* * * * *
Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
pé outra vez.
Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
primeiro repente gostamos d'elle.
Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!
Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
ninguem.
Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
peiores de todos!
Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
e o arcebispo de Bragança.
O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
que é fazenda.
Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
gallinha!
Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
exercito das trevas_.
Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
melros. Rua, que é a sala dos cães!
Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
escusa-se de bispos.
Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?
E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--
Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
_Nação?..._
Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
que ha pouco demos á nossa cosinheira:
--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
* * * * *
Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
propicio para cardinalisar Masella.
Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
Oh! não.
Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
distribuição dos barretes phrygios.
O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
tostões e meio.
De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
dizer em tal conjuntura:
--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
* * * * *
Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
Eis o caso:
* * * * *
Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
pessimos alguns dos bispos propostos.
--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
precisamente opposta á que eu tenho!?...
--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex.ª me consultava....
-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
liberrimo governo da nação portugueza.
--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
e snr, agora, o vereis!
_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
* * * * *
Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
folha:
_O nuncio desacatou sua excellencia_.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
periodicos ministeriaes.
_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
um calor_.
* * * * *
Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
occasião d'este jubiloso successo.
* * * * *
E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?
* * * * *
Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
pensadores?...
Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
Vejamos, sinceramente:
Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
confessar mulheres?...
Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
a fallar n'isso.
Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
bispos.
Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!
* * * * *
A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
republicano de opposição ao governo.
Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
Parabens a sua excellencia!
* * * * *
Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
Carnaxide.
Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
gorgeios.
Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
magestoso acima do narravel.
Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
vida em direcção á faia virente.
Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
ao lado.
Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
as nuvens, exclamou:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
negocios do reino.
Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!
E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
exprimir-se em prosa:
--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
penna e de governação.
Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:
--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
quebrada da serra?
E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
Nossa Senhora Apparecida,
--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
templo!...
Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
publica:
D. Miguel foi á Sé,
Sentou-se n'uma cadeira,
E disso para os malhados:
Esta perna está inteira!
Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
submissos em giolhos.
E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
repetir aos montes e ás hervinhas:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
de nunca ter visto Lisboa.
Gloria pois a s.ex.ª!
* * * * *
Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
A patria explorava-o e ria-se d'elle.
Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
agraciou a regia munificencia.
Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
extrangeiro.
Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
Lisboa 15 de dezembro de 1882.
_Ramalho Ortigão._
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE N.º 1
JUNHO A JULHO 1882
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A
arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de
Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e
do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da
agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as
actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A
estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do
cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
para o outro.
* * * * *
Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro
milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.
Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é
exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.
Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
a ideia.
* * * * *
Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
constitue a nacionalidade de um povo.
Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...
Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.
As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.
* * * * *
Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
categorias diversas.
Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
esse fim.
Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
terra.
Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.
Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.
Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
Baixa.
Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
desprestigiada e choca.
Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
dissidencias acrimoniosas de detalhe.
Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.
Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.
A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
que seja, deram o nome de _eterna essência._
Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
_absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
d'ella.
Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
muitas vezes a alliança da familia.
* * * * *
Passemos á politica.
N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.
Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.
Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.
Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
para ahi é que elles não vão.
Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.
São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer
que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
estéril.
Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
de cabellos tingidos.
Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.
É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
separação dos interesses operou a separação das energias.
É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
effeito de si proprio.
Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
affirmação em evidencia de facto.
Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
chama--_a questão da fazenda_.
Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás
desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não
tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.
Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.
Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
tem os outros dois!
A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus
privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.
Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.
Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha
birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das
contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.
Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
passou no estado de consolidação para o saco de traz.
A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
de saco, ella cresce.
Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
pague.
No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos
encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da
fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
ligado aos progressos da industria.
Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra
vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga
dos governados para o despreso convicto dos que governam.
* * * * *
Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
á protuberancia de cada calo.
Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e
da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.
Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.
A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
o interesse.
Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.
O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
transacções entre o homem e o infinito?
Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
determinadas pela constituição do meio.
Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
correlativamente as sympathias dos individuos.
Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
orelhas, o rei disse-lhes:
--Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.
Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o
_stylo furriel dos batalhões da carta_.
Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
do publico?
Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
insubmissos e o grupo dos domesticados.
Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.
Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
_cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.
Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
paginas de poema, de romance ou d'historia.
A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
barrigas, todas postiças.
Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
_nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.
Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
da Baixa.
Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
tremem-lhes as pernas, e acocoram.
Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.
Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.
Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
cynico.
Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que
elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do
Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
incivis do gado vacum.
O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.
Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
_bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.
Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
profundas as nossas dissidencias estheticas.
Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
_questão dos pintores_, a _questão dos musicos._
Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez
ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!
* * * * *
De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na
arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
cohesão da ideia portugueza.
N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
como gotas d'oleo n'um papel passento.
No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
do repositório.
De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.
* * * * *
Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a
prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem
receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da
patria não movido de premio vil_.
Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
eslas linhas.
Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
ainda que immodestamente, o registam.
Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção
d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.
Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
desprezo dos seus similhantes.
As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
carcere.
Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.
Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza
de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
verdades em evidencia.
Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
preciso uma broca.
As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
uma vez participantes no movimento do seu tempo.
Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
durante trez dias com trez noites.
--É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos
chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
nossos reis e nas estalagens.
A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
pela gargalhada as mandibulas do publico.
Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.
Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
cohesão social do espirito portuguez.
Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
poesia eterna.
A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de
energia e de revivescencia patriotica.
Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.
Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
cobarde.
Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
pbrase:
_A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara
aguarda as determinações do governo.»
A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.
* * * * *
Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
parecia poder-se deduzir:
_Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle
proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
do muito que já brilhava pela inanidade.
_Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.
_Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
assim como a ordem social e a ordem economica.
* * * * *
Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:
_Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando
d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.
_Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.
_Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e
fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
_self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.
* * * * *
Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
d'essas soluções?
* * * * *
Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
um _troca-tintas,_ apenas.
N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
ventos do seculo.
Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á
gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.
Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
pudicicia de vestal velha.
Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
geraes.
Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.
Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
Melpomone.
* * * * *
Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.
Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
dentro.--Truz truz truz!
--Quem é?
--Está em casa o governo?
--Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.
Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
explique as coisas!
Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
Serpa.
* * * * *
Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
congresso das associações confederadas.
Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
symptoma culminante e preciossimo.
Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
canonisado pelo enthusiasmo popular.
* * * * *
O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a
mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.
Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na
sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.
Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
maquina politica.
Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.
Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
em que principiaria a ser necessaria.»
Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
sociedades.
Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:
«Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
_legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são
simplesmente os servos d'aquelles homens.»
Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
Spencer.
Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
simples trabalhadores.
O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?
Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
Napoleão.
O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
produzir trabalho.
Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
modesto professor como Adão Smith.
Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
da fauna do mundo moderno.
Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
da _Declaração dos direitos do homem_?
Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
de trabalho.
A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.
Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.
Na Europa já não ha d'isso.
Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
governantes.
A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
precederam.
A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
Bernouilli, etc.
Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.
* * * * *
Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.
Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente
passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
Campomanes e Florida Blanca.
D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
carece de originalidade.
Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
no governo das monarchias modernas.
As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.
O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._
Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.
Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
o penetraram inteiramente.
A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
alcovas.
Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
ministro na côrte de Lisboa.
Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
no seu paiz.
Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
ministrado.
O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
cada um por meio dos effeitos mais expressivos.
Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
_tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
transfere para os membros das academias e das universidades a censura
até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.
Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
não paga um _sou_.
Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»
A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
bens, nem crenças, nem opiniões.
O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
privilegiada.
Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
produzem e aquelles que consommem.
Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de
Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
liberdade.
O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
cidade.
O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
reclame.
Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»
Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o
publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
como se faz aos pudins.
Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
mundo civilisado.
A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
toda a área da ordem social.
De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
temperamento e a paixão.
Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,--o arroz, o vinho, a
manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
a philosophia, a historia, a moral e a canella.
A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
pensar, de cebo para resistir.
Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
do principe e escarmento dos subditos.
Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
traição.
O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.
Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
de pé descalço.
Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!
Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
um laço de fita.
E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
participado na aggressão ao principe.
Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
destruir.
É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.
Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
espavoridos e cegos.
Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.
A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.
Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.
Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.
A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
resultado de um equivoco.
Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.
Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
mesmos principios.
Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
retardar a queda_.
A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
fabrico.
A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.
Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
cabeça.
Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
secularisado todo o seu programma de poder.
Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
_Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.
Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.
A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
formas de jesuitismo applicado ao ensino.
A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
seus alumnos nos domingos e festas de guarda.
Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
cepa torta da intelligencia.
Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.
O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
cada anno lectivo.
Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
maior será a confusão do seu cerebro.
A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
dogmatico ou metaphysico.
A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.
Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.
Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.
O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
quadrado,--com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.
N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.
Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
trambolho de chumbo que os afunde.
As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.
O historiador snr Henri Marlin pergunta:
«O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
da verdade.»
O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.
A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.
Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
Carvalho--feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
cacete e uma espessura de baluarte--fez de Portugal á força de leis e de
sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.
Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.
O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
casca.
Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
batina e a ovos molles.
O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
escorraçava-o e perseguia-o,--que é sempre assim que os reis pagam aos
plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»
O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme--a obediencia
geral.
Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.
Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
este personagem sem ideias nenhumas.
Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece
demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos
contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
que nos governou o marquez de Pombal.
Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
pacto constitucional.
Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._
A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
_creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
_liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).
Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
governos como o de Pombal lhe opposeram.
Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»
A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
moral da humanidade.
Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
a salvação do povo_.
A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
ingenita.
* * * * *
Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
que é necessario que a gente se colloque.
Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.
Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
charlatanismo dos seus tyrannos.
O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
ainda de talento que de pudor.
Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
uma charrua.
Lisboa 10 de junho de 1882.
JIM - Assistente
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As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
covardia, instituição publica, etc.
Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
pertencendo a duas classes distinctas:
1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;
2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
Estados.
Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
collectivo.
* * * * *
A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
feridos pela perpetração do delicto.
É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
vingança.
Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
crimes, são verdadeiros erros!»
Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
sancções penaes.
* * * * *
Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
attentados e despedindo os reos em paz!
No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
oito annos de degredo para a costa ds Africa!
O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
* * * * *
Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
iniquiedade monstruosa.
O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
do serviço militar.
O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
as sociedades teem em que deixe de haver militares.
* * * * *
O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
militarismo e da guerra.
Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
mortos.
Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
instrumentos da perpetuidade da raça.
* * * * *
Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.
* * * * *
Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
gymnastica tinha um caracter immoral.
S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
que medeia entre o tapete e o lustre.
Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
* * * * *
Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.
* * * * *
O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
procere um tão ligitimo horror.
* * * * *
A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
de cura de alienados pela transfusão hypodermica.
Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
central, é a gymnastica.
O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»
* * * * *
Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
exercicio.
* * * * *
Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
doutor Burq.
* * * * *
A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
exercicios gymnasticos.
* * * * *
A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.
* * * * *
Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.
* * * * *
Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
obesidade e contra a idiotismo.
* * * * *
Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
duas casas do parlamento.
Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
n'aquellas em que a gymnastica não existe.
Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.
O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
seguintes movimentos:
Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
meditar sobre a felicidade da patria.
No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
seguintes:
Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
* * * * *
Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
Velar-lhe a face!
* * * * *
A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
cego já vê, a paralytica já anda_.
* * * * *
Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
resultados obtidos pela romagem.
Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
locomotores com agua das latas?!
E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
largo de S. Roque?
E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
_andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
maior do que as que levou!
Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
que visse tambem por outros membros.
Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
vemos que a paralytica nos sae pedrez!»
Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
ordem, porque os ha muitos maiores.
* * * * *
Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.
O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
exemplos.
Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
estado do satisfação ineffavel.
O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)
Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
20.)
Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
escapularios!
As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
por um oculo!
O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
dito padre Guglielmi.
De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!
Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!
Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...
Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
jornal! Cruzes, demonio!
* * * * *
Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
todos?
* * * * *
Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
esta--o _fadista_.
Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
adormecidos.
Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
vadiice, e tomou então o nome de--fadista.
O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
miseravel.
De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
todos os machos.
* * * * *
É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
incorrigiveis da criminalidade.
A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
expediente seria a morte.
É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
repetidos?
A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
É.
N'este caso pergunta-se:
Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
* * * * *
O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
photographia no commisariado geral.
Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
aos fadistas.
* * * * *
Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
lombares das musas.
Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!
* * * * *
Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.
O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
annos.
Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.
* * * * *
Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
presente.
* * * * *
_O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
o que pertence aos dominios da pathologia social.
* * * * *
Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
burguezes.
O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
ver porquê.
Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
representação da vida exterior e o systema da vida intima.
Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
religião--a familia!
Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.
Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
não ha creanças.»
Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
fresco.
Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
phenomenos.
Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
_coupés_ magnificos da piedade escolhida.
Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
desdem.
Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
sociedades corruptas:--o socego.
Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
aguadeiro, ralhando com o marido.
Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
meio dos cortinados.
Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
ou do luxo que não usa.
Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
tornar encantadora a familia.
Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
perfeita educação.
Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
simplicidade tragica.
O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
saberá negar.
* * * * *
Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
Bazilio_, romance realista.
Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
phylanthropos.
A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
verba_.
Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
se tirou a designação _realismo_.
Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
simplesmente lyrica.
O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
cartas.
A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.
Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
critica dos costumes, na propria critica da arte.
Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
burgueza.
De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
divina revelação de um novo mundo.
* * * * *
O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
* * * * *
O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?
Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
dizeres?
Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
* * * * *
Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
especial:
1.º Rir atraz da procissão dos Passos.
2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
viajante.
3.º Não ter dado pateada a um lente.
4.º Parecer constrangido a dar lição.
5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
* * * * *
Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.
Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
legislador mediocre.
* * * * *
Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
absolvidos pelos tribunaes civis.
N'esta conjunctura perguntamos:
É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
contrarias?
Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?
Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.
Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.
Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
que ainda possa haver na mocidade portugueza.
Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.
* * * * *
Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
* * * * *
No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
seguintes:
«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
desconheceriamos o dever.
«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
_Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
ethica da regeição dos dogmas.
«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
insufficiente para nivelar.
«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
em si um caracter offensivo.
«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
emprego dos seus ultimos momentos.»
Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
é christão, o outro não.
O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
delicada flor da cavalleria.
O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»
* * * * *
Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
fundamental da conciliação das consciencias!
* * * * *
Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
escravisados pelos poderes clericaes.
Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
crescem. Crescem em virtude de que lei?
Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
operario acrescenta:
«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
gerações.
«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
legislação humana e a moral universal.»
* * * * *
Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
perigosas e banidas das discussões publicas.
Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
morto.
Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
publicos.
Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
d'ella:--por falta de inspecção e de policia.
Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
armam.
Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!
Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
_Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
religiosa.»_
A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.
D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
feitos na rua dos Correeiros.
Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
secretaria.
No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
litteratura de uma nação.
A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
discutindo:
_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
Maior para lh'o provar.
Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
responda pelo erro.
Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
em uma instituição do Estado.
Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
apagou-lhe a lanterna.
Quem foi que deixou no mundo esta lição?
Foi o theologo.
Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
de Rio Maior.
* * * * *
Notemos porém um facto consolador:
O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
cerebro é uma idéa que se extingue.
Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
do professor e o processo pelos tribunaes civis.
Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
methodos porque se mortificam os impetos da carne.
Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
cartilha de Padre Mestre Ignacio.
E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
ensino publico de uma nação!
* * * * *
Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
_Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_
O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
_Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos
sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.
No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
grande alma do povo.
Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
Ville a Republica de 48.
Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
isolamento austero da independencia o do sacrificio.
Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
e do Bernardo Palissy.
A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
liberdade de pensamento!
O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
força do trabalho; Littré, a força da philosophia.
D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
tem partido.
Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
similhantes!
Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
consciencia e pela verdade!
* * * * *
Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
symbolo ultrajante para a dignidade humana.
A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
artista.
Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
puerilmente que se deve ser
_Fier d'être français
Quand on regarde la colonne!_
Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
Grande!!_
Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
da geração actual o sol de Austerlitz.
Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.
* * * * *
Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
Feliz homem!
* * * * *
A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
pensadores.
Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
novo elemento social--o povo.
José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
decide da sorte dos imperios.
Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
procedera da roda dos expostos.
Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
inimigos.»
* * * * *
Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
natureza essencialmente desgraçada.
Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
da lingua.
Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
aggravada por uma falsa educação.
Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
da sua inquieta o attribulada existencia.
A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás
mulheres nervosas.
Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
physicas.
Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
imperfeitamente orientado.
Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
sitio amado, uma velha canção querida.
Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.
Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
Inutilmente. Elle estava morto.
Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
maledicencia.
* * * * *
Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_
o folhetim seguinte:
_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de
ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das
mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
caldo_.
Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
responsabilidade.
Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
substancia.
Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.
Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles
teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.
Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.
O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.
Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
convicção.
Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
energicos e audaciosos.
Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o
chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.
Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.
Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
da esposa.
Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.
Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos
ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
civilizadas da Europa.
Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
circos o trabalho de fazer rir o publico.
Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
esse importantissimo.
Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
seus.
Sua
_Irmã de Caridade_
* * * * *
Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
Revêde-vos na vossa obra.
Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
mesmo pelo que lhe ensinastes.
* * * * *
Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.
O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?
As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em
artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é
claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
portuguezas:
«Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»
Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente
formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
seu voto n'esse caso poderia ter discussão.
A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
nos adversarios senão admiração e respeito.
É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.
Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.
Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!
Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
licores para os botequins?
As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
lá buscar.
* * * * *
Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_
Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
_abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)
O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
algemas!
Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.
* * * * *
O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
que não tomei ease chá.
Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal,
que eu ingeria em grandes dozes.
A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
tinha pia.
A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo
defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
braças de solo cobertas por esse velho tecto.
A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
saudade eterna dos seus netos.
A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
folhetins dos periodicos.
* * * * *
Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
* * * * *
Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.
Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.
Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.
Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
E a posteridade nos abençoará.
* * * * *
Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
uns aos outros:
--Não viram por ahi a hydra?
Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
imperfeito do verbo Mexer.
* * * * *
N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
salvar a situação da falta da hydra:
* * * * *
O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
enterrado.
N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
* * * * *
Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.
* * * * *
Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
ainda parece pouco.
O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
romana.
* * * * *
Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
podridões privilegiadas.
Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
cidade inteira.
E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
* * * * *
Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
pretendemos consultar s. exª:
* * * * *
Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
entretendo.
N'esta hypothese pergunta-se:
Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
o capricho de descartar-me?
Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
impios e locomotores.
A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
dos atheus.
* * * * *
Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:
Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
uma affirmação civil.
Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.
Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
era--a perna da igreja.
Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.
Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
designar a sepultura sagrada.
Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
contrario.
Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
perna.
Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
padre, morrer sem padre.
* * * * *
Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
esquina do Laranjal
Porto
Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.
Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
comparecer.
Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!
Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
venezianamente na agua.
Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
paiz estavam ahi reunidos. Para que?
Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
phenomeno! que revolução!
Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
pessoal.
Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
funccionalidade diversa.
Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
aperfeiçoamento e para a felicidade.
Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
das sociedades.
A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
instituições.
Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
debatida entre dois principes.
A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
affirmação d'esse progresso.
A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
seu novo hospede? Não lhe apparecendo!
V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.
É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.
Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.
* * * * *
Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
Eis o que ao depois occorreu:
* * * * *
A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
--Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
E deixaram-o ir.
* * * * *
Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
redea.
* * * * *
Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
officiaes!
* * * * *
Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
sr. José Dias Ferreira.
Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:
--A mim, rapazes!
E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.
* * * * *
Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
assim elle mesmo?
Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!
Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
* * * * *
O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
bolsa do alforge ministerial.
Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.
* * * * *
E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
arnica o seu galo.
* * * * *
Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.
O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª
* * * * *
Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
deputados:
* * * * *
Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
os parapeitos até ao tecto.
Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.
Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.
Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.
Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
cahidas do systema que felizmente nos rege.
No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.
--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.
Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
cabeça.
Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
constitucional.
Diz mais o orador:
--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
porque elles serão consolados».
E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
camara:--«Muito bem! muito bem!»
Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.
A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
Kant, de Hegel e de Hartman.
Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
indisciplina mental.
Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
politico do imperador Guilherme?
Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?
Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.
Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»
A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
esphacelamento cerebral.
Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
caturras?--É unicamente o que perguntamos.
* * * * *
O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
social.
A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
fazer.
A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
o principio em que se funda.
A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.
Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
Turquia está muito adeante de nós.
Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
dissolvem-se na banalidade.
As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.
Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.
Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?
* * * * *
Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
de cordas, uma photographa, etc.
Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.
A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
partidos ou não são especiaes de partido nenhum.
Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
* * * * *
Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
converte-se fatalmente em uma questão de compadres.
O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
favor da urna.
O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.
Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
compadre, vou para o partido d'elle.
O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
esse poder é unicamente--o da comadre.
A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
real; compadrice, comadrice--eis tudo.
* * * * *
Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
* * * * *
Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum
sepulchrum_!
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06)
Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
Proofreading Team.
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
NOVA SERIE TOMO IX
Maio a Junho 1877
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A burra do Estado. Porque motivo o ministerio Fontes se deitou abaixo
d'essa burra, e do mais que então passou. A queda do dente. Elogio do
dente pelo sr. Assumpção. O dente embrulhado n'um papel. O dente aos pés
do throno. O dente demittido. Pede-se um dente novo.--O drama _Leonor de
Bragança_ e a caixa do Poder Moderador. Parallelo da peça do sr. Luiz de
Campos e da do sr. Alfredo Ansúr. Os caracteres em cada uma das duas
peças, a lingoagem, o stylo, a cortezania, a intenção moral. Conclusões
do referido estudo: requisita-se para o sr. Ansúr a commenda do lagarto
ou metade da caixa conferida pelo Poder ao sr. Campos.--As corridas de
cavallos--O premio do Jockey-Club e o premio da Academia--O progresso em
Lisboa durante o ultimo semestre. A sociedade affirma o seu movimento
ascendente na civilisação por meio de dois novos estancos e de uma
ourivesaria. Philosophia de uma vitrine de joias--A peregrinação a Roma.
Os preparativos. A partida. A prescripção da _toilette_. A chegada a
Lourdes. Aspecto pittoresco e elegante do milagre: o _restaurant_, o
trem de Paris, as _parties fines_ sobre a relva, o Champagne e as
bilhinhas da agoa. Em Roma. As offerendas. O dinheiro de S. Pedro. A
applicação d'esta receita. O album dos peregrinos e o que n'elle se
contém. A nossa allocução. O primeiro e o ultimo jubileu. Pio IX e
Bonifacio VIII. A antiga fé. Os peregrinos em 1300. A fé actual e os
peregrinos d'hoje. O conflicto da sciencia e da fé. O Deus de Darwin. Os
novos poderes espirituaes. De como ninguem quer o ceu do Padre
Marnoco--A primeira communhão de sua alteza o principe--A civilisação
africana e as conferencias academicas. Uma conferencia que se não faz:
_Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores_.
* * * * *
Era em uma bella manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor
e da brisa--como diria o sr. Antonio de Serpa se as conveniencias
partidarias lhe permittissem ainda dedilhar a theorba sob o lyrico
balcão de D. Mafalda--tinha estendido sobre as campinas o seu manto de
esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz
animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no
chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da
hortaliça de que se exhalam emanações appetitosas de cuentro e de
pimpinella, no tic-tic do passo miudo e zeloso dos jumentos saloios
ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A agua das
regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos
favaes. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das
quintas, de pateo ajardinado, sahia em calidas baforadas o perfume dos
limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os
caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tepida e
balsamica cahia do ceu azul e envolvia n'um doce torpor voluptuoso e
suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou
desembarcando na gare de Santa Apolonia.
* * * * *
Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da
natureza, que o sr. Fontes Pereira de Mello deliberou deitar-se abaixo
do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos
que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que elle cavalgara
em cinco annos de choito glorioso atravez das _diversas provincias da
publica administração_.
Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus collegas do ministerio
e os seus mais intimos amigos politicos, lhes fallara d'esta arte:
Senhores! Achando-me esta manhã á janella do meu quarto, fazendo algumas
considerações philosophicas e a barba, deliberei apear-me por algum
tempo da azemola do poder.
_Vozes de amigos intimos desapontados_.--Oh! oh! Não o cremos!... Não o
podemos crer!... É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra
do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S.
ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico
deixar-nos n'este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos,
para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um
pretexto, haja uma razão!
_O sr. presidente proseguindo_: Quereis uma razão? Eu vol-a dou. Acho-me
impossibilitado de proseguir provincias da publica administração além. Á
força de meditar nos altos negocios do estado acaba de me cahir um
dente...
_Vozes_--Dê o dente para ordem do dia!
_O sr. presidente (tirando o dente da algibeira e collocando-o na
discussão)_--Ahi tendes o dente. Abri sobre elle os mais largos e
rasgados debates, e julgae-o como vos approuver. É um queixal. Nada mais
acrescento. Sobre este ponto considerações de melindre pessoal me
inhibem de continuar. Farei apenas sentir aos meus amigos politicos e
aos meus collegas do gabinete que nem a camara nem o paiz nem a corôa
poderão, segundo penso, exigir da minha fidelidade partidaria que eu
sacrifique á investigação dos negocios os dentes que o meu ardente
patriotismo me impõe a obrigação de reservar para os inimigos da patria.
Tenho dito.
(_Vozes:_--Muito bem! Muito bem!)
* * * * *
O sr. Manuel da Assumpção, havida então venia para fallar, consta que
estendera a dextra sobre o dente, e proferira com ardor e enthusiasmo as
seguintes palavras:
«Meus senhores! Este dente é a pagina mais gloriosa da nossa historia. É
effectivamente um queixal, como s. ex.ª muito bem disse na sua phrase
tersa, de uma energia e de uma concisão dignas de Tacito. Ha oito dias
que os jornaes que nos guerreiam lançaram este dente na tela da
discussão, procurando fazer acreditar ao paiz e ás nações extrangeiras,
por meio de insinuações malevolas, que elle é canino. Mandando o dente
para a meza o sr. presidente acaba de confundir de uma vez para sempre
os seus adversarios. Queixal! Longa foi a tua carreira gloriosa.
Enraizado no queixo de s. ex.ª atravessaste com elle as mais duras
provações de uma carreira brilhante. Roeste o pão negro do ostrocismo.
Atolaste-te na lampreia d'ovos das doces illusões. Mascaste a cabedella
dos terriveis desenganos. Depois de cada um d'esses estadios na senda
dos progressos materiaes e moraes, s. ex.ª, com mão decisiva,
palitava-te. Um dia porém, á meza do orçamento, no grande banquete da
civilisação, n'esse campo de batalha onde se travam os combates
incruentes do progresso e onde o talher de s. ex.ª por muitas vezes
fulgurou desembainhado ao sol das victorias, tu, depois de uma violenta
refrega, com umas amendoas torradas de exercicios lindos, com uns
biscoutos de gerencias anteriores, e com algumas outras verdades duras
de tragar, appareceste furado. No dia seguinte s. ex.ª chamava ás armas
a reserva e um dentista, e tu, ó dente, recebias como os bravos o
baptismo do chumbo. A bala inimiga....
_O sr. Presidente_--Tomo a liberdade de interromper o illustre deputado
e meu nobre amigo para lhe fazer notar que o dente não recebeu o
baptismo do chumbo sob a forma de bala, mas simplesmente sob a forma de
pingo.
_O orador_--Do mesmo modo então que um fundo de chaleira?
_O sr. Presidente_--Precisamente do mesmo modo.
_O orador_--Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da
prestar-me, e, se s. ex.ª m'o permitte prosigo, pondo de pane a piada
relativa á bala do inimigo...
Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caracter de um triumpho, pois
não cahiste arrancado por uma opposição accintosa e malevola; cahiste
porque tinhas os teus dias cheios e um pouco tambem porque estavas
podre.
Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?...
_O sr. Presidente_--Peço perdão para ainda uma vez interromper o
illustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do
dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que apparece
em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o
justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém
habilitado para satisfazer a curiosidade do illustre deputado em quanto
ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.
_O orador_--Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente
que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a
nenhum dos seus queixaes pergunta alguma para que deseje resposta. As
minhas interrogações são puramente rhetoricas. O silencio com que fui
escutado pelo dente não sómente me não escandalisa mas antes pelo
contrario me penhora como um testemunho de benevolencia a que não
ousava aspirar.
Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado
respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder
moderador, para que sua magestade haja por bem resolver como lhe
approuver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do
conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»
* * * * *
Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr.
Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos
emolientes emquanto o resto do ministerio partia para o Paço a levar ao
soberano o dente resignatario.
Constou pelos jornaes quo apenas recebera o dente sua magestade se
dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma
entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa
em procurar reintegrar, pelas suas proprias mãos, o dente caído na
maxilla do illustre estadista.
Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotára, para consolidar o dente
caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as
disposições do codigo fundamental da monarchia. Sua magestade tentára
fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre,
com pez, com gomma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.
O dente reagiu a todas as reaes instancias: o excelso politico, em cujo
queixo inferior elle se firmára durante cinco annos de gerencia
governativa não queria mais a confiança da corôa, queria unicamente
cosimento de malvas.
O monarcha lavrou então o decreto mandando o seu antigo ministerio
bochechar, e encarregou o sr. marquez de Avila e Bolama de reunir com os
seus amigos o numero de dentes necessarios para formar uma gerencia
duradoura e firme.
D'este encargo se desempenhou o sr. marquez com o zelo que o
caracterisa, e o actual ministerio nasceu.
* * * * *
Um dos nossos mais distinctos amadores, o sr. Luiz de Campos, acaba de
dotar o theatro de D. Maria com um drama, cujo exito constitue o maior
triumpho modernamente alcançado pelas letras portuguezas.
Não só os jornaes todos consagraram a esta obra louvores emittidos com
uma energia desusada, mas até a alta sociedade, de ordinario tão
parcimoniosa de curiosidade dispendida com a arte, patrocinou com
especial favor esta peça. O auctor teve a gloria de ver os seus finaes
d'acto applaudidos do fundo dos primeiros camarotes pelas mãos mais
aristocraticas. Nas situações patheticas do seu assumpto lagrimas
illustres sulcaram o pó d'arroz com que se perfumam os brazões das mais
nobres e distinctas familias. Finalmente no fim do espectaculo o Poder
Moderador, que assistira á representação em companhia da sua familia,
expediu um dos seus camareiros, o qual foi ao palco cumprimentar o
laureado dramaturgo, pedir-lhe desculpa de lhe não pingar do alto do
throno sobre o peito da casaca a commenda de S. Thiago, e entregar-lhe
em vez das insignias d'essa ordem excelsa e em nome do referido Poder um
cofre com uma pedra preciosa, que os jornaes do outro dia pela manhã
almotaçaram em 1:500$000 réis.
* * * * *
O drama do sr. Luiz de Campos intitula-se _Leonar de Bragança_ e encerra
a historia d'aquella desditosa, cuja mocidade e belleza feneceram de
subito, surprehendidas no ventre por trez facadas com que a brindou seu
esposo, o mui nobre e poderoso duque de Bragança, um dos antepassados do
Poder que hoje nos rege, e ao qual, bem como á sua familia, acima
tivemos a honra de reportar-nos submissa e respeitosamente.
O pretexto sob o qual D. Jayme damnificou com instrumento perfurante o
abdomen de sua mulher foram os amores d'esta com o pagem Antonio
Alcoforado.
Existiram effectivamente esses amores? Era a duqueza realmente culpada
de uma fraqueza anormal pelos pagens? Era Alcoforado um honesto e leal
servidor do principe D. Theodosio, ou era uma ratoeira vil de duquezas
incautas?
* * * * *
Ha duas opiniões ácerca do modo de considerar no theatro a natureza
d'este facto.
Na sua _Leonor de Bragança_, escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos
entende que a duqueza é innocente. Na sua _Leonor de Bragança_, escripta
em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.
Os fados, que tão propicios foram á obra do festejado sr. Campos,
trataram adversamente a obra não menos estimavel do malogrado sr. Ansúr.
Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em
cotejo as duas composições a que deu origem a tragica aventura de
Leonor.
* * * * *
No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho
perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em
_haver o pagem um coração_. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente
_haver_ em logar de _ter_, não só nos casos em que esse verbo é usado
como auxiliar mas ainda quando se toma na accepção de possuir. Acatamos
discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado
este cavalheiro a cortar as suas relações pessoaes com o verbo _ter_. O
simples depoimento do verbo _haver_, conjugado com tanta lealdade,
cravado no discurso com tanta firmeza como aquella que se admira em
todas as locubrações litterarias d'este auctor, basta para nos convencer
da innocencia de Leonor.
Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso d'esta peça são de
um caracter fortuito absolutamente illibado.
A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo
bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no
momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor
á direita para o segundo bastidor á esquerda. Elles veem ambos meditando
no verbo _haver_, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas
cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:
_Duqueza_--Houveste alfim volvido?
_Pagem_--Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?
_Duqueza_--Nada hei.
_Pagem_--Hão, quiçá, offendido-vos outra vez?
_Duqueza_--Não hão. Pagem, havereis de volver a casa do sr. D.
Theodosio.
_Pagem_--Visto que não heis de mim de, senhora minha, haja de se cumprir
vossa vontade! Haverei força, haverei de havel-a... Manhã, ao toque de
prima, serei partido. De nada mais heis mister?
_Duqueza_--De nada mais hei, pagem; e a Deus prasa que jámais haja de
haver! Idevos presto a D. Theodosio, consoante-vos hei di-lo pouco ha.
_Pagem_--Em mim havei fé, minha senhora ama: eu me vou.
_(Saem ambos, cada um por seu lado, meditabundos.)_
A entrevista que dá causa á vingança do duque não a tem Alcoforado com a
duqueza mas sim com uma das suas damas. Em toda a peça, finalmente, a
duqueza, nem por carta, nem de viva voz, nem de simples ôlho, tem para
Antonio uma palavra, um aceno, um gesto, em que se presinta de leve que
seja a exhalação da perfidia.
* * * * *
O sr. Ansúr é menos complacente com os seus personagens, como vamos ver.
BEATRIZ ANNES
_Grande mal, grande mal, senhor Fernão!_
FERNÃO RODRIGUES
_Que mal?_
BEATRIZ ANNES
_Homem em casa._
FERNÃO RODRIGUES
_Com a aia?_
BEATRIZ ANNES
_Não._
FERNÃO RODRIGUES
_Com quem pois?_
BEATRIZ ANNES
_Com nossa ama._
O fogoso e pittoresco sr. Ansúr vae mais longe ainda: colloca o pagem
aos pés da duqueza e põe na bocca de um e outro estas palavras:
PAGEM
_Que enthusiasmo sinto! Arfa-me o seio
Em vertigem de amor! Sinto a poesia
Na mente distillar grata ambrosia.
Ó senhora duqueza! Minha vida!
Como vos amo!_
LEONOR
_Antonio! alma querida..._
PAGEM
_Longe de vós a vida é-me desterro...
Perdoar-me-heis do coração este erro?_
LEONOR
_Sim._
PAGEM
_Sem vos escutar e sem vos ver
Não podia, senhora, mais viver!
Meu peito abrasa._
LEONOR
_Doce pensamento,
Longe de ti é egual o meu tormento._
E a duqueza prosegue exaltando-se n'uma gradação rhetorica perfeitamente
calculada pelo sr. Ansúr até o ponto de lhe dizer o Alcoforado:
_Calae-vos por piedade! Tende imperio
Sobre a imaginação._
Em outra scena da peça depois de uma entrevista secreta com o pagem, á
hora da meia noite, a duqueza profere uma palavra physiologica, de um
sentido decisivo:
_Como evitar que o duque venha, e veja
Aqui tua presença que me peja?_
PAGEM
_Meu Deus!_
LEONOR
_Jesus! esconde-te!_
Ao que o pagem, com o temerario valor que só os altos sentimentos
persuadem, replica energicamente:
_Fujamos!_
LEONOR
_Por onde oh! ceus?_
PAGEM
_Por esta porta._
LEONOR
_Vamos._
Sendo tanto a _Leonor de Bragança_ do sr. Luiz de Campos como a _Leonor
de Bragança_ do sr. Alfredo Ansúr peças offerecidas pelos seus auctores
a sua magestade el-rei o sr. D. Luiz I, é claro que ellas devem ser
consideradas pela critica não como livres producções litterarias mas
como especiaes mimos dedicados á familia de Bragança. Ora sob este ponto
de vista--não hesitamos em dizel-o--a obra do sr. Ansúr parece-nos muito
mais completa e perfeita que a do sr. Luiz de Campos.
Pomos de parte a questão da investigação historica, que foi egualmente
aprofundada pelos dois auctores. O sr. Luiz de Campos reforça-se com o
testemunho dos documentos que manuseou: _A historia genealogica, As
Decadas_ de Couto e de Barros, a _Chronica de D. Manuel_ por Damião de
Goes e o _Auto de inquirição e devassa_ existente na Torre do Tombo. O
sr. Alfredo Ansúr fortifica-se exactamente com os mesmos documentos por
elle compulsados.
Para suas excellencias, armados de eguaes argumentos pró e contra a
duqueza, a escolha do papel que tem de lhe ser dado n'este drama é pois
uma questão de gosto. O sr. Ansúr, emquanto a nós, escolheu melhor, e
fez a sua magestade el-rei uma dadiva mais delicada.
Segundo o sr. Ansúr o duque de Bragança D. Jayme é um cavalheiro infeliz
em familia, ao qual succede--como muito bem diz Menelau na Bella
Helena--uma fatalidade. O duque deteriora a região intestinal da
duqueza, mas deteriora-a em legitimo desforço da sua dignidade offendida
e ao abrigo das leis do reino.
Segundo o sr. Luiz de Campos, dada a innocencia da esposa, o duque não
passa de um sanguinario estupido, que envolve o seu brasão de familia e
a futura tradição dynastica n'um ignobil e affrontoso chouriço de sangue
innocente. O acto de mandar desossar pelo cosinheiro o pagem Alcoforado,
com o mesmo facalhão com que se picam os bifes, é um facto indecente
que, posto o criterio do sr. Luiz de Campos, estabelece um precedente
que pode levar os servidores da casa de Bragança a não distinguirem
inteiramente a differença que ha em ir para o paço e em ir para a
salgadeira.
Eliminada a circumstancia do adulterio o duque é um facinora vulgar sem
nenhum apoio na jurisprudencia ou na legislação. Depois da leitura da
peça do sr. Luiz de Campos, um jury sensato que houvesse de julgar D.
Jayme, mandal-o-hia degradado por toda a vida para a Costa de Africa.
Só assim se poria uma sociedade culta ao abrigo de um principe que faz
das esposas e dos vassalos um consumo que se não justifica pelas
necessidades ordinarias da vida exterior.
* * * * *
Parece-nos ser um serviço em extremo subalterno prestado a alguem o
publicar a historia de um dos seus antepassados á luz de uma critica
cujas derradeiras consequencias são, como no drama do sr. Campos, a
condemnação do mesmo antepassado a um genero de glorificação e de
apotheose que elle só pode remir com a prisão correcional perpetua.
Na peça do sr. Ansúr o antepassado do alto personagem a quem elle a
offerece e consagra apparece-nos satisfactoriamente levado ao crime por
uma provocação cheia de solicitude e de cortezia. «Ha homem em casa. Com
a creada? Não. Com a patrôa.» Este grito sublime de clareza e de
concisão esparge no facto um raio de luz juridica e lança um immenso
clarão de legalidade e de justiça sobre o chifarote brigantino destinado
á perfuração das damas.
Nada mais tocante do que a situação do duque ao receber o fatal
desengano:
_Horror! Infamia! Anathema! Vergonha!
.......................................
Rompe-se-me do ser toda a harmonia,
Passa-se-me na mente extranha orgia!
Estalam-me no corpo algumas fibras!
Meu pobre espirito, que assim te libras
Do desespero na mortal esphera,
Não te consumas tanto! Acalma! Espera!
.........................................
Mofina dor me roe, me despedaça!
Emquanto descuidoso andara á caça,
Tu deliravas... tu... oh! que villeza!_
E depois dirigindo-se ao pagem:
_Arrepende-te dos teus peccados
Que os fios da tua vida estão contados!_
PAGEM
_Perdão! piedade!_
DUQUE
_Soffre com valor
Que mais soffreu par nós o Redemptor!
.....................................
.........................Alfim
Com o manchil Domingos cortará
A cabeça do pagem. Morrerá._
A duqueza intervem com esta conceituosa
mas intempestiva maxima:
_Jamais decepes com manchil odioso
A cabeça de um justo. É horroroso!_
O duque não precisa que lhe ensinem a resposta...
_Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
O descendente, como pune o ultraje,
Que lhe fizeste, Leonor! Apage._
Não são estes porém os unicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á
clareza justificativa dos factos e ao esplendor immarcessivel da casa de
Bragança. A peça d'este benemerito cavalheiro abunda em conceitos e em
noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que,
presando-se de amar o rei e a patria, deixará de ler sem uma commoção
profunda as seguintes palavras que o auctor põe na bocca da mãe de D.
Manuel, por occasião do advento d'este monarcha ao regio solio?
_Omnipotente Deus! quiz o destino
Dar existencia ao throno manuelino!
Quem predissera tal, filho cadete,
Quando surgiste á luz em Alcochete?!_
Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da
casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr.
Ansúr celebra os antigos privilegios heraldicos de tão distincta
familia:
_A não ser o real, não ha poder,
Que possa hoje nos reinos exceder
O de nosso senhor! Póde D. Jayme
(Ó fóros brigantinos inspirae-me)
Nas salas dos seus paços ter doceis
E sitiaes nas egrejas dos fieis.
Forrada com arminhos, rica, larga
Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
Ante si leva estoque, segundo acho,
Com o extremo voltado para baixo,
Distinctivo dos reis, que é para cima._
Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em
cujo throno se acha uma familia que antes de reinar tinha o direito de
levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar
estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos
acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!
A unica coisa que se nos offerece reprehender na peça do sr. Ansúr, por
innumeros titulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não
tivesse accrescentado com mais um acto, no qual, para completa
rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos apparecesse
resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que
consumiu até o ultimo dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Villa
Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que
se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o
nobre duque se mettia em agua, durante uma hora por dia, para desaggravo
e remissão de suas culpas. O illustre heroe tão devéras se arrependeu
que chegou a mortificar-se d'esta maneira insolita e sem
precedentes--tomando banho!
Seria um bello melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a
completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado
pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas
carnes ultrajadas e viuvas pelo contacto expurgante de um sabão.
* * * * *
Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque
motivo não caiu do alto da regia munificencia sobre o peito inspirado do
sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do merito artistico e
litterario, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poeticas do
sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino
como o do seu collega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia n'esta creação
litteraria? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ella
escripta em bellas parelhas de versos de dez syllabas, em vez de o ser
em prosa villôa como a do seu competidor?
O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber
mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima
referido de 1:500$000 réis.
Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade annexa ao mandato
popular, porque não se lhe confere a commenda da nobre ordem ou, quando
menos, a sua equivalencia em cofre com pedra preciosa no valor de réis
1:500$000?
Grave e inexplicavel injustiça! Se a nossa debil voz póde chegar até ás
orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:
Senhor! A vossa protecção ás letras patrias não se tem até hoje
desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os
dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas teem
colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido collocado em
uma _avant-scène_, durante uma ou duas representações das suas peças, o
vosso real perfil, que outros não possuem senão collocado nas moedas de
5$000 réis, coisa miseravel e vil. Acabado o espectaculo vós enfiaes o
vosso paletot, accendeis o vosso charuto, retomaes o vosso sceptro no
bengaleiro, e ides para casa recolher as commoções da noite sob o
agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na
ponta. O genio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa
munificencia manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que
deliberastes inaugurar a éra do galardão litterario, dae a Alfredo
Ansúr a commenda que Luiz de Campos não pôde acceitar. Dae-lh'a quanto
antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do
remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, elle vos brade nos
silencios da noite:
«Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto,
Barbadão!»
Se o throno for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de
Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho
cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!
Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do
brinde que lhe lhe compete.
* * * * *
Hoje, 7 de maio, corridas de cavallos no hippodromo de Belem.
Um premio foi disputado por quatro cavallos, um foi disputado por tres,
outro por dois, e o ultimo finalmente por um cavallo só. Este cavallo
partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal
ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos
applausos geraes, passando adiante de si proprio!
Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de
el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça
cavallar:--quanto mais premios se distribuem menos cavallos ha.
Se a instituição se mantem por dois ou tres annos mais, é-nos licito
acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavallo nenhum,
e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos _sportmen_ que figuram no
programma da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por
percorrer a pista montado no seu telescopio.
* * * * *
E no entanto o campo das corridas é o mais bello sitio dos contornos de
Lisboa, o mais aprazivel ponto de passeio de carruagem, a cavallo ou a
pé nas tardes de verão, e é susceptivel de ser explorado pelo
Jockey-Club com sufficiente lucro da associação e com grande vantagem do
publico. Bastaria para utilisar e aformosear o campo circumdal-o por
fora da pista com uma rua de arvores intermeadas de bancos de jardim;
estabelecer no centro do hippodromo um jogo do _Cricket_ para os membros
de um _Cricket-Club_ addido ao _Jockey-Club_; organisar um tiro ao alvo,
um _Croquet_ para as senhoras, alguns jogos gymnasticos para o povo e
para as creanças; promover nos domingos da primavera e de verão no
recinto do campo pequenos certames agricolas e industriaes, concursos de
vaccas, de carneiros, de gallinhas, de porcos gordos, exposições de
flores, de fructas, de legumes, de queijos, de instrumentos de
agricultura e de jardinagem, etc.
Lisboa carece vergonhosamente de uma instituição d'este genero que reuna
com as condições de recreio os desenvolvimentos de actividade e de
educação. Visto que nem o governo nem a municipalidade se occupam d'essa
questão, o _Jockey-Club_ prestaria um serviço relevante procurando
resolvel-a.
* * * * *
Mas de modo algum pretendemos forçar o _Jockey-Club_ a acceitar esse
encargo. O _Jockey-Club_ fará o que entender, e nós acharemos sempre que
entendeu bem; a unica coisa que lhe rogamos é que reflicta no futuro que
o espera continuando na senda assustadora em que principia a resvalar. O
club achou ainda um meio de resolver o problema do concurso diante da
simples unidade: queremos saber o que fará quando vier a apparecer a
fracção, e a quem se dará o premio de el-rei, quando para o anno
concorrer unicamente a disputal-o--um selim!
* * * * *
Ao mesmo passo que o _Jockey-Club_, sob a protecção de suas magestades o
sr. D. Luiz e o sr. D. Fernando confere premios no valor de tres contos
de réis annuaes ás bestas velozes, a Academia Real das Sciencias, sob a
presidencia e sob a protecção dos mesmos augustos principes, confere
apenas 50$000 réis de premio aos sabios extenuados.
Um cavallo que percorre a galope uma distancia de mil e quinhentos
metros ganha réis 1:500$000. Os sabios do paiz inteiro ganharão 50$000
réis satisfazendo entre varios outros os seguintes pontos do programma
da Academia para o anno de 1877:
Em mechanica: Apresentar um trabalho sobre o movimento dos fluidos;
achar o melhor systema de obras a eslabelecer nas margens do Tejo a fim
de satisfazer simultaneamente as condições de salubridade, irrigação e
segurança das propriedades adjacentes. Em physica: estudar a capacidade
calorifica dos atomos nos corpos simples; indicar a construcção da pilha
de effeito mais constante e mais propria para ser applicada á
telegraphia; apresentar a synthese dos alcaloides organicos; estudar a
composição chimica das principaes aguas sulfureas e alcalinas de
Portugal. Nas sciencias historico-naturaes: Fazer a descripção
ampelographica das principaes castas de uvas portuguezas e determinar o
melhor processo para o fabrico dos vinhos genuinos; fazer um ensaio
monographico da fauna portugueza. Nas sciencias medicas: Determinar as
alterações da saude e as doenças devidas ás principaes industrias do
paiz e indicar os meios efficazes de as prevenir; fazer um estudo
critico do systema de esgoto e saneamento da capital, que satisfaça a
todas as condições prescriptas pela hygiene, apresentando o modo da sua
realisação; estudar a mortalidade de Lisboa, suas causas e meios de as
attenuar. Em litteratura: Fazer um romance historico, fazer um poema,
fazer um glossario das palavras e locuções hoje obsoletas ou antiquadas
que se leem nos antigos cancioneiros portuguezes acompanhando esse
vocabulario de observações linguisticas e philologicas. Nas sciencias
economicas e administrativas: Memorias ácerca da descentralisação em
Portugal e do melhor systema de circulação fiduciaria. Em historia e
archeologia: Estudo ácerca do estado da sociedade portugueza ao tempo da
morte de D. João V; determinar e caracterisar as relações artisticas de
Portugal nos seculos XV e XVI no tocante á architectura, esculptura,
pintura, musica e artes industriaes, indicando os meios officiaes e
extra-officiaes que facilitaram essas relações pondo os resultados em
parallelo com a historia da arte em geral, etc., etc., etc.
* * * * *
Se nós fossemos sabios preferiamos ao trabalho de responder a qualquer
dos alludidos quesitos pela somma de 50$000 réis, o trabalho de
percorrer á desfilada a pista do hipodromo de Belem--de graça.
* * * * *
Durante o semestre que finda este mez Lisboa não produziu nem um só
livro util, nem uma só notavel obra d'arte na pintura, na musica, na
poesia.
Não se fez nem uma prelecção nem uma conferencia litteraria ou
scientifica. A estação toda passou-se como a estação anterior, como as
estações precedentes, sem que esta sociedade em marasmo désse um unico
signal de vida intelligente.
Lisboa é hoje a unica capital da Europa em que isto succede. Não
queremos dar-lhe em parallelo Paris, Berlim, Bruxellas, Londres, S.
Petersburgo, qualquer das grandes cidades da Italia ou da Hollanda.
Apontaremos apenas Madrid, e não citaremos senão um dos seus institutos
particulares, o _Atheneu_, sociedade da natureza do _Gremio Litterario_
em Lisboa. No _Atheneu_ os cursos publicos, livres, gratuitos,
abriram-se no mez de outubro, tendo havido desde o dia da abertura
prelecções, conferencias ou debates em todas as noites. Teem-se
ventilado as mais interessantes questões da philosophia e da sciencia
social no ponto de vista de espiritos altamente cultos.
Em Lisboa o progresso social, o movimento ascendente da civilisação
manifestou-se unicamente pela apparição de tres estancos novos no
Chiado e de uma ourivesaria no largo das Duas Egrejas. Como á falta de
objecto para outros interesses mais elevados, nós occupavamos os nossos
ocios encostando-nos ás humbreiras das tabacarias a ver dispersar-se no
ar o fumo dos nossos charutos, as tabacarias comprehenderam que este
estado geral dos espiritos deveria começar a fatigar os habitantes de
Lisboa, e dotaram-os com sofás. Para o anno os estancos requintarão
ainda as condições de commodidade e havemos de ver os estanqueiros
sairem ao encontro dos desejos do publico com colchões. Chegaremos á
Casa Havaneza, despir-nos-hemos, poremos a camisa de dormir e fumaremos
os nossos _carvajales_ deitados em camas, á porta.
* * * * *
A ourivesaria do largo das Duas Egrejas teve o successo de uma
instituição. Ella é como um templo ao luxo, como um altar ao deus Ouro,
tal como o conceberiam, erigido com todo o esplendor do culto, os
Pharaós da Rua dos Capellistas. A armação interior da loja é feita em
Paris segundo os elegantes modelos das joalherias da rua de la Paix ou
do Palais Royal. Armarios da mais verosimil imitação de ebano sobre um
parquet brunido. Tecto de um azul idealisado, representando um trecho de
ceu coberto de creme.
Nas vitrines, de um só cristal immaculado, desdobram-se em degraus, como
n'um throno de lausperenne, as prateleiras de veludo cor de cereja, de
cuja suavidade macia e ardente destacam em vigoroso relevo as joias em
exposição. A um lado pendem em meada as correntes de relogio exhibidas
como o corpo de delicto de uma quadrilha de pick-pocket apanhados com o
roubo. Suspensos nas extremidades das correntes pousam em baixo os
breloques, n'um grande molho confuso, como se adornassem um collete
monstro sobre o estomago collectivo e proeminente do capital.
Nos logares mais proximos de quem olha estão os miudos objectos
preciosos, as finas pedras raras, os olhos de gato castanhos e amarellos
em pequenas elypses cujo grande eixo é indicado por uma linha que separa
nitidamente as duas côres; as perolas negras de um tom profundo, que não
é o preto, é o infinitamente escuro, como a noite; as perolas côr de
rosa sobresaindo em cercaduras de brilhantes como capsulas cabalisticas
feitas de substancias extraidas de uma cristalisação mimosa de beijos
ternos e de perfumes castos.
No segundo plano apparecem os ornamentos de mais vulto: os broches
tremelusentes e vivos como esparrinhaduras de diamantes e de rubis
chispando no ar; as flores imaginosas de petalas de aljofar ou de
saphira, orvalhadas de pulverisações de esmeralda; os medalhões em
camafeus preciosos sobre pedras de tres côres nos tres planos da
esculptura; as eflorescencias phantasticas das onix, das granadas, das
malaquites, das opalas; em raios como estrellas, em sobreposições como
pinhas, listradas, rajadas, mosquetadas, affestoadas, zebradas com todas
as scintillações do prisma.
Mais longe offerecem-se os braceletes nos seus estojos côr de lilaz. Uns
são fortes e duros como os violentos desejos, outros vaporosos e finos
como aspirações platonicas. Nas suas variadas formas teem physionomias,
revelam temperamentos. Ha-os lascivos e ardentes, colleados em quatro
roscas de um ouro fulvo, terminando n'uma cabeça de cobra esmagada por
um esbraseamento de rubi. Ha-os contemplativos e ingenuos, de uma côr
limphatica, salpicados de frias e innocentes turquezas. Tambem os ha
trasbordantes de uma vida farta e victoriosa, largos, rendilhados,
superabundantes de cores, expansivos e triumphaes como orchestras,
soprando hymnos de um enthusiasmo sanguineo, vermelho, despotico.
Em outra vitrine está a exposição das pratas: os centros de mesa
representando palmeiras, á sombra das quaes se empinam cavallos em
pello, que deverão parecer relinchar de amor no meio das sobremesas,
entre as frutas empilhadas geometricamente em pyramide sobre taças de
filigrana e os gelados transparentes impregnados de luz, tremulos, côr
de topasio; as bacias de mãos, de desenhos bysantinos _repoussés_; os
jarros de forma etrusca; os assucareiros graves e concentrados como
vasos de particulas sagradas; e os grossos bules barrigudos e polidos,
nos quaes se espelham os rostos em caricatura monstruosa, com bochechas
obscenas, narizes que incham como focinhos de vitela e bocas que riem
até as nucas.
* * * * *
Ao accender das luzes, ás oito horas e pouco depois, magotes compactos
de espectadores estacionam defronte da vitrine das joias. Demoram-se
mais as mulheres: mulheres de amanuenses e de pequenos empregados,
costureiras das modistas, que saem a essa hora das officinas quando não
ha serão.
Candieiros de gaz com fortes reflectores não só alumiam intensamente os
objectos expostos nas vitrines, mas alumiam tambem pedaços de
espectadores, em que se podem fazer exames minuciosos, de microscopio.
As mulheres magras, pallidas, que olham, teem as faces oleosas da
transpiração do trabalho de 14 horas em pequenos gabinetes abafados,
cheios de exhalações mornas de roupa suja. Na mão esquerda o dedo que
aponta para um colar de mil libras tem uma nodoa escura, esfarpada,
produzida pelas picaduras da agulha, e o dedo polegar mostra uma unha
curta atrophiada no habito de esmagar costuras. Os chapeus adornam-se
com velhas flores em terceira mão, desbotadas e tristes; e das cuias,
caidas sobre a mancha gordorosa que tem entre as espaduas a alpaca poida
dos vestidos, sae um cheiro acido de cabellos humidos e embrulhados, em
fermentação.
Dentro da loja uma bella mulher risonha que se apeou de um coupé,
embrulhada em fina renda branca, debruça-se no mostrador e aproxima da
mão do caixeiro que lhe segura um brinco a polpa aveludada da sua orelha
carnuda, sensual, de comilona feliz.
Os espelhos dos angulos da sala e os que forram as vitrines reproduzem
infinitamente para todas as direcções essa cabeça bonita envolta em
renda, e mostrada ao mesmo tempo de todos os lados, de frente, de
perfil, de tres quartos, acompanhada sempre da mão que enfia o brinco.
As macilentas Margaridas de olhos pisados vão ver em cada noite esse
espectaculo de tentação, em quanto na esquina fronteira, na Casa
Havaneza, os Doutores Faustos accendem os seus charutos, e muitos
diabinhos invisiveis volitam no ar dizendo segredos, deitando de fóra
impudentemente as linguinhas de chamma e coçando os seus piqueninos
chavelhos com freneticas contracções aduncas, como quem se sente
inteiramente cheio de phosphoro e de alacridade.
* * * * *
A peregrinação a Roma foi promovida pelos chefes do partido clerical com
um zelo fervoroso, que acabamos de ver coroado com o mais prospero
exito.
Suas excellencias annunciáram com a devida antecedencia a celebração do
jubileu pontificio; facilitaram a romagem com esclarecimentos que fariam
a gloria do _Guide Joanne_; conseguiram o estabelecimento de comboyos de
recreio, ida e volta, preços reduzidos, de Lisboa a Roma, com escala por
Nossa Senhora de Lourdes; deram os preços dos hoteis e dos restaurantes
romanos, a regimen de peixe ou de carne, para as grandes bolsas, para as
bolsas medias e para as pequenas bolsas; fixaram finalmente a
_toilette_, explicando que as senhoras deveriam apresentar-se com
vestidos de seda preta e véos de renda, e os homens de uniforme ou de
casaca preta e gravata branca.
Porque--suas excellencias o explicáram--o santissimo padre não recebe
senão senhoras de rendas e homens de casaca. Os peregrinos vestidos de
sacco e burel, as peregrinas cingidas pela estamenha e pela corda de
esparto, não sobem a escada do Vaticano. Os pés privilegiados para
pisarem os tapetes do Vigario de Christo na terra são os pés mimosos e
aristocraticos, calçados em escarpins de setim ou de polimento. Os
sapatos ferrados dos caminheiros plebeus, as sandalias espalmadas das
peccadoras que não vem de passeiar em _victoria_ ou em caleche á
Daumont, de volta do Corso ou do Pincio, mas que chegam das escabrosas
veredas da miseria; as alpagartas dos penitentes que vieram trilhando
abrolhos sangrentos no aclive da via dolorosa, são generos de calçado
expulsos pelos enxota-cães, e expulsos com os respectivos pés, porque
tambem se não entra descalço no Vaticano como se entra no templo em
Jerusalem, ou na mesquita de Santa Sophia em Constantinopla.
Facultados tão interessantes esclarecimentos muitas pessoas partiram a
receber as bençãos paternaes offerecidas pelo pontifice ás rendas e ás
casacas pretas do orbe christão.
* * * * *
Alguns episodios d'essa piedosa viagem são já do dominio da imprensa. Da
estação do caminho de ferro de Braga sairam os romeiros entre
acclamações sympathicas e vivas enthusiasticos á santa religião e ao
summo pontifice Pio IX. Em compensação na gare do Porto foram os mesmos
romeiros acolhidos aos gritos não menos enthusiasticos de «Fóra os
hypocritas! fóra os patifes!» Por este ultimo successo damos a suas
excellencias os nossos cordeaes parabens, porque suppomos que elles
viajam com um fim de humildade e mortificação, e que lhes serão
agradaveis todas as manifestações publicas tendentes a exacerbar-lhes o
pungimento expurgante das duras penitencias.
Em Lourdes, refere o telegramma de um sacerdote ao jornal _A Nação_, que
á vista da gruta toda a romagem rompera em pranto e se prostrára em
joelhos. Devemos crêr que esta prostração fosse passageira, não só
porque um telegramma subsequente nos annuncia a chegada dos peregrinos á
cidade eterna, mas ainda porque em Lourdes a belleza da paisagem, a
exuberancia da vegetação, o rumor das aguas, as perspectivas sombrias e
flexuosas da floresta, a clara alegria do restaurante, de gelosias
abertas, de _stores_ desdobrados ao sol, com a sua grande taboleta _Á
Notre Dame de Lourdes_, e os seus subtitulos em caracteres appetitosos
_Diners à la carte et déjeuners à la fourchette,--gras et maigre_, tudo
convida os espiritos ascetas a uma conciliação amavel com a carnalidade
mundana.
Além do aspecto das coisas, as exterioridades das pessoas contribuem
tambem poderosamente para arrancar os adventicios ás attitudes
prostradas e contemplativas.
Os comboyos de Paris chegam e partem cheios de alegres _touristes_ de um
e outro sexo.
São graciosas peccadoras com adoraveis _toilettes_ de viagem; chapeus de
grossa palha de fôrma aguda e aba estreita derrubada sobre os olhos,
descobrindo a nuca, em que se enrolam as tranças loiras, e a nascença do
cabello junto do pescoço, com os seus flocosinhos de pennugem crespa e
doirada penetrada de luz; os vestidos decotados no collo em linhas
quadradas como os colletes dos devotos bretões; as saias curtas deixando
ver as meias de seda listradas de azul, e os sapatos de pelle de gamo
atacados com correntes de aço, que telintam ao andar. Estas gentis
romeiras abordoam-se a cajados rusticos comprados no _boulevard_ dos
Italianos, trazem ao tiracollo os grandes rosarios de contas de madeira,
grossas como bugalhos, terminando em uma cruz egualmente de madeira que
chega á barra do vestido,--ornato local de um pittoresco picante.
São os homens de nickerbockar de flanella alvadia e capacetes de sabugo
envoltos em véos turcos, com uma flor de madresilva na _boutonière_,
fazendo gelar o champagne e preparando debaixo das arvores os seus
jantares em _partie fine_, emquanto padres solicitos vendem a agua
milagrosa, ou aos copos á bica da gruta, ou em bilhinhas de lata
devidamente lacradas e selladas authenticamente, facultando na igreja
recantos reservados e escusos para as applicações em banhos parciaes, ou
em compressas, a orgãos enfermos que as devotas desejem submeter á cura
nos proprios logares benzidos e sagrados.
* * * * *
Em cem contos é calculada a somma dos donativos em dinheiro levada
pelos peregrinos portuguezes ao Santo Padre.
É valiosa na occasião presente essa contribuição, porque a historia do
dinheiro de S. Pedro teve sob a gerencia do cardeal Antonelli episodios
devastadores. Procurando ha annos o governo de Victor Manuel realisar
uma operação bancaria destinada a equilibrar as finanças da Italia, o
cardeal Antonelli, como fino rabula e zeloso ultramontano, concebeu o
plano de um _coup de bourse_ destinado a combater as intenções do
governo italiano provocando uma descida que impossibilitasse a emissão
de novos fundos. Para este fim o astuto financeiro vendeu em massa, pela
baixa, os titulos da divida italiana que a Santa Sé possuia e que
representavam o dinheiro de S. Pedro. É porém perigoso, mesmo para um
italiano, jogar as peras com outro italiano. Na Italia todo o homem
habil deve estar preparado para encontrar um mais habil que o logre. Foi
o que succedeu a Antonelli. O seu plano foi estrategicamente
contraminado pelo governo de Victor Manuel, organisando-se um syndicado
de banqueiros que despedaçou a armadilha do illustre cardeal.
O dinheiro de S. Pedro convertido outra vez em metal pela operação
malograda nos seus effeitos, foi então convertido em fundos turcos,
operação arrojada mas tão lucrativa que promettia duplicar, em poucos
annos, o capital empregado, a não ser que um caso, então imprevisto,
prejudicasse o exito da transacção fazendo estalar no Oriente uma guerra
inesperada.
Foi, como se sabe, o que veiu a succeder desgraçadamente para os bens do
Papa. De sorte que o dinheiro de S. Pedro, piedosamente accumulado pelos
catholicos para o esplendor da Igreja, achou-se, pela mais estranha das
coincidencias, consumido em polvora por uma potencia chamada ao fogo
como perseguidora dos christãos!
* * * * *
Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os
peregrinos levaram, para offerecer a Sua Santidade, um grande album, em
que vae inserida uma declaração de principios assignada por todos os
romeiros. Os jornaes que nos transmittem essa noticia não nos dão o
texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o
que suas excellencias dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:
* * * * *
Santissimo Padre
Ha hoje quinhentos e setenta e sete annos que o primeira jubileu da
Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos
predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.
Esta solemnidade não tinha por fim, como o anno jubilario do Mosaismo,
dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos
seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em
cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a
familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo
que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_
chamava simplesmente a--_santificação do quinquagesimo anno_.
O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_),
preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a
remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante
trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um
dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma
solemnidade unica na historia--a reunião em Roma do genero humano
prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo
final, no valle de Josaphat.
N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero
dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar
cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente
como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os
alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para
albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as
igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos
alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma
fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam
mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de
fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a
sagrada collina.
Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que
até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso,
Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião
da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho
de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha
brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é
que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»
Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas
palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis
e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para
arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em
seu nome e segundo a sua doutrina_.»
No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de
prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das
portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou
pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si
a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia
universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas.
Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»
Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos,
cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon,
os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das
suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados
para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos
collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo
ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade
imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam
apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada
a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta
campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos
obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no
_Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com
as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento
collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil
espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada
de sangue de um gladiador ou de um martyr.
Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como
aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam
desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na
esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o
mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os
homens eram isto?
Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama
endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em
fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de
Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e
outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de
couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de
palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome
augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do
pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era
já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e
comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda,
desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as
promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as
vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas
sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta
Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador;
onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas
guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas
de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um
relicario um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo
determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam
os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e
enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.
N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço
enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á
humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores
revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu
Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo
sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com
a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_
Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções
successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem,
cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando
sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de
puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico
procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus
exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha
o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus
carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os
seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o
borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os
musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno
que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso
espremido.
E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem
haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem
uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se
aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um
simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas
deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.
Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem
procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O
que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o
movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da
humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu
de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma
unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda
de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de
paz, de liberdade e de justiça.
Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na
zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E
cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios
que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia
caminha.
É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos
offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto
campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas
superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão
ser tragados pela vaga.
Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido
Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido
todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova
comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem
se quer tenta lutar!
O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia
Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e
promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e
do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta
pela existencia.
Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se
modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na
economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na
poesia, na arte, na moral e na propria religião.
Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma
tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a
noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores
ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um
universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um
dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma
esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana,
experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios
analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus
não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como
fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do
Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios
de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.
As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra
como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda
edição.
Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção,
deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou
empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por
exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de
milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se
tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo
estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um
descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso
organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia
de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin,
basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da
creação sem quebra da infalibilidade suprema.
Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o
unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino,
porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas,
reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a
vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula
primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que
se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não
descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera,
porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o
infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.
Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder
temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da
consciencia na comprehensão da solidariedade humana.
Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o
genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos
logares!
Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós
outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de
emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a
preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e
pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto
pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de
Bulhões.
Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o
menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo
vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa
pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim
não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil
novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a
indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas
eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em
segunda classe!
Porque elles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo
Officio deixou de afervoral-os--que não é facil despir os peccados como
se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as
chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se
pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma
viagem a Roma.
Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se
elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o
padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe
ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e
Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as
indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe
sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.
Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da
auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de
franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto--o
poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens
divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis
penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e
inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.
Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á
mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque
obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda
fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America,
que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda
consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela
porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da
historia, mas sem a benção dos papas.
Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a
este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,--como
seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma
confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas
convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as
convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das
occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região
do globo.
E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e
precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa
era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de
justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam
prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.
Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado,
perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que
seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que
dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o
vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança,
vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver
desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia
unificada.
Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam
os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se
não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não
se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de
victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella
se distingue do erro e da mentira.
Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais
sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os
sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros
tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a
dieta!
Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só
os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por
uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo
exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exercitos.
Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os
diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.
Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa
benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos
concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é,
como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que
trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos
principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.
* * * * *
Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de
tomar a primeira communhão.
Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza
a theoria do resgate da culpa pela penitencia.
A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem
ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na
terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo,
alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da
benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo
nas almas dos principes devidamente desobrigados.
Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente
esse augusto espectaculo.
* * * * *
Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado
expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.
Parece-nos--comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente
timida--que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez
mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não
fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma
distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como
os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu
parocho.
Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão
as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_
applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha
parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas
suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram
penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram
tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar
que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o
principe da pureza mystica do manjar.
A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais
efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr.
D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus
famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.
Porque--acreditem-o--não é com a presença do illustre e correcto bispo
portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos,
com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet
de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente
limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar
á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por
emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.
* * * * *
Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos
nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á
mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do
serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os
passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e
quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do
commandante!
* * * * *
Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido
no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero.
Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro
sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a
condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!
* * * * *
A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente
africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte
questão:
O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o
dominio das nossas colonias?
Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é
crear faculdades dominantes.
Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.
A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da
força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma
conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o
argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um
simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a
sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle
parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do
auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.
Deante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que
explica o successo de uma empreza difficil e perigosa pela decisão e
pela firmeza do que a emprehende. A physionomia um pouco espessa e dura
de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros
athleticos são para a consideração de todos os inglezes os mais bellos
attributos de raça, o mais apreciavel caracteristico de uma distincção
privilegiada. Porque na educação ingleza a saude, o vigor muscular, a
força physica são o objecto de um culto.
Nos collegios Eton, Rugby, Harrow, os jogos athleticos, a pella, o
exercicio do remo, a carreira, o _foot ball_, o _cricket_ occupam todos
os dias algumas horas de applicação. Duas vezes por semana, quando
menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercicios
physicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, deante
de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate,
que amparam o vencido, que lhe refrescam com agua as contusões, porque
estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores
ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por
um dos socos do adversario. Toda a creança que se exhime a liquidar n'um
combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus
camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jámais um verdadeiro
_gentleman_.
Do collegio passam os alumnos creados n'este regimen durante a
adolescencia para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um
regimen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as
equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os
estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavallo,
caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e
dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta annos,
outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as
mais severas prescripções hygienicas, submettem-se a uma alimentação
especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento
systematico da musculatura. Os principaes divertimentos nacionaes são os
exercicios de agilidade e de força. Ha _crickters_ que teem ido jogar
partidas solemnes de Londres á Australia.
Em Lisboa vivem dois inglezes que vão frequentemente a Cintra a pé,
levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e
regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a
qual teem batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré.
Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club
d'aquella cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia
uma partida de _cricket_. Um dos inglezes a que nos referimos
sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo.
Dois officiaes a bordo de um dos navios da ultima esquadra que esteve no
Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata,
percorrem todo o enorme edificio do convento, almoçam um bife e voltam a
pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora
fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de _soirée_
e uma rosa de Mafra na casa da farda.
D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo
enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por
emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da
civilisação africana, poderia intitular-se: _Da influencia do «sport» no
caracter dos povos exploradores_.
* * * * *
A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais
superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez
inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores
inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha
duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas
objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a
si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao
passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se
distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes
extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto
de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os
srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os
srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um
poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da
doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos
simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de
pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente
e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil
encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios
abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.
Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos
nossos descobrimentes e das nossas conquistas:
Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos
desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos
devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque--diz João de
Barros--_como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava
em cama, quando mais não podia_. Albuquerque que em saude reunia á força
physica a grande força moral da alegria--_era homem de muitas graças e
motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava
muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,_--assim tocado de morte
por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães,
nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da
administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de
hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do
Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus
navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias
com o direito por via da conhecida phrase: _mal com o rei por amor dos
homens, mal com os homens por amor do rei_.
O infante D. Henrique--segundo o mesmo João de Barros--_tinha largos e
fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada,
em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos
algum tanto alevantados, e o acatamento_ (_por a gravidade de sua
pessoa_) _um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento._
Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de
Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de
Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em
carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na
falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem
festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e
representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça,
_mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes
trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver,
porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os
buscava_. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em
outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do
berço usara o officio das armas.»
Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a
photographia moderna de um _sportman_ da Grã-Bretanha.
Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si
mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um
sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia
tornavam-o _proprio para o commando_.»
O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, _viajou as sete
partidas do mundo_, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do
seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e
pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que
infundia terror».
Os corações eram de uma tempera inquebrantavel, hostil á
sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer,
Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu
fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu
proprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz
lhe pergunta como viverão d'ahi em diante, Tavora responde-lhe
duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalavel.
Os que eram dados ao galanteio das damas commoviam-as mais pela asperesa
varonil do aspecto do que pela suavidade effeminada das formas.
Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do
Palacio, o Magriço diz á loura _miss_ que depois do combate ia
deitar-lhe agua ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as
tenho assim tão grosseiras e cabelludas, poderão ser-vos molestas e temo
que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa ingleza replica fazendo sentir
ao calejado e cabelludo cavalleiro que a bella mão de um homem é a que
denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias molles, mas sim aos
fortes trabalhos que teem como fim a honra e como premio o amor.
O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D.
Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o commando
da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia
sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquelle o que vá
descobrir-lhe a India.
O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta
para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os
homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa
de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e
espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se
regresse á patria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do
motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe
entreguem «quantas cousas tinham da arte de navegar» sob pena de os
enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na
volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres
nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos
encommendae e pedi misericordia, e a mim de hoje ávante ninguem me diga
que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que
venho buscar, não voltarei nunca mais.»
Ao que a guarnição se submetteu com a docilidade de quem não tinha senão
dois caminhos que escolher n'aquella viagem:--o da India ou o da morte.
O proprio Camões, o immortalisador das façanhas d'essa velha raça, era
elle mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus
costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na
India conflictos arriscados, de cujas ameaças elle sorria dizendo: que
só era vulneravel pelas solas dos pés e que estas ninguem lh'as vira nem
havia de ver.
Em todas as altas figuras do nosso grande seculo se patenteia o typo
expressivamente caracteristico de uma forte raça privilegiada, hoje
extincta.
A Europa sahia apenas do regimen feudal. Conservavam-se vivas no coração
de todos os fidalgos as tradições da cavallaria. Os besteiros de conto
eram apenas uma debil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os
nossos exercitos permanentes.
Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos
prasos em que não serviam o rei e a patria batendo-se com inimigos
extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas.
Quando não combatiam monteavam.
Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das
duras privações.
Os divertimentos publicos eram ainda os jogos guerreiros: o _tavlado_,
um exercicio de força, e as _canas_, um exercicio de destreza.
* * * * *
A moderna educação portugueza esterilisou a sociedade para o fim de
gerar homens proprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes
em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as
febres dos rios podres.
Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito
sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento physico que não só não
podem levar a sua influencia e a sua dominação intellectual ao interior
da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascaes se lhes suprimirem
as facilidades do rebocador ou do carrão.
Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de
poucos individuos, e não uma feição do paiz.
Na Inglaterra pelo contrario o _sport_ está na mesma alma da nação,
completa o caracter do paiz.
O principe de Galles readquiriu depois da sua ultima viagem a
popularidade que antes d'ella tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter
penetrado na India e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é
um dos seus mais poderosos titulos á estima publica. O _sport_ é na
Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a
Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a
gloria incomparavel de o poder referir ás sociedades sabias de
geographia, de zoologia, de botanica, de meteorologia, de anthropologia,
aos differentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da
Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de
curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os
Pyreneus.
Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme ecco na opinião e na
popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de
explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insufficientes para
esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geographicas, das
academias e de todas as agregações artificiaes de alguns individuos; é
preciso que o grande impulso parta do genio collectivo do povo.
* * * * *
O povo pertuguez não está creado para esses movimentos energicos. Era
uma raça audaz, enthusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos annos de
uma educação dogmatica e de uma disciplina fradesca.
Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pae
fazia navios e em que elle para sustentar a fabrica tem de brandir um
machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é
um anemico, que não pode com a sua _badine_. O que ha de fazer?
Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o
Martinho.
* * * * *
Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo
o paiz protestam--o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e
meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo
livrarias, enegrecem-se com prosa official resmas de papel da Abelheira,
abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,--tudo para dar
a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo
continua nas condições de abatimento em que estava, as quaes não podem
tornal-o proprio para o dominio, mas sim para a servidão.
Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o
espectaculo correspondente na nossa organisação social.
Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos collegios de
educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e
enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com
falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que
differença dos collegiaes inglezes, com os seus chapeus de palha, a
blusa de flanella, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos
campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade,
entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus actos, conscientes do seu
direito e do seu dever como pequenos republicos!
Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas,
sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa;
um joven racional de dez ou doze annos, dos quaes cinco de escola sob a
pressão dos compendios do sr. João Felix, não aprendeu nada d'isso, e
precisa de um padre ou d'um aguadeiro que o leve pela mão para
atravessar a rua!
Essa miseravel creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não
quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça,
que o não deixa metter-se na agua fria para que não se constipe. Era
melhor que elle tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado
a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezeseis, e houvesse
aprendido assim a ser um principio d'homem, do que não ter passado por
nenhum d'esses desares e ser unicamente um lamentavel boneco, medroso e
covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade
que elle tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e
estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos
membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de
mergulho ao ribeiro, apezar dos perigos previstos pela mãe do molestado.
O primeiro acto da vida civil d'esse sujeitinho consiste em metter
empenhos para ser approvado em instrucção primaria.
A primeira gloria da sua existencia consiste em se considerar tão
importante personagem que sahiu approvado com dez valores, apezar de ter
passado a metter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse
orgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas
do sr. Felix.
No anno seguinte começa a estudar as linguas e a fumar cigarros ás
escondidas.
Penetra finalmente na rhetorica e na leitura dos romances, em que passam
visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.
Chega da côr de uma cidra ao fim do curso dos lyceus, tendo, além de
todos os preparatorios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha
torcida, algum tedio da vida e muita caspa.
Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e
o primeiro effeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é
augmentar-lhe a caspa.
Depois a vida academica absorve-o e elle percorre toda a escala das
nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piugas,
toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas
canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e
regressa a Lisboa bacharel formado.
Tem vinte annos e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a
tres individuos;--pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente,
inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga
assustada, sorrindo com um agrado pusilanime:--Sr. doutor, imploro
submissamente a valiosa protecção de v. ex.ª!... Sr. doutor, criado de
v. ex.ª!... Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor...
O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do
pretendente do Terreiro do Paço.
O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de
nome: «--Sr. ministro, imploro submissamente a protecção de v. ex.ª...
Criado de v. ex.ª, sr. ministro... Ex.mo sr. ministro, humilde servo de
v. ex.ª...» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos
gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão pelludo ao
emergir da agua, com o seu velho sorriso deploravel, anediando a copa do
chapéo com o canhão da sobrecasaca.
Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos
passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que
deseja. Um ministro despacha-o--para se ver livre d'elle. Consegue ser
empregado publico ou candidato governamental por um circulo do
continente ou do ultramar.
Desde então as engrenagens do machinismo official apoderam-se d'elle
para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade.
Pertence á grande legião. Vae para onde ella for, diz o que ella disser,
pensa o que ella pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia
prefixa do cepo a que o amarraram.
É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a
classe dirigente vivem d'este cuidado unico: O cuidado de se não
comprometterem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas
opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta official. Se
alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dyspepsia moral lhes vem á
bocca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta
prohibida.
Como pelo desdem do trabalho vivem n'uma estreiteza pecuniaria visinha
da miseria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de
ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e
acceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia,
estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem methodo, sem a dignidade
do conforto e do aceio domestico,--a viva negação de todas as condições
que tornam a casa feliz e a familia amavel.
É d'esses consorcios sem idealidade e sem amor, contraidos fóra da mutua
dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro
individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os
filhos dissolutos, os jovens cynicos, desdenhosos das affeições
honestas, hostis a todos os sentimentos de familia, cujos nobres
encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.
D'esses consorcios procedem tambem as meninas futeis e pretenciosas,
frageis entes inuteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da
dignidade da mulher--a comprehensão do _ménage_, o culto do santuario
domestico. Ellas refugiam-se da convivencia antipathica da sua familia,
constituida sem bases organicas, na religião, ou, para que o digamos no
termo mais preciso, na _igrejice_, e na leitura dos romances
sentimentaes. A _igrejice_ e o romance são os dois pólos da sua vida
moral.
Como qualquer d'essas meninas desconhece completamente a arte de
cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caracter, um
instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao
cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimavel
fetichismo dissipador da moda.
Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da
felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa
tradição se aprendem: a arte de se fazer bella pelo simples modo de atar
uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de
se sentar n'um _fauteuil_, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte
de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua
chimica a alegria e a saude dos seus commensaes; a arte de arranjar a
casa, de lhe dar physionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir
idéas, a ter quasi conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos
armarios as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da
casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das
canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e
solicitarem-nos a permanecer a côr dos cortinados, o tom dos estofos, o
assumpto dos quadros, a collocação dos moveis, a graduação da luz, a
frescura do ar, a nitidez geral do aceio e a sabia disposição dos livros
e dos jornaes sobre o panno da mesa.
A menina em similhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou
se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações
romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua
melhor maneira de ter um fim, porque, emquanto a ser mãe, prohibe-lh'o
physica e moralmente a accumulada estreiteza do coração e dos ossos.
Taes são, no caracter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da
educação portugueza na classe mais preponderante da sociedade, aquella
que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com
similhante estado é irreconciliavel o genio explorador, a tendencia para
as viagens entre póvos barbaros e finalmente o poder de dirigir e de
dominar.
* * * * *
Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos
europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se
com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto
d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra
baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.
Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica
principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é
insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que
se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de
altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez
physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e
desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas
e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.
* * * * *
Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da
nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.
Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em
que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A
Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria
piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções
mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje
florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com
grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da
baleia ao cabo de Finisterra.
As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do
bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas
com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos
tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes
pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.
O governo francez protege, com grandes subsidios na armação dos navios e
com avultados premios sobre o pescado importado, as suas pescas do
bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos
alimenticios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á somma de 17
milhões por anno. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12
mil marinheiros.
Um facto bem notavel e digno de ser ponderado pelos legisladores
portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França teem sido
marcado, como a temperatura em um termometro, pelo desenvolvimento ou
pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação
communal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a
corrupção monarchica do regimen despotico; revive deante das medidas
legisladas pela Revolução.
Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal
que os pescadores francezes nos compram com destino ao seu bacalhau. Os
navios francezes que veem ao nosso porto fornecer-se d'esse genero fazem
fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o consul
francez remette ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em
Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto
d'onde o navio partiu pelo proprietario responsavel por este imposto.
D'este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os
direitos estão pagos na razão de 50 centimos por cem kilogrammas. Quando
porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado
nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos
anteriormente percebidos, não já na razão de 50 centimos por cada cem
kilogrammas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de
bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano
de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.
Portugal possue no mar dos Açores, segundo a asseveração de varios
navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra
Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E
deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de
um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as linguas
constituem um artigo especial presadissimo dos _gourmets_; dos
intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o oleo
importantissimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se
com grande vantagem na pesca da sardinha.
Apezar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau,
pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal
que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar,
o nosso governo despresa este importantissimo ramo da actividade
commercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos
nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca tambem é para
nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos
cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos
na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser
prohibidas, despovoando as aguas de pequenos peixes insignificantes, que
pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo
alimenticio, se tivessemos estudado os nossos apparelhos de pesca e
soubessemos legislar sobre a dimensão permittida ás malhas das redes. O
governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração
colonial, um só instante de attenção.
O parlamento nomeia em cada anno uma commissão de pescas, que ainda não
serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de
peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura
não tem sido objecto de maiores disvellos que a ictyologia: nem uma só
medida tomada pelo Estado para repovoar as aguas das nossas costas e dos
nossos rios principaes; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os
apparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que
elle nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.
Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto
de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as
instancias feitas para este fim teem sido inuteis.
Ha cerca de seis annos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por
um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano
prometteu aos pescadores que ia ser concluido o paredão. Até hoje ainda
se não accrescentou uma pedra áquelle monumento unico do desleixo
nacional!
E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr.
marquez de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua
eloquente e erudita conferencia ácerca da escola de Sagres, está ali
vivo ao pé d'esse paredão em ruinas. Ha ahi tres mil homens que em cada
dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa
jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais
robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemiterio da
freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela
inclemencia das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas
mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o
quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em
terra um bairro infecto e miseravel. Os cações escalados, destinados á
alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas.
Cheios de _vermine_, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo
quarto, n'uma promiscuidade horrorosa. A terra da patria dá-lhes apenas
um farol, que elles illuminam á sua custa, e um barco de salva-vidas,
que elles mesmos tripulam. E é para isso que elles, desgraçados, quasi
mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto
annual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo
fisco.
Imagine-se como elles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida
terra da patria!
A unica vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que
tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só
homem para o recrutamento maritimo. Não ha meio algum de os obrigar a
fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir taes
amos.
E eis ahi está o ultimo capitulo na provincia do Minho da historia,
feita pelo sr. marquez de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes
fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!
Como a administração das nossas colonias depende directamente da
organisação da nossa marinha, como a importancia da nossa marinha
depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á
civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando
conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil
vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista
adjunto do museu zoologico, para ir estudar ao longo do nosso littoral a
industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.
Comtudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que
applaudiu como um notavel beneficio patriotico a iniciativa das
conferencias--um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de
applauso para a missão do sr. Capello--o primeiro passo para atacar o
mal na sua verdadeira origem!
* * * * *
Do estado verdadeiramente deploravel em que se acha a nossa força
maritima póde-se ter uma idéa pela recente medida tomada pelo governo de
convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na
folha official todas as praças de infanteria ou de caçadores que para
esse fim se apresentem! O governo tem de um marinheiro esta
comprehensão:--que elle se fabrica por meio do abono de quatrocentos
réis por dia dados a um soldado de caçadores!
Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma
escolha baseada na côr dos olhos ou na fórma do nariz, que razões podiam
ter levado o governo a alistar na arma de caçadores um dos seus
recrutas? Suppomos que estas razões devem ser tiradas das condições em
que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as
montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a
luta com os terrenos escabrosos nas visinhanças das serras. Ora, sendo
assim, como querem sujeitar á vida sedentaria do mar e á familiaridade
das ondas esse montanhez, que nunca pegou n'um remo, que chegou das
Alturas de Barroso, do Marão ou da Serra da Estrella e que sente as
pernas enferrujadas e o pulmão opprimido desde que não anda mais de uma
legua por dia trepando saudosamente ás colinas que cercam o logar do seu
quartel?
Outro facto não menos expressivo é o que ha pouco tempo se deu com
alguns guarda-marinhas do nosso conhecimento em estação em Loanda.
Sabe-se que não ha plantas dos nossos portos da Africa, cuja navegação
se faz por meio de cartas inglezas.
Os jovens marinheiros a que nos referimos, impellidos por esta vergonha
da nossa marinha, quizeram levantar a planta do porto de Loanda.
Empregaram todos os esforços para obter os necessarios instrumentos, não
puderam conseguir senão unicamente a offerta de um bote, unico elemento
de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr á disposição
d'esses extravagantes. Elles comprehenderam então que não tinham senão
uma coisa que consagrar aos destinos da patria; não era o talento, não
era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saude. E foram
immolar o figado á administração nacional para bordo do seu navio, como
patos de engorda pregados pelos pés á respectiva capoeira.
Quando os nossos officiaes teem conseguido arruinar completamente as
suas visceras na inanição official das nossas estações de Africa, voltam
doentes á metropole e concluem a missão civilisadora que o paiz lhes
incumbiu tomando as aguas alcalinas de Vidago.
As aguas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar.
* * * * *
Emquanto estas coisas se passam os inglezes, com um poder creador que
faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada
dia pretextos novos para intervirem com o _seu protectorado
humanitario_ nos negocios do interior africano, e dilatam a pouco e
pouco a sua occupação e o seu dominio manso sobre o nosso territorio.
* * * * *
Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do
capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as
auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos
escravos, que ainda ali vigora.
Como é que nós respondemos á denuncia d'este facto? Respondemos negando
a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.
Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não
permittido, vejamos quem é o homem que nos acusa.
Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente
atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa occidental,
levado por um intuito exclusivamente scientifico. D'esta viagem, que
durou quatro annos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do
oriente com a do occidente por meio da navegação fluvial, aproveitando
as relações hydrographicas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos
quaes desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado opposto, ao sul de
Moçambique.
Durante esses quatro annos passados entre selvagens, o capitão Cameron
parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o
paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o
mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens
do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros
de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem--o doutor
Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem
seguil-o a mais do começo d'essa longa e perigosa expedição. Adoecem
successivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe
apparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadaver do explorador
que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos,
desistem de continuar essa immensa viagem e regressam com o corpo de
Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.
Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma
clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando
atravez de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortifero,
deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um
dos primeiros estadios da sua portentosa peregrinação.
Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admittimos que saisse da
Inglaterra com a educação commum de um simples tenente da armada
britanica. Mas dizemos que uma viagem como a que elle fez, e nas
condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um
caracter. Um tal homem não mente. N'elle a mentira seria a refutação de
todos os principios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas
as leis da natureza humana.
Nada mais lastimosamente ridiculo do que a indignação patriotica de
qualquer dos nossos politicos, chupando auctoritariamente um cigarro no
Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosphera com balas
de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo
para nos informar do que se passa em Africa!
O que Cameron disse ácerca da escravatura africana na conferencia feita
em Londres foi o seguinte:
«Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos
retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos
fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro
dizendo-nos: _Não partaes; Kouaroumba vae chegar com os seus escravos_.
Depois do meio dia chegou effectivamente Kouaroumba com uma fila de
cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa,
trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam
pelo menos a ruina e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a
matança d'aquelles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram
refugiar-se nos juncaes para ali viverem como podessem ou morrerem de
fome. É para mim fóra de duvida que estas cincoenta ou sessenta escravas
representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou
acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham
presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente
atadas. Quando ellas affrouxavam na marcha, batiam-lhes
desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são
muito brutaes; os arabes pelo contrario tratam geralmente bem os
escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa
não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por
varios motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São
vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»
Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.
Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da
Africa o trafico dos escravos. Emquanto se não provar manifestamente o
contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já
anteriormente ennunciada pelo viajante francez o sr. Jocolliot,
confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em
Lisboa em uma carta publicada no _Progresso_ pelo sr. Pinheiro Bayão,
que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.
Para factos d'esta ordem os protestos de toda a imprensa[1] e de todo o
parlamento, por mais unanimes que elles sejam, não teem a natureza de
uma refutação nem o caracter de uma resposta, são uma pura evasiva
compacta.
[Nota 1: Um unico periodico, de que tenhamos noticia, o _Seculo_, de
Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente
escripto pelo sr. Correia Barata.]
A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de
uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Sciencias
pelo fallecido naturalista o dr. Bernardino Antonio Gomes. O resultado
d'essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á
civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente
Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a
contribuição valiosissima com que elle tinha cooperado para o progresso
da sociedade humana.
O governo, deliberando tomar officialmente conhecimento dos factos
referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que
dar-lhe:--nomear uma commissão de inquerito que syndicasse
rigorosamente da cumplicidade dos funccionarios portuguezes no
menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.
Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ella teria
procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriotico
com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido
o exemplo que lhe fôra dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao
sr. Cameron as informações que este lhe prestára.
D'esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do _Times_
a mais dura e humilhante lição que por via da penna de um jornalista se
pode inflingir a uma sociedade.
O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos
sociaes sempre que elle nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião
publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais
sacrilego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a
politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos
caracteres publicos em testemunhar a verdade. Todo aquelle que por meio
da sua palavra ou por meio da sua penna não tem o preciso valor para
ennunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um
perigoso inimigo do genero humano. Não queremos para a nossa
consciencia de escriptor o remorso d'essa voluntaria culpa, e é por isso
que dizemos aos srs. deputados:
A verdade, meus senhores, é o que vos disse o _Times_. «A questão, como
diz o referido periodico, não é se Portugal prestou serviços á causa do
progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na
sua linguagem tratando com uma nação alliada e amiga; a questão é se os
factos são ou não são como recentes viajantes affirmaram que eram. Que o
commercio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por
negociantes portuguezes e sob a protecção da bandeira portugueza é
accusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação
ficticia ou real, não por patrioticas reminiscencias, nem por uma
referencia a cumprimentos diplomaticos, mas sim deixando-se de permittir
que haja materia para que a accusação continue. Sabemos quanto Portugal
tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos tambem o
pouco effeito que as suas energicas declarações produziram.»
Os quatro milhões de vozes de que o paiz inteiro pode dispor, a
protestarem todas perante o universo, não poderão convencer um só homem
de que a verdade seja differente do que é. A declamação n'este ponto é
completamente inutil com outro qualquer fim que não seja um puro
exercicio de eloquencia nacional.
Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilisação.
Vós contribuis apenas para o _Peculio de Oradores_, do sr. João Felix.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
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As Farpas,1882-11_12
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE N.º 2
NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
SUMMARIO
Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.
* * * * *
«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
Está approvado.»
Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
* * * * *
Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
venia e diz:
«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»
E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
* * * * *
Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
oratoria sacra.
Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
para este effeito invisivel.
Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
com as marionettes.
N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
accordo.»
Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
para approvar.
* * * * *
Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
herva crescer.
* * * * *
Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
perigos, apertando-se de mais com o fiado.
Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
nossas intimidades com o Divino.
É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
divino.
Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
no espaço,
Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
apoplexia.
Acontecem d'estas ás vezes!
Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
terrestre.
* * * * *
O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
d'hostias quotidianas.
Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.
* * * * *
Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.
Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
* * * * *
O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
cherubins no gallinheiro celeste.
* * * * *
O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
parte do snr. França Neto.
Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
simples ciprestal sentado,--com defluxo.
Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.
* * * * *
Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
morto, e nunca mais resuscitará.»
Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
religião.
Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
decretos ou por castigos humanos.
«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
deem em toda a parte onde fordes escravos.»
Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
* * * * *
Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
historia das ideias clericaes.
O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
liberdade.
Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
_liberdade da sciencia_.
Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
civilisação.
Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
gremio da egreja.
N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
liberaes, julgaram impossivel transpôr.
* * * * *
Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
* * * * *
A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
todas as sessões.
Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
as adhesões da mulher?
Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
d'aldeia e o padre de sala.
* * * * *
Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
aventureiros e os mysticos.
Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
pretos do que elles são.
Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
inhospitas e selvagens.
Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
o outro:
--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
* * * * *
O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
estonteadores.
As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
no arraial.
Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.
Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
* * * * *
O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
boleeiro, o creado de farda e a preta.
As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
dos seminarios.
É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
_chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
chão!
E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_
--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»
Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
Alguém á noite pergunta:
--Que é feito do padre João?
E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
responde lentamente:
-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
meio de uma ligeira admoestação corporea.
--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!
--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
pelo lado _cunhos_.
* * * * *
De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.
O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
pecaminosa.
Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
foram manufacturados.
* * * * *
Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.
Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!
Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
de Castello Melhor. Que contraste!
Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.
A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.
A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
e a pratica da devoção.
O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
vae para padre, isto é, por simples estupidez.
Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.
As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
* * * * *
Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
debalde, transformal-as em obras.
Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
infestam, sevandijam e conspurcam.
Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
vigentes.
O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
de pistola.
Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
dos seus compatriotas.
Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
consternação em que todos se achavam_.
E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
profunda de tão excelso quão sensivel principe.
* * * * *
Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
têem os povos egualmente?
Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
como os reis choram pelos seus bons subditos?
Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
a queda de um honrado cidadão que morre?
Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
perfeitamente a mesma coisa!
Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
das proezas do tiro ao alvo.
* * * * *
Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
* * * * *
A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
banca e o dos parceiros.
O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
_algum dinheiro e mobilia._
Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
e desapercebidos.
No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
as jogatinas.
Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
discutir com ellas sobre esta questão.
* * * * *
O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
Senhora da Luz.
No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
circulos concentricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
apostas.
Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
que scintillava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
que tinha mais proximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
cartas que em seguida sahia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
trez de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
--Mata o rei?
Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
--Mato-o, sim senhor!
Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
cartas 3$000 que tinha posto.
O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
que comprimia nos dedos.
A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
parada egual á minha.
Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
bem caracteristicamente mediocre.
Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
recebida n'esse mesmo dia.
Fiquei na batota até pela manhã.
Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
pautava luminosamente d'azul.
Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
raivosamente pelos pontos.
O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
o collarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
d'ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
sovaco.
--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
estrangulada.
E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
os olhos torvos!
--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
janella.
E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
modo que me está a appetecer isso, a mim!
E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
sempre velados pelo mysterio.
* * * * *
Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
batota!
Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
solto.
E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
assalta e sequéstra as batotas!
Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
chalaça!
* * * * *
Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
_Frei Bandalho_.
Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
vulgarisação da litteratura jornalistica.
Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
_Bisborria_ e o _Pulha_.
A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
* * * * *
S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.
Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
Inclinemo-nos com reverencia!
Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
Tornemos a inclinar-nos!
E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
meiados do decimo setimo seculo.....
Prostremo-nos por terra!
* * * * *
D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
conde de Sabugosa.»
É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
pena de experimentar....
De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
os gostos d'horta ou de capoeira.
O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
* * * * *
Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
de escamas de corvina.
Tambem folgamos muito com isto.
Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
artes do desenho.
Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
suas boas mestras!
Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
Leopoldo!
Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
* * * * *
Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
aprehendidos.
O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
propriamente--uma _vacca_.
* * * * *
Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
gracejo_.
O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
chamado a resolver questões d'olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
que entre esses dois amantes se passou!
O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
ironica:
--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
Oh! amor!... amor!
Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
juizo.
Diz o jurado:
_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
ôlho á queixosa?_
Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
XVII pelas damas illustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
obrigação d'este é por-se de rôjos.
* * * * *
Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
Bragança Junior.
Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
da patria.»
Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
a descobrir que ella era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
* * * * *
Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
moveis artisticos.
Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
desafogo de alguns commentarios.
* * * * *
A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
João v.
Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
ferros-velhos.
* * * * *
É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
* * * * *
Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
quanto talvez ephemera.
Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
bem dissolvente!
Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
* * * * *
Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
foi victima o mais bello gato de sua magestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
* * * * *
Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
reconhecel-o e a lamental-o.
* * * * *
Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
archeologicas.
* * * * *
«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
nação portuguesa!»
* * * * *
Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
pé outra vez.
Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
primeiro repente gostamos d'elle.
Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!
Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
ninguem.
Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
peiores de todos!
Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
e o arcebispo de Bragança.
O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
que é fazenda.
Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
gallinha!
Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
exercito das trevas_.
Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
melros. Rua, que é a sala dos cães!
Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
escusa-se de bispos.
Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?
E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--
Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
_Nação?..._
Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
que ha pouco demos á nossa cosinheira:
--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
* * * * *
Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
propicio para cardinalisar Masella.
Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
Oh! não.
Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
distribuição dos barretes phrygios.
O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
tostões e meio.
De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
dizer em tal conjuntura:
--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
* * * * *
Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
Eis o caso:
* * * * *
Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
pessimos alguns dos bispos propostos.
--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
precisamente opposta á que eu tenho!?...
--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex.ª me consultava....
-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
liberrimo governo da nação portugueza.
--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
e snr, agora, o vereis!
_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
* * * * *
Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
folha:
_O nuncio desacatou sua excellencia_.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
periodicos ministeriaes.
_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
um calor_.
* * * * *
Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
occasião d'este jubiloso successo.
* * * * *
E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?
* * * * *
Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
pensadores?...
Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
Vejamos, sinceramente:
Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
confessar mulheres?...
Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
a fallar n'isso.
Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
bispos.
Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!
* * * * *
A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
republicano de opposição ao governo.
Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
Parabens a sua excellencia!
* * * * *
Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
Carnaxide.
Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
gorgeios.
Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
magestoso acima do narravel.
Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
vida em direcção á faia virente.
Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
ao lado.
Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
as nuvens, exclamou:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
negocios do reino.
Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!
E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
exprimir-se em prosa:
--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
penna e de governação.
Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:
--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
quebrada da serra?
E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
Nossa Senhora Apparecida,
--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
templo!...
Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
publica:
D. Miguel foi á Sé,
Sentou-se n'uma cadeira,
E disso para os malhados:
Esta perna está inteira!
Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
submissos em giolhos.
E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
repetir aos montes e ás hervinhas:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
de nunca ter visto Lisboa.
Gloria pois a s.ex.ª!
* * * * *
Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
A patria explorava-o e ria-se d'elle.
Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
agraciou a regia munificencia.
Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
extrangeiro.
Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
Lisboa 15 de dezembro de 1882.
_Ramalho Ortigão._
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas, 1873-01_02
[Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
2.º ANNO
Janeiro a Fevereiro de 1873
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos
estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O
enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força
armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os
srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
e Pickuick.
Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para
findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito
projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
immobilidade oriental.
Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!
Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
alargar-se d'estes termos.
_Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»
_Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»
Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.
* * * * *
Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.
As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que
tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.
Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.
E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
tem de aprender a ser digno e honrado!
* * * * *
Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.
Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
da Companhia.
Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:
«Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»
Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
srs. deputados votariam calados.
Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.
Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.
Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede
viveres.»
Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
socego e da ordem.
Hoje porém:
Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;
Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
mesmas;
Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
a maior parte dos poderes delegados nos governantes;
Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
via da eleição representem a vontade popular:
Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
de poder que ellas asseguram ao povo.
Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
uma monarchia parlamentar.
A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
por chefe do poder executivo--um presidente eleito.
A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
executivo--um rei hereditario.
O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
de juizo para governar.
Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
monarchia representativa.
A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de
quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um
presidente eleito.
O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
França poderia introduzir na organisação do trabalho.
A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o
constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.
Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
distincção: um e outro affirmam um governo livre.
A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
é:
Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.
Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.
Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os
unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
não seja--a de desafinarem.
Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
livre sob a monarchia portugueza.
Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto
existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
elle encerra....
E que digamos a suas excellencias:
Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
eleitos.
Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
monarchia parlamentar.
Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
portuguez?
Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
pedirá--herva.
* * * * *
Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na
republica, e teremos--a escravidão na monarchia.
* * * * *
Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia
e que parece não ter caracter.
Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
_Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.
Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
o machinismo constitucional.
Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
todo ha um surdo descontentamento geral.
Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.
Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
seccas.
Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
de fadiga, apupado e corrido.
Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.
O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!
A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para
discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.
O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
hypothecada.
Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!
Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
dando dinheiro e recebendo papeis.
A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
e como critico as consciencias dos outros pela justiça.
* * * * *
A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.
Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
rebaixa.
* * * * *
Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas;
faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
interesses pessoaes e a ambição dos individuos.
Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
_mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.
Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.
* * * * *
O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
não seja para nós um irremediavel perigo.
Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
immediatamente de manter os abusos.
Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
melhor politica.
Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.
Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
como se é homem de bem.
Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
falta da virtude.
Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.
Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.
Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
gangrena e a dissolução latente do estado.
Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á
conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.
De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
liberdade.
Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da
perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
aos negros e dar a paz á America.
* * * * *
Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
prudente e justo.
No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
Theagenes em Megara.
O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.
Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
desfallecimento e a morte.
Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse
principio sob a sua forma philosophica--na razão.
* * * * *
O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
intelligentemente armadas e equipadas da Europa....
A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que
as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
o jornal e tomar o café--para os estribos.
O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
desde hoje e para todo sempre invenciveis.
Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os
pés!
De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
de piugas.
* * * * *
Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
pés quentes!
Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.
Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés
quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!
* * * * *
Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
Tavira_.
Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!
Eis a moção:
«A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»
Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
os srs. deputados.
* * * * *
O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:
«Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
constitucional.»
Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
apparecer.
E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
illibados.
* * * * *
Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
ha dois annos.»
Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:
«A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
independencia, e passa á ordem do dia.»
Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:
Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.
* * * * *
Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
Palhés e a villa de Mangualde.»
Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:
«A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»
* * * * *
Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o
que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.
* * * * *
Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.
No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não
certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.
O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
moção:
«Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
as instituições.»
Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
instituições, de respeito e affeição á dynastia_!
O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
conspirações continuadas.
O partido historico caiu victima de uma conspiração.
O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
ao mais a que se podia chegar_.»
Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!
* * * * *
Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.
* * * * *
Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
funeral.
Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.
Dizia-se fallando-se d'ella:
«Deixou pouco.»
«Que fez ella ao que tinha?»
«Que miseravel! que mesquinha!»
E um jornal catholico escreveu:
«O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
cautellas de vinte e cinco.»
Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
homens deseguaes.
Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.
Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
o descanço eterno.
E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.
As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de
imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
similhantes condições e com eguaes amarguras!
Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
considerar-se menos que quaesquer outros.
* * * * *
É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
pela mulher digna e virtuosa que morreu.
* * * * *
Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
feridos e dois mortos.
Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
ninguem era ferido.
Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.
Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
delicto? _«Por abuso de defesa»_.
Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
defeza_.
* * * * *
Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»
E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!
Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...
Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...
Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
Melicio vela!
* * * * *
A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.
* * * * *
Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.
O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
deputado, com voz pausada e firme disse:
«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
a quem verdadeiramente podemos chamar ...»
Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
um raio de enthusiasmo fecundo e creador!
O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
Vozes: Muito bem! muito bem!)
* * * * *
Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.
Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
á beira dos golphos innundados de azul ...
Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
_Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
com brisa fresca!_
* * * * *
Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
seguintes:
Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
inspirada voz!
Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
assembléa, labio tão selecto como attico!
Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).
Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!
(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).
Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...
(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
um desconhecido).
* * * * *
_Áquelle que jurou assassinar-me_
Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:
«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»
Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
de occupar-se do caso.
Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.
Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.
Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
opinião:
Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!
Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
ordinariamente comsigo.
Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
fecha o discurso.
Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
e o jornalista Courrier.
Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!
Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
implacaveis da desgraça!
No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
sentia a displicencia, a melancholia.
Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...
Vermes!
O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!
E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
mas discreta.
A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!
Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.
--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!
--Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...
--O que trazia o bigode assim?...
--Esse mesmo!
--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...
E algumas outras coisas doces e impereciveis.
E do meu amigo dirão apenas:
«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»
Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
branco.
* * * * *
Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.
Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
o vate:
_Aos infieis, senhores, aos infieis!_
* * * * *
D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
ministro do reino.
O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
pasta para ir adoptar o seu livro.»
O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
de membro do actual gabinete.
É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.
O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
o chão.
Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.
Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
sorrisos, com a malevolencia das allusões?
Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!
Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
domestica.
A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
_virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
publica da sua virtude.
Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.
Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.
Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
viveu.
Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
passado no mundo.
O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.
* * * * *
Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
_Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
periodicos portuguezes são--anonymos.
* * * * *
Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
este:--não assignar.
Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
as antipathias que tenha podido suscitar.
Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.
* * * * *
A primeira razão por que se não assigna é esta:
A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
dignidade e da razão.
Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
_responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
catastrophe para a justiça.
Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
quanto mais se lê peor se escreve.
Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.
Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
jornal rouba-o o jornal á educação do povo.
Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
_galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
salchicheiro.
Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
magnezia.
* * * * *
Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
representativo nacional.
Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
abalisam uma época, enquadram um seculo.
Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:
«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»
* * * * *
O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
varões extraordinarios!
No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!
Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
nunca!»
Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
geographia--e á canalha!
Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
perra vil!
E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
ôlho de perdiz!
Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
peninsulas!
* * * * *
Agora--Barros.
Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.
Como o explica, como o justifica elle?
Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!
* * * * *
Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:
«Elle tem alguma coisa na cabeça!»
Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
parisiense de Champfleury!
Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!
Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
o povo--e o passarinho!
Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!
Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...
Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
amplidões do azul em phantasticos arabescos....
E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!
Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!
* * * * *
Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.
Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!
O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:
Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
visitas n'um só bote!
E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.
* * * * *
Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!
Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
maiores!
O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.
* * * * *
No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.
Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
novos ceus, novas floras e novas faunas.
Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.
Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
pessoas.
Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
com a Russia européa.
Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!
Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
gelados nove mezes por anno.
Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
Strelitz.
Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
caravanas do chá....
E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
subditos do grande Filho do Ceu.
E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!
E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
barril immundo para um fino cristal facetado!
* * * * *
A camara dos srs. deputados....
Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
que palpita, ao longe!
E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....
A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:
Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
barril, uma pipa ou um tonel!
E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:
«Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
vasilhas.»
Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
da Europa a este milagre:
_Engarrafar vasilhas_.
* * * * *
E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
camoeza!
Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!
Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
um capitalista ou um sabio.
Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.
Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.
Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.
Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
grande.
Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.
Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
teu voltarete.
Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque
elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
orthographia, nem mão de redea!
O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
como o foste--na politica! Não tornes cá.
Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas
moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.
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As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)
Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
Proofreading Team
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
NOVA SERIE TOMO X
Agosto a Setembro 1877
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P. J. Proudhon
SUMMARIO
Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções
musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.
O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
14 de setembro de 1877.
Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.
Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
inimitavel mestre.
O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.
* * * * *
Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_
* * * * *
Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
sociedades vivas a elaboração do progresso.
* * * * *
Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.
O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
divina verdade.
* * * * *
A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
uma catastrophe para a geração moderna.
Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.
Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.
A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
patifes, com os seus pés miseraveis.
A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.
A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
que a devia prender estreitamente á grande alma popular.
A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.
Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
importantemente o nosso estado social.
Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o
partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.
Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
convivencia e pela cultura da historia.
Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.
Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
sentimento nacional.
* * * * *
Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
dotára.
Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
mão.
Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.
Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.
Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
dirigentes, não tem esse direito.
A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.
E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
submetter-se aquelles que estão vivos.
A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.
O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.
Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
arduo e penoso rumo do dever.
* * * * *
Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.
Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
como um de seus membros, eis o que proporiamos.
* * * * *
A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
_Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.
Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das
côrtes de Lamego.
O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
aspecto,--o aspecto das nossas superstições.
As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.
De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.
Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
leis fundamentaes da nossa evolução social.
A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.
* * * * *
Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.
CAPITULO I
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.
CAPITULO II
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.
CAPITULO III
Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
Quatorze e por Cysne innarravel.
CAPITULO IV
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
Jubilo povo augmenta.
CAPITULO V
Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
_touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.
CAPITULO VI
Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
povo.
CAPITULO VII
Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
povo.
CAPITULO VIII
Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
fôr.
CAPITULO IX
Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
zenith.
CAPITULO X
Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
impossivel descrever palavras humanas.
CAPITULO XI
Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
delirante.
CAPITULO XII
Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.
CAPITULO XIII
Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.
CAPITULO XIV
Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
vertiginoso.
CAPITULO XV
Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.
CAPITULO XVI
Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.
CAPITULO XVII
Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.
NOTAS
AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
A
_Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
reproduzidas.
Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
matta.
Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.
O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
residencias de suas magestades.
Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
solução d'este problema:
Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
vezes sem se destapar o tacho;
Pergunta-se:
Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.
Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
publicas o sr. estofador Alcobia.
O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.
E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
da coroa Alcobia e Barros e Cunha!
B
_Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
detidamente o episodio narrado n'este capitulo.
El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.
Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:
--Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
immunda.
Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
rapazes onde era a escola.
Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.
Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.
São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
successivo das cadeias e dos hospitaes.
Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
medas ou a debulhar o milho.
Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
chamar:--o premio Monthyon da malandrice.
* * * * *
Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
da corôa, o sr. Barros e Cunha.
Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.
Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.
* * * * *
Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.
Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
sabia inglez.
Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
ex.ª.
Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
como a de quem falla por um nariz de assucar.
No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.
Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
adormecida.
Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.
Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.
* * * * *
Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
«caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
corôa.
Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.
Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.
No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
liberdade.
Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
hebdomadarias:
S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.
* * * * *
Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
espinha de cebo.
Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
fardamento, uma calva e uma nodoa.
Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
do seu zelo como novo aulico.
Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos
outros.
Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.
Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
em um dos lanços da estrada alludida.
* * * * *
Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
começamos por transcrever:
«Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
considerando:
«1.° Que esse contrato se encontra viciado;
«2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;
«3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;
«4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:
«Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.
«O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
officio datado de 26 de junho ultimo.
«Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._
«Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».
* * * * *
Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.
O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
portaria, um contracto de similhante natureza:
O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:
_Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
outro que o prejudica.
A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
intervenção do sr. Burnay.
A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.
As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
réis é uma calumnia.
Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
não do individuo com quem elle contractou?
Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
similhante arbitrio?
Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
contractado?
Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
delicto egual ao da camara?
Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
calumniosa, e infamante.
É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
cidadãos.
* * * * *
O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.
A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
liberdade e contra a propriedade de um cidadão.
Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).
A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:
«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»
Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.
* * * * *
Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
que os estados se moralisam e se enriquecem.
Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
governa.
* * * * *
Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
suas faculdades não lhe permittirão defender-se.
D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A
logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
de zabumba em theatro de feira.
E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
commercio e industria.
Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.
Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.
A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.
Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
não fizeram senão prejudical-a.
Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
o mesmo.
* * * * *
O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
attenção que lhe é devida.
* * * * *
_As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
as fontes da inspiração artística.
Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a
força da pancadaria.
Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.
Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
transformar o paiz n'uma almondega.
Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.
As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
victimas.
Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
polka.
Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
o caso em musica e em dansa de roda!
Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!
Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
primeira!
Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!
Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a
musica_.
Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
costume, despicaste-te com uma polka especial.
As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_
O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
tyrannia a vindicta dos povos.
Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,
ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...
Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!
Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_
* * * * *
O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
ellas_!
Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.
Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.
Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
das Mercês.
* * * * *
_A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_
Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
alliança da religião e do _chic_.
Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:
--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?
E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
os olhos ao céu.
--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.
E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
conversaremos:
--Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!
--E começa a ter crenças?
--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
meu anjo da guarda!...
--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
Pontifice, não acredita?
--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...
--Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!
--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...
--Deus do céu!
--Entre a costelleta e a omelette...
--Virgem Maria!
--Misturada com vinho de Pauillac...
--Santos e Santas da côrte celeste!
--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...
--Mas vae para o inferno essa alma!
--Está claro que sim. E é bem feito!
--Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.
--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!
--Amen! Amen, Jesus Maria José!
Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
nossas soirées ao divino.
* * * * *
Aos srs. advogados
Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.
De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.
Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
meu varapau.
Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.
Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
para o outro dia.
É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
regras.
* * * * *
Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
advogado para que este o illucide.
Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
o principio da auctoridade, recorre ao letrado.
--Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
papel official.
--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
nos olhos, atando as mãos na cabeça.
--Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
tinha alma de lhe beber o sangue!
Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.
Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.
Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
os que tyrannisam o orphão.
Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
contraria.
Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
que deseja pagar.
Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.
O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
defensor.
* * * * *
Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.
* * * * *
Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
mais ou menos do teor seguinte:
* * * * *
«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»
* * * * *
A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
collegios de Lisboa.
A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
_réclames_ das suas distribuições de premios.
Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
egual exito com relação á lingua ingleza.
O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:
_Elvira Fernandez me fecit._
* * * * *
Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
conhecimentos theoricos da formação das palavras.
Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
_Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
poltronas.
Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no
estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
esposa, e finalmente como mãe.
* * * * *
De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
chamada na familia.
* * * * *
Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante
obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
Jeronyma o direito de a levarem a exame.
* * * * *
_Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
espirito virginal de uma menina,--ao
interrogatorio official de um mestre que durante
vinte minutos vae exercer sobre aquella
alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
na educação de um rapaz, para quem
o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
civil; na educação de uma menina portugueza
similhante prova é inadmissivel e equivale
a uma amputação do decoro.
Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
tornar mais educada.
Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
maioridade e de emancipação legal.
* * * * *
Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
dialogo:
_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?
_A examinanda_--Quando me vou deitar...
_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.
_A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.
_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz
depois de se despir?
_A examinanda_--Tenho vergonha...
_O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!
_A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...
E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
emittere_.
O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.
É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
sabem ou não «civilidade».
* * * * *
Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.
A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
que a da instrucção dos homens.
As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.
Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:
1.° Curso de aceio e de arranjo;
2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).
3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.
* * * * *
No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
idéas, as seguintes noções praticas:
Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
pequenos jantares.
Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.
No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.
O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
boa digestão.
Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
nacional.
Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
perfeitamente transparente.
Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
_substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
_substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
papão!
Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
governa o mundo e determina o destino das sociedades.
Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
cozinhas dos differentes póvos, etc.
A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.
Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.
O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
anno em que elles houverem de ser feitos.
* * * * *
No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
sabiamente dirigida.
* * * * *
Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
doce refugio.
Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
dotar-se a mulher.
* * * * *
Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.
Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
meteorologia nas obras dos arabes.
Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.
Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.
* * * * *
A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.
O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
impõe.
Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.
Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
contemporaneas.
Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
_ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
permanentes.
Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.
O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.
Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
réclame de modas.
Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
publicados nas _Transactions of international association for the
promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:
_Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;
_Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
inferiores_, por Mary Carpenter;
_Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;
_Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;
_A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
Bessie Parkes;
_A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
Remand;
_Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
mulheres,_ por Jone Crowe, etc..
Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
uma vida extremamente simples e retirada.
Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
nem dá literatas.
Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]
Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora
5--PATEO DO ALJUBE--5
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883
LISBOA
EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA
Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em
nome do rei.
SUMARIO
Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o
acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel
parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do
príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de
sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas
convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha
na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o
cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A
viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o
príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao
throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que
for servido.
LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883
SENHOR!
E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos
traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.
O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia
garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o
Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de
usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em
que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente
do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey
nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.
Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos
deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio
da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,
correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.
D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.
Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas
pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar
vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e
das coisas da civilisação entre gentes extranhas.
Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada
pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois
abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As
Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica
e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se
tratava.
Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,
atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,
quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para
encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento
presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que
vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa
acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação
remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar
dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques
debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa
alteza.
Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as
instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade
Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria
Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,
quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,
que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria
do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.
Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas
o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.
Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do
trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos
pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os
Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As
academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão
nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as
pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes
oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo
com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:
--O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe
seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o
immortalisarem no eterno jubilo das gentes!
E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da
sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta
perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra
cathedralesca.
Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.
Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso
dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da
educação d'alguem que seja n'este mundo?
Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!
Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente
fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual
Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e
porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para
o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da
_Delphina do mal_.
Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se
achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se
lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...
Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!
Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,
sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e
em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes
ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador
berrava:
--Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa
com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do
que os rapazes precisam para ir para leis!
Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem
religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho
d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de
Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira
do predio.
Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos
lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois
é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação
capaz.
Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a
mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,
_que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!
E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou
enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,
que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro
ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!
Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar
no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;
mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro
das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito
de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de
magica no theatro de D. Maria.
Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles
pegaram n'uma questão d'arte?!...
Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual
reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção
d'arte com _quatro potes etruscos_.
Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira
parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram
por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa
presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças
familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde
muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.
Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes
exprimiram com unanimidade:
--Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!
--O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão
inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus
extrangeiros!...
--Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e
subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em
potes.
E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito
supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte
nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,
nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual
a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra
de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por
quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns
dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas
antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo
que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,
só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de
compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!
Tal é a camara, ó serenissimo principe!
E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia
corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.
Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de
assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva
em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a
deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação
nacional é o boi gordo.
Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o
trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros
e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.
Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.
Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,
considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso
foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com
prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em
portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de
instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e
applauso geral dos doutos.
Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.
Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros
e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo
que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_
presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade
geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados
e iam a ministros.
A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica
portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo
_odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres
entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.
De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o
entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola
pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.
A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da
sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos
fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a
amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.
Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa
alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o
primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos
desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e
muito em especial dos de vossa alteza serenissima.
Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus
illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam
com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje
de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.
De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario
publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,
jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e
luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava
dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.
Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.
_As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que
vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio
dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que
vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um
cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura
nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por
um simples phyloxera.
_As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de
flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem
luvas.
Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o
decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de
vossa alteza, se nós, seus criticos.
Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção
secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de
hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica
e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse
sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que
era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr
defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,
pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na
Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a
explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim
o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.
Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os
dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe
acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio
pão.
Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem
ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema
nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o
estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu
mestre.
Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,
do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a
educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica
Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos
bar-baças aposentados da magistratura e da academia.
Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os
pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da
natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,
cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas
sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás
engommadeiras virtuosas.
Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?
Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos
principes como o proprio livro de Machiavel.
Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a
tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.
É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha
agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo
da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,
applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se
apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real
banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na
caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se
retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da
regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,
mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de
gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural
affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e
metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o
vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar
os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava
escripturado.
Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se
ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos
duros encargos da publica governação espreitando um momento pela
fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza
Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,
apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de
chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que
dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e
cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira
por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com
o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.
--Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz
acre.
--Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza
Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não
tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.
--Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo
na testa e com os braços cruzados no peito.
Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
orelhas, o rei disse-lhes:
--Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido
aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo
tres perus gordos e emborrachados!
Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito
pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se
lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos
_deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.
Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos
seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,
que a pena ultima lhes seja commutada.
Piedade, principe, piedade!
Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As
Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio
de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a
sua familia, com a sua côrte?...
Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento
encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as
maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do
palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos
cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das
caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.
Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa
alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos
_louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?
Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha
cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da
rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e
de peixe frito?...
Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom
gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto
de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do
recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente
e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da
Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.
Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os
individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de
instrucção.
Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto
d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas
linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:
_Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite
ir extrangeiro principes, e se vae._
E recebemos a seguinte resposta:
_Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir
Collares burros, e não vou._
Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!
O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a
honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o
detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de
sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao
feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos
nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás
ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá
licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á
vontade, que o bebe por conta do lavrador.
Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!
Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse
major_.
Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os
derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,
para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos
reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,
sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos
dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o
abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando
chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.
Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ... Um chimico,
senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um
troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além
d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos
que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham
o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa
satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á
avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain
d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á
França:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai
seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!
E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com
malicia, terá de acrescentar:
--_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_
Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...
E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que
ha que ver por esse mundo!
Um olheiro, de galochas de borracha na vista!
Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão
até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o
seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno
incognoscivel!
Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos
sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que
dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida
nenhuma que vae perfeito!
E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,
quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café
Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é
precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão
alguma, a do bissulfato de potassa.
Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa
alteza vae concluir na sua proxima viagem.
Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
d'essa educação no seguinte quadro:
_«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,
hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.
Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
para o estudo superior da philosophia do direito.
Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
systematica da philosophia.
Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da
philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto
antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da
administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.
Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas
e analyse de seu systema eleitoral.
Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo
sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte
Lagueronière.
Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
até a actualidade.
Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de
Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.
Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;
tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
commercio d'este mesmo anno.
Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua
alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._
Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.
Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do
direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
(1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,
como meios economicos.
Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de
fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
applicação á organisação de Portugal.
Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.
Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem
podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.
Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»
É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o
comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem
detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em
frente de um testemunho authentico, de um documento historico.
Analysemol-o.
Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu
cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda
a intelligencia.
Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está
redigida esta exposição.
Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza
rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou
pelo estudo aprofundado ... Depois começou os estudos de philosophia ...
Começou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o
estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que
vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.
Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás
escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que
o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade
d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por
objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do
universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa
investigação ás seis ordens seguintes:
1.--Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,
ou phenomenos _mathematicos_.
2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas
distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.
3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
acustica, ou phenomenos _physicos_.
4.--Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos
_chimicos_.
5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.
6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
_sociaes_.
Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de
dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos
da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª
sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.
Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções
mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.
Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina
scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.
As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
fundamentaes.
Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo
e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da
astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da
chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a
_observação critica_ e a _filiação historica_.
A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas
grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e
tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais
segura das chaves para a coordenação das ideias.
Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:
«Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma
verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a
contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não
sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr
senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a
funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar
primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente
accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na
especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é
tambem no conjuncto.»
Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na
ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A
genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da
genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos
conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis
biographicas e á vida historica da especie.
Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de
ministrar-lhe.
_Sua alteza_--diz a informação que analysamos--_começou pelo estudo
aprofundado da philosophia_.
Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance
pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.
Principiar pela philosophia!!
Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
dogmatismo dos mestres.
O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo
espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos
phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino
do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?
Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
abstracção psychologica de fim e de origem?
O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino
é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
applicação.
Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o
conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
factos particulares?
Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão
extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos
numeros?...
É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de
Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke
ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o
scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É
o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o
idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de
Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de
Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o
evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?
A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á
redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
esta cruel duvida.
Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
é a _philosophia racional e moral_.
Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
_objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo
que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
mas que não é d'essas que se trata.
Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a
philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É
triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa
que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
_desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de
virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.
O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta
que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo
superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em
seguida o estudo do direito natural_.
Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até
os nossos dias.
Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias
pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
funerario_ e do _Livro dos mortos_.
Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço
da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.
Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas
indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da
Syria.
Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo
quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a
respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.
Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,
Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os
_Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,
comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um
anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.
Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas
investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros
sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos
conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.
O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a
reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.
Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.
Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em
Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma
manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se
conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente
porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque
seja um ideal innato á natureza do homem.
O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os
philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam
recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos
processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a
natureza é immoral e é iniqua.
A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o
estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma
eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?
Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e
expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A
theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»
Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
equitativa distribuição dos bens.
O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma
reacção contra essa lei.
A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a
protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela
vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.
Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em
conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao
paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom
divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.
Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de
cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.
Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o
direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
_nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.
Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de
ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos
idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.
Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um
facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,
no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só
palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.
Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a
qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de
redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,
a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o
milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é
o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um
menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino
emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á
tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que
ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
internacionaes,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho
que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
kilo da carne ou o litro do azeite!
Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção
intellectual do homem.
É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de
vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas
publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não
vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
companheiros.
É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da
mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a
primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade
humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais
perfeita do individuo á communidade.
E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as
curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a
que pertencemos.
Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado
atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão
prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a
responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem
agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as
«companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do
caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
filhos.
O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas
ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
lhe respondera:--não. «Senti-me então desfallecer,--diz elle;--todas as
fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr
apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,
revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe
communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração
palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o
reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,
cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
amantes celebres.
A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se
ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o
não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se
fazer um homem.
Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr
Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,
abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina
haurida nos compendios do snr José Garnier.
Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões
feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia
que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver
opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que
teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se
adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel
conhecer e tratar.
É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca
da educação dos seus filhos.
Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos
burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.
O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de
Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma
universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,
filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram
em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais
estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,
irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,
beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e
cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em
Heisterbach.
O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,
fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.
O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é
alumno das universidades de Iena e de Leipzig.
O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de
Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.
O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é
egualmente formado em Bonn.
O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da
conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um
curso de economia politica.
O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em
Paris, no lyceu Louis-le-Grand.
Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de
Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe
imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros
são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa
alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em
tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão
cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação
dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na
convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á
desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em
capacidade, entre os homens eguaes em condição.
Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na
Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta
republica helvetica.
O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe
Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas
publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e
de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu
valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam
finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e
constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.
Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,
conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o
seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus
affectos desempregados.
Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa
alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:
_Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir
dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos
seus filhos._
Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante
intervenção!
É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do
encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem
devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.
A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos
quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos
que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos
quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.
As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções
physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que
nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como
nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.
Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades
intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o
d'ella.
Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de
que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues
e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de
couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta
verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua
meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do
amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas
cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.
Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja
convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas
faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.
A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a
honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique
para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós
arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o
fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.
O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade
scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,
cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada
das suas azas desdobradas e pendentes.
E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do
coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente
doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das
amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração
no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,
escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou
sobre a nossa infancia a perola da candura.
Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou
já a fructificar.
Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias
ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um
amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.
Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em
periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a
vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu
peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos
beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,
feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo
Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e
confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da
Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial
mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os
anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.
Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida
que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está
destinada.
A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão
acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre
mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que
praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que
delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa
alguma.
É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos
tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com
tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da
responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.
E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a
universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma
mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no
conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa
alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas
tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza
em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.
Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,
conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos
seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que
cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua
immobilidade mental ás gerações mortas.
Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe
venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,
antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a
mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para
que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe
servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa
alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome
do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da
Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar
simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a
Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.
Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,
e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a
excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos
Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como
quem vae preso para o calabouço.
Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder
executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que
assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações
de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas
lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza
saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,
e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza
tem por missão deslindal-os.
Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações
internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa
alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é
substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza
corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom
conselheiro.
Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é
segundo tenente da armada.
É summamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira
das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in
absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,
dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e
litterarias.
Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito
doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com
vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial
da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.
Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario
natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da
faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e
progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é
alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia
muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado
em direito.
Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das
quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de
devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente
eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos
seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e
logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar
significados.
Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o
seu proprio capellão ... Vossa alteza é extremamente bom e amavel em
sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito
sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não
é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.
Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o
obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar
livre dentro de uma estufa pôdre.
Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen
no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.
Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os
reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,
mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente
á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço
constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a
luz.
Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos
principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da
educação de vossa alteza se resume n'isto:
Que o libertem!
Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é
preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos
bastardos--sem pae e sem padrinho.
Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos
homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos
camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.
Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:
o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do
throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia
do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada
uncção como a da santa chrisma.
Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes
e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou
chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a
educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se
atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua
unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de
um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por
aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou
por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir
a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como
official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também
não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã
e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no
governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na
lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade
individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como
o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de
Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de
Washington, como o de Lincoln.
Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua
vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção
inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação
nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na
Suecia.
A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa
resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da
obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como
um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr
Aguiar, dentro da jaula da disciplina.
E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição
isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e
fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de
todas as outras lições funestas que lhe teem dado.
É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma
vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,
para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para
cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia é o systema da
negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,
perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser
um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que
se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,
porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.
Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre
um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para
ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de
um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.
Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza
o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,
inrelligente e honrado.
Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões
officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a
fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente
aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua unica
e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.
Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.
A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente
intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a
humanidade.
Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a
educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens
de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo
elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos
paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó
do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha
sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que
affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a
educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos
Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais
veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,
a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no
escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento
singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito
encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos
parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e
de confiança illimitada.
Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,
quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle
mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos
estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão
viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do
violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e
extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,
docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia
que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,
espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.
Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por
meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua
mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para
Paris com o seu preceptor.
Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem
verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O
menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus,
parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de
um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e
pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando
o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em
dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se
repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final
uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um
perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o
cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde
o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do
cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.
Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario
para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma
mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias
positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de
proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no
conhecimento do occorrido.
O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne
n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE
d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître
d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por
um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal,
deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á
traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou
unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e
implacavel bigode.
Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não
enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou,
fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas
indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora
marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido
miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu
filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem
perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer
parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.
E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e
acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um
theatro que os escripturou como violinos.
Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica
que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu
braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura
se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam
juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos
boulevards.
Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A
nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum
instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que
exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte,
e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o
arnez theologico do seu amavel aio.
E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem,
para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa
no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos
_gentlemen_.
Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real
senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são
insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.
Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.
Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão!
Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples
d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter
uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de
si o mundo inteiro que dar para esses legumes.
Tudo mais é simples detalhe.
Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho
de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á
linha, um cavallo pronto e ligeiro.
Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e
_Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps,
o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante,
immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas,
redondas, avidas, nervosas e palpitantes.
Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando
ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés,
prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.
Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!
Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que
rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para
a banda! a etiqueta que estoire!
A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.
Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?
Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou
á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.
Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da
Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão
desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de
toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade
sacrosanta de _touriste_.
Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe
prestar defesa e homenagem.
Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a
coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o
defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o
habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de
noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á
sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus
inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia
Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.
Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem
impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto,
chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.
--Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da
força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo
civilisado.
Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe
herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que
se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não
houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu
reino.
A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon
esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a
commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer
coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais
fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente,
como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém
de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um
antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara
familia de Nassau.
Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem
violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a
demover jamais de Paris a sua mala grande.
Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam
algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as
convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no
foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho
pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:
--O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a
Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a
minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.
Acceite os meus parabens.
Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:
--Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já ...
Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu
herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz
na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser
um _viveur_ morto do que um rei vivo.
Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um
_entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o
Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de
litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que
devem constituir a sua primeira roda de companheiros.
Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no
mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista,
para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o
snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o
introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda,
tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o
levar ao mundo onde a gente se diverte.
Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em
Paris.
Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas
suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples!
Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a
gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se
instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo
em que entra lhe mostrar que não sabe.
Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da
manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com
agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo
irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de
Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em
seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de
França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de
Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao
Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a
volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five
o'clock_.
A' noite--como se não é principe impunemente--as conveniencias exigem a
toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e
a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer
que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os
prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.
Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de
conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena
theatro.
Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que
seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de
Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o
snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a
explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios
antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!
De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber
cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro
branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a
um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida
provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.
Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro
tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a
chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a
decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a
ninguem.
Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio
social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do
dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a
cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.
De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado,
casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás
burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o
abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a
perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.
Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente
algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição
social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam
por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de
ficar ao pé d'ellas para toda a vida!
Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces
horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se
d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr
pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa
alteza.
Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres,
aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento
excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres
da categoria a que nos estamos referindo ...
(O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha
incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar
ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a
_timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)
A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se
essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a
alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de
coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam
jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos
hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de
Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe,
os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.
Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est
des nôtres!_
Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa
alteza elle dissesse outro tanto.
Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza,
vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...
Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!
Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou
obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a
importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam,
das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus
similhantes.
É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao
ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno
de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando
tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico
ou mais bello.
Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra,
impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a
aspiração immortal do espirito do homem.
É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.
É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados
pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela
profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo
sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma
ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão
da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset,
Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura
do vulgo, e ser um homem.
Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!
Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para
outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção
technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.
Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um
homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem,
fica sempre um subalterno.
No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as
sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis
mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens
mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os
moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza
unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas
trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente
instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere
como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!
Portanto, e em conclusão:
Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na
sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á
natureza um sadio e valente animal.
A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é
indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes
deve:--desgostos!
Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão
dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr
Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.
N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de
vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós
abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom
senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma
subscripção nacional.
Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas
que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.
Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza
põe em nosso lábio o sello da reserva.
Faremos fervorosos a subscripção.
O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e
tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que
Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro
dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as
revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós
somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos
descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe
perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.
_Ramalho Ortigão_.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE N.º 2
NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
SUMMARIO
Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.
* * * * *
«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
Está approvado.»
Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
* * * * *
Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
venia e diz:
«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»
E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
* * * * *
Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
oratoria sacra.
Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
para este effeito invisivel.
Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
com as marionettes.
N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
accordo.»
Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
para approvar.
* * * * *
Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
herva crescer.
* * * * *
Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
perigos, apertando-se de mais com o fiado.
Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
nossas intimidades com o Divino.
É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
divino.
Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
no espaço,
Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
apoplexia.
Acontecem d'estas ás vezes!
Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
terrestre.
* * * * *
O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
d'hostias quotidianas.
Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.
* * * * *
Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.
Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
* * * * *
O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
cherubins no gallinheiro celeste.
* * * * *
O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
parte do snr. França Neto.
Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
simples ciprestal sentado,--com defluxo.
Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.
* * * * *
Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
morto, e nunca mais resuscitará.»
Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
religião.
Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
decretos ou por castigos humanos.
«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
deem em toda a parte onde fordes escravos.»
Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
* * * * *
Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
historia das ideias clericaes.
O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
liberdade.
Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
_liberdade da sciencia_.
Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
civilisação.
Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
gremio da egreja.
N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
liberaes, julgaram impossivel transpôr.
* * * * *
Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
* * * * *
A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
todas as sessões.
Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
as adhesões da mulher?
Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
d'aldeia e o padre de sala.
* * * * *
Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
aventureiros e os mysticos.
Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
pretos do que elles são.
Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
inhospitas e selvagens.
Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
o outro:
--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
* * * * *
O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
estonteadores.
As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
no arraial.
Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.
Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
* * * * *
O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
boleeiro, o creado de farda e a preta.
As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
dos seminarios.
É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
_chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
chão!
E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_
--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»
Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
Alguém á noite pergunta:
--Que é feito do padre João?
E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
responde lentamente:
-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
meio de uma ligeira admoestação corporea.
--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!
--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
pelo lado _cunhos_.
* * * * *
De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.
O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
pecaminosa.
Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
foram manufacturados.
* * * * *
Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.
Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!
Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
de Castello Melhor. Que contraste!
Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.
A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.
A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
e a pratica da devoção.
O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
vae para padre, isto é, por simples estupidez.
Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.
As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
* * * * *
Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
debalde, transformal-as em obras.
Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
infestam, sevandijam e conspurcam.
Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
vigentes.
O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
de pistola.
Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
dos seus compatriotas.
Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
consternação em que todos se achavam_.
E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
profunda de tão excelso quão sensivel principe.
* * * * *
Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
têem os povos egualmente?
Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
como os reis choram pelos seus bons subditos?
Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
a queda de um honrado cidadão que morre?
Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
perfeitamente a mesma coisa!
Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
das proezas do tiro ao alvo.
* * * * *
Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
* * * * *
A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
banca e o dos parceiros.
O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
_algum dinheiro e mobilia._
Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
e desapercebidos.
No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
as jogatinas.
Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
discutir com ellas sobre esta questão.
* * * * *
O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
Senhora da Luz.
No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
circulos concentricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
apostas.
Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
que scintillava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
que tinha mais proximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
cartas que em seguida sahia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
trez de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
--Mata o rei?
Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
--Mato-o, sim senhor!
Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
cartas 3$000 que tinha posto.
O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
que comprimia nos dedos.
A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
parada egual á minha.
Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
bem caracteristicamente mediocre.
Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
recebida n'esse mesmo dia.
Fiquei na batota até pela manhã.
Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
pautava luminosamente d'azul.
Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
raivosamente pelos pontos.
O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
o collarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
d'ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
sovaco.
--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
estrangulada.
E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
os olhos torvos!
--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
janella.
E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
modo que me está a appetecer isso, a mim!
E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
sempre velados pelo mysterio.
* * * * *
Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
batota!
Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
solto.
E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
assalta e sequéstra as batotas!
Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
chalaça!
* * * * *
Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
_Frei Bandalho_.
Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
vulgarisação da litteratura jornalistica.
Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
_Bisborria_ e o _Pulha_.
A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
* * * * *
S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.
Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
Inclinemo-nos com reverencia!
Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
Tornemos a inclinar-nos!
E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
meiados do decimo setimo seculo.....
Prostremo-nos por terra!
* * * * *
D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
conde de Sabugosa.»
É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
pena de experimentar....
De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
os gostos d'horta ou de capoeira.
O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
* * * * *
Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
de escamas de corvina.
Tambem folgamos muito com isto.
Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
artes do desenho.
Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
suas boas mestras!
Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
Leopoldo!
Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
* * * * *
Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
aprehendidos.
O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
propriamente--uma _vacca_.
* * * * *
Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
gracejo_.
O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
chamado a resolver questões d'olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
que entre esses dois amantes se passou!
O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
ironica:
--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
Oh! amor!... amor!
Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
juizo.
Diz o jurado:
_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
ôlho á queixosa?_
Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
XVII pelas damas illustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
obrigação d'este é por-se de rôjos.
* * * * *
Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
Bragança Junior.
Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
da patria.»
Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
a descobrir que ella era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
* * * * *
Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
moveis artisticos.
Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
desafogo de alguns commentarios.
* * * * *
A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
João v.
Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
ferros-velhos.
* * * * *
É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
* * * * *
Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
quanto talvez ephemera.
Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
bem dissolvente!
Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
* * * * *
Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
foi victima o mais bello gato de sua magestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
* * * * *
Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
reconhecel-o e a lamental-o.
* * * * *
Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
archeologicas.
* * * * *
«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
nação portuguesa!»
* * * * *
Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
pé outra vez.
Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
primeiro repente gostamos d'elle.
Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!
Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
ninguem.
Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
peiores de todos!
Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
e o arcebispo de Bragança.
O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
que é fazenda.
Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
gallinha!
Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
exercito das trevas_.
Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
melros. Rua, que é a sala dos cães!
Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
escusa-se de bispos.
Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?
E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--
Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
_Nação?..._
Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
que ha pouco demos á nossa cosinheira:
--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
* * * * *
Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
propicio para cardinalisar Masella.
Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
Oh! não.
Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
distribuição dos barretes phrygios.
O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
tostões e meio.
De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
dizer em tal conjuntura:
--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
* * * * *
Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
Eis o caso:
* * * * *
Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
pessimos alguns dos bispos propostos.
--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
precisamente opposta á que eu tenho!?...
--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex.ª me consultava....
-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
liberrimo governo da nação portugueza.
--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
e snr, agora, o vereis!
_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
* * * * *
Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
folha:
_O nuncio desacatou sua excellencia_.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
periodicos ministeriaes.
_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
um calor_.
* * * * *
Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
occasião d'este jubiloso successo.
* * * * *
E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?
* * * * *
Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
pensadores?...
Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
Vejamos, sinceramente:
Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
confessar mulheres?...
Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
a fallar n'isso.
Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
bispos.
Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!
* * * * *
A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
republicano de opposição ao governo.
Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
Parabens a sua excellencia!
* * * * *
Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
Carnaxide.
Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
gorgeios.
Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
magestoso acima do narravel.
Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
vida em direcção á faia virente.
Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
ao lado.
Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
as nuvens, exclamou:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
negocios do reino.
Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!
E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
exprimir-se em prosa:
--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
penna e de governação.
Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:
--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
quebrada da serra?
E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
Nossa Senhora Apparecida,
--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
templo!...
Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
publica:
D. Miguel foi á Sé,
Sentou-se n'uma cadeira,
E disso para os malhados:
Esta perna está inteira!
Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
submissos em giolhos.
E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
repetir aos montes e ás hervinhas:
Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
de nunca ter visto Lisboa.
Gloria pois a s.ex.ª!
* * * * *
Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
A patria explorava-o e ria-se d'elle.
Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
agraciou a regia munificencia.
Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
extrangeiro.
Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
Lisboa 15 de dezembro de 1882.
_Ramalho Ortigão._
JIM - Assistente
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As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE N.º 1
JUNHO A JULHO 1882
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A
arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de
Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e
do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da
agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as
actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A
estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do
cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
para o outro.
* * * * *
Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro
milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.
Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é
exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.
Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
a ideia.
* * * * *
Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
constitue a nacionalidade de um povo.
Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...
Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.
As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.
* * * * *
Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
categorias diversas.
Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
esse fim.
Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
terra.
Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.
Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.
Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
Baixa.
Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
desprestigiada e choca.
Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
dissidencias acrimoniosas de detalhe.
Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.
Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.
A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
que seja, deram o nome de _eterna essência._
Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
_absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
d'ella.
Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
muitas vezes a alliança da familia.
* * * * *
Passemos á politica.
N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.
Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.
Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.
Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
para ahi é que elles não vão.
Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.
São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer
que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
estéril.
Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
de cabellos tingidos.
Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.
É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
separação dos interesses operou a separação das energias.
É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
effeito de si proprio.
Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
affirmação em evidencia de facto.
Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
chama--_a questão da fazenda_.
Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás
desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não
tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.
Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.
Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
tem os outros dois!
A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus
privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.
Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.
Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha
birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das
contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.
Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
passou no estado de consolidação para o saco de traz.
A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
de saco, ella cresce.
Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
pague.
No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos
encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da
fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
ligado aos progressos da industria.
Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra
vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga
dos governados para o despreso convicto dos que governam.
* * * * *
Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
á protuberancia de cada calo.
Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e
da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.
Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.
A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
o interesse.
Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.
O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
transacções entre o homem e o infinito?
Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
determinadas pela constituição do meio.
Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
correlativamente as sympathias dos individuos.
Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
orelhas, o rei disse-lhes:
--Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.
Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o
_stylo furriel dos batalhões da carta_.
Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
do publico?
Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
insubmissos e o grupo dos domesticados.
Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.
Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
_cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.
Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
paginas de poema, de romance ou d'historia.
A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
barrigas, todas postiças.
Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
_nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.
Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
da Baixa.
Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
tremem-lhes as pernas, e acocoram.
Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.
Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.
Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
cynico.
Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que
elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do
Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
incivis do gado vacum.
O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.
Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
_bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.
Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
profundas as nossas dissidencias estheticas.
Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
_questão dos pintores_, a _questão dos musicos._
Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez
ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!
* * * * *
De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na
arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
cohesão da ideia portugueza.
N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
como gotas d'oleo n'um papel passento.
No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
do repositório.
De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.
* * * * *
Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a
prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem
receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da
patria não movido de premio vil_.
Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
eslas linhas.
Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
ainda que immodestamente, o registam.
Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção
d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.
Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
desprezo dos seus similhantes.
As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
carcere.
Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.
Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza
de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
verdades em evidencia.
Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
preciso uma broca.
As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
uma vez participantes no movimento do seu tempo.
Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
durante trez dias com trez noites.
--É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos
chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
nossos reis e nas estalagens.
A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
pela gargalhada as mandibulas do publico.
Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.
Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
cohesão social do espirito portuguez.
Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
poesia eterna.
A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de
energia e de revivescencia patriotica.
Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.
Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
cobarde.
Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
pbrase:
_A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara
aguarda as determinações do governo.»
A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.
* * * * *
Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
parecia poder-se deduzir:
_Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle
proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
do muito que já brilhava pela inanidade.
_Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.
_Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
assim como a ordem social e a ordem economica.
* * * * *
Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:
_Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando
d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.
_Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.
_Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e
fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
_self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.
* * * * *
Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
d'essas soluções?
* * * * *
Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
um _troca-tintas,_ apenas.
N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
ventos do seculo.
Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á
gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.
Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
pudicicia de vestal velha.
Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
geraes.
Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.
Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
Melpomone.
* * * * *
Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.
Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
dentro.--Truz truz truz!
--Quem é?
--Está em casa o governo?
--Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.
Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
explique as coisas!
Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
Serpa.
* * * * *
Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
congresso das associações confederadas.
Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
symptoma culminante e preciossimo.
Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
canonisado pelo enthusiasmo popular.
* * * * *
O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a
mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.
Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na
sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.
Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
maquina politica.
Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.
Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
em que principiaria a ser necessaria.»
Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
sociedades.
Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:
«Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
_legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são
simplesmente os servos d'aquelles homens.»
Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
Spencer.
Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
simples trabalhadores.
O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?
Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
Napoleão.
O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
produzir trabalho.
Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
modesto professor como Adão Smith.
Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
da fauna do mundo moderno.
Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
da _Declaração dos direitos do homem_?
Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
de trabalho.
A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.
Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.
Na Europa já não ha d'isso.
Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
governantes.
A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
precederam.
A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
Bernouilli, etc.
Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.
* * * * *
Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.
Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente
passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
Campomanes e Florida Blanca.
D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
carece de originalidade.
Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
no governo das monarchias modernas.
As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.
O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._
Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.
Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
o penetraram inteiramente.
A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
alcovas.
Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
ministro na côrte de Lisboa.
Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
no seu paiz.
Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
ministrado.
O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
cada um por meio dos effeitos mais expressivos.
Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
_tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
transfere para os membros das academias e das universidades a censura
até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.
Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
não paga um _sou_.
Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»
A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
bens, nem crenças, nem opiniões.
O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
privilegiada.
Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
produzem e aquelles que consommem.
Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de
Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
liberdade.
O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
cidade.
O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
reclame.
Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»
Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o
publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
como se faz aos pudins.
Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
mundo civilisado.
A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
toda a área da ordem social.
De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
temperamento e a paixão.
Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,--o arroz, o vinho, a
manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
a philosophia, a historia, a moral e a canella.
A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
pensar, de cebo para resistir.
Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
do principe e escarmento dos subditos.
Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
traição.
O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.
Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
de pé descalço.
Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!
Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
um laço de fita.
E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
participado na aggressão ao principe.
Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
destruir.
É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.
Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
espavoridos e cegos.
Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.
A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.
Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.
Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.
A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
resultado de um equivoco.
Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.
Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
mesmos principios.
Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
retardar a queda_.
A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
fabrico.
A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.
Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
cabeça.
Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
secularisado todo o seu programma de poder.
Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
_Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.
Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.
A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
formas de jesuitismo applicado ao ensino.
A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
seus alumnos nos domingos e festas de guarda.
Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
cepa torta da intelligencia.
Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.
O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
cada anno lectivo.
Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
maior será a confusão do seu cerebro.
A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
dogmatico ou metaphysico.
A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.
Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.
Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.
O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
quadrado,--com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.
N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.
Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
trambolho de chumbo que os afunde.
As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.
O historiador snr Henri Marlin pergunta:
«O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
da verdade.»
O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.
A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.
Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
Carvalho--feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
cacete e uma espessura de baluarte--fez de Portugal á força de leis e de
sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.
Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.
O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
casca.
Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
batina e a ovos molles.
O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
escorraçava-o e perseguia-o,--que é sempre assim que os reis pagam aos
plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»
O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme--a obediencia
geral.
Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.
Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
este personagem sem ideias nenhumas.
Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece
demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos
contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
que nos governou o marquez de Pombal.
Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
pacto constitucional.
Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._
A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
_creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
_liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).
Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
governos como o de Pombal lhe opposeram.
Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»
A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
moral da humanidade.
Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
a salvação do povo_.
A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
ingenita.
* * * * *
Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
que é necessario que a gente se colloque.
Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.
Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
charlatanismo dos seus tyrannos.
O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
ainda de talento que de pudor.
Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
uma charrua.
Lisboa 10 de junho de 1882.
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
covardia, instituição publica, etc.
Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
pertencendo a duas classes distinctas:
1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;
2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
Estados.
Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
collectivo.
* * * * *
A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
feridos pela perpetração do delicto.
É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
vingança.
Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
crimes, são verdadeiros erros!»
Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
sancções penaes.
* * * * *
Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
attentados e despedindo os reos em paz!
No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
oito annos de degredo para a costa ds Africa!
O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
* * * * *
Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
iniquiedade monstruosa.
O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
do serviço militar.
O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
as sociedades teem em que deixe de haver militares.
* * * * *
O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
militarismo e da guerra.
Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
mortos.
Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
instrumentos da perpetuidade da raça.
* * * * *
Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.
* * * * *
Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
gymnastica tinha um caracter immoral.
S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
que medeia entre o tapete e o lustre.
Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
* * * * *
Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.
* * * * *
O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
procere um tão ligitimo horror.
* * * * *
A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
de cura de alienados pela transfusão hypodermica.
Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
central, é a gymnastica.
O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»
* * * * *
Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
exercicio.
* * * * *
Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
doutor Burq.
* * * * *
A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
exercicios gymnasticos.
* * * * *
A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.
* * * * *
Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.
* * * * *
Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
obesidade e contra a idiotismo.
* * * * *
Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
duas casas do parlamento.
Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
n'aquellas em que a gymnastica não existe.
Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.
O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
seguintes movimentos:
Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
meditar sobre a felicidade da patria.
No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
seguintes:
Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
* * * * *
Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
Velar-lhe a face!
* * * * *
A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
cego já vê, a paralytica já anda_.
* * * * *
Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
resultados obtidos pela romagem.
Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
locomotores com agua das latas?!
E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
largo de S. Roque?
E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
_andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
maior do que as que levou!
Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
que visse tambem por outros membros.
Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
vemos que a paralytica nos sae pedrez!»
Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
ordem, porque os ha muitos maiores.
* * * * *
Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.
O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
exemplos.
Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
estado do satisfação ineffavel.
O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)
Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
20.)
Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
escapularios!
As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
por um oculo!
O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
dito padre Guglielmi.
De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!
Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!
Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...
Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
jornal! Cruzes, demonio!
* * * * *
Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
todos?
* * * * *
Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
esta--o _fadista_.
Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
adormecidos.
Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
vadiice, e tomou então o nome de--fadista.
O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
miseravel.
De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
todos os machos.
* * * * *
É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
incorrigiveis da criminalidade.
A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
expediente seria a morte.
É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
repetidos?
A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
É.
N'este caso pergunta-se:
Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
* * * * *
O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
photographia no commisariado geral.
Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
aos fadistas.
* * * * *
Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
lombares das musas.
Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!
* * * * *
Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.
O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
annos.
Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.
* * * * *
Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
presente.
* * * * *
_O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
o que pertence aos dominios da pathologia social.
* * * * *
Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
burguezes.
O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
ver porquê.
Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
representação da vida exterior e o systema da vida intima.
Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
religião--a familia!
Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.
Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
não ha creanças.»
Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
fresco.
Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
phenomenos.
Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
_coupés_ magnificos da piedade escolhida.
Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
desdem.
Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
sociedades corruptas:--o socego.
Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
aguadeiro, ralhando com o marido.
Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
meio dos cortinados.
Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
ou do luxo que não usa.
Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
tornar encantadora a familia.
Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
perfeita educação.
Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
simplicidade tragica.
O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
saberá negar.
* * * * *
Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
Bazilio_, romance realista.
Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
phylanthropos.
A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
verba_.
Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
se tirou a designação _realismo_.
Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
simplesmente lyrica.
O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
cartas.
A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.
Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
critica dos costumes, na propria critica da arte.
Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
burgueza.
De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
divina revelação de um novo mundo.
* * * * *
O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
* * * * *
O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?
Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
dizeres?
Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
* * * * *
Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
especial:
1.º Rir atraz da procissão dos Passos.
2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
viajante.
3.º Não ter dado pateada a um lente.
4.º Parecer constrangido a dar lição.
5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
* * * * *
Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.
Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
legislador mediocre.
* * * * *
Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
absolvidos pelos tribunaes civis.
N'esta conjunctura perguntamos:
É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
contrarias?
Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?
Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.
Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.
Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
que ainda possa haver na mocidade portugueza.
Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.
* * * * *
Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
* * * * *
No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
seguintes:
«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
desconheceriamos o dever.
«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
_Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
ethica da regeição dos dogmas.
«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
insufficiente para nivelar.
«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
em si um caracter offensivo.
«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
emprego dos seus ultimos momentos.»
Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
é christão, o outro não.
O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
delicada flor da cavalleria.
O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»
* * * * *
Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
fundamental da conciliação das consciencias!
* * * * *
Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
escravisados pelos poderes clericaes.
Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
crescem. Crescem em virtude de que lei?
Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
operario acrescenta:
«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
gerações.
«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
legislação humana e a moral universal.»
* * * * *
Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
perigosas e banidas das discussões publicas.
Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
morto.
Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
publicos.
Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
d'ella:--por falta de inspecção e de policia.
Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
armam.
Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!
Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
_Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
religiosa.»_
A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.
D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
feitos na rua dos Correeiros.
Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
secretaria.
No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
litteratura de uma nação.
A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
discutindo:
_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
Maior para lh'o provar.
Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
responda pelo erro.
Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
em uma instituição do Estado.
Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
apagou-lhe a lanterna.
Quem foi que deixou no mundo esta lição?
Foi o theologo.
Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
de Rio Maior.
* * * * *
Notemos porém um facto consolador:
O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
cerebro é uma idéa que se extingue.
Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
do professor e o processo pelos tribunaes civis.
Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
methodos porque se mortificam os impetos da carne.
Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
cartilha de Padre Mestre Ignacio.
E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
ensino publico de uma nação!
* * * * *
Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
_Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_
O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
_Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
JIM - Assistente
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As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)
[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos
sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.
No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
grande alma do povo.
Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
Ville a Republica de 48.
Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
isolamento austero da independencia o do sacrificio.
Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
e do Bernardo Palissy.
A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
liberdade de pensamento!
O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
força do trabalho; Littré, a força da philosophia.
D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
tem partido.
Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
similhantes!
Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
consciencia e pela verdade!
* * * * *
Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
symbolo ultrajante para a dignidade humana.
A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
artista.
Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
puerilmente que se deve ser
_Fier d'être français
Quand on regarde la colonne!_
Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
Grande!!_
Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
da geração actual o sol de Austerlitz.
Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.
* * * * *
Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
Feliz homem!
* * * * *
A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
pensadores.
Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
novo elemento social--o povo.
José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
decide da sorte dos imperios.
Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
procedera da roda dos expostos.
Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
inimigos.»
* * * * *
Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
natureza essencialmente desgraçada.
Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
da lingua.
Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
aggravada por uma falsa educação.
Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
da sua inquieta o attribulada existencia.
A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás
mulheres nervosas.
Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
physicas.
Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
imperfeitamente orientado.
Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
sitio amado, uma velha canção querida.
Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.
Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
Inutilmente. Elle estava morto.
Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
maledicencia.
* * * * *
Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_
o folhetim seguinte:
_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de
ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das
mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
caldo_.
Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
responsabilidade.
Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
substancia.
Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.
Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles
teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.
Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.
O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.
Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
convicção.
Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
energicos e audaciosos.
Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o
chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.
Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.
Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
da esposa.
Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.
Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos
ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
civilizadas da Europa.
Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
circos o trabalho de fazer rir o publico.
Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
esse importantissimo.
Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
seus.
Sua
_Irmã de Caridade_
* * * * *
Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
Revêde-vos na vossa obra.
Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
mesmo pelo que lhe ensinastes.
* * * * *
Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.
O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?
As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em
artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é
claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
portuguezas:
«Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»
Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente
formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
seu voto n'esse caso poderia ter discussão.
A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
nos adversarios senão admiração e respeito.
É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.
Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.
Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!
Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
licores para os botequins?
As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
lá buscar.
* * * * *
Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_
Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
_abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)
O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
algemas!
Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.
* * * * *
O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
que não tomei ease chá.
Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal,
que eu ingeria em grandes dozes.
A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
tinha pia.
A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo
defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
braças de solo cobertas por esse velho tecto.
A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
saudade eterna dos seus netos.
A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
folhetins dos periodicos.
* * * * *
Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
* * * * *
Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.
Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.
Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.
Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
E a posteridade nos abençoará.
* * * * *
Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
uns aos outros:
--Não viram por ahi a hydra?
Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
imperfeito do verbo Mexer.
* * * * *
N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
salvar a situação da falta da hydra:
* * * * *
O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
enterrado.
N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
* * * * *
Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.
* * * * *
Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
ainda parece pouco.
O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
romana.
* * * * *
Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
podridões privilegiadas.
Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
cidade inteira.
E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
* * * * *
Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
pretendemos consultar s. exª:
* * * * *
Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
entretendo.
N'esta hypothese pergunta-se:
Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
o capricho de descartar-me?
Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
impios e locomotores.
A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
dos atheus.
* * * * *
Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:
Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
uma affirmação civil.
Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.
Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
era--a perna da igreja.
Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.
Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
designar a sepultura sagrada.
Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
contrario.
Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
perna.
Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
padre, morrer sem padre.
* * * * *
Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
esquina do Laranjal
Porto
Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.
Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
comparecer.
Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!
Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
venezianamente na agua.
Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
paiz estavam ahi reunidos. Para que?
Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
phenomeno! que revolução!
Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
pessoal.
Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
funccionalidade diversa.
Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
aperfeiçoamento e para a felicidade.
Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
das sociedades.
A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
instituições.
Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
debatida entre dois principes.
A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
affirmação d'esse progresso.
A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
seu novo hospede? Não lhe apparecendo!
V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.
É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.
Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.
* * * * *
Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
Eis o que ao depois occorreu:
* * * * *
A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
--Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
E deixaram-o ir.
* * * * *
Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
redea.
* * * * *
Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
officiaes!
* * * * *
Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
sr. José Dias Ferreira.
Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:
--A mim, rapazes!
E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.
* * * * *
Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
assim elle mesmo?
Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!
Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
* * * * *
O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
bolsa do alforge ministerial.
Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.
* * * * *
E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
arnica o seu galo.
* * * * *
Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.
O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª
* * * * *
Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
deputados:
* * * * *
Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
os parapeitos até ao tecto.
Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.
Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.
Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.
Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
cahidas do systema que felizmente nos rege.
No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.
--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.
Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
cabeça.
Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
constitucional.
Diz mais o orador:
--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
porque elles serão consolados».
E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
camara:--«Muito bem! muito bem!»
Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.
A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
Kant, de Hegel e de Hartman.
Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
indisciplina mental.
Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
politico do imperador Guilherme?
Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?
Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.
Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»
A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
esphacelamento cerebral.
Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
caturras?--É unicamente o que perguntamos.
* * * * *
O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
social.
A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
fazer.
A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
o principio em que se funda.
A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.
Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
Turquia está muito adeante de nós.
Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
dissolvem-se na banalidade.
As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.
Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.
Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?
* * * * *
Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
de cordas, uma photographa, etc.
Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.
A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
partidos ou não são especiaes de partido nenhum.
Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
* * * * *
Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
converte-se fatalmente em uma questão de compadres.
O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
favor da urna.
O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.
Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
compadre, vou para o partido d'elle.
O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
esse poder é unicamente--o da comadre.
A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
real; compadrice, comadrice--eis tudo.
* * * * *
Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
* * * * *
Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum
sepulchrum_!
JIM - Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
JIM – Assistente
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