Autor: Editor

  • Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

    Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

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    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador–Mello d'Azevedo

    (VOLUME LI)

    Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

    POR

    DUARTE GALVÃO

    _ESCRIPTORIO_

    147–Rua dos Retrozeiros–147

    LISBOA

    1906

    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador

    _Mello d'Azevedo_

    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador–Mello d'Azevedo

    (VOLUME LI)

    Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

    POR

    DUARTE GALVÃO

    _ESCRIPTORIO_

    147–Rua dos Retrozeiros–147

    LISBOA

    1906

    PROLOGO

    A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador
    de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições;
    agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que
    apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram
    convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o
    livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de
    fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma
    offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras.

    Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos.
    As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e
    porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o
    reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados.

    A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da
    palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente,
    guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na
    funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por
    antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha
    de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto
    mui antigo que o chronista soube approveitar.

    É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do
    fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio
    Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos
    de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais
    e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não
    devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo.
    Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual
    maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira
    como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos
    que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção.

    Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no
    dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
    Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
    CXXVII).

    ==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517
    «carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e
    de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado
    del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.

    El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a
    Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle
    tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade.
    E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia
    abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez
    voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara
    Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas
    Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano,
    seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos
    negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro
    lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das
    calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os
    Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o
    anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo
    del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o
    escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio
    de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460,
    ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores
    Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem
    del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis,
    seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mór
    importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui
    sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina.

    _Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle
    qualificado por Damião de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina
    João Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se
    modernamente:

    _Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso
    Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo
    da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu
    original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida
    á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel
    Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC.
    XXVI._==fol.

    «Nesta Chronica, que Duarte Galvão _diz_, que fez de novo (são palavras
    de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua
    noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que
    Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção,
    como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a
    attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido
    Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel,
    assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da
    materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa
    de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar
    escritos alhêos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se
    ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão
    sómente lhe _apurára a lingoagem antiga em que estava escrita_.»

    «E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará
    conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão
    a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio
    a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte
    da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a
    escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de
    outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de
    Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim:

    «Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques,
    que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual
    elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava,
    como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio
    desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes,
    Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór
    da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como
    prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do
    Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita
    Chronica==.

    Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias
    desta Chronica. A marcada B–12–8 tem no final a data 1568. Bello
    exemplar é a B–4–2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca
    a B–4–4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi
    doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII
    possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas
    notas e explicações do texto.

    Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os
    taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes
    codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não
    lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em
    Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.

    Antes d'isto a publicação da _Monarquia Lusitana_, pòde suppôr-se,
    tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso
    Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos
    continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da
    impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se
    encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão.

    Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto
    (1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes.

    Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
    Galvão

    A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela
    1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.

    «O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana,
    «se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma
    _copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos».

    A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da
    asserção de que a copia fiel gozou da luz publica.

    No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo
    seguinte:–«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a
    verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor,
    senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia
    entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a
    passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando
    e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente
    o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque
    examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.

    Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o
    parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio
    para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a
    Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não
    ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe
    pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu
    Duarte Galvão.»

    Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação
    dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada
    teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente
    e delicado. São suas palavras:

    «Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão,
    e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em
    fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se
    conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a
    negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece
    que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo
    riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr.
    Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia
    Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»…

    A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada.

    Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que
    riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber
    quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que
    El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da
    Monarchia Portugueza.

    Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis
    de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle
    dedicado um capitulo inteiro ao texto e á _refutação_ das fabulas da
    _Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a
    substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original.

    Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido
    incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão
    Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos
    Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias
    de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o–1824). Ahi
    encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e
    encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais
    franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz
    idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes
    Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto
    devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e
    verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez».

    Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da
    narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza
    nos metteria para a qual não temos forças.

    Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da
    Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de
    D. Affonso Henriques–seu casamento com D. Fernando Peres de Trava,
    Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem
    já era casada) a usurpou,[2]–suas desavenças com seu filho e guerras
    que contra elle suscitou,–a jornada que por causa do exito de uma
    destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;–a prisão a que D. Affonso
    Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com
    o Papa:–todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado,
    como fortemente combatido.

    Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida
    justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D.
    Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no
    Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa–1825),
    assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como
    ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma
    Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto
    nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos
    que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui
    entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto
    d'um dos nossos antigos Chronistas.

    Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de
    Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que
    temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia
    julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações
    d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo
    d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada,
    nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella
    contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda
    ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera
    motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes
    se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do
    offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a
    verdade de toda a narrativa de Galvão.

    Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas
    allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva
    salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa
    mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão
    d'infamias á propria _irmã_ dessa mesma princêza, com quem igualava em
    nobreza!

    Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D.
    Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe
    morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo
    para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua
    legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que
    poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos
    com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso
    V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo
    citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de
    Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos
    portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para
    certificar-se do que era verdade.

    Sobre o Bispo _negro_ não deixa de parecer especiosa a explicação que
    offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:–

    «Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de
    Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se
    compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a
    mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de
    Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de
    quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a
    despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de
    Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma _D.
    Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge
    nunca depôz o habito dos _Negros_ como então chamavão aos que
    professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra
    vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os
    mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um _Bispo Negro_, para não
    dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo».

    Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.

    Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos
    allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura.

    A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada
    sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de
    Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje
    existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos
    tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes
    illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e
    coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua
    intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os
    Codices que se guardavão na Torra do Tombo.

    A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia
    daquelles tempos.

    Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
    D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas
    Manuscriptas. A maior parte são compilações.

    Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e
    algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.

    Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura.

    _G. Pereira._

    CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO
    HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL,

    COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ,

    Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu
    Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

    OFFERECIDA

    Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR

    POR MIGUEL LOPES FERREYRA

    LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA.

    M. DCC. XXVI.

    _Com todas as licenças necessarias_.

    SENHOR

    Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do
    Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques
    decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo
    Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os
    grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D.
    Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior
    admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a
    sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que
    desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas
    dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V.
    Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister.

    _Miguel Lopes Ferreira._

    AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

    *FERNÃO TELLES DA SILVA*

    Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso
    Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador
    extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e
    Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico,
    e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.

    Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso
    Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa
    Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os
    Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos
    em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa
    Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o
    mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não
    póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça
    este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio
    tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para
    lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes
    experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de
    toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como
    desejo.

    Criado de Vossa Excellencia

    _Miguel Lopes Ferreira_

    MIGUEL LOPES FERREIRA

    AO LEITOR

    Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa
    de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se
    conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez
    tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão
    falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e
    dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai
    deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de
    El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos
    á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu
    filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór
    do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e
    Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando
    em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha
    passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da
    sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos
    maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da
    mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de
    Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra
    passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos
    encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a
    malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a
    tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior
    continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural,
    cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes
    descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na
    Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no
    segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me
    aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras,
    que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem,
    elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição
    errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que
    a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index
    para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente
    lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis,
    e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão
    rara como desejada.

    _Vale._

    PROLOGO

    DO AUTHOR

    Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel
    nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal,
    seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte
    Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande
    louvor destos mesmos Reis de Portugal.

    Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida
    obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem
    de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem
    por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é
    proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que
    obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto
    no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós
    necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa
    fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os
    Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo
    maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para
    regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e
    exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para
    obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida,
    nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e
    perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes
    do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis
    vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de
    os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua
    Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por
    elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si
    mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para
    se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos
    Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na
    Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o
    genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro
    mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de
    seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui
    pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por
    infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de
    serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre
    mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta
    parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus
    grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo
    se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de
    vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas
    concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser
    Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos
    nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande
    emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem
    parecer adulação o que digo.

    Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão
    claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella
    precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me
    o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu
    serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado
    fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua
    Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e
    cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros,
    em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e
    desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não
    leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do
    que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da
    Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes
    Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui
    dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e
    prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande
    maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das
    Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito
    por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas,
    terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes
    sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre
    Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande
    parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio,
    poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer
    vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes,
    grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos
    primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo
    parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle
    em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se
    fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes,
    outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava
    feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua
    honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita
    parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte
    de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que
    sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas
    mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos,
    para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados
    depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca
    houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo
    Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo
    por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando
    logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos
    Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita
    universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor
    disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo
    ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás
    confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo
    grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de
    muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da
    Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e
    proseguimentos de seus maravilhosos effectos.

    Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui
    singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse
    poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não
    aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que
    poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com
    sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com
    todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma
    necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui
    afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos
    Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa
    dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca
    não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar,
    e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso
    serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas
    para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está
    conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta
    graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem
    faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum
    prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo
    mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa
    leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e
    contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que
    foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram,
    pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar,
    que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e
    serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo
    amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais
    para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher
    atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais
    serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se,
    assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre
    outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo
    descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia
    estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra
    que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras
    cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de
    muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama,
    e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como
    quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e
    difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e
    falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre
    mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu,
    e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo,
    que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de
    obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo
    fazer, me não pude, nem soube negar.

    LICENÇAS

    DO SANTO OFFICIO

    Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do
    Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de
    impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual
    não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.

    _Rocha.–Fr. R. de Allencastre.–Cunha.–Teixeira.–Silva.–Cabedo._

    DO ORDINARIO

    _Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso
    da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada
    Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento
    do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da
    dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da
    mesma Ordem nestes Reinos, &c_.

    Illustrissimo e Reverendissimo Senhor

    Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso
    Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro
    Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira,
    dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que
    zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias
    daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com
    maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube
    despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros,
    capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim,
    em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos,
    com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar
    sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas
    batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só
    Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus
    Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e
    senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados
    tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha,
    porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez
    largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a
    sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido
    sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso
    Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos
    exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou
    com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma
    fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca
    tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a
    espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E
    sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos
    o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi
    constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar
    rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe
    embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre
    empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi
    singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar,
    e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a
    todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da
    Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos
    despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os
    soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos,
    porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a
    vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os
    merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque
    não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital
    de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe
    consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de
    que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que
    nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham
    entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra
    em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou
    de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo
    este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as
    cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de
    Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice
    adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de
    sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes,
    uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com
    a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a
    outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a
    respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo
    a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá
    tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem
    foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso
    augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica
    Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de
    todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e
    magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus
    gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real
    preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal,
    realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir
    por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e
    Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de
    Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua
    Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente
    o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome
    da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre
    louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A
    Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».

    Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do
    Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é
    mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este
    Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que
    por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade,
    um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o
    meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de
    1726.

    _Fr. José de Sousa_.

    Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.

    _D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.

    DO PAÇO

    _Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular
    da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e
    Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_.

    SENHOR

    Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques,
    que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes
    Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos
    Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não
    posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na
    composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o
    que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e
    tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste
    Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem
    escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N.
    Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.

    _D. Jose Barbosa C.R._

    Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e
    despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem
    isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.

    _Pereira.–Galvão.–Teixeira.–Bonicho._

    _Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques,
    primeiro Rei de Portugal_

    CAPITULO I

    _Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
    Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
    Condado com certas condições_.

    Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de
    eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me
    áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que
    assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira
    dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que
    não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão
    louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu
    esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal,
    fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto
    cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu
    immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado
    pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são
    por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D.
    Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do
    Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o
    procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado
    recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de
    Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino
    de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa
    Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui
    devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e
    outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por
    ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas
    santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes
    senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França,
    e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste
    Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei
    Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por
    El-Rei D. Affonso recebidos.

    Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não
    menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas
    campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra
    dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias,
    por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e
    assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo
    El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus
    nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra
    contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma
    chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que
    depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador,
    donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira,
    cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D.
    Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa,
    dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello
    de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a
    terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle
    ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado
    chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique
    o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse
    doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse
    um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de
    cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E
    ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a
    conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e
    seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados
    perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não
    querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de
    Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o
    dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe
    aprouvesse, como de cousa sua propria.

    CAPITULO II

    _Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
    donde se chamou Portugal_.

    Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis
    de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou
    Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de
    Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo
    Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso
    mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora
    é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado
    Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos
    Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos,
    e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de
    Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha;
    porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D.
    Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de
    Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de
    Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi,
    que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que
    foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D.
    Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi,
    era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja,
    por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal,
    pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e
    Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em
    tanto gráo illustrados.

    CAPITULO III

    _Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que
    foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_.

    Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha
    del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz
    mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da
    sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe
    que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para
    o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho
    grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo
    com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam
    que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso
    Senhor de mil noventa e quatro.

    Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e
    veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe
    desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha
    prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego;
    porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de
    modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D.
    Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu
    que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser
    minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o
    Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria,
    de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança,
    com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão
    fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em
    Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos
    amor, e cuidado como se fora são.

    E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos,
    lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz,
    e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu
    sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe
    logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em
    outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger
    a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia
    poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será
    são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e
    criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos
    da Fé».

    Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre,
    como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas
    cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente
    áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela
    Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora
    mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi
    posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda
    aleijão, como se nunca tivera nada della.

    Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu
    muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando,
    e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi
    sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade,
    que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa
    deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o
    Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser
    ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei
    ser seu nacimento como disse.

    CAPITULO IV

    _Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu
    filho ante que falecesse_.

    Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador
    da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez
    a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em
    ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo
    Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez,
    (1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem,
    conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque
    Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de
    Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de
    Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de
    Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por
    filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe
    foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo
    de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em
    mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que
    assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com
    os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual
    tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo
    continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e
    vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto
    aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado
    preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu
    primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles
    lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que
    El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de
    modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em
    tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla
    muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.

    «Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar
    com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e
    sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas
    palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves
    filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de
    alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos
    sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego,
    porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho
    more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura
    para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu
    direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu
    regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste
    principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi
    como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão
    de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de
    seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam
    todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça,
    nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só
    palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma
    braçada.

    «Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e
    direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e
    mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os
    outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam
    soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e
    estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo,
    e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo
    Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha
    poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o
    que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e
    portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de
    toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um
    palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu
    coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê
    companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze
    gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te
    façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te
    torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante,
    ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa
    Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha
    benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita
    honra prosperada».

    CAPITULO V

    _Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
    Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
    Dona Tareja_.

    Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes,
    e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi
    no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle
    faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito
    annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse
    mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e
    perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se
    ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por
    isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem
    perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse
    enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de
    Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não
    poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei
    D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do
    Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha
    Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a
    Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara
    com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D.
    Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com
    ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D.
    Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que
    chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um
    Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que
    havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D.
    Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem
    de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao
    Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.

    CAPITULO VI

    _Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
    vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
    sua mãi com elle_.

    Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher,
    e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes
    vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe
    furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da
    Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a
    seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de
    presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos
    mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando
    quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o
    Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me
    queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua
    mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou».
    Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate,
    ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso
    filho, se mais poder que nós».

    Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em
    Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para
    peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á
    batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e
    trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior
    poder temos que elle».

    A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do
    campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com
    D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e
    quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi».
    Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu
    padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não
    fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu
    comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa
    mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a
    peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».

    Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu
    padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou
    logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais
    entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para
    sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O
    Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi
    preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra,
    e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso
    que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas
    pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores
    em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a
    Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso
    sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de
    Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante
    dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.

    CAPITULO VII

    _Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
    Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
    Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
    Rei Mouro cercar Coimbra_.

    Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não
    queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D.
    Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em
    que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que
    Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que
    seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta
    fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse
    vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe
    podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia,
    aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella,
    e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder
    contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella
    ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da
    prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D.
    Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para
    o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um
    lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali
    esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os
    outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande
    peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que
    El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e
    sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode
    a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e
    prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e
    mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi
    logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se
    levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que
    os tinham.

    Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com
    aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro
    veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de
    todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias
    combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda
    de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e
    pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial
    havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em
    quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e
    sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da
    peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar,
    e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se
    perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade
    abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo
    por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e
    valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias
    por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).

    CAPITULO VIII

    _Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
    Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
    lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_.

    A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado
    Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle
    houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe
    havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto
    conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada
    que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou
    o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla
    estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se
    tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o
    grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e
    nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem
    levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei,
    e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se
    poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua
    reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que
    vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram
    ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella
    Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu
    primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como
    era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era
    leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com
    ella.

    Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado
    virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal
    Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão
    boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que
    grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a
    Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras
    que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado
    de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada
    dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e
    Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem
    providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que
    a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse
    caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo
    sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer
    trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que
    tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que
    vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim
    parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui
    para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem
    rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes
    onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando
    El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de
    D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e
    depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa
    mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera
    fazer.

    CAPITULO IX

    _Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez,
    e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas
    Moniz_.

    Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com
    toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio
    partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou
    a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de
    El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então
    tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve
    grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto,
    que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não
    haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito
    serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo
    estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa
    defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o
    senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto
    á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi
    como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a
    graça de Deos».

    CAPITULO X

    _Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
    D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
    Guimarães_.

    Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir
    ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera
    a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua
    molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei
    estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua
    molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se
    todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço
    onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a
    El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então
    D. Egas Moniz, e disse.

    «Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu
    Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua
    pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na
    Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se
    lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando
    o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me
    ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos
    cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa
    desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que
    vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago
    aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver
    por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e
    por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe
    apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago
    tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de
    muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me
    pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se
    diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».

    Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera
    manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres
    que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão
    de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui
    nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam
    de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar
    enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita
    honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo
    que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o
    despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e
    depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua
    molher, e filhos tornar para Portugal.

    CAPITULO XI

    _Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella
    se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto
    juntou gente, e foi tomar Leiria_.

    Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre
    de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que
    ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a
    receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora
    cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque
    sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para
    sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe
    estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua
    vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as
    mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande
    gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais
    merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que
    sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães,
    onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra
    tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes,
    começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para
    sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus,
    passáram alguns dias.

    E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem
    proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos
    seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra
    dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo
    rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui
    bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou
    andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de
    Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e
    fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o
    Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no
    Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D.
    Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada
    pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para
    Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de
    despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a
    era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.

    CAPITULO XII

    _Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
    Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
    Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
    daquelle tempo_.

    Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e
    Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas
    terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,
    e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que
    a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor
    empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de
    nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum
    serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem
    guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e
    vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de
    Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas
    rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas
    Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a
    segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a
    maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e
    dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se
    chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe
    defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa
    gente, que era bastante para peleijar com elle.

    E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a
    poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio,
    e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio
    grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a
    morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem
    mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e
    se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de
    mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser
    queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D.
    Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.
    Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo
    fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal,
    ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento
    baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado
    Cavalleiro.

    Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S.
    Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas
    possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e
    seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas
    suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão
    santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e
    menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos,
    conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta
    a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas
    honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e
    nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os
    passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas
    para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o
    enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia
    deixar de ser.

    CAPITULO XIII

    _Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que
    com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
    sentaram seus arraiaes um á vista do outro_.

    Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D.
    Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão
    honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que
    ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D.
    Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas
    que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou
    a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe
    Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos
    vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova,
    mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor,
    mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida,
    que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á
    terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar
    muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes
    barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos
    Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre
    os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e
    vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o
    que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O
    Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes,
    foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de
    servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar,
    que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma
    Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as
    Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus
    arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor
    de mil cento e trinta e nove (1139).

    CAPITULO XIV

    _Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe
    D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez
    sobre esso_.

    Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros
    sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui
    grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao
    Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella,
    e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e
    cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra
    de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda
    valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu
    desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de
    Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a
    todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca
    achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha».
    Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e
    posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe
    pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos
    ajuntados, assi começou.

    «Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e
    desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua
    santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando
    nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda
    poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando,
    que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e
    nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não
    podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade
    nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem
    lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos
    quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com
    estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos
    poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do
    que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos
    Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da
    ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos
    mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela
    Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos,
    pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e
    furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos
    Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por
    poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com
    liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia
    tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por
    nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu
    desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e
    a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a
    quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e
    feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais
    desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e
    nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle
    salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais
    seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal,
    morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a
    nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem
    se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a
    Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste
    mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle
    sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de
    Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos
    de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão,
    e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que
    merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que
    nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão
    ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós,
    e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que
    Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e
    muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que
    nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre
    segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e
    muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça
    venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta
    tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio,
    faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a
    lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de
    nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai
    com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como
    nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de
    Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como
    sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e
    vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de
    confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de
    saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque
    com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde
    me faça mester vossas mãos, e ajuda».

    Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado
    esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um
    coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser
    trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam,
    responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia,
    elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde
    elles decendiam.

    CAPITULO XV

    _Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques,
    posto na Cruz como padeceo por nós_.

    Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em
    seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a
    elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que
    pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas
    ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos
    seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires
    tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te
    apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes
    desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa
    Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na
    Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por
    onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se
    partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e
    disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas
    obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em
    mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares
    prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te
    servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os
    quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e
    pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda
    piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo
    da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem
    fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».

    E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se
    a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando
    foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e
    então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse,
    e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo
    que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande
    prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação
    do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre
    outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo:
    «Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma
    duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar
    de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe
    D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser
    conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e
    merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por
    ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S.
    Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados,
    e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto
    atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e
    faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão
    virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas
    cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de
    escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada
    fama.

    CAPITULO XVI

    _Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para
    peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.

    Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e
    esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás
    trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos
    levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e
    commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria.
    Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira
    meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez
    outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma
    das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de
    outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de
    cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com
    elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves,
    que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço
    Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D.
    Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.

    Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados,
    correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus
    nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado,
    e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas
    dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos
    resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem,
    não havia poder maior que os não temesse.

    Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de
    gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e
    grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande
    multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor,
    nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e
    honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua
    geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa,
    que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles
    disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós
    consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para
    peleijar». Respondeo elle e disse:

    «Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por
    sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me
    contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso
    irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels
    imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não
    são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui
    esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé
    somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue,
    como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará
    vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é,
    será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos:
    «Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua
    graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito,
    e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei,
    e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto
    pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que
    pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o
    levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real,
    por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil
    cento e trinta e nove (1139).

    CAPITULO XVII

    _Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu
    batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento
    della_.

    Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe
    foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os
    senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares
    ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham
    contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu
    Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez
    assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia
    diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo
    com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á
    segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos
    Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D.
    Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a
    El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas
    as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das
    azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados
    Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros.

    Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui
    grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração
    muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se
    topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente
    peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia
    tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com
    pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D.
    Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como
    nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros
    afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se
    não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi
    vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e
    mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres
    pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a
    vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz
    Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes.

    Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza
    deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando
    Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros
    Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo
    Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a
    maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente
    de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo
    com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles
    cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não
    passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e
    se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual
    segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o
    que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta
    vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e
    menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita
    contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e
    a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores
    da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo
    Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram;
    porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que
    disse.

    CAPITULO XVIII

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em
    suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova
    que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.

    Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,
    como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem,
    e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos
    naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que
    lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no
    Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,
    pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada
    um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido
    por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo
    que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas
    puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi
    contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo
    sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta
    dinheiros, e desta maneira se trazem agora.

    Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com
    mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e
    gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros
    era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram
    Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando
    El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e
    disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da
    Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes
    Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e
    tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo
    como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito
    sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão,
    outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar
    de cativeiro.

    Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada
    vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do
    Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o
    Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.
    Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo
    Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão
    glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por
    elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,
    e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei
    como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.
    Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da
    primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.

    CAPITULO XIX

    _Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou
    matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
    Christo_.

    Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão,
    de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do
    Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo
    enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o
    qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do
    serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de
    Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima
    persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais
    cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,
    que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o
    qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S.
    Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam,
    os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e
    ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já
    velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de
    vagar.

    Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que
    seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S.
    Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho
    minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano
    com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado
    o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o
    tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto
    crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum
    que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se
    Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente
    cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por
    então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o
    lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de
    convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de
    tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não
    caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz
    haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.

    Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo
    vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci,
    morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e
    animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma
    lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto
    guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma
    sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então
    mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do
    mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o
    Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo
    barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido
    seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi
    sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e
    sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui
    grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh
    Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,
    venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo
    morto».

    CAPITULO XX

    _Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S.
    Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar
    se tornou para Coimbra_.

    Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento
    e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a
    que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por
    Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos,
    que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando
    nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o
    Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que
    fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem
    com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os
    guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o
    seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o
    trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um
    Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do
    Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle
    disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando
    aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.

    El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham
    falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo
    lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em
    que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os
    Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de
    Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em
    seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando
    lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N.
    Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade
    de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando
    El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer
    que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por
    então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.

    CAPITULO XXI[4]

    _Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei
    Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou
    com o Bispo_.

    Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se
    enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho
    tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e
    muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de
    Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados
    para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo
    assim comprir fosse interdito posto em todo o reino.

    Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar
    as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo:
    «Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse
    bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo
    algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de
    seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava
    achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha
    mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo.

    Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua
    terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos
    no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo».
    Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?»
    Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus
    dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei
    quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir
    um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo
    respondeu: «Hei nome Martins».–«E teu pai como se chamava».–Colleima
    disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o
    officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na
    Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo
    Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle
    «eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei:
    «Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo
    m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo,
    com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo.

    Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe
    o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé.

    CAPITULO XXII

    _Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso
    Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.

    A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques
    assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu
    naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella
    prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de
    exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal
    modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar
    de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que
    o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha
    de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na
    mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada
    Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso
    faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda
    que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem
    nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais
    devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre
    porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser,
    porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.

    Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para
    muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja
    louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão
    póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer
    assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio
    que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as
    gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua
    navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de
    Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então
    neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre
    Igreja,–quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em
    mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim
    que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo
    Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois
    lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os
    bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu
    geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso
    que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as
    fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem
    mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao
    misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e
    constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever
    com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?

    Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão,
    por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo
    Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja
    por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como
    é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve
    cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e
    prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos
    por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que
    por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste
    mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se
    conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se
    fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo
    condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei
    fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e
    conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os
    males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os
    similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei
    D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que
    não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos,
    por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não
    nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.

    CAPITULO XXIII

    _Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de
    sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou
    em Coimbra_.

    Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso
    Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua
    mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo
    Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe
    enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de
    quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de
    Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal
    perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e
    disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em
    desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse
    El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela
    nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem,
    segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem
    a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra
    viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu
    não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia
    escapar.»

    Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande
    receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal
    teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde
    El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois,
    Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma
    para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros?
    Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês,
    dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse
    o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar
    a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros
    cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos
    como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por
    obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração
    humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal,
    e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente
    distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem
    como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra
    doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes
    mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.»

    Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás
    bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da
    cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da
    guisa que ante manhã andou duas legoas.

    CAPITULO XXIV

    _Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
    escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
    passou_.

    Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros:
    «Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui,
    e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei:
    «Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a
    grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo
    era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal
    em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e
    como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a
    espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,»
    querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com
    elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este
    Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei:
    «Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois
    assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou
    cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me
    queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa
    mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que
    descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem
    prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis
    uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja
    excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós
    por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa
    Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui
    não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe
    aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e
    ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e
    disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o
    serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado
    ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se
    todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:
    «Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu
    houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que
    tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e
    para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito
    mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o
    Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que
    El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão
    seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo
    faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em
    que lugar.

    Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais
    encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião
    delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal
    pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este
    escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a
    esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de
    Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com
    El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,
    e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe
    reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não
    pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro
    nenhum prometter nem ficar por tal caso.–«Senhor Santo Padre!» disse o
    Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu
    lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós
    vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é,
    ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o
    seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando
    a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado
    por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe
    outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a
    El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui
    honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois
    este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas
    que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.

    E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra
    quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu
    escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.

    Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.

    CAPITULO XXV

    _Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio
    tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou
    Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos
    Mouros_.

    El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso
    Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear
    Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou
    muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a
    Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria,
    a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos
    Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de
    Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no
    Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo
    para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que
    El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e
    vir á batalha com elles.

    Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta
    annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio
    homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D.
    Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande
    pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de
    Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em
    quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande
    pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre
    ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão
    boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui
    bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do
    Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior
    a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no
    Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não
    podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a
    Coimbra.

    CAPITULO XXVI

    _Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e
    assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
    Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
    Anrique de Lara_.

    Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de
    Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a
    Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para
    ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos
    peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto
    nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de
    andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de
    Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito
    de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre
    esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal
    Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que
    todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal
    ficasse sempre aos Reis de Portugal.

    Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra,
    foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D.
    Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes
    respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta
    linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher
    nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em
    parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas
    virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste
    cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e
    quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado
    por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não
    achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como
    foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que
    cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo
    depois para tomar a Villa de Santarem.

    CAPITULO XXVII

    _Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
    Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.

    Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por
    Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento
    quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo
    já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito
    que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma,
    por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a
    milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da
    parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a
    fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por
    elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao
    meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte
    contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual
    falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado
    assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui
    magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e
    não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a
    Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro
    estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto,
    era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que
    os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do
    outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente
    fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos,
    com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que
    lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e
    temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á
    morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte
    do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre
    chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli
    haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não
    menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e
    aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma
    maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de
    muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D.
    Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra,
    que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus
    lugares.

    Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a
    grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe
    El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a
    outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se
    podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era
    tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a
    pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem
    Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que
    parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa
    foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como
    quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia
    tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta
    cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande
    perigo, e receo.

    CAPITULO XXVIII

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
    Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
    teve com os seus para ir sobre ella_.

    Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre
    Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava,
    como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu
    grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se
    rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas
    com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este
    negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa
    furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e
    assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de
    grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em
    segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que
    fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua
    bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o
    fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto,
    que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe
    pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.

    El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia,
    fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo
    primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com
    grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em
    seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um
    dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas,
    e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e
    contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer,
    mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em
    tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem,
    nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e
    vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha
    regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com
    aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou
    disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio
    tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante
    sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e
    como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que
    disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu
    cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a
    cabeça, sem o merecer».

    CAPITULO XXIX

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
    Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
    hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_.

    Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e
    alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que
    lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a
    falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha
    grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi
    como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha
    ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito
    afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade
    que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que
    esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda
    feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o
    comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros
    não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em
    Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e
    foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse
    dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em
    diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias,
    que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a
    seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro
    saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava,
    tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da
    li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo
    del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres,
    que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era
    vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.

    Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi
    contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle
    Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S.
    Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem
    quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da
    sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada».
    E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto,
    logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa
    del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle
    Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de
    todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos
    Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.

    Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo
    tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora
    revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar
    graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com
    livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli,
    os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram
    posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver,
    segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve
    que fosse sempre depois, e agora neste tempo.

    CAPITULO XXX

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
    Santarem, e das rezões que disse a todos_.

    Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até
    noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que
    está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou
    El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe
    uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais
    verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos
    trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de
    que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade
    de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de
    a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que
    parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera
    de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em
    que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e
    valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e
    tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que
    vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não
    menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza
    tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença
    deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a
    noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se
    esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez
    esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem
    não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da
    gente.

    Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos
    nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai
    as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta
    entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja
    matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam
    pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a
    homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade,
    todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que
    Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e
    hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos
    do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que
    vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que
    lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro
    receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe
    esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e
    peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por
    mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com
    vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me
    aparte de vós, como vejo que fareis por mi».

    Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para
    ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre
    si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer,
    apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com
    nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor,
    nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa
    pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria
    perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria
    nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que
    tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi
    diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh
    amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais
    Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu
    desta vez em ella morra».

    CAPITULO XXXI

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
    Santarem, e dos sinais que pareceram_.

    Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,
    aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as
    tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram
    aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de
    Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete
    annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito
    mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio
    correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir
    no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a
    Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar
    aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,
    appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que
    foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia
    semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo
    acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os
    Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho
    del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da
    Estremadura era.

    Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle
    encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do
    muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com
    os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia
    seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum
    sentimento.

    Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com
    grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus
    Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui
    devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem
    força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé,
    mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua
    infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria
    a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que
    ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para
    teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e
    por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu
    santo nome seja sempre hi louvado.

    CAPITULO XXXII

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
    Santarem, e foi entrada, e tomada_.

    Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam
    que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais
    desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando
    naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre
    Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas
    della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem
    Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto
    que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que
    cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou
    em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no
    lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi
    nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito
    de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo
    muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos
    leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que
    as velas poderiam adormecer.

    E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto,
    e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma
    aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo
    havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e
    de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a
    escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo
    levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não
    sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar,
    e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como
    desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda
    ahi_. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e
    tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro
    tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a
    cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto
    a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo
    ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda
    correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os
    Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e
    entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais
    crecesse.

    D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de
    Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria
    Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando
    aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que
    não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas
    partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.

    Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam
    entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos
    nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo
    Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do
    ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada
    da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e
    deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes
    mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se
    trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas
    que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e
    cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado
    que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou
    El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas,
    com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos.

    Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já
    dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter,
    acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se
    acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e
    moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que
    parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que
    escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e
    ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos,
    tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de
    grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos,
    primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido,
    filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D.
    Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e
    outros nobres homens.

    CAPITULO XXXIII

    _Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e
    El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_.

    Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della,
    escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto
    mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada,
    e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido,
    segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que
    seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles
    mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar
    El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se
    aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos
    cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é
    cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo
    chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de
    sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e
    da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e
    todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa,
    mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.

    El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide,
    leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito
    prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe
    acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos
    Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e
    conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder
    em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar
    quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e
    misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar
    tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas
    maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar
    neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as
    portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação,
    e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora,
    como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer:
    mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa
    fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo».
    Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de
    Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa
    Eyrea Martyre que a ella veio ter.

    CAPITULO XXXIV

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,
    e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.

    Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se
    disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava
    de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas
    para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do
    vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma
    vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo
    seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de
    Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo
    que se segue.

    Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor
    guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade
    por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas
    forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas
    estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a
    D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e
    apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se
    por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no
    mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo
    moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os
    infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar
    terra á rocha de Sintra.

    Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com
    elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande
    frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a
    causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava,
    vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles
    responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem
    guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta
    frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura
    não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem
    de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido
    pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao
    outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.

    Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que
    traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no
    sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por
    lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe
    por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou
    mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons
    movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a
    Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles
    eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam
    servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas
    honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não
    mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das
    principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita
    guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que
    suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles
    haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera
    sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e
    oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por
    Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como
    Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como
    elles bem veriam.

    Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram
    concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo
    tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e
    assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a
    Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está
    o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes
    tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco
    perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e
    estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste
    cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos
    Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos,
    edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.
    Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á
    honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora
    é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos
    muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de
    Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada
    a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca
    velha.

    Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos
    vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil
    cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com
    grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos
    Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço,
    passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes
    difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo
    grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria
    debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este
    fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos
    corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.

    Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi
    pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais
    fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,
    peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer
    antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,
    paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação
    por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar
    seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão
    grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e
    trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.

    CAPITULO XXXV

    _Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de
    Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.

    Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso
    Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e
    com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e
    depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram
    feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo
    sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi
    consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando
    logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao
    Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem
    Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e
    outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e
    disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a
    Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve
    de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei,
    e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi
    todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»

    Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem
    o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho,
    e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois
    partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a
    Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver
    Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo
    cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei
    de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder
    de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho
    disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo,
    offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar
    em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles
    izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente
    com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi
    se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na
    terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e
    Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada
    Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e
    chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e
    pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os
    Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe
    Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor
    daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe
    Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella
    frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar
    terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais
    com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer,
    que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de
    ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em
    dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita
    honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns
    destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que
    foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou
    por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em
    linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a
    fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o
    nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em
    Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria
    por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por
    alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial
    de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os
    Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua
    gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus
    temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo
    mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante
    Deos se alcança.

    CAPITULO XXXVI

    _Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo
    quando a Cidade de Lisboa foi entrada_.

    Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos
    naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se
    a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é
    chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão
    chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto
    naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado
    naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus
    Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de
    Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro
    Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente
    diremos.

    Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e
    mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro
    deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que
    por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e
    misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos,
    e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos
    de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles
    mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi,
    e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui
    jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito
    esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo,
    ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara,
    começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera
    pelos merecimentos deste Cavalleiro.

    E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e
    louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta,
    por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro
    Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de
    Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas
    vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre
    com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.

    CAPITULO XXXVII

    _Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
    mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
    de Lisboa muito ferido morrera_.

    Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste
    Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da
    Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo
    alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito
    velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,
    dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o
    meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui
    junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não
    deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e
    vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou
    desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro
    Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com
    palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas
    vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se
    levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o
    Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova
    a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando
    veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da
    noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer,
    como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro
    dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram
    todos muitos louvores a N. Senhor.

    CAPITULO XXXVIII

    _Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que
    Deos por elle fazia_.

    Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda
    benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o
    serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura
    uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas
    mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra,
    em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre,
    louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e
    deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que
    tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della
    aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e
    tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma,
    que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem
    boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo,
    levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N.
    Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram,
    tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum
    abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e
    achava-se logo remediado.

    CAPITULO XXXIX

    _De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e
    quem foi o primeiro Bispo della_.

    Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle
    era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada
    esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens
    temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem
    em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles,
    que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido,
    segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza
    da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é
    muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos,
    e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e
    regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então
    foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito
    boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei
    logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da
    eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a
    Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e
    outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões,
    indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado
    veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas
    duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta
    Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N.
    Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas
    começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou
    de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa
    viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem
    mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes
    indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa
    Maria dos Martyres.

    CAPITULO XL

    _De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
    Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_.

    E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de
    Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães
    Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a
    Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com
    elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem
    um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei
    sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle
    dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe
    que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser
    caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido;
    aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo
    para o Moesteiro.

    Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da
    Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial
    poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os
    seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego
    Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi
    tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi
    vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam
    não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de
    mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um
    Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual
    assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei
    então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia
    nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a
    poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro
    Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que
    estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida
    del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada
    de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo
    seguintes á sua tomada.

    CAPITULO XLI

    _Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura,
    e Alem do Tejo_.

    Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse,
    logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e
    quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e
    Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram
    de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve
    assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas
    gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros,
    tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares
    até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros
    pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que
    El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de
    combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando
    muitos Christãos, e levando muitos delles cativos.

    El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz
    levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então
    fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e
    pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos
    os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja
    tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155).
    Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas
    terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui
    bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem
    defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande
    prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos
    contra Mouros dera.

    CAPITULO XLII

    _Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona
    Mofalda_.

    Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido
    cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só
    filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento
    de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro,
    e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado
    Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu
    logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que
    foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a
    outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a
    terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe
    Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito
    cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde
    D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D.
    Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se
    partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros,
    levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez
    dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D.
    Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para
    elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui
    luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados
    Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam
    com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D.
    Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e
    o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e
    outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o
    Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e
    gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram
    logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez
    grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido,
    e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para
    onde haviam de comer.

    Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com
    elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas,
    e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram
    grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas
    pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que
    se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do
    Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o
    Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então
    El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com
    o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que
    dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em
    quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no
    trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o
    concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento;
    no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros
    de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de
    D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu
    nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D.
    Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o
    Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e
    então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como
    manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua
    filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas
    as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e
    Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde,
    e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham
    partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante
    consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua
    gente, e Corte.

    CAPITULO XLIII

    _Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo
    El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.

    Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por
    aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que
    lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e
    estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e
    cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio
    recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse
    sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua
    gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e
    Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa
    socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella,
    e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons
    Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e
    estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das
    frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e
    sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para
    soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos.
    Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente,
    começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se
    acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se
    puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra
    Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até
    ir recado aos do arraial.

    El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos
    Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos
    homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos
    seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova
    desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta
    torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que
    ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e
    vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o
    Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que
    ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal
    cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no
    campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos,
    quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por
    quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz
    para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes
    pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do
    que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis
    ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre
    contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em
    deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei
    Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço,
    mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão
    desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos,
    poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus
    corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo,
    haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço,
    nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que
    como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de
    Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por
    sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o
    contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso
    poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle
    impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos
    sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver
    se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus
    ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui
    acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou
    de morto me não partir do campo».

    Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande
    confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e
    esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles
    aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes
    não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem
    logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais
    que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço,
    e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir
    nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados,
    antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo,
    que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe,
    que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que
    começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que
    voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e
    assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns
    contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram
    vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e
    desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que
    fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração,
    e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava.
    Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no
    alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam.
    Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a
    grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem
    todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela
    boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não
    acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o
    desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo
    perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os
    leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve
    dello, e assi houve a Villa de Palmella.

    CAPITULO XLIV

    _Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D.
    Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D.
    Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_.

    Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei
    D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se
    della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem
    sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que
    se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve
    della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi
    Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em
    sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por
    ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes
    para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e
    fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os
    Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que
    El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por
    seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu
    Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e
    então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião
    ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com
    elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca
    Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando.
    Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos
    vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella,
    e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.

    «Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é,
    disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem
    buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram
    todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso
    como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando
    Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e
    El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da
    Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára
    bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo
    topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a
    perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a
    ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se
    cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de
    quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem
    poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi
    dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma
    perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas
    mãos do que eu cuidava.»

    Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o
    viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de
    ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo
    valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa,
    entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o
    dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo
    tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando
    consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da
    perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si,
    fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse
    a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa
    álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra,
    que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se
    disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se
    tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que
    lhe prazia.

    Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem,
    El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui
    bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a
    menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis
    antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis
    annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e
    discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo
    menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna,
    foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão,
    segundo atraz nesta Estoria se contem.

    CAPITULO XLV

    _Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as
    maldições dos pais, e mãis aos filhos_.

    O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D.
    Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que
    ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com
    muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou
    Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o
    nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de
    reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por
    onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis,
    segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a
    semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas
    que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por
    ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que
    mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos,
    porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo
    ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter
    injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na
    terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem
    os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça,
    e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural
    reverencia, e amor.

    E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes
    maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens,
    e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais,
    e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos,
    que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por
    humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada
    ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e
    mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho:
    «Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam,
    e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos,
    leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de
    que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a
    rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas
    paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com
    elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é
    desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos
    filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por
    esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para
    fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo,
    em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como
    filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos,
    se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos
    que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e
    estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos
    seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou
    maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na
    fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.

    CAPITULO XLVI

    _Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
    Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
    os desbaratou e venceo_.

    Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens,
    e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para
    Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da
    perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de
    Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa
    poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias,
    tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer
    grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou
    grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e
    atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por
    onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava,
    destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a
    escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.

    El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era
    mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e
    não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes
    dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era
    bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros,
    concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e
    por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se
    sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que
    eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa
    vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz,
    e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na
    Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.»
    Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já
    prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes
    havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso
    como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual
    por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se
    quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle
    queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de
    tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada
    desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado
    El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar,
    e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos,
    (1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como
    El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com
    elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão
    da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou
    de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte
    quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda
    del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio
    então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e
    depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de
    muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.

    Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei
    D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D.
    Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e
    esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que
    tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a
    outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos,
    que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello
    muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D.
    Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver
    prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes
    soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que
    mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que
    o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que
    de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui
    trazido.

    CAPITULO XLVII

    _Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o
    foram buscar_.

    Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques
    foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente,
    e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa
    era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque
    tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram
    feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e
    trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação,
    vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente
    jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e
    foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e
    desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a
    Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso
    Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o
    acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito
    prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli
    mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em
    desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o
    tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento
    tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda
    sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes
    merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado,
    e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do
    acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro
    lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com
    muito prazer a salvamento.

    CAPITULO XLVIII

    _Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.

    Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar
    fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e
    aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o
    qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer
    sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que
    era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era
    estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de
    Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era,
    arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com
    rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem
    até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D.
    Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e
    escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e
    rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a
    principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais
    honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle
    aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos,
    foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado
    de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N.
    Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de
    S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle
    santo Corpo, mas não lhe foram dadas.

    Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou
    com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias
    honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle
    lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara
    ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam
    ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do
    Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta
    a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o
    qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás
    aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e
    depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como
    quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór,
    e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado
    Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa
    milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e
    então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho,
    lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S.
    Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca
    mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por
    muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste
    glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro
    da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).

    CAPITULO XLIX

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho
    seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre
    ello disse_.

    Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com
    El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do
    Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D.
    Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra
    cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento
    da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria
    cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns
    Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns
    do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho
    tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com
    El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não
    estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em
    Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi
    falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu
    cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por
    sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em
    pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu
    cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D.
    Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo
    traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a
    segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de
    ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos
    entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora
    commeces, e o faças.»

    Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as
    mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me
    encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e
    Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade,
    e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja
    vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto
    porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe
    prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e
    quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir
    com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia;
    esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no
    feito da guerra, que havia de começar.

    CAPITULO L

    _Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
    gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
    no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_.

    Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi
    assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de
    assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e
    outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o
    Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em
    tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de
    Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus
    Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros
    Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao
    meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa
    vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção,
    e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e
    Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que
    sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos
    ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo
    El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa
    partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter
    continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu
    sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito
    mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N.
    Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda
    de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos
    lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi
    passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se
    despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio
    beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a
    Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.

    CAPITULO LI

    _Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
    guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
    os Mouros peleijasse_.

    Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o
    Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais
    folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que
    se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de
    Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e
    passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a
    cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que
    chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e
    todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por
    sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar
    folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros
    nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja,
    pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou
    chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia
    as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam
    tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de
    gente, que para sua defensão lhe fazia mister.

    O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados
    de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178)
    e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram
    de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os
    Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho,
    contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e
    Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui
    desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de
    Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar
    tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e
    pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os
    Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando
    muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir
    contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e
    outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos
    amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço.
    Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão
    aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o
    Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa
    com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu
    ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas
    tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha,
    pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de
    menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar,
    que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade
    fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e
    que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas,
    e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que
    soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei
    por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo
    vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N.
    Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle
    que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos
    encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer,
    nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram
    de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam
    todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos,
    não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram
    todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos
    somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto
    em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua
    ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai
    logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em
    que lugar ha de ir, e estar».

    CAPITULO LII

    _Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
    esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_.

    Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o
    haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira
    fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira
    reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e
    trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O
    Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram
    hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero
    Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e
    D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de
    Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda,
    com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro
    das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde
    D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé
    pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros
    quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição
    acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia,
    foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous
    mil, e os mais com a carruagem como dito é.

    Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que
    fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque
    naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os
    Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas,
    foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes,
    e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e
    assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os
    Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os
    Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos
    derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo
    campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os
    Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo
    algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço
    Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a
    gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D.
    Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e
    antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui
    brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o
    esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde
    estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem
    mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada
    peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo
    D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de
    Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes
    que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e
    leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo
    parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e
    com o pendão em terra.

    Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu
    pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado
    começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles
    matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a
    pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram
    de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por
    tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram
    tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e
    despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em
    muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros,
    feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue,
    segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra
    muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros,
    tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual
    acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e
    outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e
    outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos
    foram delle mui contentes.

    CAPITULO LIII

    _Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi
    sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.

    Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua
    defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que
    de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que
    nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram
    della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a
    Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que
    não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um
    Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e
    chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam,
    corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e
    aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a
    combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto
    esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam
    por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem
    poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os
    haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,
    fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a
    tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e
    começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo
    cumpria.

    Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros,
    tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos
    que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial
    cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e
    avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta
    que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe
    pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que
    estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda
    via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois
    de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,
    que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros
    por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos
    Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante
    vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:
    _Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram
    que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como
    era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até
    mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo
    partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs
    elle o milhor que podessem direito a Beja.

    Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que
    tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa
    Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em
    que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que
    vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre
    achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas
    pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle
    tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero
    Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por
    nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais
    tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a
    mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais
    Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e
    passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de
    Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o
    Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros
    de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a
    Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo
    fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas
    passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem
    se não o Ifante D. Sancho.

    Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e
    uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor
    aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos
    chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar
    por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e
    mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista
    dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes,
    especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo
    essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham
    para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram
    acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um
    Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com
    elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do
    arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande
    esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como
    quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo
    grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,
    havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o
    fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações
    encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este
    incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem
    elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão
    acerca viam já o pó da gente dos Christãos.

    Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem
    mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com
    a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço
    que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de
    haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam
    sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e
    foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os
    dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da
    Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou
    seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a
    outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam
    fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com
    muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e
    bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.

    Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N.
    Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e
    setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos
    Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e
    depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e
    entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor,
    mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a
    Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos
    Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami
    Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e
    prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas
    Roupinho.

    CAPITULO LIV

    _Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas
    Roupinho Alcaide do Castello_.

    Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja,
    de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam
    a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é
    Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente
    das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos,
    até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro,
    que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle
    Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o
    podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle
    se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle
    meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o
    roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram
    pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e
    que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia
    haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente,
    e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o
    mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o
    Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram
    logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão
    profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e
    feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o
    combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos
    por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.

    * * * * *

    «Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos
    rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a
    Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito
    prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos,
    que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda
    que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até
    que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do
    caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós
    ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»

    E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues
    ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar
    onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu
    ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e
    desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem
    remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros
    muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a
    El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer
    e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com
    elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na
    batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços,
    e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas
    Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio,
    era de mil cento e oitenta annos (1180).

    CAPITULO LV

    _Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
    tomou delles nove Galés_.

    Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou
    aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi
    andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome
    João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella
    Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este
    recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e
    fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com
    os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus
    officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e
    outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e
    por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto
    que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa,
    e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes
    daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e
    como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de
    Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal
    continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua
    guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem
    contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo,
    houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram
    aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que
    os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na
    era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho.
    Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a
    qual como era rezão foi recebido.

    CAPITULO LVI

    _Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei
    D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_.

    Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo
    muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior,
    escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde
    o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao
    redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés
    para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle
    os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em
    serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o
    recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante,
    e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar
    que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do
    que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam
    Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes
    com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para
    Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e
    contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados,
    com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre
    ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá.

    Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de
    mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e
    tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D.
    Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois
    achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as
    nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer,
    se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito
    espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais
    foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles
    o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era
    de mil e cento e oitenta annos (1180).

    CAPITULO LVII

    _Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
    Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
    em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
    que veio a soccorrer seu filho_.

    Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para
    sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e
    Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo
    trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida
    pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem
    Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande
    danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso
    Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe
    mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a
    Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo
    diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em
    memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para
    entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha,
    e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis
    Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e
    vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo
    um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era
    do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em
    esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á
    Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte
    de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta
    feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta
    da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como
    quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum
    tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro
    dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo
    quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o
    Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer
    outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.

    O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo
    comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de
    Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de
    defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de
    Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra
    de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar
    a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o
    abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em
    que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de
    redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde
    lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta
    feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou
    Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta
    aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando,
    tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por
    desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e
    combater o palanque.

    Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma
    parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o
    arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros
    maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que
    partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e
    repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta
    sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram
    tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates,
    desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando
    El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho,
    ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres
    dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós.
    Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso
    seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e
    ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos
    em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos
    dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com
    todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não
    foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o
    palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em
    todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer,
    então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal
    medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que
    começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos,
    a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e
    desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes
    dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do
    Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se
    chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua
    gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo
    todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles
    grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli
    vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido
    Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.

    Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os
    seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata,
    e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com
    pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos,
    entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor.
    Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém
    por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca
    Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem
    lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e
    destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e
    estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram
    Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos
    mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se
    partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador
    Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.

    CAPITULO LVIII

    _Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira,
    com D. Felippe Conde de Frandes_.

    Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve
    alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o
    Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito,
    juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas
    cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de
    Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita
    de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu
    cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que
    parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que
    nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito
    cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso,
    de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona
    Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e
    outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á
    Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se
    com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens
    principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela
    Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com
    muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e
    assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu
    estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito
    honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns
    Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de
    linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte
    e tres annos.

    CAPITULO LIX

    _De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
    louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
    escritas_.

    Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D.
    Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por
    tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o
    visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia
    de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o
    nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o
    Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes
    antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na
    Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos
    Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos
    postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos
    tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa
    sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção
    de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D.
    Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o
    Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu
    tempo.

    Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por
    ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a
    segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que
    todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que
    mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação,
    sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas
    vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso
    Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra
    os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou
    por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados
    de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do
    culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa
    Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo
    aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não
    tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.

    E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao
    Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar
    herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de
    enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em
    orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui
    amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes
    batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos
    contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e
    outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo
    elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de
    Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no
    Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto
    com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E
    em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim
    Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia
    treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não
    contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas,
    que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na
    Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde
    Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer,
    Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui
    fortes, e grandes.

    CAPITULO LX

    _Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em
    que se finou, e onde foi sepultado_.

    Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus
    feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e
    esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum
    tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no
    modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi
    para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que
    se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja
    louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o
    meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João
    Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra,
    Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja,
    que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras
    daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer
    deve ser havido.

    Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos
    modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei
    que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu
    Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de
    Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por
    morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des
    então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei
    quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco
    annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos
    aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a
    perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N.
    Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe
    tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé.

    Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo
    de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de
    Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui
    sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus
    Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo
    enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas
    mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de
    fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro
    Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.

    DEO GRATIAS

    INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS

    A

    Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christãos, e abrazou muitos
    Santuarios.

    Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco
    com grande perda.

    Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha
    del-Rei D. Affonso Anriques.

    Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tareja
    com o Conde D. Anrique.
    É vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques.

    Affonso Anriques (D.) Quando naceo.
    É entregue a Egas Monis para ser seu Aio.
    É apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijão
    com que naceu.
    Acompanhou a seu pai defunto até o lugar onde o sepultáram.
    Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D.
    Reymão por lhe tomar Lião, mas logo se reconciliáram.
    Peleja com seu Padrasto, e é vencido.
    Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com elle
    a sua Mãi.
    Alcança a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castella
    chamado Emperador.
    É cercado em Guimarães por D. Affonso de Castella.
    De como levantou o cerco.
    Conquista Leiria, e Torres novas.
    Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros.
    Sentio muito a morte de Egas Monis.
    Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeças de
    Rei.
    É despersuadido pelos Soldados a não commetter a batalha do campo de
    Ourique, mas elle os anima para o conflito.
    Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo da
    batalha.
    Antes da batalha é levantado Rei.
    Dá-se a batalha, e sae vitorioso.
    Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas.
    É informado do lugar onde está o Corpo de S. Vicente Martyr.
    Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não acha.
    Toma Leiria aos Mouros.
    Faz doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches sómento no espiritual.
    Caza com Dona Mofalda.
    Intenta tomar Santarem.
    Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os Mouros de Santarem.
    Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem.
    Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa.
    Escala esta Villa, e se fez Senhor della.
    De que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta Villa.
    Ordena cercar Lisboa.
    Exhorta aos estrangeiros que chegáram na Armada para a conquista de
    Lisboa.
    Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita.
    Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo.
    Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi?
    Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, e
    Serpa.
    Dos filhos que teve.
    Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, que
    vinha com procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mofalda
    filha do mesmo Rei.
    Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros.
    Conquista Badalhouse.
    Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lião, e sahindo a
    pelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas de
    Badalhouse.
    Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdade
    concede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando.
    Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quando
    se celebrou este acto.
    Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar.
    Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo.
    Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado por
    Almiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata.
    Acções illustres, que obrou.
    Annos, que viveo.
    Dia, e anno da sua morte, e onde está sepultado.

    Alanquer é conquistado por D. Affonso Anriques.

    Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D.
    Affonso Anriques.
    Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos.

    Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques.

    Almada, diversos nomes que teve.

    Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho,
    e é desbaratado.

    Arronches é tomado por São Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra.

    Auzery Alcaide mór de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a dita
    Villa.

    Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome.

    B

    Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques.
    No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por esta
    causa é prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recupera
    outra vez Badalhouse.

    Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D.
    Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mãi do
    mesmo Rei.
    A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamado
    Emperador.
    A do Campo de Ourique.
    A de junto de Palmella.
    A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho.
    A de Beja alcançada pelo mesmo Infante.
    A de Santarem onde é destruido Almiramolim Emperador de Marrocos.

    Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno.
    É cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, e
    levantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho.

    Bernardo (S.) Estando em França soube por illustração Divina o voto que
    fizera á sua Religião D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem.

    C

    Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques.

    Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que
    ajudou conquistar Lisboa.
    Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes.

    Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda.

    D

    Daciano Martyrizou a S. Vicente.

    D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na batalha de Ourique.

    E

    Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques.
    Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a um
    lugar, onde achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão com
    que nacera, e assim sucedeo.
    Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fez
    levantar o cerco de Guimarães.
    Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pela
    menagem que lhe tinha feito em Guimarães.
    É livremente despedido pelo dito Rei.
    É recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou de
    Castella.
    Da sua morte, e onde está enterrado.

    Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques.

    Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou
    com o Conde D. Reymão de S. Gil de Proença.

    Evora é conquistada por D. Affonso Anriques.

    F

    Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-Rei
    D. Affonso Anriques.

    Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D.
    Anrique.
    Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugal
    por elle contra El Rei D. Affonso Anriques.
    É prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques.

    Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urraca filha de D. Affonso
    Anriques.
    Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes.
    Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques.

    Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Mós.
    Alcança uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés.
    Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto.

    G

    Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros.

    Gonçalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique.
    Achou-se na conquista de Santarem.
    Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde de
    Barcelona D. Reymondo.
    Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a
    seiscentos homens de cavallo.

    Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo
    que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente
    quando chegou a Lisboa.

    Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S.
    Vicente de Fóra por D. Affonso Anriques, e não permanece.

    Guimarães é cercada por El-Rei de Castella D. Affonso.
    Levanta o sitio por persuasão de D. Egas Moniz.

    Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra é
    eleito Bispo de Lamego.

    I

    Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal
    no logar donde está a Igreja Parochial dos Martyres.

    Ismar (El-Rei) com quatro Reis é vencido na batalha de Ourique sendo o
    numero dos inimigos muito superior ao dos Christãos.
    Toma Leiria.

    Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. Affonso
    Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.

    J

    João (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-Rei
    D. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellona
    assistindo este com procuração do filho.
    Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.

    L

    Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques.
    É tomada por El-Rei Ismar.

    Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques.
    Em que dia, e anno foi ganhada.
    Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros.

    Lourenço Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique.
    Achou-se na conquista de Santarem.
    Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens.

    M

    Martim Moniz filho de Egas Moniz Capitão de uma Az na batalha do Campo
    de Ourique peleja valerosamente.
    Morre na batalha.

    Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na batalha de Ourique.
    É mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de
    Santarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Rei
    para poder ser conquistada.
    Acha-se na conquista de Santarem sendo já Guarda mór del-Rei.
    Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho.

    Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy
    onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona.

    Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes
    informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr
    S. Vicente.

    Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. Affonso
    Anriques.

    Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo
    filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento.

    Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaes
    Cavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa.

    Mosteiro de S. Vicente de Fóra. Nelle, antes de ser fundado, pôs o seu
    arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa.
    Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei.

    Moura é conquistada por D. Affonso Anriques.

    O

    Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques.

    P

    Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonio
    quando foi conquistado por D. Affonso Anriques.
    É prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-Rei
    Ismar.

    Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em
    uma batalha aos Mouros de Badajós.

    Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques
    quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.

    Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na
    conquista de Santarem.

    Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e
    cincoenta cavallos.

    Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista de
    Santarem.
    Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D.
    Reymondo.
    Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.

    Porto de Mós é cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. Fuas
    Roupinho.

    Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D.
    Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja.
    Porque tomou este nome?

    R

    Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
    a receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
    Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que se
    compunha de duzentos e cincoenta cavallos.

    Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procuração de seu filho a Dona
    Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este
    cazamento.

    Roberto (D.) Daião da Sé de Lisboa faz que o Prior da Igreja de Santa
    Justa lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na Sé.

    S

    Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Fernão Mendes.

    Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foi
    jurado em Coimbra.
    É mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroço
    com que recebeo esta ordem, e o que executou.
    Alcança uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha.
    Alcança outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja.
    É cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos com
    quatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccorrido
    por El-Rei seu pai é desbaratado com todo o exercito.

    Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriques
    determinou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir.
    É escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques.
    Porque tem este nome.
    É cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. Affonso
    Anriques.

    Serpa é conquistada por D. Affonso Anriques.

    Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D.
    Affonso Anriques quiz tomar Santarem.

    T

    Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal como
    Condado.
    Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava,
    e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmão de Vermuy Paes.
    É prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. Affonso
    Anriques.

    Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D.
    Felippe Conde de Frandes.
    Como foi conduzida para aquelle Condado.

    Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches.
    Faz-lhe doação D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches sómente no
    Espiritual.
    Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, e
    lhe põe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres.
    Faz oração com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista de
    Santarem.

    Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos.

    Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques?
    O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos.

    Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques.

    Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade.

    U

    Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza
    com o Conde D. Reymão de Tolofa.

    Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei de
    Lião.

    Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã de D. Diogo o bom Senhor
    de Biscaya cazou com El-Rei de Lião D. Fernando.

    V

    Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
    receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.

    Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D.
    Anrique.
    Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja.

    Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado.
    O seu Corpo é trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foi
    buscar D. Affonso Anriques, e o não achou.
    Como foi achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa.

    Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa.

    TRASLADO DO JURAMENTO DEL-REI D. AFFONSO ANRIQUES

    O qual se conserva no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça

    Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Comitis Henrici, nepos
    magni Regis Alfonsi, coram vobis bonis viris, Episcopo Bracharensi, &
    Episcopo Colimbriensi, & Theotonio, reliquisque magnatibus officialibus
    vassalis Regni mei in hac Cruce aerea, & in hoc libro Sanctissimorum
    Euangeliorum juro cum tactu manuum mearum, quod ego miser peccator, vidi
    hisce oculis indignis verum Dominum nostrum JESUM Christum in Cruce
    extensum in hac forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Tagum, in
    agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & aliis quatuor Regibus Maurorum
    habentibus secum infinita millia, & gens mea timorata propter
    multitudinera, erat fatigata, & multum tristis, ia tantum, ut multi
    dicerent esse temeritatem inire bellum, & ego tristis de eo quod
    audiebam, caepi mecum cogitare, quid agerem, & habebam unum librum in
    meo papillione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, & Testamentum
    JESU Christi. Aperui illum, & legi victoriam Gedeonis, & dixi intra me:
    Tu seis Domine JESU Christe, quia pro tuo amore suscepi bellum istud
    contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & meis fortitudinem,
    ut vincamus illos blasphemantes tuum nomen, & sic dicens dormivi supra
    librum, & videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: Adefonse,
    confide, vinces enim, debellabisque Reges istos infideles, conteresque
    potentiam illorum, & Dominus noster ostendet se tibi. Dum haec video,
    accedit Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubiculo,
    dixitque: Surge domine mi. Adest homo fenex, vultque te alloqui.
    Ingrediatur, dixi, sic fidelis est. Ingressus ad me, agnovi esse illum,
    quem in visione videram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto,
    vinces, & non vinceris. Dilectus es Domino, posuit enim super te, &
    super semen tuum post te oculos misericordiae fuae usque in sextam
    decimam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata
    ipse respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod dum
    audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorii mei, in quo vixi
    sexaginta sex annis inter infideles, fervatus favore altissimi,
    egrediaris extra castra, solus sine arbitris, ostendere tibi pietatem
    suam multam. Parui, & reverenter in terra positus, & nuntium, &
    mittentem veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum expectarem,
    secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, & ense, & scuto armatus,
    egressus sum extra castra, vidique subito a parte dextra, orientem
    versus, micantem radium, & paulatim splendor crescebat in maius, & dum
    oculos ad illam partem efficaciter pono, ecce in ipso radio clarius sole
    signum Crucis aspicio, & JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, &
    altera parte multitudinem juvenum candidissimorum, quos Sanctos Angelos
    fuisse credo. Quam visionem dum video, deposito ense, & scuto,
    relictisque vestibus, & calceamentis, pronus in terram me projicio,
    lacrymisque abundè missis, caepi rogare pro confortatione vassalorum
    meorum, dixi que nihil turbatus. Quid tu ad me Domine? Credenti enim
    Fidem vis augere? Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam
    ego, qui a fonte baptismatis te Deum verum Filium Virginis, & Patris
    Aeterni agnovi, & agnosco. Erat autem Crux mirae magnitudinis, & elevata
    a terra quasi decem cubitos. Dominus suavi vocis sono, quem indignae
    aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam Fidem augerem hoc modo
    apparui tibi, fed ut corroborem co tuum in hoc conflitu, & initia Regni
    tui supra firmam petram stabilirem. Confide Alfonse, non folum enim hoc
    certamen vinces, sed omnes alios in quibus contra inimicos Crucis
    pugnaveris. Gentem tuam invenies alacrem ad bellum, & fortem, petentem,
    ut sub Regis nomine in hac pugna ingrediaris; nec dubites, sed quidquid
    petierint, liberè concede. Ego enim aedificator, & dissipator Imperiorum
    & Regnorum sum: volo enim in te, & in semine tuo Imperium mihi
    stabilire, ut deferatur nomen meum in exteras gentes; & ut agnoscant
    successores tui datorem Regni, insigne tuum ex pretio, quo ego humanum
    genus emi, & ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & erit mihi
    Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate dilectum. Ego ut haec
    audivi, humi prostratus adoravi dicens: Quibus meritis, Domine, tantam
    mihi annuntias pietatem? Quidquid jubes faciam, & ut in mea prole, quam
    promittis oculos benignos pone, gentemque Portugallensem salvam custodi,
    & si contra eos aliquod paraveris malum, verte illum potius in me, & in
    successores meos, & populum quem tanquam unicum filium diligo, absolve.
    Annuens Dominus inquit: Non recedet ab eis, neque a te unquam
    misericordia mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & elegi eos
    in messores meos in terris longinquis: haec dicens disparuit, & ego
    fiducia plenus, & dulcedine redii in castra, & quod taliter fuerit, juro
    ego Aldefonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia hisce manibus
    tacta. Idcirco praecipio successoribus meis in perpetuum futuris, ut
    scuta quinque in crucem partita, propter Crucem, & quinque vulnera
    Christi, in insigne ferant, & in unoquoque triginta argenteos, & super
    serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc sit memoriale nostrum in
    generatione nostra: & si quis aliud attentaverit, a Domino sit
    maledictus, & cum Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta
    Colimb. III. Kalend. Novembris. Era M. C. LII.

    Ego Aldefonsus Rex Portugaliae

    _I. Colimb. Episcop.–I. Bracharens. Metropol.–T. Prior.–Ferdinandus
    Petri Curiae Dapif.–Petrus Pelag. Curiae Signifer.–Velascus
    Sancij.–Alfonsus Menen. praef. Ulis.–Gondisalvus de Sousa procur.
    Imn.–Pelagius Menen. procur. Visen.–Suer. Martin. procurar.
    Colimb.–Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_.

    _Cuja significação em Portuguez é a seguinte_

    Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande
    Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e
    Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz
    de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos,
    que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor
    JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu
    exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a
    Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos
    milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava
    atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam
    alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que
    ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda
    um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo,
    abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem
    sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta
    guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos
    meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas
    estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um
    homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem
    confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás
    sua potencia, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou
    João Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu,
    porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe
    respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que
    no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom coração, vencereis, e
    não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre
    vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua
    misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a
    successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá.
    Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a
    campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos,
    guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do
    Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.
    Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o
    Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som,
    na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela
    sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente,
    um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora
    se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de
    repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol,
    e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia
    grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos
    Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e
    lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito
    em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse
    sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura
    accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os
    inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos
    conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim
    vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da
    terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas
    orelhas indignas ouviram, me disse. Não te apareci deste modo para
    accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e
    fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso,
    porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que
    pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e
    esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de
    Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede
    facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e
    quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo
    meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que
    teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas
    Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui
    comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado
    por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o
    adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande
    misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me
    prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que
    tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim,
    e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho.
    Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará delles, nem de ti
    nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes
    searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.
    Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade
    me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D.
    Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos.
    E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em
    honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco
    Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por
    timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o
    tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito
    do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a
    presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e
    cento e cincoenta e dous.

    Eu El-Rei D. Affonso.

    _João Metropolitano Bracharense.–João Bispo de Coimbra.–Theotonio
    Prior.–Fernão Peres Vedor da Casa.–Vasco Sanches.–Affonso Mendes
    Governador de Lisboa.–Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e
    Minho.–Payo Mendes Procurador de Viseu.–Sueiro Martins Procurador de
    Coimbra.–Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_.

    Fim Da Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques

    INDICE DOS CAPITULOS

    I–Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
    Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
    Condado com certas condições.

    II–Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
    donde se chamou Portugal.

    III–Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique,
    que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo.

    IV–Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a
    seu filho ante que falecesse.

    V–Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
    Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
    D. Tareja.

    VI–Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
    vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
    sua mãi com elle.

    VII–Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso
    de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
    Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
    Rei Mouro cercar Coimbra.

    VIII–Como El Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
    Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
    lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco.

    IX–Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre
    Guimarães, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso
    fez D. Egas Moniz.

    X–Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
    D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
    Guimarães.

    XI–Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de
    Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual
    apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria.

    XII–Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
    Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
    Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
    daquelle tempo.

    XIII–Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar,
    que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
    sentaram seus arraiaes um á vista do outro.

    XIV–Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao
    Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que o Principe
    fez sobre esso.

    XV–Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso
    Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós.

    XVI–Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes
    para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei.

    XVII–Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de
    Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande
    vencimento della.

    XVIII–Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida
    acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli
    acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que
    ahi foram tomados.

    XIX–Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e
    mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
    Christo.

    XX–Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de
    S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo
    achar se tornou para Coimbra.

    XXI–Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a
    El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso
    passou com o Bispo.

    XXII–Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El Rei D. Affonso
    Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados.

    XXIII–Como o Papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a
    prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles
    se passou em Coimbra.

    XXIV–Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
    escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
    passou.

    XXV–Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique
    veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e
    tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar
    Leiria aos Mouros.

    XXVI–Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz,
    e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
    Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
    Anrique de Lara.

    XXVII–Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
    Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou.

    XXVIII–Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
    Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
    teve com os seus para ir sobre ella.

    XXIX–Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
    Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
    hora lhe foi revelado lá em França, onde estava.

    XXX–Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
    Santarem, e das rezões que disse a todos.

    XXXI–Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
    Santarem, e dos sinais que pareceram.

    XXXII–Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
    Santarem, e foi entrada, e tomada.

    XXXIII–Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para
    Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa
    Santarem.

    XXXIV–Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a
    tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.

    XXXV–Do que El-Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade
    de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes
    Estrangeiras.

    XXXVI–Dos milagres que Deus mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que
    morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.

    XXXVII–Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
    mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
    de Lisboa muito ferido morrera.

    XXXVIII–Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos
    milagres que Deus por elle fazia.

    XXXIX–De como El Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa
    Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della.

    XL–De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
    Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem.

    XLI–Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na
    Estremadura, e Alem do Tejo.

    XLII–Dos filhos que El Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha
    Dona Mofalda.

    XLIII–Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e
    venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.

    XLIV–Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e
    El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El-Rei
    D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.

    XLV–Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar
    as maldições dos pais, e mãis aos filhos.

    XLVI–Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
    Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
    os desbaratou e venceo.

    XLVII–Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que
    o foram buscar.

    XLVIII–Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa.

    XLIX–Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D.
    Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe
    sobre ello disse.

    L–Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
    gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
    no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.

    LI–Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
    guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
    os Mouros peleijasse.

    LII–Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
    esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve.

    LIII–Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e
    foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre
    ella.

    LIV–Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D.
    Fuas Roupinho Alcaide do Castello.

    LV–Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
    tomou delles nove Galés.

    LVI–Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado
    del-Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os
    seus.

    LVII–Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
    Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
    em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
    que veio a soccorrer seu filho.

    LVIII–Como cazou Dona Tareja filha del-Rei D. Affonso Anriques a
    derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.

    LIX–De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
    louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
    escritas.

    LX–Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era
    em que se finou, e onde foi sepultado.

    OBRAS PUBLICADAS

    I–Historia do Cerco de Diu, por _Lopo de Sousa Coutinho_, 1 volume. 400

    II–Historia do Cerco de Mazagão, por _Agostinho Gavy de Mendonça_, 1
    volume. 400

    III–Ethiopia Oriental, por _Fr. João dos Santos_, 2 grossos volumes.
    1$500

    IV–O Infante D. Pedro, chronica inédita por _Gaspar Dias de Landim_, 3
    volumes. 700

    V–Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Fernão
    Lopes_, 1 volume. 400

    VI–Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Fernão Lopes_, 3 volumes. 1$200

    VII–Chronica d'El-Rei D. João I, por _Fernão Lopes_, 7 volumes. 2$800

    VIII–Chronica d'El-Rei D. João I, por _Gomes Eannes d'Azurara_, VOL. I,
    II e III (VIII, IX e X). 1$200

    IX–Dois Capitães da Índia, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume. 400

    X–Arte da Caça de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes.
    800

    XI–Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes.
    1$200

    XII–Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume. 400

    XIII–Chronica d'El-Rei D. Affonso V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes.
    1$200

    XIV–Chronica d'El-Rei D. João II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes.
    1$500

    XV–Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume.
    500

    XVI–Chronica d'El-Rei D. Sebastião, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2
    volumes. 1$000

    XVII–Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoça_, 2 volumes. 800

    XVIII–Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL I a
    X. 3$800

    XIX–Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _João Tavares de
    Vellez Guerreiro_, 1 volume. 600

    XX–Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvão_, 1
    volume. 600

    EM PUBLICAÇÃO

    Historia Tragico-maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL XI

    Cancioneiro Geral, por _Garcia de Resende_.

    NOTAS

    [1] Duarte Galvão morreu em 1517.

    [2] Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmão impossado de sua mulher,
    casou com uma filha d'esta e do Conde D. Henrique. Assim o diz o Conde
    D. Pedro (em seu Livro de Linhagens) e assim o repete Duarte Galvão. A
    este peccado, accrescentão, se deve a fundação do Mosteiro de Sobrado.

    [3] No anno de 1505 se escreveo esta Chronica.

    [4] Os capitulos XXI a XXIV da presente edição, foram os cortados na de
    1726.

  • Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

    Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

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    Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

    José de Anchieta

    Depois de tudo criado
    por conto, peso e medida,
    disse Deus: "Seja formado
    o homem, como treslado
    de nossa imagem subida".

    E criou
    a Adão, a quem dotou
    da semelhança divina.
    Mas foi tal sua morfina,
    que mui depressa borrou
    aquela imagem tão divina.

    Mas Cristo, Deus humanado,
    glorioso São Francisco,
    para limpar o treslado,
    que Adão tinha borrado,
    pondo o mundo em tanto risco,

    quis pintar,
    e consigo conformar
    a vós, de dentro e de fora,
    com graça tão singular,
    que vos podemos chamar
    homem novo, em quem Deus mora.

    Ó formoso patriarca,
    ó ilustre capitão
    da sagrada religião,
    dentro da qual, como em arca,
    se salva o povo cristão!

    Vós sois aquele varão
    cheio de justiça e fé
    e de toda perfeição,
    figurado, com razão,
    no justo e santo Noé.

    Noé fez a grande arca
    em que o homem racional,
    junto com o bruto animal,
    escapassem, como em barca,
    do dilúvio universal.

    Vós, por ordem divinal,
    na religião, que fizestes,
    a bons e maus recebestes,
    e livres d'água mortal,
    a Deus vivo os oferecestes.

    Vós sois o grande varão
    que de Deus fostes achado
    segundo seu coração,
    e no pai de Salomão
    altamente figurado.

    O qual, como desprezado
    por ser o filho menor,
    sendo de ovelhas pastor,
    apascentava seu gado
    com grã cuidado e amor.

    Davi, com grande vigor,
    um leão mui carniceiro
    e um urso roubador,
    com o gigante espantador
    matou, com ser ovelheiro.

    Este tal, por derradeiro,
    Deus o fez rei de Israel,
    salvando o povo fiel,
    por este grã cavaleiro,
    de toda a gente cruel.

    Vós vos tínheis por menor,
    tendo a todos por maiores,
    e maior dos pecadores,
    tendo-vos Deus por maior
    de todos seus servidores.

    Fez-vos pastor dos menores,
    uns dos quais foram cordeiros,
    mas mui fortes cavaleiros,
    outros, do gado pastores
    e guias, como carneiros.

    Concedeu-vos tal poder,
    que leão, urso e gigante
    matásseis, carne e Lucifer
    destruindo mui possante.

    Com tal capitão diante,
    aumentou-se a fé e lei
    da igreja militante,
    e vós, já na triunfante,
    sois coroado por rei.

    Trepando sem nenhum medo
    o príncipe Jônatas,
    com seu criado de trás,
    por um áspero penedo,
    alcançou vitória e paz,

    cometendo
    o exército tremendo
    dos inimigos, de repente.
    E, com ânimo valente,
    suas forças desfazendo,
    salvou toda sua gente.

  • Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro

    Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro

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    Farinha, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team.

    BREVES

    INSTRUCÇÕES

    AOS CORRESPONDENTES

    DA

    ACADEMIA DAS SCIENCIAS

    DE LISBOA

    SOBRE

    AS REMESSAS DOS PRODUCTOS,

    E

    NOTICIAS PERTENCENTES

    Á

    HISTORIA DA NATUREZA,

    PARA FORMAR HUM MUSEO NACIONAL.

    _Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria_.

    LISBOA

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCC.LXXXI.

    _Com licença da Real Meza Censoria_.

    1781

    ADVERTENCIA.

    As relações, por mais exactas e completas que sejão, nunca chegão a
    dar-nos huma idéa tão perfeita das coisas, como a sua mesma presença:
    por esta causa se tem occupado os Sabios, particularmente neste seculo,
    em ajuntar com a protecção dos Principes os exemplares de varios
    individuos das diversas especies de Animaes, Vegetaes e Mineraes, que se
    encontrão em differentes paizes, para apresentarem do modo possivel á
    vista dos curiosos hum como compendio das principaes maravilhas da
    Natureza.

    Considerando pois a Academia das Sciencias de Lisboa, cujos trabalhos se
    encaminhão todos ao bem público, a grande utilidade, que de huma
    similhante Collecção, sendo bem ordenada, póde resultar para o
    adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos os mais ramos da
    Economia; propoz-se o projecto de formar nesta Capital hum Museo
    Nacional, onde principalmente se ajuntem e conservem os productos, ao
    menos os mais notaveis, que se achão dentro do Reino e das suas
    Colonias.

    Como porém muitas vezes succede, que alguns dos exemplares,
    particularmente quando são remettidos de paizes distantes, chegão
    damnificados e por isso indignos de se guardarem nos Gabinetes, por não
    terem sido devidamente escolhidos, preparados e acondicionados; e como
    além disso nem todas as pessoas, que he necessario encarregar das
    remessas e das noticias que devem acompanhallas, se suppõem igualmente
    instruidas no melhor methodo de satisfazer as suas Commissões, julgou
    conveniente a mesma Academia apontar as seguintes Instrucções, pelas
    quaes poderáõ dirigir-se, os que dellas necessitarem.

    Adverte-se com tudo a cada hum dos Correspondentes e Commissarios, que,
    quando por alguns motivos, que occorrão, lhes não seja possivel
    satisfazer em tudo, satisfação ao menos em parte, e do melhor modo que
    poderem, ao que nestas Instrucções se recommenda, em quanto ao numero e
    perfeição dos exemplares que se pedem, e em quanto ao methodo de os
    preparar e remetter.

    BREVES INSTRUCÇÕES

    Sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes á Historia da
    Natureza, para formar hum Museo Nacional.

    *§. I.*

    _Das remessas dos Animaes_.

    As remessas dos individuos do reino animal são as mais difficultosas
    pelas preparações, que he necessario fazer, a fim de impedir a
    corrupção, a que estão mais sujeitos, que os individuos dos outros dois
    reinos. E como estas preparações varião algum tanto conforme a variedade
    de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que são
    proprias de cada huma dellas.

    Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes
    destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos,
    sem exceição alguma, com a cabeça inteira; os quadrupedes com todas as
    unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e
    pés, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda;
    em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os
    Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois
    de feita a preparação, ficar, quanto for possivel, no seu estado
    natural.

    _Dos Quadrupedes_.

    Como he impraticavel conservar sem corrupção por muito tempo com a carne
    os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a
    sua pelle com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma
    exterior, que tinhão em quanto vivos.

    Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha
    na pelle ou huma incisão direita desde a parte mais inferior do ventre
    até o _anus_, ou duas incisões, cada huma das quaes principie no mesmo
    _anus_, e continue pela parte interior das coxas até á juntura destas
    com as pernas.

    Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais
    conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento
    accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tiraráõ estas para
    fóra, cortando-as pelas articulações, que as unem com as pernas, cujos
    ossos se descarnaráõ, quanto for possivel.

    Depois se continuará a despegar a pelle das costas até chegar á cauda, a
    qual, se não se puder esfollar, se cortará pela juntura, que a une ao
    tronco.

    Feito isto, se voltará para a cabeça do animal a parte posterior da
    pelle, que já está separada do corpo; e puxando-a até ás espaduas, se
    fará nos braços o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas
    articulações das canellas; as quaes tambem se descarnaráõ da mesma sorte
    que as pernas.

    Continuar-se-ha a puxar a pelle até descobrir ametade da cabeça para a
    descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pescoço, se
    extrahirá toda a substancia do cérebro; e depois de bem limpa a
    cavidade, se encherá esta com estopa, ou algodão misturado com pedra
    hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo, como
    tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
    therebentina.

    Com esta mesma composiçao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e
    descarnar bem os queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada
    á cabeça.

    Tambem se arrancaráõ os olhos, de modo que se não rompão as palpebras; e
    depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se
    encheráõ com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos
    olhos arrancados se metteráõ outros artificiaes ou de vidro, ou de
    esmalte, ou de outra materia sólida, que imitem na figura e cores os
    naturaes; e quando isto se não possa fazer com a perfeição devida,
    remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma relação
    exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.

    Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com
    algum instrumento de aço pouco affiado, para que a não rompa, e
    esfregar-se com sabão desfeito em agoa tepida, até que fique sem o menor
    resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrupção.
    Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizará a mesma parte
    interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a pó por si mesma,
    ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a
    temperar a sua actividade. Esta pulverização póde repetir-se huma e mais
    vezes, até que se conheça que a pelle está inteiramente secca. E para
    extinguir todos os insectos, que possão causar algum damno ao cabello,
    será muito conveniente defumar as pelles já seccas com o vapor de
    enxofre inflammado; e se embrulharáõ logo em pannos bem tapados para
    evitar que outros infectos venhão de novo depositar nellas os seus óvos.

    Acabadas estas operações, encher-se-ha todo o espaço, que occupava o
    corpo do animal, com a mesma composição, com que se encheo a cavidade da
    cabeça, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas,
    e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos á proporção da
    grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dará ao
    pescoço, aos pés, á cauda e a todo o volume a sua postura natural.

    Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou
    gordura, que no tempo da preparação tiver contrahido, se accommodará a
    pelle assim preparada dentro do caixão em que ha de ser transportada,
    pondo-a e segurando-a, de modo que não balance; e tapando as juntas do
    caixão com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e
    acres, para impedir que entre a humidade.

    Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana
    grandeza não póde praticar-se com os demaziadamente grandes, bastará que
    se remettao as suas pelles com a cabeça pegada, e com todas as unhas.
    Estas pelles devem preparar-se com todas as precauções que já apontámos:
    e quando estas não sejão bastantes para as seccar bem, e extinguir todos
    os infectos, se metteráõ pelo espaço de seis horas em fornos, cujo gráo
    de calor seja o maior que as pelles possão supportar, sem que se queime
    o cabello; depois do que se defumaráõ, como acima dissemos, com o vapor
    de enxofre inflammado; e se embrulharáõ cada embrulharão cada huma á
    parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras
    therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o
    mais se fará, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.

    Mas, como só as pelles não bastão para dar huma idéa justa da fórma e
    postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto
    com ellas hum desenho, ou huma descripção exacta, ao menos daquelles,
    que não são vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de
    extraordinario.

    Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda
    receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante
    da sua residencia, que não fossem logo depois de separadas do corpo
    devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de
    corrupção principiada, as mettão promptamente e conservem pelo espaço de
    dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem
    nos caixões pelo methodo acima exposto.

    Os quadrupedes pequenos, que não possão preparar-se, como os de mediana
    grandeza, se preparão facilmente deste modo. Por huma incisão pequena
    junto ao _anus_ se extrahiráõ todos os seus intestinos; e depois de bem
    limpa e enxuta a cavidade que fica, se encherá esta com estopa ou
    algodão misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos.
    Arrancados os olhos com as advertencias já expostas, se metteráõ os
    corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez.
    Depois se acamaráõ em vasos cheios de licor composto de tres partes de
    agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma
    boa porção de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que hão
    de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel,
    com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de cêra e rezina; e os
    mesmos vasos accommodados nos caixões de modo que não quebrem, se forem
    de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.

    Os esqueletos dos animaes, que tambem entraõ na classe das preciosidades
    que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, não precisaõ de
    preparações tão delicadas, para se remetterem sem perigo de corrupção.
    Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha
    um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem
    uns com os outros. Por meio desta numeração será facil armar novamente o
    esqueleto, para lhe dar a sua fórma natural.

    Os ossos de cada animal devem empacotar-se á parte, para não haver
    confusão; e accommodallos de sorte nos caixões, que se não quebrem no
    transporte.

    Como póde succeder que algumas vezes não haja toda a commodidade de se
    remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venhão ao
    menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros,
    aquellas partes que tenhão alguma coisa de extraordinario.

    _Das Aves_.

    O methodo de preparar as _aves_ grandes pouco differe, do que acima se
    expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se póde
    principiar a operação por huma unica incisão feita no ventre desde o
    _anus_ até o osso do peito, he melhor que se facão duas de sorte que,
    nascendo ambas do _anus_, vá cada huma dellas correndo ao comprido das
    coxas até terminar no encontro da aza da mesma parte.

    Pegando no vertice do angulo, que fórmão no _anus_ as duas incisões, se
    irá separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento
    accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabeça da
    ave até chegar aos encontros das azas.

    Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para
    fóra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos serão
    bem descarnados, se continuará a operação, separando de vagar a pelle
    das costas até chegar ao uropigio, o qual se cortará com huma tisoura
    pela articulação que o une ao corpo.

    Feito isto, se pegará na parte posterior já esfollada do corpo da avecom
    a mão esquerda, e com a direita se irá tirando com sentido, para que se
    não rompa, o resto da pelle, até chegar ás azas; as quaes se devem
    separar do tronco pelas suas articulações, descarnando, o mais que for
    possivel, os ossos que ficão pegados á pelle.

    Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pescoço, até descobrir parte
    do cranio, o qual se cortará transversalmente hum pouco acima da sua
    união com o pescoço; separando deste modo do resto do corpo a cabeça
    junta com a pelle.

    Por esta abertura feita no cranio se extrahirá toda a substancia do
    cerebro; e se fará tudo o mais que pertence á preparação interior da
    cabeça, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.

    Porém nas aves aquaticas, e outras de cabeça grande, cujo pescoço não he
    facil de se esfollar até descobrir o cranio, sem o perigo de romper a
    pelle, separar-se-ha da cabeça o pescoço pela ultima juntura; e depois
    de revirada a pelle, se fará a extracção do cerebro por hum buraco feito
    de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.

    Antes de revirar a pelle se raspará levemente o interior della, para
    purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizará com pós, que
    constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de
    solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta,
    e outras quatro de tabaco.

    Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se terá feito
    passar antes da operação pelos narizes da ave hum fio comprido e forte,
    o qual servirá para puxar a cabeça fóra, e dar á pelle a sua situação
    natural.

    O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he
    inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta só advertir, que esta
    preparação das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua
    pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.

    Depois de bem concertadas as pennas, se envolveráõ estas aves em huma
    tira de panno, principiando pela cabeça; e se accommodaráõ entre
    materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos
    caixões, com todas as mais cautelas, que já dissemos.

    Este methodo de preparar as aves não he facil de praticar-se com algumas
    dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua
    pelle. Neste caso poderáõ enviar-se em vasos cheios de licor
    espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a
    remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de
    quebrar-lhes o osso do peito, para não ficarem com difformidade, e de as
    envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno,
    para se não descomporem as suas pennas.

    Se a distancia não for muito grande, quaesquer que sejão as aves,
    bastará que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de
    expôr, se lancem de infusão pelo espaço de quinze dias em espirito de
    vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa porção de pedra
    hume e alcanfor. E sem outra maior preparação podem remetter-se com as
    cautelas já indicadas.

    Os _óvos_, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos
    Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno
    buraco feito de proposito em hum dos seus pólos, ou em ambos, se for
    preciso, se acamaráõ em bocetas com algodão, ou outra materia molle e
    secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que porém se mandão para
    fecundarem, antes de se metterem nos caixões, se cobriráõ bem de verniz
    pelo methodo sabido de _Reaumur_.

    Os _ninhos_, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do
    naturalista, se accommodaráõ da mesma sorte, e com as mesmas precauções
    em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente
    trazem, se metteráõ em hum forno, que só tenha o gráo de calor
    necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em
    pannos, para impedir novos insectos.

    _Dos reptís_.

    A preparação de todo o genero de _reptís_, _serpentes_, e _cobras_
    grandes, cuja pelle póde separar-se do corpo, he inteiramente a mesma,
    que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo
    de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que
    pertence ao modo de os accommodar nos caixões.

    Só deve advertir-se, que a incisão, por onde principião todas as mais
    operações, nos reptís, como o sardão e outros, deve fazer-se da parte do
    ventre ao menos desde o meio da cauda até o pescoço, conduzindo-a pelo
    interior das coxas e braços até ás suas articulações; e nas cobras
    grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as
    escamas das costas se ajuntão com as do ventre. Estas se accommodaráõ
    nos caixões, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem,
    em quanto vivas.

    Os reptís pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se
    tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o
    cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.

    _Dos peixes_.

    Aquelles _peixes_, que os Naturalistas chamão _cetaceos_, e cujas pelles
    são tão fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo
    que estes; excepto que a incisão se deve fazer na parte inferior por
    todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes,
    que forem demaziadamente grandes, bastará mandar as pelles seccas e
    preparadas, como dissemos dos quadrupedes.

    Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de
    sorte, que possão seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento
    accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se
    lançaráõ de infusão em agoa ardente pelo espaço de doze até quinze dias.
    Findos estes, se estenderá o peixe com o lado mais branco para baixo
    sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular
    cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situaçao
    natural: e para que estas á medida, que forem seccando, se não torção, e
    descomponhão; depois de concertadas, e em quanto estão humidas e com a
    sua cólla natural, se lhe pregaráõ pela parte de cima algumas tiras de
    papel, que serviráõ para as conservar sempre na mesma posição.

    Feito isto, se exporá ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados
    quatro ou sinco dias, se despegará o peixe por meio de huma agulha de
    fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e
    a lamina, se faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar
    as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido
    contrario.

    Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se exporá segunda vez
    ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, até que
    se conheça estar o peixe perfeitamente secco, se untará por fóra com bom
    verniz transparente, e se accommodará nos caixões com todas as cautelas
    já indicadas.

    Os peixes _escamosos_, que pela muita delicadeza da sua pelle não podem
    fer preparados como os _cetaceos_; nem tão pouco pela grande grossura da
    sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortaráõ em
    duas partes, conduzindo o córte pelo embigo desde a cabeça até á cauda;
    e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e
    pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina
    para se conservar, se alimpará da parte das escamas com o gume de huma
    faca, que a toque levemente, e corra desde a cabeça até á cauda; porque
    em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre
    consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.

    Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se irá
    despegando pouco a pouco toda a carne, até que fique só a pelle com a
    ametade da cabeça pegada. Desta se tirará o cerebro que restar, e todas
    as porções de ossos, que fórmão differentes separações no interior do
    cranio. Tambem se extrahirá toda a substancia do olho, cuja figura e
    cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta
    com outro artificial. Se a cabeça do peixe for muito curva, se aplanará,
    pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter
    por baixo e por cima da cabeça alguma materia molle.

    Esta meia pelle assim preparada se pegará pela parte interior com a sua
    mesma cólla natural a huma folha de papel; e sua porão as barbatanas e
    cauda na sua fórma e situação natural. Depois de bem secca se untará com
    verniz transparente, e se metterá no caixão com as precauções
    necessarias.

    Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, não
    poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de expôr, se
    enviaráõ em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser
    mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer
    para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o
    mais, que já se disse, sobre este genero de remessas de animaes
    pequenos.

    _Dos animaes crustaceos_.

    Todos os animaes, a que os Naturalistas dão este nome, ou habitem no
    mar, ou nos rios, ou na terra, se preparão do mesmo modo, attendendo
    unicamente á sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto
    á sua preparação, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando
    pela sua pequenez se não puderem evacuar de toda a sua substancia molle
    e corruptivel, ou quando não possão seccar-se sem detrimento sensivel da
    sua fórma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas
    pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se não
    quebrarem, se embrulharáõ, cada hum á parte, em hum pequeno panno, que
    se envolverá com hum fio; e assim embrulhados se lançaráõ em espirito de
    vinho para se remetterem.

    Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se fará,
    separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, á qual ficão
    pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirará
    toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que está dentro das pernas,
    senão de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas
    as cavidades, que ficão depois de extrahida a substancia interior, se
    encheráõ com as mesmas materias, que já apontámos, fallando dos outros
    animaes. Antes de os encaixotar, devem expôr-se ao ar o tempo necessario
    para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodaráõ em bocetas com
    todas as precauções precisas, para que cheguem inteiras todas as suas
    partes, ainda as mais delicadas. Para isso será conveniente, que cada
    hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua
    situação natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que
    hão de ser remettidos, tenhão capacidade bastante, para não ser
    necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.

    _Dos insectos_.

    No que pertence ao modo de preparar os _insectos_ destinados para o
    Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como
    repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma
    preparação particular.

    Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e
    assás forte para conservar depois de secca a sua fórma exterior, se
    metteráõ em fórnos, que só tenhão o gráo de calor necessario para
    dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem
    conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poderá
    supprir a falta de fórnos, principalmente nos Paizes quentes.

    As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das
    borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos,
    ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos
    consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas
    cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e
    que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se
    apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e
    assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão
    perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as
    cautelas necessarias.

    Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que
    depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas
    cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo
    methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.

    Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas
    requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as
    suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os
    Naturalistas para distinguir as diversas especies.

    _De outras producções pertencentes ao reino Animal_.

    Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de
    conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem
    algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as
    _Estrellas do mar_, em que se observão sinaes menos equivocos de
    sensibilidade.

    Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter
    alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para
    coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo
    necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de
    corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ
    com as cautelas já sabidas.

    Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca
    poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso
    extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias;
    e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.

    Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se
    fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas,
    da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que
    fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por
    este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo,
    que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a
    substancia corruptivel.

    Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua
    posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as
    pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão
    vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual
    ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas
    postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou
    quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as
    operações, que acabamos de expôr.

    Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos
    agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo
    na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a
    substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem
    com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se
    accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando
    todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não
    quebrem os seus espinhos.

    Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se
    conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas
    costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua
    fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu
    merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que
    se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com
    hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa
    fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o
    faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está
    vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa
    doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da
    concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita
    facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso
    esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu
    desenho.

    Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum
    pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ
    com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem
    remetter-se com todas as mais cautelas.

    Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de
    as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque
    o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se
    corrupção.

    *§. II.*

    _Das remessas dos Vegetaes_.

    Como estas instrucções não tem por objecto formar hum Jardim Botanico;
    mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos
    o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros
    para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido
    admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a
    Academia, se o julgar necessario, reduzirá a instrucções compendiosas em
    outro papel á parte. Por ora só se trata do modo mais facil de remetter
    as plantas seccas com todas as partes, que as caracterizão.

    Para este fim se colheráõ as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas,
    flores e frutos. Das plantas, que não produzem no mesmo tempo as flores
    e os frutos, se colheráõ dois pés, cada qual tenha huma das duas coisas.
    Das arvores, arbustos e plantas maiores bastará colher hum ou dois dos
    ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda
    não se poder enviar todas estas partes juntas, se enviaráõ separadas;
    com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.

    Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se
    estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos,
    se comprimiráõ em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de
    pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, até que esteja de
    todo extrahida a sua humidade. Para maior segurança, depois desta
    operação, será conveniente expôr por algum tempo ao calor do Sol estas
    plantas, quando se tirão a ultima vez da imprensa.

    Feito isto, se estenderáõ segunda vez os individuos de cada especie
    separadamente em diversos papeis, os quaes se acamaráõ em caixas de
    folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que
    já se tem advertido sobre as outras remessas; não esquecendo introduzir
    dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como
    alcanfor, ou tabaco de fumo.

    Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas,
    frutos, e flores são tão espeços e succulentos, que não podem seccar-se
    pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes só
    podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as
    cautelas já indicadas para outras remessas similhantes.

    Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito
    tempo sem corrupção, se colheráõ maduros, e se exporáõ algum tempo ao
    calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e
    depois se metteráõ nas caixas, em que devem enviar-se.

    Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se
    conservão muito tempo sem corrupção, como o _gingibre_, _curcuma_,
    _amomum_, e outras. A estação mais favoravel de as tirar da terra nos
    paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se
    as mais fortes, se porão em algum lugar enxuto á sombra até se evaporar
    a sua primeira humidade; e se metteráõ depois em caixões com arêa bem
    secca, para se remetterem.

    Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela
    casca, que as veste, se conservão com mais facilidade sem corrupção, se
    preparão da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.

    Não se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de
    balsamos, rezinas, gommas, e outras producções similhantes, que
    pertencem ao reino vegetal, ou sejão solidas ou líquidas; porque são bem
    conhecidas no commercio, e já a experiencia tem mostrado o melhor modo
    de fazer as suas remessas.

    Tambem merecem entrar nas collecções proprias de hum Museo as diversas
    cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem
    algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem
    notaveis, ou pelo polido, de que são susceptiveis, ou pela singular
    contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra
    qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se póde
    tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de peças he
    facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu
    destino.

    Tudo o que póde dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a
    não as colher, senão depois de maduras; e a mettellas, estando bem
    enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com arêa bem secca e
    miuda dentro dos caixões, em que se hão de remetter. As sementes grandes
    tambem se podem cobrir de cêra derretida em hum pouco de oleo de
    therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura até
    o ponto, em que o calor não possa causar-lhe damno.

    Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve
    indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies
    necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se não
    confundão. Não usando da mistura de musgo, ou arêa, podem remetter-se,
    para evitar esta confusão, cada huma das especies de sementes embrulhada
    á parte em hum papel encerado; observando na sua accommodação dentro das
    bocetas as precauções necessarias, para que cheguem inteiras.

    Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em
    que mais facilmente se conservão, será conveniente, e não menos commodo
    mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas
    bocetas do mesmo modo que fica dito.

    *§. III*

    _Das remessas dos Mineraes_.

    Os productos do reino mineral são os que menos cautelas requerem, para
    chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e
    saber procurallos. No que respeita ás suas remessas, que he o unico
    objecto destas Instrucções, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e
    _fossís_.

    As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos
    differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum
    sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a faça notavel,
    principalmente pelo uso, que póde ter nas Artes.

    Das pedras, ou sejão de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente
    as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenhão, ou pela
    sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes,
    agathas, marmores, congelações, amiantos, &c.

    As amostras de todo o genero de fossís, que puderem ajuntar-se, são
    dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser
    conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes,
    que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero
    de petrificações, crystallizações, bitumes fossís, lavas, pyrites, &c.
    remettão os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.

    Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e
    fossís, devem remetter-se em caixões separados, podendo ser, para evitar
    confusão; e embrulhados á parte com numeros differentes, que
    correspondão aos numeros da relação, de que adiante fallaremos.

    Accommodar-se-hão nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do
    transporte lhes não cause algum damno; e se observaráõ as mais cautelas
    necessarias, para que a humidade os não prejudique.

    Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a
    natureza produz no seio do mar, ha algumas, que fórmão em certo modo
    huma classe á parte; e que por essa mesma causa parece não devião
    confundir-se com as outras producções pertencentes aos tres reinos. Esta
    são as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos
    com a fórma, exterior reduzirão á classe das plantas marinhas; e outros,
    attendendo á sua dureza, julgárão ser especie de pedras.

    Todas estas producções se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas,
    pela grande variedade da figura e disposição de seus ramos, e por outras
    particularidades não menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que
    forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas
    vezes sahem pegadas a pedaços de rócha, e entrelaçadas humas com outras,
    assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes
    são igualmente dignas da attenção do Filosofo.

    Como porém nenhuma destas substancias he sujeita a corrupção, basta que
    se accommodem nos caixões cercadas de materias molles, e seguras com
    travessas de madeira, para se não quebrarem com o movimento.

    Estas singulares producções não são mais, que huma collecção de pequenas
    casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se
    multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que
    crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos
    enviar á parte, se metteráõ logo, apenas se tirarem do mar, as massas
    duras, que os contém, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem
    pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma
    lente, se for necessario, se divisaráõ parte de cada hum dos animaes,
    fóra de suas pequenas grutas. Não se deixará escapar este momento; e com
    algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prenderá o animal; e
    arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lançará logo em
    espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle não tenha tempo
    de se contrahir, e perder a sua fórma natural antes de morrer. No mesmo
    espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como
    todo o genero de polypos: e as suas remessas se farão do mesmo modo, e
    com as mesmas cautelas, que já se advertírão, fallando dos insectos.

    Ha outras producções marinhas além das sobreditas, que pela sua figura,
    miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivocão mais com as plantas.
    Os Botanistas lhes dão vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou
    corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce até depôrem
    todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em
    differentes papeis com todas as mais precauções já expostas sobre as
    remessas das plantas terrestres.

    Como porém estas mesmas corallinas pelas ultimas observações se tem
    conhecido constarem de pequenas casas, em que habitão animaes, da mesma
    sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para
    separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que
    devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tirão de
    differentes substancias, para se não confundirem as suas especies, as
    quaes differem entre si conforme a differença das massas, em que se
    achão.

    Além de todas estas producções marinhas ha outras muitas, que não só tem
    a fórma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o são, como o
    sargaço, e outras. Estas, como já advertimos, devem lavar-se primeiro em
    agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotaráõ, como as outras
    plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.

    As esponjas marinhas, cuja natureza ainda não he bastantemente conhecida
    por falta de observações, mas que facilmente se distinguem das outras
    especies pela sua fórma exterior, merecem tambem ser conservadas nos
    Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e
    seccas, se accommodaráõ nos caixões com algodão, sargaço ou estopa, sem
    as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito
    sobre a preparação exterior das caixas, em que se remettem os mais
    productos da natureza.

    Parece escusado dar instrucções sobre as remessas de algumas obras de
    artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas,
    instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas
    similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas.
    Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico
    artificio consista na sua diversa disposição, como são algumas carapuças
    e cinturas de pennas de diversas cores, de que usão alguns póvos da
    Africa e America, se remetteráõ com as cautelas, que deixamos apontadas
    sobre as remessas das mesmas producções naturaes, de que são compostas.

    Finalmente as instrucções antecedentes poderáõ accommodar-se a alguns
    productos, de que aqui se não faz menção, conhecida a sua natureza, e a
    classe a que pertencem.

    *§. IV.*

    _Das noticias pertencentes á Historia Natural_.

    As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou
    dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o
    Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno,
    em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que o
    habitão.

    Em quanto á primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se
    aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caixões, ou
    bocetas mandem huma relação exacta de todas as coisas que contém.
    Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e
    distintas com numeros diversos, na relação debaixo dos mesmos numeros
    respectivos se declarará 1.° o nome tanto indigeno, como estrangeiro da
    dita especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas.
    2.° Notar-se-hão todas as suas qualidades mais attendiveis, e
    particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que
    remette, expressará todos os factos constantes e uniformes, que
    distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
    pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto,
    instinto, artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais
    particularidade se demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde
    resultar para a vida humana. Na relação das qualidades dos vegetaes
    declarará os lugares do seu nascimento, a estação propria da sua
    plantação, o tempo da sua frutificação, os usos, que a experiencia tiver
    mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para
    todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que
    mandar as amostras, não se esquecerá o Correspondente de expressar os
    lugares, em que se achão, a profundidade de seus veios, a natureza dos
    terrenos circumvizinhos, e os usos, que já tem no paiz, e os que podem
    ter na Sociedade.

    Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz,
    devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma relação, em
    que se dê huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes
    dão os mesmos póvos, que dellas se servem.

    Além destas relações particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos
    caixões das remessas, será conveniente que se mande á parte huma relação
    geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza.
    Desta deixará o Correspondente huma copia fiel na sua mão, para não
    remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter
    novamente os que se lhe pedirem.

    Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, só servem para
    dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como não interessa menos
    conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que
    mandem tambem huma descripção Geografica delle, que comprehenda com a
    exacção possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno
    da attenção de hum Filosofo. E para procederem sem confusão, podem
    ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v.
    g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem
    á agoa.

    Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a
    respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimensões, a sua situação a
    respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passaráõ a
    coisas mais particulares. 1.° Em quanto aos montes, devem declarar, se
    ha muitos, se poucos; se alguns delles são promontorios, e vulcanos;
    qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como
    a respeito da superficie do mar; quaes as suas direcções, quaes as
    grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores.
    2.° Em quanto á natureza do terreno devem expôr, quaes são os animaes
    terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se
    produzem e habitão; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os
    mineraes, que das suas entranhas se costumão, ou podem extrahir em maior
    abundancia; quaes finalmente são os usos, a que os habitantes do paiz
    applicão todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.° Em
    quanto aos homens, descreveráõ a sua estatura e fórma exterior, o feitio
    do seu rosto, a sua força, e côr naturaes; e além de todas estas
    propriedades, notaráõ nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a
    facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doenças
    communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser
    attribuidas. 4.° Em quanto á estructura interior do terreno, devem
    descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas,
    os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de
    terras, &c.

    No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.° em
    quanto ás suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua
    subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus
    gráos de calor ou de frio. 2.° Em quanto aos meteoros do ar, devem
    mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns
    aos outros, e o tempo da sua duração; mas particularmente declararáõ,
    quaes são os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em
    fim o numero, principio e duração das estaçoes, que pelo decurso do anno
    varião regular, ou irregularmente no paiz. 3.° Em quanto aos effeitos do
    mesmo ar, devem declarar-se as doenças tanto epidemicas, como
    ordinarias, a que estão mais commummente sujeitos os habitantes do paiz,
    e que trazem a sua origem da intemperança do ar.

    No que pertence á agoa, he preciso indicar 1.° em quanto ao mar, a sua
    profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas
    distancias e alturas; a differença do seu sabor, conforme a differença
    dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras
    producções marinhas, que nelle se achão; o periodo de suas marés
    combinado com as variações da Lua, &c. 2.° Em quanto aos rios,
    descreveráõ os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso,
    as suas inundações periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os
    peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais
    raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde passão.
    3.° Além das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as
    mineraes com huma exacta exposição das suas qualidades e virtudes,
    descreveráõ todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.°
    Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas
    costas; e declarar todas as variações, que nellas se observão nas
    diversas estações do anno. Por conclusão, todas as observações, que
    tiverem feito sobre o fysico do paiz, serão bem acceitas; principalmente
    aquellas, que possão de algum modo ser uteis para o augmento do
    commercio e das Artes.

    Para satisfazer a este importantissimo fim, que a Academia se propõe,
    não será menos conveniente, que os seus Correspondentes ajuntem ás
    noticias Geograficas do fysico do paiz todas as que puderem alcançar,
    depois de serios exames, relativas ao moral dos póvos que o habitão. E
    para observarem nesta relação a ordem, que em tudo he necessaria,
    poderáõ reduzir todas as noticias, que examinarem, a titulos diversos,
    preferindo sempre a divisão mais natural; v.g. Religião, Politica,
    Economica, Artes, Tradições, &c.

    Em quanto á Religião, devem expôr com toda a sinceridade 1.° as idéas
    geraes que dominão em todo o paiz sobre a natureza da Divindade, sobre
    as suas obras, e sobre o culto que lhe he devido; 2.° as seitas
    diversas, e os pontos em que differem humas das outras; e juntamente os
    effeitos, que costumão resultar da diversidade de sentimentos nesta
    materia; 3.° a fórma do seu culto, a simplicidade ou extravagancia de
    suas ceremonias, os seus casamentos, os seus lutos e funeraes, os seus
    sacrificios, e finalmente todas as suas superstições.

    Em quanto á Politica, devem explicar 1.° a fórma do seu governo; a
    qualidade de suas leis, se as tiverem; o modo de administrar a justiça
    na distribuição dos premios e castigos; o numero e qualidade das
    pessoas, em quem reside a authoridade suprema; 2.° a fórma de seus
    contratos, e os ritos, que costumão acompanhallos; 3.° as suas guerras,
    o modo de as fazer, as armas de que usão.

    Em quanto á Economica, devem referir 1.° a maneira de educar os filhos,
    a qualidade e fórma de suas habitações, os seus mais communs exercicios;
    2.° os seus alimentos, e o modo de os preparar, a materia e feitio de
    seus trajes; 3.° as propriedades da sua lingua, e fórma dos caracteres,
    se usarem de algum genero de escritura.

    Em quanto ás Artes, mostraráõ 1.° o estado da sua agricultura, os usos e
    defeitos de seus instrumentos de lavoura; 2.° o modo de fazerem as suas
    caças e pescas; 3.° as plantas, de que se servem para sustento, vestido,
    remedios, tintas, &c.; 4.° os animaes que empregão no trabalho, e em
    outros serviços domesticos; 5.° os mineraes que extrahem da terra, os
    usos a que os applicão, e o modo de os reduzir a esses mesmos usos; 6.°
    a perfeição ou imperfeição das artes, manufacturas, e de todo o genero
    de industria, e commercio que houver no paiz.

    Em quanto ás Tradições, devem examinar 1.° a sua origem, antiguidade,
    universalidade, probabilidade ou extravagancia; 2.° o modo de as
    conservar, e defender; 3.° se no paiz houver algum genero de monumento,
    se dará delle huma exacta descripção. Finalmente dar-se-ha huma idéa do
    melhor modo possivel dos costumes dos Póvos, cuja noticia possa influir
    de alguma sorte no Bem da Sociedade.

    FIM.

    Jim Blog https://blog.mabo.cc Jim — Accessible Converter - Em vez de obrigar os usuários a baixar arquivos, ele torna o conteúdo navegável na web. Wed, 21 Oct 2026 12:30:16 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://blog.mabo.cc/wp-content/uploads/2026/10/cropped-logo-32x32.png Jim Blog https://blog.mabo.cc 32 32 257901688 Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro https://blog.mabo.cc/breves-instruccoes-aos-correspondentes-da-academia-das-sciencias-de-lisboa-sobre-as-remessas-dos-pro/ https://blog.mabo.cc/breves-instruccoes-aos-correspondentes-da-academia-das-sciencias-de-lisboa-sobre-as-remessas-dos-pro/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:30:16 +0000 https://blog.mabo.cc/breves-instruccoes-aos-correspondentes-da-academia-das-sciencias-de-lisboa-sobre-as-remessas-dos-pro/

    Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro

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    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Rita
    Farinha, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team.

    BREVES

    INSTRUCÇÕES

    AOS CORRESPONDENTES

    DA

    ACADEMIA DAS SCIENCIAS

    DE LISBOA

    SOBRE

    AS REMESSAS DOS PRODUCTOS,

    E

    NOTICIAS PERTENCENTES

    Á

    HISTORIA DA NATUREZA,

    PARA FORMAR HUM MUSEO NACIONAL.

    _Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria_.

    LISBOA

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCC.LXXXI.

    _Com licença da Real Meza Censoria_.

    1781

    ADVERTENCIA.

    As relações, por mais exactas e completas que sejão, nunca chegão a
    dar-nos huma idéa tão perfeita das coisas, como a sua mesma presença:
    por esta causa se tem occupado os Sabios, particularmente neste seculo,
    em ajuntar com a protecção dos Principes os exemplares de varios
    individuos das diversas especies de Animaes, Vegetaes e Mineraes, que se
    encontrão em differentes paizes, para apresentarem do modo possivel á
    vista dos curiosos hum como compendio das principaes maravilhas da
    Natureza.

    Considerando pois a Academia das Sciencias de Lisboa, cujos trabalhos se
    encaminhão todos ao bem público, a grande utilidade, que de huma
    similhante Collecção, sendo bem ordenada, póde resultar para o
    adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos os mais ramos da
    Economia; propoz-se o projecto de formar nesta Capital hum Museo
    Nacional, onde principalmente se ajuntem e conservem os productos, ao
    menos os mais notaveis, que se achão dentro do Reino e das suas
    Colonias.

    Como porém muitas vezes succede, que alguns dos exemplares,
    particularmente quando são remettidos de paizes distantes, chegão
    damnificados e por isso indignos de se guardarem nos Gabinetes, por não
    terem sido devidamente escolhidos, preparados e acondicionados; e como
    além disso nem todas as pessoas, que he necessario encarregar das
    remessas e das noticias que devem acompanhallas, se suppõem igualmente
    instruidas no melhor methodo de satisfazer as suas Commissões, julgou
    conveniente a mesma Academia apontar as seguintes Instrucções, pelas
    quaes poderáõ dirigir-se, os que dellas necessitarem.

    Adverte-se com tudo a cada hum dos Correspondentes e Commissarios, que,
    quando por alguns motivos, que occorrão, lhes não seja possivel
    satisfazer em tudo, satisfação ao menos em parte, e do melhor modo que
    poderem, ao que nestas Instrucções se recommenda, em quanto ao numero e
    perfeição dos exemplares que se pedem, e em quanto ao methodo de os
    preparar e remetter.

    BREVES INSTRUCÇÕES

    Sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes á Historia da
    Natureza, para formar hum Museo Nacional.

    *§. I.*

    _Das remessas dos Animaes_.

    As remessas dos individuos do reino animal são as mais difficultosas
    pelas preparações, que he necessario fazer, a fim de impedir a
    corrupção, a que estão mais sujeitos, que os individuos dos outros dois
    reinos. E como estas preparações varião algum tanto conforme a variedade
    de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que são
    proprias de cada huma dellas.

    Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes
    destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos,
    sem exceição alguma, com a cabeça inteira; os quadrupedes com todas as
    unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e
    pés, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda;
    em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os
    Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois
    de feita a preparação, ficar, quanto for possivel, no seu estado
    natural.

    _Dos Quadrupedes_.

    Como he impraticavel conservar sem corrupção por muito tempo com a carne
    os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a
    sua pelle com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma
    exterior, que tinhão em quanto vivos.

    Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha
    na pelle ou huma incisão direita desde a parte mais inferior do ventre
    até o _anus_, ou duas incisões, cada huma das quaes principie no mesmo
    _anus_, e continue pela parte interior das coxas até á juntura destas
    com as pernas.

    Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais
    conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento
    accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tiraráõ estas para
    fóra, cortando-as pelas articulações, que as unem com as pernas, cujos
    ossos se descarnaráõ, quanto for possivel.

    Depois se continuará a despegar a pelle das costas até chegar á cauda, a
    qual, se não se puder esfollar, se cortará pela juntura, que a une ao
    tronco.

    Feito isto, se voltará para a cabeça do animal a parte posterior da
    pelle, que já está separada do corpo; e puxando-a até ás espaduas, se
    fará nos braços o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas
    articulações das canellas; as quaes tambem se descarnaráõ da mesma sorte
    que as pernas.

    Continuar-se-ha a puxar a pelle até descobrir ametade da cabeça para a
    descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pescoço, se
    extrahirá toda a substancia do cérebro; e depois de bem limpa a
    cavidade, se encherá esta com estopa, ou algodão misturado com pedra
    hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo, como
    tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
    therebentina.

    Com esta mesma composiçao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e
    descarnar bem os queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada
    á cabeça.

    Tambem se arrancaráõ os olhos, de modo que se não rompão as palpebras; e
    depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se
    encheráõ com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos
    olhos arrancados se metteráõ outros artificiaes ou de vidro, ou de
    esmalte, ou de outra materia sólida, que imitem na figura e cores os
    naturaes; e quando isto se não possa fazer com a perfeição devida,
    remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma relação
    exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.

    Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com
    algum instrumento de aço pouco affiado, para que a não rompa, e
    esfregar-se com sabão desfeito em agoa tepida, até que fique sem o menor
    resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrupção.
    Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizará a mesma parte
    interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a pó por si mesma,
    ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a
    temperar a sua actividade. Esta pulverização póde repetir-se huma e mais
    vezes, até que se conheça que a pelle está inteiramente secca. E para
    extinguir todos os insectos, que possão causar algum damno ao cabello,
    será muito conveniente defumar as pelles já seccas com o vapor de
    enxofre inflammado; e se embrulharáõ logo em pannos bem tapados para
    evitar que outros infectos venhão de novo depositar nellas os seus óvos.

    Acabadas estas operações, encher-se-ha todo o espaço, que occupava o
    corpo do animal, com a mesma composição, com que se encheo a cavidade da
    cabeça, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas,
    e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos á proporção da
    grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dará ao
    pescoço, aos pés, á cauda e a todo o volume a sua postura natural.

    Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou
    gordura, que no tempo da preparação tiver contrahido, se accommodará a
    pelle assim preparada dentro do caixão em que ha de ser transportada,
    pondo-a e segurando-a, de modo que não balance; e tapando as juntas do
    caixão com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e
    acres, para impedir que entre a humidade.

    Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana
    grandeza não póde praticar-se com os demaziadamente grandes, bastará que
    se remettao as suas pelles com a cabeça pegada, e com todas as unhas.
    Estas pelles devem preparar-se com todas as precauções que já apontámos:
    e quando estas não sejão bastantes para as seccar bem, e extinguir todos
    os infectos, se metteráõ pelo espaço de seis horas em fornos, cujo gráo
    de calor seja o maior que as pelles possão supportar, sem que se queime
    o cabello; depois do que se defumaráõ, como acima dissemos, com o vapor
    de enxofre inflammado; e se embrulharáõ cada embrulharão cada huma á
    parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras
    therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o
    mais se fará, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.

    Mas, como só as pelles não bastão para dar huma idéa justa da fórma e
    postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto
    com ellas hum desenho, ou huma descripção exacta, ao menos daquelles,
    que não são vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de
    extraordinario.

    Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda
    receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante
    da sua residencia, que não fossem logo depois de separadas do corpo
    devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de
    corrupção principiada, as mettão promptamente e conservem pelo espaço de
    dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem
    nos caixões pelo methodo acima exposto.

    Os quadrupedes pequenos, que não possão preparar-se, como os de mediana
    grandeza, se preparão facilmente deste modo. Por huma incisão pequena
    junto ao _anus_ se extrahiráõ todos os seus intestinos; e depois de bem
    limpa e enxuta a cavidade que fica, se encherá esta com estopa ou
    algodão misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos.
    Arrancados os olhos com as advertencias já expostas, se metteráõ os
    corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez.
    Depois se acamaráõ em vasos cheios de licor composto de tres partes de
    agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma
    boa porção de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que hão
    de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel,
    com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de cêra e rezina; e os
    mesmos vasos accommodados nos caixões de modo que não quebrem, se forem
    de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.

    Os esqueletos dos animaes, que tambem entraõ na classe das preciosidades
    que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, não precisaõ de
    preparações tão delicadas, para se remetterem sem perigo de corrupção.
    Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha
    um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem
    uns com os outros. Por meio desta numeração será facil armar novamente o
    esqueleto, para lhe dar a sua fórma natural.

    Os ossos de cada animal devem empacotar-se á parte, para não haver
    confusão; e accommodallos de sorte nos caixões, que se não quebrem no
    transporte.

    Como póde succeder que algumas vezes não haja toda a commodidade de se
    remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venhão ao
    menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros,
    aquellas partes que tenhão alguma coisa de extraordinario.

    _Das Aves_.

    O methodo de preparar as _aves_ grandes pouco differe, do que acima se
    expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se póde
    principiar a operação por huma unica incisão feita no ventre desde o
    _anus_ até o osso do peito, he melhor que se facão duas de sorte que,
    nascendo ambas do _anus_, vá cada huma dellas correndo ao comprido das
    coxas até terminar no encontro da aza da mesma parte.

    Pegando no vertice do angulo, que fórmão no _anus_ as duas incisões, se
    irá separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento
    accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabeça da
    ave até chegar aos encontros das azas.

    Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para
    fóra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos serão
    bem descarnados, se continuará a operação, separando de vagar a pelle
    das costas até chegar ao uropigio, o qual se cortará com huma tisoura
    pela articulação que o une ao corpo.

    Feito isto, se pegará na parte posterior já esfollada do corpo da avecom
    a mão esquerda, e com a direita se irá tirando com sentido, para que se
    não rompa, o resto da pelle, até chegar ás azas; as quaes se devem
    separar do tronco pelas suas articulações, descarnando, o mais que for
    possivel, os ossos que ficão pegados á pelle.

    Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pescoço, até descobrir parte
    do cranio, o qual se cortará transversalmente hum pouco acima da sua
    união com o pescoço; separando deste modo do resto do corpo a cabeça
    junta com a pelle.

    Por esta abertura feita no cranio se extrahirá toda a substancia do
    cerebro; e se fará tudo o mais que pertence á preparação interior da
    cabeça, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.

    Porém nas aves aquaticas, e outras de cabeça grande, cujo pescoço não he
    facil de se esfollar até descobrir o cranio, sem o perigo de romper a
    pelle, separar-se-ha da cabeça o pescoço pela ultima juntura; e depois
    de revirada a pelle, se fará a extracção do cerebro por hum buraco feito
    de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.

    Antes de revirar a pelle se raspará levemente o interior della, para
    purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizará com pós, que
    constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de
    solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta,
    e outras quatro de tabaco.

    Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se terá feito
    passar antes da operação pelos narizes da ave hum fio comprido e forte,
    o qual servirá para puxar a cabeça fóra, e dar á pelle a sua situação
    natural.

    O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he
    inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta só advertir, que esta
    preparação das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua
    pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.

    Depois de bem concertadas as pennas, se envolveráõ estas aves em huma
    tira de panno, principiando pela cabeça; e se accommodaráõ entre
    materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos
    caixões, com todas as mais cautelas, que já dissemos.

    Este methodo de preparar as aves não he facil de praticar-se com algumas
    dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua
    pelle. Neste caso poderáõ enviar-se em vasos cheios de licor
    espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a
    remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de
    quebrar-lhes o osso do peito, para não ficarem com difformidade, e de as
    envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno,
    para se não descomporem as suas pennas.

    Se a distancia não for muito grande, quaesquer que sejão as aves,
    bastará que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de
    expôr, se lancem de infusão pelo espaço de quinze dias em espirito de
    vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa porção de pedra
    hume e alcanfor. E sem outra maior preparação podem remetter-se com as
    cautelas já indicadas.

    Os _óvos_, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos
    Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno
    buraco feito de proposito em hum dos seus pólos, ou em ambos, se for
    preciso, se acamaráõ em bocetas com algodão, ou outra materia molle e
    secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que porém se mandão para
    fecundarem, antes de se metterem nos caixões, se cobriráõ bem de verniz
    pelo methodo sabido de _Reaumur_.

    Os _ninhos_, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do
    naturalista, se accommodaráõ da mesma sorte, e com as mesmas precauções
    em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente
    trazem, se metteráõ em hum forno, que só tenha o gráo de calor
    necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em
    pannos, para impedir novos insectos.

    _Dos reptís_.

    A preparação de todo o genero de _reptís_, _serpentes_, e _cobras_
    grandes, cuja pelle póde separar-se do corpo, he inteiramente a mesma,
    que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo
    de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que
    pertence ao modo de os accommodar nos caixões.

    Só deve advertir-se, que a incisão, por onde principião todas as mais
    operações, nos reptís, como o sardão e outros, deve fazer-se da parte do
    ventre ao menos desde o meio da cauda até o pescoço, conduzindo-a pelo
    interior das coxas e braços até ás suas articulações; e nas cobras
    grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as
    escamas das costas se ajuntão com as do ventre. Estas se accommodaráõ
    nos caixões, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem,
    em quanto vivas.

    Os reptís pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se
    tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o
    cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.

    _Dos peixes_.

    Aquelles _peixes_, que os Naturalistas chamão _cetaceos_, e cujas pelles
    são tão fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo
    que estes; excepto que a incisão se deve fazer na parte inferior por
    todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes,
    que forem demaziadamente grandes, bastará mandar as pelles seccas e
    preparadas, como dissemos dos quadrupedes.

    Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de
    sorte, que possão seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento
    accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se
    lançaráõ de infusão em agoa ardente pelo espaço de doze até quinze dias.
    Findos estes, se estenderá o peixe com o lado mais branco para baixo
    sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular
    cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situaçao
    natural: e para que estas á medida, que forem seccando, se não torção, e
    descomponhão; depois de concertadas, e em quanto estão humidas e com a
    sua cólla natural, se lhe pregaráõ pela parte de cima algumas tiras de
    papel, que serviráõ para as conservar sempre na mesma posição.

    Feito isto, se exporá ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados
    quatro ou sinco dias, se despegará o peixe por meio de huma agulha de
    fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e
    a lamina, se faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar
    as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido
    contrario.

    Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se exporá segunda vez
    ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, até que
    se conheça estar o peixe perfeitamente secco, se untará por fóra com bom
    verniz transparente, e se accommodará nos caixões com todas as cautelas
    já indicadas.

    Os peixes _escamosos_, que pela muita delicadeza da sua pelle não podem
    fer preparados como os _cetaceos_; nem tão pouco pela grande grossura da
    sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortaráõ em
    duas partes, conduzindo o córte pelo embigo desde a cabeça até á cauda;
    e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e
    pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina
    para se conservar, se alimpará da parte das escamas com o gume de huma
    faca, que a toque levemente, e corra desde a cabeça até á cauda; porque
    em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre
    consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.

    Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se irá
    despegando pouco a pouco toda a carne, até que fique só a pelle com a
    ametade da cabeça pegada. Desta se tirará o cerebro que restar, e todas
    as porções de ossos, que fórmão differentes separações no interior do
    cranio. Tambem se extrahirá toda a substancia do olho, cuja figura e
    cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta
    com outro artificial. Se a cabeça do peixe for muito curva, se aplanará,
    pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter
    por baixo e por cima da cabeça alguma materia molle.

    Esta meia pelle assim preparada se pegará pela parte interior com a sua
    mesma cólla natural a huma folha de papel; e sua porão as barbatanas e
    cauda na sua fórma e situação natural. Depois de bem secca se untará com
    verniz transparente, e se metterá no caixão com as precauções
    necessarias.

    Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, não
    poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de expôr, se
    enviaráõ em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser
    mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer
    para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o
    mais, que já se disse, sobre este genero de remessas de animaes
    pequenos.

    _Dos animaes crustaceos_.

    Todos os animaes, a que os Naturalistas dão este nome, ou habitem no
    mar, ou nos rios, ou na terra, se preparão do mesmo modo, attendendo
    unicamente á sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto
    á sua preparação, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando
    pela sua pequenez se não puderem evacuar de toda a sua substancia molle
    e corruptivel, ou quando não possão seccar-se sem detrimento sensivel da
    sua fórma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas
    pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se não
    quebrarem, se embrulharáõ, cada hum á parte, em hum pequeno panno, que
    se envolverá com hum fio; e assim embrulhados se lançaráõ em espirito de
    vinho para se remetterem.

    Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se fará,
    separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, á qual ficão
    pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirará
    toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que está dentro das pernas,
    senão de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas
    as cavidades, que ficão depois de extrahida a substancia interior, se
    encheráõ com as mesmas materias, que já apontámos, fallando dos outros
    animaes. Antes de os encaixotar, devem expôr-se ao ar o tempo necessario
    para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodaráõ em bocetas com
    todas as precauções precisas, para que cheguem inteiras todas as suas
    partes, ainda as mais delicadas. Para isso será conveniente, que cada
    hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua
    situação natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que
    hão de ser remettidos, tenhão capacidade bastante, para não ser
    necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.

    _Dos insectos_.

    No que pertence ao modo de preparar os _insectos_ destinados para o
    Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como
    repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma
    preparação particular.

    Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e
    assás forte para conservar depois de secca a sua fórma exterior, se
    metteráõ em fórnos, que só tenhão o gráo de calor necessario para
    dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem
    conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poderá
    supprir a falta de fórnos, principalmente nos Paizes quentes.

    As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das
    borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos,
    ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos
    consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas
    cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e
    que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se
    apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e
    assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão
    perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as
    cautelas necessarias.

    Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que
    depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas
    cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo
    methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.

    Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas
    requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as
    suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os
    Naturalistas para distinguir as diversas especies.

    _De outras producções pertencentes ao reino Animal_.

    Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de
    conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem
    algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as
    _Estrellas do mar_, em que se observão sinaes menos equivocos de
    sensibilidade.

    Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter
    alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para
    coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo
    necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de
    corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ
    com as cautelas já sabidas.

    Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca
    poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso
    extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias;
    e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.

    Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se
    fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas,
    da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que
    fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por
    este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo,
    que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a
    substancia corruptivel.

    Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua
    posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as
    pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão
    vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual
    ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas
    postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou
    quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as
    operações, que acabamos de expôr.

    Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos
    agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo
    na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a
    substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem
    com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se
    accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando
    todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não
    quebrem os seus espinhos.

    Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se
    conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas
    costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua
    fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu
    merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que
    se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com
    hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa
    fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o
    faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está
    vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa
    doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da
    concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita
    facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso
    esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu
    desenho.

    Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum
    pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ
    com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem
    remetter-se com todas as mais cautelas.

    Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de
    as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque
    o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se
    corrupção.

    *§. II.*

    _Das remessas dos Vegetaes_.

    Como estas instrucções não tem por objecto formar hum Jardim Botanico;
    mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos
    o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros
    para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido
    admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a
    Academia, se o julgar necessario, reduzirá a instrucções compendiosas em
    outro papel á parte. Por ora só se trata do modo mais facil de remetter
    as plantas seccas com todas as partes, que as caracterizão.

    Para este fim se colheráõ as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas,
    flores e frutos. Das plantas, que não produzem no mesmo tempo as flores
    e os frutos, se colheráõ dois pés, cada qual tenha huma das duas coisas.
    Das arvores, arbustos e plantas maiores bastará colher hum ou dois dos
    ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda
    não se poder enviar todas estas partes juntas, se enviaráõ separadas;
    com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.

    Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se
    estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos,
    se comprimiráõ em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de
    pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, até que esteja de
    todo extrahida a sua humidade. Para maior segurança, depois desta
    operação, será conveniente expôr por algum tempo ao calor do Sol estas
    plantas, quando se tirão a ultima vez da imprensa.

    Feito isto, se estenderáõ segunda vez os individuos de cada especie
    separadamente em diversos papeis, os quaes se acamaráõ em caixas de
    folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que
    já se tem advertido sobre as outras remessas; não esquecendo introduzir
    dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como
    alcanfor, ou tabaco de fumo.

    Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas,
    frutos, e flores são tão espeços e succulentos, que não podem seccar-se
    pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes só
    podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as
    cautelas já indicadas para outras remessas similhantes.

    Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito
    tempo sem corrupção, se colheráõ maduros, e se exporáõ algum tempo ao
    calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e
    depois se metteráõ nas caixas, em que devem enviar-se.

    Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se
    conservão muito tempo sem corrupção, como o _gingibre_, _curcuma_,
    _amomum_, e outras. A estação mais favoravel de as tirar da terra nos
    paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se
    as mais fortes, se porão em algum lugar enxuto á sombra até se evaporar
    a sua primeira humidade; e se metteráõ depois em caixões com arêa bem
    secca, para se remetterem.

    Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela
    casca, que as veste, se conservão com mais facilidade sem corrupção, se
    preparão da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.

    Não se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de
    balsamos, rezinas, gommas, e outras producções similhantes, que
    pertencem ao reino vegetal, ou sejão solidas ou líquidas; porque são bem
    conhecidas no commercio, e já a experiencia tem mostrado o melhor modo
    de fazer as suas remessas.

    Tambem merecem entrar nas collecções proprias de hum Museo as diversas
    cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem
    algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem
    notaveis, ou pelo polido, de que são susceptiveis, ou pela singular
    contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra
    qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se póde
    tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de peças he
    facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu
    destino.

    Tudo o que póde dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a
    não as colher, senão depois de maduras; e a mettellas, estando bem
    enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com arêa bem secca e
    miuda dentro dos caixões, em que se hão de remetter. As sementes grandes
    tambem se podem cobrir de cêra derretida em hum pouco de oleo de
    therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura até
    o ponto, em que o calor não possa causar-lhe damno.

    Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve
    indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies
    necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se não
    confundão. Não usando da mistura de musgo, ou arêa, podem remetter-se,
    para evitar esta confusão, cada huma das especies de sementes embrulhada
    á parte em hum papel encerado; observando na sua accommodação dentro das
    bocetas as precauções necessarias, para que cheguem inteiras.

    Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em
    que mais facilmente se conservão, será conveniente, e não menos commodo
    mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas
    bocetas do mesmo modo que fica dito.

    *§. III*

    _Das remessas dos Mineraes_.

    Os productos do reino mineral são os que menos cautelas requerem, para
    chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e
    saber procurallos. No que respeita ás suas remessas, que he o unico
    objecto destas Instrucções, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e
    _fossís_.

    As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos
    differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum
    sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a faça notavel,
    principalmente pelo uso, que póde ter nas Artes.

    Das pedras, ou sejão de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente
    as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenhão, ou pela
    sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes,
    agathas, marmores, congelações, amiantos, &c.

    As amostras de todo o genero de fossís, que puderem ajuntar-se, são
    dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser
    conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes,
    que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero
    de petrificações, crystallizações, bitumes fossís, lavas, pyrites, &c.
    remettão os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.

    Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e
    fossís, devem remetter-se em caixões separados, podendo ser, para evitar
    confusão; e embrulhados á parte com numeros differentes, que
    correspondão aos numeros da relação, de que adiante fallaremos.

    Accommodar-se-hão nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do
    transporte lhes não cause algum damno; e se observaráõ as mais cautelas
    necessarias, para que a humidade os não prejudique.

    Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a
    natureza produz no seio do mar, ha algumas, que fórmão em certo modo
    huma classe á parte; e que por essa mesma causa parece não devião
    confundir-se com as outras producções pertencentes aos tres reinos. Esta
    são as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos
    com a fórma, exterior reduzirão á classe das plantas marinhas; e outros,
    attendendo á sua dureza, julgárão ser especie de pedras.

    Todas estas producções se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas,
    pela grande variedade da figura e disposição de seus ramos, e por outras
    particularidades não menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que
    forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas
    vezes sahem pegadas a pedaços de rócha, e entrelaçadas humas com outras,
    assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes
    são igualmente dignas da attenção do Filosofo.

    Como porém nenhuma destas substancias he sujeita a corrupção, basta que
    se accommodem nos caixões cercadas de materias molles, e seguras com
    travessas de madeira, para se não quebrarem com o movimento.

    Estas singulares producções não são mais, que huma collecção de pequenas
    casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se
    multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que
    crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos
    enviar á parte, se metteráõ logo, apenas se tirarem do mar, as massas
    duras, que os contém, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem
    pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma
    lente, se for necessario, se divisaráõ parte de cada hum dos animaes,
    fóra de suas pequenas grutas. Não se deixará escapar este momento; e com
    algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prenderá o animal; e
    arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lançará logo em
    espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle não tenha tempo
    de se contrahir, e perder a sua fórma natural antes de morrer. No mesmo
    espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como
    todo o genero de polypos: e as suas remessas se farão do mesmo modo, e
    com as mesmas cautelas, que já se advertírão, fallando dos insectos.

    Ha outras producções marinhas além das sobreditas, que pela sua figura,
    miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivocão mais com as plantas.
    Os Botanistas lhes dão vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou
    corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce até depôrem
    todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em
    differentes papeis com todas as mais precauções já expostas sobre as
    remessas das plantas terrestres.

    Como porém estas mesmas corallinas pelas ultimas observações se tem
    conhecido constarem de pequenas casas, em que habitão animaes, da mesma
    sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para
    separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que
    devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tirão de
    differentes substancias, para se não confundirem as suas especies, as
    quaes differem entre si conforme a differença das massas, em que se
    achão.

    Além de todas estas producções marinhas ha outras muitas, que não só tem
    a fórma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o são, como o
    sargaço, e outras. Estas, como já advertimos, devem lavar-se primeiro em
    agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotaráõ, como as outras
    plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.

    As esponjas marinhas, cuja natureza ainda não he bastantemente conhecida
    por falta de observações, mas que facilmente se distinguem das outras
    especies pela sua fórma exterior, merecem tambem ser conservadas nos
    Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e
    seccas, se accommodaráõ nos caixões com algodão, sargaço ou estopa, sem
    as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito
    sobre a preparação exterior das caixas, em que se remettem os mais
    productos da natureza.

    Parece escusado dar instrucções sobre as remessas de algumas obras de
    artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas,
    instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas
    similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas.
    Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico
    artificio consista na sua diversa disposição, como são algumas carapuças
    e cinturas de pennas de diversas cores, de que usão alguns póvos da
    Africa e America, se remetteráõ com as cautelas, que deixamos apontadas
    sobre as remessas das mesmas producções naturaes, de que são compostas.

    Finalmente as instrucções antecedentes poderáõ accommodar-se a alguns
    productos, de que aqui se não faz menção, conhecida a sua natureza, e a
    classe a que pertencem.

    *§. IV.*

    _Das noticias pertencentes á Historia Natural_.

    As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou
    dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o
    Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno,
    em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que o
    habitão.

    Em quanto á primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se
    aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caixões, ou
    bocetas mandem huma relação exacta de todas as coisas que contém.
    Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e
    distintas com numeros diversos, na relação debaixo dos mesmos numeros
    respectivos se declarará 1.° o nome tanto indigeno, como estrangeiro da
    dita especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas.
    2.° Notar-se-hão todas as suas qualidades mais attendiveis, e
    particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que
    remette, expressará todos os factos constantes e uniformes, que
    distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
    pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto,
    instinto, artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais
    particularidade se demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde
    resultar para a vida humana. Na relação das qualidades dos vegetaes
    declarará os lugares do seu nascimento, a estação propria da sua
    plantação, o tempo da sua frutificação, os usos, que a experiencia tiver
    mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para
    todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que
    mandar as amostras, não se esquecerá o Correspondente de expressar os
    lugares, em que se achão, a profundidade de seus veios, a natureza dos
    terrenos circumvizinhos, e os usos, que já tem no paiz, e os que podem
    ter na Sociedade.

    Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz,
    devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma relação, em
    que se dê huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes
    dão os mesmos póvos, que dellas se servem.

    Além destas relações particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos
    caixões das remessas, será conveniente que se mande á parte huma relação
    geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza.
    Desta deixará o Correspondente huma copia fiel na sua mão, para não
    remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter
    novamente os que se lhe pedirem.

    Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, só servem para
    dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como não interessa menos
    conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que
    mandem tambem huma descripção Geografica delle, que comprehenda com a
    exacção possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno
    da attenção de hum Filosofo. E para procederem sem confusão, podem
    ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v.
    g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem
    á agoa.

    Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a
    respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimensões, a sua situação a
    respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passaráõ a
    coisas mais particulares. 1.° Em quanto aos montes, devem declarar, se
    ha muitos, se poucos; se alguns delles são promontorios, e vulcanos;
    qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como
    a respeito da superficie do mar; quaes as suas direcções, quaes as
    grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores.
    2.° Em quanto á natureza do terreno devem expôr, quaes são os animaes
    terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se
    produzem e habitão; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os
    mineraes, que das suas entranhas se costumão, ou podem extrahir em maior
    abundancia; quaes finalmente são os usos, a que os habitantes do paiz
    applicão todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.° Em
    quanto aos homens, descreveráõ a sua estatura e fórma exterior, o feitio
    do seu rosto, a sua força, e côr naturaes; e além de todas estas
    propriedades, notaráõ nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a
    facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doenças
    communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser
    attribuidas. 4.° Em quanto á estructura interior do terreno, devem
    descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas,
    os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de
    terras, &c.

    No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.° em
    quanto ás suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua
    subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus
    gráos de calor ou de frio. 2.° Em quanto aos meteoros do ar, devem
    mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns
    aos outros, e o tempo da sua duração; mas particularmente declararáõ,
    quaes são os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em
    fim o numero, principio e duração das estaçoes, que pelo decurso do anno
    varião regular, ou irregularmente no paiz. 3.° Em quanto aos effeitos do
    mesmo ar, devem declarar-se as doenças tanto epidemicas, como
    ordinarias, a que estão mais commummente sujeitos os habitantes do paiz,
    e que trazem a sua origem da intemperança do ar.

    No que pertence á agoa, he preciso indicar 1.° em quanto ao mar, a sua
    profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas
    distancias e alturas; a differença do seu sabor, conforme a differença
    dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras
    producções marinhas, que nelle se achão; o periodo de suas marés
    combinado com as variações da Lua, &c. 2.° Em quanto aos rios,
    descreveráõ os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso,
    as suas inundações periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os
    peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais
    raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde passão.
    3.° Além das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as
    mineraes com huma exacta exposição das suas qualidades e virtudes,
    descreveráõ todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.°
    Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas
    costas; e declarar todas as variações, que nellas se observão nas
    diversas estações do anno. Por conclusão, todas as observações, que
    tiverem feito sobre o fysico do paiz, serão bem acceitas; principalmente
    aquellas, que possão de algum modo ser uteis para o augmento do
    commercio e das Artes.

    Para satisfazer a este importantissimo fim, que a Academia se propõe,
    não será menos conveniente, que os seus Correspondentes ajuntem ás
    noticias Geograficas do fysico do paiz todas as que puderem alcançar,
    depois de serios exames, relativas ao moral dos póvos que o habitão. E
    para observarem nesta relação a ordem, que em tudo he necessaria,
    poderáõ reduzir todas as noticias, que examinarem, a titulos diversos,
    preferindo sempre a divisão mais natural; v.g. Religião, Politica,
    Economica, Artes, Tradições, &c.

    Em quanto á Religião, devem expôr com toda a sinceridade 1.° as idéas
    geraes que dominão em todo o paiz sobre a natureza da Divindade, sobre
    as suas obras, e sobre o culto que lhe he devido; 2.° as seitas
    diversas, e os pontos em que differem humas das outras; e juntamente os
    effeitos, que costumão resultar da diversidade de sentimentos nesta
    materia; 3.° a fórma do seu culto, a simplicidade ou extravagancia de
    suas ceremonias, os seus casamentos, os seus lutos e funeraes, os seus
    sacrificios, e finalmente todas as suas superstições.

    Em quanto á Politica, devem explicar 1.° a fórma do seu governo; a
    qualidade de suas leis, se as tiverem; o modo de administrar a justiça
    na distribuição dos premios e castigos; o numero e qualidade das
    pessoas, em quem reside a authoridade suprema; 2.° a fórma de seus
    contratos, e os ritos, que costumão acompanhallos; 3.° as suas guerras,
    o modo de as fazer, as armas de que usão.

    Em quanto á Economica, devem referir 1.° a maneira de educar os filhos,
    a qualidade e fórma de suas habitações, os seus mais communs exercicios;
    2.° os seus alimentos, e o modo de os preparar, a materia e feitio de
    seus trajes; 3.° as propriedades da sua lingua, e fórma dos caracteres,
    se usarem de algum genero de escritura.

    Em quanto ás Artes, mostraráõ 1.° o estado da sua agricultura, os usos e
    defeitos de seus instrumentos de lavoura; 2.° o modo de fazerem as suas
    caças e pescas; 3.° as plantas, de que se servem para sustento, vestido,
    remedios, tintas, &c.; 4.° os animaes que empregão no trabalho, e em
    outros serviços domesticos; 5.° os mineraes que extrahem da terra, os
    usos a que os applicão, e o modo de os reduzir a esses mesmos usos; 6.°
    a perfeição ou imperfeição das artes, manufacturas, e de todo o genero
    de industria, e commercio que houver no paiz.

    Em quanto ás Tradições, devem examinar 1.° a sua origem, antiguidade,
    universalidade, probabilidade ou extravagancia; 2.° o modo de as
    conservar, e defender; 3.° se no paiz houver algum genero de monumento,
    se dará delle huma exacta descripção. Finalmente dar-se-ha huma idéa do
    melhor modo possivel dos costumes dos Póvos, cuja noticia possa influir
    de alguma sorte no Bem da Sociedade.

    FIM.

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    Bases da ortografia portuguesa

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    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    POR

    A. R. GONÇALVES VIANNA
    Romanista

    G. DE VASCONCELLOS ABREU
    Orientalista

    LISBOA
    IMPRENSA NACIONAL
    1885

    _Impresso para circular gratuitamente_

    _OFERTA DOS AUTORES_

    Ex.^mo Sr.

    Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
    ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
    ciéncia, arte e literatura--Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
    honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
    conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
    ortografia assenta.

    Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
    ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
    escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
    papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
    discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
    dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
    de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
    que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.

    Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
    preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
    Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
    nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
    chamar-se +Ortografia Portuguesa+.

    No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
    o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
    adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
    individual, seja quem for seu autor.

    [1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
    e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
    1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
    do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.

    O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.

    Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
    saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
    sistema de ortografia.

    São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
    (a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
    S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.

    São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.

    Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
    sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
    estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
    próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
    do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
    Imprensa da Universidade--estes plurais são a expressão real de um
    facto, sem censura pessoal.

    Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
    assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
    a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
    das verdadeiras condições da vida nacional--existéncia de ortografia
    +uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
    +Ortografia Portuguesa+.

    Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
    o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
    dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
    publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
    com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
    respeito.

    De V. Ex.ª

    +atentos veneradores+

    Lisboa, outubro de 1885.

    A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    I

    PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA

    1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
    alterá-la fundamentalmente.

    2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
    da sociedade cujas relações serve.

    3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
    língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.

    4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
    nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.

    5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
    falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
    da língua.

    6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
    que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
    sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
    próprio e exclusivo.

    7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
    indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
    vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
    conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
    em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
    silabização.

    8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
    o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
    acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
    tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.

    _Escólio_.--É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
    escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
    latim clássico e as línguas jermánicas.

    II

    PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

    O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
    prática, ao ensino de:

    I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.

    II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
    proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.

    III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.

    IV. Silabização.

    V. Homónimos e parónimos.

    VI. Função dos sufixos.

    VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
    das enclíticas.

    Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
    primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.

    «ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
    comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
    da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.

    Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
    vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
    se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
    assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
    um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
    Pedro I, D. Fernando I e D. João I.

    Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
    evolução glotolójica neo-latina ou románica.

    I--DA ACENTUAÇÃO

    1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
    modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
    vocábulo.

    Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
    portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
    justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.

    _Escólio._--A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
    excepção à regra jeral.

    2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
    agudo. Marca, porém, êste acento:--vogal tónica aberta em parónimos:
    _fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
    _real_);--_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
    _reúne, moínho, ruím_;--a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
    (cf. 4.º): _argúe, argúi_.

    3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
    o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
    modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
    precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
    _modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
    _córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
    _vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
    sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
    dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
    mercê_.

    4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
    alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
    mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
    exclusivamente em tres circunstáncias:--na crase da preposição _a_ com o
    artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;--na sílaba átona cuja
    vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
    alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
    _crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);--no _u_ de prolacão
    _gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
    lingùística_.

    _Escólio._--Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
    ex.: _consecuente, consecuéncia_.

    5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
    enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
    gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.

    5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
    proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
    acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
    exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
    sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.

    6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
    vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
    respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
    não teem acento gráfico.

    6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
    noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
    funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
    perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.

    7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
    puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
    Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
    irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
    Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.

    7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
    se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.

    _Escólio_.--Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
    viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
    pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
    ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
    pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
    prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.

    _Corolário_.--Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
    escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
    sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
    grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
    5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
    _alar_).

    _N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
    ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
    _porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.

    É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
    dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
    (_órdêes, viájêes_).

    8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
    símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
    expostos.

    II--DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES

    Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
    quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
    representação de fonemas articulados. São estes factos:

    _a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
    _x; s, ç; s, z_.

    _b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
    articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
    u_), _qu_.

    _c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
    fonema modulado precedente.

    _d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.

    II _a_.--EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES

    1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
    próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
    _c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.

    1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
    _quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
    _quilómetro_[1], _quilograma_, etc.

    2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
    consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
    influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
    manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
    uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.

    Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:

    _th_ = _t_.--_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
    _tio_.

    _ph_ = _f_.--_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.

    _ch_ = _q_(_u_).--_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
    _chimera_ = _quimera_.

    _ch_ = _c_(_a, o_).--_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
    _mecánica_.

    _y_ = _i_.--_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.

    Consoantes dobradas:--_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
    _prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.

    Grupo de consoantes:--_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
    _Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
    _Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
    _tísica_.

    Influência da consoante na modulação precedente:--Vejam-se exemplos em
    _c_, páj. 11.

    1.º _Escólio_.--Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
    derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
    prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
    aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
    _e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
    _connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
    innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.

    2.º _Escólio_.--Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
    lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.

    [1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
    «metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
    «burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
    escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
    representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
    grego?

    3.º _Escólio_.--Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
    conservação da aspirante _h_.

    II _b_.--ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES

    _a)_--1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
    dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
    chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
    o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
    da grafia _ch_.

    2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
    palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
    enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
    etc. Cf. _d)_.

    3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
    e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
    dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
    transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.

    4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
    que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
    dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
    etc. Determinação histórica e comparação.

    5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
    sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
    não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
    doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
    comparação.

    6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
    pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
    que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
    _posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
    _preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.

    7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
    branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
    sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
    cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.

    8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
    escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
    o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
    dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
    simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.

    _Corolário_.--Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
    _zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
    _-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
    _-ização_.

    _Escólio_.--Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
    do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
    Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
    acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
    _pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.

    _b)_--1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
    gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
    pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).

    2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
    _g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
    _q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
    trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
    distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
    u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
    geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
    tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
    estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
    _gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
    _Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
    símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
    gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
    conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.

    _Escólio_.--É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
    aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
    terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
    brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
    gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.

    _c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
    influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
    predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
    aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._

    _Escólio_.--Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
    _edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
    _corrupção_.

    _d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
    de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
    Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
    assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
    nada mais pode fazer--estabelece o padrão, dá a norma--para que se
    dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.

    Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
    de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
    isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
    trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
    'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.

    III--DOS DITONGOS

    Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
    do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
    jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
    na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
    caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.

    O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
    línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
    abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.

    IV--DA SILABIZAÇÃO

    Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
    princípios:

    1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
    para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
    à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
    obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
    a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.

    2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
    vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.

    3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
    _traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
    se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
    ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta--bandeira,
    guarda--fato, clara--boia; luso--brasileiro; deu--m'o, louva--lhe,
    démo'--lo, louva--o, louvá--lo, arrepender--se, domá--lo--ia_.

    V--DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS

    1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
    sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
    nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
    exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
    exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
    paço_,--parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
    _s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
    distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
    _houve, ouve; dê-se, dêsse_.

    _Escólio._--Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
    ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
    _per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
    enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
    escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
    (cf. _pélo, pelo_).

    2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
    _pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
    Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
    quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
    colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
    (verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
    (verbo), _batéis; caia, caía_; etc.

    VI--DOS SUFIXOS

    Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
    cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
    estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
    morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
    desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.

    É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
    _organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.

    VII--DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS

    Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
    quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
    são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
    inconsciente.

    É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
    _haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
    louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
    hão_.

    É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
    um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
    = (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
    (hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
    perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
    pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
    _descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
    comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.

    III

    O NOSSO INTUITO

    Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
    pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
    grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
    tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
    gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
    cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
    são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
    tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.

    Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
    que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
    Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
    ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
    ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
    que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
    singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
    _idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
    aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
    passeamos, passeais, passeiam_;--passeava, passeavas_, etc.;--_passeei,
    passeaste_, etc.;--_passearei, passearás_, etc.;--_passearia_,
    etc.;--_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
    eles;--que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
    passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;--passear, passeando,
    passeado_. O radical português é _passe-_.

    É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
    circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
    ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
    estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
    princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
    método sem contradições:--se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
    que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
    de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
    nomes.

    Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
    apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
    quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
    ORTOGRAFIA PORTUGUESA.

    +ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+

    POR A. R. GONÇALVES VIANNA

    Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
    Professor Faulmann.--Porto, 1881.

    Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
    dialecte de Lisbonne.--Paris, 1883.

    Études de Grammaire Portugaise.--Louvain, 1884.

    Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
    português).--Paris, 1885.

    POR G. DE VASCONCELLOS ABREU

    Questions Védiques.--Paris, 1877.

    Sobre a Séde originaria da Gente Árica.--Coimbra, 1878.

    Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.--Lisboa, 1878.

    Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
    Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.--Lisboa,
    1878.

    Contribuições mythologicas.

    Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.--Lisboa, 1879.

    Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
    (publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
    foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
    «Buddhist Legends from Fragmentos ... by G. de Vasconcellos Abreu.
    Translated with additional notes. Ceylon).--1880.--1884.

    O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
    do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
    recensão Bengali).--Lisboa, 1878.

    Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
    Grammatical.--Lisboa, 1881-1882.

    De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
    l'Asie.--Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
    apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).

    A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.--Paris,
    1885.

    Jim Blog https://blog.mabo.cc Jim — Accessible Converter - Em vez de obrigar os usuários a baixar arquivos, ele torna o conteúdo navegável na web. Wed, 21 Oct 2026 12:27:13 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://blog.mabo.cc/wp-content/uploads/2026/10/cropped-logo-32x32.png Jim Blog https://blog.mabo.cc 32 32 257901688 Bases da ortografia portuguesa https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/ https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:13 +0000 https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/

    Bases da ortografia portuguesa

    Aproximadamente 4.504 palavras.

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    Team. The images for this file were generously made available by
    Biblioteca Nacional Digital (hhtp://bnd.bn.pt).

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    POR

    A. R. GONÇALVES VIANNA
    Romanista

    G. DE VASCONCELLOS ABREU
    Orientalista

    LISBOA
    IMPRENSA NACIONAL
    1885

    _Impresso para circular gratuitamente_

    _OFERTA DOS AUTORES_

    Ex.^mo Sr.

    Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
    ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
    ciéncia, arte e literatura--Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
    honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
    conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
    ortografia assenta.

    Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
    ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
    escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
    papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
    discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
    dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
    de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
    que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.

    Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
    preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
    Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
    nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
    chamar-se +Ortografia Portuguesa+.

    No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
    o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
    adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
    individual, seja quem for seu autor.

    [1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
    e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
    1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
    do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.

    O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.

    Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
    saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
    sistema de ortografia.

    São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
    (a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
    S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.

    São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.

    Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
    sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
    estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
    próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
    do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
    Imprensa da Universidade--estes plurais são a expressão real de um
    facto, sem censura pessoal.

    Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
    assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
    a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
    das verdadeiras condições da vida nacional--existéncia de ortografia
    +uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
    +Ortografia Portuguesa+.

    Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
    o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
    dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
    publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
    com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
    respeito.

    De V. Ex.ª

    +atentos veneradores+

    Lisboa, outubro de 1885.

    A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    I

    PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA

    1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
    alterá-la fundamentalmente.

    2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
    da sociedade cujas relações serve.

    3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
    língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.

    4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
    nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.

    5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
    falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
    da língua.

    6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
    que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
    sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
    próprio e exclusivo.

    7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
    indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
    vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
    conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
    em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
    silabização.

    8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
    o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
    acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
    tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.

    _Escólio_.--É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
    escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
    latim clássico e as línguas jermánicas.

    II

    PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

    O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
    prática, ao ensino de:

    I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.

    II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
    proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.

    III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.

    IV. Silabização.

    V. Homónimos e parónimos.

    VI. Função dos sufixos.

    VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
    das enclíticas.

    Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
    primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.

    «ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
    comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
    da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.

    Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
    vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
    se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
    assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
    um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
    Pedro I, D. Fernando I e D. João I.

    Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
    evolução glotolójica neo-latina ou románica.

    I--DA ACENTUAÇÃO

    1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
    modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
    vocábulo.

    Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
    portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
    justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.

    _Escólio._--A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
    excepção à regra jeral.

    2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
    agudo. Marca, porém, êste acento:--vogal tónica aberta em parónimos:
    _fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
    _real_);--_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
    _reúne, moínho, ruím_;--a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
    (cf. 4.º): _argúe, argúi_.

    3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
    o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
    modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
    precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
    _modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
    _córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
    _vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
    sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
    dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
    mercê_.

    4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
    alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
    mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
    exclusivamente em tres circunstáncias:--na crase da preposição _a_ com o
    artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;--na sílaba átona cuja
    vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
    alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
    _crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);--no _u_ de prolacão
    _gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
    lingùística_.

    _Escólio._--Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
    ex.: _consecuente, consecuéncia_.

    5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
    enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
    gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.

    5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
    proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
    acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
    exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
    sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.

    6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
    vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
    respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
    não teem acento gráfico.

    6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
    noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
    funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
    perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.

    7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
    puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
    Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
    irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
    Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.

    7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
    se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.

    _Escólio_.--Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
    viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
    pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
    ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
    pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
    prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.

    _Corolário_.--Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
    escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
    sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
    grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
    5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
    _alar_).

    _N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
    ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
    _porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.

    É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
    dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
    (_órdêes, viájêes_).

    8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
    símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
    expostos.

    II--DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES

    Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
    quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
    representação de fonemas articulados. São estes factos:

    _a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
    _x; s, ç; s, z_.

    _b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
    articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
    u_), _qu_.

    _c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
    fonema modulado precedente.

    _d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.

    II _a_.--EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES

    1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
    próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
    _c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.

    1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
    _quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
    _quilómetro_[1], _quilograma_, etc.

    2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
    consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
    influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
    manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
    uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.

    Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:

    _th_ = _t_.--_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
    _tio_.

    _ph_ = _f_.--_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.

    _ch_ = _q_(_u_).--_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
    _chimera_ = _quimera_.

    _ch_ = _c_(_a, o_).--_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
    _mecánica_.

    _y_ = _i_.--_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.

    Consoantes dobradas:--_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
    _prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.

    Grupo de consoantes:--_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
    _Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
    _Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
    _tísica_.

    Influência da consoante na modulação precedente:--Vejam-se exemplos em
    _c_, páj. 11.

    1.º _Escólio_.--Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
    derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
    prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
    aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
    _e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
    _connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
    innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.

    2.º _Escólio_.--Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
    lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.

    [1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
    «metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
    «burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
    escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
    representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
    grego?

    3.º _Escólio_.--Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
    conservação da aspirante _h_.

    II _b_.--ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES

    _a)_--1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
    dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
    chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
    o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
    da grafia _ch_.

    2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
    palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
    enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
    etc. Cf. _d)_.

    3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
    e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
    dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
    transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.

    4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
    que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
    dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
    etc. Determinação histórica e comparação.

    5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
    sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
    não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
    doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
    comparação.

    6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
    pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
    que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
    _posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
    _preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.

    7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
    branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
    sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
    cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.

    8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
    escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
    o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
    dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
    simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.

    _Corolário_.--Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
    _zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
    _-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
    _-ização_.

    _Escólio_.--Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
    do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
    Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
    acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
    _pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.

    _b)_--1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
    gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
    pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).

    2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
    _g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
    _q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
    trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
    distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
    u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
    geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
    tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
    estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
    _gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
    _Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
    símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
    gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
    conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.

    _Escólio_.--É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
    aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
    terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
    brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
    gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.

    _c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
    influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
    predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
    aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._

    _Escólio_.--Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
    _edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
    _corrupção_.

    _d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
    de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
    Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
    assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
    nada mais pode fazer--estabelece o padrão, dá a norma--para que se
    dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.

    Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
    de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
    isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
    trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
    'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.

    III--DOS DITONGOS

    Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
    do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
    jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
    na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
    caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.

    O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
    línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
    abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.

    IV--DA SILABIZAÇÃO

    Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
    princípios:

    1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
    para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
    à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
    obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
    a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.

    2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
    vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.

    3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
    _traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
    se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
    ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta--bandeira,
    guarda--fato, clara--boia; luso--brasileiro; deu--m'o, louva--lhe,
    démo'--lo, louva--o, louvá--lo, arrepender--se, domá--lo--ia_.

    V--DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS

    1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
    sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
    nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
    exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
    exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
    paço_,--parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
    _s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
    distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
    _houve, ouve; dê-se, dêsse_.

    _Escólio._--Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
    ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
    _per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
    enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
    escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
    (cf. _pélo, pelo_).

    2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
    _pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
    Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
    quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
    colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
    (verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
    (verbo), _batéis; caia, caía_; etc.

    VI--DOS SUFIXOS

    Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
    cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
    estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
    morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
    desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.

    É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
    _organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.

    VII--DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS

    Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
    quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
    são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
    inconsciente.

    É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
    _haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
    louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
    hão_.

    É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
    um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
    = (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
    (hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
    perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
    pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
    _descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
    comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.

    III

    O NOSSO INTUITO

    Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
    pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
    grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
    tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
    gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
    cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
    são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
    tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.

    Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
    que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
    Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
    ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
    ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
    que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
    singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
    _idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
    aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
    passeamos, passeais, passeiam_;--passeava, passeavas_, etc.;--_passeei,
    passeaste_, etc.;--_passearei, passearás_, etc.;--_passearia_,
    etc.;--_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
    eles;--que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
    passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;--passear, passeando,
    passeado_. O radical português é _passe-_.

    É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
    circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
    ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
    estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
    princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
    método sem contradições:--se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
    que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
    de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
    nomes.

    Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
    apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
    quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
    ORTOGRAFIA PORTUGUESA.

    +ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+

    POR A. R. GONÇALVES VIANNA

    Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
    Professor Faulmann.--Porto, 1881.

    Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
    dialecte de Lisbonne.--Paris, 1883.

    Études de Grammaire Portugaise.--Louvain, 1884.

    Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
    português).--Paris, 1885.

    POR G. DE VASCONCELLOS ABREU

    Questions Védiques.--Paris, 1877.

    Sobre a Séde originaria da Gente Árica.--Coimbra, 1878.

    Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.--Lisboa, 1878.

    Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
    Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.--Lisboa,
    1878.

    Contribuições mythologicas.

    Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.--Lisboa, 1879.

    Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
    (publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
    foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
    «Buddhist Legends from Fragmentos ... by G. de Vasconcellos Abreu.
    Translated with additional notes. Ceylon).--1880.--1884.

    O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
    do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
    recensão Bengali).--Lisboa, 1878.

    Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
    Grammatical.--Lisboa, 1881-1882.

    De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
    l'Asie.--Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
    apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).

    A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.--Paris,
    1885.

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    As Farpas,1882-11_12

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
    mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
    Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
    faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,--com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    --Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    --Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    --Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
    lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    --Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    --Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    --Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    --Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
    mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    --Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo.....

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar....

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
    propriamente--uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

    --Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!... amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
    fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
    _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
    dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?..._

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
    se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    --Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?...

    --Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava....

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    --Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?...

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?...

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    --Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
    templo!...

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
    outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

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    As Farpas, 1873-01_02

    Aproximadamente 16.329 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Janeiro a Fevereiro de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
    partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
    Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
    governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
    portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
    virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos
    estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O
    enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força
    armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
    cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
    personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
    sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os
    srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
    A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
    e Pickuick.

    Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
    se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
    Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para
    findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito
    projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
    egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
    immobilidade oriental.

    Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
    tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
    assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
    paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

    Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
    affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
    que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
    podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
    alargar-se d'estes termos.

    _Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»

    _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»

    Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.

    * * * * *

    Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
    collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
    confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
    reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
    provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
    effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

    As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
    que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
    interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
    d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que
    tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
    maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
    dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
    decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
    luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

    Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
    segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
    desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
    seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
    operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
    pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
    onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
    precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
    assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
    sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
    estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
    sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
    lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
    distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
    suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
    surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
    riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
    rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
    descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

    E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
    tem de aprender a ser digno e honrado!

    * * * * *

    Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
    negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
    administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
    correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
    todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

    Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
    cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
    nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
    para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
    constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
    quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
    da Companhia.

    Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
    erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
    definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:

    «Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
    avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
    revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
    senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
    que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
    se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»

    Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
    srs. deputados votariam calados.

    Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
    que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
    Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
    sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
    propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

    Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
    discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
    republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
    todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
    é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
    bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

    Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
    constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
    interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
    tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
    povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
    distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
    parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
    fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
    symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
    trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
    problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
    parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
    em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
    defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
    tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
    especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
    em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
    constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
    é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
    ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
    pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
    declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede
    viveres.»

    Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
    obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
    fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
    governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
    aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
    catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
    absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
    o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
    e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
    esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
    por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
    quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
    tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
    depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
    fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
    Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
    socego e da ordem.

    Hoje porém:

    Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
    vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

    Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
    mesmas;

    Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
    transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
    a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

    Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
    impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
    via da eleição representem a vontade popular:

    Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
    póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
    considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
    de poder que ellas asseguram ao povo.

    Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
    uma monarchia parlamentar.

    A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
    por chefe do poder executivo--um presidente eleito.

    A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
    povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
    executivo--um rei hereditario.

    O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
    republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
    monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
    responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
    dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
    liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
    para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
    tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
    tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
    suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
    N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
    grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
    monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
    de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
    reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
    de juizo para governar.

    Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
    das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
    nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
    Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
    monarchia representativa.

    A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
    de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
    politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de
    quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um
    presidente eleito.

    O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
    funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
    affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
    soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
    Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
    ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
    d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
    que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
    expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
    para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
    França poderia introduzir na organisação do trabalho.

    A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
    vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
    defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o
    constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
    nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

    Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
    que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
    escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
    relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
    distincção: um e outro affirmam um governo livre.

    A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
    é:

    Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
    verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

    Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

    Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
    a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
    pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
    dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
    guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
    Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
    a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
    reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
    physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
    pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
    Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
    manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os
    unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
    de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
    não seja--a de desafinarem.

    Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
    de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
    livre sob a monarchia portugueza.

    Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
    correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
    dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
    ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto
    existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
    para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
    deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
    elle encerra....

    E que digamos a suas excellencias:

    Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
    egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
    verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
    governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
    eleitos.

    Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
    o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
    governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
    mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
    constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
    mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
    eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
    monarchia parlamentar.

    Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
    republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
    regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
    monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
    exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
    exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
    portuguez?

    Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
    republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
    por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
    Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
    moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
    tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
    representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
    da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
    independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
    monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
    srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
    sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
    voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
    pedirá--herva.

    * * * * *

    Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
    deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
    camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
    suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
    as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
    á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
    onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
    onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
    fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
    que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
    effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
    capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
    republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
    complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
    excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
    representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
    não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
    representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
    dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
    os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na
    republica, e teremos--a escravidão na monarchia.

    * * * * *

    Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
    uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
    patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
    e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia
    e que parece não ter caracter.

    Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
    parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
    arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
    elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
    cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
    sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
    tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
    na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
    quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
    _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
    essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

    Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
    D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
    corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
    o machinismo constitucional.

    Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
    liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
    todo ha um surdo descontentamento geral.

    Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
    prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
    como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
    grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
    que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
    differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
    a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

    Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
    divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
    paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
    entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
    convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
    elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
    seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
    que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
    seccas.

    Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
    perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
    na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
    maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
    governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
    promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
    de fadiga, apupado e corrido.

    Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
    constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
    poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
    alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
    burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
    amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
    crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
    satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

    O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
    altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
    estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
    militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
    da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
    que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
    paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

    A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
    direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
    sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
    direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
    obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para
    discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

    O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
    hypothecada.

    Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
    instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

    Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
    ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
    riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
    dando dinheiro e recebendo papeis.

    A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
    seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
    agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
    bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
    qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
    muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
    laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
    dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
    elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
    suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
    o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
    finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
    dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
    tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
    justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
    sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
    ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
    necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
    simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
    nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
    sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
    tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
    typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
    e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

    * * * * *

    A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
    despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
    pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
    ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
    religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
    dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
    assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
    lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
    lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
    mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
    e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
    similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
    consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
    religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
    se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
    delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
    eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
    que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
    responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
    o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
    sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
    liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

    Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
    interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
    noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
    elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
    conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
    rebaixa.

    * * * * *

    Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
    bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
    tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
    servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas;
    faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
    e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
    proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
    passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
    então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
    interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

    Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
    apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
    mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
    baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
    mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
    grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
    a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
    sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
    a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
    para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
    precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
    a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
    maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
    discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
    _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

    Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
    regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
    Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
    na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
    sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
    novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
    se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
    a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
    saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
    perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

    * * * * *

    O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
    republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
    nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
    norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
    necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
    que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
    não seja para nós um irremediavel perigo.

    Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
    immediatamente de manter os abusos.

    Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
    melhor politica.

    Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
    longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
    é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
    reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

    Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
    politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
    inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
    como se é homem de bem.

    Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
    e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
    d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
    partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
    governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
    possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
    opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
    oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
    falta da virtude.

    Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

    Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
    probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
    publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
    que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
    homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
    poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
    corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
    que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
    pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

    Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
    desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
    gangrena e a dissolução latente do estado.

    Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
    virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
    popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á
    conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

    De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
    de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
    comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
    liberdade.

    Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
    nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
    acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da
    perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
    entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
    actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
    aos negros e dar a paz á America.

    * * * * *

    Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
    fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
    influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
    mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
    se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
    prudente e justo.

    No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
    conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
    livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
    despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
    nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
    geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
    sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
    mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
    condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
    segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
    sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
    facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
    jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
    social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
    demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
    Theagenes em Megara.

    O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
    ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
    Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
    que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

    Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
    constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
    desfallecimento e a morte.

    Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
    forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse
    principio sob a sua forma philosophica--na razão.

    * * * * *

    O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
    colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
    intelligentemente armadas e equipadas da Europa....

    A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
    ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
    gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que
    as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
    depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
    o jornal e tomar o café--para os estribos.

    O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
    acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
    desde hoje e para todo sempre invenciveis.

    Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
    dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
    soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
    artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
    com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
    freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
    scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
    nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os
    pés!

    De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
    branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
    abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
    saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
    pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
    de piugas.

    * * * * *

    Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
    que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
    do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
    infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
    pés quentes!

    Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
    sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.

    Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
    estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
    sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés
    quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!

    * * * * *

    Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
    de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
    qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
    Tavira_.

    Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!

    Eis a moção:

    «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
    dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
    manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
    ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

    Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
    os srs. deputados.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

    «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
    noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
    independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
    está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
    constitucional.»

    Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
    juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
    qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
    garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
    ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
    Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
    apparecer.

    E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
    illibados.

    * * * * *

    Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
    referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
    desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
    destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
    ha dois annos.»

    Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
    tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
    queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
    da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
    illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
    collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

    «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
    criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
    espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
    independencia, e passa á ordem do dia.»

    Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

    Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
    Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

    * * * * *

    Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
    Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
    Palhés e a villa de Mangualde.»

    Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

    «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
    desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
    passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»

    * * * * *

    Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
    ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
    ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
    crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
    tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
    crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o
    que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

    * * * * *

    Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
    Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

    No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
    que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não
    certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

    O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
    moção:

    «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
    tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
    instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
    camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
    camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
    as instituições.»

    Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
    correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
    independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
    camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
    instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

    O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
    conspirações continuadas.

    O partido historico caiu victima de uma conspiração.

    O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
    Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
    ao mais a que se podia chegar_.»

    Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
    partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!

    * * * * *

    Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
    luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
    espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
    Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
    artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
    Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
    pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.

    * * * * *

    Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
    funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
    Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
    faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
    conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
    senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
    povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
    trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
    estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
    funeral.

    Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
    longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
    imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
    entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
    multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

    Dizia-se fallando-se d'ella:

    «Deixou pouco.»

    «Que fez ella ao que tinha?»

    «Que miseravel! que mesquinha!»

    E um jornal catholico escreveu:

    «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
    cautellas de vinte e cinco.»

    Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
    homens deseguaes.

    Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
    acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
    pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
    deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

    Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
    levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
    silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
    flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
    passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
    suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
    o descanço eterno.

    E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
    que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
    nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
    encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

    As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de
    imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
    interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
    ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
    de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
    escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
    ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
    soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
    lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
    ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
    triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
    similhantes condições e com eguaes amarguras!

    Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
    suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
    descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
    gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
    devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
    considerar-se menos que quaesquer outros.

    * * * * *

    É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
    mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
    sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
    circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
    alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
    proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
    Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
    illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
    pela mulher digna e virtuosa que morreu.

    * * * * *

    Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
    perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
    reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
    insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
    feridos e dois mortos.

    Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
    programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
    ninguem era ferido.

    Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
    levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
    algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
    de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
    illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
    acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
    satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
    recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
    sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
    jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
    preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
    multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
    a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
    para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.

    Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
    usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
    perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
    desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
    delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
    delicto? _«Por abuso de defesa»_.

    Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
    caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
    atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
    defeza_.

    * * * * *

    Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
    clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
    armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
    Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
    desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
    pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
    contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
    Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
    por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
    espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
    Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
    rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
    barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
    momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
    musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
    diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
    uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
    d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

    E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!

    Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

    Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...

    Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
    energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
    nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
    Melicio vela!

    * * * * *

    A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
    politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
    gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
    vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
    para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
    de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
    meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
    rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
    de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.

    * * * * *

    Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
    patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
    governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
    entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
    provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
    phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
    alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
    verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
    ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
    Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
    Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
    rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

    O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
    encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
    sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
    barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
    deputado, com voz pausada e firme disse:

    «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
    espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
    a quem verdadeiramente podemos chamar ...»

    Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
    bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
    bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
    momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
    multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
    tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
    um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

    O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
    verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
    apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
    Vozes: Muito bem! muito bem!)

    * * * * *

    Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
    presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
    quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
    das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
    eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

    Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
    provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
    arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
    commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
    vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
    espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
    que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
    vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
    á beira dos golphos innundados de azul ...

    Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
    a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
    monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
    Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
    tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
    occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
    _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
    deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
    prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
    ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
    por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
    com brisa fresca!_

    * * * * *

    Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
    vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
    camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
    evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
    que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
    phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
    proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
    nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
    modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
    seguintes:

    Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
    inspirada voz!

    Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
    assembléa, labio tão selecto como attico!

    Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
    ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
    amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

    Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
    por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
    immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

    (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
    estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
    monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

    Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
    comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...

    (Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
    Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
    outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
    d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
    são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
    porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
    interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
    malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
    emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
    badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
    luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
    mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
    commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
    amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
    desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
    um desconhecido).

    * * * * *

    _Áquelle que jurou assassinar-me_

    Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
    obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
    a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
    prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
    posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
    consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
    regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

    «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
    sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
    Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
    ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
    manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
    fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
    cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

    Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
    mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
    particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
    indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
    desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
    de occupar-se do caso.

    Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
    que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
    Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
    de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
    pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
    o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
    momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
    atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

    Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
    poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
    assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
    viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

    Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
    sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
    opinião:

    Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
    obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
    uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
    concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
    convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
    me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
    empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
    o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
    momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
    conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
    Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
    o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
    barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!

    Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
    apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
    vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
    ordinariamente comsigo.

    Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
    da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
    fecha o discurso.

    Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
    assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
    que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
    que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
    violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
    e o jornalista Courrier.

    Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
    dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
    de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
    obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
    trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

    Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
    coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
    mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
    pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
    correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
    felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
    implacaveis da desgraça!

    No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
    inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
    o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
    uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

    Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
    completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
    affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
    sentia a displicencia, a melancholia.

    Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

    Vermes!

    O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
    existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
    começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
    com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
    aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
    parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
    como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
    a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
    mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
    tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
    golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
    é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
    vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

    Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
    allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

    E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
    o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
    de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
    ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
    para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
    que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
    terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
    mas discreta.

    A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
    elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
    mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
    um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
    que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
    caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!

    Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
    zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

    --Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

    --Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...

    --O que trazia o bigode assim?...

    --Esse mesmo!

    --Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...

    E algumas outras coisas doces e impereciveis.

    E do meu amigo dirão apenas:

    «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

    Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
    agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
    tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
    isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
    Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
    consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
    designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
    directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
    os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
    branco.

    * * * * *

    Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
    encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
    promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
    soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
    civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

    Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
    de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
    perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
    sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
    os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
    nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
    redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
    emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
    mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
    na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
    figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
    selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
    encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
    instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
    ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
    de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
    o vate:

    _Aos infieis, senhores, aos infieis!_

    * * * * *

    D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
    resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
    individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
    ministro do reino.

    O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
    ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
    ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
    camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
    pasta para ir adoptar o seu livro.»

    O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
    aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
    pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
    de membro do actual gabinete.

    É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
    elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
    represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
    para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
    poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
    colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
    passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.

    O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
    iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
    ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
    fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
    o chão.

    Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
    ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
    guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
    papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
    que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
    era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

    Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
    mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
    amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
    sorrisos, com a malevolencia das allusões?

    Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
    de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
    amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
    desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

    Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
    que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
    covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
    respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
    salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
    de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
    contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
    bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
    que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
    domestica.

    A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
    fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
    _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
    publica da sua virtude.

    Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
    reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
    a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
    As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
    ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

    Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
    paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
    ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
    Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
    dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
    Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
    marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
    eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
    pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
    do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

    Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
    interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
    inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
    viveu.

    Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
    passado no mundo.

    O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
    venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

    * * * * *

    Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
    luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
    _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
    periodicos portuguezes são--anonymos.

    * * * * *

    Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
    que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
    alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
    escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
    que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
    este:--não assignar.

    Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
    assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
    Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
    declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
    responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
    effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
    as antipathias que tenha podido suscitar.

    Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
    portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
    mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
    tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

    * * * * *

    A primeira razão por que se não assigna é esta:

    A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
    convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
    de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
    machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
    lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
    eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
    muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
    N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
    dignidade e da razão.

    Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
    perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
    firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
    transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
    necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
    _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
    resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
    imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
    opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
    catastrophe para a justiça.

    Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
    apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
    sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
    entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
    naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
    dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
    que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
    quanto mais se lê peor se escreve.

    Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
    assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
    immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

    Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
    publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
    Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
    durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
    que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
    dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
    jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

    Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
    que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
    apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
    quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
    que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
    me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
    _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
    foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
    salchicheiro.

    Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
    respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
    socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
    que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
    receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
    magnezia.

    * * * * *

    Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
    Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
    representativo nacional.

    Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
    abalisam uma época, enquadram um seculo.

    Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

    «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
    sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
    determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
    respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
    para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
    principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
    geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
    frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
    isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
    nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
    e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
    mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
    detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»

    * * * * *

    O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
    teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
    historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
    posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
    fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
    Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
    contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
    guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
    historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
    actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
    varões extraordinarios!

    No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
    vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
    pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
    scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
    ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
    estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
    barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
    nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
    publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

    Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
    espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
    as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
    se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
    destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
    esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
    correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
    suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
    ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
    nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
    solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
    Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
    nunca!»

    Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
    geographia--e á canalha!

    Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
    cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
    unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
    Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
    isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
    pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
    tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
    perra vil!

    E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
    os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
    devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

    Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
    benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
    peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
    congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
    a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
    cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
    tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

    Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
    de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
    botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
    ôlho de perdiz!

    Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
    extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
    peninsulas!

    * * * * *

    Agora--Barros.

    Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
    Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
    consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
    o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
    phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

    Como o explica, como o justifica elle?

    Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
    occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!

    * * * * *

    Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
    attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
    sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
    magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
    dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

    «Elle tem alguma coisa na cabeça!»

    Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
    excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
    celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
    parisiense de Champfleury!

    Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
    um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
    é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
    trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
    intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

    Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
    simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
    o povo--e o passarinho!

    Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
    conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
    civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
    arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
    pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
    Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
    que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

    Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
    como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
    sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...

    Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
    bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
    lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
    toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
    portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
    laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
    suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
    tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
    corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
    amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
    questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
    amplidões do azul em phantasticos arabescos....

    E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
    magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
    que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
    andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
    evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
    carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
    que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
    paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

    Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
    Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
    Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

    * * * * *

    Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
    homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

    Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
    profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
    e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
    manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
    comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

    O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
    recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
    saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

    Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
    visitas n'um só bote!

    E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
    discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

    * * * * *

    Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
    menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
    homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
    portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!

    Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
    Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
    simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
    extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
    elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
    pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
    para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
    elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
    maiores!

    O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
    heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
    ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
    parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

    * * * * *

    No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
    caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

    Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
    fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
    um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
    charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
    algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
    extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
    novos ceus, novas floras e novas faunas.

    Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

    Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
    oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
    pessoas.

    Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
    nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
    com a Russia européa.

    Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
    felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
    deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

    Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
    thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
    gelados nove mezes por anno.

    Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
    Strelitz.

    Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
    Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
    caravanas do chá....

    E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
    comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
    como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
    soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
    letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
    litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
    no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
    subditos do grande Filho do Ceu.

    E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
    espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
    caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
    expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
    fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
    galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
    baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

    E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
    Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
    atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
    barril immundo para um fino cristal facetado!

    * * * * *

    A camara dos srs. deputados....

    Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
    deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
    encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
    se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
    como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
    cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
    freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
    apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
    permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
    desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
    aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
    que palpita, ao longe!

    E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
    abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
    estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....

    A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
    civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
    leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
    realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
    um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

    Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
    barril, uma pipa ou um tonel!

    E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
    problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
    camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
    revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
    qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

    «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
    antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
    vasilhas.»

    Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
    a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
    da Europa a este milagre:

    _Engarrafar vasilhas_.

    * * * * *

    E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
    parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
    uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
    vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
    das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
    aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
    bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
    perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
    camoeza!

    Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

    Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
    coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
    d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
    seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
    um capitalista ou um sabio.

    Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

    Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

    Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
    leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
    habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.

    Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
    grande.

    Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
    grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
    no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
    meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.

    Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
    trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
    teu voltarete.

    Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
    se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
    um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
    si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
    outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
    suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
    narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
    barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
    cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
    triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
    veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
    verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
    das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque
    elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
    orthographia, nem mão de redea!

    O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
    como o foste--na politica! Não tornes cá.

    Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
    beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas
    moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
    discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:07 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)

    Aproximadamente 16.210 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO X

    Agosto a Setembro 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P. J. Proudhon

    SUMMARIO

    Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
    critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
    influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
    mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
    altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
    d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
    d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
    cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções
    musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
    valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
    Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
    feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
    estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
    afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.

    O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
    pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
    14 de setembro de 1877.

    Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
    de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
    terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.

    Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
    inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
    do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
    o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
    inimitavel mestre.

    O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
    Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.

    * * * * *

    Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
    existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
    espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
    d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
    passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
    rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_

    * * * * *

    Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
    Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
    importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
    enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
    o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
    o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
    denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
    dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
    d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
    admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
    nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
    ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
    hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
    do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
    aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
    época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
    sociedades vivas a elaboração do progresso.

    * * * * *

    Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
    sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
    genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
    sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
    universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
    sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
    projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
    em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
    prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
    seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

    O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
    solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
    vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
    multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
    traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
    sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
    aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
    sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
    de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
    divina verdade.

    * * * * *

    A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
    comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
    das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
    auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
    reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
    naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
    tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
    uma catastrophe para a geração moderna.

    Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
    alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

    Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
    firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
    expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
    enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
    deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
    prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

    A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
    ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
    tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
    cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
    batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
    da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
    o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
    patifes, com os seus pés miseraveis.

    A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
    socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
    impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
    cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
    d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
    chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
    depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
    recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
    este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
    constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

    A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
    que a devia prender estreitamente á grande alma popular.

    A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
    e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

    Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
    Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
    movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
    importantemente o nosso estado social.

    Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
    poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o
    partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
    depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
    portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.

    Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
    instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
    propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
    convivencia e pela cultura da historia.

    Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
    tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
    inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.

    Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
    fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
    sentimento nacional.

    * * * * *

    Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
    missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
    seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
    intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
    seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
    dotára.

    Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
    todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
    social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
    mão.

    Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
    combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
    muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
    tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
    longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
    de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
    dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
    de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
    todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
    pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
    poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
    sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
    poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.

    Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
    decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
    lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
    d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
    na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
    similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
    peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
    invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
    profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
    admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.

    Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
    d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
    todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
    cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
    dirigentes, não tem esse direito.

    A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
    cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
    devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
    dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
    condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
    linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.

    E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
    têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
    sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
    submetter-se aquelles que estão vivos.

    A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
    a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
    estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
    confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
    de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
    isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
    social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.

    O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
    não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

    Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
    consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
    trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
    vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
    humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
    desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
    instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
    com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
    desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
    dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
    dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
    de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
    sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
    indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
    arduo e penoso rumo do dever.

    * * * * *

    Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
    fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
    admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
    monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
    está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.

    Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
    como um de seus membros, eis o que proporiamos.

    * * * * *

    A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
    _Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
    quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.

    Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
    deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
    portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
    philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das
    côrtes de Lamego.

    O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
    aspecto,--o aspecto das nossas superstições.

    As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
    da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
    suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

    De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
    nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
    profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
    tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
    e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
    estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
    do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

    Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
    Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
    qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
    scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
    historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
    leis fundamentaes da nossa evolução social.

    A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
    publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
    perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
    Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
    desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
    seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
    dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
    mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
    Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.

    * * * * *

    Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
    os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
    mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.

    CAPITULO I

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
    secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
    passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
    companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

    CAPITULO II

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
    serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
    afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
    Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
    medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

    CAPITULO III

    Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
    secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
    infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
    Quatorze e por Cysne innarravel.

    CAPITULO IV

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
    comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
    Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
    Jubilo povo augmenta.

    CAPITULO V

    Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
    petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
    momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
    _touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
    meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

    CAPITULO VI

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
    Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
    Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
    povo.

    CAPITULO VII

    Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
    phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
    maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
    povo.

    CAPITULO VIII

    Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
    tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
    acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
    monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
    fôr.

    CAPITULO IX

    Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
    rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
    pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
    zenith.

    CAPITULO X

    Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
    phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
    excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
    impossivel descrever palavras humanas.

    CAPITULO XI

    Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
    liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
    Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
    delirante.

    CAPITULO XII

    Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
    que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.

    CAPITULO XIII

    Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
    passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.

    CAPITULO XIV

    Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
    atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
    da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
    Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
    são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
    pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
    vertiginoso.

    CAPITULO XV

    Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
    augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
    Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
    defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.

    CAPITULO XVI

    Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
    Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
    precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
    vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.

    CAPITULO XVII

    Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
    Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
    bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
    adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
    medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.

    NOTAS

    AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

    A

    _Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
    Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
    explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
    reproduzidas.

    Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
    dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
    magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
    que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
    matta.

    Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
    e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
    dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.

    O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
    immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
    do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
    residencias de suas magestades.

    Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
    bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
    no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
    perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
    praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
    facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
    nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
    solução d'este problema:

    Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
    Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
    Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
    quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
    lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
    de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
    tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
    vezes sem se destapar o tacho;

    Pergunta-se:

    Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
    Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
    faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
    e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

    Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
    reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
    Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
    queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
    d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
    em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
    publicas o sr. estofador Alcobia.

    O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
    ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
    com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
    excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
    forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
    especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
    peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.

    E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
    da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

    B

    _Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
    liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
    detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

    El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
    dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
    magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
    vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
    de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
    ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
    adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
    pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
    honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
    encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
    em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
    precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
    se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
    deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
    referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
    asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

    Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
    dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
    de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
    magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
    de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
    encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
    um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
    se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
    E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

    --Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
    de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
    lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
    seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
    Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
    aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
    eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
    blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
    tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
    confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
    trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
    homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
    como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
    obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
    fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
    e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
    conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
    cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
    qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
    a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
    dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
    fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
    mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
    mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
    reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
    pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
    te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
    pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
    trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
    sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
    és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
    immunda.

    Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
    rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
    praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
    cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
    terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
    moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
    rapazes onde era a escola.

    Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
    apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

    Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
    habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
    serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
    rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.

    São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
    ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
    successivo das cadeias e dos hospitaes.

    Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
    embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
    pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
    uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
    forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
    medas ou a debulhar o milho.

    Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
    dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
    chamar:--o premio Monthyon da malandrice.

    * * * * *

    Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
    acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
    da corôa, o sr. Barros e Cunha.

    Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
    respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
    phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
    pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

    Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
    intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
    do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
    inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
    desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
    com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
    Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.

    * * * * *

    Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
    antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.

    Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
    pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
    a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
    na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
    sabia inglez.

    Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
    declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
    camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
    tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
    a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
    determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
    litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
    sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
    ex.ª.

    Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
    legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
    da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
    sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
    palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
    como a de quem falla por um nariz de assucar.

    No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
    partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
    acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
    roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
    signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
    seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
    irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
    incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
    os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
    passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
    beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
    do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
    carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
    das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
    todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
    lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
    ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
    fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

    Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
    carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
    colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
    quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
    no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
    adormecida.

    Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
    circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
    indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
    Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.

    Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
    parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
    com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
    vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
    consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.

    * * * * *

    Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
    novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
    «caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
    tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
    servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
    adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
    corôa.

    Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
    commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
    obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
    mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
    popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.

    Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
    imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
    Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
    dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
    houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
    e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.

    No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
    actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
    a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
    momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
    cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
    liberdade.

    Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
    zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
    conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
    hebdomadarias:

    S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
    Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
    hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
    madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
    á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
    lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
    A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
    momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
    hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
    ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
    barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
    estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
    dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
    recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
    A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
    familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
    na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
    hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
    real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
    pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.

    * * * * *

    Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
    collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
    Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
    digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
    pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
    ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
    de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
    espinha de cebo.

    Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
    vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
    35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
    progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
    concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
    parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
    não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
    de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
    fardamento, uma calva e uma nodoa.

    Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
    do seu zelo como novo aulico.

    Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
    arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
    mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
    expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
    magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos
    outros.

    Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
    absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
    donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
    reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
    monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
    mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
    modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
    Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
    passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
    acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
    com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
    segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.

    Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
    determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
    manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
    importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
    em um dos lanços da estrada alludida.

    * * * * *

    Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
    cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
    conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
    algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
    e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
    no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
    começamos por transcrever:

    «Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
    contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
    obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
    fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
    considerando:

    «1.° Que esse contrato se encontra viciado;

    «2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
    regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

    «3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
    a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
    empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;

    «4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
    adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
    governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
    condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:

    «Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
    procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
    observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
    para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.

    «O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
    districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
    officio datado de 26 de junho ultimo.

    «Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._

    «Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».

    * * * * *

    Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
    contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
    governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
    ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
    Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.

    O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
    contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
    Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
    contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
    governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
    contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
    juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
    portaria, um contracto de similhante natureza:

    O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:

    _Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
    constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
    governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
    que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
    os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
    Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
    praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
    contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
    outro que o prejudica.

    A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
    intervenção do sr. Burnay.

    A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
    porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
    os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
    perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
    fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
    estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
    contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
    d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

    As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
    como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
    da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
    réis é uma calumnia.

    Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
    deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
    sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
    ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
    fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
    mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
    que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
    que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
    não do individuo com quem elle contractou?

    Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
    similhante arbitrio?

    Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
    interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
    governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
    contractado?

    Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
    ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
    governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
    delicto egual ao da camara?

    Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
    industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
    portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
    apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
    governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
    tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
    fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
    petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
    calumniosa, e infamante.

    É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
    arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
    cidadãos.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.

    A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
    commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
    poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
    liberdade e contra a propriedade de um cidadão.

    Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
    reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
    direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

    A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
    não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
    elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
    calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

    «A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
    o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
    submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
    do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
    consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
    omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
    satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

    Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
    responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
    perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.

    * * * * *

    Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
    não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
    simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
    primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
    cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
    elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
    Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
    pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
    preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
    modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
    elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
    centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
    lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
    mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
    que os estados se moralisam e se enriquecem.

    Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
    impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
    aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
    constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
    exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
    exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
    coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
    outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
    governa.

    * * * * *

    Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
    producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
    maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
    offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
    suas faculdades não lhe permittirão defender-se.

    D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
    deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
    trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
    mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
    nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
    pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
    violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
    explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
    condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
    de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
    feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A
    logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
    ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
    ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
    ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
    pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
    tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
    baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
    de zabumba em theatro de feira.

    E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
    destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
    Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
    util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
    ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria.

    Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
    modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
    para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.

    Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
    mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
    anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
    desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
    seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
    extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
    elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
    por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
    sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
    s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
    um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
    precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

    A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
    ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
    preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
    tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
    coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
    piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
    das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
    forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
    mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
    satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
    querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.

    Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
    desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
    não fizeram senão prejudical-a.

    Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
    differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
    o mesmo.

    * * * * *

    O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
    periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
    mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
    attenção que lhe é devida.

    * * * * *

    _As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
    principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
    as fontes da inspiração artística.

    Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
    orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
    aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a
    força da pancadaria.

    Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
    fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
    são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
    passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
    juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
    policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
    respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

    Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
    acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
    que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
    policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
    conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
    quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
    onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
    essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
    suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
    transformar o paiz n'uma almondega.

    Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
    clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
    regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
    vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
    publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
    com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
    cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
    Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
    render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.

    As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
    insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
    canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
    suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
    victimas.

    Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
    popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
    polka.

    Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
    propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
    e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
    o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
    legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
    o caso em musica e em dansa de roda!

    Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
    ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
    rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
    simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
    soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
    actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
    pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
    presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
    tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
    uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
    todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
    o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
    nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

    Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
    chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
    mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
    primeira!

    Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
    cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!

    Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
    não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
    que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
    sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
    tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
    arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
    terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
    delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
    philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
    Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
    tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a
    musica_.

    Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
    costume, despicaste-te com uma polka especial.

    As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
    indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
    santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
    de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
    Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
    que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
    expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
    Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
    essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
    campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
    habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
    semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
    polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

    O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
    appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
    instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
    vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
    democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
    clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
    tyrannia a vindicta dos povos.

    Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,
    ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...
    Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
    panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!

    Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
    terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_

    * * * * *

    O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
    operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
    partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
    peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
    ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
    ellas_!

    Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
    Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

    Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
    perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
    caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
    não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

    Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
    as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
    interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
    Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
    seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
    spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
    das Mercês.

    * * * * *

    _A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
    periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
    piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_

    Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
    penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
    comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
    Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
    cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
    alliança da religião e do _chic_.

    Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
    completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
    inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

    --Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
    impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

    E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
    os olhos ao céu.

    --Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

    E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
    deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
    o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
    mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
    chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
    exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
    pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
    e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
    conversaremos:

    --Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
    coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

    --E começa a ter crenças?

    --Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
    Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
    Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
    meu anjo da guarda!...

    --Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
    indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
    uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
    Pontifice, não acredita?

    --Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
    coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
    Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
    seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
    Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
    mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
    disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
    perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
    blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...

    --Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
    nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

    --Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
    joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
    cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...

    --Deus do céu!

    --Entre a costelleta e a omelette...

    --Virgem Maria!

    --Misturada com vinho de Pauillac...

    --Santos e Santas da côrte celeste!

    --Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...

    --Mas vae para o inferno essa alma!

    --Está claro que sim. E é bem feito!

    --Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

    --Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
    todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
    amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!

    --Amen! Amen, Jesus Maria José!

    Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
    Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
    ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
    entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
    nossas soirées ao divino.

    * * * * *

    Aos srs. advogados

    Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
    onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
    Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
    mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
    ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
    pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
    aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
    da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
    perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.

    De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
    cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
    cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

    Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
    de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
    metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
    embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
    meu varapau.

    Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
    velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
    adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

    Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
    obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
    postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
    para o outro dia.

    É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
    os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
    regras.

    * * * * *

    Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
    mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
    familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
    srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
    machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
    elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
    como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
    advogado para que este o illucide.

    Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
    ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
    mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
    especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
    elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
    chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
    que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
    da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
    do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
    policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
    desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
    o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

    --Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
    papel official.

    --Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
    nos olhos, atando as mãos na cabeça.

    --Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
    apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
    tinha alma de lhe beber o sangue!

    Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
    a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
    filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
    administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
    pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
    fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
    com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
    para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
    mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
    pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
    tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
    custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
    as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.

    Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
    emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
    letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
    medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
    que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
    egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
    desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
    hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
    inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
    ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
    defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
    maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
    O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
    dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
    advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
    para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
    que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
    por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.

    Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
    nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
    os que tyrannisam o orphão.

    Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
    defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
    contraria.

    Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
    com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
    conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
    que deseja pagar.

    Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
    punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
    se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

    O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
    espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
    tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
    mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
    esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
    réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
    cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
    defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
    selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
    crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
    defensor.

    * * * * *

    Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
    restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
    introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
    poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
    por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
    lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
    ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.

    * * * * *

    Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
    mais ou menos do teor seguinte:

    * * * * *

    «Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
    directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
    Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
    esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
    dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
    referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
    jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
    carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
    consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»

    * * * * *

    A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
    nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
    collegios de Lisboa.

    A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
    as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
    classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
    _réclames_ das suas distribuições de premios.

    Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
    o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
    egual exito com relação á lingua ingleza.

    O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
    dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
    recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
    professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
    Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
    Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
    consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
    uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
    com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
    um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
    data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
    bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

    _Elvira Fernandez me fecit._

    * * * * *

    Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
    quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
    um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
    Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
    porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
    palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
    conhecimentos theoricos da formação das palavras.

    Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
    _Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
    os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
    almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
    poltronas.

    Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
    d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no
    estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
    quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
    versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
    sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
    esposa, e finalmente como mãe.

    * * * * *

    De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
    absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
    vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
    desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
    incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
    chamada na familia.

    * * * * *

    Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante
    obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
    filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
    mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
    Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
    Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
    Jeronyma o direito de a levarem a exame.

    * * * * *

    _Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
    da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
    do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
    mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
    espirito virginal de uma menina,--ao
    interrogatorio official de um mestre que durante
    vinte minutos vae exercer sobre aquella
    alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
    tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
    na educação de um rapaz, para quem
    o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
    civil; na educação de uma menina portugueza
    similhante prova é inadmissivel e equivale
    a uma amputação do decoro.

    Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
    a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
    mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
    tornar mais educada.

    Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
    primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
    feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
    maioridade e de emancipação legal.

    * * * * *

    Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
    dialogo:

    _O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?

    _A examinanda_--Quando me vou deitar...

    _O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

    _A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
    olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

    _O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
    o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz
    depois de se despir?

    _A examinanda_--Tenho vergonha...

    _O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!

    _A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...

    E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
    com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
    annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
    innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
    as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
    emittere_.

    O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
    presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

    É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
    sabem ou não «civilidade».

    * * * * *

    Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
    de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
    restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

    A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
    que a da instrucção dos homens.

    As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
    conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

    Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
    educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

    1.° Curso de aceio e de arranjo;

    2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).

    3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.

    * * * * *

    No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
    juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
    idéas, as seguintes noções praticas:

    Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
    branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
    esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
    domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
    melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
    arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
    de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
    de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
    Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
    escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
    se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
    bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
    inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
    mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
    pequenos jantares.

    Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
    differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
    mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
    vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
    vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.

    No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
    aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

    O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
    caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
    caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
    boa digestão.

    Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
    dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
    senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
    nacional.

    Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
    affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
    physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
    que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
    preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
    não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
    por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
    liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
    condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
    quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
    não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
    perfeitamente transparente.

    Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
    suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
    Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
    no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
    _substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
    não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
    _substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
    papão!

    Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
    Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
    demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
    no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
    civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
    entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
    povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
    É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
    governa o mundo e determina o destino das sociedades.

    Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
    chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
    iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
    regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
    cozinhas dos differentes póvos, etc.

    A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
    as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
    compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
    obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
    habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
    publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
    numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
    de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
    estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
    cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
    meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
    inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
    competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
    descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
    ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

    Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
    economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
    divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
    teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
    meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
    que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
    semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
    obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
    inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
    conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

    O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
    praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
    das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
    ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
    o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
    o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
    anno em que elles houverem de ser feitos.

    * * * * *

    No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
    deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
    familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
    mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
    balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
    os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
    differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
    reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
    despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
    indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
    sabiamente dirigida.

    * * * * *

    Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
    a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
    verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
    mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
    equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
    invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
    seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
    que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
    dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
    methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
    baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
    protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
    domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
    feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
    fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
    doce refugio.

    Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
    dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
    engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
    factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
    em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
    casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
    uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
    portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
    esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
    economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
    dotar-se a mulher.

    * * * * *

    Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
    mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
    de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
    reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
    aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
    graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
    cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
    das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
    não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
    nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
    meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
    instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
    livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
    rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

    Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
    das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
    senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
    mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
    esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
    poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
    meteorologia nas obras dos arabes.

    Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
    desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

    Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
    das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
    ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
    Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.

    * * * * *

    A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
    na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
    escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
    por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
    póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
    noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
    estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
    previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
    primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

    O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
    como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
    depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
    impõe.

    Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
    ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
    são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

    Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
    de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
    posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
    contemporaneas.

    Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
    Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
    Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
    qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
    do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
    collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
    dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
    conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
    tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
    contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
    pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
    foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
    publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
    versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
    publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
    profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
    sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
    de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
    Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
    personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
    dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
    garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
    simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
    fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
    honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
    _ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
    acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
    creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
    na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
    permanentes.

    Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
    collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
    educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
    litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

    O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
    profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

    Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
    de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
    physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
    de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
    praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
    réclame de modas.

    Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
    publicados nas _Transactions of international association for the
    promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:

    _Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;

    _Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
    inferiores_, por Mary Carpenter;

    _Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;

    _Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;

    _A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
    Bessie Parkes;

    _A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
    Remand;

    _Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
    Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
    mulheres,_ por Jone Crowe, etc..

    Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
    amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
    uma vida extremamente simples e retirada.

    Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
    produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
    educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
    nem dá literatas.

    Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:06 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)

    Aproximadamente 15.283 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora

    5--PATEO DO ALJUBE--5

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883

    LISBOA

    EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA

    Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em
    nome do rei.

    SUMARIO

    Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o
    acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel
    parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do
    príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de
    sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas
    convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha
    na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o
    cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A
    viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o
    príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao
    throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que
    for servido.

    LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

    SENHOR!

    E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos
    traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.

    O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia
    garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o
    Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de
    usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em
    que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente
    do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey
    nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.

    Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos
    deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio
    da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,
    correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.
    D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

    Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas
    pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar
    vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e
    das coisas da civilisação entre gentes extranhas.

    Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada
    pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois
    abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As
    Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica
    e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se
    tratava.

    Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,
    atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,
    quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para
    encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento
    presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que
    vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa
    acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação
    remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar
    dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques
    debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa
    alteza.

    Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as
    instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade
    Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria
    Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,
    quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,
    que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria
    do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.

    Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas
    o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.
    Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do
    trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos
    pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os
    Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As
    academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão
    nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as
    pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes
    oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo
    com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:

    --O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe
    seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o
    immortalisarem no eterno jubilo das gentes!

    E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da
    sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta
    perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra
    cathedralesca.

    Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

    Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso
    dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da
    educação d'alguem que seja n'este mundo?

    Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!

    Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente
    fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual
    Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e
    porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para
    o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da
    _Delphina do mal_.

    Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se
    achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se
    lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...

    Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!

    Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,
    sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e
    em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes
    ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador
    berrava:

    --Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa
    com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do
    que os rapazes precisam para ir para leis!

    Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem
    religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho
    d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de
    Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira
    do predio.

    Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos
    lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois
    é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação
    capaz.

    Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a
    mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,
    _que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!

    E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou
    enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,
    que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro
    ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!

    Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar
    no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;
    mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro
    das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito
    de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de
    magica no theatro de D. Maria.

    Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles
    pegaram n'uma questão d'arte?!...

    Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual
    reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção
    d'arte com _quatro potes etruscos_.

    Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira
    parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram
    por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa
    presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças
    familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde
    muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.

    Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes
    exprimiram com unanimidade:

    --Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!

    --O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão
    inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus
    extrangeiros!...

    --Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e
    subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em
    potes.

    E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito
    supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte
    nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,
    nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual
    a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra
    de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por
    quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns
    dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas
    antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo
    que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,
    só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de
    compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!

    Tal é a camara, ó serenissimo principe!

    E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia
    corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.
    Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de
    assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva
    em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a
    deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação
    nacional é o boi gordo.

    Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o
    trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros
    e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.

    Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.

    Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,
    considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso
    foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com
    prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em
    portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de
    instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e
    applauso geral dos doutos.

    Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.

    Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros
    e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo
    que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_
    presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade
    geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados
    e iam a ministros.

    A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica
    portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo
    _odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres
    entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.

    De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o
    entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola
    pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.

    A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da
    sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos
    fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a
    amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.

    Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa
    alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o
    primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos
    desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e
    muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

    Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus
    illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam
    com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje
    de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.

    De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario
    publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,
    jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e
    luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava
    dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.
    Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.

    _As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que
    vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio
    dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que
    vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um
    cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura
    nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por
    um simples phyloxera.

    _As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de
    flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem
    luvas.

    Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o
    decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de
    vossa alteza, se nós, seus criticos.

    Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção
    secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de
    hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica
    e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse
    sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que
    era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr
    defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,
    pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na
    Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a
    explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim
    o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.

    Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os
    dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe
    acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio
    pão.

    Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem
    ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema
    nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o
    estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu
    mestre.

    Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,
    do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a
    educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica
    Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos
    bar-baças aposentados da magistratura e da academia.

    Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os
    pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da
    natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,
    cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas
    sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás
    engommadeiras virtuosas.

    Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?
    Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos
    principes como o proprio livro de Machiavel.

    Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a
    tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

    É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha
    agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo
    da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,
    applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se
    apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real
    banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na
    caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se
    retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da
    regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,
    mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de
    gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural
    affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e
    metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o
    vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar
    os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava
    escripturado.

    Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se
    ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos
    duros encargos da publica governação espreitando um momento pela
    fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza
    Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,
    apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de
    chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que
    dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e
    cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira
    por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com
    o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.

    --Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz
    acre.

    --Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza
    Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não
    tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

    --Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo
    na testa e com os braços cruzados no peito.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo
    tres perus gordos e emborrachados!

    Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito
    pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se
    lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos
    _deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.

    Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos
    seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,
    que a pena ultima lhes seja commutada.

    Piedade, principe, piedade!

    Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As
    Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio
    de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a
    sua familia, com a sua côrte?...

    Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento
    encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as
    maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do
    palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos
    cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das
    caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

    Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa
    alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos
    _louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?

    Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha
    cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da
    rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e
    de peixe frito?...

    Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom
    gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto
    de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do
    recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente
    e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da
    Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.

    Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os
    individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de
    instrucção.

    Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto
    d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas
    linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:

    _Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite
    ir extrangeiro principes, e se vae._

    E recebemos a seguinte resposta:

    _Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir
    Collares burros, e não vou._

    Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!

    O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a
    honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o
    detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de
    sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao
    feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos
    nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás
    ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá
    licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á
    vontade, que o bebe por conta do lavrador.

    Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!

    Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse
    major_.

    Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os
    derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,
    para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos
    reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,
    sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos
    dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o
    abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando
    chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.

    Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ... Um chimico,
    senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um
    troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além
    d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos
    que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham
    o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa
    satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á
    avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain
    d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á
    França:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai
    seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!

    E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com
    malicia, terá de acrescentar:

    --_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_

    Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...

    E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que
    ha que ver por esse mundo!

    Um olheiro, de galochas de borracha na vista!

    Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão
    até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o
    seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno
    incognoscivel!

    Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos
    sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
    cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que
    dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida
    nenhuma que vae perfeito!

    E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
    algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,
    quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café
    Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
    responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é
    precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão
    alguma, a do bissulfato de potassa.

    Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
    criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
    consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa
    alteza vae concluir na sua proxima viagem.

    Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
    d'essa educação no seguinte quadro:

    _«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,
    hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
    humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
    historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
    naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
    constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
    disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
    mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

    Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
    para o estudo superior da philosophia do direito.

    Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
    systematica da philosophia.

    Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da
    philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
    interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto
    antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da
    administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
    explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

    Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas
    e analyse de seu systema eleitoral.

    Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo
    sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
    a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte
    Lagueronière.

    Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
    organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
    até a actualidade.

    Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de
    Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
    grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
    pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

    Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
    Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
    d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;
    tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
    commercio d'este mesmo anno.

    Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
    ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua
    alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
    introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
    do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
    especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._

    Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.

    Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do
    direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
    especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
    (1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
    fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,
    como meios economicos.

    Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de
    fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
    applicação á organisação de Portugal.

    Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
    adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
    continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.

    Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem
    podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

    Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»

    É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o
    comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem
    detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em
    frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

    Analysemol-o.

    Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu
    cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda
    a intelligencia.

    Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está
    redigida esta exposição.

    Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza
    rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
    pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou
    pelo estudo aprofundado ... Depois começou os estudos de philosophia ...
    Começou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o
    estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
    não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que
    vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

    Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás
    escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
    fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que
    o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade
    d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
    adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
    politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
    conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por
    objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do
    universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
    categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
    do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
    todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa
    investigação ás seis ordens seguintes:

    1.--Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,
    ou phenomenos _mathematicos_.

    2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas
    distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

    3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
    acustica, ou phenomenos _physicos_.

    4.--Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos
    _chimicos_.

    5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

    6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
    _sociaes_.

    Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de
    dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos
    da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª
    sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

    Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções
    mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.
    Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
    synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina
    scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

    As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
    nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
    fundamentaes.

    Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo
    e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
    Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da
    astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da
    chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
    biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a
    _observação critica_ e a _filiação historica_.

    A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
    Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
    mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas
    grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e
    tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais
    segura das chaves para a coordenação das ideias.

    Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:

    «Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma
    verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
    desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
    homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a
    contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
    progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
    do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não
    sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
    cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
    relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr
    senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
    desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a
    funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar
    primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente
    accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na
    especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é
    tambem no conjuncto.»

    Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
    modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na
    ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A
    genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da
    genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
    Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
    positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos
    conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
    cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis
    biographicas e á vida historica da especie.

    Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
    regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de
    ministrar-lhe.

    _Sua alteza_--diz a informação que analysamos--_começou pelo estudo
    aprofundado da philosophia_.

    Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance
    pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
    tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.

    Principiar pela philosophia!!

    Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
    um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
    dogmatismo dos mestres.

    O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo
    espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos
    phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
    prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino
    do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?

    Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
    instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
    correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
    sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
    abstracção psychologica de fim e de origem?

    O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino
    é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
    particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
    applicação.

    Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o
    conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
    factos particulares?

    Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão
    extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
    sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos
    numeros?...

    É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de
    Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke
    ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o
    scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É
    o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o
    idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de
    Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de
    Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o
    evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?

    A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á
    redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
    esta cruel duvida.

    Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
    é a _philosophia racional e moral_.

    Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
    negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
    _objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo
    que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
    mas que não é d'essas que se trata.

    Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a
    philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
    philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É
    triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa
    que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
    _desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de
    virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

    O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta
    que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo
    superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em
    seguida o estudo do direito natural_.

    Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
    os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até
    os nossos dias.

    Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias
    pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
    annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
    funerario_ e do _Livro dos mortos_.

    Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço
    da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

    Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
    deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas
    indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da
    Syria.

    Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo
    quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a
    respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

    Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,
    Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
    escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
    epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
    materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os
    _Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,
    comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
    desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
    até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um
    anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

    Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas
    investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
    a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros
    sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
    mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
    philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
    como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos
    conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

    O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
    preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a
    reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
    philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
    ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

    Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
    deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

    Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em
    Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
    em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma
    manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se
    conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
    as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
    sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente
    porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque
    seja um ideal innato á natureza do homem.

    O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os
    philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam
    recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos
    processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a
    natureza é immoral e é iniqua.

    A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
    agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o
    estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma
    eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?
    Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e
    expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A
    theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
    sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
    os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»

    Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
    o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
    equitativa distribuição dos bens.

    O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma
    reacção contra essa lei.

    A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a
    protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela
    vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

    Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
    dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em
    conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao
    paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom
    divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

    Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de
    cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
    seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
    está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.

    Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
    vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o
    direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
    grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
    _nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

    Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de
    ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
    antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos
    idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
    no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
    Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

    Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um
    facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,
    no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só
    palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
    das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.

    Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a
    qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
    economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de
    redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
    conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,
    a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
    industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
    transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
    de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
    do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o
    milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é
    o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um
    menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
    fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
    uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
    vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
    todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino
    emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á
    tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que
    ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
    internacionaes,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho
    que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
    kilo da carne ou o litro do azeite!

    Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
    é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção
    intellectual do homem.

    É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de
    vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas
    publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não
    vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
    espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
    companheiros.

    É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da
    mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a
    primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade
    humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
    final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais
    perfeita do individuo á communidade.

    E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
    regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as
    curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
    transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a
    que pertencemos.

    Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
    aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado
    atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
    reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão
    prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a
    responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem
    agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as
    «companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do
    caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
    filhos.

    O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
    vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
    quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
    Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
    si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas
    ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
    lhe respondera:--não. «Senti-me então desfallecer,--diz elle;--todas as
    fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
    de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr
    apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
    força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,
    revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe
    communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração
    palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o
    reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,
    cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
    amantes celebres.

    A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se
    ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o
    não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se
    fazer um homem.

    Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr
    Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,
    abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina
    haurida nos compendios do snr José Garnier.

    Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões
    feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia
    que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver
    opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que
    teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se
    adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel
    conhecer e tratar.

    É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca
    da educação dos seus filhos.

    Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos
    burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.

    O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de
    Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma
    universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,
    filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram
    em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais
    estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,
    irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,
    beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e
    cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em
    Heisterbach.

    O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,
    fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

    O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é
    alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

    O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de
    Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.

    O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é
    egualmente formado em Bonn.

    O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da
    conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um
    curso de economia politica.

    O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em
    Paris, no lyceu Louis-le-Grand.

    Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de
    Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe
    imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros
    são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa
    alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em
    tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão
    cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação
    dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na
    convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á
    desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em
    capacidade, entre os homens eguaes em condição.

    Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na
    Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta
    republica helvetica.

    O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe
    Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas
    publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e
    de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu
    valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam
    finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e
    constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.

    Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,
    conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o
    seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus
    affectos desempregados.

    Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa
    alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:

    _Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir
    dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos
    seus filhos._

    Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante
    intervenção!

    É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do
    encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem
    devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.

    A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos
    quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos
    que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos
    quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.

    As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções
    physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que
    nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como
    nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.

    Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades
    intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o
    d'ella.

    Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de
    que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues
    e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de
    couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta
    verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua
    meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do
    amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas
    cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.

    Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja
    convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas
    faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.

    A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a
    honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique
    para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós
    arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o
    fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.

    O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade
    scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,
    cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada
    das suas azas desdobradas e pendentes.

    E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do
    coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente
    doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das
    amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração
    no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,
    escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou
    sobre a nossa infancia a perola da candura.

    Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou
    já a fructificar.

    Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias
    ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um
    amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.

    Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em
    periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a
    vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu
    peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos
    beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,
    feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo
    Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e
    confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da
    Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial
    mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os
    anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

    Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida
    que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está
    destinada.

    A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão
    acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre
    mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que
    praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que
    delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa
    alguma.

    É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos
    tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com
    tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da
    responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.

    E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a
    universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma
    mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no
    conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa
    alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas
    tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza
    em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.

    Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,
    conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos
    seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que
    cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua
    immobilidade mental ás gerações mortas.

    Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe
    venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,
    antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a
    mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para
    que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe
    servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa
    alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome
    do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da
    Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar
    simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a
    Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.

    Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,
    e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a
    excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos
    Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como
    quem vae preso para o calabouço.

    Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder
    executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que
    assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações
    de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas
    lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza
    saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,
    e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza
    tem por missão deslindal-os.

    Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações
    internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa
    alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é
    substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza
    corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom
    conselheiro.

    Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é
    segundo tenente da armada.

    É summamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira
    das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in
    absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,
    dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e
    litterarias.

    Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito
    doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com
    vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial
    da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.

    Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario
    natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da
    faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e
    progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é
    alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia
    muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado
    em direito.

    Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das
    quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de
    devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente
    eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos
    seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e
    logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar
    significados.

    Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o
    seu proprio capellão ... Vossa alteza é extremamente bom e amavel em
    sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito
    sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não
    é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.

    Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o
    obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar
    livre dentro de uma estufa pôdre.

    Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen
    no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

    Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os
    reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,
    mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente
    á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço
    constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a
    luz.

    Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos
    principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da
    educação de vossa alteza se resume n'isto:

    Que o libertem!

    Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é
    preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos
    bastardos--sem pae e sem padrinho.

    Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos
    homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos
    camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.

    Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:
    o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do
    throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia
    do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada
    uncção como a da santa chrisma.

    Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes
    e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

    Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou
    chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a
    educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se
    atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua
    unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de
    um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por
    aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou
    por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir
    a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como
    official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também
    não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã
    e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no
    governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na
    lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade
    individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como
    o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de
    Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de
    Washington, como o de Lincoln.

    Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua
    vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção
    inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação
    nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na
    Suecia.

    A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa
    resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da
    obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como
    um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr
    Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

    E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição
    isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e
    fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de
    todas as outras lições funestas que lhe teem dado.

    É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma
    vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,
    para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para
    cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia é o systema da
    negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,
    perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser
    um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que
    se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,
    porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.

    Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre
    um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para
    ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de
    um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.

    Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza
    o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,
    inrelligente e honrado.

    Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões
    officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a
    fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente
    aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua unica
    e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.

    Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.

    A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente
    intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a
    humanidade.

    Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a
    educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens
    de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo
    elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos
    paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó
    do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha
    sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que
    affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a
    educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos
    Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais
    veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,
    a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no
    escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento
    singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito
    encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos
    parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e
    de confiança illimitada.

    Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,
    quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle
    mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos
    estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão
    viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do
    violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e
    extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,
    docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia
    que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,
    espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.

    Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por
    meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua
    mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para
    Paris com o seu preceptor.

    Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem
    verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O
    menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus,
    parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de
    um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e
    pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando
    o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em
    dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se
    repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final
    uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um
    perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o
    cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde
    o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do
    cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.
    Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario
    para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma
    mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias
    positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de
    proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no
    conhecimento do occorrido.

    O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne
    n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE
    d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître
    d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por
    um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal,
    deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á
    traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou
    unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e
    implacavel bigode.

    Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não
    enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou,
    fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas
    indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora
    marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido
    miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu
    filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem
    perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer
    parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.

    E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e
    acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um
    theatro que os escripturou como violinos.

    Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica
    que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu
    braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura
    se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam
    juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos
    boulevards.

    Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A
    nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum
    instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que
    exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte,
    e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o
    arnez theologico do seu amavel aio.

    E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem,
    para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa
    no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos
    _gentlemen_.

    Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real
    senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são
    insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.

    Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.

    Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão!
    Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples
    d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter
    uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de
    si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

    Tudo mais é simples detalhe.

    Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho
    de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á
    linha, um cavallo pronto e ligeiro.

    Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e
    _Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps,
    o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante,
    immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas,
    redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

    Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando
    ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés,
    prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.

    Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!

    Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que
    rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para
    a banda! a etiqueta que estoire!

    A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.

    Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?

    Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou
    á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.

    Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da
    Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão
    desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de
    toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade
    sacrosanta de _touriste_.

    Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe
    prestar defesa e homenagem.

    Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a
    coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o
    defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o
    habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de
    noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á
    sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus
    inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia
    Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.

    Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem
    impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto,
    chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

    --Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da
    força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo
    civilisado.

    Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe
    herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que
    se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não
    houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu
    reino.

    A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon
    esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a
    commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer
    coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais
    fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente,
    como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém
    de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um
    antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara
    familia de Nassau.

    Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem
    violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a
    demover jamais de Paris a sua mala grande.

    Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam
    algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as
    convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no
    foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho
    pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

    --O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a
    Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a
    minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.
    Acceite os meus parabens.

    Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:

    --Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já ...

    Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu
    herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz
    na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser
    um _viveur_ morto do que um rei vivo.

    Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um
    _entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o
    Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de
    litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que
    devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

    Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no
    mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista,
    para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o
    snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o
    introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda,
    tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o
    levar ao mundo onde a gente se diverte.

    Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em
    Paris.

    Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas
    suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples!
    Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a
    gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se
    instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo
    em que entra lhe mostrar que não sabe.

    Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da
    manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com
    agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo
    irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de
    Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em
    seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de
    França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de
    Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao
    Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a
    volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five
    o'clock_.

    A' noite--como se não é principe impunemente--as conveniencias exigem a
    toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e
    a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer
    que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os
    prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.

    Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de
    conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena
    theatro.

    Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que
    seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de
    Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o
    snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a
    explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios
    antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!

    De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber
    cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro
    branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a
    um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida
    provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.

    Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro
    tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a
    chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a
    decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a
    ninguem.

    Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio
    social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do
    dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a
    cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

    De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado,
    casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás
    burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o
    abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a
    perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

    Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente
    algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição
    social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam
    por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de
    ficar ao pé d'ellas para toda a vida!

    Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces
    horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se
    d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr
    pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa
    alteza.

    Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres,
    aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento
    excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres
    da categoria a que nos estamos referindo ...

    (O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha
    incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar
    ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a
    _timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)

    A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se
    essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a
    alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de
    coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam
    jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos
    hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de
    Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe,
    os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.

    Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est
    des nôtres!_

    Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa
    alteza elle dissesse outro tanto.

    Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza,
    vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...

    Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!

    Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou
    obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a
    importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam,
    das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus
    similhantes.

    É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao
    ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno
    de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando
    tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico
    ou mais bello.

    Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra,
    impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a
    aspiração immortal do espirito do homem.

    É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.

    É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados
    pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela
    profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo
    sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma
    ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão
    da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset,
    Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura
    do vulgo, e ser um homem.

    Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!

    Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para
    outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção
    technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.

    Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um
    homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem,
    fica sempre um subalterno.

    No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as
    sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis
    mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens
    mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os
    moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza
    unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas
    trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente
    instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere
    como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!

    Portanto, e em conclusão:

    Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na
    sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á
    natureza um sadio e valente animal.

    A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é
    indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes
    deve:--desgostos!

    Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão
    dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr
    Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

    N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de
    vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós
    abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom
    senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma
    subscripção nacional.

    Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas
    que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.
    Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza
    põe em nosso lábio o sello da reserva.

    Faremos fervorosos a subscripção.

    O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e
    tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que
    Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro
    dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as
    revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós
    somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos
    descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe
    perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.

    _Ramalho Ortigão_.

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:05 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
    mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
    Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
    faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,--com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    --Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    --Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    --Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
    lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    --Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    --Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    --Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    --Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
    mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    --Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo.....

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar....

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
    propriamente--uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

    --Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!... amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
    fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
    _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
    dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?..._

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
    se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    --Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?...

    --Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava....

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    --Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?...

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?...

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    --Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
    templo!...

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
    outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:03 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    Aproximadamente 16.983 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 1

    JUNHO A JULHO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
    reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
    mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
    consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A
    arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
    resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de
    Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e
    do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
    para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
    acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
    secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
    Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
    outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
    aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da
    agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
    direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as
    actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
    Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A
    estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do
    cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
    para o outro.

    * * * * *

    Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
    rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro
    milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

    Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
    encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
    ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
    qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
    tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
    arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é
    exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
    sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
    esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
    liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

    Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
    a ideia.

    * * * * *

    Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
    portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
    constitue a nacionalidade de um povo.

    Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...

    Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
    n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
    Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
    amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

    As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
    Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
    d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
    pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

    * * * * *

    Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
    categorias diversas.

    Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
    alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
    esse fim.

    Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
    medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
    terra.

    Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
    qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
    e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
    se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.

    Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
    uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
    individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
    e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
    não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
    senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

    Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
    opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
    bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
    Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
    Baixa.

    Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
    agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
    Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
    do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
    benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
    desprestigiada e choca.

    Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
    dissidencias acrimoniosas de detalhe.

    Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
    Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
    engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
    feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
    desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
    desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
    crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
    commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
    arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
    desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
    á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
    bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

    Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
    cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
    hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

    A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
    tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
    que seja, deram o nome de _eterna essência._

    Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
    vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
    domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
    com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
    pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
    que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
    _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
    continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
    para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
    sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
    lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
    roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
    ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
    d'ella.

    Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
    ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
    desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
    muitas vezes a alliança da familia.

    * * * * *

    Passemos á politica.

    N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.

    Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
    Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
    desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
    modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
    desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
    navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
    condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
    emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
    intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
    davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
    preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
    espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
    desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
    e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
    licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
    mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
    reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
    para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
    Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
    enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
    ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
    joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
    governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
    sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
    sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
    importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
    se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

    Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
    poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
    absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
    representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
    e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

    Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
    d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
    para ahi é que elles não vão.

    Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
    atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
    exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

    São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer
    que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
    transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
    parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
    estéril.

    Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
    ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
    procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
    duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
    ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
    consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
    portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
    principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
    apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
    teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
    calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
    de cabellos tingidos.

    Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
    vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
    fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
    em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
    provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
    especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
    castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
    no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
    toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
    miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
    prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

    É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
    social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
    fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
    produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
    a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
    lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
    bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
    dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
    convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
    separação dos interesses operou a separação das energias.

    É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
    demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
    na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
    de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
    acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
    ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
    phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
    effeito de si proprio.

    Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
    basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
    affirmação em evidencia de facto.

    Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
    questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
    a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
    chama--_a questão da fazenda_.

    Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
    começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
    symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
    governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
    encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás
    desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não
    tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
    pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

    Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
    trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
    immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

    Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
    tem os outros dois!

    A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus
    privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
    e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
    imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
    citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
    anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
    chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
    por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

    Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
    decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
    credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
    calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
    emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
    mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

    Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
    pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
    atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
    interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha
    birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
    negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das
    contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
    emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

    Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
    ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
    traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
    divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
    quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
    alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
    divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
    passou no estado de consolidação para o saco de traz.

    A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
    dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
    vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
    de saco, ella cresce.

    Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
    boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
    collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
    pague.

    No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos
    encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da
    fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
    senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
    ligado aos progressos da industria.

    Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra
    vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
    facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
    qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
    governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga
    dos governados para o despreso convicto dos que governam.

    * * * * *

    Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
    seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
    á protuberancia de cada calo.

    Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e
    da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
    casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
    virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
    mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
    politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
    caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
    ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
    vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
    latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
    todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
    caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
    nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
    podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
    no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
    pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
    santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
    inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
    de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
    amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
    face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

    Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
    no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
    intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
    hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
    diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
    trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
    radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
    diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
    inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
    instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
    cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

    A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
    caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
    por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
    o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
    combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
    tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
    de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
    perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
    entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
    sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
    o interesse.

    Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
    compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
    imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
    aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

    O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
    propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
    transacções entre o homem e o infinito?

    Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
    naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
    determinadas pela constituição do meio.

    Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
    compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
    mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
    inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
    corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
    correlativamente as sympathias dos individuos.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
    fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
    que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

    Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
    para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
    do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
    constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
    liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
    padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
    que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
    banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
    d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o
    _stylo furriel dos batalhões da carta_.

    Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
    antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
    interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
    do publico?

    Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
    grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
    insubmissos e o grupo dos domesticados.

    Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
    laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
    governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
    Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
    pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
    desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
    respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
    depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
    teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
    fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
    simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

    Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
    republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
    para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
    com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
    mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
    luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
    Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
    escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
    combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
    _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
    vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
    andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
    pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
    e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

    Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
    apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
    razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
    paginas de poema, de romance ou d'historia.

    A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
    cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
    ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
    curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
    d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
    com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
    barrigas, todas postiças.

    Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
    que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
    _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

    Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
    vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
    desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
    poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
    marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
    da Baixa.

    Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
    aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
    fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
    tremem-lhes as pernas, e acocoram.

    Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
    profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
    e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

    Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
    monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
    Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
    estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
    Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
    pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
    culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

    Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
    cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
    limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
    perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
    ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
    hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
    nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
    casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
    elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
    vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
    conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
    cynico.

    Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que
    elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
    decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do
    Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
    sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
    retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
    incivis do gado vacum.

    O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
    que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
    regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
    humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

    Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
    obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
    _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
    profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
    de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
    de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
    anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
    escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

    Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
    nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
    profundas as nossas dissidencias estheticas.

    Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
    nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
    artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
    detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
    Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
    rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
    que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
    meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
    do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
    _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._

    Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
    periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez
    ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!

    * * * * *

    De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na
    arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
    sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
    desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
    cohesão da ideia portugueza.

    N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
    só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
    como gotas d'oleo n'um papel passento.

    No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
    um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
    vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
    do repositório.

    De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
    consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

    * * * * *

    Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
    esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
    dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a
    prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
    elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem
    receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
    antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da
    patria não movido de premio vil_.

    Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
    narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
    individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
    dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
    camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
    no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
    eslas linhas.

    Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
    centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
    ainda que immodestamente, o registam.

    Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção
    d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
    para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

    Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
    este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
    desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
    escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
    desprezo dos seus similhantes.

    As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
    Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
    mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
    respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
    carcere.

    Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
    gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
    irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
    mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
    possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
    et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
    marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

    Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza
    de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
    sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
    verdades em evidencia.

    Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
    que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
    a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
    sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
    um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
    um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
    uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
    pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
    beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
    intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
    dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
    estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
    já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
    preciso uma broca.

    As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
    indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
    uma vez participantes no movimento do seu tempo.

    Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
    publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
    durante trez dias com trez noites.

    --É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos
    chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
    nossos reis e nas estalagens.

    A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
    n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
    pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
    reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
    sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
    mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
    todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
    radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
    perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
    socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
    os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
    d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
    uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
    cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
    vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
    cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
    espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
    n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
    proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
    pela gargalhada as mandibulas do publico.

    Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
    governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
    cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
    bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

    Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
    possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
    cohesão social do espirito portuguez.

    Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
    como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
    genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
    portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
    nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
    direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
    poesia eterna.

    A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
    sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
    cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de
    energia e de revivescencia patriotica.

    Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
    verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
    historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
    documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
    dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
    evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
    rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

    Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
    espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
    o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
    soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
    delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
    constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
    cobarde.

    Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
    pbrase:

    _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
    arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
    philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
    historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara
    aguarda as determinações do governo.»

    A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
    nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
    centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
    pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
    massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

    * * * * *

    Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
    parecia poder-se deduzir:

    _Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
    pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
    nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle
    proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
    do muito que já brilhava pela inanidade.

    _Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
    instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

    _Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
    que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
    de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
    assim como a ordem social e a ordem economica.

    * * * * *

    Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:

    _Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando
    d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
    dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

    _Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
    bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
    elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
    de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

    _Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
    associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
    deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
    classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
    situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
    social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
    interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
    alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
    velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e
    fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
    _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

    * * * * *

    Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
    centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
    d'essas soluções?

    * * * * *

    Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
    associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
    escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
    individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
    philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
    Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
    ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
    hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
    dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
    e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
    um _troca-tintas,_ apenas.

    N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
    instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
    analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
    mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
    ventos do seculo.

    Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
    teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
    historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
    porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
    poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
    escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
    Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á
    gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
    cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

    Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
    especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
    intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
    pudicicia de vestal velha.

    Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
    approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
    luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
    geraes.

    Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
    ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

    Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
    paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
    principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
    separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
    sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
    o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
    Melpomone.

    * * * * *

    Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
    havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
    projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
    na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
    das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
    para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
    negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
    muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

    Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
    dentro.--Truz truz truz!

    --Quem é?

    --Está em casa o governo?

    --Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
    ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

    Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
    se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
    explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
    estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
    travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
    não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
    explique as coisas!

    Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
    desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
    celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
    alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
    explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
    Serpa.

    * * * * *

    Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
    congresso das associações confederadas.

    Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
    parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
    á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
    para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
    principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
    reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
    do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
    symptoma culminante e preciossimo.

    Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
    importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
    portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
    canonisado pelo enthusiasmo popular.

    * * * * *

    O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a
    mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

    Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
    que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
    insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
    bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
    os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
    interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
    compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
    os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
    foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
    constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
    dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
    civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
    os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
    geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
    criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na
    sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

    Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
    effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
    maquina politica.

    Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
    toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

    Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
    scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
    liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
    mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
    originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
    resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
    visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
    duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
    depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
    em que principiaria a ser necessaria.»

    Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
    de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
    social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
    empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
    resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
    baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
    mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
    defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
    E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
    sociedades.

    Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
    destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:

    «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
    consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
    Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
    cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
    d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
    porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
    indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
    cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
    promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
    principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
    excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
    sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
    seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
    _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
    thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são
    simplesmente os servos d'aquelles homens.»

    Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
    Spencer.

    Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
    o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
    simples trabalhadores.

    O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
    civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
    calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
    bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
    excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
    pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
    Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
    eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
    Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

    Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
    que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
    apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
    uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
    que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
    representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
    doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
    quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
    Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
    outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
    França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
    muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
    Napoleão.

    O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
    força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
    catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
    memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
    Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
    se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
    produzir trabalho.

    Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
    reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
    d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
    Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
    modesto professor como Adão Smith.

    Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
    anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
    d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
    triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
    cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
    os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
    effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
    carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
    da fauna do mundo moderno.

    Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
    representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
    seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
    governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
    da _Declaração dos direitos do homem_?

    Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
    precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
    solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
    social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
    negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
    acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
    restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
    proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
    cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
    reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
    de trabalho.

    A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
    representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
    revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
    o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
    dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
    o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

    Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
    regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
    ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
    um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
    unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
    numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
    communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
    approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
    lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
    os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
    cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

    Na Europa já não ha d'isso.

    Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
    governantes.

    A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
    religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
    artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
    bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
    celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
    transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
    impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
    segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
    más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
    precederam.

    A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
    seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
    Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
    psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
    tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
    primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
    poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
    O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
    actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
    são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
    familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
    de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
    aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
    aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
    terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
    philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
    Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
    Bernouilli, etc.

    Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
    anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
    creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

    * * * * *

    Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

    Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente
    passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
    rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
    supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
    tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
    detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
    a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
    extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
    dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
    suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
    convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
    agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
    riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
    arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
    contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
    auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
    punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
    principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
    Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
    e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
    estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
    expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
    Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
    Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
    Campomanes e Florida Blanca.

    D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
    Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
    uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
    deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
    carece de originalidade.

    Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
    geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
    reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
    annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
    D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
    sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
    estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
    no governo das monarchias modernas.

    As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
    sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
    d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

    O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
    mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
    reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
    que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._

    Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
    funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
    da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

    Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
    viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
    com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
    nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
    Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
    politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
    o penetraram inteiramente.

    A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
    politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
    salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
    a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
    Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
    desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
    alcovas.

    Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
    ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
    imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
    procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
    similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
    ministro na côrte de Lisboa.

    Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
    caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
    cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
    suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
    estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
    academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
    programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
    no seu paiz.

    Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
    politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
    Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
    as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
    ministrado.

    O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
    unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
    conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
    o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
    cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

    Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
    _tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
    Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
    e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
    tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
    transfere para os membros das academias e das universidades a censura
    até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
    direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
    funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
    finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
    tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
    annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
    aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
    direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

    Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
    Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
    systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
    resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
    V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
    Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
    boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
    estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
    hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
    não paga um _sou_.

    Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
    extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
    bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
    vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»

    A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
    que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
    baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
    mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
    individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
    bens, nem crenças, nem opiniões.

    O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
    obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
    roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
    serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
    troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
    principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
    privilegiada.

    Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
    superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
    uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
    todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
    na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
    riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
    poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
    abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
    o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
    direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
    productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
    salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
    desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
    produzem e aquelles que consommem.

    Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
    pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
    ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
    prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de
    Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
    atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
    depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
    importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
    suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
    liberdade.

    O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
    reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
    seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
    social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
    como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
    de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
    disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
    uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
    irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
    cidade.

    O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
    qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
    da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
    renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
    franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
    consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
    de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
    completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
    funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
    medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
    reclame.

    Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
    collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
    possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
    grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
    quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
    Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
    promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
    n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»

    Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o
    publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
    julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
    como se faz aos pudins.

    Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
    pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
    pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
    caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
    pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
    directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
    José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
    oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
    durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
    mundo civilisado.

    A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
    confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
    sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
    derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
    pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
    da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
    perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
    No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
    violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
    exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
    ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
    symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
    sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
    sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
    sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
    tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
    toda a área da ordem social.

    De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
    os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
    capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
    philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
    philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
    linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
    temperamento e a paixão.

    Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
    taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,--o arroz, o vinho, a
    manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
    particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
    a philosophia, a historia, a moral e a canella.

    A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
    duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
    praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
    vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
    pensar, de cebo para resistir.

    Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
    systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
    do principe e escarmento dos subditos.

    Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
    omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
    traição.

    O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
    Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
    historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
    critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
    reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

    Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
    a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
    é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
    e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
    que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
    assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
    titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
    luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
    e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
    no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
    convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
    Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
    duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
    perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
    morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
    de pé descalço.

    Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!

    Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
    janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
    immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
    d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
    tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
    assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
    familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
    dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
    brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
    pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
    e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
    cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
    pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
    que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
    mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
    desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
    amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
    um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
    meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
    um laço de fita.

    E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
    aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
    plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
    acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
    participado na aggressão ao principe.

    Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
    Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
    José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
    despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
    morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
    miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
    direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
    com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
    destruir.

    É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
    democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.

    Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
    egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
    o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
    liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
    escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
    completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
    isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
    cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
    No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
    ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
    de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
    aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
    e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
    Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
    formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
    como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
    commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
    Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
    Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
    peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
    Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
    foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
    assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
    dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
    vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
    a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
    alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
    incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
    n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
    espavoridos e cegos.

    Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
    nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
    especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
    Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
    perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
    nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
    palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
    cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
    Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
    coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
    provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
    força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
    o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
    Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
    amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
    d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
    unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
    por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
    intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
    o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
    estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
    Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
    Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.

    A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
    em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
    em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
    seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
    um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
    mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
    zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.

    Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
    militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
    equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
    suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
    Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.

    Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
    cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
    progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.

    A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
    nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
    resultado de um equivoco.

    Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
    ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
    de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
    desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
    discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
    immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
    principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
    elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
    consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
    politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
    o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
    pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
    minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
    fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
    por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.

    Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
    marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
    a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
    fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
    principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
    debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
    mesmos principios.

    Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
    tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
    mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
    considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
    revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
    abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
    destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
    retardar a queda_.

    A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
    progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
    Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
    retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
    tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
    artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
    fabrico.

    A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
    influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
    tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
    marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
    vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
    atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
    que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
    sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.

    Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
    na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
    mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
    espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
    do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
    cabeça.

    Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
    secularisado todo o seu programma de poder.

    Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
    ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
    acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
    Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
    peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
    Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
    theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
    _Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.

    Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
    principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
    quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
    de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
    elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
    lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.

    A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
    formas de jesuitismo applicado ao ensino.

    A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
    Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
    obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
    do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
    seus alumnos nos domingos e festas de guarda.

    Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
    legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
    casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
    propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
    regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
    especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
    cepa torta da intelligencia.

    Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
    phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
    experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.

    O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
    essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
    atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
    communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
    pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
    artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
    cada anno lectivo.

    Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
    maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
    menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
    livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
    coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
    ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
    maior será a confusão do seu cerebro.

    A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
    bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
    derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
    explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
    dogmatico ou metaphysico.

    A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
    ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
    o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
    dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.

    Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
    doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
    politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
    coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
    ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
    no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
    do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
    resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
    seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.

    Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
    jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
    secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
    civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
    desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.

    O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
    durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
    intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
    pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
    quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
    vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
    firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
    erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
    na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
    quadrado,--com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

    N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
    outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
    chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

    Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
    e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
    pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
    por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
    trambolho de chumbo que os afunde.

    As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
    n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

    O historiador snr Henri Marlin pergunta:

    «O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
    realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
    responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
    espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
    natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
    da verdade.»

    O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
    por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
    pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
    accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
    a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
    egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.

    A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
    offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
    incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
    dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

    Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
    sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
    Carvalho--feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
    cacete e uma espessura de baluarte--fez de Portugal á força de leis e de
    sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
    paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

    Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
    dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.

    O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
    dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
    casca.

    Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
    mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
    o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
    e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
    da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
    novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
    Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
    toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
    batina e a ovos molles.

    O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
    generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
    submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
    escorraçava-o e perseguia-o,--que é sempre assim que os reis pagam aos
    plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
    de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
    a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
    me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
    Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
    da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»

    O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
    qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
    produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme--a obediencia
    geral.

    Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
    liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
    obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
    obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.

    Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
    encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
    momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
    justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
    insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
    procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
    este personagem sem ideias nenhumas.

    Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
    contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece
    demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos
    contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
    José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
    estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
    explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
    que nos governou o marquez de Pombal.

    Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
    povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
    equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
    cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
    constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
    anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
    ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
    do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
    doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
    alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
    Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
    pacto constitucional.

    Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
    altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
    que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
    sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
    pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._

    A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
    coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
    _creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
    _liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
    commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

    Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
    excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
    Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
    acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
    de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
    governos como o de Pombal lhe opposeram.

    Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
    prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
    differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
    não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
    seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
    mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

    A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
    que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
    para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
    do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
    moral da humanidade.

    Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
    acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
    foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
    forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
    Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
    d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
    a salvação do povo_.

    A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
    envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
    teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
    consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
    Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
    celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
    que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
    deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
    postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
    que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
    que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
    degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
    desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
    o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
    organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
    ingenita.

    * * * * *

    Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
    e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
    preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
    vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
    Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
    terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
    que é necessario que a gente se colloque.

    Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
    em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
    tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
    vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
    seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
    com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
    sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

    Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
    centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
    fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
    senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
    mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
    charlatanismo dos seus tyrannos.

    O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
    peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
    honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
    abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
    merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
    amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
    deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
    dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
    exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
    ainda de talento que de pudor.

    Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
    se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
    Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
    cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
    animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
    n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
    uma charrua.

    Lisboa 10 de junho de 1882.

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:01 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)

    Aproximadamente 16.638 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
    de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
    caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
    gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
    Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
    raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
    mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
    pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
    não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
    ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
    criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
    personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
    ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
    Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
    os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
    da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
    carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
    educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
    covardia, instituição publica, etc.

    Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
    pertencendo a duas classes distinctas:

    1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;

    2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
    Estados.

    Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
    absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
    isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
    intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
    organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
    convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
    os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
    civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
    ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
    communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

    Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
    periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
    toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
    tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
    nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
    regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
    vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
    collectivo.

    * * * * *

    A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
    demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

    Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
    repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
    punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
    distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
    feridos pela perpetração do delicto.

    É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
    unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
    commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
    interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
    ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
    pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
    arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
    conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
    vingança.

    Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
    forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
    muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
    politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
    crimes, são verdadeiros erros!»

    Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
    pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
    sancções penaes.

    * * * * *

    Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
    Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

    No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
    crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
    meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
    tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

    Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
    attentados e despedindo os reos em paz!

    No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
    falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
    recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
    oito annos de degredo para a costa ds Africa!

    O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
    sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.

    O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
    sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

    * * * * *

    Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
    co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
    o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
    iniquiedade monstruosa.

    O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
    oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
    regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
    do serviço militar.

    O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
    Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
    intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
    Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
    crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
    da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
    facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
    interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
    as sociedades teem em que deixe de haver militares.

    * * * * *

    O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
    punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
    estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
    analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
    civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
    militarismo e da guerra.

    Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
    punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
    ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

    Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
    vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
    mortos.

    Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
    todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

    Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
    substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
    alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
    convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
    instrumentos da perpetuidade da raça.

    * * * * *

    Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
    os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
    unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.

    * * * * *

    Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
    primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
    gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
    gymnastica tinha um caracter immoral.

    S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
    do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
    pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
    e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
    comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
    ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
    dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
    obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
    que medeia entre o tapete e o lustre.

    Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
    directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
    da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
    ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
    mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

    * * * * *

    Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
    orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
    nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
    dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
    mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
    escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
    racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
    chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
    correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
    s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.

    * * * * *

    O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
    gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
    mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
    frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
    conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
    acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
    sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
    à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
    depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
    dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
    procere um tão ligitimo horror.

    * * * * *

    A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
    perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
    organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
    mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
    todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
    manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
    exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

    Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
    hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
    sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

    Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
    phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
    loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
    mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
    apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
    que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
    revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
    para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
    actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
    todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
    cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
    circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
    alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
    Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
    de cura de alienados pela transfusão hypodermica.

    Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
    regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
    central, é a gymnastica.

    O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
    em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»

    * * * * *

    Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
    indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
    apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
    frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
    diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
    segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
    para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
    doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
    gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
    observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
    effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
    densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
    exercicio.

    * * * * *

    Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
    Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
    gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
    a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
    doutor Burq.

    * * * * *

    A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
    densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
    exercicios gymnasticos.

    * * * * *

    A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
    desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
    tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
    respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
    directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
    modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
    organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
    hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.

    * * * * *

    Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
    que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
    constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
    doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
    exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
    jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
    methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
    equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.

    * * * * *

    Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
    favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
    senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
    mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
    assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
    constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
    ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
    de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
    nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
    gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
    obesidade e contra a idiotismo.

    * * * * *

    Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
    sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
    previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
    gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
    duas casas do parlamento.

    Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
    exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
    para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
    todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
    quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
    ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
    introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
    n'aquellas em que a gymnastica não existe.

    Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
    esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
    artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
    em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
    gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.

    O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
    obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
    que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
    presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
    mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
    pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
    felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
    nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
    d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
    erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
    desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
    seguintes movimentos:

    Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
    vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
    sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
    (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
    fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
    reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
    meditar sobre a felicidade da patria.

    No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
    perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
    mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
    não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
    reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
    sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
    indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
    seguintes:

    Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
    tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
    (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
    limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
    quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
    Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
    continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

    * * * * *

    Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
    n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
    gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
    Velar-lhe a face!

    * * * * *

    A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
    cego já vê, a paralytica já anda_.

    * * * * *

    Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
    nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
    esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
    cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
    foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
    que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
    reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
    os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
    obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

    A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
    collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
    restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
    indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
    lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
    locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
    auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
    resultados obtidos pela romagem.

    Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
    na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
    agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
    vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!

    Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
    enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
    que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
    locomotores com agua das latas?!

    E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
    para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
    chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
    largo de S. Roque?

    E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
    _andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
    trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
    correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
    maior do que as que levou!

    Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
    lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
    milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
    opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
    sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
    que visse tambem por outros membros.

    Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
    a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
    olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
    pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
    baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
    com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
    romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
    louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
    vemos que a paralytica nos sae pedrez!»

    Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
    ordem, porque os ha muitos maiores.

    * * * * *

    Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
    coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.

    O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
    das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
    balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
    duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
    demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
    pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
    Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
    exemplos.

    Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
    dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
    das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
    emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
    estado do satisfação ineffavel.

    O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
    escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
    os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
    illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
    essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

    No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
    das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
    o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
    citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)

    Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
    regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
    acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
    20.)

    Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
    consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
    obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
    pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
    o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
    resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)

    Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
    escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

    O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
    escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
    diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
    pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
    arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
    de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
    escapularios!

    As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
    IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

    O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
    para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
    perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
    arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
    facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
    por um oculo!

    O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
    nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
    da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
    prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
    Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
    voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
    dito padre Guglielmi.

    De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
    é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
    precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
    seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
    seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
    oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
    virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
    cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
    algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
    patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
    sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!

    Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
    d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
    para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
    alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
    debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
    fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
    de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
    unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?

    Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
    ... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
    esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
    Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!

    Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
    habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!

    Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
    proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...

    Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
    jornal! Cruzes, demonio!

    * * * * *

    Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
    de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
    termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
    satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
    fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
    todos?

    * * * * *

    Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
    esta--o _fadista_.

    Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
    constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
    dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
    feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
    fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
    toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
    beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
    frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
    com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
    nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
    os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
    os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
    adormecidos.

    Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
    capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
    do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
    interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
    em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
    conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
    divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
    navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
    mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
    um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
    seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
    sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
    despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
    fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
    que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
    que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
    uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
    tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
    com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
    combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
    biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
    antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
    espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
    vadiice, e tomou então o nome de--fadista.

    O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
    accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
    seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
    elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
    successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
    esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
    noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
    um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
    frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
    mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
    enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
    de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
    guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
    grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
    molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
    constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
    um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
    Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
    obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
    agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
    Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
    bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
    guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
    qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
    XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
    fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
    Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
    onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
    composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
    camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
    da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
    e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
    taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
    alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
    que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
    Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
    jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
    pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
    lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
    mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
    fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
    de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
    prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
    pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
    pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
    guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
    desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
    pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
    outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
    imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
    perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
    reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
    mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
    esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
    que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
    á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
    da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
    miseravel.

    De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
    meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
    na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
    o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
    convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
    especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
    restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
    todos os machos.

    * * * * *

    É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
    incorrigiveis da criminalidade.

    A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
    recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
    inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
    em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
    verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
    nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
    ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
    sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
    mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
    immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
    tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
    cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
    a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
    conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
    confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
    não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
    inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
    grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
    senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
    presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
    conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
    expediente seria a morte.

    É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:

    É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
    criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
    incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
    repetidos?

    A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:

    É.

    N'este caso pergunta-se:

    Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
    continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
    uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
    os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
    justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?

    Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
    que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
    irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
    sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
    abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
    manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

    Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
    sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
    inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
    instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

    Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
    supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
    Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
    trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
    cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

    * * * * *

    O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
    o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
    policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
    rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
    contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
    photographia no commisariado geral.

    Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
    de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
    aos fadistas.

    * * * * *

    Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
    do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
    contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
    esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
    açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
    viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
    lombares das musas.

    Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
    poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
    ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!

    * * * * *

    Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
    para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.

    O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
    encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
    annos.

    Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
    duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
    pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
    enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
    inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
    pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
    lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
    fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
    e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
    outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
    que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
    de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
    dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
    Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
    spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
    publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
    agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
    _Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
    Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
    concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
    ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
    da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
    _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
    agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
    finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
    De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
    encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
    insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
    era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
    fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
    e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
    poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
    costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
    Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
    achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
    chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
    retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
    as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
    choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
    seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
    tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
    servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
    estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
    Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
    altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
    mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
    poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
    conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
    Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
    Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
    entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
    condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
    ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
    porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
    exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
    suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

    Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
    communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
    Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
    com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
    ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
    onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.

    * * * * *

    Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
    vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
    que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
    engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
    pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
    se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
    ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
    superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
    nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
    presente.

    * * * * *

    _O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
    artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
    obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
    o que pertence aos dominios da pathologia social.

    * * * * *

    Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
    burguezes.

    O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
    burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
    mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
    No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
    apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
    ver porquê.

    Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
    desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
    representação da vida exterior e o systema da vida intima.

    Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
    do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
    religião--a familia!

    Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
    baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
    asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
    a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
    graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
    com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
    galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
    pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
    edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
    Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
    predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
    de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
    modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
    primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
    moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
    systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
    branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
    cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
    cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
    frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
    outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
    elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
    nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
    do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
    todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
    luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
    activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

    As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
    parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
    verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
    com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
    das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
    rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
    queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.

    É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
    _Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.

    Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
    recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:

    «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
    não ha creanças.»

    Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
    bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
    balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
    desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
    musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
    musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
    ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
    largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
    effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
    encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
    sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
    preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
    com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
    seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
    fresco.

    Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
    frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
    creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
    proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
    intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
    rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
    instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
    menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
    indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
    houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
    para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
    quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
    instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
    infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
    e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
    flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
    jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
    Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
    da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
    aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
    ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
    appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
    linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
    diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
    funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
    suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
    jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
    Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
    não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
    Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

    Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
    completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
    phenomenos.

    Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
    assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
    nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
    das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
    actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
    moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
    gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
    essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
    retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
    casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
    que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
    possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
    onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
    respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
    borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

    Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
    a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
    elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
    no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
    de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
    preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
    do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
    orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
    couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
    desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
    ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
    bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
    e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
    Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
    _coupés_ magnificos da piedade escolhida.

    Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
    seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
    Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
    arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
    tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
    desdem.

    Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
    theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
    contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
    dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
    theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
    resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
    sociedades corruptas:--o socego.

    Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
    ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
    os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
    região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
    do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
    raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
    da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
    um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
    cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
    medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
    cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
    alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
    aguadeiro, ralhando com o marido.

    Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
    domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
    quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
    infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
    cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
    caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
    inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
    arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
    retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
    de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
    meio dos cortinados.

    Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
    decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
    similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
    Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
    nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
    á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
    mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
    se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
    a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
    que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
    que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
    ou do luxo que não usa.

    Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
    romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
    lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
    tornar encantadora a familia.

    Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
    predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
    da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
    Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
    serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
    perfeita educação.

    Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
    superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
    processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
    simplicidade tragica.

    O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
    dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
    apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
    pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
    penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
    uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
    espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
    exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
    alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
    seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
    aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
    jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
    se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
    desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
    segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
    mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
    _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

    Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
    refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
    tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
    França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
    essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
    um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
    obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
    _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
    suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
    seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
    caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
    ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
    espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
    do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
    nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
    gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
    suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
    encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
    attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
    Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
    cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
    saberá negar.

    * * * * *

    Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
    medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
    Bazilio_, romance realista.

    Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
    esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
    senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
    espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
    supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
    1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
    cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
    de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
    gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
    da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
    da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
    Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
    atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
    phylanthropos.

    A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
    sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
    pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
    Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
    pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
    convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
    problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
    mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
    leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
    que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
    phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
    integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
    prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

    N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
    que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
    dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
    em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
    zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
    dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
    trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
    mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
    risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
    e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
    caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
    sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
    verba_.

    Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
    se tirou a designação _realismo_.

    Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
    é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
    numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
    simplesmente lyrica.

    O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
    facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
    do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
    uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
    Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
    dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
    que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
    afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
    negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
    morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
    cartas.

    A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
    queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.

    Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
    comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
    mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
    estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
    sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
    philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
    hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
    critica dos costumes, na propria critica da arte.

    Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
    vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
    dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
    _Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
    modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
    as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
    burgueza.

    De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
    contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
    rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
    insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
    companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
    filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
    apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:

    «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
    uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
    honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
    ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
    minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
    fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
    problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
    com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
    romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
    alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
    elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
    asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
    meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
    pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
    em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
    elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
    proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
    pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
    um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
    convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
    concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
    influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
    amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
    em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
    compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
    demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
    reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
    fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
    maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
    applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
    finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
    como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
    these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
    da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»

    Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
    compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
    teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
    artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
    funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
    gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
    religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
    como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
    indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
    se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
    e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
    ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
    a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.

    Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
    _Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
    uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
    gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
    seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
    observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
    biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
    que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
    divina revelação de um novo mundo.

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
    Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

    «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
    de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
    desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
    exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
    Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
    _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._

    Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
    historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
    montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
    carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
    de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
    a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
    que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
    Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
    cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
    Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
    Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
    Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
    Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
    da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?

    Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
    tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
    sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
    quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
    dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
    dizeres?

    Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

    Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
    effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
    convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
    suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
    jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
    phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
    abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
    os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
    que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
    patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!

    * * * * *

    Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
    ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
    seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
    especial:

    1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

    2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
    viajante.

    3.º Não ter dado pateada a um lente.

    4.º Parecer constrangido a dar lição.

    5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

    * * * * *

    Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
    appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
    expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.

    Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
    necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
    teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
    universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
    mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
    legislador mediocre.

    * * * * *

    Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
    aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
    absolvidos pelos tribunaes civis.

    N'esta conjunctura perguntamos:

    É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
    de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
    uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
    julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
    uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
    tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
    contrarias?

    Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
    especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?

    Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
    trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

    Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
    sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

    Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
    quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
    não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

    Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
    d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
    covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
    que ainda possa haver na mocidade portugueza.

    Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
    physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
    com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
    corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
    especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.

    * * * * *

    Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
    sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
    systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
    honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
    força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

    Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
    cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
    sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
    côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
    atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
    naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
    velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
    proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
    escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

    * * * * *

    No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
    Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
    seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
    Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
    para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
    Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
    presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
    seguintes:

    «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
    das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
    livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
    fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
    perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
    abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
    exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
    assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
    medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
    desconheceriamos o dever.

    «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
    conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
    _Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
    ethica da regeição dos dogmas.

    «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
    christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
    senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.

    «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
    espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
    varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
    muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
    produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
    frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
    procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
    insufficiente para nivelar.

    «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
    homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
    e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
    moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
    d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.

    «Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
    aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
    comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
    em si um caracter offensivo.

    «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
    sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
    eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
    cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
    atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
    morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
    celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
    zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
    emprego dos seus ultimos momentos.»

    Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
    é christão, o outro não.

    O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
    religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
    perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
    dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
    peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
    comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
    delicada flor da cavalleria.

    O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
    theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
    agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
    Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
    caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
    é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
    verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»

    * * * * *

    Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
    verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
    de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
    exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
    intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
    moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
    para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
    presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
    em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
    necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
    fundamental da conciliação das consciencias!

    * * * * *

    Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
    mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
    Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
    determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
    tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
    escravisados pelos poderes clericaes.

    Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
    aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
    crescem. Crescem em virtude de que lei?

    Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
    respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
    noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
    fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
    embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
    ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
    operario acrescenta:

    «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
    desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
    de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
    crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
    Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
    amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
    dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
    as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
    coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
    vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
    para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
    Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

    «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
    sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
    Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
    certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
    deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
    sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
    gerações.

    «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
    tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
    legislação humana e a moral universal.»

    * * * * *

    Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
    do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
    principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
    Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
    convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
    perigosas e banidas das discussões publicas.

    Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
    que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
    garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
    das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
    evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
    principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
    reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
    de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
    methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
    que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
    de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
    como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
    os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
    esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

    Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.

    Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
    mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
    nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

    Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
    manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
    cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
    todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
    vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
    morto.

    Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
    expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
    physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
    facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
    theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
    a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
    tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
    resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
    publicos.

    Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
    professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
    vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
    que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
    d'ella:--por falta de inspecção e de policia.

    Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
    solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
    não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
    intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
    armam.

    Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
    dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!

    Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
    mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

    «_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
    _Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
    instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
    de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
    para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
    Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
    Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
    tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
    proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
    e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
    mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
    maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
    portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
    isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
    d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
    religiosa.»_

    A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
    prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
    estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
    quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
    não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
    deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
    ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
    portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
    foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

    Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
    quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
    compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

    D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
    litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
    Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
    para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
    vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
    artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
    Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
    portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
    em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
    vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

    Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
    bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
    Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
    partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
    mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
    Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
    ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
    navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
    mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
    sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
    senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
    Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
    hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
    nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
    onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
    feitos na rua dos Correeiros.

    Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
    Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
    Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
    exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
    Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
    escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
    de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
    mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
    hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
    apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
    official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
    que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
    secretaria.

    No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
    instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
    propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
    dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
    soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
    confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
    Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
    de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
    fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
    tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
    mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
    litteratura de uma nação.

    A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
    instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
    prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
    accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
    instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
    seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
    mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
    discutindo:

    _O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
    ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
    á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
    artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
    tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
    podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
    professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

    Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
    proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
    respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
    tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
    instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
    de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
    religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
    profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
    dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
    entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
    reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
    e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
    que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
    desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
    aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
    sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
    interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
    Maior para lh'o provar.

    Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
    universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
    que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
    é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
    o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
    ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
    formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
    A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
    heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
    emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
    responda pelo erro.

    Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
    a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
    em uma instituição do Estado.

    Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
    lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
    disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
    apagou-lhe a lanterna.

    Quem foi que deixou no mundo esta lição?

    Foi o theologo.

    Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
    legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
    de Rio Maior.

    * * * * *

    Notemos porém um facto consolador:

    O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
    sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
    de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
    cerebro é uma idéa que se extingue.

    Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
    para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
    do professor e o processo pelos tribunaes civis.

    Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!

    Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
    negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
    fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
    pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
    argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
    as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
    tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
    amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
    leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
    pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
    tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
    methodos porque se mortificam os impetos da carne.

    Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
    os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
    a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

    Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
    negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
    cartilha de Padre Mestre Ignacio.

    E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
    uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
    instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
    sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
    portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
    ensino publico de uma nação!

    * * * * *

    Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
    aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:

    _Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_

    O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
    instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
    oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
    _Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:26:59 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

    Aproximadamente 17.486 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
    Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
    d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
    fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
    litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos
    sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
    A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
    cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
    Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
    civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
    situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
    partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.

    No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
    pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
    Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
    Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.

    Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
    imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
    sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
    grande alma do povo.

    Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
    profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
    descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
    póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
    microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
    da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
    que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
    suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
    Ville a Republica de 48.

    Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
    physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
    socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
    economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
    profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
    das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
    instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
    judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
    caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
    favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
    todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
    diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
    os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
    estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
    dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
    isolamento austero da independencia o do sacrificio.

    Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
    e do Bernardo Palissy.

    A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
    resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
    do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
    homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.

    Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
    academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
    rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
    que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
    em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
    phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
    cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
    todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»

    [Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
    cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
    desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
    crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]

    É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
    egualmente o braço constantemente pronto para resistir.

    Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
    mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
    carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
    theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
    verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
    dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
    condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
    liberdade de pensamento!

    O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
    trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
    força do trabalho; Littré, a força da philosophia.

    D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
    fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
    são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
    exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
    nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
    as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
    raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
    mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
    jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
    tem partido.

    Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
    coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
    sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
    calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
    similhantes!

    Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
    repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
    deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
    consciencia e pela verdade!

    * * * * *

    Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
    idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
    instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
    derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
    pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
    empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
    para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
    symbolo ultrajante para a dignidade humana.

    A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
    palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
    olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
    principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
    artista.

    Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
    soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
    puerilmente que se deve ser

    _Fier d'être français
    Quand on regarde la colonne!_

    Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
    comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
    obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
    distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
    Grande!!_

    Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
    republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
    municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
    estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
    que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
    dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
    das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
    aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
    nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
    direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
    cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.

    A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
    um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
    da geração actual o sol de Austerlitz.

    Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
    que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
    ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
    pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
    remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
    maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
    será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
    que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
    pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.

    * * * * *

    Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
    de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
    espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
    elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
    terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
    realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
    alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
    fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
    dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
    mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
    atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
    altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
    encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
    Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
    attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
    contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
    Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.

    Feliz homem!

    * * * * *

    A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
    representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
    notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
    pensadores.

    Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
    annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
    organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
    novo elemento social--o povo.

    José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
    poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
    synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
    decide da sorte dos imperios.

    Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
    celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
    procedera da roda dos expostos.

    Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
    trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
    da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
    azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
    fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
    senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
    que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
    reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
    inimigos.»

    * * * * *

    Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
    consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
    amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
    natureza essencialmente desgraçada.

    Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
    em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
    collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
    nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
    melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
    nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
    jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
    texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
    portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
    tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
    incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
    consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
    direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
    da lingua.

    Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
    generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
    funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
    motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
    instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
    concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
    estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
    repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
    aggravada por uma falsa educação.

    Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
    de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
    caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
    infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
    sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
    da sua inquieta o attribulada existencia.

    A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
    O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
    conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
    dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
    vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
    precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
    para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
    crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
    palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
    vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
    virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
    para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
    no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
    social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás
    mulheres nervosas.

    Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
    suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
    sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
    pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
    Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
    lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
    sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
    de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
    caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
    physicas.

    Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
    obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
    andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
    camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
    Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
    quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
    tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
    philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
    preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
    nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
    assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
    imperfeitamente orientado.

    Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
    da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
    alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
    estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
    ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
    nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
    canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
    descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
    outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
    clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
    bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
    aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
    negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
    voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
    maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
    estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
    sitio amado, uma velha canção querida.

    Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
    que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
    sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
    sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.

    Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
    dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
    aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
    parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
    madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
    biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
    Inutilmente. Elle estava morto.

    Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
    Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
    acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
    traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
    o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
    O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
    e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
    illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
    qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
    quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
    maledicencia.

    * * * * *

    Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_
    o folhetim seguinte:

    _Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de
    ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das
    mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
    estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
    caldo_.

    Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
    deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
    Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
    de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
    paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
    ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
    por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
    tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
    que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
    nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
    responsabilidade.

    Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
    contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
    escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
    espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
    que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
    caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
    depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
    substancia.

    Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
    sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
    esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
    deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
    vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.

    Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
    faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
    proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
    sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
    classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
    nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
    agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
    idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
    comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
    portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
    Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
    á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
    lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
    nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
    heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
    incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
    todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
    supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
    os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
    terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
    preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
    rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.

    A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
    homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles
    teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
    quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
    consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
    todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
    portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
    das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
    brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
    de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
    chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
    educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.

    Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
    passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
    chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
    lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
    familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
    braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
    crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
    seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
    gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
    pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.

    O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
    a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
    collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
    frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
    boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
    recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.

    Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
    todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
    se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
    fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
    viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
    differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
    mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
    considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
    suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
    falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

    Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
    as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
    sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
    a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
    convicção.

    Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
    profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
    lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
    seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
    sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
    horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
    energicos e audaciosos.

    Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
    n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
    que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
    sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o
    chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
    tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
    e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.

    Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
    alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
    vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
    casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.

    Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
    forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
    exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
    guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
    maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
    realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

    A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
    mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
    necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
    reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
    conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
    respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
    da esposa.

    Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
    inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.

    Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
    physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos
    ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
    isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
    acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
    reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
    mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
    encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

    Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
    como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
    civilizadas da Europa.

    Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
    irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
    intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
    sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
    de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
    que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
    circos o trabalho de fazer rir o publico.

    Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
    esse importantissimo.

    Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
    sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
    seus.

    Sua

    _Irmã de Caridade_

    * * * * *

    Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
    effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
    é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
    já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
    retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
    espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
    acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
    phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
    lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
    apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
    prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
    queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

    Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
    processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
    mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
    não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
    mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

    O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
    imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
    philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
    temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
    os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
    Revêde-vos na vossa obra.

    Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
    de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
    recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
    _cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

    Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
    raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
    intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
    encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
    vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
    presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
    racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
    de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
    Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
    mesmo pelo que lhe ensinastes.

    * * * * *

    Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
    interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

    O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?

    As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em
    artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
    constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
    reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
    criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
    violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
    dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
    flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
    indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
    dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
    e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
    pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
    negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
    aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
    ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
    collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
    indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
    ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
    superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
    palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
    amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
    filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
    cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
    dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
    presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
    systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é
    claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
    das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
    mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
    suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

    Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
    uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
    o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
    portuguezas:

    «Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
    trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»

    Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
    Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
    senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente
    formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
    considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
    Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
    qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
    tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
    nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
    da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
    mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
    talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
    lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
    entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
    cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
    recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
    qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
    lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
    seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

    Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
    e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
    deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
    Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

    Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
    compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
    chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
    effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
    sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
    é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
    estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
    excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
    nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
    da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
    mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
    pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
    força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
    sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
    caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
    eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
    pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
    pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
    substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
    alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
    sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
    srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
    Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
    excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
    tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
    um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
    seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

    A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
    assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
    nos adversarios senão admiração e respeito.

    É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
    dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
    seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
    hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
    muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
    individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
    analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
    dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
    pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
    nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
    campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
    alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
    pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
    operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
    qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
    por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
    nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
    historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
    simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
    tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
    cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
    nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
    nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
    melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
    dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
    economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
    philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
    de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
    resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
    quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
    illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
    similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
    empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

    Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
    de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
    supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
    respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
    Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
    travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
    uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
    vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.

    Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
    reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
    affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
    perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
    imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
    vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
    mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
    offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
    Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
    virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
    enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!

    Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
    meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
    licores para os botequins?

    As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
    ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
    agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
    unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
    poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
    idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
    vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
    lá buscar.

    * * * * *

    Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
    segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
    Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
    d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
    encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
    arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
    para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
    pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
    da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
    pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
    conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
    trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
    conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
    a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_

    Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
    excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
    bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
    _abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)

    O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
    promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
    algemas!

    Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
    excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
    jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
    constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
    poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.

    * * * * *

    O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
    robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
    licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:

    Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
    linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
    Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
    homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
    a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
    excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
    me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
    que não tomei ease chá.

    Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
    courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
    mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
    para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal,
    que eu ingeria em grandes dozes.

    A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
    não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
    tinha pia.

    A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
    grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
    primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
    terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
    dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
    instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
    Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
    casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
    economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
    piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
    fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
    desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
    cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
    dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
    esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
    modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo
    defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
    perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
    cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
    onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
    agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
    masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
    fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
    em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
    com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
    efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
    do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
    escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
    sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.

    Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
    suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
    honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
    contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
    familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
    braças de solo cobertas por esse velho tecto.

    A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
    os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
    poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
    fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
    havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
    modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
    educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
    saudade eterna dos seus netos.

    A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
    minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
    que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
    robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
    nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
    das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
    vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
    folhetins dos periodicos.

    * * * * *

    Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
    escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
    Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
    chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.

    * * * * *

    Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
    telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.

    Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
    que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!

    Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
    Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
    Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
    Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
    arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.

    A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
    as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
    a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.

    Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
    accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
    parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.

    Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
    coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
    conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.

    Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
    O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
    verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
    vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
    sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
    chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
    trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.

    Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
    incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
    contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
    faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
    ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
    hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
    ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
    remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
    sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
    presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
    instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
    tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
    cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_

    E a posteridade nos abençoará.

    * * * * *

    Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
    hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
    politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
    manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
    uns aos outros:

    --Não viram por ahi a hydra?

    Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
    entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
    Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
    dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
    imperfeito do verbo Mexer.

    * * * * *

    N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
    presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
    hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
    suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
    de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.

    Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
    salvar a situação da falta da hydra:

    * * * * *

    O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
    Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
    pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
    seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
    haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
    questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
    exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
    como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
    que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
    d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
    Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
    esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
    podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
    enterrado.

    N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
    determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
    que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
    municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
    discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
    alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.

    * * * * *

    Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
    de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
    triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
    cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
    uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
    rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
    arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
    auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
    uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
    cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
    o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
    triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
    theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
    lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
    phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
    e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
    estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
    ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.

    * * * * *

    Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
    canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
    montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
    philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
    morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
    rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
    vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
    hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
    ainda parece pouco.

    O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
    fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
    aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
    romana.

    * * * * *

    Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
    dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
    cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
    consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
    infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
    cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
    Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
    mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
    campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
    discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
    eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
    amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
    orbe pela larga benção incondicional de Jesus.

    Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
    pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
    recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
    podridões privilegiadas.

    Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
    ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
    pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
    as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
    pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
    no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
    terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
    sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
    resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
    dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
    chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
    bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.

    Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
    do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
    grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
    do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
    nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
    o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
    teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
    usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
    canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
    sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
    humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
    sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
    És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
    para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
    te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
    o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
    distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
    sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
    chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
    poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
    outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
    e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
    doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
    te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
    horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
    homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
    padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
    dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
    filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
    entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
    suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
    tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
    dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
    enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
    cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
    bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
    vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
    preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
    mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
    cidade inteira.

    E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
    inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
    que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
    te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:

    No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
    canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
    anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
    para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
    os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
    catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
    Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
    somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
    ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
    como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
    com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
    ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
    condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
    tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
    justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
    elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
    interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
    dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
    voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
    Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
    baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
    Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
    cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
    esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
    para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
    um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
    o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
    sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
    eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.

    Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
    Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
    mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
    mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
    Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
    Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
    que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
    cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
    os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
    collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
    resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
    primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
    pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
    impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
    sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
    fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
    contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.

    * * * * *

    Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
    ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
    por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
    muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
    esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
    n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
    pretendemos consultar s. exª:

    * * * * *

    Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
    não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
    por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
    entretendo.

    N'esta hypothese pergunta-se:

    Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
    o capricho de descartar-me?

    Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
    indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
    escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
    impios e locomotores.

    A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
    direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
    Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
    baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
    lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
    aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
    este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
    as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
    parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
    carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
    padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
    tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
    resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
    varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
    crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
    compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
    todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
    contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
    por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
    e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
    paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
    dos atheus.

    * * * * *

    Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
    funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
    resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:

    Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
    communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
    não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
    uma affirmação civil.

    Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
    facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
    ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
    substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
    perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
    o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
    demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
    attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
    sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
    não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
    exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
    na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
    póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
    póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!

    A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
    antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
    pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.

    Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
    nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
    igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
    dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
    pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
    igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
    de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
    minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
    eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
    espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
    deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
    era--a perna da igreja.

    Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
    perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
    catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
    recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
    direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
    ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
    anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
    de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
    religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
    religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
    baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.

    Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
    Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
    separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
    obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
    dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
    sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
    estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
    designar a sepultura sagrada.

    Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
    outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
    pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
    effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
    de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
    e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
    contrario.

    Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
    encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
    perna.

    Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
    creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
    de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
    padre, morrer sem padre.

    * * * * *

    Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
    cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
    esquina do Laranjal

    Porto

    Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
    pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
    todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
    inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

    Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
    tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
    comparecer.

    Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
    reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
    pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
    comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
    ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
    presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
    certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!

    Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
    uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
    n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
    violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
    encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
    maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
    levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
    Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
    Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
    caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
    de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
    Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
    da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
    _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
    reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
    fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
    ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
    com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
    trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
    abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
    os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
    murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
    freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
    de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
    torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
    venezianamente na agua.

    Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
    ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
    proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
    humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
    os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
    os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
    tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
    Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
    paiz estavam ahi reunidos. Para que?

    Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
    mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
    phenomeno! que revolução!

    Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
    determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
    de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
    iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
    casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
    domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
    os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
    mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
    longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
    caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
    plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

    Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
    pessoal.

    Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
    o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
    exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
    funccionalidade diversa.

    Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
    politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
    por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
    irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
    nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
    espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

    A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
    symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
    mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
    que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
    tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
    que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
    todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
    de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
    A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
    convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
    individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
    o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
    progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
    revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
    acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
    cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
    outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
    tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
    episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
    conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
    sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
    força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
    bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
    vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
    aperfeiçoamento e para a felicidade.

    Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
    os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
    dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
    elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
    remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
    determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
    das sociedades.

    A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
    victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
    paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
    sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
    progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
    instituições.

    Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
    estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
    um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
    reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
    nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
    com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
    debatida entre dois principes.

    A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
    progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
    milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
    affirmação d'esse progresso.

    A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
    principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
    especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

    Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
    seu novo hospede? Não lhe apparecendo!

    V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
    irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
    satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
    que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
    pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
    do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
    chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
    ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
    agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
    extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
    cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

    Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
    completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
    democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
    abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
    portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

    É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
    contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
    com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
    patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
    o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
    forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
    nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
    sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
    telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
    teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
    resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

    Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
    como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

    * * * * *

    Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
    de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
    os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

    Eis o que ao depois occorreu:

    * * * * *

    A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
    choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
    Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
    estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
    suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?

    --Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
    mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

    Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
    bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
    aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:

    --Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

    E deixaram-o ir.

    * * * * *

    Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
    com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
    estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
    orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
    deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
    adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
    homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
    perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
    abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
    redea.

    * * * * *

    Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
    cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
    retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
    saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
    moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
    officiaes!

    * * * * *

    Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
    do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
    dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
    circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
    sr. José Dias Ferreira.

    Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
    o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:

    --A mim, rapazes!

    E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.

    * * * * *

    Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
    assim elle mesmo?

    Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
    burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!

    Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
    sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

    * * * * *

    O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
    do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
    Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
    rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
    depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
    seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
    cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
    para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
    dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
    nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
    como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
    estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
    Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
    commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
    delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
    abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
    de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
    ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
    auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
    azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!

    Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
    da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
    causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
    durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
    intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
    bolsa do alforge ministerial.

    Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
    enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

    * * * * *

    E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
    logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
    nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
    arnica o seu galo.

    * * * * *

    Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
    jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
    eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
    Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

    O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
    como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
    estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
    kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª

    * * * * *

    Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
    deputados:

    * * * * *

    Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
    funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
    os parapeitos até ao tecto.

    Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
    o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

    Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
    individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
    resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
    publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
    dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

    Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
    encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
    feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
    com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
    calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

    No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
    coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

    Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

    Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
    amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
    O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
    Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.

    Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
    mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
    sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
    descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
    cahidas do systema que felizmente nos rege.

    No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
    inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
    dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
    sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
    inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

    --Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
    lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

    Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
    estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
    cabeça.

    Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
    vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
    estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
    resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
    mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
    a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
    submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
    face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
    resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
    sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
    constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
    extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
    lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
    moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
    botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
    trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
    ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
    da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
    constitucional.

    Diz mais o orador:

    --«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
    pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
    investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
    inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
    isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
    aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
    porque elles serão consolados».

    E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
    camara:--«Muito bem! muito bem!»

    Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
    Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
    e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
    victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
    questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
    desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
    srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
    Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
    ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
    Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
    Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
    alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
    dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
    d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
    crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
    queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
    moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
    nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
    collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
    meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

    E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
    applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

    A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
    como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
    Kant, de Hegel e de Hartman.

    Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
    philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
    precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
    grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
    indisciplina mental.

    Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
    philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

    Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
    definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
    para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
    triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
    filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

    Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
    peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
    pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
    o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
    politico do imperador Guilherme?

    Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
    senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
    arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?

    Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
    vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
    preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
    ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
    peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
    certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
    pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
    philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
    contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
    pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
    linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
    elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
    actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.

    Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
    experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
    humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
    maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
    indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
    sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
    noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»

    A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
    esphacelamento cerebral.

    Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
    caturras?--É unicamente o que perguntamos.

    * * * * *

    O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
    governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
    coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
    social.

    A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
    fazer.

    A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
    o principio em que se funda.

    A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

    Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
    uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
    Turquia está muito adeante de nós.

    Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
    destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
    dissolvem-se na banalidade.

    As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
    personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
    camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
    mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

    Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
    assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
    exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
    burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
    moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
    cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
    similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

    Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
    circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
    do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
    funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?

    * * * * *

    Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
    catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
    militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
    electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
    quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
    permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
    de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
    governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
    uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
    de cordas, uma photographa, etc.

    Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
    disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
    pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
    opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
    partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
    conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
    evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
    industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
    das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
    universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
    magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
    governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
    distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
    a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

    A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
    não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
    e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
    partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
    perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
    a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
    pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
    partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

    Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
    mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
    completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
    constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
    vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
    digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

    * * * * *

    Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
    converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

    O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
    corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
    appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
    appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
    compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
    diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
    favor da urna.

    O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
    todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
    expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
    consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
    commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!

    Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
    competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
    de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
    moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
    a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
    preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
    é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
    deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
    e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
    aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
    insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

    Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
    como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
    _compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
    ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
    correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
    apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
    compadre, vou para o partido d'elle.

    O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
    machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
    governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
    o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
    que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
    como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
    engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
    tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

    A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
    contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
    esse poder é unicamente--o da comadre.

    A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
    dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
    rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
    unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
    real; compadrice, comadrice--eis tudo.

    * * * * *

    Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
    decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
    ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
    miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
    remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
    quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
    socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
    sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
    e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
    philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
    que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
    resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
    reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
    concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
    revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
    conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
    actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
    mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

    * * * * *

    Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
    sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
    pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
    que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
    caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum
    sepulchrum_!

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-05-06/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-05-06/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:26:57 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-05-06/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06)

    Aproximadamente 19.222 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO IX

    Maio a Junho 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A burra do Estado. Porque motivo o ministerio Fontes se deitou abaixo
    d'essa burra, e do mais que então passou. A queda do dente. Elogio do
    dente pelo sr. Assumpção. O dente embrulhado n'um papel. O dente aos pés
    do throno. O dente demittido. Pede-se um dente novo.--O drama _Leonor de
    Bragança_ e a caixa do Poder Moderador. Parallelo da peça do sr. Luiz de
    Campos e da do sr. Alfredo Ansúr. Os caracteres em cada uma das duas
    peças, a lingoagem, o stylo, a cortezania, a intenção moral. Conclusões
    do referido estudo: requisita-se para o sr. Ansúr a commenda do lagarto
    ou metade da caixa conferida pelo Poder ao sr. Campos.--As corridas de
    cavallos--O premio do Jockey-Club e o premio da Academia--O progresso em
    Lisboa durante o ultimo semestre. A sociedade affirma o seu movimento
    ascendente na civilisação por meio de dois novos estancos e de uma
    ourivesaria. Philosophia de uma vitrine de joias--A peregrinação a Roma.
    Os preparativos. A partida. A prescripção da _toilette_. A chegada a
    Lourdes. Aspecto pittoresco e elegante do milagre: o _restaurant_, o
    trem de Paris, as _parties fines_ sobre a relva, o Champagne e as
    bilhinhas da agoa. Em Roma. As offerendas. O dinheiro de S. Pedro. A
    applicação d'esta receita. O album dos peregrinos e o que n'elle se
    contém. A nossa allocução. O primeiro e o ultimo jubileu. Pio IX e
    Bonifacio VIII. A antiga fé. Os peregrinos em 1300. A fé actual e os
    peregrinos d'hoje. O conflicto da sciencia e da fé. O Deus de Darwin. Os
    novos poderes espirituaes. De como ninguem quer o ceu do Padre
    Marnoco--A primeira communhão de sua alteza o principe--A civilisação
    africana e as conferencias academicas. Uma conferencia que se não faz:
    _Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores_.

    * * * * *

    Era em uma bella manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor
    e da brisa--como diria o sr. Antonio de Serpa se as conveniencias
    partidarias lhe permittissem ainda dedilhar a theorba sob o lyrico
    balcão de D. Mafalda--tinha estendido sobre as campinas o seu manto de
    esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz
    animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no
    chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da
    hortaliça de que se exhalam emanações appetitosas de cuentro e de
    pimpinella, no tic-tic do passo miudo e zeloso dos jumentos saloios
    ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A agua das
    regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos
    favaes. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das
    quintas, de pateo ajardinado, sahia em calidas baforadas o perfume dos
    limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os
    caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tepida e
    balsamica cahia do ceu azul e envolvia n'um doce torpor voluptuoso e
    suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou
    desembarcando na gare de Santa Apolonia.

    * * * * *

    Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da
    natureza, que o sr. Fontes Pereira de Mello deliberou deitar-se abaixo
    do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos
    que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que elle cavalgara
    em cinco annos de choito glorioso atravez das _diversas provincias da
    publica administração_.

    Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus collegas do ministerio
    e os seus mais intimos amigos politicos, lhes fallara d'esta arte:

    Senhores! Achando-me esta manhã á janella do meu quarto, fazendo algumas
    considerações philosophicas e a barba, deliberei apear-me por algum
    tempo da azemola do poder.

    _Vozes de amigos intimos desapontados_.--Oh! oh! Não o cremos!... Não o
    podemos crer!... É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra
    do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S.
    ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico
    deixar-nos n'este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos,
    para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um
    pretexto, haja uma razão!

    _O sr. presidente proseguindo_: Quereis uma razão? Eu vol-a dou. Acho-me
    impossibilitado de proseguir provincias da publica administração além. Á
    força de meditar nos altos negocios do estado acaba de me cahir um
    dente...

    _Vozes_--Dê o dente para ordem do dia!

    _O sr. presidente (tirando o dente da algibeira e collocando-o na
    discussão)_--Ahi tendes o dente. Abri sobre elle os mais largos e
    rasgados debates, e julgae-o como vos approuver. É um queixal. Nada mais
    acrescento. Sobre este ponto considerações de melindre pessoal me
    inhibem de continuar. Farei apenas sentir aos meus amigos politicos e
    aos meus collegas do gabinete que nem a camara nem o paiz nem a corôa
    poderão, segundo penso, exigir da minha fidelidade partidaria que eu
    sacrifique á investigação dos negocios os dentes que o meu ardente
    patriotismo me impõe a obrigação de reservar para os inimigos da patria.
    Tenho dito.

    (_Vozes:_--Muito bem! Muito bem!)

    * * * * *

    O sr. Manuel da Assumpção, havida então venia para fallar, consta que
    estendera a dextra sobre o dente, e proferira com ardor e enthusiasmo as
    seguintes palavras:

    «Meus senhores! Este dente é a pagina mais gloriosa da nossa historia. É
    effectivamente um queixal, como s. ex.ª muito bem disse na sua phrase
    tersa, de uma energia e de uma concisão dignas de Tacito. Ha oito dias
    que os jornaes que nos guerreiam lançaram este dente na tela da
    discussão, procurando fazer acreditar ao paiz e ás nações extrangeiras,
    por meio de insinuações malevolas, que elle é canino. Mandando o dente
    para a meza o sr. presidente acaba de confundir de uma vez para sempre
    os seus adversarios. Queixal! Longa foi a tua carreira gloriosa.
    Enraizado no queixo de s. ex.ª atravessaste com elle as mais duras
    provações de uma carreira brilhante. Roeste o pão negro do ostrocismo.
    Atolaste-te na lampreia d'ovos das doces illusões. Mascaste a cabedella
    dos terriveis desenganos. Depois de cada um d'esses estadios na senda
    dos progressos materiaes e moraes, s. ex.ª, com mão decisiva,
    palitava-te. Um dia porém, á meza do orçamento, no grande banquete da
    civilisação, n'esse campo de batalha onde se travam os combates
    incruentes do progresso e onde o talher de s. ex.ª por muitas vezes
    fulgurou desembainhado ao sol das victorias, tu, depois de uma violenta
    refrega, com umas amendoas torradas de exercicios lindos, com uns
    biscoutos de gerencias anteriores, e com algumas outras verdades duras
    de tragar, appareceste furado. No dia seguinte s. ex.ª chamava ás armas
    a reserva e um dentista, e tu, ó dente, recebias como os bravos o
    baptismo do chumbo. A bala inimiga....

    _O sr. Presidente_--Tomo a liberdade de interromper o illustre deputado
    e meu nobre amigo para lhe fazer notar que o dente não recebeu o
    baptismo do chumbo sob a forma de bala, mas simplesmente sob a forma de
    pingo.

    _O orador_--Do mesmo modo então que um fundo de chaleira?

    _O sr. Presidente_--Precisamente do mesmo modo.

    _O orador_--Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da
    prestar-me, e, se s. ex.ª m'o permitte prosigo, pondo de pane a piada
    relativa á bala do inimigo...

    Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caracter de um triumpho, pois
    não cahiste arrancado por uma opposição accintosa e malevola; cahiste
    porque tinhas os teus dias cheios e um pouco tambem porque estavas
    podre.

    Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?...

    _O sr. Presidente_--Peço perdão para ainda uma vez interromper o
    illustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do
    dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que apparece
    em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o
    justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém
    habilitado para satisfazer a curiosidade do illustre deputado em quanto
    ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.

    _O orador_--Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente
    que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a
    nenhum dos seus queixaes pergunta alguma para que deseje resposta. As
    minhas interrogações são puramente rhetoricas. O silencio com que fui
    escutado pelo dente não sómente me não escandalisa mas antes pelo
    contrario me penhora como um testemunho de benevolencia a que não
    ousava aspirar.

    Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado
    respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder
    moderador, para que sua magestade haja por bem resolver como lhe
    approuver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do
    conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»

    * * * * *

    Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr.
    Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos
    emolientes emquanto o resto do ministerio partia para o Paço a levar ao
    soberano o dente resignatario.

    Constou pelos jornaes quo apenas recebera o dente sua magestade se
    dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma
    entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa
    em procurar reintegrar, pelas suas proprias mãos, o dente caído na
    maxilla do illustre estadista.

    Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotára, para consolidar o dente
    caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as
    disposições do codigo fundamental da monarchia. Sua magestade tentára
    fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre,
    com pez, com gomma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.

    O dente reagiu a todas as reaes instancias: o excelso politico, em cujo
    queixo inferior elle se firmára durante cinco annos de gerencia
    governativa não queria mais a confiança da corôa, queria unicamente
    cosimento de malvas.

    O monarcha lavrou então o decreto mandando o seu antigo ministerio
    bochechar, e encarregou o sr. marquez de Avila e Bolama de reunir com os
    seus amigos o numero de dentes necessarios para formar uma gerencia
    duradoura e firme.

    D'este encargo se desempenhou o sr. marquez com o zelo que o
    caracterisa, e o actual ministerio nasceu.

    * * * * *

    Um dos nossos mais distinctos amadores, o sr. Luiz de Campos, acaba de
    dotar o theatro de D. Maria com um drama, cujo exito constitue o maior
    triumpho modernamente alcançado pelas letras portuguezas.

    Não só os jornaes todos consagraram a esta obra louvores emittidos com
    uma energia desusada, mas até a alta sociedade, de ordinario tão
    parcimoniosa de curiosidade dispendida com a arte, patrocinou com
    especial favor esta peça. O auctor teve a gloria de ver os seus finaes
    d'acto applaudidos do fundo dos primeiros camarotes pelas mãos mais
    aristocraticas. Nas situações patheticas do seu assumpto lagrimas
    illustres sulcaram o pó d'arroz com que se perfumam os brazões das mais
    nobres e distinctas familias. Finalmente no fim do espectaculo o Poder
    Moderador, que assistira á representação em companhia da sua familia,
    expediu um dos seus camareiros, o qual foi ao palco cumprimentar o
    laureado dramaturgo, pedir-lhe desculpa de lhe não pingar do alto do
    throno sobre o peito da casaca a commenda de S. Thiago, e entregar-lhe
    em vez das insignias d'essa ordem excelsa e em nome do referido Poder um
    cofre com uma pedra preciosa, que os jornaes do outro dia pela manhã
    almotaçaram em 1:500$000 réis.

    * * * * *

    O drama do sr. Luiz de Campos intitula-se _Leonar de Bragança_ e encerra
    a historia d'aquella desditosa, cuja mocidade e belleza feneceram de
    subito, surprehendidas no ventre por trez facadas com que a brindou seu
    esposo, o mui nobre e poderoso duque de Bragança, um dos antepassados do
    Poder que hoje nos rege, e ao qual, bem como á sua familia, acima
    tivemos a honra de reportar-nos submissa e respeitosamente.

    O pretexto sob o qual D. Jayme damnificou com instrumento perfurante o
    abdomen de sua mulher foram os amores d'esta com o pagem Antonio
    Alcoforado.

    Existiram effectivamente esses amores? Era a duqueza realmente culpada
    de uma fraqueza anormal pelos pagens? Era Alcoforado um honesto e leal
    servidor do principe D. Theodosio, ou era uma ratoeira vil de duquezas
    incautas?

    * * * * *

    Ha duas opiniões ácerca do modo de considerar no theatro a natureza
    d'este facto.

    Na sua _Leonor de Bragança_, escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos
    entende que a duqueza é innocente. Na sua _Leonor de Bragança_, escripta
    em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.

    Os fados, que tão propicios foram á obra do festejado sr. Campos,
    trataram adversamente a obra não menos estimavel do malogrado sr. Ansúr.
    Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em
    cotejo as duas composições a que deu origem a tragica aventura de
    Leonor.

    * * * * *

    No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho
    perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em
    _haver o pagem um coração_. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente
    _haver_ em logar de _ter_, não só nos casos em que esse verbo é usado
    como auxiliar mas ainda quando se toma na accepção de possuir. Acatamos
    discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado
    este cavalheiro a cortar as suas relações pessoaes com o verbo _ter_. O
    simples depoimento do verbo _haver_, conjugado com tanta lealdade,
    cravado no discurso com tanta firmeza como aquella que se admira em
    todas as locubrações litterarias d'este auctor, basta para nos convencer
    da innocencia de Leonor.

    Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso d'esta peça são de
    um caracter fortuito absolutamente illibado.

    A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo
    bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no
    momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor
    á direita para o segundo bastidor á esquerda. Elles veem ambos meditando
    no verbo _haver_, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas
    cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:

    _Duqueza_--Houveste alfim volvido?

    _Pagem_--Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?

    _Duqueza_--Nada hei.

    _Pagem_--Hão, quiçá, offendido-vos outra vez?

    _Duqueza_--Não hão. Pagem, havereis de volver a casa do sr. D.
    Theodosio.

    _Pagem_--Visto que não heis de mim de, senhora minha, haja de se cumprir
    vossa vontade! Haverei força, haverei de havel-a... Manhã, ao toque de
    prima, serei partido. De nada mais heis mister?

    _Duqueza_--De nada mais hei, pagem; e a Deus prasa que jámais haja de
    haver! Idevos presto a D. Theodosio, consoante-vos hei di-lo pouco ha.

    _Pagem_--Em mim havei fé, minha senhora ama: eu me vou.

    _(Saem ambos, cada um por seu lado, meditabundos.)_

    A entrevista que dá causa á vingança do duque não a tem Alcoforado com a
    duqueza mas sim com uma das suas damas. Em toda a peça, finalmente, a
    duqueza, nem por carta, nem de viva voz, nem de simples ôlho, tem para
    Antonio uma palavra, um aceno, um gesto, em que se presinta de leve que
    seja a exhalação da perfidia.

    * * * * *

    O sr. Ansúr é menos complacente com os seus personagens, como vamos ver.

    BEATRIZ ANNES

    _Grande mal, grande mal, senhor Fernão!_

    FERNÃO RODRIGUES

    _Que mal?_

    BEATRIZ ANNES

    _Homem em casa._

    FERNÃO RODRIGUES

    _Com a aia?_

    BEATRIZ ANNES

    _Não._

    FERNÃO RODRIGUES

    _Com quem pois?_

    BEATRIZ ANNES

    _Com nossa ama._

    O fogoso e pittoresco sr. Ansúr vae mais longe ainda: colloca o pagem
    aos pés da duqueza e põe na bocca de um e outro estas palavras:

    PAGEM

    _Que enthusiasmo sinto! Arfa-me o seio
    Em vertigem de amor! Sinto a poesia
    Na mente distillar grata ambrosia.
    Ó senhora duqueza! Minha vida!
    Como vos amo!_

    LEONOR

    _Antonio! alma querida..._

    PAGEM

    _Longe de vós a vida é-me desterro...
    Perdoar-me-heis do coração este erro?_

    LEONOR

    _Sim._

    PAGEM

    _Sem vos escutar e sem vos ver
    Não podia, senhora, mais viver!
    Meu peito abrasa._

    LEONOR

    _Doce pensamento,
    Longe de ti é egual o meu tormento._

    E a duqueza prosegue exaltando-se n'uma gradação rhetorica perfeitamente
    calculada pelo sr. Ansúr até o ponto de lhe dizer o Alcoforado:

    _Calae-vos por piedade! Tende imperio
    Sobre a imaginação._

    Em outra scena da peça depois de uma entrevista secreta com o pagem, á
    hora da meia noite, a duqueza profere uma palavra physiologica, de um
    sentido decisivo:

    _Como evitar que o duque venha, e veja
    Aqui tua presença que me peja?_

    PAGEM

    _Meu Deus!_

    LEONOR

    _Jesus! esconde-te!_

    Ao que o pagem, com o temerario valor que só os altos sentimentos
    persuadem, replica energicamente:

    _Fujamos!_

    LEONOR

    _Por onde oh! ceus?_

    PAGEM

    _Por esta porta._

    LEONOR

    _Vamos._

    Sendo tanto a _Leonor de Bragança_ do sr. Luiz de Campos como a _Leonor
    de Bragança_ do sr. Alfredo Ansúr peças offerecidas pelos seus auctores
    a sua magestade el-rei o sr. D. Luiz I, é claro que ellas devem ser
    consideradas pela critica não como livres producções litterarias mas
    como especiaes mimos dedicados á familia de Bragança. Ora sob este ponto
    de vista--não hesitamos em dizel-o--a obra do sr. Ansúr parece-nos muito
    mais completa e perfeita que a do sr. Luiz de Campos.

    Pomos de parte a questão da investigação historica, que foi egualmente
    aprofundada pelos dois auctores. O sr. Luiz de Campos reforça-se com o
    testemunho dos documentos que manuseou: _A historia genealogica, As
    Decadas_ de Couto e de Barros, a _Chronica de D. Manuel_ por Damião de
    Goes e o _Auto de inquirição e devassa_ existente na Torre do Tombo. O
    sr. Alfredo Ansúr fortifica-se exactamente com os mesmos documentos por
    elle compulsados.

    Para suas excellencias, armados de eguaes argumentos pró e contra a
    duqueza, a escolha do papel que tem de lhe ser dado n'este drama é pois
    uma questão de gosto. O sr. Ansúr, emquanto a nós, escolheu melhor, e
    fez a sua magestade el-rei uma dadiva mais delicada.

    Segundo o sr. Ansúr o duque de Bragança D. Jayme é um cavalheiro infeliz
    em familia, ao qual succede--como muito bem diz Menelau na Bella
    Helena--uma fatalidade. O duque deteriora a região intestinal da
    duqueza, mas deteriora-a em legitimo desforço da sua dignidade offendida
    e ao abrigo das leis do reino.

    Segundo o sr. Luiz de Campos, dada a innocencia da esposa, o duque não
    passa de um sanguinario estupido, que envolve o seu brasão de familia e
    a futura tradição dynastica n'um ignobil e affrontoso chouriço de sangue
    innocente. O acto de mandar desossar pelo cosinheiro o pagem Alcoforado,
    com o mesmo facalhão com que se picam os bifes, é um facto indecente
    que, posto o criterio do sr. Luiz de Campos, estabelece um precedente
    que pode levar os servidores da casa de Bragança a não distinguirem
    inteiramente a differença que ha em ir para o paço e em ir para a
    salgadeira.

    Eliminada a circumstancia do adulterio o duque é um facinora vulgar sem
    nenhum apoio na jurisprudencia ou na legislação. Depois da leitura da
    peça do sr. Luiz de Campos, um jury sensato que houvesse de julgar D.
    Jayme, mandal-o-hia degradado por toda a vida para a Costa de Africa.
    Só assim se poria uma sociedade culta ao abrigo de um principe que faz
    das esposas e dos vassalos um consumo que se não justifica pelas
    necessidades ordinarias da vida exterior.

    * * * * *

    Parece-nos ser um serviço em extremo subalterno prestado a alguem o
    publicar a historia de um dos seus antepassados á luz de uma critica
    cujas derradeiras consequencias são, como no drama do sr. Campos, a
    condemnação do mesmo antepassado a um genero de glorificação e de
    apotheose que elle só pode remir com a prisão correcional perpetua.

    Na peça do sr. Ansúr o antepassado do alto personagem a quem elle a
    offerece e consagra apparece-nos satisfactoriamente levado ao crime por
    uma provocação cheia de solicitude e de cortezia. «Ha homem em casa. Com
    a creada? Não. Com a patrôa.» Este grito sublime de clareza e de
    concisão esparge no facto um raio de luz juridica e lança um immenso
    clarão de legalidade e de justiça sobre o chifarote brigantino destinado
    á perfuração das damas.

    Nada mais tocante do que a situação do duque ao receber o fatal
    desengano:

    _Horror! Infamia! Anathema! Vergonha!
    .......................................
    Rompe-se-me do ser toda a harmonia,
    Passa-se-me na mente extranha orgia!
    Estalam-me no corpo algumas fibras!
    Meu pobre espirito, que assim te libras
    Do desespero na mortal esphera,
    Não te consumas tanto! Acalma! Espera!
    .........................................
    Mofina dor me roe, me despedaça!
    Emquanto descuidoso andara á caça,
    Tu deliravas... tu... oh! que villeza!_

    E depois dirigindo-se ao pagem:

    _Arrepende-te dos teus peccados
    Que os fios da tua vida estão contados!_

    PAGEM

    _Perdão! piedade!_

    DUQUE

    _Soffre com valor
    Que mais soffreu par nós o Redemptor!
    .....................................
    .........................Alfim
    Com o manchil Domingos cortará
    A cabeça do pagem. Morrerá._

    A duqueza intervem com esta conceituosa
    mas intempestiva maxima:

    _Jamais decepes com manchil odioso
    A cabeça de um justo. É horroroso!_

    O duque não precisa que lhe ensinem a resposta...

    _Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
    O descendente, como pune o ultraje,
    Que lhe fizeste, Leonor! Apage._

    Não são estes porém os unicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á
    clareza justificativa dos factos e ao esplendor immarcessivel da casa de
    Bragança. A peça d'este benemerito cavalheiro abunda em conceitos e em
    noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que,
    presando-se de amar o rei e a patria, deixará de ler sem uma commoção
    profunda as seguintes palavras que o auctor põe na bocca da mãe de D.
    Manuel, por occasião do advento d'este monarcha ao regio solio?

    _Omnipotente Deus! quiz o destino
    Dar existencia ao throno manuelino!
    Quem predissera tal, filho cadete,
    Quando surgiste á luz em Alcochete?!_

    Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da
    casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr.
    Ansúr celebra os antigos privilegios heraldicos de tão distincta
    familia:

    _A não ser o real, não ha poder,
    Que possa hoje nos reinos exceder
    O de nosso senhor! Póde D. Jayme
    (Ó fóros brigantinos inspirae-me)
    Nas salas dos seus paços ter doceis
    E sitiaes nas egrejas dos fieis.
    Forrada com arminhos, rica, larga
    Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
    Ante si leva estoque, segundo acho,
    Com o extremo voltado para baixo,
    Distinctivo dos reis, que é para cima._

    Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em
    cujo throno se acha uma familia que antes de reinar tinha o direito de
    levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar
    estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos
    acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!

    A unica coisa que se nos offerece reprehender na peça do sr. Ansúr, por
    innumeros titulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não
    tivesse accrescentado com mais um acto, no qual, para completa
    rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos apparecesse
    resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que
    consumiu até o ultimo dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Villa
    Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que
    se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o
    nobre duque se mettia em agua, durante uma hora por dia, para desaggravo
    e remissão de suas culpas. O illustre heroe tão devéras se arrependeu
    que chegou a mortificar-se d'esta maneira insolita e sem
    precedentes--tomando banho!

    Seria um bello melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a
    completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado
    pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas
    carnes ultrajadas e viuvas pelo contacto expurgante de um sabão.

    * * * * *

    Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque
    motivo não caiu do alto da regia munificencia sobre o peito inspirado do
    sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do merito artistico e
    litterario, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poeticas do
    sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino
    como o do seu collega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia n'esta creação
    litteraria? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ella
    escripta em bellas parelhas de versos de dez syllabas, em vez de o ser
    em prosa villôa como a do seu competidor?

    O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber
    mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima
    referido de 1:500$000 réis.

    Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade annexa ao mandato
    popular, porque não se lhe confere a commenda da nobre ordem ou, quando
    menos, a sua equivalencia em cofre com pedra preciosa no valor de réis
    1:500$000?

    Grave e inexplicavel injustiça! Se a nossa debil voz póde chegar até ás
    orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:

    Senhor! A vossa protecção ás letras patrias não se tem até hoje
    desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os
    dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas teem
    colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido collocado em
    uma _avant-scène_, durante uma ou duas representações das suas peças, o
    vosso real perfil, que outros não possuem senão collocado nas moedas de
    5$000 réis, coisa miseravel e vil. Acabado o espectaculo vós enfiaes o
    vosso paletot, accendeis o vosso charuto, retomaes o vosso sceptro no
    bengaleiro, e ides para casa recolher as commoções da noite sob o
    agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na
    ponta. O genio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa
    munificencia manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que
    deliberastes inaugurar a éra do galardão litterario, dae a Alfredo
    Ansúr a commenda que Luiz de Campos não pôde acceitar. Dae-lh'a quanto
    antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do
    remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, elle vos brade nos
    silencios da noite:

    «Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto,
    Barbadão!»

    Se o throno for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de
    Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho
    cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!

    Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do
    brinde que lhe lhe compete.

    * * * * *

    Hoje, 7 de maio, corridas de cavallos no hippodromo de Belem.

    Um premio foi disputado por quatro cavallos, um foi disputado por tres,
    outro por dois, e o ultimo finalmente por um cavallo só. Este cavallo
    partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal
    ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos
    applausos geraes, passando adiante de si proprio!

    Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de
    el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça
    cavallar:--quanto mais premios se distribuem menos cavallos ha.

    Se a instituição se mantem por dois ou tres annos mais, é-nos licito
    acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavallo nenhum,
    e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos _sportmen_ que figuram no
    programma da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por
    percorrer a pista montado no seu telescopio.

    * * * * *

    E no entanto o campo das corridas é o mais bello sitio dos contornos de
    Lisboa, o mais aprazivel ponto de passeio de carruagem, a cavallo ou a
    pé nas tardes de verão, e é susceptivel de ser explorado pelo
    Jockey-Club com sufficiente lucro da associação e com grande vantagem do
    publico. Bastaria para utilisar e aformosear o campo circumdal-o por
    fora da pista com uma rua de arvores intermeadas de bancos de jardim;
    estabelecer no centro do hippodromo um jogo do _Cricket_ para os membros
    de um _Cricket-Club_ addido ao _Jockey-Club_; organisar um tiro ao alvo,
    um _Croquet_ para as senhoras, alguns jogos gymnasticos para o povo e
    para as creanças; promover nos domingos da primavera e de verão no
    recinto do campo pequenos certames agricolas e industriaes, concursos de
    vaccas, de carneiros, de gallinhas, de porcos gordos, exposições de
    flores, de fructas, de legumes, de queijos, de instrumentos de
    agricultura e de jardinagem, etc.

    Lisboa carece vergonhosamente de uma instituição d'este genero que reuna
    com as condições de recreio os desenvolvimentos de actividade e de
    educação. Visto que nem o governo nem a municipalidade se occupam d'essa
    questão, o _Jockey-Club_ prestaria um serviço relevante procurando
    resolvel-a.

    * * * * *

    Mas de modo algum pretendemos forçar o _Jockey-Club_ a acceitar esse
    encargo. O _Jockey-Club_ fará o que entender, e nós acharemos sempre que
    entendeu bem; a unica coisa que lhe rogamos é que reflicta no futuro que
    o espera continuando na senda assustadora em que principia a resvalar. O
    club achou ainda um meio de resolver o problema do concurso diante da
    simples unidade: queremos saber o que fará quando vier a apparecer a
    fracção, e a quem se dará o premio de el-rei, quando para o anno
    concorrer unicamente a disputal-o--um selim!

    * * * * *

    Ao mesmo passo que o _Jockey-Club_, sob a protecção de suas magestades o
    sr. D. Luiz e o sr. D. Fernando confere premios no valor de tres contos
    de réis annuaes ás bestas velozes, a Academia Real das Sciencias, sob a
    presidencia e sob a protecção dos mesmos augustos principes, confere
    apenas 50$000 réis de premio aos sabios extenuados.

    Um cavallo que percorre a galope uma distancia de mil e quinhentos
    metros ganha réis 1:500$000. Os sabios do paiz inteiro ganharão 50$000
    réis satisfazendo entre varios outros os seguintes pontos do programma
    da Academia para o anno de 1877:

    Em mechanica: Apresentar um trabalho sobre o movimento dos fluidos;
    achar o melhor systema de obras a eslabelecer nas margens do Tejo a fim
    de satisfazer simultaneamente as condições de salubridade, irrigação e
    segurança das propriedades adjacentes. Em physica: estudar a capacidade
    calorifica dos atomos nos corpos simples; indicar a construcção da pilha
    de effeito mais constante e mais propria para ser applicada á
    telegraphia; apresentar a synthese dos alcaloides organicos; estudar a
    composição chimica das principaes aguas sulfureas e alcalinas de
    Portugal. Nas sciencias historico-naturaes: Fazer a descripção
    ampelographica das principaes castas de uvas portuguezas e determinar o
    melhor processo para o fabrico dos vinhos genuinos; fazer um ensaio
    monographico da fauna portugueza. Nas sciencias medicas: Determinar as
    alterações da saude e as doenças devidas ás principaes industrias do
    paiz e indicar os meios efficazes de as prevenir; fazer um estudo
    critico do systema de esgoto e saneamento da capital, que satisfaça a
    todas as condições prescriptas pela hygiene, apresentando o modo da sua
    realisação; estudar a mortalidade de Lisboa, suas causas e meios de as
    attenuar. Em litteratura: Fazer um romance historico, fazer um poema,
    fazer um glossario das palavras e locuções hoje obsoletas ou antiquadas
    que se leem nos antigos cancioneiros portuguezes acompanhando esse
    vocabulario de observações linguisticas e philologicas. Nas sciencias
    economicas e administrativas: Memorias ácerca da descentralisação em
    Portugal e do melhor systema de circulação fiduciaria. Em historia e
    archeologia: Estudo ácerca do estado da sociedade portugueza ao tempo da
    morte de D. João V; determinar e caracterisar as relações artisticas de
    Portugal nos seculos XV e XVI no tocante á architectura, esculptura,
    pintura, musica e artes industriaes, indicando os meios officiaes e
    extra-officiaes que facilitaram essas relações pondo os resultados em
    parallelo com a historia da arte em geral, etc., etc., etc.

    * * * * *

    Se nós fossemos sabios preferiamos ao trabalho de responder a qualquer
    dos alludidos quesitos pela somma de 50$000 réis, o trabalho de
    percorrer á desfilada a pista do hipodromo de Belem--de graça.

    * * * * *

    Durante o semestre que finda este mez Lisboa não produziu nem um só
    livro util, nem uma só notavel obra d'arte na pintura, na musica, na
    poesia.

    Não se fez nem uma prelecção nem uma conferencia litteraria ou
    scientifica. A estação toda passou-se como a estação anterior, como as
    estações precedentes, sem que esta sociedade em marasmo désse um unico
    signal de vida intelligente.

    Lisboa é hoje a unica capital da Europa em que isto succede. Não
    queremos dar-lhe em parallelo Paris, Berlim, Bruxellas, Londres, S.
    Petersburgo, qualquer das grandes cidades da Italia ou da Hollanda.
    Apontaremos apenas Madrid, e não citaremos senão um dos seus institutos
    particulares, o _Atheneu_, sociedade da natureza do _Gremio Litterario_
    em Lisboa. No _Atheneu_ os cursos publicos, livres, gratuitos,
    abriram-se no mez de outubro, tendo havido desde o dia da abertura
    prelecções, conferencias ou debates em todas as noites. Teem-se
    ventilado as mais interessantes questões da philosophia e da sciencia
    social no ponto de vista de espiritos altamente cultos.

    Em Lisboa o progresso social, o movimento ascendente da civilisação
    manifestou-se unicamente pela apparição de tres estancos novos no
    Chiado e de uma ourivesaria no largo das Duas Egrejas. Como á falta de
    objecto para outros interesses mais elevados, nós occupavamos os nossos
    ocios encostando-nos ás humbreiras das tabacarias a ver dispersar-se no
    ar o fumo dos nossos charutos, as tabacarias comprehenderam que este
    estado geral dos espiritos deveria começar a fatigar os habitantes de
    Lisboa, e dotaram-os com sofás. Para o anno os estancos requintarão
    ainda as condições de commodidade e havemos de ver os estanqueiros
    sairem ao encontro dos desejos do publico com colchões. Chegaremos á
    Casa Havaneza, despir-nos-hemos, poremos a camisa de dormir e fumaremos
    os nossos _carvajales_ deitados em camas, á porta.

    * * * * *

    A ourivesaria do largo das Duas Egrejas teve o successo de uma
    instituição. Ella é como um templo ao luxo, como um altar ao deus Ouro,
    tal como o conceberiam, erigido com todo o esplendor do culto, os
    Pharaós da Rua dos Capellistas. A armação interior da loja é feita em
    Paris segundo os elegantes modelos das joalherias da rua de la Paix ou
    do Palais Royal. Armarios da mais verosimil imitação de ebano sobre um
    parquet brunido. Tecto de um azul idealisado, representando um trecho de
    ceu coberto de creme.

    Nas vitrines, de um só cristal immaculado, desdobram-se em degraus, como
    n'um throno de lausperenne, as prateleiras de veludo cor de cereja, de
    cuja suavidade macia e ardente destacam em vigoroso relevo as joias em
    exposição. A um lado pendem em meada as correntes de relogio exhibidas
    como o corpo de delicto de uma quadrilha de pick-pocket apanhados com o
    roubo. Suspensos nas extremidades das correntes pousam em baixo os
    breloques, n'um grande molho confuso, como se adornassem um collete
    monstro sobre o estomago collectivo e proeminente do capital.

    Nos logares mais proximos de quem olha estão os miudos objectos
    preciosos, as finas pedras raras, os olhos de gato castanhos e amarellos
    em pequenas elypses cujo grande eixo é indicado por uma linha que separa
    nitidamente as duas côres; as perolas negras de um tom profundo, que não
    é o preto, é o infinitamente escuro, como a noite; as perolas côr de
    rosa sobresaindo em cercaduras de brilhantes como capsulas cabalisticas
    feitas de substancias extraidas de uma cristalisação mimosa de beijos
    ternos e de perfumes castos.

    No segundo plano apparecem os ornamentos de mais vulto: os broches
    tremelusentes e vivos como esparrinhaduras de diamantes e de rubis
    chispando no ar; as flores imaginosas de petalas de aljofar ou de
    saphira, orvalhadas de pulverisações de esmeralda; os medalhões em
    camafeus preciosos sobre pedras de tres côres nos tres planos da
    esculptura; as eflorescencias phantasticas das onix, das granadas, das
    malaquites, das opalas; em raios como estrellas, em sobreposições como
    pinhas, listradas, rajadas, mosquetadas, affestoadas, zebradas com todas
    as scintillações do prisma.

    Mais longe offerecem-se os braceletes nos seus estojos côr de lilaz. Uns
    são fortes e duros como os violentos desejos, outros vaporosos e finos
    como aspirações platonicas. Nas suas variadas formas teem physionomias,
    revelam temperamentos. Ha-os lascivos e ardentes, colleados em quatro
    roscas de um ouro fulvo, terminando n'uma cabeça de cobra esmagada por
    um esbraseamento de rubi. Ha-os contemplativos e ingenuos, de uma côr
    limphatica, salpicados de frias e innocentes turquezas. Tambem os ha
    trasbordantes de uma vida farta e victoriosa, largos, rendilhados,
    superabundantes de cores, expansivos e triumphaes como orchestras,
    soprando hymnos de um enthusiasmo sanguineo, vermelho, despotico.

    Em outra vitrine está a exposição das pratas: os centros de mesa
    representando palmeiras, á sombra das quaes se empinam cavallos em
    pello, que deverão parecer relinchar de amor no meio das sobremesas,
    entre as frutas empilhadas geometricamente em pyramide sobre taças de
    filigrana e os gelados transparentes impregnados de luz, tremulos, côr
    de topasio; as bacias de mãos, de desenhos bysantinos _repoussés_; os
    jarros de forma etrusca; os assucareiros graves e concentrados como
    vasos de particulas sagradas; e os grossos bules barrigudos e polidos,
    nos quaes se espelham os rostos em caricatura monstruosa, com bochechas
    obscenas, narizes que incham como focinhos de vitela e bocas que riem
    até as nucas.

    * * * * *

    Ao accender das luzes, ás oito horas e pouco depois, magotes compactos
    de espectadores estacionam defronte da vitrine das joias. Demoram-se
    mais as mulheres: mulheres de amanuenses e de pequenos empregados,
    costureiras das modistas, que saem a essa hora das officinas quando não
    ha serão.

    Candieiros de gaz com fortes reflectores não só alumiam intensamente os
    objectos expostos nas vitrines, mas alumiam tambem pedaços de
    espectadores, em que se podem fazer exames minuciosos, de microscopio.

    As mulheres magras, pallidas, que olham, teem as faces oleosas da
    transpiração do trabalho de 14 horas em pequenos gabinetes abafados,
    cheios de exhalações mornas de roupa suja. Na mão esquerda o dedo que
    aponta para um colar de mil libras tem uma nodoa escura, esfarpada,
    produzida pelas picaduras da agulha, e o dedo polegar mostra uma unha
    curta atrophiada no habito de esmagar costuras. Os chapeus adornam-se
    com velhas flores em terceira mão, desbotadas e tristes; e das cuias,
    caidas sobre a mancha gordorosa que tem entre as espaduas a alpaca poida
    dos vestidos, sae um cheiro acido de cabellos humidos e embrulhados, em
    fermentação.

    Dentro da loja uma bella mulher risonha que se apeou de um coupé,
    embrulhada em fina renda branca, debruça-se no mostrador e aproxima da
    mão do caixeiro que lhe segura um brinco a polpa aveludada da sua orelha
    carnuda, sensual, de comilona feliz.

    Os espelhos dos angulos da sala e os que forram as vitrines reproduzem
    infinitamente para todas as direcções essa cabeça bonita envolta em
    renda, e mostrada ao mesmo tempo de todos os lados, de frente, de
    perfil, de tres quartos, acompanhada sempre da mão que enfia o brinco.

    As macilentas Margaridas de olhos pisados vão ver em cada noite esse
    espectaculo de tentação, em quanto na esquina fronteira, na Casa
    Havaneza, os Doutores Faustos accendem os seus charutos, e muitos
    diabinhos invisiveis volitam no ar dizendo segredos, deitando de fóra
    impudentemente as linguinhas de chamma e coçando os seus piqueninos
    chavelhos com freneticas contracções aduncas, como quem se sente
    inteiramente cheio de phosphoro e de alacridade.

    * * * * *

    A peregrinação a Roma foi promovida pelos chefes do partido clerical com
    um zelo fervoroso, que acabamos de ver coroado com o mais prospero
    exito.

    Suas excellencias annunciáram com a devida antecedencia a celebração do
    jubileu pontificio; facilitaram a romagem com esclarecimentos que fariam
    a gloria do _Guide Joanne_; conseguiram o estabelecimento de comboyos de
    recreio, ida e volta, preços reduzidos, de Lisboa a Roma, com escala por
    Nossa Senhora de Lourdes; deram os preços dos hoteis e dos restaurantes
    romanos, a regimen de peixe ou de carne, para as grandes bolsas, para as
    bolsas medias e para as pequenas bolsas; fixaram finalmente a
    _toilette_, explicando que as senhoras deveriam apresentar-se com
    vestidos de seda preta e véos de renda, e os homens de uniforme ou de
    casaca preta e gravata branca.

    Porque--suas excellencias o explicáram--o santissimo padre não recebe
    senão senhoras de rendas e homens de casaca. Os peregrinos vestidos de
    sacco e burel, as peregrinas cingidas pela estamenha e pela corda de
    esparto, não sobem a escada do Vaticano. Os pés privilegiados para
    pisarem os tapetes do Vigario de Christo na terra são os pés mimosos e
    aristocraticos, calçados em escarpins de setim ou de polimento. Os
    sapatos ferrados dos caminheiros plebeus, as sandalias espalmadas das
    peccadoras que não vem de passeiar em _victoria_ ou em caleche á
    Daumont, de volta do Corso ou do Pincio, mas que chegam das escabrosas
    veredas da miseria; as alpagartas dos penitentes que vieram trilhando
    abrolhos sangrentos no aclive da via dolorosa, são generos de calçado
    expulsos pelos enxota-cães, e expulsos com os respectivos pés, porque
    tambem se não entra descalço no Vaticano como se entra no templo em
    Jerusalem, ou na mesquita de Santa Sophia em Constantinopla.

    Facultados tão interessantes esclarecimentos muitas pessoas partiram a
    receber as bençãos paternaes offerecidas pelo pontifice ás rendas e ás
    casacas pretas do orbe christão.

    * * * * *

    Alguns episodios d'essa piedosa viagem são já do dominio da imprensa. Da
    estação do caminho de ferro de Braga sairam os romeiros entre
    acclamações sympathicas e vivas enthusiasticos á santa religião e ao
    summo pontifice Pio IX. Em compensação na gare do Porto foram os mesmos
    romeiros acolhidos aos gritos não menos enthusiasticos de «Fóra os
    hypocritas! fóra os patifes!» Por este ultimo successo damos a suas
    excellencias os nossos cordeaes parabens, porque suppomos que elles
    viajam com um fim de humildade e mortificação, e que lhes serão
    agradaveis todas as manifestações publicas tendentes a exacerbar-lhes o
    pungimento expurgante das duras penitencias.

    Em Lourdes, refere o telegramma de um sacerdote ao jornal _A Nação_, que
    á vista da gruta toda a romagem rompera em pranto e se prostrára em
    joelhos. Devemos crêr que esta prostração fosse passageira, não só
    porque um telegramma subsequente nos annuncia a chegada dos peregrinos á
    cidade eterna, mas ainda porque em Lourdes a belleza da paisagem, a
    exuberancia da vegetação, o rumor das aguas, as perspectivas sombrias e
    flexuosas da floresta, a clara alegria do restaurante, de gelosias
    abertas, de _stores_ desdobrados ao sol, com a sua grande taboleta _Á
    Notre Dame de Lourdes_, e os seus subtitulos em caracteres appetitosos
    _Diners à la carte et déjeuners à la fourchette,--gras et maigre_, tudo
    convida os espiritos ascetas a uma conciliação amavel com a carnalidade
    mundana.

    Além do aspecto das coisas, as exterioridades das pessoas contribuem
    tambem poderosamente para arrancar os adventicios ás attitudes
    prostradas e contemplativas.

    Os comboyos de Paris chegam e partem cheios de alegres _touristes_ de um
    e outro sexo.

    São graciosas peccadoras com adoraveis _toilettes_ de viagem; chapeus de
    grossa palha de fôrma aguda e aba estreita derrubada sobre os olhos,
    descobrindo a nuca, em que se enrolam as tranças loiras, e a nascença do
    cabello junto do pescoço, com os seus flocosinhos de pennugem crespa e
    doirada penetrada de luz; os vestidos decotados no collo em linhas
    quadradas como os colletes dos devotos bretões; as saias curtas deixando
    ver as meias de seda listradas de azul, e os sapatos de pelle de gamo
    atacados com correntes de aço, que telintam ao andar. Estas gentis
    romeiras abordoam-se a cajados rusticos comprados no _boulevard_ dos
    Italianos, trazem ao tiracollo os grandes rosarios de contas de madeira,
    grossas como bugalhos, terminando em uma cruz egualmente de madeira que
    chega á barra do vestido,--ornato local de um pittoresco picante.

    São os homens de nickerbockar de flanella alvadia e capacetes de sabugo
    envoltos em véos turcos, com uma flor de madresilva na _boutonière_,
    fazendo gelar o champagne e preparando debaixo das arvores os seus
    jantares em _partie fine_, emquanto padres solicitos vendem a agua
    milagrosa, ou aos copos á bica da gruta, ou em bilhinhas de lata
    devidamente lacradas e selladas authenticamente, facultando na igreja
    recantos reservados e escusos para as applicações em banhos parciaes, ou
    em compressas, a orgãos enfermos que as devotas desejem submeter á cura
    nos proprios logares benzidos e sagrados.

    * * * * *

    Em cem contos é calculada a somma dos donativos em dinheiro levada
    pelos peregrinos portuguezes ao Santo Padre.

    É valiosa na occasião presente essa contribuição, porque a historia do
    dinheiro de S. Pedro teve sob a gerencia do cardeal Antonelli episodios
    devastadores. Procurando ha annos o governo de Victor Manuel realisar
    uma operação bancaria destinada a equilibrar as finanças da Italia, o
    cardeal Antonelli, como fino rabula e zeloso ultramontano, concebeu o
    plano de um _coup de bourse_ destinado a combater as intenções do
    governo italiano provocando uma descida que impossibilitasse a emissão
    de novos fundos. Para este fim o astuto financeiro vendeu em massa, pela
    baixa, os titulos da divida italiana que a Santa Sé possuia e que
    representavam o dinheiro de S. Pedro. É porém perigoso, mesmo para um
    italiano, jogar as peras com outro italiano. Na Italia todo o homem
    habil deve estar preparado para encontrar um mais habil que o logre. Foi
    o que succedeu a Antonelli. O seu plano foi estrategicamente
    contraminado pelo governo de Victor Manuel, organisando-se um syndicado
    de banqueiros que despedaçou a armadilha do illustre cardeal.

    O dinheiro de S. Pedro convertido outra vez em metal pela operação
    malograda nos seus effeitos, foi então convertido em fundos turcos,
    operação arrojada mas tão lucrativa que promettia duplicar, em poucos
    annos, o capital empregado, a não ser que um caso, então imprevisto,
    prejudicasse o exito da transacção fazendo estalar no Oriente uma guerra
    inesperada.

    Foi, como se sabe, o que veiu a succeder desgraçadamente para os bens do
    Papa. De sorte que o dinheiro de S. Pedro, piedosamente accumulado pelos
    catholicos para o esplendor da Igreja, achou-se, pela mais estranha das
    coincidencias, consumido em polvora por uma potencia chamada ao fogo
    como perseguidora dos christãos!

    * * * * *

    Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os
    peregrinos levaram, para offerecer a Sua Santidade, um grande album, em
    que vae inserida uma declaração de principios assignada por todos os
    romeiros. Os jornaes que nos transmittem essa noticia não nos dão o
    texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o
    que suas excellencias dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:

    * * * * *

    Santissimo Padre

    Ha hoje quinhentos e setenta e sete annos que o primeira jubileu da
    Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos
    predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.

    Esta solemnidade não tinha por fim, como o anno jubilario do Mosaismo,
    dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos
    seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em
    cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a
    familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo
    que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_
    chamava simplesmente a--_santificação do quinquagesimo anno_.

    O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_),
    preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a
    remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante
    trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um
    dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma
    solemnidade unica na historia--a reunião em Roma do genero humano
    prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo
    final, no valle de Josaphat.

    N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero
    dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar
    cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente
    como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os
    alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para
    albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as
    igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos
    alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma
    fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam
    mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de
    fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a
    sagrada collina.

    Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que
    até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso,
    Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião
    da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho
    de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha
    brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é
    que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»

    Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas
    palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis
    e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para
    arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em
    seu nome e segundo a sua doutrina_.»

    No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de
    prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das
    portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou
    pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si
    a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia
    universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas.
    Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»

    Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos,
    cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon,
    os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das
    suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados
    para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos
    collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo
    ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade
    imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam
    apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada
    a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta
    campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos
    obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no
    _Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com
    as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento
    collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil
    espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada
    de sangue de um gladiador ou de um martyr.

    Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como
    aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam
    desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na
    esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o
    mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os
    homens eram isto?

    Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama
    endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em
    fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de
    Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e
    outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de
    couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de
    palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome
    augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do
    pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era
    já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e
    comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda,
    desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as
    promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as
    vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas
    sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta
    Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador;
    onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas
    guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas
    de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um
    relicario um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo
    determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam
    os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e
    enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.

    N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço
    enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á
    humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores
    revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu
    Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo
    sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com
    a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_

    Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções
    successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem,
    cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando
    sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de
    puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico
    procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus
    exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha
    o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus
    carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os
    seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o
    borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os
    musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno
    que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso
    espremido.

    E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem
    haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem
    uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se
    aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um
    simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas
    deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.

    Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem
    procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O
    que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o
    movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da
    humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu
    de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma
    unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda
    de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de
    paz, de liberdade e de justiça.

    Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na
    zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E
    cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios
    que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia
    caminha.

    É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos
    offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto
    campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas
    superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão
    ser tragados pela vaga.

    Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido
    Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido
    todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova
    comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem
    se quer tenta lutar!

    O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia
    Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e
    promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e
    do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta
    pela existencia.

    Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se
    modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na
    economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na
    poesia, na arte, na moral e na propria religião.

    Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma
    tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a
    noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores
    ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um
    universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um
    dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma
    esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana,
    experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios
    analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus
    não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como
    fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do
    Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios
    de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.

    As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra
    como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda
    edição.

    Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção,
    deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou
    empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por
    exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de
    milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se
    tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo
    estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um
    descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso
    organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia
    de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin,
    basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da
    creação sem quebra da infalibilidade suprema.

    Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o
    unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino,
    porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas,
    reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a
    vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula
    primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que
    se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não
    descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera,
    porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o
    infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.

    Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder
    temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da
    consciencia na comprehensão da solidariedade humana.

    Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o
    genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos
    logares!

    Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós
    outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de
    emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a
    preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e
    pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto
    pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de
    Bulhões.

    Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o
    menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo
    vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa
    pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim
    não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil
    novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a
    indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas
    eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em
    segunda classe!

    Porque elles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo
    Officio deixou de afervoral-os--que não é facil despir os peccados como
    se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as
    chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se
    pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma
    viagem a Roma.

    Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se
    elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o
    padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe
    ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e
    Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as
    indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe
    sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.

    Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da
    auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de
    franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto--o
    poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens
    divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis
    penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e
    inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.

    Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á
    mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque
    obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda
    fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America,
    que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda
    consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela
    porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da
    historia, mas sem a benção dos papas.

    Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a
    este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,--como
    seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma
    confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas
    convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as
    convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das
    occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região
    do globo.

    E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e
    precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa
    era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de
    justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam
    prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.

    Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado,
    perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que
    seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que
    dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o
    vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança,
    vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver
    desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia
    unificada.

    Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam
    os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se
    não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não
    se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de
    victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella
    se distingue do erro e da mentira.

    Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais
    sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os
    sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros
    tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a
    dieta!

    Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só
    os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por
    uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo
    exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exercitos.

    Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os
    diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.

    Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa
    benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos
    concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é,
    como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que
    trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos
    principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.

    * * * * *

    Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de
    tomar a primeira communhão.

    Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza
    a theoria do resgate da culpa pela penitencia.

    A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem
    ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na
    terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo,
    alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da
    benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo
    nas almas dos principes devidamente desobrigados.

    Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente
    esse augusto espectaculo.

    * * * * *

    Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado
    expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.

    Parece-nos--comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente
    timida--que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez
    mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não
    fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma
    distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como
    os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu
    parocho.

    Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão
    as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_
    applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha
    parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas
    suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram
    penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram
    tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar
    que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o
    principe da pureza mystica do manjar.

    A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais
    efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr.
    D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus
    famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.

    Porque--acreditem-o--não é com a presença do illustre e correcto bispo
    portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos,
    com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet
    de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente
    limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar
    á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por
    emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.

    * * * * *

    Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos
    nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á
    mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do
    serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os
    passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e
    quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do
    commandante!

    * * * * *

    Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido
    no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero.
    Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro
    sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a
    condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!

    * * * * *

    A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente
    africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte
    questão:

    O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o
    dominio das nossas colonias?

    Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é
    crear faculdades dominantes.

    Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.

    A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da
    força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma
    conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o
    argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um
    simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a
    sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle
    parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do
    auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.

    Deante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que
    explica o successo de uma empreza difficil e perigosa pela decisão e
    pela firmeza do que a emprehende. A physionomia um pouco espessa e dura
    de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros
    athleticos são para a consideração de todos os inglezes os mais bellos
    attributos de raça, o mais apreciavel caracteristico de uma distincção
    privilegiada. Porque na educação ingleza a saude, o vigor muscular, a
    força physica são o objecto de um culto.

    Nos collegios Eton, Rugby, Harrow, os jogos athleticos, a pella, o
    exercicio do remo, a carreira, o _foot ball_, o _cricket_ occupam todos
    os dias algumas horas de applicação. Duas vezes por semana, quando
    menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercicios
    physicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, deante
    de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate,
    que amparam o vencido, que lhe refrescam com agua as contusões, porque
    estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores
    ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por
    um dos socos do adversario. Toda a creança que se exhime a liquidar n'um
    combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus
    camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jámais um verdadeiro
    _gentleman_.

    Do collegio passam os alumnos creados n'este regimen durante a
    adolescencia para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um
    regimen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as
    equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os
    estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavallo,
    caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e
    dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta annos,
    outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as
    mais severas prescripções hygienicas, submettem-se a uma alimentação
    especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento
    systematico da musculatura. Os principaes divertimentos nacionaes são os
    exercicios de agilidade e de força. Ha _crickters_ que teem ido jogar
    partidas solemnes de Londres á Australia.

    Em Lisboa vivem dois inglezes que vão frequentemente a Cintra a pé,
    levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e
    regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a
    qual teem batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré.
    Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club
    d'aquella cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia
    uma partida de _cricket_. Um dos inglezes a que nos referimos
    sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo.
    Dois officiaes a bordo de um dos navios da ultima esquadra que esteve no
    Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata,
    percorrem todo o enorme edificio do convento, almoçam um bife e voltam a
    pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora
    fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de _soirée_
    e uma rosa de Mafra na casa da farda.

    D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo
    enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por
    emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da
    civilisação africana, poderia intitular-se: _Da influencia do «sport» no
    caracter dos povos exploradores_.

    * * * * *

    A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais
    superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez
    inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores
    inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha
    duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas
    objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a
    si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao
    passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se
    distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes
    extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto
    de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os
    srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os
    srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um
    poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da
    doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos
    simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de
    pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente
    e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil
    encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios
    abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.

    Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos
    nossos descobrimentes e das nossas conquistas:

    Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos
    desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos
    devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque--diz João de
    Barros--_como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava
    em cama, quando mais não podia_. Albuquerque que em saude reunia á força
    physica a grande força moral da alegria--_era homem de muitas graças e
    motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava
    muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,_--assim tocado de morte
    por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães,
    nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da
    administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de
    hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do
    Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus
    navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias
    com o direito por via da conhecida phrase: _mal com o rei por amor dos
    homens, mal com os homens por amor do rei_.

    O infante D. Henrique--segundo o mesmo João de Barros--_tinha largos e
    fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada,
    em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos
    algum tanto alevantados, e o acatamento_ (_por a gravidade de sua
    pessoa_) _um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento._

    Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de
    Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de
    Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em
    carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na
    falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem
    festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e
    representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça,
    _mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes
    trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver,
    porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os
    buscava_. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em
    outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do
    berço usara o officio das armas.»

    Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a
    photographia moderna de um _sportman_ da Grã-Bretanha.

    Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si
    mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um
    sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia
    tornavam-o _proprio para o commando_.»

    O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, _viajou as sete
    partidas do mundo_, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do
    seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e
    pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que
    infundia terror».

    Os corações eram de uma tempera inquebrantavel, hostil á
    sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer,
    Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu
    fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu
    proprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz
    lhe pergunta como viverão d'ahi em diante, Tavora responde-lhe
    duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalavel.

    Os que eram dados ao galanteio das damas commoviam-as mais pela asperesa
    varonil do aspecto do que pela suavidade effeminada das formas.

    Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do
    Palacio, o Magriço diz á loura _miss_ que depois do combate ia
    deitar-lhe agua ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as
    tenho assim tão grosseiras e cabelludas, poderão ser-vos molestas e temo
    que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa ingleza replica fazendo sentir
    ao calejado e cabelludo cavalleiro que a bella mão de um homem é a que
    denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias molles, mas sim aos
    fortes trabalhos que teem como fim a honra e como premio o amor.

    O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D.
    Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o commando
    da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia
    sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquelle o que vá
    descobrir-lhe a India.

    O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta
    para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os
    homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa
    de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e
    espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se
    regresse á patria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do
    motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe
    entreguem «quantas cousas tinham da arte de navegar» sob pena de os
    enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na
    volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres
    nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos
    encommendae e pedi misericordia, e a mim de hoje ávante ninguem me diga
    que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que
    venho buscar, não voltarei nunca mais.»

    Ao que a guarnição se submetteu com a docilidade de quem não tinha senão
    dois caminhos que escolher n'aquella viagem:--o da India ou o da morte.

    O proprio Camões, o immortalisador das façanhas d'essa velha raça, era
    elle mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus
    costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na
    India conflictos arriscados, de cujas ameaças elle sorria dizendo: que
    só era vulneravel pelas solas dos pés e que estas ninguem lh'as vira nem
    havia de ver.

    Em todas as altas figuras do nosso grande seculo se patenteia o typo
    expressivamente caracteristico de uma forte raça privilegiada, hoje
    extincta.

    A Europa sahia apenas do regimen feudal. Conservavam-se vivas no coração
    de todos os fidalgos as tradições da cavallaria. Os besteiros de conto
    eram apenas uma debil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os
    nossos exercitos permanentes.

    Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos
    prasos em que não serviam o rei e a patria batendo-se com inimigos
    extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas.
    Quando não combatiam monteavam.

    Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das
    duras privações.

    Os divertimentos publicos eram ainda os jogos guerreiros: o _tavlado_,
    um exercicio de força, e as _canas_, um exercicio de destreza.

    * * * * *

    A moderna educação portugueza esterilisou a sociedade para o fim de
    gerar homens proprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes
    em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as
    febres dos rios podres.

    Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito
    sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento physico que não só não
    podem levar a sua influencia e a sua dominação intellectual ao interior
    da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascaes se lhes suprimirem
    as facilidades do rebocador ou do carrão.

    Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de
    poucos individuos, e não uma feição do paiz.

    Na Inglaterra pelo contrario o _sport_ está na mesma alma da nação,
    completa o caracter do paiz.

    O principe de Galles readquiriu depois da sua ultima viagem a
    popularidade que antes d'ella tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter
    penetrado na India e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é
    um dos seus mais poderosos titulos á estima publica. O _sport_ é na
    Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a
    Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a
    gloria incomparavel de o poder referir ás sociedades sabias de
    geographia, de zoologia, de botanica, de meteorologia, de anthropologia,
    aos differentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da
    Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de
    curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os
    Pyreneus.

    Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme ecco na opinião e na
    popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de
    explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insufficientes para
    esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geographicas, das
    academias e de todas as agregações artificiaes de alguns individuos; é
    preciso que o grande impulso parta do genio collectivo do povo.

    * * * * *

    O povo pertuguez não está creado para esses movimentos energicos. Era
    uma raça audaz, enthusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos annos de
    uma educação dogmatica e de uma disciplina fradesca.

    Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pae
    fazia navios e em que elle para sustentar a fabrica tem de brandir um
    machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é
    um anemico, que não pode com a sua _badine_. O que ha de fazer?
    Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o
    Martinho.

    * * * * *

    Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo
    o paiz protestam--o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e
    meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo
    livrarias, enegrecem-se com prosa official resmas de papel da Abelheira,
    abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,--tudo para dar
    a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo
    continua nas condições de abatimento em que estava, as quaes não podem
    tornal-o proprio para o dominio, mas sim para a servidão.

    Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o
    espectaculo correspondente na nossa organisação social.

    Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos collegios de
    educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e
    enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com
    falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que
    differença dos collegiaes inglezes, com os seus chapeus de palha, a
    blusa de flanella, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos
    campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade,
    entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus actos, conscientes do seu
    direito e do seu dever como pequenos republicos!

    Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas,
    sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa;
    um joven racional de dez ou doze annos, dos quaes cinco de escola sob a
    pressão dos compendios do sr. João Felix, não aprendeu nada d'isso, e
    precisa de um padre ou d'um aguadeiro que o leve pela mão para
    atravessar a rua!

    Essa miseravel creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não
    quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça,
    que o não deixa metter-se na agua fria para que não se constipe. Era
    melhor que elle tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado
    a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezeseis, e houvesse
    aprendido assim a ser um principio d'homem, do que não ter passado por
    nenhum d'esses desares e ser unicamente um lamentavel boneco, medroso e
    covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade
    que elle tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e
    estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos
    membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de
    mergulho ao ribeiro, apezar dos perigos previstos pela mãe do molestado.

    O primeiro acto da vida civil d'esse sujeitinho consiste em metter
    empenhos para ser approvado em instrucção primaria.

    A primeira gloria da sua existencia consiste em se considerar tão
    importante personagem que sahiu approvado com dez valores, apezar de ter
    passado a metter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse
    orgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas
    do sr. Felix.

    No anno seguinte começa a estudar as linguas e a fumar cigarros ás
    escondidas.

    Penetra finalmente na rhetorica e na leitura dos romances, em que passam
    visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.

    Chega da côr de uma cidra ao fim do curso dos lyceus, tendo, além de
    todos os preparatorios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha
    torcida, algum tedio da vida e muita caspa.

    Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e
    o primeiro effeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é
    augmentar-lhe a caspa.

    Depois a vida academica absorve-o e elle percorre toda a escala das
    nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piugas,
    toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas
    canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e
    regressa a Lisboa bacharel formado.

    Tem vinte annos e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a
    tres individuos;--pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente,
    inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga
    assustada, sorrindo com um agrado pusilanime:--Sr. doutor, imploro
    submissamente a valiosa protecção de v. ex.ª!... Sr. doutor, criado de
    v. ex.ª!... Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor...

    O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do
    pretendente do Terreiro do Paço.

    O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de
    nome: «--Sr. ministro, imploro submissamente a protecção de v. ex.ª...
    Criado de v. ex.ª, sr. ministro... Ex.mo sr. ministro, humilde servo de
    v. ex.ª...» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos
    gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão pelludo ao
    emergir da agua, com o seu velho sorriso deploravel, anediando a copa do
    chapéo com o canhão da sobrecasaca.

    Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos
    passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que
    deseja. Um ministro despacha-o--para se ver livre d'elle. Consegue ser
    empregado publico ou candidato governamental por um circulo do
    continente ou do ultramar.

    Desde então as engrenagens do machinismo official apoderam-se d'elle
    para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade.
    Pertence á grande legião. Vae para onde ella for, diz o que ella disser,
    pensa o que ella pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia
    prefixa do cepo a que o amarraram.

    É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a
    classe dirigente vivem d'este cuidado unico: O cuidado de se não
    comprometterem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas
    opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta official. Se
    alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dyspepsia moral lhes vem á
    bocca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta
    prohibida.

    Como pelo desdem do trabalho vivem n'uma estreiteza pecuniaria visinha
    da miseria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de
    ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e
    acceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia,
    estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem methodo, sem a dignidade
    do conforto e do aceio domestico,--a viva negação de todas as condições
    que tornam a casa feliz e a familia amavel.

    É d'esses consorcios sem idealidade e sem amor, contraidos fóra da mutua
    dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro
    individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os
    filhos dissolutos, os jovens cynicos, desdenhosos das affeições
    honestas, hostis a todos os sentimentos de familia, cujos nobres
    encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.

    D'esses consorcios procedem tambem as meninas futeis e pretenciosas,
    frageis entes inuteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da
    dignidade da mulher--a comprehensão do _ménage_, o culto do santuario
    domestico. Ellas refugiam-se da convivencia antipathica da sua familia,
    constituida sem bases organicas, na religião, ou, para que o digamos no
    termo mais preciso, na _igrejice_, e na leitura dos romances
    sentimentaes. A _igrejice_ e o romance são os dois pólos da sua vida
    moral.

    Como qualquer d'essas meninas desconhece completamente a arte de
    cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caracter, um
    instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao
    cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimavel
    fetichismo dissipador da moda.

    Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da
    felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa
    tradição se aprendem: a arte de se fazer bella pelo simples modo de atar
    uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de
    se sentar n'um _fauteuil_, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte
    de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua
    chimica a alegria e a saude dos seus commensaes; a arte de arranjar a
    casa, de lhe dar physionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir
    idéas, a ter quasi conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos
    armarios as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da
    casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das
    canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e
    solicitarem-nos a permanecer a côr dos cortinados, o tom dos estofos, o
    assumpto dos quadros, a collocação dos moveis, a graduação da luz, a
    frescura do ar, a nitidez geral do aceio e a sabia disposição dos livros
    e dos jornaes sobre o panno da mesa.

    A menina em similhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou
    se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações
    romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua
    melhor maneira de ter um fim, porque, emquanto a ser mãe, prohibe-lh'o
    physica e moralmente a accumulada estreiteza do coração e dos ossos.

    Taes são, no caracter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da
    educação portugueza na classe mais preponderante da sociedade, aquella
    que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com
    similhante estado é irreconciliavel o genio explorador, a tendencia para
    as viagens entre póvos barbaros e finalmente o poder de dirigir e de
    dominar.

    * * * * *

    Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos
    europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se
    com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto
    d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra
    baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.

    Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica
    principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é
    insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que
    se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de
    altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez
    physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e
    desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas
    e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.

    * * * * *

    Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da
    nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.

    Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em
    que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A
    Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria
    piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções
    mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje
    florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com
    grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da
    baleia ao cabo de Finisterra.

    As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do
    bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas
    com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos
    tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes
    pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.

    O governo francez protege, com grandes subsidios na armação dos navios e
    com avultados premios sobre o pescado importado, as suas pescas do
    bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos
    alimenticios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á somma de 17
    milhões por anno. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12
    mil marinheiros.

    Um facto bem notavel e digno de ser ponderado pelos legisladores
    portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França teem sido
    marcado, como a temperatura em um termometro, pelo desenvolvimento ou
    pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação
    communal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a
    corrupção monarchica do regimen despotico; revive deante das medidas
    legisladas pela Revolução.

    Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal
    que os pescadores francezes nos compram com destino ao seu bacalhau. Os
    navios francezes que veem ao nosso porto fornecer-se d'esse genero fazem
    fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o consul
    francez remette ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em
    Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto
    d'onde o navio partiu pelo proprietario responsavel por este imposto.
    D'este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os
    direitos estão pagos na razão de 50 centimos por cem kilogrammas. Quando
    porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado
    nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos
    anteriormente percebidos, não já na razão de 50 centimos por cada cem
    kilogrammas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de
    bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano
    de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.

    Portugal possue no mar dos Açores, segundo a asseveração de varios
    navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra
    Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E
    deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de
    um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as linguas
    constituem um artigo especial presadissimo dos _gourmets_; dos
    intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o oleo
    importantissimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se
    com grande vantagem na pesca da sardinha.

    Apezar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau,
    pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal
    que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar,
    o nosso governo despresa este importantissimo ramo da actividade
    commercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos
    nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca tambem é para
    nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos
    cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos
    na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser
    prohibidas, despovoando as aguas de pequenos peixes insignificantes, que
    pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo
    alimenticio, se tivessemos estudado os nossos apparelhos de pesca e
    soubessemos legislar sobre a dimensão permittida ás malhas das redes. O
    governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração
    colonial, um só instante de attenção.

    O parlamento nomeia em cada anno uma commissão de pescas, que ainda não
    serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de
    peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura
    não tem sido objecto de maiores disvellos que a ictyologia: nem uma só
    medida tomada pelo Estado para repovoar as aguas das nossas costas e dos
    nossos rios principaes; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os
    apparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que
    elle nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.

    Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto
    de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as
    instancias feitas para este fim teem sido inuteis.

    Ha cerca de seis annos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por
    um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano
    prometteu aos pescadores que ia ser concluido o paredão. Até hoje ainda
    se não accrescentou uma pedra áquelle monumento unico do desleixo
    nacional!

    E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr.
    marquez de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua
    eloquente e erudita conferencia ácerca da escola de Sagres, está ali
    vivo ao pé d'esse paredão em ruinas. Ha ahi tres mil homens que em cada
    dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa
    jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais
    robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemiterio da
    freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela
    inclemencia das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas
    mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o
    quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em
    terra um bairro infecto e miseravel. Os cações escalados, destinados á
    alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas.
    Cheios de _vermine_, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo
    quarto, n'uma promiscuidade horrorosa. A terra da patria dá-lhes apenas
    um farol, que elles illuminam á sua custa, e um barco de salva-vidas,
    que elles mesmos tripulam. E é para isso que elles, desgraçados, quasi
    mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto
    annual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo
    fisco.

    Imagine-se como elles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida
    terra da patria!

    A unica vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que
    tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só
    homem para o recrutamento maritimo. Não ha meio algum de os obrigar a
    fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir taes
    amos.

    E eis ahi está o ultimo capitulo na provincia do Minho da historia,
    feita pelo sr. marquez de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes
    fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!

    Como a administração das nossas colonias depende directamente da
    organisação da nossa marinha, como a importancia da nossa marinha
    depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á
    civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando
    conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil
    vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista
    adjunto do museu zoologico, para ir estudar ao longo do nosso littoral a
    industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.

    Comtudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que
    applaudiu como um notavel beneficio patriotico a iniciativa das
    conferencias--um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de
    applauso para a missão do sr. Capello--o primeiro passo para atacar o
    mal na sua verdadeira origem!

    * * * * *

    Do estado verdadeiramente deploravel em que se acha a nossa força
    maritima póde-se ter uma idéa pela recente medida tomada pelo governo de
    convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na
    folha official todas as praças de infanteria ou de caçadores que para
    esse fim se apresentem! O governo tem de um marinheiro esta
    comprehensão:--que elle se fabrica por meio do abono de quatrocentos
    réis por dia dados a um soldado de caçadores!

    Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma
    escolha baseada na côr dos olhos ou na fórma do nariz, que razões podiam
    ter levado o governo a alistar na arma de caçadores um dos seus
    recrutas? Suppomos que estas razões devem ser tiradas das condições em
    que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as
    montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a
    luta com os terrenos escabrosos nas visinhanças das serras. Ora, sendo
    assim, como querem sujeitar á vida sedentaria do mar e á familiaridade
    das ondas esse montanhez, que nunca pegou n'um remo, que chegou das
    Alturas de Barroso, do Marão ou da Serra da Estrella e que sente as
    pernas enferrujadas e o pulmão opprimido desde que não anda mais de uma
    legua por dia trepando saudosamente ás colinas que cercam o logar do seu
    quartel?

    Outro facto não menos expressivo é o que ha pouco tempo se deu com
    alguns guarda-marinhas do nosso conhecimento em estação em Loanda.

    Sabe-se que não ha plantas dos nossos portos da Africa, cuja navegação
    se faz por meio de cartas inglezas.

    Os jovens marinheiros a que nos referimos, impellidos por esta vergonha
    da nossa marinha, quizeram levantar a planta do porto de Loanda.
    Empregaram todos os esforços para obter os necessarios instrumentos, não
    puderam conseguir senão unicamente a offerta de um bote, unico elemento
    de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr á disposição
    d'esses extravagantes. Elles comprehenderam então que não tinham senão
    uma coisa que consagrar aos destinos da patria; não era o talento, não
    era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saude. E foram
    immolar o figado á administração nacional para bordo do seu navio, como
    patos de engorda pregados pelos pés á respectiva capoeira.

    Quando os nossos officiaes teem conseguido arruinar completamente as
    suas visceras na inanição official das nossas estações de Africa, voltam
    doentes á metropole e concluem a missão civilisadora que o paiz lhes
    incumbiu tomando as aguas alcalinas de Vidago.

    As aguas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar.

    * * * * *

    Emquanto estas coisas se passam os inglezes, com um poder creador que
    faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada
    dia pretextos novos para intervirem com o _seu protectorado
    humanitario_ nos negocios do interior africano, e dilatam a pouco e
    pouco a sua occupação e o seu dominio manso sobre o nosso territorio.

    * * * * *

    Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do
    capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as
    auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos
    escravos, que ainda ali vigora.

    Como é que nós respondemos á denuncia d'este facto? Respondemos negando
    a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.

    Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não
    permittido, vejamos quem é o homem que nos acusa.

    Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente
    atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa occidental,
    levado por um intuito exclusivamente scientifico. D'esta viagem, que
    durou quatro annos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do
    oriente com a do occidente por meio da navegação fluvial, aproveitando
    as relações hydrographicas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos
    quaes desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado opposto, ao sul de
    Moçambique.

    Durante esses quatro annos passados entre selvagens, o capitão Cameron
    parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o
    paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o
    mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens
    do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros
    de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem--o doutor
    Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem
    seguil-o a mais do começo d'essa longa e perigosa expedição. Adoecem
    successivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe
    apparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadaver do explorador
    que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos,
    desistem de continuar essa immensa viagem e regressam com o corpo de
    Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.

    Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma
    clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando
    atravez de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortifero,
    deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um
    dos primeiros estadios da sua portentosa peregrinação.

    Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admittimos que saisse da
    Inglaterra com a educação commum de um simples tenente da armada
    britanica. Mas dizemos que uma viagem como a que elle fez, e nas
    condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um
    caracter. Um tal homem não mente. N'elle a mentira seria a refutação de
    todos os principios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas
    as leis da natureza humana.

    Nada mais lastimosamente ridiculo do que a indignação patriotica de
    qualquer dos nossos politicos, chupando auctoritariamente um cigarro no
    Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosphera com balas
    de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo
    para nos informar do que se passa em Africa!

    O que Cameron disse ácerca da escravatura africana na conferencia feita
    em Londres foi o seguinte:

    «Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos
    retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos
    fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro
    dizendo-nos: _Não partaes; Kouaroumba vae chegar com os seus escravos_.
    Depois do meio dia chegou effectivamente Kouaroumba com uma fila de
    cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa,
    trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam
    pelo menos a ruina e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a
    matança d'aquelles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram
    refugiar-se nos juncaes para ali viverem como podessem ou morrerem de
    fome. É para mim fóra de duvida que estas cincoenta ou sessenta escravas
    representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou
    acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham
    presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente
    atadas. Quando ellas affrouxavam na marcha, batiam-lhes
    desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são
    muito brutaes; os arabes pelo contrario tratam geralmente bem os
    escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa
    não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por
    varios motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São
    vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»

    Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.

    Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da
    Africa o trafico dos escravos. Emquanto se não provar manifestamente o
    contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já
    anteriormente ennunciada pelo viajante francez o sr. Jocolliot,
    confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em
    Lisboa em uma carta publicada no _Progresso_ pelo sr. Pinheiro Bayão,
    que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.

    Para factos d'esta ordem os protestos de toda a imprensa[1] e de todo o
    parlamento, por mais unanimes que elles sejam, não teem a natureza de
    uma refutação nem o caracter de uma resposta, são uma pura evasiva
    compacta.

    [Nota 1: Um unico periodico, de que tenhamos noticia, o _Seculo_, de
    Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente
    escripto pelo sr. Correia Barata.]

    A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de
    uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Sciencias
    pelo fallecido naturalista o dr. Bernardino Antonio Gomes. O resultado
    d'essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á
    civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente
    Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a
    contribuição valiosissima com que elle tinha cooperado para o progresso
    da sociedade humana.

    O governo, deliberando tomar officialmente conhecimento dos factos
    referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que
    dar-lhe:--nomear uma commissão de inquerito que syndicasse
    rigorosamente da cumplicidade dos funccionarios portuguezes no
    menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.

    Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ella teria
    procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriotico
    com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido
    o exemplo que lhe fôra dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao
    sr. Cameron as informações que este lhe prestára.

    D'esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do _Times_
    a mais dura e humilhante lição que por via da penna de um jornalista se
    pode inflingir a uma sociedade.

    O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos
    sociaes sempre que elle nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião
    publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais
    sacrilego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a
    politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos
    caracteres publicos em testemunhar a verdade. Todo aquelle que por meio
    da sua palavra ou por meio da sua penna não tem o preciso valor para
    ennunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um
    perigoso inimigo do genero humano. Não queremos para a nossa
    consciencia de escriptor o remorso d'essa voluntaria culpa, e é por isso
    que dizemos aos srs. deputados:

    A verdade, meus senhores, é o que vos disse o _Times_. «A questão, como
    diz o referido periodico, não é se Portugal prestou serviços á causa do
    progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na
    sua linguagem tratando com uma nação alliada e amiga; a questão é se os
    factos são ou não são como recentes viajantes affirmaram que eram. Que o
    commercio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por
    negociantes portuguezes e sob a protecção da bandeira portugueza é
    accusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação
    ficticia ou real, não por patrioticas reminiscencias, nem por uma
    referencia a cumprimentos diplomaticos, mas sim deixando-se de permittir
    que haja materia para que a accusação continue. Sabemos quanto Portugal
    tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos tambem o
    pouco effeito que as suas energicas declarações produziram.»

    Os quatro milhões de vozes de que o paiz inteiro pode dispor, a
    protestarem todas perante o universo, não poderão convencer um só homem
    de que a verdade seja differente do que é. A declamação n'este ponto é
    completamente inutil com outro qualquer fim que não seja um puro
    exercicio de eloquencia nacional.

    Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilisação.
    Vós contribuis apenas para o _Peculio de Oradores_, do sr. João Felix.

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    As Farpas,1882-11_12

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
    mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
    Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
    faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,--com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    --Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    --Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    --Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
    lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    --Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    --Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    --Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    --Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
    mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    --Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo.....

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar....

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
    propriamente--uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

    --Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!... amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
    fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
    _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
    dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?..._

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
    se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    --Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?...

    --Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava....

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    --Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?...

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?...

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    --Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
    templo!...

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
    outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

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    As Farpas, 1873-01_02

    Aproximadamente 16.329 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Janeiro a Fevereiro de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
    partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
    Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
    governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
    portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
    virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos
    estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O
    enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força
    armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
    cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
    personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
    sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os
    srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
    A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
    e Pickuick.

    Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
    se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
    Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para
    findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito
    projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
    egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
    immobilidade oriental.

    Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
    tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
    assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
    paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

    Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
    affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
    que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
    podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
    alargar-se d'estes termos.

    _Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»

    _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»

    Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.

    * * * * *

    Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
    collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
    confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
    reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
    provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
    effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

    As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
    que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
    interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
    d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que
    tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
    maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
    dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
    decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
    luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

    Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
    segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
    desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
    seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
    operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
    pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
    onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
    precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
    assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
    sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
    estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
    sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
    lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
    distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
    suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
    surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
    riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
    rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
    descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

    E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
    tem de aprender a ser digno e honrado!

    * * * * *

    Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
    negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
    administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
    correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
    todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

    Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
    cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
    nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
    para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
    constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
    quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
    da Companhia.

    Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
    erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
    definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:

    «Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
    avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
    revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
    senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
    que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
    se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»

    Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
    srs. deputados votariam calados.

    Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
    que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
    Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
    sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
    propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

    Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
    discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
    republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
    todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
    é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
    bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

    Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
    constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
    interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
    tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
    povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
    distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
    parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
    fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
    symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
    trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
    problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
    parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
    em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
    defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
    tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
    especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
    em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
    constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
    é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
    ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
    pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
    declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede
    viveres.»

    Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
    obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
    fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
    governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
    aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
    catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
    absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
    o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
    e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
    esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
    por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
    quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
    tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
    depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
    fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
    Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
    socego e da ordem.

    Hoje porém:

    Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
    vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

    Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
    mesmas;

    Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
    transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
    a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

    Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
    impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
    via da eleição representem a vontade popular:

    Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
    póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
    considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
    de poder que ellas asseguram ao povo.

    Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
    uma monarchia parlamentar.

    A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
    por chefe do poder executivo--um presidente eleito.

    A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
    povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
    executivo--um rei hereditario.

    O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
    republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
    monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
    responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
    dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
    liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
    para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
    tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
    tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
    suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
    N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
    grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
    monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
    de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
    reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
    de juizo para governar.

    Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
    das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
    nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
    Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
    monarchia representativa.

    A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
    de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
    politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de
    quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um
    presidente eleito.

    O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
    funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
    affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
    soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
    Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
    ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
    d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
    que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
    expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
    para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
    França poderia introduzir na organisação do trabalho.

    A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
    vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
    defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o
    constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
    nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

    Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
    que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
    escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
    relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
    distincção: um e outro affirmam um governo livre.

    A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
    é:

    Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
    verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

    Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

    Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
    a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
    pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
    dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
    guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
    Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
    a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
    reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
    physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
    pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
    Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
    manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os
    unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
    de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
    não seja--a de desafinarem.

    Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
    de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
    livre sob a monarchia portugueza.

    Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
    correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
    dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
    ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto
    existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
    para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
    deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
    elle encerra....

    E que digamos a suas excellencias:

    Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
    egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
    verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
    governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
    eleitos.

    Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
    o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
    governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
    mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
    constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
    mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
    eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
    monarchia parlamentar.

    Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
    republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
    regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
    monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
    exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
    exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
    portuguez?

    Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
    republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
    por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
    Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
    moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
    tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
    representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
    da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
    independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
    monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
    srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
    sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
    voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
    pedirá--herva.

    * * * * *

    Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
    deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
    camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
    suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
    as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
    á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
    onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
    onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
    fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
    que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
    effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
    capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
    republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
    complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
    excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
    representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
    não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
    representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
    dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
    os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na
    republica, e teremos--a escravidão na monarchia.

    * * * * *

    Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
    uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
    patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
    e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia
    e que parece não ter caracter.

    Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
    parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
    arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
    elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
    cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
    sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
    tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
    na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
    quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
    _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
    essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

    Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
    D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
    corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
    o machinismo constitucional.

    Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
    liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
    todo ha um surdo descontentamento geral.

    Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
    prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
    como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
    grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
    que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
    differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
    a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

    Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
    divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
    paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
    entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
    convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
    elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
    seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
    que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
    seccas.

    Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
    perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
    na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
    maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
    governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
    promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
    de fadiga, apupado e corrido.

    Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
    constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
    poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
    alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
    burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
    amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
    crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
    satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

    O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
    altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
    estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
    militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
    da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
    que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
    paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

    A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
    direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
    sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
    direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
    obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para
    discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

    O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
    hypothecada.

    Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
    instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

    Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
    ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
    riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
    dando dinheiro e recebendo papeis.

    A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
    seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
    agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
    bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
    qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
    muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
    laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
    dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
    elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
    suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
    o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
    finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
    dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
    tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
    justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
    sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
    ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
    necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
    simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
    nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
    sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
    tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
    typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
    e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

    * * * * *

    A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
    despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
    pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
    ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
    religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
    dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
    assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
    lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
    lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
    mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
    e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
    similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
    consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
    religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
    se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
    delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
    eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
    que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
    responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
    o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
    sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
    liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

    Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
    interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
    noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
    elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
    conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
    rebaixa.

    * * * * *

    Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
    bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
    tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
    servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas;
    faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
    e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
    proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
    passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
    então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
    interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

    Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
    apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
    mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
    baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
    mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
    grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
    a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
    sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
    a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
    para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
    precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
    a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
    maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
    discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
    _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

    Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
    regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
    Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
    na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
    sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
    novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
    se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
    a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
    saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
    perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

    * * * * *

    O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
    republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
    nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
    norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
    necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
    que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
    não seja para nós um irremediavel perigo.

    Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
    immediatamente de manter os abusos.

    Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
    melhor politica.

    Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
    longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
    é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
    reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

    Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
    politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
    inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
    como se é homem de bem.

    Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
    e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
    d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
    partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
    governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
    possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
    opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
    oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
    falta da virtude.

    Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

    Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
    probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
    publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
    que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
    homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
    poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
    corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
    que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
    pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

    Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
    desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
    gangrena e a dissolução latente do estado.

    Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
    virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
    popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á
    conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

    De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
    de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
    comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
    liberdade.

    Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
    nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
    acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da
    perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
    entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
    actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
    aos negros e dar a paz á America.

    * * * * *

    Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
    fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
    influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
    mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
    se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
    prudente e justo.

    No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
    conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
    livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
    despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
    nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
    geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
    sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
    mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
    condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
    segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
    sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
    facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
    jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
    social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
    demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
    Theagenes em Megara.

    O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
    ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
    Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
    que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

    Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
    constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
    desfallecimento e a morte.

    Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
    forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse
    principio sob a sua forma philosophica--na razão.

    * * * * *

    O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
    colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
    intelligentemente armadas e equipadas da Europa....

    A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
    ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
    gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que
    as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
    depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
    o jornal e tomar o café--para os estribos.

    O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
    acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
    desde hoje e para todo sempre invenciveis.

    Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
    dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
    soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
    artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
    com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
    freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
    scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
    nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os
    pés!

    De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
    branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
    abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
    saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
    pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
    de piugas.

    * * * * *

    Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
    que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
    do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
    infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
    pés quentes!

    Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
    sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.

    Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
    estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
    sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés
    quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!

    * * * * *

    Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
    de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
    qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
    Tavira_.

    Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!

    Eis a moção:

    «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
    dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
    manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
    ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

    Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
    os srs. deputados.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

    «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
    noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
    independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
    está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
    constitucional.»

    Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
    juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
    qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
    garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
    ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
    Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
    apparecer.

    E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
    illibados.

    * * * * *

    Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
    referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
    desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
    destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
    ha dois annos.»

    Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
    tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
    queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
    da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
    illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
    collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

    «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
    criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
    espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
    independencia, e passa á ordem do dia.»

    Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

    Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
    Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

    * * * * *

    Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
    Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
    Palhés e a villa de Mangualde.»

    Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

    «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
    desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
    passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»

    * * * * *

    Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
    ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
    ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
    crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
    tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
    crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o
    que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

    * * * * *

    Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
    Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

    No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
    que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não
    certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

    O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
    moção:

    «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
    tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
    instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
    camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
    camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
    as instituições.»

    Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
    correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
    independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
    camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
    instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

    O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
    conspirações continuadas.

    O partido historico caiu victima de uma conspiração.

    O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
    Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
    ao mais a que se podia chegar_.»

    Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
    partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!

    * * * * *

    Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
    luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
    espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
    Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
    artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
    Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
    pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.

    * * * * *

    Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
    funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
    Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
    faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
    conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
    senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
    povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
    trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
    estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
    funeral.

    Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
    longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
    imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
    entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
    multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

    Dizia-se fallando-se d'ella:

    «Deixou pouco.»

    «Que fez ella ao que tinha?»

    «Que miseravel! que mesquinha!»

    E um jornal catholico escreveu:

    «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
    cautellas de vinte e cinco.»

    Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
    homens deseguaes.

    Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
    acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
    pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
    deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

    Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
    levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
    silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
    flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
    passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
    suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
    o descanço eterno.

    E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
    que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
    nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
    encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

    As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de
    imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
    interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
    ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
    de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
    escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
    ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
    soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
    lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
    ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
    triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
    similhantes condições e com eguaes amarguras!

    Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
    suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
    descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
    gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
    devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
    considerar-se menos que quaesquer outros.

    * * * * *

    É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
    mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
    sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
    circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
    alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
    proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
    Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
    illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
    pela mulher digna e virtuosa que morreu.

    * * * * *

    Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
    perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
    reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
    insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
    feridos e dois mortos.

    Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
    programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
    ninguem era ferido.

    Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
    levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
    algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
    de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
    illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
    acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
    satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
    recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
    sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
    jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
    preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
    multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
    a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
    para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.

    Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
    usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
    perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
    desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
    delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
    delicto? _«Por abuso de defesa»_.

    Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
    caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
    atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
    defeza_.

    * * * * *

    Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
    clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
    armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
    Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
    desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
    pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
    contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
    Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
    por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
    espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
    Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
    rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
    barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
    momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
    musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
    diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
    uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
    d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

    E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!

    Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

    Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...

    Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
    energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
    nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
    Melicio vela!

    * * * * *

    A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
    politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
    gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
    vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
    para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
    de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
    meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
    rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
    de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.

    * * * * *

    Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
    patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
    governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
    entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
    provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
    phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
    alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
    verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
    ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
    Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
    Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
    rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

    O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
    encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
    sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
    barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
    deputado, com voz pausada e firme disse:

    «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
    espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
    a quem verdadeiramente podemos chamar ...»

    Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
    bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
    bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
    momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
    multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
    tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
    um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

    O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
    verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
    apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
    Vozes: Muito bem! muito bem!)

    * * * * *

    Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
    presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
    quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
    das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
    eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

    Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
    provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
    arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
    commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
    vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
    espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
    que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
    vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
    á beira dos golphos innundados de azul ...

    Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
    a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
    monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
    Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
    tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
    occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
    _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
    deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
    prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
    ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
    por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
    com brisa fresca!_

    * * * * *

    Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
    vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
    camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
    evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
    que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
    phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
    proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
    nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
    modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
    seguintes:

    Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
    inspirada voz!

    Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
    assembléa, labio tão selecto como attico!

    Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
    ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
    amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

    Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
    por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
    immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

    (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
    estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
    monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

    Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
    comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...

    (Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
    Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
    outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
    d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
    são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
    porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
    interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
    malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
    emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
    badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
    luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
    mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
    commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
    amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
    desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
    um desconhecido).

    * * * * *

    _Áquelle que jurou assassinar-me_

    Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
    obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
    a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
    prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
    posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
    consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
    regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

    «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
    sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
    Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
    ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
    manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
    fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
    cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

    Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
    mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
    particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
    indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
    desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
    de occupar-se do caso.

    Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
    que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
    Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
    de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
    pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
    o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
    momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
    atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

    Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
    poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
    assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
    viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

    Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
    sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
    opinião:

    Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
    obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
    uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
    concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
    convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
    me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
    empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
    o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
    momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
    conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
    Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
    o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
    barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!

    Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
    apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
    vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
    ordinariamente comsigo.

    Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
    da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
    fecha o discurso.

    Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
    assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
    que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
    que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
    violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
    e o jornalista Courrier.

    Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
    dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
    de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
    obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
    trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

    Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
    coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
    mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
    pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
    correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
    felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
    implacaveis da desgraça!

    No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
    inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
    o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
    uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

    Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
    completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
    affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
    sentia a displicencia, a melancholia.

    Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

    Vermes!

    O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
    existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
    começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
    com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
    aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
    parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
    como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
    a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
    mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
    tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
    golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
    é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
    vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

    Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
    allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

    E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
    o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
    de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
    ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
    para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
    que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
    terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
    mas discreta.

    A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
    elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
    mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
    um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
    que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
    caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!

    Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
    zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

    --Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

    --Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...

    --O que trazia o bigode assim?...

    --Esse mesmo!

    --Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...

    E algumas outras coisas doces e impereciveis.

    E do meu amigo dirão apenas:

    «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

    Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
    agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
    tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
    isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
    Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
    consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
    designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
    directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
    os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
    branco.

    * * * * *

    Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
    encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
    promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
    soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
    civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

    Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
    de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
    perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
    sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
    os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
    nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
    redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
    emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
    mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
    na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
    figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
    selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
    encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
    instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
    ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
    de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
    o vate:

    _Aos infieis, senhores, aos infieis!_

    * * * * *

    D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
    resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
    individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
    ministro do reino.

    O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
    ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
    ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
    camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
    pasta para ir adoptar o seu livro.»

    O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
    aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
    pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
    de membro do actual gabinete.

    É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
    elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
    represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
    para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
    poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
    colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
    passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.

    O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
    iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
    ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
    fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
    o chão.

    Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
    ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
    guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
    papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
    que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
    era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

    Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
    mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
    amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
    sorrisos, com a malevolencia das allusões?

    Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
    de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
    amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
    desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

    Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
    que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
    covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
    respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
    salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
    de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
    contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
    bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
    que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
    domestica.

    A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
    fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
    _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
    publica da sua virtude.

    Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
    reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
    a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
    As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
    ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

    Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
    paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
    ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
    Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
    dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
    Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
    marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
    eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
    pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
    do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

    Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
    interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
    inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
    viveu.

    Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
    passado no mundo.

    O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
    venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

    * * * * *

    Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
    luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
    _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
    periodicos portuguezes são--anonymos.

    * * * * *

    Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
    que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
    alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
    escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
    que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
    este:--não assignar.

    Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
    assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
    Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
    declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
    responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
    effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
    as antipathias que tenha podido suscitar.

    Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
    portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
    mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
    tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

    * * * * *

    A primeira razão por que se não assigna é esta:

    A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
    convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
    de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
    machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
    lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
    eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
    muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
    N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
    dignidade e da razão.

    Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
    perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
    firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
    transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
    necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
    _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
    resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
    imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
    opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
    catastrophe para a justiça.

    Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
    apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
    sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
    entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
    naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
    dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
    que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
    quanto mais se lê peor se escreve.

    Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
    assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
    immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

    Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
    publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
    Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
    durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
    que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
    dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
    jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

    Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
    que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
    apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
    quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
    que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
    me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
    _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
    foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
    salchicheiro.

    Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
    respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
    socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
    que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
    receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
    magnezia.

    * * * * *

    Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
    Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
    representativo nacional.

    Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
    abalisam uma época, enquadram um seculo.

    Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

    «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
    sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
    determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
    respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
    para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
    principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
    geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
    frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
    isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
    nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
    e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
    mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
    detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»

    * * * * *

    O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
    teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
    historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
    posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
    fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
    Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
    contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
    guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
    historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
    actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
    varões extraordinarios!

    No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
    vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
    pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
    scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
    ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
    estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
    barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
    nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
    publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

    Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
    espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
    as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
    se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
    destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
    esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
    correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
    suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
    ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
    nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
    solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
    Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
    nunca!»

    Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
    geographia--e á canalha!

    Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
    cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
    unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
    Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
    isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
    pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
    tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
    perra vil!

    E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
    os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
    devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

    Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
    benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
    peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
    congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
    a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
    cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
    tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

    Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
    de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
    botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
    ôlho de perdiz!

    Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
    extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
    peninsulas!

    * * * * *

    Agora--Barros.

    Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
    Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
    consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
    o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
    phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

    Como o explica, como o justifica elle?

    Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
    occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!

    * * * * *

    Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
    attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
    sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
    magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
    dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

    «Elle tem alguma coisa na cabeça!»

    Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
    excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
    celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
    parisiense de Champfleury!

    Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
    um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
    é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
    trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
    intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

    Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
    simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
    o povo--e o passarinho!

    Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
    conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
    civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
    arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
    pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
    Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
    que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

    Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
    como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
    sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...

    Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
    bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
    lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
    toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
    portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
    laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
    suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
    tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
    corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
    amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
    questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
    amplidões do azul em phantasticos arabescos....

    E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
    magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
    que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
    andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
    evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
    carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
    que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
    paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

    Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
    Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
    Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

    * * * * *

    Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
    homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

    Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
    profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
    e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
    manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
    comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

    O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
    recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
    saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

    Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
    visitas n'um só bote!

    E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
    discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

    * * * * *

    Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
    menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
    homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
    portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!

    Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
    Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
    simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
    extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
    elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
    pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
    para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
    elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
    maiores!

    O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
    heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
    ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
    parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

    * * * * *

    No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
    caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

    Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
    fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
    um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
    charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
    algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
    extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
    novos ceus, novas floras e novas faunas.

    Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

    Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
    oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
    pessoas.

    Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
    nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
    com a Russia européa.

    Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
    felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
    deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

    Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
    thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
    gelados nove mezes por anno.

    Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
    Strelitz.

    Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
    Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
    caravanas do chá....

    E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
    comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
    como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
    soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
    letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
    litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
    no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
    subditos do grande Filho do Ceu.

    E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
    espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
    caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
    expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
    fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
    galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
    baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

    E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
    Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
    atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
    barril immundo para um fino cristal facetado!

    * * * * *

    A camara dos srs. deputados....

    Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
    deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
    encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
    se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
    como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
    cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
    freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
    apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
    permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
    desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
    aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
    que palpita, ao longe!

    E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
    abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
    estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....

    A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
    civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
    leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
    realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
    um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

    Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
    barril, uma pipa ou um tonel!

    E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
    problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
    camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
    revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
    qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

    «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
    antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
    vasilhas.»

    Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
    a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
    da Europa a este milagre:

    _Engarrafar vasilhas_.

    * * * * *

    E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
    parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
    uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
    vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
    das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
    aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
    bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
    perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
    camoeza!

    Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

    Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
    coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
    d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
    seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
    um capitalista ou um sabio.

    Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

    Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

    Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
    leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
    habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.

    Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
    grande.

    Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
    grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
    no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
    meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.

    Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
    trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
    teu voltarete.

    Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
    se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
    um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
    si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
    outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
    suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
    narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
    barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
    cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
    triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
    veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
    verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
    das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque
    elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
    orthographia, nem mão de redea!

    O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
    como o foste--na politica! Não tornes cá.

    Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
    beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas
    moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
    discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:07 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)

    Aproximadamente 16.210 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO X

    Agosto a Setembro 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P. J. Proudhon

    SUMMARIO

    Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
    critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
    influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
    mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
    altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
    d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
    d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
    cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções
    musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
    valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
    Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
    feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
    estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
    afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.

    O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
    pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
    14 de setembro de 1877.

    Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
    de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
    terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.

    Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
    inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
    do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
    o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
    inimitavel mestre.

    O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
    Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.

    * * * * *

    Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
    existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
    espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
    d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
    passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
    rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_

    * * * * *

    Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
    Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
    importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
    enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
    o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
    o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
    denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
    dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
    d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
    admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
    nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
    ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
    hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
    do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
    aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
    época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
    sociedades vivas a elaboração do progresso.

    * * * * *

    Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
    sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
    genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
    sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
    universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
    sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
    projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
    em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
    prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
    seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

    O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
    solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
    vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
    multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
    traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
    sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
    aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
    sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
    de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
    divina verdade.

    * * * * *

    A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
    comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
    das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
    auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
    reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
    naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
    tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
    uma catastrophe para a geração moderna.

    Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
    alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

    Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
    firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
    expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
    enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
    deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
    prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

    A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
    ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
    tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
    cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
    batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
    da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
    o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
    patifes, com os seus pés miseraveis.

    A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
    socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
    impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
    cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
    d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
    chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
    depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
    recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
    este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
    constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

    A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
    que a devia prender estreitamente á grande alma popular.

    A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
    e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

    Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
    Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
    movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
    importantemente o nosso estado social.

    Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
    poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o
    partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
    depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
    portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.

    Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
    instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
    propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
    convivencia e pela cultura da historia.

    Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
    tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
    inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.

    Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
    fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
    sentimento nacional.

    * * * * *

    Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
    missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
    seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
    intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
    seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
    dotára.

    Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
    todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
    social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
    mão.

    Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
    combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
    muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
    tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
    longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
    de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
    dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
    de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
    todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
    pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
    poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
    sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
    poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.

    Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
    decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
    lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
    d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
    na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
    similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
    peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
    invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
    profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
    admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.

    Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
    d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
    todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
    cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
    dirigentes, não tem esse direito.

    A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
    cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
    devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
    dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
    condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
    linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.

    E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
    têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
    sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
    submetter-se aquelles que estão vivos.

    A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
    a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
    estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
    confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
    de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
    isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
    social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.

    O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
    não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

    Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
    consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
    trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
    vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
    humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
    desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
    instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
    com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
    desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
    dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
    dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
    de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
    sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
    indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
    arduo e penoso rumo do dever.

    * * * * *

    Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
    fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
    admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
    monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
    está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.

    Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
    como um de seus membros, eis o que proporiamos.

    * * * * *

    A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
    _Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
    quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.

    Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
    deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
    portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
    philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das
    côrtes de Lamego.

    O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
    aspecto,--o aspecto das nossas superstições.

    As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
    da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
    suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

    De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
    nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
    profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
    tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
    e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
    estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
    do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

    Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
    Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
    qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
    scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
    historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
    leis fundamentaes da nossa evolução social.

    A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
    publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
    perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
    Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
    desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
    seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
    dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
    mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
    Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.

    * * * * *

    Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
    os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
    mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.

    CAPITULO I

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
    secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
    passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
    companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

    CAPITULO II

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
    serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
    afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
    Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
    medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

    CAPITULO III

    Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
    secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
    infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
    Quatorze e por Cysne innarravel.

    CAPITULO IV

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
    comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
    Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
    Jubilo povo augmenta.

    CAPITULO V

    Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
    petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
    momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
    _touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
    meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

    CAPITULO VI

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
    Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
    Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
    povo.

    CAPITULO VII

    Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
    phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
    maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
    povo.

    CAPITULO VIII

    Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
    tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
    acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
    monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
    fôr.

    CAPITULO IX

    Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
    rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
    pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
    zenith.

    CAPITULO X

    Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
    phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
    excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
    impossivel descrever palavras humanas.

    CAPITULO XI

    Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
    liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
    Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
    delirante.

    CAPITULO XII

    Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
    que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.

    CAPITULO XIII

    Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
    passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.

    CAPITULO XIV

    Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
    atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
    da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
    Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
    são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
    pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
    vertiginoso.

    CAPITULO XV

    Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
    augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
    Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
    defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.

    CAPITULO XVI

    Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
    Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
    precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
    vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.

    CAPITULO XVII

    Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
    Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
    bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
    adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
    medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.

    NOTAS

    AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

    A

    _Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
    Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
    explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
    reproduzidas.

    Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
    dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
    magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
    que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
    matta.

    Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
    e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
    dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.

    O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
    immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
    do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
    residencias de suas magestades.

    Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
    bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
    no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
    perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
    praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
    facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
    nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
    solução d'este problema:

    Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
    Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
    Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
    quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
    lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
    de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
    tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
    vezes sem se destapar o tacho;

    Pergunta-se:

    Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
    Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
    faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
    e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

    Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
    reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
    Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
    queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
    d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
    em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
    publicas o sr. estofador Alcobia.

    O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
    ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
    com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
    excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
    forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
    especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
    peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.

    E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
    da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

    B

    _Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
    liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
    detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

    El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
    dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
    magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
    vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
    de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
    ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
    adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
    pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
    honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
    encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
    em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
    precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
    se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
    deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
    referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
    asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

    Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
    dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
    de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
    magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
    de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
    encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
    um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
    se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
    E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

    --Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
    de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
    lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
    seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
    Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
    aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
    eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
    blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
    tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
    confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
    trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
    homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
    como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
    obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
    fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
    e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
    conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
    cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
    qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
    a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
    dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
    fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
    mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
    mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
    reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
    pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
    te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
    pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
    trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
    sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
    és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
    immunda.

    Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
    rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
    praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
    cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
    terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
    moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
    rapazes onde era a escola.

    Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
    apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

    Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
    habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
    serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
    rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.

    São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
    ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
    successivo das cadeias e dos hospitaes.

    Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
    embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
    pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
    uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
    forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
    medas ou a debulhar o milho.

    Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
    dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
    chamar:--o premio Monthyon da malandrice.

    * * * * *

    Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
    acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
    da corôa, o sr. Barros e Cunha.

    Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
    respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
    phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
    pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

    Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
    intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
    do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
    inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
    desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
    com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
    Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.

    * * * * *

    Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
    antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.

    Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
    pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
    a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
    na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
    sabia inglez.

    Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
    declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
    camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
    tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
    a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
    determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
    litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
    sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
    ex.ª.

    Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
    legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
    da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
    sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
    palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
    como a de quem falla por um nariz de assucar.

    No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
    partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
    acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
    roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
    signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
    seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
    irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
    incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
    os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
    passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
    beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
    do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
    carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
    das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
    todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
    lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
    ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
    fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

    Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
    carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
    colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
    quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
    no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
    adormecida.

    Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
    circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
    indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
    Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.

    Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
    parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
    com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
    vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
    consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.

    * * * * *

    Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
    novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
    «caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
    tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
    servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
    adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
    corôa.

    Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
    commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
    obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
    mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
    popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.

    Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
    imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
    Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
    dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
    houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
    e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.

    No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
    actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
    a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
    momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
    cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
    liberdade.

    Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
    zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
    conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
    hebdomadarias:

    S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
    Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
    hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
    madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
    á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
    lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
    A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
    momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
    hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
    ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
    barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
    estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
    dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
    recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
    A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
    familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
    na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
    hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
    real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
    pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.

    * * * * *

    Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
    collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
    Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
    digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
    pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
    ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
    de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
    espinha de cebo.

    Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
    vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
    35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
    progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
    concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
    parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
    não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
    de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
    fardamento, uma calva e uma nodoa.

    Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
    do seu zelo como novo aulico.

    Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
    arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
    mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
    expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
    magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos
    outros.

    Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
    absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
    donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
    reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
    monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
    mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
    modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
    Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
    passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
    acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
    com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
    segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.

    Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
    determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
    manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
    importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
    em um dos lanços da estrada alludida.

    * * * * *

    Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
    cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
    conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
    algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
    e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
    no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
    começamos por transcrever:

    «Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
    contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
    obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
    fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
    considerando:

    «1.° Que esse contrato se encontra viciado;

    «2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
    regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

    «3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
    a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
    empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;

    «4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
    adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
    governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
    condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:

    «Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
    procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
    observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
    para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.

    «O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
    districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
    officio datado de 26 de junho ultimo.

    «Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._

    «Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».

    * * * * *

    Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
    contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
    governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
    ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
    Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.

    O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
    contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
    Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
    contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
    governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
    contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
    juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
    portaria, um contracto de similhante natureza:

    O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:

    _Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
    constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
    governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
    que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
    os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
    Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
    praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
    contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
    outro que o prejudica.

    A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
    intervenção do sr. Burnay.

    A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
    porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
    os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
    perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
    fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
    estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
    contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
    d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

    As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
    como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
    da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
    réis é uma calumnia.

    Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
    deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
    sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
    ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
    fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
    mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
    que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
    que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
    não do individuo com quem elle contractou?

    Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
    similhante arbitrio?

    Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
    interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
    governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
    contractado?

    Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
    ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
    governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
    delicto egual ao da camara?

    Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
    industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
    portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
    apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
    governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
    tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
    fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
    petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
    calumniosa, e infamante.

    É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
    arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
    cidadãos.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.

    A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
    commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
    poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
    liberdade e contra a propriedade de um cidadão.

    Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
    reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
    direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

    A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
    não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
    elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
    calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

    «A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
    o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
    submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
    do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
    consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
    omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
    satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

    Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
    responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
    perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.

    * * * * *

    Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
    não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
    simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
    primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
    cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
    elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
    Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
    pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
    preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
    modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
    elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
    centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
    lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
    mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
    que os estados se moralisam e se enriquecem.

    Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
    impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
    aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
    constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
    exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
    exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
    coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
    outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
    governa.

    * * * * *

    Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
    producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
    maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
    offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
    suas faculdades não lhe permittirão defender-se.

    D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
    deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
    trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
    mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
    nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
    pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
    violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
    explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
    condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
    de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
    feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A
    logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
    ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
    ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
    ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
    pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
    tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
    baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
    de zabumba em theatro de feira.

    E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
    destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
    Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
    util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
    ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria.

    Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
    modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
    para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.

    Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
    mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
    anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
    desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
    seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
    extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
    elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
    por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
    sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
    s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
    um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
    precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

    A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
    ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
    preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
    tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
    coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
    piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
    das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
    forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
    mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
    satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
    querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.

    Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
    desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
    não fizeram senão prejudical-a.

    Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
    differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
    o mesmo.

    * * * * *

    O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
    periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
    mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
    attenção que lhe é devida.

    * * * * *

    _As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
    principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
    as fontes da inspiração artística.

    Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
    orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
    aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a
    força da pancadaria.

    Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
    fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
    são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
    passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
    juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
    policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
    respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

    Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
    acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
    que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
    policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
    conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
    quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
    onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
    essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
    suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
    transformar o paiz n'uma almondega.

    Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
    clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
    regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
    vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
    publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
    com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
    cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
    Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
    render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.

    As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
    insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
    canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
    suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
    victimas.

    Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
    popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
    polka.

    Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
    propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
    e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
    o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
    legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
    o caso em musica e em dansa de roda!

    Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
    ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
    rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
    simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
    soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
    actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
    pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
    presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
    tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
    uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
    todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
    o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
    nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

    Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
    chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
    mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
    primeira!

    Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
    cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!

    Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
    não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
    que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
    sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
    tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
    arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
    terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
    delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
    philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
    Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
    tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a
    musica_.

    Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
    costume, despicaste-te com uma polka especial.

    As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
    indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
    santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
    de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
    Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
    que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
    expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
    Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
    essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
    campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
    habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
    semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
    polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

    O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
    appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
    instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
    vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
    democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
    clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
    tyrannia a vindicta dos povos.

    Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,
    ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...
    Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
    panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!

    Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
    terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_

    * * * * *

    O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
    operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
    partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
    peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
    ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
    ellas_!

    Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
    Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

    Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
    perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
    caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
    não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

    Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
    as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
    interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
    Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
    seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
    spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
    das Mercês.

    * * * * *

    _A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
    periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
    piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_

    Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
    penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
    comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
    Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
    cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
    alliança da religião e do _chic_.

    Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
    completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
    inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

    --Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
    impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

    E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
    os olhos ao céu.

    --Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

    E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
    deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
    o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
    mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
    chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
    exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
    pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
    e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
    conversaremos:

    --Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
    coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

    --E começa a ter crenças?

    --Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
    Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
    Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
    meu anjo da guarda!...

    --Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
    indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
    uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
    Pontifice, não acredita?

    --Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
    coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
    Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
    seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
    Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
    mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
    disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
    perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
    blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...

    --Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
    nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

    --Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
    joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
    cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...

    --Deus do céu!

    --Entre a costelleta e a omelette...

    --Virgem Maria!

    --Misturada com vinho de Pauillac...

    --Santos e Santas da côrte celeste!

    --Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...

    --Mas vae para o inferno essa alma!

    --Está claro que sim. E é bem feito!

    --Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

    --Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
    todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
    amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!

    --Amen! Amen, Jesus Maria José!

    Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
    Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
    ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
    entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
    nossas soirées ao divino.

    * * * * *

    Aos srs. advogados

    Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
    onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
    Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
    mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
    ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
    pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
    aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
    da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
    perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.

    De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
    cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
    cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

    Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
    de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
    metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
    embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
    meu varapau.

    Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
    velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
    adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

    Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
    obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
    postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
    para o outro dia.

    É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
    os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
    regras.

    * * * * *

    Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
    mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
    familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
    srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
    machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
    elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
    como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
    advogado para que este o illucide.

    Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
    ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
    mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
    especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
    elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
    chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
    que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
    da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
    do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
    policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
    desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
    o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

    --Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
    papel official.

    --Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
    nos olhos, atando as mãos na cabeça.

    --Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
    apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
    tinha alma de lhe beber o sangue!

    Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
    a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
    filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
    administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
    pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
    fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
    com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
    para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
    mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
    pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
    tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
    custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
    as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.

    Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
    emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
    letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
    medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
    que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
    egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
    desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
    hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
    inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
    ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
    defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
    maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
    O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
    dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
    advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
    para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
    que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
    por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.

    Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
    nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
    os que tyrannisam o orphão.

    Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
    defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
    contraria.

    Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
    com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
    conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
    que deseja pagar.

    Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
    punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
    se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

    O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
    espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
    tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
    mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
    esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
    réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
    cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
    defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
    selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
    crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
    defensor.

    * * * * *

    Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
    restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
    introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
    poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
    por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
    lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
    ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.

    * * * * *

    Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
    mais ou menos do teor seguinte:

    * * * * *

    «Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
    directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
    Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
    esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
    dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
    referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
    jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
    carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
    consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»

    * * * * *

    A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
    nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
    collegios de Lisboa.

    A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
    as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
    classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
    _réclames_ das suas distribuições de premios.

    Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
    o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
    egual exito com relação á lingua ingleza.

    O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
    dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
    recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
    professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
    Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
    Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
    consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
    uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
    com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
    um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
    data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
    bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

    _Elvira Fernandez me fecit._

    * * * * *

    Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
    quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
    um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
    Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
    porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
    palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
    conhecimentos theoricos da formação das palavras.

    Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
    _Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
    os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
    almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
    poltronas.

    Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
    d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no
    estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
    quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
    versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
    sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
    esposa, e finalmente como mãe.

    * * * * *

    De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
    absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
    vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
    desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
    incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
    chamada na familia.

    * * * * *

    Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante
    obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
    filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
    mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
    Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
    Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
    Jeronyma o direito de a levarem a exame.

    * * * * *

    _Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
    da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
    do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
    mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
    espirito virginal de uma menina,--ao
    interrogatorio official de um mestre que durante
    vinte minutos vae exercer sobre aquella
    alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
    tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
    na educação de um rapaz, para quem
    o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
    civil; na educação de uma menina portugueza
    similhante prova é inadmissivel e equivale
    a uma amputação do decoro.

    Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
    a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
    mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
    tornar mais educada.

    Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
    primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
    feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
    maioridade e de emancipação legal.

    * * * * *

    Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
    dialogo:

    _O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?

    _A examinanda_--Quando me vou deitar...

    _O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

    _A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
    olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

    _O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
    o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz
    depois de se despir?

    _A examinanda_--Tenho vergonha...

    _O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!

    _A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...

    E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
    com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
    annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
    innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
    as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
    emittere_.

    O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
    presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

    É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
    sabem ou não «civilidade».

    * * * * *

    Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
    de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
    restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

    A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
    que a da instrucção dos homens.

    As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
    conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

    Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
    educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

    1.° Curso de aceio e de arranjo;

    2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).

    3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.

    * * * * *

    No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
    juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
    idéas, as seguintes noções praticas:

    Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
    branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
    esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
    domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
    melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
    arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
    de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
    de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
    Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
    escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
    se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
    bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
    inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
    mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
    pequenos jantares.

    Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
    differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
    mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
    vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
    vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.

    No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
    aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

    O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
    caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
    caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
    boa digestão.

    Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
    dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
    senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
    nacional.

    Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
    affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
    physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
    que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
    preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
    não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
    por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
    liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
    condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
    quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
    não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
    perfeitamente transparente.

    Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
    suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
    Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
    no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
    _substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
    não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
    _substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
    papão!

    Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
    Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
    demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
    no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
    civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
    entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
    povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
    É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
    governa o mundo e determina o destino das sociedades.

    Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
    chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
    iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
    regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
    cozinhas dos differentes póvos, etc.

    A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
    as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
    compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
    obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
    habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
    publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
    numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
    de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
    estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
    cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
    meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
    inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
    competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
    descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
    ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

    Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
    economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
    divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
    teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
    meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
    que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
    semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
    obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
    inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
    conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

    O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
    praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
    das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
    ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
    o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
    o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
    anno em que elles houverem de ser feitos.

    * * * * *

    No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
    deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
    familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
    mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
    balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
    os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
    differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
    reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
    despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
    indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
    sabiamente dirigida.

    * * * * *

    Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
    a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
    verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
    mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
    equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
    invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
    seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
    que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
    dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
    methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
    baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
    protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
    domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
    feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
    fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
    doce refugio.

    Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
    dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
    engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
    factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
    em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
    casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
    uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
    portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
    esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
    economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
    dotar-se a mulher.

    * * * * *

    Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
    mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
    de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
    reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
    aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
    graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
    cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
    das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
    não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
    nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
    meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
    instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
    livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
    rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

    Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
    das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
    senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
    mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
    esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
    poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
    meteorologia nas obras dos arabes.

    Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
    desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

    Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
    das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
    ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
    Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.

    * * * * *

    A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
    na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
    escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
    por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
    póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
    noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
    estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
    previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
    primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

    O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
    como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
    depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
    impõe.

    Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
    ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
    são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

    Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
    de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
    posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
    contemporaneas.

    Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
    Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
    Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
    qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
    do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
    collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
    dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
    conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
    tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
    contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
    pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
    foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
    publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
    versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
    publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
    profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
    sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
    de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
    Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
    personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
    dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
    garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
    simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
    fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
    honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
    _ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
    acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
    creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
    na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
    permanentes.

    Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
    collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
    educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
    litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

    O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
    profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

    Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
    de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
    physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
    de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
    praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
    réclame de modas.

    Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
    publicados nas _Transactions of international association for the
    promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:

    _Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;

    _Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
    inferiores_, por Mary Carpenter;

    _Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;

    _Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;

    _A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
    Bessie Parkes;

    _A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
    Remand;

    _Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
    Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
    mulheres,_ por Jone Crowe, etc..

    Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
    amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
    uma vida extremamente simples e retirada.

    Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
    produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
    educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
    nem dá literatas.

    Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:06 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)

    Aproximadamente 15.283 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora

    5--PATEO DO ALJUBE--5

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883

    LISBOA

    EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA

    Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em
    nome do rei.

    SUMARIO

    Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o
    acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel
    parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do
    príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de
    sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas
    convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha
    na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o
    cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A
    viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o
    príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao
    throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que
    for servido.

    LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

    SENHOR!

    E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos
    traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.

    O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia
    garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o
    Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de
    usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em
    que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente
    do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey
    nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.

    Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos
    deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio
    da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,
    correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.
    D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

    Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas
    pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar
    vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e
    das coisas da civilisação entre gentes extranhas.

    Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada
    pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois
    abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As
    Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica
    e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se
    tratava.

    Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,
    atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,
    quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para
    encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento
    presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que
    vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa
    acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação
    remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar
    dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques
    debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa
    alteza.

    Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as
    instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade
    Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria
    Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,
    quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,
    que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria
    do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.

    Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas
    o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.
    Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do
    trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos
    pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os
    Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As
    academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão
    nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as
    pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes
    oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo
    com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:

    --O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe
    seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o
    immortalisarem no eterno jubilo das gentes!

    E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da
    sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta
    perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra
    cathedralesca.

    Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

    Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso
    dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da
    educação d'alguem que seja n'este mundo?

    Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!

    Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente
    fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual
    Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e
    porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para
    o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da
    _Delphina do mal_.

    Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se
    achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se
    lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...

    Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!

    Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,
    sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e
    em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes
    ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador
    berrava:

    --Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa
    com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do
    que os rapazes precisam para ir para leis!

    Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem
    religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho
    d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de
    Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira
    do predio.

    Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos
    lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois
    é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação
    capaz.

    Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a
    mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,
    _que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!

    E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou
    enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,
    que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro
    ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!

    Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar
    no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;
    mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro
    das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito
    de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de
    magica no theatro de D. Maria.

    Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles
    pegaram n'uma questão d'arte?!...

    Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual
    reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção
    d'arte com _quatro potes etruscos_.

    Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira
    parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram
    por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa
    presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças
    familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde
    muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.

    Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes
    exprimiram com unanimidade:

    --Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!

    --O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão
    inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus
    extrangeiros!...

    --Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e
    subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em
    potes.

    E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito
    supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte
    nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,
    nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual
    a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra
    de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por
    quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns
    dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas
    antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo
    que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,
    só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de
    compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!

    Tal é a camara, ó serenissimo principe!

    E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia
    corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.
    Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de
    assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva
    em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a
    deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação
    nacional é o boi gordo.

    Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o
    trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros
    e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.

    Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.

    Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,
    considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso
    foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com
    prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em
    portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de
    instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e
    applauso geral dos doutos.

    Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.

    Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros
    e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo
    que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_
    presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade
    geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados
    e iam a ministros.

    A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica
    portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo
    _odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres
    entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.

    De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o
    entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola
    pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.

    A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da
    sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos
    fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a
    amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.

    Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa
    alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o
    primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos
    desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e
    muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

    Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus
    illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam
    com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje
    de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.

    De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario
    publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,
    jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e
    luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava
    dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.
    Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.

    _As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que
    vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio
    dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que
    vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um
    cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura
    nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por
    um simples phyloxera.

    _As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de
    flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem
    luvas.

    Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o
    decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de
    vossa alteza, se nós, seus criticos.

    Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção
    secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de
    hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica
    e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse
    sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que
    era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr
    defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,
    pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na
    Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a
    explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim
    o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.

    Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os
    dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe
    acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio
    pão.

    Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem
    ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema
    nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o
    estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu
    mestre.

    Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,
    do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a
    educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica
    Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos
    bar-baças aposentados da magistratura e da academia.

    Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os
    pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da
    natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,
    cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas
    sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás
    engommadeiras virtuosas.

    Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?
    Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos
    principes como o proprio livro de Machiavel.

    Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a
    tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

    É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha
    agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo
    da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,
    applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se
    apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real
    banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na
    caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se
    retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da
    regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,
    mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de
    gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural
    affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e
    metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o
    vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar
    os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava
    escripturado.

    Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se
    ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos
    duros encargos da publica governação espreitando um momento pela
    fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza
    Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,
    apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de
    chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que
    dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e
    cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira
    por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com
    o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.

    --Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz
    acre.

    --Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza
    Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não
    tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

    --Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo
    na testa e com os braços cruzados no peito.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo
    tres perus gordos e emborrachados!

    Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito
    pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se
    lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos
    _deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.

    Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos
    seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,
    que a pena ultima lhes seja commutada.

    Piedade, principe, piedade!

    Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As
    Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio
    de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a
    sua familia, com a sua côrte?...

    Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento
    encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as
    maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do
    palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos
    cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das
    caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

    Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa
    alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos
    _louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?

    Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha
    cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da
    rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e
    de peixe frito?...

    Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom
    gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto
    de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do
    recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente
    e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da
    Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.

    Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os
    individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de
    instrucção.

    Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto
    d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas
    linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:

    _Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite
    ir extrangeiro principes, e se vae._

    E recebemos a seguinte resposta:

    _Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir
    Collares burros, e não vou._

    Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!

    O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a
    honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o
    detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de
    sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao
    feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos
    nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás
    ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá
    licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á
    vontade, que o bebe por conta do lavrador.

    Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!

    Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse
    major_.

    Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os
    derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,
    para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos
    reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,
    sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos
    dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o
    abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando
    chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.

    Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ... Um chimico,
    senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um
    troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além
    d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos
    que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham
    o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa
    satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á
    avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain
    d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á
    França:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai
    seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!

    E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com
    malicia, terá de acrescentar:

    --_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_

    Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...

    E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que
    ha que ver por esse mundo!

    Um olheiro, de galochas de borracha na vista!

    Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão
    até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o
    seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno
    incognoscivel!

    Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos
    sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
    cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que
    dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida
    nenhuma que vae perfeito!

    E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
    algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,
    quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café
    Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
    responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é
    precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão
    alguma, a do bissulfato de potassa.

    Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
    criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
    consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa
    alteza vae concluir na sua proxima viagem.

    Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
    d'essa educação no seguinte quadro:

    _«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,
    hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
    humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
    historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
    naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
    constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
    disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
    mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

    Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
    para o estudo superior da philosophia do direito.

    Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
    systematica da philosophia.

    Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da
    philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
    interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto
    antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da
    administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
    explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

    Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas
    e analyse de seu systema eleitoral.

    Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo
    sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
    a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte
    Lagueronière.

    Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
    organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
    até a actualidade.

    Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de
    Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
    grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
    pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

    Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
    Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
    d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;
    tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
    commercio d'este mesmo anno.

    Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
    ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua
    alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
    introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
    do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
    especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._

    Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.

    Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do
    direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
    especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
    (1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
    fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,
    como meios economicos.

    Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de
    fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
    applicação á organisação de Portugal.

    Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
    adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
    continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.

    Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem
    podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

    Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»

    É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o
    comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem
    detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em
    frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

    Analysemol-o.

    Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu
    cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda
    a intelligencia.

    Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está
    redigida esta exposição.

    Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza
    rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
    pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou
    pelo estudo aprofundado ... Depois começou os estudos de philosophia ...
    Começou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o
    estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
    não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que
    vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

    Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás
    escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
    fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que
    o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade
    d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
    adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
    politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
    conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por
    objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do
    universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
    categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
    do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
    todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa
    investigação ás seis ordens seguintes:

    1.--Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,
    ou phenomenos _mathematicos_.

    2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas
    distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

    3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
    acustica, ou phenomenos _physicos_.

    4.--Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos
    _chimicos_.

    5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

    6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
    _sociaes_.

    Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de
    dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos
    da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª
    sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

    Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções
    mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.
    Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
    synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina
    scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

    As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
    nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
    fundamentaes.

    Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo
    e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
    Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da
    astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da
    chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
    biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a
    _observação critica_ e a _filiação historica_.

    A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
    Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
    mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas
    grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e
    tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais
    segura das chaves para a coordenação das ideias.

    Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:

    «Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma
    verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
    desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
    homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a
    contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
    progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
    do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não
    sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
    cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
    relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr
    senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
    desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a
    funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar
    primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente
    accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na
    especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é
    tambem no conjuncto.»

    Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
    modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na
    ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A
    genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da
    genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
    Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
    positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos
    conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
    cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis
    biographicas e á vida historica da especie.

    Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
    regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de
    ministrar-lhe.

    _Sua alteza_--diz a informação que analysamos--_começou pelo estudo
    aprofundado da philosophia_.

    Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance
    pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
    tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.

    Principiar pela philosophia!!

    Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
    um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
    dogmatismo dos mestres.

    O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo
    espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos
    phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
    prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino
    do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?

    Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
    instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
    correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
    sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
    abstracção psychologica de fim e de origem?

    O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino
    é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
    particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
    applicação.

    Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o
    conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
    factos particulares?

    Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão
    extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
    sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos
    numeros?...

    É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de
    Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke
    ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o
    scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É
    o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o
    idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de
    Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de
    Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o
    evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?

    A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á
    redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
    esta cruel duvida.

    Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
    é a _philosophia racional e moral_.

    Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
    negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
    _objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo
    que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
    mas que não é d'essas que se trata.

    Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a
    philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
    philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É
    triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa
    que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
    _desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de
    virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

    O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta
    que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo
    superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em
    seguida o estudo do direito natural_.

    Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
    os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até
    os nossos dias.

    Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias
    pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
    annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
    funerario_ e do _Livro dos mortos_.

    Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço
    da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

    Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
    deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas
    indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da
    Syria.

    Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo
    quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a
    respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

    Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,
    Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
    escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
    epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
    materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os
    _Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,
    comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
    desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
    até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um
    anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

    Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas
    investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
    a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros
    sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
    mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
    philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
    como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos
    conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

    O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
    preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a
    reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
    philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
    ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

    Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
    deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

    Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em
    Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
    em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma
    manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se
    conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
    as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
    sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente
    porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque
    seja um ideal innato á natureza do homem.

    O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os
    philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam
    recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos
    processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a
    natureza é immoral e é iniqua.

    A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
    agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o
    estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma
    eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?
    Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e
    expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A
    theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
    sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
    os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»

    Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
    o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
    equitativa distribuição dos bens.

    O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma
    reacção contra essa lei.

    A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a
    protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela
    vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

    Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
    dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em
    conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao
    paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom
    divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

    Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de
    cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
    seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
    está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.

    Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
    vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o
    direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
    grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
    _nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

    Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de
    ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
    antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos
    idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
    no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
    Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

    Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um
    facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,
    no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só
    palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
    das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.

    Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a
    qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
    economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de
    redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
    conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,
    a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
    industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
    transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
    de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
    do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o
    milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é
    o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um
    menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
    fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
    uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
    vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
    todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino
    emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á
    tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que
    ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
    internacionaes,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho
    que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
    kilo da carne ou o litro do azeite!

    Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
    é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção
    intellectual do homem.

    É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de
    vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas
    publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não
    vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
    espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
    companheiros.

    É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da
    mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a
    primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade
    humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
    final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais
    perfeita do individuo á communidade.

    E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
    regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as
    curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
    transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a
    que pertencemos.

    Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
    aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado
    atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
    reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão
    prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a
    responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem
    agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as
    «companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do
    caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
    filhos.

    O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
    vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
    quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
    Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
    si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas
    ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
    lhe respondera:--não. «Senti-me então desfallecer,--diz elle;--todas as
    fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
    de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr
    apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
    força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,
    revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe
    communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração
    palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o
    reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,
    cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
    amantes celebres.

    A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se
    ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o
    não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se
    fazer um homem.

    Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr
    Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,
    abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina
    haurida nos compendios do snr José Garnier.

    Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões
    feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia
    que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver
    opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que
    teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se
    adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel
    conhecer e tratar.

    É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca
    da educação dos seus filhos.

    Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos
    burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.

    O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de
    Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma
    universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,
    filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram
    em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais
    estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,
    irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,
    beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e
    cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em
    Heisterbach.

    O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,
    fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

    O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é
    alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

    O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de
    Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.

    O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é
    egualmente formado em Bonn.

    O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da
    conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um
    curso de economia politica.

    O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em
    Paris, no lyceu Louis-le-Grand.

    Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de
    Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe
    imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros
    são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa
    alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em
    tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão
    cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação
    dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na
    convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á
    desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em
    capacidade, entre os homens eguaes em condição.

    Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na
    Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta
    republica helvetica.

    O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe
    Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas
    publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e
    de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu
    valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam
    finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e
    constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.

    Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,
    conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o
    seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus
    affectos desempregados.

    Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa
    alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:

    _Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir
    dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos
    seus filhos._

    Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante
    intervenção!

    É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do
    encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem
    devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.

    A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos
    quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos
    que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos
    quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.

    As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções
    physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que
    nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como
    nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.

    Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades
    intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o
    d'ella.

    Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de
    que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues
    e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de
    couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta
    verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua
    meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do
    amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas
    cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.

    Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja
    convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas
    faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.

    A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a
    honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique
    para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós
    arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o
    fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.

    O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade
    scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,
    cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada
    das suas azas desdobradas e pendentes.

    E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do
    coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente
    doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das
    amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração
    no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,
    escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou
    sobre a nossa infancia a perola da candura.

    Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou
    já a fructificar.

    Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias
    ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um
    amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.

    Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em
    periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a
    vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu
    peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos
    beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,
    feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo
    Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e
    confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da
    Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial
    mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os
    anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

    Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida
    que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está
    destinada.

    A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão
    acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre
    mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que
    praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que
    delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa
    alguma.

    É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos
    tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com
    tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da
    responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.

    E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a
    universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma
    mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no
    conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa
    alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas
    tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza
    em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.

    Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,
    conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos
    seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que
    cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua
    immobilidade mental ás gerações mortas.

    Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe
    venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,
    antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a
    mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para
    que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe
    servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa
    alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome
    do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da
    Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar
    simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a
    Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.

    Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,
    e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a
    excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos
    Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como
    quem vae preso para o calabouço.

    Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder
    executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que
    assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações
    de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas
    lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza
    saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,
    e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza
    tem por missão deslindal-os.

    Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações
    internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa
    alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é
    substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza
    corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom
    conselheiro.

    Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é
    segundo tenente da armada.

    É summamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira
    das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in
    absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,
    dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e
    litterarias.

    Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito
    doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com
    vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial
    da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.

    Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario
    natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da
    faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e
    progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é
    alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia
    muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado
    em direito.

    Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das
    quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de
    devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente
    eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos
    seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e
    logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar
    significados.

    Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o
    seu proprio capellão ... Vossa alteza é extremamente bom e amavel em
    sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito
    sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não
    é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.

    Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o
    obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar
    livre dentro de uma estufa pôdre.

    Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen
    no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

    Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os
    reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,
    mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente
    á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço
    constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a
    luz.

    Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos
    principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da
    educação de vossa alteza se resume n'isto:

    Que o libertem!

    Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é
    preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos
    bastardos--sem pae e sem padrinho.

    Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos
    homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos
    camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.

    Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:
    o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do
    throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia
    do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada
    uncção como a da santa chrisma.

    Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes
    e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

    Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou
    chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a
    educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se
    atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua
    unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de
    um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por
    aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou
    por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir
    a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como
    official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também
    não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã
    e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no
    governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na
    lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade
    individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como
    o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de
    Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de
    Washington, como o de Lincoln.

    Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua
    vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção
    inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação
    nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na
    Suecia.

    A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa
    resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da
    obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como
    um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr
    Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

    E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição
    isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e
    fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de
    todas as outras lições funestas que lhe teem dado.

    É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma
    vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,
    para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para
    cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia é o systema da
    negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,
    perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser
    um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que
    se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,
    porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.

    Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre
    um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para
    ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de
    um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.

    Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza
    o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,
    inrelligente e honrado.

    Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões
    officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a
    fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente
    aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua unica
    e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.

    Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.

    A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente
    intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a
    humanidade.

    Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a
    educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens
    de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo
    elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos
    paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó
    do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha
    sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que
    affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a
    educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos
    Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais
    veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,
    a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no
    escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento
    singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito
    encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos
    parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e
    de confiança illimitada.

    Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,
    quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle
    mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos
    estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão
    viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do
    violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e
    extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,
    docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia
    que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,
    espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.

    Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por
    meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua
    mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para
    Paris com o seu preceptor.

    Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem
    verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O
    menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus,
    parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de
    um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e
    pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando
    o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em
    dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se
    repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final
    uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um
    perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o
    cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde
    o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do
    cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.
    Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario
    para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma
    mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias
    positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de
    proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no
    conhecimento do occorrido.

    O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne
    n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE
    d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître
    d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por
    um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal,
    deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á
    traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou
    unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e
    implacavel bigode.

    Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não
    enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou,
    fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas
    indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora
    marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido
    miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu
    filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem
    perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer
    parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.

    E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e
    acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um
    theatro que os escripturou como violinos.

    Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica
    que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu
    braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura
    se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam
    juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos
    boulevards.

    Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A
    nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum
    instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que
    exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte,
    e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o
    arnez theologico do seu amavel aio.

    E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem,
    para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa
    no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos
    _gentlemen_.

    Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real
    senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são
    insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.

    Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.

    Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão!
    Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples
    d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter
    uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de
    si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

    Tudo mais é simples detalhe.

    Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho
    de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á
    linha, um cavallo pronto e ligeiro.

    Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e
    _Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps,
    o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante,
    immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas,
    redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

    Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando
    ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés,
    prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.

    Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!

    Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que
    rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para
    a banda! a etiqueta que estoire!

    A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.

    Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?

    Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou
    á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.

    Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da
    Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão
    desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de
    toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade
    sacrosanta de _touriste_.

    Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe
    prestar defesa e homenagem.

    Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a
    coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o
    defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o
    habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de
    noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á
    sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus
    inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia
    Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.

    Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem
    impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto,
    chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

    --Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da
    força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo
    civilisado.

    Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe
    herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que
    se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não
    houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu
    reino.

    A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon
    esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a
    commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer
    coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais
    fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente,
    como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém
    de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um
    antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara
    familia de Nassau.

    Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem
    violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a
    demover jamais de Paris a sua mala grande.

    Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam
    algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as
    convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no
    foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho
    pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

    --O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a
    Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a
    minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.
    Acceite os meus parabens.

    Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:

    --Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já ...

    Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu
    herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz
    na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser
    um _viveur_ morto do que um rei vivo.

    Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um
    _entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o
    Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de
    litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que
    devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

    Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no
    mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista,
    para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o
    snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o
    introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda,
    tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o
    levar ao mundo onde a gente se diverte.

    Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em
    Paris.

    Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas
    suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples!
    Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a
    gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se
    instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo
    em que entra lhe mostrar que não sabe.

    Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da
    manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com
    agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo
    irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de
    Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em
    seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de
    França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de
    Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao
    Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a
    volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five
    o'clock_.

    A' noite--como se não é principe impunemente--as conveniencias exigem a
    toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e
    a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer
    que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os
    prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.

    Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de
    conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena
    theatro.

    Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que
    seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de
    Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o
    snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a
    explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios
    antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!

    De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber
    cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro
    branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a
    um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida
    provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.

    Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro
    tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a
    chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a
    decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a
    ninguem.

    Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio
    social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do
    dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a
    cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

    De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado,
    casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás
    burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o
    abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a
    perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

    Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente
    algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição
    social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam
    por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de
    ficar ao pé d'ellas para toda a vida!

    Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces
    horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se
    d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr
    pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa
    alteza.

    Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres,
    aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento
    excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres
    da categoria a que nos estamos referindo ...

    (O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha
    incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar
    ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a
    _timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)

    A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se
    essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a
    alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de
    coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam
    jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos
    hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de
    Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe,
    os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.

    Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est
    des nôtres!_

    Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa
    alteza elle dissesse outro tanto.

    Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza,
    vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...

    Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!

    Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou
    obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a
    importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam,
    das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus
    similhantes.

    É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao
    ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno
    de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando
    tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico
    ou mais bello.

    Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra,
    impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a
    aspiração immortal do espirito do homem.

    É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.

    É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados
    pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela
    profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo
    sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma
    ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão
    da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset,
    Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura
    do vulgo, e ser um homem.

    Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!

    Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para
    outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção
    technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.

    Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um
    homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem,
    fica sempre um subalterno.

    No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as
    sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis
    mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens
    mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os
    moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza
    unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas
    trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente
    instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere
    como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!

    Portanto, e em conclusão:

    Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na
    sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á
    natureza um sadio e valente animal.

    A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é
    indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes
    deve:--desgostos!

    Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão
    dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr
    Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

    N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de
    vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós
    abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom
    senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma
    subscripção nacional.

    Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas
    que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.
    Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza
    põe em nosso lábio o sello da reserva.

    Faremos fervorosos a subscripção.

    O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e
    tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que
    Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro
    dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as
    revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós
    somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos
    descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe
    perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.

    _Ramalho Ortigão_.

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:05 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
    mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
    Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
    faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,--com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    --Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    --Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    --Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
    lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    --Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    --Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    --Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    --Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
    mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    --Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo.....

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar....

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
    propriamente--uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

    --Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!... amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
    fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
    _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
    dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?..._

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
    se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    --Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?...

    --Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava....

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    --Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?...

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?...

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    --Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
    templo!...

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
    outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:03 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    Aproximadamente 16.983 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 1

    JUNHO A JULHO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
    reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
    mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
    consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A
    arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
    resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de
    Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e
    do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
    para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
    acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
    secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
    Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
    outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
    aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da
    agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
    direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as
    actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
    Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A
    estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do
    cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
    para o outro.

    * * * * *

    Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
    rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro
    milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

    Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
    encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
    ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
    qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
    tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
    arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é
    exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
    sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
    esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
    liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

    Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
    a ideia.

    * * * * *

    Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
    portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
    constitue a nacionalidade de um povo.

    Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...

    Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
    n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
    Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
    amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

    As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
    Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
    d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
    pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

    * * * * *

    Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
    categorias diversas.

    Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
    alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
    esse fim.

    Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
    medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
    terra.

    Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
    qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
    e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
    se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.

    Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
    uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
    individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
    e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
    não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
    senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

    Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
    opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
    bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
    Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
    Baixa.

    Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
    agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
    Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
    do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
    benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
    desprestigiada e choca.

    Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
    dissidencias acrimoniosas de detalhe.

    Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
    Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
    engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
    feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
    desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
    desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
    crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
    commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
    arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
    desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
    á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
    bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

    Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
    cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
    hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

    A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
    tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
    que seja, deram o nome de _eterna essência._

    Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
    vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
    domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
    com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
    pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
    que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
    _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
    continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
    para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
    sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
    lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
    roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
    ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
    d'ella.

    Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
    ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
    desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
    muitas vezes a alliança da familia.

    * * * * *

    Passemos á politica.

    N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.

    Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
    Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
    desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
    modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
    desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
    navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
    condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
    emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
    intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
    davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
    preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
    espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
    desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
    e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
    licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
    mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
    reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
    para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
    Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
    enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
    ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
    joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
    governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
    sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
    sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
    importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
    se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

    Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
    poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
    absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
    representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
    e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

    Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
    d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
    para ahi é que elles não vão.

    Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
    atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
    exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

    São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer
    que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
    transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
    parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
    estéril.

    Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
    ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
    procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
    duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
    ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
    consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
    portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
    principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
    apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
    teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
    calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
    de cabellos tingidos.

    Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
    vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
    fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
    em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
    provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
    especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
    castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
    no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
    toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
    miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
    prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

    É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
    social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
    fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
    produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
    a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
    lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
    bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
    dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
    convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
    separação dos interesses operou a separação das energias.

    É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
    demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
    na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
    de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
    acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
    ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
    phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
    effeito de si proprio.

    Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
    basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
    affirmação em evidencia de facto.

    Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
    questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
    a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
    chama--_a questão da fazenda_.

    Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
    começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
    symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
    governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
    encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás
    desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não
    tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
    pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

    Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
    trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
    immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

    Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
    tem os outros dois!

    A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus
    privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
    e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
    imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
    citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
    anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
    chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
    por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

    Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
    decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
    credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
    calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
    emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
    mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

    Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
    pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
    atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
    interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha
    birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
    negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das
    contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
    emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

    Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
    ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
    traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
    divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
    quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
    alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
    divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
    passou no estado de consolidação para o saco de traz.

    A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
    dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
    vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
    de saco, ella cresce.

    Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
    boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
    collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
    pague.

    No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos
    encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da
    fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
    senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
    ligado aos progressos da industria.

    Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra
    vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
    facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
    qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
    governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga
    dos governados para o despreso convicto dos que governam.

    * * * * *

    Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
    seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
    á protuberancia de cada calo.

    Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e
    da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
    casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
    virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
    mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
    politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
    caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
    ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
    vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
    latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
    todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
    caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
    nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
    podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
    no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
    pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
    santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
    inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
    de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
    amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
    face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

    Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
    no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
    intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
    hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
    diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
    trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
    radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
    diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
    inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
    instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
    cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

    A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
    caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
    por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
    o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
    combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
    tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
    de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
    perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
    entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
    sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
    o interesse.

    Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
    compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
    imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
    aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

    O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
    propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
    transacções entre o homem e o infinito?

    Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
    naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
    determinadas pela constituição do meio.

    Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
    compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
    mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
    inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
    corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
    correlativamente as sympathias dos individuos.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
    fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
    que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

    Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
    para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
    do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
    constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
    liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
    padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
    que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
    banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
    d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o
    _stylo furriel dos batalhões da carta_.

    Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
    antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
    interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
    do publico?

    Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
    grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
    insubmissos e o grupo dos domesticados.

    Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
    laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
    governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
    Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
    pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
    desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
    respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
    depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
    teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
    fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
    simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

    Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
    republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
    para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
    com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
    mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
    luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
    Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
    escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
    combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
    _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
    vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
    andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
    pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
    e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

    Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
    apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
    razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
    paginas de poema, de romance ou d'historia.

    A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
    cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
    ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
    curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
    d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
    com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
    barrigas, todas postiças.

    Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
    que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
    _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

    Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
    vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
    desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
    poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
    marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
    da Baixa.

    Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
    aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
    fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
    tremem-lhes as pernas, e acocoram.

    Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
    profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
    e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

    Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
    monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
    Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
    estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
    Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
    pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
    culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

    Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
    cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
    limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
    perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
    ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
    hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
    nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
    casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
    elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
    vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
    conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
    cynico.

    Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que
    elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
    decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do
    Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
    sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
    retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
    incivis do gado vacum.

    O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
    que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
    regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
    humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

    Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
    obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
    _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
    profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
    de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
    de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
    anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
    escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

    Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
    nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
    profundas as nossas dissidencias estheticas.

    Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
    nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
    artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
    detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
    Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
    rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
    que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
    meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
    do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
    _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._

    Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
    periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez
    ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!

    * * * * *

    De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na
    arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
    sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
    desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
    cohesão da ideia portugueza.

    N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
    só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
    como gotas d'oleo n'um papel passento.

    No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
    um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
    vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
    do repositório.

    De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
    consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

    * * * * *

    Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
    esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
    dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a
    prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
    elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem
    receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
    antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da
    patria não movido de premio vil_.

    Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
    narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
    individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
    dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
    camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
    no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
    eslas linhas.

    Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
    centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
    ainda que immodestamente, o registam.

    Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção
    d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
    para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

    Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
    este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
    desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
    escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
    desprezo dos seus similhantes.

    As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
    Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
    mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
    respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
    carcere.

    Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
    gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
    irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
    mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
    possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
    et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
    marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

    Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza
    de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
    sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
    verdades em evidencia.

    Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
    que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
    a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
    sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
    um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
    um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
    uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
    pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
    beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
    intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
    dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
    estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
    já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
    preciso uma broca.

    As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
    indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
    uma vez participantes no movimento do seu tempo.

    Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
    publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
    durante trez dias com trez noites.

    --É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos
    chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
    nossos reis e nas estalagens.

    A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
    n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
    pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
    reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
    sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
    mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
    todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
    radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
    perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
    socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
    os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
    d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
    uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
    cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
    vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
    cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
    espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
    n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
    proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
    pela gargalhada as mandibulas do publico.

    Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
    governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
    cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
    bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

    Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
    possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
    cohesão social do espirito portuguez.

    Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
    como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
    genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
    portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
    nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
    direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
    poesia eterna.

    A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
    sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
    cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de
    energia e de revivescencia patriotica.

    Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
    verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
    historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
    documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
    dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
    evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
    rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

    Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
    espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
    o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
    soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
    delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
    constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
    cobarde.

    Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
    pbrase:

    _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
    arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
    philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
    historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara
    aguarda as determinações do governo.»

    A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
    nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
    centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
    pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
    massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

    * * * * *

    Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
    parecia poder-se deduzir:

    _Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
    pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
    nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle
    proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
    do muito que já brilhava pela inanidade.

    _Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
    instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

    _Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
    que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
    de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
    assim como a ordem social e a ordem economica.

    * * * * *

    Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:

    _Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando
    d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
    dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

    _Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
    bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
    elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
    de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

    _Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
    associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
    deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
    classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
    situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
    social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
    interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
    alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
    velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e
    fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
    _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

    * * * * *

    Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
    centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
    d'essas soluções?

    * * * * *

    Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
    associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
    escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
    individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
    philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
    Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
    ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
    hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
    dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
    e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
    um _troca-tintas,_ apenas.

    N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
    instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
    analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
    mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
    ventos do seculo.

    Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
    teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
    historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
    porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
    poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
    escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
    Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á
    gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
    cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

    Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
    especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
    intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
    pudicicia de vestal velha.

    Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
    approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
    luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
    geraes.

    Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
    ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

    Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
    paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
    principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
    separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
    sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
    o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
    Melpomone.

    * * * * *

    Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
    havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
    projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
    na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
    das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
    para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
    negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
    muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

    Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
    dentro.--Truz truz truz!

    --Quem é?

    --Está em casa o governo?

    --Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
    ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

    Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
    se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
    explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
    estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
    travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
    não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
    explique as coisas!

    Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
    desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
    celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
    alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
    explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
    Serpa.

    * * * * *

    Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
    congresso das associações confederadas.

    Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
    parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
    á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
    para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
    principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
    reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
    do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
    symptoma culminante e preciossimo.

    Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
    importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
    portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
    canonisado pelo enthusiasmo popular.

    * * * * *

    O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a
    mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

    Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
    que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
    insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
    bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
    os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
    interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
    compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
    os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
    foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
    constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
    dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
    civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
    os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
    geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
    criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na
    sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

    Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
    effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
    maquina politica.

    Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
    toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

    Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
    scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
    liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
    mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
    originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
    resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
    visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
    duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
    depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
    em que principiaria a ser necessaria.»

    Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
    de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
    social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
    empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
    resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
    baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
    mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
    defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
    E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
    sociedades.

    Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
    destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:

    «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
    consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
    Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
    cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
    d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
    porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
    indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
    cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
    promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
    principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
    excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
    sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
    seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
    _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
    thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são
    simplesmente os servos d'aquelles homens.»

    Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
    Spencer.

    Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
    o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
    simples trabalhadores.

    O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
    civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
    calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
    bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
    excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
    pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
    Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
    eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
    Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

    Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
    que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
    apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
    uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
    que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
    representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
    doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
    quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
    Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
    outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
    França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
    muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
    Napoleão.

    O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
    força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
    catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
    memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
    Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
    se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
    produzir trabalho.

    Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
    reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
    d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
    Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
    modesto professor como Adão Smith.

    Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
    anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
    d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
    triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
    cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
    os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
    effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
    carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
    da fauna do mundo moderno.

    Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
    representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
    seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
    governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
    da _Declaração dos direitos do homem_?

    Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
    precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
    solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
    social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
    negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
    acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
    restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
    proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
    cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
    reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
    de trabalho.

    A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
    representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
    revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
    o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
    dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
    o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

    Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
    regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
    ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
    um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
    unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
    numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
    communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
    approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
    lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
    os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
    cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

    Na Europa já não ha d'isso.

    Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
    governantes.

    A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
    religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
    artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
    bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
    celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
    transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
    impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
    segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
    más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
    precederam.

    A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
    seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
    Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
    psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
    tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
    primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
    poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
    O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
    actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
    são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
    familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
    de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
    aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
    aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
    terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
    philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
    Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
    Bernouilli, etc.

    Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
    anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
    creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

    * * * * *

    Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

    Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente
    passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
    rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
    supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
    tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
    detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
    a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
    extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
    dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
    suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
    convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
    agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
    riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
    arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
    contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
    auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
    punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
    principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
    Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
    e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
    estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
    expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
    Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
    Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
    Campomanes e Florida Blanca.

    D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
    Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
    uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
    deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
    carece de originalidade.

    Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
    geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
    reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
    annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
    D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
    sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
    estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
    no governo das monarchias modernas.

    As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
    sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
    d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

    O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
    mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
    reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
    que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._

    Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
    funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
    da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

    Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
    viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
    com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
    nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
    Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
    politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
    o penetraram inteiramente.

    A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
    politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
    salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
    a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
    Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
    desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
    alcovas.

    Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
    ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
    imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
    procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
    similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
    ministro na côrte de Lisboa.

    Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
    caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
    cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
    suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
    estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
    academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
    programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
    no seu paiz.

    Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
    politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
    Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
    as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
    ministrado.

    O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
    unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
    conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
    o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
    cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

    Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
    _tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
    Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
    e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
    tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
    transfere para os membros das academias e das universidades a censura
    até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
    direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
    funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
    finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
    tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
    annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
    aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
    direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

    Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
    Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
    systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
    resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
    V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
    Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
    boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
    estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
    hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
    não paga um _sou_.

    Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
    extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
    bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
    vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»

    A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
    que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
    baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
    mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
    individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
    bens, nem crenças, nem opiniões.

    O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
    obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
    roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
    serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
    troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
    principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
    privilegiada.

    Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
    superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
    uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
    todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
    na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
    riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
    poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
    abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
    o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
    direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
    productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
    salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
    desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
    produzem e aquelles que consommem.

    Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
    pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
    ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
    prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de
    Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
    atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
    depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
    importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
    suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
    liberdade.

    O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
    reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
    seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
    social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
    como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
    de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
    disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
    uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
    irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
    cidade.

    O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
    qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
    da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
    renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
    franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
    consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
    de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
    completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
    funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
    medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
    reclame.

    Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
    collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
    possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
    grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
    quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
    Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
    promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
    n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»

    Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o
    publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
    julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
    como se faz aos pudins.

    Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
    pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
    pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
    caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
    pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
    directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
    José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
    oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
    durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
    mundo civilisado.

    A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
    confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
    sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
    derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
    pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
    da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
    perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
    No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
    violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
    exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
    ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
    symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
    sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
    sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
    sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
    tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
    toda a área da ordem social.

    De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
    os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
    capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
    philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
    philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
    linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
    temperamento e a paixão.

    Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
    taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,--o arroz, o vinho, a
    manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
    particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
    a philosophia, a historia, a moral e a canella.

    A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
    duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
    praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
    vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
    pensar, de cebo para resistir.

    Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
    systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
    do principe e escarmento dos subditos.

    Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
    omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
    traição.

    O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
    Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
    historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
    critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
    reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

    Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
    a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
    é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
    e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
    que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
    assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
    titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
    luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
    e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
    no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
    convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
    Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
    duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
    perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
    morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
    de pé descalço.

    Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!

    Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
    janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
    immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
    d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
    tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
    assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
    familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
    dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
    brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
    pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
    e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
    cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
    pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
    que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
    mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
    desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
    amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
    um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
    meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
    um laço de fita.

    E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
    aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
    plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
    acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
    participado na aggressão ao principe.

    Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
    Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
    José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
    despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
    morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
    miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
    direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
    com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
    destruir.

    É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
    democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.

    Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
    egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
    o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
    liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
    escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
    completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
    isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
    cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
    No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
    ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
    de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
    aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
    e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
    Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
    formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
    como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
    commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
    Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
    Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
    peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
    Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
    foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
    assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
    dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
    vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
    a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
    alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
    incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
    n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
    espavoridos e cegos.

    Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
    nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
    especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
    Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
    perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
    nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
    palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
    cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
    Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
    coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
    provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
    força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
    o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
    Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
    amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
    d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
    unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
    por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
    intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
    o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
    estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
    Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
    Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.

    A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
    em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
    em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
    seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
    um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
    mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
    zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.

    Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
    militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
    equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
    suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
    Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.

    Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
    cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
    progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.

    A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
    nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
    resultado de um equivoco.

    Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
    ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
    de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
    desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
    discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
    immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
    principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
    elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
    consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
    politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
    o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
    pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
    minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
    fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
    por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.

    Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
    marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
    a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
    fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
    principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
    debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
    mesmos principios.

    Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
    tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
    mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
    considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
    revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
    abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
    destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
    retardar a queda_.

    A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
    progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
    Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
    retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
    tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
    artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
    fabrico.

    A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
    influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
    tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
    marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
    vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
    atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
    que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
    sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.

    Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
    na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
    mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
    espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
    do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
    cabeça.

    Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
    secularisado todo o seu programma de poder.

    Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
    ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
    acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
    Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
    peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
    Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
    theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
    _Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.

    Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
    principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
    quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
    de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
    elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
    lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.

    A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
    formas de jesuitismo applicado ao ensino.

    A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
    Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
    obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
    do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
    seus alumnos nos domingos e festas de guarda.

    Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
    legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
    casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
    propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
    regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
    especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
    cepa torta da intelligencia.

    Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
    phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
    experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.

    O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
    essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
    atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
    communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
    pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
    artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
    cada anno lectivo.

    Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
    maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
    menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
    livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
    coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
    ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
    maior será a confusão do seu cerebro.

    A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
    bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
    derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
    explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
    dogmatico ou metaphysico.

    A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
    ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
    o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
    dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.

    Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
    doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
    politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
    coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
    ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
    no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
    do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
    resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
    seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.

    Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
    jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
    secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
    civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
    desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.

    O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
    durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
    intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
    pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
    quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
    vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
    firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
    erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
    na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
    quadrado,--com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

    N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
    outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
    chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

    Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
    e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
    pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
    por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
    trambolho de chumbo que os afunde.

    As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
    n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

    O historiador snr Henri Marlin pergunta:

    «O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
    realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
    responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
    espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
    natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
    da verdade.»

    O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
    por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
    pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
    accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
    a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
    egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.

    A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
    offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
    incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
    dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

    Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
    sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
    Carvalho--feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
    cacete e uma espessura de baluarte--fez de Portugal á força de leis e de
    sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
    paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

    Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
    dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.

    O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
    dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
    casca.

    Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
    mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
    o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
    e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
    da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
    novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
    Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
    toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
    batina e a ovos molles.

    O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
    generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
    submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
    escorraçava-o e perseguia-o,--que é sempre assim que os reis pagam aos
    plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
    de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
    a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
    me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
    Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
    da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»

    O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
    qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
    produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme--a obediencia
    geral.

    Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
    liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
    obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
    obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.

    Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
    encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
    momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
    justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
    insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
    procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
    este personagem sem ideias nenhumas.

    Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
    contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece
    demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos
    contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
    José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
    estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
    explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
    que nos governou o marquez de Pombal.

    Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
    povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
    equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
    cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
    constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
    anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
    ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
    do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
    doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
    alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
    Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
    pacto constitucional.

    Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
    altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
    que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
    sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
    pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._

    A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
    coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
    _creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
    _liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
    commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

    Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
    excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
    Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
    acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
    de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
    governos como o de Pombal lhe opposeram.

    Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
    prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
    differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
    não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
    seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
    mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

    A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
    que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
    para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
    do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
    moral da humanidade.

    Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
    acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
    foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
    forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
    Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
    d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
    a salvação do povo_.

    A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
    envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
    teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
    consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
    Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
    celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
    que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
    deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
    postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
    que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
    que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
    degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
    desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
    o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
    organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
    ingenita.

    * * * * *

    Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
    e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
    preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
    vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
    Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
    terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
    que é necessario que a gente se colloque.

    Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
    em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
    tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
    vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
    seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
    com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
    sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

    Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
    centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
    fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
    senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
    mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
    charlatanismo dos seus tyrannos.

    O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
    peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
    honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
    abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
    merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
    amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
    deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
    dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
    exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
    ainda de talento que de pudor.

    Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
    se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
    Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
    cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
    animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
    n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
    uma charrua.

    Lisboa 10 de junho de 1882.

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:01 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)

    Aproximadamente 16.638 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
    de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
    caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
    gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
    Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
    raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
    mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
    pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
    não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
    ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
    criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
    personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
    ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
    Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
    os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
    da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
    carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
    educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
    covardia, instituição publica, etc.

    Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
    pertencendo a duas classes distinctas:

    1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;

    2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
    Estados.

    Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
    absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
    isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
    intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
    organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
    convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
    os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
    civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
    ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
    communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

    Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
    periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
    toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
    tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
    nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
    regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
    vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
    collectivo.

    * * * * *

    A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
    demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

    Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
    repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
    punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
    distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
    feridos pela perpetração do delicto.

    É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
    unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
    commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
    interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
    ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
    pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
    arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
    conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
    vingança.

    Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
    forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
    muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
    politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
    crimes, são verdadeiros erros!»

    Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
    pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
    sancções penaes.

    * * * * *

    Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
    Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

    No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
    crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
    meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
    tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

    Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
    attentados e despedindo os reos em paz!

    No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
    falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
    recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
    oito annos de degredo para a costa ds Africa!

    O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
    sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.

    O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
    sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

    * * * * *

    Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
    co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
    o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
    iniquiedade monstruosa.

    O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
    oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
    regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
    do serviço militar.

    O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
    Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
    intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
    Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
    crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
    da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
    facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
    interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
    as sociedades teem em que deixe de haver militares.

    * * * * *

    O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
    punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
    estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
    analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
    civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
    militarismo e da guerra.

    Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
    punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
    ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

    Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
    vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
    mortos.

    Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
    todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

    Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
    substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
    alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
    convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
    instrumentos da perpetuidade da raça.

    * * * * *

    Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
    os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
    unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.

    * * * * *

    Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
    primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
    gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
    gymnastica tinha um caracter immoral.

    S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
    do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
    pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
    e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
    comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
    ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
    dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
    obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
    que medeia entre o tapete e o lustre.

    Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
    directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
    da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
    ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
    mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

    * * * * *

    Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
    orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
    nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
    dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
    mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
    escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
    racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
    chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
    correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
    s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.

    * * * * *

    O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
    gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
    mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
    frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
    conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
    acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
    sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
    à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
    depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
    dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
    procere um tão ligitimo horror.

    * * * * *

    A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
    perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
    organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
    mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
    todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
    manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
    exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

    Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
    hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
    sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

    Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
    phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
    loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
    mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
    apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
    que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
    revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
    para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
    actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
    todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
    cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
    circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
    alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
    Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
    de cura de alienados pela transfusão hypodermica.

    Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
    regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
    central, é a gymnastica.

    O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
    em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»

    * * * * *

    Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
    indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
    apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
    frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
    diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
    segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
    para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
    doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
    gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
    observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
    effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
    densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
    exercicio.

    * * * * *

    Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
    Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
    gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
    a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
    doutor Burq.

    * * * * *

    A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
    densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
    exercicios gymnasticos.

    * * * * *

    A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
    desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
    tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
    respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
    directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
    modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
    organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
    hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.

    * * * * *

    Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
    que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
    constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
    doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
    exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
    jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
    methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
    equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.

    * * * * *

    Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
    favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
    senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
    mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
    assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
    constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
    ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
    de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
    nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
    gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
    obesidade e contra a idiotismo.

    * * * * *

    Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
    sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
    previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
    gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
    duas casas do parlamento.

    Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
    exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
    para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
    todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
    quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
    ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
    introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
    n'aquellas em que a gymnastica não existe.

    Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
    esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
    artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
    em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
    gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.

    O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
    obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
    que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
    presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
    mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
    pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
    felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
    nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
    d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
    erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
    desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
    seguintes movimentos:

    Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
    vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
    sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
    (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
    fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
    reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
    meditar sobre a felicidade da patria.

    No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
    perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
    mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
    não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
    reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
    sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
    indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
    seguintes:

    Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
    tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
    (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
    limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
    quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
    Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
    continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

    * * * * *

    Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
    n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
    gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
    Velar-lhe a face!

    * * * * *

    A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
    cego já vê, a paralytica já anda_.

    * * * * *

    Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
    nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
    esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
    cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
    foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
    que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
    reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
    os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
    obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

    A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
    collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
    restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
    indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
    lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
    locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
    auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
    resultados obtidos pela romagem.

    Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
    na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
    agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
    vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!

    Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
    enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
    que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
    locomotores com agua das latas?!

    E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
    para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
    chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
    largo de S. Roque?

    E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
    _andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
    trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
    correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
    maior do que as que levou!

    Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
    lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
    milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
    opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
    sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
    que visse tambem por outros membros.

    Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
    a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
    olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
    pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
    baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
    com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
    romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
    louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
    vemos que a paralytica nos sae pedrez!»

    Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
    ordem, porque os ha muitos maiores.

    * * * * *

    Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
    coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.

    O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
    das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
    balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
    duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
    demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
    pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
    Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
    exemplos.

    Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
    dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
    das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
    emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
    estado do satisfação ineffavel.

    O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
    escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
    os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
    illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
    essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

    No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
    das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
    o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
    citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)

    Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
    regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
    acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
    20.)

    Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
    consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
    obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
    pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
    o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
    resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)

    Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
    escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

    O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
    escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
    diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
    pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
    arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
    de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
    escapularios!

    As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
    IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

    O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
    para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
    perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
    arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
    facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
    por um oculo!

    O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
    nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
    da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
    prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
    Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
    voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
    dito padre Guglielmi.

    De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
    é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
    precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
    seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
    seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
    oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
    virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
    cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
    algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
    patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
    sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!

    Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
    d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
    para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
    alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
    debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
    fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
    de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
    unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?

    Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
    ... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
    esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
    Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!

    Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
    habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!

    Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
    proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...

    Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
    jornal! Cruzes, demonio!

    * * * * *

    Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
    de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
    termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
    satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
    fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
    todos?

    * * * * *

    Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
    esta--o _fadista_.

    Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
    constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
    dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
    feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
    fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
    toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
    beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
    frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
    com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
    nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
    os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
    os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
    adormecidos.

    Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
    capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
    do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
    interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
    em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
    conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
    divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
    navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
    mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
    um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
    seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
    sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
    despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
    fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
    que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
    que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
    uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
    tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
    com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
    combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
    biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
    antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
    espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
    vadiice, e tomou então o nome de--fadista.

    O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
    accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
    seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
    elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
    successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
    esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
    noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
    um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
    frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
    mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
    enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
    de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
    guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
    grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
    molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
    constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
    um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
    Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
    obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
    agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
    Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
    bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
    guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
    qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
    XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
    fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
    Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
    onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
    composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
    camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
    da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
    e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
    taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
    alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
    que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
    Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
    jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
    pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
    lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
    mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
    fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
    de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
    prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
    pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
    pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
    guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
    desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
    pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
    outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
    imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
    perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
    reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
    mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
    esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
    que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
    á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
    da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
    miseravel.

    De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
    meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
    na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
    o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
    convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
    especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
    restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
    todos os machos.

    * * * * *

    É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
    incorrigiveis da criminalidade.

    A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
    recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
    inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
    em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
    verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
    nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
    ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
    sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
    mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
    immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
    tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
    cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
    a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
    conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
    confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
    não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
    inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
    grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
    senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
    presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
    conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
    expediente seria a morte.

    É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:

    É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
    criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
    incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
    repetidos?

    A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:

    É.

    N'este caso pergunta-se:

    Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
    continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
    uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
    os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
    justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?

    Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
    que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
    irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
    sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
    abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
    manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

    Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
    sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
    inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
    instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

    Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
    supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
    Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
    trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
    cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

    * * * * *

    O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
    o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
    policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
    rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
    contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
    photographia no commisariado geral.

    Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
    de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
    aos fadistas.

    * * * * *

    Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
    do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
    contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
    esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
    açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
    viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
    lombares das musas.

    Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
    poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
    ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!

    * * * * *

    Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
    para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.

    O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
    encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
    annos.

    Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
    duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
    pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
    enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
    inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
    pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
    lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
    fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
    e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
    outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
    que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
    de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
    dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
    Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
    spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
    publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
    agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
    _Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
    Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
    concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
    ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
    da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
    _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
    agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
    finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
    De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
    encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
    insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
    era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
    fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
    e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
    poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
    costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
    Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
    achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
    chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
    retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
    as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
    choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
    seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
    tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
    servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
    estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
    Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
    altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
    mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
    poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
    conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
    Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
    Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
    entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
    condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
    ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
    porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
    exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
    suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

    Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
    communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
    Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
    com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
    ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
    onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.

    * * * * *

    Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
    vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
    que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
    engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
    pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
    se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
    ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
    superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
    nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
    presente.

    * * * * *

    _O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
    artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
    obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
    o que pertence aos dominios da pathologia social.

    * * * * *

    Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
    burguezes.

    O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
    burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
    mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
    No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
    apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
    ver porquê.

    Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
    desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
    representação da vida exterior e o systema da vida intima.

    Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
    do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
    religião--a familia!

    Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
    baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
    asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
    a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
    graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
    com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
    galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
    pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
    edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
    Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
    predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
    de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
    modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
    primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
    moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
    systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
    branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
    cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
    cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
    frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
    outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
    elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
    nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
    do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
    todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
    luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
    activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

    As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
    parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
    verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
    com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
    das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
    rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
    queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.

    É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
    _Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.

    Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
    recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:

    «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
    não ha creanças.»

    Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
    bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
    balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
    desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
    musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
    musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
    ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
    largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
    effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
    encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
    sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
    preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
    com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
    seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
    fresco.

    Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
    frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
    creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
    proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
    intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
    rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
    instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
    menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
    indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
    houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
    para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
    quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
    instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
    infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
    e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
    flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
    jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
    Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
    da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
    aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
    ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
    appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
    linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
    diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
    funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
    suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
    jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
    Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
    não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
    Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

    Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
    completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
    phenomenos.

    Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
    assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
    nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
    das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
    actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
    moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
    gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
    essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
    retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
    casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
    que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
    possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
    onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
    respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
    borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

    Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
    a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
    elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
    no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
    de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
    preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
    do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
    orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
    couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
    desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
    ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
    bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
    e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
    Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
    _coupés_ magnificos da piedade escolhida.

    Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
    seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
    Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
    arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
    tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
    desdem.

    Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
    theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
    contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
    dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
    theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
    resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
    sociedades corruptas:--o socego.

    Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
    ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
    os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
    região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
    do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
    raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
    da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
    um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
    cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
    medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
    cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
    alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
    aguadeiro, ralhando com o marido.

    Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
    domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
    quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
    infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
    cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
    caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
    inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
    arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
    retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
    de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
    meio dos cortinados.

    Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
    decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
    similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
    Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
    nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
    á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
    mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
    se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
    a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
    que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
    que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
    ou do luxo que não usa.

    Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
    romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
    lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
    tornar encantadora a familia.

    Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
    predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
    da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
    Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
    serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
    perfeita educação.

    Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
    superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
    processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
    simplicidade tragica.

    O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
    dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
    apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
    pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
    penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
    uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
    espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
    exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
    alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
    seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
    aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
    jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
    se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
    desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
    segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
    mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
    _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

    Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
    refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
    tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
    França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
    essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
    um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
    obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
    _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
    suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
    seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
    caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
    ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
    espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
    do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
    nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
    gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
    suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
    encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
    attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
    Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
    cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
    saberá negar.

    * * * * *

    Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
    medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
    Bazilio_, romance realista.

    Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
    esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
    senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
    espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
    supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
    1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
    cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
    de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
    gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
    da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
    da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
    Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
    atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
    phylanthropos.

    A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
    sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
    pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
    Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
    pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
    convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
    problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
    mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
    leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
    que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
    phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
    integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
    prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

    N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
    que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
    dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
    em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
    zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
    dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
    trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
    mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
    risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
    e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
    caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
    sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
    verba_.

    Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
    se tirou a designação _realismo_.

    Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
    é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
    numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
    simplesmente lyrica.

    O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
    facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
    do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
    uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
    Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
    dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
    que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
    afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
    negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
    morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
    cartas.

    A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
    queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.

    Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
    comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
    mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
    estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
    sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
    philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
    hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
    critica dos costumes, na propria critica da arte.

    Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
    vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
    dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
    _Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
    modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
    as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
    burgueza.

    De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
    contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
    rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
    insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
    companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
    filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
    apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:

    «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
    uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
    honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
    ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
    minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
    fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
    problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
    com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
    romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
    alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
    elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
    asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
    meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
    pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
    em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
    elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
    proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
    pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
    um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
    convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
    concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
    influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
    amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
    em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
    compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
    demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
    reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
    fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
    maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
    applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
    finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
    como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
    these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
    da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»

    Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
    compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
    teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
    artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
    funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
    gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
    religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
    como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
    indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
    se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
    e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
    ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
    a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.

    Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
    _Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
    uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
    gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
    seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
    observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
    biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
    que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
    divina revelação de um novo mundo.

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
    Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

    «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
    de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
    desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
    exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
    Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
    _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._

    Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
    historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
    montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
    carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
    de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
    a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
    que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
    Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
    cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
    Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
    Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
    Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
    Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
    da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?

    Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
    tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
    sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
    quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
    dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
    dizeres?

    Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

    Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
    effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
    convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
    suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
    jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
    phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
    abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
    os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
    que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
    patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!

    * * * * *

    Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
    ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
    seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
    especial:

    1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

    2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
    viajante.

    3.º Não ter dado pateada a um lente.

    4.º Parecer constrangido a dar lição.

    5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

    * * * * *

    Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
    appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
    expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.

    Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
    necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
    teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
    universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
    mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
    legislador mediocre.

    * * * * *

    Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
    aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
    absolvidos pelos tribunaes civis.

    N'esta conjunctura perguntamos:

    É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
    de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
    uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
    julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
    uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
    tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
    contrarias?

    Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
    especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?

    Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
    trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

    Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
    sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

    Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
    quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
    não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

    Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
    d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
    covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
    que ainda possa haver na mocidade portugueza.

    Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
    physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
    com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
    corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
    especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.

    * * * * *

    Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
    sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
    systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
    honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
    força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

    Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
    cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
    sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
    côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
    atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
    naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
    velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
    proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
    escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

    * * * * *

    No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
    Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
    seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
    Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
    para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
    Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
    presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
    seguintes:

    «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
    das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
    livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
    fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
    perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
    abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
    exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
    assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
    medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
    desconheceriamos o dever.

    «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
    conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
    _Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
    ethica da regeição dos dogmas.

    «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
    christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
    senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.

    «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
    espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
    varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
    muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
    produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
    frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
    procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
    insufficiente para nivelar.

    «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
    homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
    e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
    moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
    d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.

    «Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
    aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
    comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
    em si um caracter offensivo.

    «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
    sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
    eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
    cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
    atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
    morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
    celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
    zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
    emprego dos seus ultimos momentos.»

    Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
    é christão, o outro não.

    O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
    religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
    perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
    dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
    peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
    comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
    delicada flor da cavalleria.

    O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
    theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
    agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
    Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
    caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
    é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
    verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»

    * * * * *

    Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
    verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
    de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
    exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
    intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
    moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
    para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
    presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
    em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
    necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
    fundamental da conciliação das consciencias!

    * * * * *

    Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
    mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
    Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
    determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
    tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
    escravisados pelos poderes clericaes.

    Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
    aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
    crescem. Crescem em virtude de que lei?

    Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
    respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
    noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
    fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
    embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
    ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
    operario acrescenta:

    «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
    desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
    de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
    crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
    Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
    amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
    dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
    as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
    coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
    vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
    para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
    Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

    «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
    sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
    Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
    certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
    deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
    sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
    gerações.

    «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
    tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
    legislação humana e a moral universal.»

    * * * * *

    Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
    do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
    principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
    Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
    convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
    perigosas e banidas das discussões publicas.

    Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
    que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
    garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
    das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
    evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
    principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
    reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
    de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
    methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
    que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
    de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
    como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
    os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
    esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

    Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.

    Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
    mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
    nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

    Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
    manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
    cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
    todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
    vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
    morto.

    Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
    expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
    physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
    facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
    theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
    a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
    tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
    resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
    publicos.

    Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
    professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
    vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
    que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
    d'ella:--por falta de inspecção e de policia.

    Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
    solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
    não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
    intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
    armam.

    Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
    dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!

    Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
    mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

    «_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
    _Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
    instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
    de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
    para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
    Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
    Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
    tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
    proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
    e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
    mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
    maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
    portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
    isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
    d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
    religiosa.»_

    A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
    prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
    estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
    quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
    não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
    deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
    ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
    portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
    foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

    Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
    quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
    compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

    D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
    litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
    Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
    para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
    vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
    artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
    Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
    portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
    em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
    vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

    Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
    bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
    Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
    partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
    mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
    Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
    ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
    navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
    mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
    sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
    senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
    Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
    hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
    nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
    onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
    feitos na rua dos Correeiros.

    Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
    Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
    Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
    exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
    Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
    escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
    de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
    mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
    hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
    apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
    official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
    que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
    secretaria.

    No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
    instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
    propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
    dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
    soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
    confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
    Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
    de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
    fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
    tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
    mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
    litteratura de uma nação.

    A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
    instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
    prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
    accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
    instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
    seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
    mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
    discutindo:

    _O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
    ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
    á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
    artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
    tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
    podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
    professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

    Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
    proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
    respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
    tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
    instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
    de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
    religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
    profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
    dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
    entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
    reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
    e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
    que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
    desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
    aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
    sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
    interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
    Maior para lh'o provar.

    Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
    universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
    que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
    é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
    o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
    ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
    formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
    A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
    heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
    emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
    responda pelo erro.

    Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
    a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
    em uma instituição do Estado.

    Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
    lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
    disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
    apagou-lhe a lanterna.

    Quem foi que deixou no mundo esta lição?

    Foi o theologo.

    Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
    legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
    de Rio Maior.

    * * * * *

    Notemos porém um facto consolador:

    O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
    sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
    de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
    cerebro é uma idéa que se extingue.

    Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
    para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
    do professor e o processo pelos tribunaes civis.

    Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!

    Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
    negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
    fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
    pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
    argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
    as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
    tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
    amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
    leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
    pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
    tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
    methodos porque se mortificam os impetos da carne.

    Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
    os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
    a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

    Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
    negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
    cartilha de Padre Mestre Ignacio.

    E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
    uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
    instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
    sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
    portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
    ensino publico de uma nação!

    * * * * *

    Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
    aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:

    _Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_

    O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
    instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
    oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
    _Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:26:59 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

    Aproximadamente 17.486 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
    Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
    d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
    fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
    litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos
    sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
    A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
    cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
    Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
    civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
    situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
    partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.

    No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
    pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
    Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
    Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.

    Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
    imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
    sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
    grande alma do povo.

    Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
    profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
    descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
    póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
    microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
    da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
    que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
    suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
    Ville a Republica de 48.

    Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
    physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
    socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
    economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
    profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
    das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
    instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
    judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
    caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
    favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
    todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
    diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
    os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
    estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
    dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
    isolamento austero da independencia o do sacrificio.

    Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
    e do Bernardo Palissy.

    A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
    resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
    do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
    homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.

    Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
    academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
    rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
    que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
    em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
    phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
    cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
    todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»

    [Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
    cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
    desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
    crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]

    É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
    egualmente o braço constantemente pronto para resistir.

    Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
    mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
    carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
    theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
    verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
    dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
    condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
    liberdade de pensamento!

    O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
    trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
    força do trabalho; Littré, a força da philosophia.

    D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
    fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
    são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
    exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
    nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
    as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
    raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
    mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
    jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
    tem partido.

    Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
    coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
    sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
    calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
    similhantes!

    Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
    repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
    deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
    consciencia e pela verdade!

    * * * * *

    Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
    idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
    instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
    derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
    pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
    empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
    para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
    symbolo ultrajante para a dignidade humana.

    A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
    palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
    olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
    principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
    artista.

    Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
    soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
    puerilmente que se deve ser

    _Fier d'être français
    Quand on regarde la colonne!_

    Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
    comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
    obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
    distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
    Grande!!_

    Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
    republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
    municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
    estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
    que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
    dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
    das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
    aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
    nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
    direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
    cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.

    A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
    um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
    da geração actual o sol de Austerlitz.

    Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
    que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
    ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
    pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
    remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
    maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
    será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
    que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
    pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.

    * * * * *

    Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
    de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
    espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
    elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
    terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
    realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
    alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
    fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
    dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
    mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
    atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
    altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
    encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
    Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
    attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
    contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
    Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.

    Feliz homem!

    * * * * *

    A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
    representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
    notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
    pensadores.

    Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
    annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
    organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
    novo elemento social--o povo.

    José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
    poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
    synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
    decide da sorte dos imperios.

    Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
    celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
    procedera da roda dos expostos.

    Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
    trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
    da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
    azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
    fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
    senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
    que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
    reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
    inimigos.»

    * * * * *

    Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
    consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
    amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
    natureza essencialmente desgraçada.

    Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
    em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
    collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
    nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
    melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
    nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
    jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
    texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
    portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
    tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
    incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
    consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
    direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
    da lingua.

    Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
    generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
    funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
    motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
    instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
    concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
    estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
    repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
    aggravada por uma falsa educação.

    Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
    de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
    caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
    infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
    sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
    da sua inquieta o attribulada existencia.

    A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
    O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
    conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
    dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
    vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
    precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
    para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
    crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
    palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
    vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
    virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
    para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
    no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
    social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás
    mulheres nervosas.

    Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
    suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
    sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
    pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
    Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
    lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
    sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
    de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
    caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
    physicas.

    Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
    obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
    andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
    camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
    Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
    quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
    tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
    philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
    preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
    nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
    assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
    imperfeitamente orientado.

    Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
    da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
    alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
    estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
    ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
    nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
    canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
    descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
    outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
    clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
    bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
    aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
    negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
    voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
    maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
    estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
    sitio amado, uma velha canção querida.

    Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
    que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
    sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
    sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.

    Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
    dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
    aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
    parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
    madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
    biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
    Inutilmente. Elle estava morto.

    Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
    Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
    acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
    traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
    o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
    O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
    e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
    illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
    qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
    quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
    maledicencia.

    * * * * *

    Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_
    o folhetim seguinte:

    _Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de
    ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das
    mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
    estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
    caldo_.

    Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
    deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
    Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
    de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
    paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
    ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
    por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
    tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
    que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
    nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
    responsabilidade.

    Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
    contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
    escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
    espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
    que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
    caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
    depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
    substancia.

    Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
    sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
    esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
    deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
    vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.

    Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
    faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
    proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
    sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
    classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
    nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
    agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
    idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
    comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
    portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
    Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
    á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
    lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
    nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
    heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
    incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
    todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
    supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
    os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
    terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
    preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
    rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.

    A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
    homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles
    teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
    quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
    consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
    todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
    portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
    das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
    brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
    de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
    chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
    educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.

    Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
    passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
    chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
    lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
    familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
    braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
    crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
    seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
    gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
    pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.

    O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
    a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
    collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
    frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
    boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
    recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.

    Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
    todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
    se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
    fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
    viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
    differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
    mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
    considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
    suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
    falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

    Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
    as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
    sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
    a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
    convicção.

    Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
    profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
    lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
    seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
    sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
    horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
    energicos e audaciosos.

    Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
    n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
    que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
    sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o
    chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
    tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
    e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.

    Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
    alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
    vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
    casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.

    Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
    forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
    exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
    guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
    maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
    realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

    A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
    mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
    necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
    reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
    conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
    respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
    da esposa.

    Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
    inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.

    Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
    physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos
    ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
    isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
    acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
    reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
    mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
    encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

    Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
    como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
    civilizadas da Europa.

    Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
    irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
    intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
    sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
    de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
    que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
    circos o trabalho de fazer rir o publico.

    Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
    esse importantissimo.

    Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
    sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
    seus.

    Sua

    _Irmã de Caridade_

    * * * * *

    Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
    effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
    é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
    já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
    retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
    espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
    acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
    phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
    lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
    apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
    prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
    queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

    Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
    processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
    mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
    não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
    mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

    O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
    imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
    philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
    temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
    os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
    Revêde-vos na vossa obra.

    Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
    de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
    recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
    _cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

    Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
    raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
    intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
    encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
    vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
    presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
    racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
    de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
    Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
    mesmo pelo que lhe ensinastes.

    * * * * *

    Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
    interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

    O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?

    As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em
    artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
    constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
    reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
    criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
    violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
    dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
    flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
    indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
    dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
    e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
    pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
    negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
    aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
    ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
    collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
    indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
    ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
    superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
    palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
    amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
    filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
    cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
    dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
    presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
    systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é
    claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
    das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
    mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
    suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

    Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
    uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
    o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
    portuguezas:

    «Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
    trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»

    Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
    Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
    senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente
    formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
    considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
    Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
    qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
    tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
    nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
    da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
    mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
    talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
    lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
    entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
    cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
    recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
    qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
    lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
    seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

    Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
    e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
    deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
    Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

    Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
    compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
    chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
    effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
    sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
    é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
    estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
    excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
    nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
    da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
    mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
    pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
    força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
    sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
    caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
    eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
    pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
    pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
    substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
    alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
    sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
    srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
    Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
    excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
    tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
    um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
    seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

    A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
    assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
    nos adversarios senão admiração e respeito.

    É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
    dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
    seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
    hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
    muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
    individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
    analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
    dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
    pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
    nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
    campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
    alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
    pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
    operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
    qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
    por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
    nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
    historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
    simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
    tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
    cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
    nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
    nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
    melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
    dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
    economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
    philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
    de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
    resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
    quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
    illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
    similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
    empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

    Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
    de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
    supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
    respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
    Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
    travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
    uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
    vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.

    Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
    reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
    affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
    perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
    imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
    vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
    mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
    offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
    Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
    virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
    enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!

    Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
    meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
    licores para os botequins?

    As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
    ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
    agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
    unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
    poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
    idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
    vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
    lá buscar.

    * * * * *

    Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
    segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
    Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
    d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
    encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
    arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
    para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
    pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
    da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
    pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
    conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
    trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
    conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
    a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_

    Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
    excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
    bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
    _abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)

    O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
    promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
    algemas!

    Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
    excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
    jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
    constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
    poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.

    * * * * *

    O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
    robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
    licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:

    Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
    linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
    Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
    homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
    a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
    excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
    me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
    que não tomei ease chá.

    Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
    courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
    mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
    para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal,
    que eu ingeria em grandes dozes.

    A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
    não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
    tinha pia.

    A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
    grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
    primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
    terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
    dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
    instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
    Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
    casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
    economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
    piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
    fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
    desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
    cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
    dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
    esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
    modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo
    defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
    perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
    cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
    onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
    agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
    masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
    fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
    em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
    com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
    efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
    do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
    escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
    sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.

    Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
    suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
    honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
    contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
    familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
    braças de solo cobertas por esse velho tecto.

    A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
    os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
    poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
    fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
    havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
    modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
    educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
    saudade eterna dos seus netos.

    A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
    minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
    que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
    robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
    nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
    das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
    vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
    folhetins dos periodicos.

    * * * * *

    Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
    escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
    Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
    chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.

    * * * * *

    Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
    telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.

    Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
    que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!

    Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
    Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
    Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
    Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
    arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.

    A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
    as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
    a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.

    Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
    accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
    parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.

    Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
    coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
    conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.

    Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
    O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
    verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
    vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
    sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
    chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
    trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.

    Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
    incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
    contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
    faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
    ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
    hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
    ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
    remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
    sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
    presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
    instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
    tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
    cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_

    E a posteridade nos abençoará.

    * * * * *

    Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
    hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
    politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
    manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
    uns aos outros:

    --Não viram por ahi a hydra?

    Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
    entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
    Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
    dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
    imperfeito do verbo Mexer.

    * * * * *

    N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
    presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
    hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
    suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
    de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.

    Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
    salvar a situação da falta da hydra:

    * * * * *

    O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
    Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
    pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
    seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
    haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
    questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
    exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
    como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
    que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
    d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
    Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
    esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
    podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
    enterrado.

    N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
    determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
    que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
    municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
    discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
    alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.

    * * * * *

    Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
    de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
    triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
    cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
    uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
    rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
    arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
    auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
    uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
    cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
    o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
    triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
    theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
    lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
    phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
    e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
    estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
    ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.

    * * * * *

    Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
    canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
    montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
    philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
    morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
    rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
    vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
    hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
    ainda parece pouco.

    O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
    fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
    aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
    romana.

    * * * * *

    Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
    dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
    cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
    consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
    infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
    cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
    Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
    mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
    campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
    discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
    eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
    amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
    orbe pela larga benção incondicional de Jesus.

    Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
    pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
    recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
    podridões privilegiadas.

    Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
    ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
    pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
    as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
    pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
    no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
    terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
    sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
    resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
    dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
    chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
    bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.

    Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
    do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
    grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
    do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
    nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
    o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
    teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
    usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
    canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
    sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
    humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
    sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
    És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
    para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
    te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
    o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
    distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
    sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
    chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
    poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
    outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
    e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
    doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
    te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
    horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
    homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
    padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
    dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
    filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
    entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
    suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
    tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
    dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
    enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
    cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
    bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
    vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
    preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
    mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
    cidade inteira.

    E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
    inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
    que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
    te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:

    No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
    canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
    anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
    para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
    os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
    catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
    Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
    somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
    ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
    como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
    com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
    ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
    condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
    tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
    justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
    elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
    interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
    dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
    voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
    Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
    baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
    Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
    cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
    esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
    para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
    um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
    o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
    sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
    eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.

    Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
    Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
    mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
    mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
    Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
    Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
    que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
    cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
    os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
    collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
    resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
    primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
    pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
    impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
    sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
    fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
    contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.

    * * * * *

    Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
    ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
    por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
    muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
    esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
    n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
    pretendemos consultar s. exª:

    * * * * *

    Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
    não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
    por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
    entretendo.

    N'esta hypothese pergunta-se:

    Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
    o capricho de descartar-me?

    Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
    indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
    escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
    impios e locomotores.

    A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
    direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
    Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
    baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
    lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
    aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
    este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
    as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
    parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
    carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
    padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
    tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
    resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
    varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
    crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
    compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
    todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
    contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
    por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
    e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
    paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
    dos atheus.

    * * * * *

    Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
    funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
    resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:

    Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
    communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
    não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
    uma affirmação civil.

    Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
    facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
    ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
    substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
    perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
    o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
    demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
    attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
    sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
    não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
    exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
    na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
    póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
    póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!

    A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
    antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
    pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.

    Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
    nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
    igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
    dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
    pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
    igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
    de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
    minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
    eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
    espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
    deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
    era--a perna da igreja.

    Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
    perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
    catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
    recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
    direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
    ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
    anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
    de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
    religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
    religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
    baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.

    Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
    Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
    separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
    obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
    dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
    sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
    estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
    designar a sepultura sagrada.

    Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
    outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
    pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
    effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
    de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
    e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
    contrario.

    Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
    encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
    perna.

    Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
    creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
    de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
    padre, morrer sem padre.

    * * * * *

    Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
    cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
    esquina do Laranjal

    Porto

    Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
    pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
    todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
    inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

    Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
    tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
    comparecer.

    Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
    reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
    pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
    comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
    ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
    presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
    certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!

    Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
    uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
    n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
    violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
    encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
    maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
    levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
    Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
    Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
    caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
    de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
    Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
    da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
    _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
    reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
    fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
    ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
    com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
    trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
    abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
    os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
    murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
    freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
    de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
    torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
    venezianamente na agua.

    Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
    ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
    proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
    humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
    os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
    os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
    tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
    Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
    paiz estavam ahi reunidos. Para que?

    Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
    mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
    phenomeno! que revolução!

    Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
    determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
    de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
    iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
    casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
    domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
    os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
    mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
    longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
    caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
    plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

    Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
    pessoal.

    Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
    o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
    exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
    funccionalidade diversa.

    Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
    politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
    por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
    irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
    nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
    espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

    A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
    symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
    mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
    que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
    tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
    que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
    todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
    de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
    A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
    convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
    individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
    o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
    progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
    revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
    acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
    cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
    outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
    tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
    episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
    conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
    sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
    força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
    bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
    vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
    aperfeiçoamento e para a felicidade.

    Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
    os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
    dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
    elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
    remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
    determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
    das sociedades.

    A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
    victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
    paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
    sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
    progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
    instituições.

    Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
    estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
    um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
    reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
    nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
    com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
    debatida entre dois principes.

    A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
    progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
    milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
    affirmação d'esse progresso.

    A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
    principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
    especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

    Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
    seu novo hospede? Não lhe apparecendo!

    V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
    irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
    satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
    que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
    pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
    do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
    chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
    ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
    agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
    extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
    cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

    Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
    completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
    democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
    abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
    portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

    É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
    contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
    com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
    patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
    o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
    forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
    nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
    sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
    telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
    teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
    resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

    Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
    como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

    * * * * *

    Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
    de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
    os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

    Eis o que ao depois occorreu:

    * * * * *

    A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
    choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
    Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
    estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
    suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?

    --Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
    mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

    Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
    bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
    aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:

    --Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

    E deixaram-o ir.

    * * * * *

    Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
    com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
    estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
    orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
    deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
    adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
    homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
    perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
    abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
    redea.

    * * * * *

    Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
    cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
    retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
    saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
    moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
    officiaes!

    * * * * *

    Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
    do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
    dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
    circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
    sr. José Dias Ferreira.

    Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
    o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:

    --A mim, rapazes!

    E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.

    * * * * *

    Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
    assim elle mesmo?

    Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
    burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!

    Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
    sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

    * * * * *

    O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
    do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
    Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
    rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
    depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
    seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
    cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
    para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
    dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
    nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
    como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
    estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
    Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
    commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
    delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
    abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
    de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
    ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
    auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
    azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!

    Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
    da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
    causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
    durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
    intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
    bolsa do alforge ministerial.

    Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
    enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

    * * * * *

    E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
    logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
    nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
    arnica o seu galo.

    * * * * *

    Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
    jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
    eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
    Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

    O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
    como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
    estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
    kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª

    * * * * *

    Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
    deputados:

    * * * * *

    Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
    funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
    os parapeitos até ao tecto.

    Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
    o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

    Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
    individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
    resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
    publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
    dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

    Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
    encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
    feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
    com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
    calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

    No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
    coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

    Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

    Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
    amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
    O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
    Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.

    Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
    mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
    sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
    descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
    cahidas do systema que felizmente nos rege.

    No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
    inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
    dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
    sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
    inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

    --Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
    lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

    Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
    estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
    cabeça.

    Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
    vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
    estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
    resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
    mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
    a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
    submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
    face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
    resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
    sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
    constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
    extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
    lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
    moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
    botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
    trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
    ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
    da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
    constitucional.

    Diz mais o orador:

    --«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
    pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
    investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
    inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
    isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
    aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
    porque elles serão consolados».

    E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
    camara:--«Muito bem! muito bem!»

    Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
    Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
    e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
    victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
    questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
    desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
    srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
    Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
    ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
    Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
    Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
    alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
    dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
    d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
    crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
    queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
    moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
    nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
    collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
    meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

    E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
    applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

    A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
    como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
    Kant, de Hegel e de Hartman.

    Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
    philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
    precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
    grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
    indisciplina mental.

    Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
    philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

    Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
    definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
    para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
    triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
    filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

    Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
    peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
    pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
    o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
    politico do imperador Guilherme?

    Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
    senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
    arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?

    Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
    vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
    preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
    ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
    peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
    certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
    pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
    philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
    contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
    pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
    linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
    elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
    actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.

    Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
    experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
    humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
    maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
    indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
    sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
    noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»

    A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
    esphacelamento cerebral.

    Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
    caturras?--É unicamente o que perguntamos.

    * * * * *

    O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
    governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
    coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
    social.

    A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
    fazer.

    A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
    o principio em que se funda.

    A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

    Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
    uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
    Turquia está muito adeante de nós.

    Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
    destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
    dissolvem-se na banalidade.

    As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
    personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
    camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
    mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

    Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
    assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
    exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
    burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
    moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
    cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
    similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

    Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
    circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
    do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
    funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?

    * * * * *

    Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
    catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
    militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
    electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
    quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
    permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
    de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
    governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
    uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
    de cordas, uma photographa, etc.

    Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
    disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
    pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
    opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
    partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
    conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
    evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
    industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
    das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
    universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
    magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
    governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
    distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
    a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

    A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
    não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
    e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
    partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
    perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
    a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
    pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
    partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

    Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
    mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
    completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
    constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
    vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
    digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

    * * * * *

    Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
    converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

    O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
    corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
    appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
    appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
    compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
    diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
    favor da urna.

    O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
    todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
    expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
    consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
    commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!

    Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
    competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
    de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
    moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
    a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
    preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
    é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
    deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
    e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
    aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
    insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

    Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
    como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
    _compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
    ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
    correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
    apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
    compadre, vou para o partido d'elle.

    O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
    machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
    governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
    o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
    que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
    como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
    engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
    tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

    A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
    contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
    esse poder é unicamente--o da comadre.

    A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
    dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
    rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
    unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
    real; compadrice, comadrice--eis tudo.

    * * * * *

    Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
    decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
    ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
    miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
    remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
    quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
    socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
    sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
    e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
    philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
    que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
    resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
    reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
    concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
    revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
    conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
    actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
    mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

    * * * * *

    Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
    sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
    pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
    que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
    caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum
    sepulchrum_!

    ]]>
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  • Bases da ortografia portuguesa

    Bases da ortografia portuguesa

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    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    POR

    A. R. GONÇALVES VIANNA
    Romanista

    G. DE VASCONCELLOS ABREU
    Orientalista

    LISBOA
    IMPRENSA NACIONAL
    1885

    _Impresso para circular gratuitamente_

    _OFERTA DOS AUTORES_

    Ex.^mo Sr.

    Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
    ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
    ciéncia, arte e literatura–Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
    honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
    conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
    ortografia assenta.

    Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
    ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
    escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
    papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
    discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
    dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
    de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
    que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.

    Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
    preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
    Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
    nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
    chamar-se +Ortografia Portuguesa+.

    No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
    o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
    adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
    individual, seja quem for seu autor.

    [1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
    e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
    1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
    do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.

    O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.

    Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
    saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
    sistema de ortografia.

    São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
    (a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
    S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.

    São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.

    Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
    sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
    estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
    próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
    do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
    Imprensa da Universidade–estes plurais são a expressão real de um
    facto, sem censura pessoal.

    Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
    assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
    a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
    das verdadeiras condições da vida nacional–existéncia de ortografia
    +uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
    +Ortografia Portuguesa+.

    Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
    o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
    dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
    publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
    com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
    respeito.

    De V. Ex.ª

    +atentos veneradores+

    Lisboa, outubro de 1885.

    A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    I

    PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA

    1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
    alterá-la fundamentalmente.

    2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
    da sociedade cujas relações serve.

    3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
    língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.

    4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
    nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.

    5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
    falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
    da língua.

    6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
    que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
    sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
    próprio e exclusivo.

    7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
    indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
    vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
    conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
    em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
    silabização.

    8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
    o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
    acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
    tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.

    _Escólio_.–É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
    escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
    latim clássico e as línguas jermánicas.

    II

    PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

    O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
    prática, ao ensino de:

    I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.

    II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
    proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.

    III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.

    IV. Silabização.

    V. Homónimos e parónimos.

    VI. Função dos sufixos.

    VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
    das enclíticas.

    Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
    primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.

    «ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
    comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
    da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.

    Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
    vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
    se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
    assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
    um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
    Pedro I, D. Fernando I e D. João I.

    Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
    evolução glotolójica neo-latina ou románica.

    I–DA ACENTUAÇÃO

    1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
    modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
    vocábulo.

    Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
    portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
    justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.

    _Escólio._–A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
    excepção à regra jeral.

    2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
    agudo. Marca, porém, êste acento:–vogal tónica aberta em parónimos:
    _fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
    _real_);–_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
    _reúne, moínho, ruím_;–a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
    (cf. 4.º): _argúe, argúi_.

    3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
    o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
    modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
    precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
    _modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
    _córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
    _vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
    sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
    dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
    mercê_.

    4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
    alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
    mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
    exclusivamente em tres circunstáncias:–na crase da preposição _a_ com o
    artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;–na sílaba átona cuja
    vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
    alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
    _crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);–no _u_ de prolacão
    _gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
    lingùística_.

    _Escólio._–Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
    ex.: _consecuente, consecuéncia_.

    5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
    enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
    gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.

    5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
    proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
    acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
    exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
    sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.

    6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
    vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
    respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
    não teem acento gráfico.

    6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
    noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
    funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
    perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.

    7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
    puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
    Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
    irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
    Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.

    7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
    se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.

    _Escólio_.–Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
    viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
    pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
    ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
    pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
    prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.

    _Corolário_.–Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
    escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
    sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
    grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
    5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
    _alar_).

    _N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
    ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
    _porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.

    É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
    dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
    (_órdêes, viájêes_).

    8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
    símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
    expostos.

    II–DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES

    Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
    quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
    representação de fonemas articulados. São estes factos:

    _a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
    _x; s, ç; s, z_.

    _b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
    articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
    u_), _qu_.

    _c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
    fonema modulado precedente.

    _d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.

    II _a_.–EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES

    1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
    próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
    _c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.

    1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
    _quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
    _quilómetro_[1], _quilograma_, etc.

    2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
    consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
    influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
    manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
    uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.

    Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:

    _th_ = _t_.–_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
    _tio_.

    _ph_ = _f_.–_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.

    _ch_ = _q_(_u_).–_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
    _chimera_ = _quimera_.

    _ch_ = _c_(_a, o_).–_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
    _mecánica_.

    _y_ = _i_.–_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.

    Consoantes dobradas:–_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
    _prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.

    Grupo de consoantes:–_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
    _Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
    _Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
    _tísica_.

    Influência da consoante na modulação precedente:–Vejam-se exemplos em
    _c_, páj. 11.

    1.º _Escólio_.–Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
    derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
    prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
    aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
    _e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
    _connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
    innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.

    2.º _Escólio_.–Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
    lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.

    [1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
    «metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
    «burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
    escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
    representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
    grego?

    3.º _Escólio_.–Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
    conservação da aspirante _h_.

    II _b_.–ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES

    _a)_–1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
    dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
    chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
    o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
    da grafia _ch_.

    2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
    palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
    enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
    etc. Cf. _d)_.

    3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
    e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
    dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
    transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.

    4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
    que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
    dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
    etc. Determinação histórica e comparação.

    5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
    sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
    não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
    doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
    comparação.

    6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
    pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
    que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
    _posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
    _preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.

    7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
    branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
    sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
    cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.

    8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
    escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
    o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
    dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
    simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.

    _Corolário_.–Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
    _zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
    _-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
    _-ização_.

    _Escólio_.–Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
    do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
    Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
    acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
    _pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.

    _b)_–1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
    gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
    pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).

    2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
    _g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
    _q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
    trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
    distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
    u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
    geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
    tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
    estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
    _gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
    _Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
    símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
    gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
    conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.

    _Escólio_.–É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
    aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
    terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
    brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
    gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.

    _c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
    influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
    predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
    aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._

    _Escólio_.–Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
    _edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
    _corrupção_.

    _d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
    de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
    Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
    assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
    nada mais pode fazer–estabelece o padrão, dá a norma–para que se
    dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.

    Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
    de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
    isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
    trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
    'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.

    III–DOS DITONGOS

    Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
    do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
    jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
    na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
    caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.

    O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
    línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
    abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.

    IV–DA SILABIZAÇÃO

    Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
    princípios:

    1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
    para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
    à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
    obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
    a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.

    2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
    vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.

    3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
    _traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
    se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
    ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta–bandeira,
    guarda–fato, clara–boia; luso–brasileiro; deu–m'o, louva–lhe,
    démo'–lo, louva–o, louvá–lo, arrepender–se, domá–lo–ia_.

    V–DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS

    1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
    sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
    nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
    exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
    exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
    paço_,–parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
    _s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
    distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
    _houve, ouve; dê-se, dêsse_.

    _Escólio._–Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
    ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
    _per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
    enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
    escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
    (cf. _pélo, pelo_).

    2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
    _pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
    Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
    quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
    colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
    (verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
    (verbo), _batéis; caia, caía_; etc.

    VI–DOS SUFIXOS

    Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
    cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
    estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
    morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
    desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.

    É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
    _organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.

    VII–DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS

    Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
    quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
    são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
    inconsciente.

    É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
    _haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
    louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
    hão_.

    É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
    um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
    = (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
    (hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
    perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
    pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
    _descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
    comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.

    III

    O NOSSO INTUITO

    Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
    pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
    grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
    tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
    gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
    cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
    são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
    tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.

    Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
    que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
    Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
    ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
    ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
    que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
    singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
    _idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
    aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
    passeamos, passeais, passeiam_;–passeava, passeavas_, etc.;–_passeei,
    passeaste_, etc.;–_passearei, passearás_, etc.;–_passearia_,
    etc.;–_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
    eles;–que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
    passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;–passear, passeando,
    passeado_. O radical português é _passe-_.

    É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
    circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
    ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
    estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
    princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
    método sem contradições:–se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
    que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
    de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
    nomes.

    Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
    apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
    quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
    ORTOGRAFIA PORTUGUESA.

    +ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+

    POR A. R. GONÇALVES VIANNA

    Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
    Professor Faulmann.–Porto, 1881.

    Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
    dialecte de Lisbonne.–Paris, 1883.

    Études de Grammaire Portugaise.–Louvain, 1884.

    Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
    português).–Paris, 1885.

    POR G. DE VASCONCELLOS ABREU

    Questions Védiques.–Paris, 1877.

    Sobre a Séde originaria da Gente Árica.–Coimbra, 1878.

    Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.–Lisboa, 1878.

    Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
    Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.–Lisboa,
    1878.

    Contribuições mythologicas.

    Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.–Lisboa, 1879.

    Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
    (publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
    foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
    «Buddhist Legends from Fragmentos … by G. de Vasconcellos Abreu.
    Translated with additional notes. Ceylon).–1880.–1884.

    O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
    do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
    recensão Bengali).–Lisboa, 1878.

    Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
    Grammatical.–Lisboa, 1881-1882.

    De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
    l'Asie.–Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
    apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).

    A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.–Paris,
    1885.

    Jim Blog https://blog.mabo.cc Jim — Accessible Converter - Em vez de obrigar os usuários a baixar arquivos, ele torna o conteúdo navegável na web. Wed, 21 Oct 2026 12:27:13 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://blog.mabo.cc/wp-content/uploads/2026/10/cropped-logo-32x32.png Jim Blog https://blog.mabo.cc 32 32 257901688 Bases da ortografia portuguesa https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/ https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:13 +0000 https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/

    Bases da ortografia portuguesa

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    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    POR

    A. R. GONÇALVES VIANNA
    Romanista

    G. DE VASCONCELLOS ABREU
    Orientalista

    LISBOA
    IMPRENSA NACIONAL
    1885

    _Impresso para circular gratuitamente_

    _OFERTA DOS AUTORES_

    Ex.^mo Sr.

    Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
    ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
    ciéncia, arte e literatura--Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
    honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
    conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
    ortografia assenta.

    Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
    ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
    escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
    papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
    discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
    dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
    de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
    que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.

    Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
    preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
    Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
    nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
    chamar-se +Ortografia Portuguesa+.

    No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
    o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
    adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
    individual, seja quem for seu autor.

    [1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
    e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
    1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
    do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.

    O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.

    Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
    saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
    sistema de ortografia.

    São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
    (a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
    S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.

    São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.

    Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
    sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
    estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
    próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
    do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
    Imprensa da Universidade--estes plurais são a expressão real de um
    facto, sem censura pessoal.

    Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
    assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
    a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
    das verdadeiras condições da vida nacional--existéncia de ortografia
    +uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
    +Ortografia Portuguesa+.

    Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
    o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
    dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
    publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
    com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
    respeito.

    De V. Ex.ª

    +atentos veneradores+

    Lisboa, outubro de 1885.

    A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    I

    PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA

    1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
    alterá-la fundamentalmente.

    2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
    da sociedade cujas relações serve.

    3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
    língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.

    4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
    nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.

    5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
    falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
    da língua.

    6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
    que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
    sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
    próprio e exclusivo.

    7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
    indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
    vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
    conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
    em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
    silabização.

    8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
    o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
    acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
    tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.

    _Escólio_.--É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
    escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
    latim clássico e as línguas jermánicas.

    II

    PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

    O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
    prática, ao ensino de:

    I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.

    II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
    proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.

    III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.

    IV. Silabização.

    V. Homónimos e parónimos.

    VI. Função dos sufixos.

    VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
    das enclíticas.

    Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
    primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.

    «ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
    comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
    da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.

    Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
    vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
    se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
    assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
    um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
    Pedro I, D. Fernando I e D. João I.

    Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
    evolução glotolójica neo-latina ou románica.

    I--DA ACENTUAÇÃO

    1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
    modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
    vocábulo.

    Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
    portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
    justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.

    _Escólio._--A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
    excepção à regra jeral.

    2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
    agudo. Marca, porém, êste acento:--vogal tónica aberta em parónimos:
    _fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
    _real_);--_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
    _reúne, moínho, ruím_;--a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
    (cf. 4.º): _argúe, argúi_.

    3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
    o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
    modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
    precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
    _modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
    _córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
    _vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
    sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
    dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
    mercê_.

    4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
    alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
    mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
    exclusivamente em tres circunstáncias:--na crase da preposição _a_ com o
    artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;--na sílaba átona cuja
    vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
    alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
    _crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);--no _u_ de prolacão
    _gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
    lingùística_.

    _Escólio._--Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
    ex.: _consecuente, consecuéncia_.

    5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
    enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
    gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.

    5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
    proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
    acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
    exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
    sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.

    6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
    vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
    respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
    não teem acento gráfico.

    6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
    noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
    funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
    perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.

    7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
    puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
    Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
    irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
    Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.

    7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
    se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.

    _Escólio_.--Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
    viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
    pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
    ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
    pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
    prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.

    _Corolário_.--Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
    escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
    sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
    grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
    5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
    _alar_).

    _N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
    ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
    _porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.

    É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
    dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
    (_órdêes, viájêes_).

    8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
    símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
    expostos.

    II--DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES

    Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
    quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
    representação de fonemas articulados. São estes factos:

    _a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
    _x; s, ç; s, z_.

    _b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
    articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
    u_), _qu_.

    _c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
    fonema modulado precedente.

    _d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.

    II _a_.--EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES

    1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
    próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
    _c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.

    1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
    _quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
    _quilómetro_[1], _quilograma_, etc.

    2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
    consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
    influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
    manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
    uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.

    Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:

    _th_ = _t_.--_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
    _tio_.

    _ph_ = _f_.--_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.

    _ch_ = _q_(_u_).--_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
    _chimera_ = _quimera_.

    _ch_ = _c_(_a, o_).--_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
    _mecánica_.

    _y_ = _i_.--_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.

    Consoantes dobradas:--_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
    _prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.

    Grupo de consoantes:--_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
    _Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
    _Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
    _tísica_.

    Influência da consoante na modulação precedente:--Vejam-se exemplos em
    _c_, páj. 11.

    1.º _Escólio_.--Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
    derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
    prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
    aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
    _e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
    _connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
    innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.

    2.º _Escólio_.--Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
    lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.

    [1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
    «metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
    «burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
    escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
    representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
    grego?

    3.º _Escólio_.--Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
    conservação da aspirante _h_.

    II _b_.--ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES

    _a)_--1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
    dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
    chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
    o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
    da grafia _ch_.

    2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
    palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
    enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
    etc. Cf. _d)_.

    3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
    e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
    dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
    transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.

    4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
    que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
    dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
    etc. Determinação histórica e comparação.

    5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
    sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
    não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
    doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
    comparação.

    6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
    pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
    que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
    _posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
    _preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.

    7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
    branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
    sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
    cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.

    8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
    escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
    o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
    dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
    simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.

    _Corolário_.--Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
    _zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
    _-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
    _-ização_.

    _Escólio_.--Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
    do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
    Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
    acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
    _pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.

    _b)_--1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
    gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
    pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).

    2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
    _g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
    _q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
    trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
    distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
    u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
    geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
    tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
    estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
    _gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
    _Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
    símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
    gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
    conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.

    _Escólio_.--É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
    aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
    terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
    brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
    gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.

    _c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
    influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
    predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
    aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._

    _Escólio_.--Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
    _edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
    _corrupção_.

    _d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
    de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
    Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
    assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
    nada mais pode fazer--estabelece o padrão, dá a norma--para que se
    dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.

    Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
    de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
    isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
    trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
    'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.

    III--DOS DITONGOS

    Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
    do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
    jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
    na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
    caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.

    O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
    línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
    abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.

    IV--DA SILABIZAÇÃO

    Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
    princípios:

    1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
    para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
    à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
    obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
    a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.

    2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
    vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.

    3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
    _traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
    se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
    ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta--bandeira,
    guarda--fato, clara--boia; luso--brasileiro; deu--m'o, louva--lhe,
    démo'--lo, louva--o, louvá--lo, arrepender--se, domá--lo--ia_.

    V--DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS

    1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
    sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
    nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
    exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
    exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
    paço_,--parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
    _s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
    distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
    _houve, ouve; dê-se, dêsse_.

    _Escólio._--Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
    ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
    _per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
    enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
    escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
    (cf. _pélo, pelo_).

    2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
    _pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
    Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
    quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
    colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
    (verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
    (verbo), _batéis; caia, caía_; etc.

    VI--DOS SUFIXOS

    Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
    cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
    estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
    morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
    desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.

    É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
    _organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.

    VII--DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS

    Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
    quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
    são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
    inconsciente.

    É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
    _haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
    louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
    hão_.

    É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
    um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
    = (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
    (hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
    perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
    pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
    _descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
    comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.

    III

    O NOSSO INTUITO

    Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
    pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
    grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
    tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
    gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
    cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
    são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
    tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.

    Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
    que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
    Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
    ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
    ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
    que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
    singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
    _idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
    aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
    passeamos, passeais, passeiam_;--passeava, passeavas_, etc.;--_passeei,
    passeaste_, etc.;--_passearei, passearás_, etc.;--_passearia_,
    etc.;--_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
    eles;--que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
    passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;--passear, passeando,
    passeado_. O radical português é _passe-_.

    É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
    circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
    ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
    estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
    princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
    método sem contradições:--se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
    que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
    de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
    nomes.

    Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
    apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
    quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
    ORTOGRAFIA PORTUGUESA.

    +ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+

    POR A. R. GONÇALVES VIANNA

    Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
    Professor Faulmann.--Porto, 1881.

    Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
    dialecte de Lisbonne.--Paris, 1883.

    Études de Grammaire Portugaise.--Louvain, 1884.

    Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
    português).--Paris, 1885.

    POR G. DE VASCONCELLOS ABREU

    Questions Védiques.--Paris, 1877.

    Sobre a Séde originaria da Gente Árica.--Coimbra, 1878.

    Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.--Lisboa, 1878.

    Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
    Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.--Lisboa,
    1878.

    Contribuições mythologicas.

    Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.--Lisboa, 1879.

    Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
    (publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
    foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
    «Buddhist Legends from Fragmentos ... by G. de Vasconcellos Abreu.
    Translated with additional notes. Ceylon).--1880.--1884.

    O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
    do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
    recensão Bengali).--Lisboa, 1878.

    Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
    Grammatical.--Lisboa, 1881-1882.

    De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
    l'Asie.--Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
    apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).

    A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.--Paris,
    1885.

    ]]> https://blog.mabo.cc/bases-da-ortografia-portuguesa/feed/ 0 1504 As Farpas,1882-11_12 https://blog.mabo.cc/as-farpas1882-11_12/ https://blog.mabo.cc/as-farpas1882-11_12/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:11 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas1882-11_12/

    As Farpas,1882-11_12

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
    mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
    Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
    faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,--com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    --Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    --Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    --Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
    lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    --Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    --Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    --Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    --Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
    mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    --Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo.....

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar....

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
    propriamente--uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

    --Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!... amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
    fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
    _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
    dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?..._

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
    se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    --Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?...

    --Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava....

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    --Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?...

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?...

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    --Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
    templo!...

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
    outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

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    As Farpas, 1873-01_02

    Aproximadamente 16.329 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Janeiro a Fevereiro de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
    partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
    Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
    governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
    portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
    virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos
    estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O
    enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força
    armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
    cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
    personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
    sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os
    srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
    A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
    e Pickuick.

    Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
    se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
    Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para
    findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito
    projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
    egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
    immobilidade oriental.

    Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
    tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
    assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
    paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

    Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
    affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
    que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
    podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
    alargar-se d'estes termos.

    _Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»

    _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»

    Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.

    * * * * *

    Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
    collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
    confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
    reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
    provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
    effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

    As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
    que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
    interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
    d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que
    tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
    maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
    dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
    decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
    luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

    Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
    segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
    desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
    seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
    operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
    pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
    onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
    precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
    assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
    sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
    estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
    sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
    lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
    distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
    suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
    surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
    riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
    rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
    descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

    E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
    tem de aprender a ser digno e honrado!

    * * * * *

    Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
    negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
    administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
    correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
    todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

    Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
    cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
    nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
    para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
    constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
    quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
    da Companhia.

    Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
    erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
    definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:

    «Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
    avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
    revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
    senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
    que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
    se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»

    Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
    srs. deputados votariam calados.

    Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
    que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
    Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
    sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
    propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

    Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
    discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
    republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
    todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
    é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
    bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

    Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
    constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
    interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
    tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
    povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
    distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
    parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
    fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
    symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
    trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
    problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
    parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
    em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
    defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
    tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
    especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
    em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
    constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
    é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
    ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
    pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
    declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede
    viveres.»

    Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
    obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
    fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
    governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
    aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
    catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
    absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
    o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
    e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
    esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
    por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
    quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
    tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
    depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
    fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
    Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
    socego e da ordem.

    Hoje porém:

    Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
    vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

    Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
    mesmas;

    Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
    transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
    a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

    Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
    impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
    via da eleição representem a vontade popular:

    Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
    póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
    considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
    de poder que ellas asseguram ao povo.

    Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
    uma monarchia parlamentar.

    A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
    por chefe do poder executivo--um presidente eleito.

    A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
    povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
    executivo--um rei hereditario.

    O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
    republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
    monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
    responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
    dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
    liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
    para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
    tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
    tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
    suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
    N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
    grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
    monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
    de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
    reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
    de juizo para governar.

    Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
    das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
    nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
    Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
    monarchia representativa.

    A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
    de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
    politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de
    quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um
    presidente eleito.

    O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
    funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
    affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
    soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
    Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
    ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
    d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
    que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
    expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
    para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
    França poderia introduzir na organisação do trabalho.

    A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
    vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
    defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o
    constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
    nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

    Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
    que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
    escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
    relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
    distincção: um e outro affirmam um governo livre.

    A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
    é:

    Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
    verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

    Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

    Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
    a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
    pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
    dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
    guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
    Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
    a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
    reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
    physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
    pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
    Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
    manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os
    unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
    de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
    não seja--a de desafinarem.

    Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
    de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
    livre sob a monarchia portugueza.

    Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
    correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
    dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
    ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto
    existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
    para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
    deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
    elle encerra....

    E que digamos a suas excellencias:

    Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
    egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
    verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
    governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
    eleitos.

    Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
    o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
    governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
    mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
    constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
    mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
    eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
    monarchia parlamentar.

    Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
    republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
    regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
    monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
    exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
    exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
    portuguez?

    Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
    republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
    por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
    Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
    moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
    tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
    representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
    da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
    independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
    monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
    srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
    sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
    voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
    pedirá--herva.

    * * * * *

    Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
    deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
    camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
    suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
    as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
    á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
    onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
    onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
    fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
    que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
    effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
    capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
    republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
    complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
    excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
    representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
    não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
    representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
    dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
    os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na
    republica, e teremos--a escravidão na monarchia.

    * * * * *

    Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
    uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
    patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
    e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia
    e que parece não ter caracter.

    Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
    parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
    arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
    elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
    cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
    sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
    tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
    na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
    quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
    _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
    essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

    Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
    D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
    corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
    o machinismo constitucional.

    Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
    liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
    todo ha um surdo descontentamento geral.

    Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
    prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
    como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
    grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
    que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
    differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
    a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

    Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
    divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
    paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
    entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
    convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
    elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
    seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
    que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
    seccas.

    Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
    perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
    na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
    maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
    governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
    promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
    de fadiga, apupado e corrido.

    Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
    constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
    poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
    alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
    burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
    amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
    crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
    satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

    O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
    altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
    estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
    militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
    da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
    que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
    paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

    A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
    direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
    sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
    direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
    obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para
    discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

    O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
    hypothecada.

    Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
    instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

    Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
    ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
    riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
    dando dinheiro e recebendo papeis.

    A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
    seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
    agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
    bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
    qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
    muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
    laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
    dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
    elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
    suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
    o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
    finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
    dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
    tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
    justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
    sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
    ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
    necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
    simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
    nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
    sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
    tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
    typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
    e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

    * * * * *

    A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
    despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
    pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
    ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
    religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
    dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
    assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
    lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
    lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
    mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
    e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
    similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
    consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
    religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
    se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
    delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
    eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
    que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
    responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
    o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
    sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
    liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

    Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
    interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
    noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
    elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
    conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
    rebaixa.

    * * * * *

    Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
    bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
    tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
    servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas;
    faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
    e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
    proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
    passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
    então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
    interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

    Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
    apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
    mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
    baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
    mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
    grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
    a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
    sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
    a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
    para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
    precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
    a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
    maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
    discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
    _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

    Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
    regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
    Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
    na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
    sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
    novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
    se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
    a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
    saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
    perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

    * * * * *

    O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
    republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
    nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
    norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
    necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
    que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
    não seja para nós um irremediavel perigo.

    Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
    immediatamente de manter os abusos.

    Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
    melhor politica.

    Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
    longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
    é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
    reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

    Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
    politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
    inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
    como se é homem de bem.

    Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
    e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
    d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
    partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
    governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
    possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
    opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
    oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
    falta da virtude.

    Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

    Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
    probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
    publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
    que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
    homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
    poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
    corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
    que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
    pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

    Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
    desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
    gangrena e a dissolução latente do estado.

    Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
    virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
    popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á
    conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

    De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
    de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
    comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
    liberdade.

    Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
    nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
    acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da
    perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
    entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
    actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
    aos negros e dar a paz á America.

    * * * * *

    Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
    fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
    influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
    mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
    se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
    prudente e justo.

    No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
    conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
    livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
    despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
    nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
    geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
    sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
    mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
    condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
    segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
    sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
    facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
    jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
    social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
    demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
    Theagenes em Megara.

    O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
    ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
    Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
    que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

    Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
    constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
    desfallecimento e a morte.

    Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
    forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse
    principio sob a sua forma philosophica--na razão.

    * * * * *

    O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
    colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
    intelligentemente armadas e equipadas da Europa....

    A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
    ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
    gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que
    as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
    depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
    o jornal e tomar o café--para os estribos.

    O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
    acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
    desde hoje e para todo sempre invenciveis.

    Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
    dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
    soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
    artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
    com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
    freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
    scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
    nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os
    pés!

    De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
    branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
    abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
    saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
    pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
    de piugas.

    * * * * *

    Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
    que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
    do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
    infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
    pés quentes!

    Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
    sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.

    Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
    estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
    sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés
    quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!

    * * * * *

    Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
    de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
    qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
    Tavira_.

    Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!

    Eis a moção:

    «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
    dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
    manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
    ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

    Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
    os srs. deputados.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

    «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
    noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
    independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
    está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
    constitucional.»

    Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
    juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
    qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
    garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
    ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
    Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
    apparecer.

    E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
    illibados.

    * * * * *

    Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
    referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
    desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
    destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
    ha dois annos.»

    Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
    tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
    queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
    da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
    illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
    collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

    «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
    criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
    espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
    independencia, e passa á ordem do dia.»

    Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

    Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
    Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

    * * * * *

    Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
    Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
    Palhés e a villa de Mangualde.»

    Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

    «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
    desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
    passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»

    * * * * *

    Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
    ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
    ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
    crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
    tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
    crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o
    que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

    * * * * *

    Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
    Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

    No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
    que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não
    certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

    O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
    moção:

    «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
    tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
    instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
    camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
    camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
    as instituições.»

    Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
    correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
    independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
    camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
    instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

    O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
    conspirações continuadas.

    O partido historico caiu victima de uma conspiração.

    O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
    Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
    ao mais a que se podia chegar_.»

    Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
    partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!

    * * * * *

    Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
    luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
    espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
    Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
    artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
    Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
    pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.

    * * * * *

    Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
    funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
    Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
    faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
    conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
    senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
    povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
    trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
    estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
    funeral.

    Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
    longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
    imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
    entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
    multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

    Dizia-se fallando-se d'ella:

    «Deixou pouco.»

    «Que fez ella ao que tinha?»

    «Que miseravel! que mesquinha!»

    E um jornal catholico escreveu:

    «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
    cautellas de vinte e cinco.»

    Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
    homens deseguaes.

    Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
    acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
    pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
    deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

    Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
    levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
    silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
    flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
    passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
    suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
    o descanço eterno.

    E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
    que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
    nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
    encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

    As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de
    imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
    interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
    ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
    de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
    escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
    ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
    soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
    lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
    ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
    triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
    similhantes condições e com eguaes amarguras!

    Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
    suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
    descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
    gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
    devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
    considerar-se menos que quaesquer outros.

    * * * * *

    É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
    mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
    sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
    circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
    alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
    proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
    Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
    illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
    pela mulher digna e virtuosa que morreu.

    * * * * *

    Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
    perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
    reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
    insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
    feridos e dois mortos.

    Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
    programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
    ninguem era ferido.

    Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
    levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
    algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
    de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
    illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
    acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
    satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
    recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
    sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
    jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
    preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
    multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
    a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
    para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.

    Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
    usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
    perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
    desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
    delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
    delicto? _«Por abuso de defesa»_.

    Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
    caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
    atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
    defeza_.

    * * * * *

    Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
    clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
    armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
    Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
    desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
    pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
    contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
    Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
    por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
    espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
    Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
    rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
    barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
    momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
    musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
    diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
    uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
    d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

    E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!

    Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

    Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...

    Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
    energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
    nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
    Melicio vela!

    * * * * *

    A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
    politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
    gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
    vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
    para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
    de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
    meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
    rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
    de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.

    * * * * *

    Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
    patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
    governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
    entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
    provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
    phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
    alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
    verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
    ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
    Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
    Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
    rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

    O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
    encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
    sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
    barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
    deputado, com voz pausada e firme disse:

    «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
    espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
    a quem verdadeiramente podemos chamar ...»

    Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
    bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
    bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
    momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
    multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
    tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
    um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

    O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
    verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
    apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
    Vozes: Muito bem! muito bem!)

    * * * * *

    Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
    presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
    quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
    das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
    eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

    Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
    provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
    arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
    commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
    vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
    espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
    que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
    vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
    á beira dos golphos innundados de azul ...

    Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
    a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
    monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
    Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
    tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
    occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
    _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
    deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
    prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
    ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
    por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
    com brisa fresca!_

    * * * * *

    Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
    vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
    camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
    evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
    que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
    phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
    proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
    nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
    modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
    seguintes:

    Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
    inspirada voz!

    Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
    assembléa, labio tão selecto como attico!

    Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
    ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
    amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

    Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
    por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
    immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

    (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
    estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
    monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

    Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
    comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...

    (Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
    Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
    outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
    d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
    são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
    porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
    interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
    malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
    emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
    badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
    luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
    mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
    commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
    amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
    desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
    um desconhecido).

    * * * * *

    _Áquelle que jurou assassinar-me_

    Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
    obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
    a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
    prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
    posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
    consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
    regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

    «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
    sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
    Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
    ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
    manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
    fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
    cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

    Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
    mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
    particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
    indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
    desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
    de occupar-se do caso.

    Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
    que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
    Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
    de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
    pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
    o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
    momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
    atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

    Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
    poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
    assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
    viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

    Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
    sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
    opinião:

    Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
    obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
    uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
    concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
    convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
    me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
    empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
    o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
    momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
    conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
    Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
    o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
    barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!

    Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
    apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
    vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
    ordinariamente comsigo.

    Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
    da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
    fecha o discurso.

    Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
    assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
    que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
    que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
    violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
    e o jornalista Courrier.

    Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
    dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
    de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
    obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
    trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

    Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
    coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
    mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
    pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
    correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
    felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
    implacaveis da desgraça!

    No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
    inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
    o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
    uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

    Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
    completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
    affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
    sentia a displicencia, a melancholia.

    Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

    Vermes!

    O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
    existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
    começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
    com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
    aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
    parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
    como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
    a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
    mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
    tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
    golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
    é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
    vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

    Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
    allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

    E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
    o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
    de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
    ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
    para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
    que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
    terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
    mas discreta.

    A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
    elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
    mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
    um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
    que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
    caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!

    Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
    zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

    --Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

    --Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...

    --O que trazia o bigode assim?...

    --Esse mesmo!

    --Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...

    E algumas outras coisas doces e impereciveis.

    E do meu amigo dirão apenas:

    «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

    Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
    agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
    tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
    isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
    Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
    consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
    designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
    directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
    os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
    branco.

    * * * * *

    Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
    encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
    promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
    soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
    civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

    Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
    de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
    perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
    sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
    os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
    nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
    redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
    emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
    mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
    na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
    figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
    selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
    encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
    instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
    ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
    de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
    o vate:

    _Aos infieis, senhores, aos infieis!_

    * * * * *

    D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
    resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
    individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
    ministro do reino.

    O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
    ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
    ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
    camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
    pasta para ir adoptar o seu livro.»

    O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
    aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
    pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
    de membro do actual gabinete.

    É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
    elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
    represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
    para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
    poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
    colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
    passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.

    O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
    iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
    ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
    fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
    o chão.

    Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
    ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
    guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
    papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
    que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
    era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

    Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
    mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
    amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
    sorrisos, com a malevolencia das allusões?

    Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
    de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
    amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
    desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

    Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
    que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
    covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
    respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
    salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
    de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
    contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
    bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
    que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
    domestica.

    A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
    fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
    _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
    publica da sua virtude.

    Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
    reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
    a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
    As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
    ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

    Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
    paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
    ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
    Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
    dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
    Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
    marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
    eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
    pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
    do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

    Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
    interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
    inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
    viveu.

    Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
    passado no mundo.

    O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
    venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

    * * * * *

    Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
    luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
    _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
    periodicos portuguezes são--anonymos.

    * * * * *

    Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
    que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
    alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
    escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
    que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
    este:--não assignar.

    Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
    assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
    Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
    declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
    responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
    effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
    as antipathias que tenha podido suscitar.

    Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
    portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
    mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
    tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

    * * * * *

    A primeira razão por que se não assigna é esta:

    A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
    convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
    de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
    machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
    lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
    eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
    muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
    N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
    dignidade e da razão.

    Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
    perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
    firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
    transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
    necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
    _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
    resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
    imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
    opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
    catastrophe para a justiça.

    Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
    apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
    sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
    entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
    naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
    dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
    que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
    quanto mais se lê peor se escreve.

    Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
    assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
    immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

    Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
    publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
    Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
    durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
    que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
    dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
    jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

    Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
    que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
    apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
    quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
    que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
    me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
    _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
    foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
    salchicheiro.

    Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
    respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
    socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
    que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
    receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
    magnezia.

    * * * * *

    Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
    Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
    representativo nacional.

    Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
    abalisam uma época, enquadram um seculo.

    Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

    «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
    sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
    determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
    respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
    para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
    principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
    geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
    frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
    isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
    nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
    e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
    mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
    detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»

    * * * * *

    O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
    teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
    historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
    posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
    fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
    Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
    contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
    guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
    historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
    actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
    varões extraordinarios!

    No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
    vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
    pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
    scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
    ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
    estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
    barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
    nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
    publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

    Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
    espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
    as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
    se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
    destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
    esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
    correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
    suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
    ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
    nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
    solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
    Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
    nunca!»

    Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
    geographia--e á canalha!

    Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
    cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
    unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
    Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
    isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
    pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
    tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
    perra vil!

    E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
    os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
    devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

    Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
    benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
    peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
    congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
    a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
    cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
    tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

    Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
    de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
    botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
    ôlho de perdiz!

    Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
    extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
    peninsulas!

    * * * * *

    Agora--Barros.

    Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
    Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
    consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
    o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
    phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

    Como o explica, como o justifica elle?

    Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
    occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!

    * * * * *

    Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
    attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
    sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
    magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
    dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

    «Elle tem alguma coisa na cabeça!»

    Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
    excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
    celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
    parisiense de Champfleury!

    Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
    um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
    é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
    trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
    intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

    Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
    simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
    o povo--e o passarinho!

    Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
    conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
    civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
    arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
    pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
    Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
    que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

    Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
    como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
    sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...

    Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
    bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
    lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
    toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
    portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
    laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
    suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
    tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
    corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
    amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
    questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
    amplidões do azul em phantasticos arabescos....

    E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
    magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
    que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
    andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
    evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
    carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
    que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
    paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

    Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
    Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
    Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

    * * * * *

    Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
    homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

    Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
    profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
    e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
    manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
    comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

    O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
    recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
    saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

    Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
    visitas n'um só bote!

    E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
    discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

    * * * * *

    Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
    menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
    homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
    portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!

    Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
    Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
    simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
    extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
    elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
    pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
    para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
    elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
    maiores!

    O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
    heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
    ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
    parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

    * * * * *

    No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
    caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

    Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
    fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
    um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
    charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
    algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
    extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
    novos ceus, novas floras e novas faunas.

    Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

    Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
    oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
    pessoas.

    Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
    nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
    com a Russia européa.

    Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
    felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
    deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

    Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
    thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
    gelados nove mezes por anno.

    Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
    Strelitz.

    Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
    Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
    caravanas do chá....

    E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
    comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
    como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
    soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
    letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
    litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
    no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
    subditos do grande Filho do Ceu.

    E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
    espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
    caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
    expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
    fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
    galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
    baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

    E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
    Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
    atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
    barril immundo para um fino cristal facetado!

    * * * * *

    A camara dos srs. deputados....

    Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
    deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
    encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
    se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
    como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
    cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
    freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
    apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
    permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
    desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
    aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
    que palpita, ao longe!

    E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
    abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
    estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....

    A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
    civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
    leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
    realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
    um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

    Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
    barril, uma pipa ou um tonel!

    E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
    problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
    camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
    revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
    qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

    «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
    antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
    vasilhas.»

    Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
    a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
    da Europa a este milagre:

    _Engarrafar vasilhas_.

    * * * * *

    E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
    parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
    uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
    vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
    das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
    aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
    bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
    perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
    camoeza!

    Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

    Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
    coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
    d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
    seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
    um capitalista ou um sabio.

    Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

    Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

    Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
    leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
    habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.

    Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
    grande.

    Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
    grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
    no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
    meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.

    Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
    trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
    teu voltarete.

    Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
    se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
    um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
    si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
    outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
    suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
    narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
    barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
    cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
    triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
    veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
    verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
    das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque
    elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
    orthographia, nem mão de redea!

    O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
    como o foste--na politica! Não tornes cá.

    Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
    beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas
    moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
    discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:07 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-08-09/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)

    Aproximadamente 16.210 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO X

    Agosto a Setembro 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P. J. Proudhon

    SUMMARIO

    Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
    critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
    influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
    mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
    altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
    d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
    d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
    cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções
    musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
    valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
    Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
    feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
    estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
    afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.

    O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
    pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
    14 de setembro de 1877.

    Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
    de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
    terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.

    Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
    inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
    do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
    o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
    inimitavel mestre.

    O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
    Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.

    * * * * *

    Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
    existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
    espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
    d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
    passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
    rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_

    * * * * *

    Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
    Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
    importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
    enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
    o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
    o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
    denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
    dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
    d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
    admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
    nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
    ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
    hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
    do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
    aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
    época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
    sociedades vivas a elaboração do progresso.

    * * * * *

    Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
    sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
    genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
    sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
    universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
    sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
    projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
    em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
    prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
    seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

    O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
    solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
    vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
    multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
    traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
    sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
    aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
    sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
    de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
    divina verdade.

    * * * * *

    A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
    comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
    das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
    auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
    reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
    naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
    tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
    uma catastrophe para a geração moderna.

    Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
    alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

    Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
    firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
    expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
    enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
    deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
    prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

    A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
    ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
    tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
    cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
    batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
    da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
    o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
    patifes, com os seus pés miseraveis.

    A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
    socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
    impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
    cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
    d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
    chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
    depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
    recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
    este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
    constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

    A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
    que a devia prender estreitamente á grande alma popular.

    A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
    e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

    Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
    Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
    movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
    importantemente o nosso estado social.

    Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
    poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o
    partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
    depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
    portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.

    Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
    instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
    propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
    convivencia e pela cultura da historia.

    Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
    tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
    inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.

    Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
    fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
    sentimento nacional.

    * * * * *

    Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
    missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
    seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
    intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
    seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
    dotára.

    Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
    todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
    social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
    mão.

    Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
    combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
    muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
    tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
    longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
    de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
    dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
    de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
    todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
    pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
    poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
    sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
    poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.

    Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
    decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
    lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
    d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
    na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
    similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
    peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
    invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
    profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
    admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.

    Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
    d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
    todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
    cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
    dirigentes, não tem esse direito.

    A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
    cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
    devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
    dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
    condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
    linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.

    E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
    têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
    sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
    submetter-se aquelles que estão vivos.

    A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
    a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
    estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
    confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
    de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
    isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
    social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.

    O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
    não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

    Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
    consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
    trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
    vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
    humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
    desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
    instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
    com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
    desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
    dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
    dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
    de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
    sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
    indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
    arduo e penoso rumo do dever.

    * * * * *

    Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
    fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
    admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
    monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
    está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.

    Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
    como um de seus membros, eis o que proporiamos.

    * * * * *

    A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
    _Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
    quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.

    Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
    deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
    portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
    philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das
    côrtes de Lamego.

    O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
    aspecto,--o aspecto das nossas superstições.

    As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
    da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
    suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

    De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
    nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
    profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
    tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
    e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
    estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
    do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

    Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
    Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
    qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
    scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
    historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
    leis fundamentaes da nossa evolução social.

    A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
    publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
    perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
    Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
    desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
    seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
    dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
    mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
    Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.

    * * * * *

    Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
    os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
    mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.

    CAPITULO I

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
    secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
    passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
    companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

    CAPITULO II

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
    serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
    afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
    Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
    medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

    CAPITULO III

    Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
    secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
    infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
    Quatorze e por Cysne innarravel.

    CAPITULO IV

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
    comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
    Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
    Jubilo povo augmenta.

    CAPITULO V

    Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
    petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
    momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
    _touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
    meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

    CAPITULO VI

    Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
    Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
    Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
    povo.

    CAPITULO VII

    Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
    phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
    maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
    povo.

    CAPITULO VIII

    Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
    tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
    acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
    monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
    fôr.

    CAPITULO IX

    Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
    rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
    pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
    zenith.

    CAPITULO X

    Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
    phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
    excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
    impossivel descrever palavras humanas.

    CAPITULO XI

    Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
    liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
    Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
    delirante.

    CAPITULO XII

    Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
    que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.

    CAPITULO XIII

    Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
    passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.

    CAPITULO XIV

    Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
    atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
    da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
    Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
    são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
    pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
    vertiginoso.

    CAPITULO XV

    Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
    augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
    Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
    defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.

    CAPITULO XVI

    Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
    Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
    precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
    vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.

    CAPITULO XVII

    Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
    Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
    bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
    adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
    medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.

    NOTAS

    AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

    A

    _Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
    Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
    explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
    reproduzidas.

    Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
    dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
    magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
    que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
    matta.

    Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
    e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
    dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.

    O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
    immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
    do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
    residencias de suas magestades.

    Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
    bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
    no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
    perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
    praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
    facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
    nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
    solução d'este problema:

    Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
    Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
    Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
    quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
    lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
    de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
    tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
    vezes sem se destapar o tacho;

    Pergunta-se:

    Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
    Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
    faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
    e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

    Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
    reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
    Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
    queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
    d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
    em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
    publicas o sr. estofador Alcobia.

    O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
    ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
    com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
    excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
    forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
    especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
    peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.

    E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
    da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

    B

    _Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
    liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
    detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

    El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
    dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
    magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
    vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
    de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
    ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
    adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
    pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
    honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
    encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
    em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
    precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
    se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
    deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
    referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
    asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

    Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
    dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
    de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
    magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
    de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
    encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
    um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
    se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
    E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

    --Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
    de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
    lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
    seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
    Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
    aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
    eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
    blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
    tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
    confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
    trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
    homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
    como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
    obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
    fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
    e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
    conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
    cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
    qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
    a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
    dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
    fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
    mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
    mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
    reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
    pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
    te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
    pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
    trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
    sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
    és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
    immunda.

    Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
    rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
    praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
    cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
    terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
    moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
    rapazes onde era a escola.

    Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
    apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

    Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
    habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
    serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
    rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.

    São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
    ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
    successivo das cadeias e dos hospitaes.

    Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
    embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
    pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
    uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
    forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
    medas ou a debulhar o milho.

    Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
    dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
    chamar:--o premio Monthyon da malandrice.

    * * * * *

    Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
    acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
    da corôa, o sr. Barros e Cunha.

    Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
    respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
    phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
    pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

    Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
    intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
    do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
    inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
    desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
    com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
    Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.

    * * * * *

    Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
    antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.

    Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
    pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
    a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
    na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
    sabia inglez.

    Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
    declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
    camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
    tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
    a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
    determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
    litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
    sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
    ex.ª.

    Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
    legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
    da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
    sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
    palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
    como a de quem falla por um nariz de assucar.

    No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
    partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
    acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
    roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
    signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
    seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
    irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
    incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
    os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
    passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
    beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
    do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
    carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
    das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
    todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
    lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
    ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
    fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

    Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
    carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
    colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
    quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
    no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
    adormecida.

    Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
    circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
    indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
    Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.

    Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
    parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
    com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
    vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
    consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.

    * * * * *

    Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
    novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
    «caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
    tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
    servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
    adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
    corôa.

    Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
    commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
    obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
    mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
    popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.

    Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
    imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
    Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
    dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
    houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
    e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.

    No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
    actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
    a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
    momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
    cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
    liberdade.

    Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
    zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
    conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
    hebdomadarias:

    S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
    Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
    hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
    madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
    á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
    lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
    A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
    momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
    hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
    ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
    barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
    estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
    dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
    recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
    A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
    familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
    na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
    hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
    real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
    pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.

    * * * * *

    Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
    collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
    Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
    digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
    pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
    ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
    de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
    espinha de cebo.

    Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
    vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
    35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
    progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
    concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
    parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
    não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
    de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
    fardamento, uma calva e uma nodoa.

    Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
    do seu zelo como novo aulico.

    Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
    arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
    mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
    expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
    magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos
    outros.

    Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
    absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
    donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
    reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
    monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
    mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
    modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
    Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
    passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
    acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
    com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
    segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.

    Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
    determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
    manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
    importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
    em um dos lanços da estrada alludida.

    * * * * *

    Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
    cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
    conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
    algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
    e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
    no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
    começamos por transcrever:

    «Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
    contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
    obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
    fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
    considerando:

    «1.° Que esse contrato se encontra viciado;

    «2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
    regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

    «3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
    a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
    empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;

    «4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
    adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
    governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
    condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:

    «Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
    procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
    observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
    para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.

    «O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
    districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
    officio datado de 26 de junho ultimo.

    «Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._

    «Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».

    * * * * *

    Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
    contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
    governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
    ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
    Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.

    O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
    contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
    Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
    contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
    governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
    contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
    juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
    portaria, um contracto de similhante natureza:

    O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:

    _Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
    constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
    governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
    que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
    os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
    Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
    praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
    contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
    outro que o prejudica.

    A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
    intervenção do sr. Burnay.

    A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
    porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
    os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
    perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
    fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
    estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
    contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
    d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

    As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
    como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
    da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
    réis é uma calumnia.

    Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
    deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
    sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
    ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
    fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
    mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
    que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
    que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
    não do individuo com quem elle contractou?

    Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
    similhante arbitrio?

    Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
    interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
    governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
    contractado?

    Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
    ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
    governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
    delicto egual ao da camara?

    Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
    industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
    portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
    apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
    governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
    tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
    fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
    petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
    calumniosa, e infamante.

    É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
    arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
    cidadãos.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.

    A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
    commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
    poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
    liberdade e contra a propriedade de um cidadão.

    Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
    reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
    direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

    A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
    não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
    elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
    calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

    «A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
    o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
    submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
    do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
    consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
    omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
    satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

    Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
    responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
    perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.

    * * * * *

    Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
    não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
    simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
    primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
    cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
    elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
    Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
    pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
    preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
    modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
    elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
    centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
    lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
    mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
    que os estados se moralisam e se enriquecem.

    Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
    impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
    aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
    constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
    exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
    exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
    coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
    outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
    governa.

    * * * * *

    Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
    producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
    maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
    offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
    suas faculdades não lhe permittirão defender-se.

    D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
    deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
    trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
    mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
    nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
    pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
    violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
    explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
    condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
    de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
    feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A
    logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
    ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
    ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
    ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
    pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
    tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
    baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
    de zabumba em theatro de feira.

    E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
    destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
    Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
    util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
    ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria.

    Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
    modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
    para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.

    Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
    mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
    anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
    desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
    seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
    extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
    elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
    por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
    sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
    s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
    um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
    precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

    A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
    ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
    preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
    tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
    coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
    piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
    das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
    forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
    mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
    satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
    querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.

    Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
    desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
    não fizeram senão prejudical-a.

    Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
    differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
    o mesmo.

    * * * * *

    O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
    periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
    mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
    attenção que lhe é devida.

    * * * * *

    _As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
    principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
    as fontes da inspiração artística.

    Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
    orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
    aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a
    força da pancadaria.

    Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
    fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
    são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
    passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
    juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
    policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
    respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

    Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
    acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
    que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
    policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
    conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
    quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
    onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
    essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
    suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
    transformar o paiz n'uma almondega.

    Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
    clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
    regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
    vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
    publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
    com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
    cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
    Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
    render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.

    As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
    insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
    canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
    suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
    victimas.

    Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
    popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
    polka.

    Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
    propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
    e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
    o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
    legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
    o caso em musica e em dansa de roda!

    Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
    ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
    rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
    simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
    soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
    actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
    pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
    presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
    tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
    uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
    todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
    o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
    nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

    Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
    chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
    mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
    primeira!

    Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
    cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!

    Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
    não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
    que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
    sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
    tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
    arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
    terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
    delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
    philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
    Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
    tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a
    musica_.

    Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
    costume, despicaste-te com uma polka especial.

    As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
    indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
    santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
    de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
    Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
    que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
    expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
    Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
    essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
    campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
    habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
    semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
    polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

    O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
    appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
    instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
    vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
    democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
    clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
    tyrannia a vindicta dos povos.

    Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,
    ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...
    Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
    panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!

    Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
    terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_

    * * * * *

    O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
    operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
    partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
    peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
    ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
    ellas_!

    Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
    Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

    Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
    perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
    caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
    não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

    Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
    as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
    interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
    Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
    seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
    spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
    das Mercês.

    * * * * *

    _A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
    periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
    piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_

    Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
    penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
    comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
    Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
    cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
    alliança da religião e do _chic_.

    Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
    completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
    inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

    --Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
    impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

    E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
    os olhos ao céu.

    --Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

    E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
    deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
    o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
    mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
    chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
    exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
    pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
    e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
    conversaremos:

    --Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
    coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

    --E começa a ter crenças?

    --Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
    Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
    Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
    meu anjo da guarda!...

    --Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
    indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
    uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
    Pontifice, não acredita?

    --Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
    coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
    Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
    seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
    Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
    mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
    disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
    perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
    blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...

    --Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
    nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

    --Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
    joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
    cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...

    --Deus do céu!

    --Entre a costelleta e a omelette...

    --Virgem Maria!

    --Misturada com vinho de Pauillac...

    --Santos e Santas da côrte celeste!

    --Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...

    --Mas vae para o inferno essa alma!

    --Está claro que sim. E é bem feito!

    --Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

    --Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
    todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
    amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!

    --Amen! Amen, Jesus Maria José!

    Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
    Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
    ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
    entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
    nossas soirées ao divino.

    * * * * *

    Aos srs. advogados

    Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
    onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
    Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
    mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
    ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
    pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
    aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
    da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
    perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.

    De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
    cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
    cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

    Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
    de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
    metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
    embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
    meu varapau.

    Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
    velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
    adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

    Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
    obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
    postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
    para o outro dia.

    É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
    os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
    regras.

    * * * * *

    Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
    mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
    familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
    srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
    machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
    elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
    como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
    advogado para que este o illucide.

    Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
    ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
    mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
    especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
    elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
    chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
    que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
    da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
    do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
    policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
    desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
    o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

    --Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
    papel official.

    --Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
    nos olhos, atando as mãos na cabeça.

    --Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
    apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
    tinha alma de lhe beber o sangue!

    Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
    a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
    filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
    administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
    pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
    fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
    com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
    para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
    mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
    pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
    tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
    custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
    as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.

    Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
    emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
    letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
    medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
    que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
    egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
    desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
    hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
    inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
    ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
    defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
    maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
    O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
    dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
    advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
    para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
    que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
    por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.

    Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
    nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
    os que tyrannisam o orphão.

    Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
    defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
    contraria.

    Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
    com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
    conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
    que deseja pagar.

    Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
    punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
    se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

    O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
    espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
    tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
    mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
    esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
    réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
    cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
    defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
    selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
    crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
    defensor.

    * * * * *

    Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
    restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
    introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
    poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
    por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
    lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
    ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.

    * * * * *

    Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
    mais ou menos do teor seguinte:

    * * * * *

    «Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
    directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
    Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
    esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
    dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
    referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
    jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
    carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
    consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»

    * * * * *

    A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
    nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
    collegios de Lisboa.

    A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
    as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
    classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
    _réclames_ das suas distribuições de premios.

    Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
    o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
    egual exito com relação á lingua ingleza.

    O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
    dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
    recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
    professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
    Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
    Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
    consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
    uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
    com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
    um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
    data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
    bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

    _Elvira Fernandez me fecit._

    * * * * *

    Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
    quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
    um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
    Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
    porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
    palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
    conhecimentos theoricos da formação das palavras.

    Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
    _Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
    os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
    almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
    poltronas.

    Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
    d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no
    estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
    quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
    versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
    sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
    esposa, e finalmente como mãe.

    * * * * *

    De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
    absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
    vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
    desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
    incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
    chamada na familia.

    * * * * *

    Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante
    obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
    filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
    mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
    Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
    Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
    Jeronyma o direito de a levarem a exame.

    * * * * *

    _Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
    da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
    do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
    mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
    espirito virginal de uma menina,--ao
    interrogatorio official de um mestre que durante
    vinte minutos vae exercer sobre aquella
    alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
    tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
    na educação de um rapaz, para quem
    o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
    civil; na educação de uma menina portugueza
    similhante prova é inadmissivel e equivale
    a uma amputação do decoro.

    Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
    a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
    mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
    tornar mais educada.

    Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
    primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
    feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
    maioridade e de emancipação legal.

    * * * * *

    Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
    dialogo:

    _O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?

    _A examinanda_--Quando me vou deitar...

    _O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

    _A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
    olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

    _O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
    o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz
    depois de se despir?

    _A examinanda_--Tenho vergonha...

    _O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!

    _A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...

    E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
    com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
    annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
    innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
    as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
    emittere_.

    O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
    presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

    É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
    sabem ou não «civilidade».

    * * * * *

    Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
    de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
    restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

    A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
    que a da instrucção dos homens.

    As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
    conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

    Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
    educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

    1.° Curso de aceio e de arranjo;

    2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).

    3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.

    * * * * *

    No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
    juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
    idéas, as seguintes noções praticas:

    Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
    branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
    esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
    domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
    melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
    arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
    de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
    de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
    Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
    escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
    se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
    bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
    inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
    mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
    pequenos jantares.

    Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
    differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
    mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
    vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
    vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.

    No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
    aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

    O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
    caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
    caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
    boa digestão.

    Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
    dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
    senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
    nacional.

    Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
    affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
    physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
    que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
    preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
    não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
    por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
    liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
    condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
    quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
    não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
    perfeitamente transparente.

    Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
    suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
    Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
    no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
    _substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
    não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
    _substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
    papão!

    Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
    Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
    demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
    no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
    civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
    entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
    povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
    É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
    governa o mundo e determina o destino das sociedades.

    Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
    chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
    iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
    regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
    cozinhas dos differentes póvos, etc.

    A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
    as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
    compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
    obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
    habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
    publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
    numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
    de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
    estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
    cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
    meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
    inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
    competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
    descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
    ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

    Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
    economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
    divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
    teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
    meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
    que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
    semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
    obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
    inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
    conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

    O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
    praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
    das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
    ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
    o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
    o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
    anno em que elles houverem de ser feitos.

    * * * * *

    No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
    deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
    familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
    mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
    balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
    os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
    differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
    reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
    despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
    indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
    sabiamente dirigida.

    * * * * *

    Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
    a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
    verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
    mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
    equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
    invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
    seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
    que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
    dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
    methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
    baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
    protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
    domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
    feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
    fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
    doce refugio.

    Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
    dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
    engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
    factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
    em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
    casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
    uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
    portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
    esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
    economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
    dotar-se a mulher.

    * * * * *

    Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
    mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
    de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
    reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
    aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
    graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
    cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
    das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
    não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
    nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
    meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
    instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
    livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
    rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

    Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
    das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
    senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
    mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
    esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
    poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
    meteorologia nas obras dos arabes.

    Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
    desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

    Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
    das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
    ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
    Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.

    * * * * *

    A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
    na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
    escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
    por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
    póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
    noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
    estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
    previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
    primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

    O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
    como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
    depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
    impõe.

    Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
    ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
    são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

    Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
    de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
    posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
    contemporaneas.

    Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
    Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
    Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
    qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
    do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
    collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
    dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
    conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
    tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
    contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
    pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
    foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
    publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
    versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
    publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
    profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
    sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
    de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
    Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
    personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
    dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
    garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
    simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
    fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
    honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
    _ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
    acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
    creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
    na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
    permanentes.

    Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
    collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
    educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
    litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

    O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
    profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

    Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
    de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
    physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
    de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
    praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
    réclame de modas.

    Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
    publicados nas _Transactions of international association for the
    promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:

    _Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;

    _Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
    inferiores_, por Mary Carpenter;

    _Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;

    _Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;

    _A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
    Bessie Parkes;

    _A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
    Remand;

    _Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
    Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
    mulheres,_ por Jone Crowe, etc..

    Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
    amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
    uma vida extremamente simples e retirada.

    Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
    produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
    educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
    nem dá literatas.

    Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:06 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1883-06/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)

    Aproximadamente 15.283 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora

    5--PATEO DO ALJUBE--5

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883

    LISBOA

    EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA

    Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em
    nome do rei.

    SUMARIO

    Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o
    acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel
    parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do
    príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de
    sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas
    convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha
    na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o
    cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A
    viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o
    príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao
    throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que
    for servido.

    LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

    SENHOR!

    E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos
    traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.

    O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia
    garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o
    Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de
    usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em
    que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente
    do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey
    nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.

    Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos
    deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio
    da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,
    correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.
    D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

    Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas
    pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar
    vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e
    das coisas da civilisação entre gentes extranhas.

    Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada
    pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois
    abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As
    Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica
    e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se
    tratava.

    Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,
    atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,
    quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para
    encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento
    presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que
    vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa
    acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação
    remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar
    dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques
    debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa
    alteza.

    Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as
    instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade
    Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria
    Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,
    quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,
    que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria
    do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.

    Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas
    o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.
    Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do
    trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos
    pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os
    Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As
    academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão
    nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as
    pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes
    oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo
    com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:

    --O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe
    seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o
    immortalisarem no eterno jubilo das gentes!

    E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da
    sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta
    perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra
    cathedralesca.

    Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

    Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso
    dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da
    educação d'alguem que seja n'este mundo?

    Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!

    Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente
    fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual
    Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e
    porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para
    o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da
    _Delphina do mal_.

    Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se
    achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se
    lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...

    Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!

    Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,
    sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e
    em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes
    ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador
    berrava:

    --Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa
    com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do
    que os rapazes precisam para ir para leis!

    Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem
    religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho
    d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de
    Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira
    do predio.

    Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos
    lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois
    é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação
    capaz.

    Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a
    mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,
    _que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!

    E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou
    enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,
    que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro
    ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!

    Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar
    no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;
    mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro
    das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito
    de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de
    magica no theatro de D. Maria.

    Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles
    pegaram n'uma questão d'arte?!...

    Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual
    reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção
    d'arte com _quatro potes etruscos_.

    Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira
    parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram
    por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa
    presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças
    familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde
    muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.

    Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes
    exprimiram com unanimidade:

    --Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!

    --O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão
    inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus
    extrangeiros!...

    --Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e
    subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em
    potes.

    E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito
    supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte
    nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,
    nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual
    a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra
    de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por
    quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns
    dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas
    antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo
    que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,
    só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de
    compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!

    Tal é a camara, ó serenissimo principe!

    E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia
    corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.
    Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de
    assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva
    em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a
    deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação
    nacional é o boi gordo.

    Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o
    trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros
    e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.

    Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.

    Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,
    considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso
    foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com
    prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em
    portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de
    instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e
    applauso geral dos doutos.

    Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.

    Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros
    e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo
    que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_
    presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade
    geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados
    e iam a ministros.

    A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica
    portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo
    _odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres
    entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.

    De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o
    entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola
    pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.

    A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da
    sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos
    fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a
    amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.

    Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa
    alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o
    primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos
    desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e
    muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

    Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus
    illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam
    com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje
    de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.

    De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario
    publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,
    jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e
    luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava
    dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.
    Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.

    _As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que
    vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio
    dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que
    vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um
    cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura
    nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por
    um simples phyloxera.

    _As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de
    flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem
    luvas.

    Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o
    decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de
    vossa alteza, se nós, seus criticos.

    Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção
    secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de
    hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica
    e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse
    sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que
    era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr
    defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,
    pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na
    Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a
    explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim
    o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.

    Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os
    dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe
    acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio
    pão.

    Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem
    ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema
    nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o
    estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu
    mestre.

    Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,
    do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a
    educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica
    Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos
    bar-baças aposentados da magistratura e da academia.

    Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os
    pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da
    natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,
    cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas
    sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás
    engommadeiras virtuosas.

    Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?
    Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos
    principes como o proprio livro de Machiavel.

    Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a
    tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

    É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha
    agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo
    da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,
    applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se
    apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real
    banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na
    caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se
    retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da
    regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,
    mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de
    gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural
    affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e
    metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o
    vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar
    os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava
    escripturado.

    Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se
    ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos
    duros encargos da publica governação espreitando um momento pela
    fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza
    Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,
    apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de
    chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que
    dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e
    cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira
    por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com
    o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.

    --Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz
    acre.

    --Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza
    Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não
    tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

    --Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo
    na testa e com os braços cruzados no peito.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo
    tres perus gordos e emborrachados!

    Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito
    pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se
    lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos
    _deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.

    Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos
    seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,
    que a pena ultima lhes seja commutada.

    Piedade, principe, piedade!

    Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As
    Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio
    de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a
    sua familia, com a sua côrte?...

    Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento
    encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as
    maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do
    palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos
    cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das
    caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

    Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa
    alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos
    _louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?

    Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha
    cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da
    rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e
    de peixe frito?...

    Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom
    gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto
    de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do
    recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente
    e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da
    Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.

    Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os
    individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de
    instrucção.

    Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto
    d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas
    linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:

    _Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite
    ir extrangeiro principes, e se vae._

    E recebemos a seguinte resposta:

    _Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir
    Collares burros, e não vou._

    Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!

    O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a
    honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o
    detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de
    sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao
    feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos
    nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás
    ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá
    licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á
    vontade, que o bebe por conta do lavrador.

    Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!

    Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse
    major_.

    Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os
    derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,
    para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos
    reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,
    sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos
    dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o
    abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando
    chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.

    Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ... Um chimico,
    senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um
    troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além
    d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos
    que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham
    o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa
    satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á
    avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain
    d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á
    França:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai
    seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!

    E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com
    malicia, terá de acrescentar:

    --_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_

    Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...

    E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que
    ha que ver por esse mundo!

    Um olheiro, de galochas de borracha na vista!

    Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão
    até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o
    seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno
    incognoscivel!

    Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos
    sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
    cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que
    dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida
    nenhuma que vae perfeito!

    E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
    algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,
    quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café
    Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
    responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é
    precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão
    alguma, a do bissulfato de potassa.

    Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
    criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
    consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa
    alteza vae concluir na sua proxima viagem.

    Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
    d'essa educação no seguinte quadro:

    _«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,
    hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
    humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
    historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
    naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
    constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
    disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
    mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

    Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
    para o estudo superior da philosophia do direito.

    Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
    systematica da philosophia.

    Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da
    philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
    interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto
    antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da
    administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
    explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

    Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas
    e analyse de seu systema eleitoral.

    Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo
    sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
    a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte
    Lagueronière.

    Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
    organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
    até a actualidade.

    Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de
    Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
    grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
    pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

    Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
    Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
    d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;
    tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
    commercio d'este mesmo anno.

    Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
    ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua
    alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
    introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
    do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
    especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._

    Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.

    Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do
    direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
    especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
    (1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
    fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,
    como meios economicos.

    Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de
    fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
    applicação á organisação de Portugal.

    Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
    adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
    continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.

    Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem
    podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

    Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»

    É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o
    comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem
    detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em
    frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

    Analysemol-o.

    Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu
    cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda
    a intelligencia.

    Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está
    redigida esta exposição.

    Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza
    rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
    pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou
    pelo estudo aprofundado ... Depois começou os estudos de philosophia ...
    Começou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o
    estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
    não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que
    vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

    Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás
    escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
    fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que
    o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade
    d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
    adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
    politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
    conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por
    objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do
    universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
    categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
    do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
    todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa
    investigação ás seis ordens seguintes:

    1.--Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,
    ou phenomenos _mathematicos_.

    2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas
    distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

    3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
    acustica, ou phenomenos _physicos_.

    4.--Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos
    _chimicos_.

    5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

    6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
    _sociaes_.

    Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de
    dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos
    da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª
    sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

    Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções
    mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.
    Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
    synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina
    scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

    As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
    nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
    fundamentaes.

    Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo
    e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
    Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da
    astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da
    chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
    biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a
    _observação critica_ e a _filiação historica_.

    A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
    Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
    mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas
    grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e
    tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais
    segura das chaves para a coordenação das ideias.

    Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:

    «Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma
    verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
    desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
    homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a
    contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
    progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
    do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não
    sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
    cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
    relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr
    senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
    desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a
    funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar
    primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente
    accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na
    especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é
    tambem no conjuncto.»

    Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
    modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na
    ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A
    genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da
    genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
    Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
    positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos
    conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
    cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis
    biographicas e á vida historica da especie.

    Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
    regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de
    ministrar-lhe.

    _Sua alteza_--diz a informação que analysamos--_começou pelo estudo
    aprofundado da philosophia_.

    Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance
    pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
    tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.

    Principiar pela philosophia!!

    Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
    um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
    dogmatismo dos mestres.

    O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo
    espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos
    phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
    prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino
    do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?

    Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
    instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
    correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
    sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
    abstracção psychologica de fim e de origem?

    O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino
    é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
    particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
    applicação.

    Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o
    conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
    factos particulares?

    Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão
    extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
    sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos
    numeros?...

    É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de
    Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke
    ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o
    scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É
    o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o
    idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de
    Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de
    Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o
    evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?

    A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á
    redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
    esta cruel duvida.

    Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
    é a _philosophia racional e moral_.

    Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
    negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
    _objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo
    que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
    mas que não é d'essas que se trata.

    Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a
    philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
    philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É
    triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa
    que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
    _desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de
    virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

    O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta
    que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo
    superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em
    seguida o estudo do direito natural_.

    Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
    os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até
    os nossos dias.

    Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias
    pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
    annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
    funerario_ e do _Livro dos mortos_.

    Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço
    da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

    Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
    deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas
    indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da
    Syria.

    Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo
    quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a
    respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

    Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,
    Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
    escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
    epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
    materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os
    _Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,
    comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
    desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
    até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um
    anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

    Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas
    investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
    a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros
    sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
    mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
    philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
    como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos
    conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

    O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
    preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a
    reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
    philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
    ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

    Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
    deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

    Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em
    Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
    em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma
    manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se
    conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
    as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
    sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente
    porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque
    seja um ideal innato á natureza do homem.

    O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os
    philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam
    recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos
    processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a
    natureza é immoral e é iniqua.

    A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
    agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o
    estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma
    eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?
    Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e
    expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A
    theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
    sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
    os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»

    Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
    o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
    equitativa distribuição dos bens.

    O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma
    reacção contra essa lei.

    A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a
    protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela
    vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

    Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
    dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em
    conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao
    paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom
    divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

    Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de
    cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
    seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
    está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.

    Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
    vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o
    direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
    grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
    _nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

    Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de
    ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
    antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos
    idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
    no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
    Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

    Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um
    facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,
    no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só
    palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
    das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.

    Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a
    qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
    economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de
    redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
    conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,
    a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
    industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
    transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
    de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
    do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o
    milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é
    o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um
    menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
    fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
    uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
    vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
    todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino
    emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á
    tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que
    ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
    internacionaes,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho
    que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
    kilo da carne ou o litro do azeite!

    Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
    é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção
    intellectual do homem.

    É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de
    vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas
    publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não
    vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
    espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
    companheiros.

    É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da
    mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a
    primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade
    humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
    final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais
    perfeita do individuo á communidade.

    E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
    regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as
    curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
    transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a
    que pertencemos.

    Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
    aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado
    atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
    reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão
    prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a
    responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem
    agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as
    «companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do
    caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
    filhos.

    O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
    vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
    quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
    Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
    si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas
    ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
    lhe respondera:--não. «Senti-me então desfallecer,--diz elle;--todas as
    fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
    de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr
    apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
    força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,
    revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe
    communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração
    palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o
    reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,
    cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
    amantes celebres.

    A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se
    ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o
    não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se
    fazer um homem.

    Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr
    Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,
    abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina
    haurida nos compendios do snr José Garnier.

    Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões
    feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia
    que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver
    opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que
    teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se
    adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel
    conhecer e tratar.

    É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca
    da educação dos seus filhos.

    Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos
    burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.

    O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de
    Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma
    universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,
    filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram
    em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais
    estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,
    irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,
    beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e
    cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em
    Heisterbach.

    O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,
    fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

    O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é
    alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

    O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de
    Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.

    O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é
    egualmente formado em Bonn.

    O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da
    conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um
    curso de economia politica.

    O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em
    Paris, no lyceu Louis-le-Grand.

    Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de
    Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe
    imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros
    são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa
    alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em
    tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão
    cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação
    dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na
    convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á
    desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em
    capacidade, entre os homens eguaes em condição.

    Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na
    Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta
    republica helvetica.

    O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe
    Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas
    publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e
    de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu
    valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam
    finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e
    constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.

    Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,
    conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o
    seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus
    affectos desempregados.

    Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa
    alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:

    _Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir
    dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos
    seus filhos._

    Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante
    intervenção!

    É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do
    encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem
    devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.

    A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos
    quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos
    que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos
    quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.

    As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções
    physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que
    nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como
    nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.

    Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades
    intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o
    d'ella.

    Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de
    que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues
    e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de
    couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta
    verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua
    meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do
    amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas
    cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.

    Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja
    convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas
    faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.

    A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a
    honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique
    para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós
    arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o
    fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.

    O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade
    scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,
    cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada
    das suas azas desdobradas e pendentes.

    E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do
    coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente
    doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das
    amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração
    no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,
    escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou
    sobre a nossa infancia a perola da candura.

    Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou
    já a fructificar.

    Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias
    ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um
    amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.

    Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em
    periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a
    vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu
    peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos
    beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,
    feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo
    Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e
    confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da
    Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial
    mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os
    anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

    Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida
    que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está
    destinada.

    A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão
    acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre
    mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que
    praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que
    delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa
    alguma.

    É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos
    tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com
    tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da
    responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.

    E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a
    universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma
    mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no
    conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa
    alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas
    tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza
    em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.

    Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,
    conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos
    seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que
    cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua
    immobilidade mental ás gerações mortas.

    Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe
    venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,
    antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a
    mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para
    que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe
    servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa
    alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome
    do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da
    Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar
    simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a
    Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.

    Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,
    e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a
    excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos
    Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como
    quem vae preso para o calabouço.

    Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder
    executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que
    assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações
    de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas
    lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza
    saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,
    e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza
    tem por missão deslindal-os.

    Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações
    internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa
    alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é
    substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza
    corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom
    conselheiro.

    Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é
    segundo tenente da armada.

    É summamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira
    das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in
    absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,
    dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e
    litterarias.

    Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito
    doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com
    vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial
    da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.

    Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario
    natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da
    faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e
    progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é
    alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia
    muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado
    em direito.

    Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das
    quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de
    devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente
    eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos
    seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e
    logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar
    significados.

    Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o
    seu proprio capellão ... Vossa alteza é extremamente bom e amavel em
    sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito
    sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não
    é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.

    Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o
    obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar
    livre dentro de uma estufa pôdre.

    Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen
    no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

    Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os
    reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,
    mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente
    á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço
    constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a
    luz.

    Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos
    principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da
    educação de vossa alteza se resume n'isto:

    Que o libertem!

    Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é
    preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos
    bastardos--sem pae e sem padrinho.

    Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos
    homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos
    camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.

    Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:
    o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do
    throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia
    do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada
    uncção como a da santa chrisma.

    Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes
    e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

    Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou
    chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a
    educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se
    atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua
    unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de
    um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por
    aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou
    por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir
    a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como
    official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também
    não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã
    e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no
    governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na
    lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade
    individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como
    o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de
    Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de
    Washington, como o de Lincoln.

    Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua
    vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção
    inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação
    nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na
    Suecia.

    A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa
    resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da
    obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como
    um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr
    Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

    E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição
    isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e
    fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de
    todas as outras lições funestas que lhe teem dado.

    É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma
    vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,
    para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para
    cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia é o systema da
    negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,
    perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser
    um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que
    se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,
    porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.

    Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre
    um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para
    ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de
    um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.

    Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza
    o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,
    inrelligente e honrado.

    Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões
    officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a
    fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente
    aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua unica
    e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.

    Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.

    A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente
    intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a
    humanidade.

    Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a
    educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens
    de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo
    elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos
    paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó
    do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha
    sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que
    affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a
    educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos
    Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais
    veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,
    a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no
    escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento
    singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito
    encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos
    parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e
    de confiança illimitada.

    Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,
    quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle
    mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos
    estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão
    viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do
    violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e
    extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,
    docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia
    que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,
    espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.

    Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por
    meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua
    mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para
    Paris com o seu preceptor.

    Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem
    verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O
    menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus,
    parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de
    um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e
    pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando
    o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em
    dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se
    repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final
    uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um
    perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o
    cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde
    o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do
    cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.
    Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario
    para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma
    mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias
    positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de
    proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no
    conhecimento do occorrido.

    O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne
    n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE
    d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître
    d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por
    um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal,
    deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á
    traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou
    unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e
    implacavel bigode.

    Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não
    enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou,
    fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas
    indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora
    marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido
    miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu
    filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem
    perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer
    parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.

    E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e
    acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um
    theatro que os escripturou como violinos.

    Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica
    que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu
    braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura
    se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam
    juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos
    boulevards.

    Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A
    nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum
    instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que
    exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte,
    e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o
    arnez theologico do seu amavel aio.

    E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem,
    para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa
    no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos
    _gentlemen_.

    Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real
    senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são
    insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.

    Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.

    Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão!
    Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples
    d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter
    uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de
    si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

    Tudo mais é simples detalhe.

    Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho
    de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á
    linha, um cavallo pronto e ligeiro.

    Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e
    _Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps,
    o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante,
    immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas,
    redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

    Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando
    ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés,
    prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.

    Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!

    Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que
    rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para
    a banda! a etiqueta que estoire!

    A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.

    Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?

    Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou
    á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.

    Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da
    Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão
    desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de
    toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade
    sacrosanta de _touriste_.

    Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe
    prestar defesa e homenagem.

    Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a
    coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o
    defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o
    habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de
    noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á
    sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus
    inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia
    Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.

    Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem
    impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto,
    chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

    --Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da
    força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo
    civilisado.

    Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe
    herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que
    se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não
    houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu
    reino.

    A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon
    esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a
    commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer
    coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais
    fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente,
    como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém
    de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um
    antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara
    familia de Nassau.

    Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem
    violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a
    demover jamais de Paris a sua mala grande.

    Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam
    algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as
    convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no
    foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho
    pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

    --O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a
    Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a
    minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.
    Acceite os meus parabens.

    Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:

    --Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já ...

    Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu
    herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz
    na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser
    um _viveur_ morto do que um rei vivo.

    Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um
    _entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o
    Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de
    litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que
    devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

    Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no
    mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista,
    para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o
    snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o
    introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda,
    tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o
    levar ao mundo onde a gente se diverte.

    Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em
    Paris.

    Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas
    suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples!
    Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a
    gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se
    instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo
    em que entra lhe mostrar que não sabe.

    Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da
    manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com
    agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo
    irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de
    Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em
    seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de
    França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de
    Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao
    Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a
    volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five
    o'clock_.

    A' noite--como se não é principe impunemente--as conveniencias exigem a
    toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e
    a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer
    que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os
    prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.

    Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de
    conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena
    theatro.

    Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que
    seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de
    Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o
    snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a
    explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios
    antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!

    De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber
    cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro
    branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a
    um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida
    provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.

    Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro
    tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a
    chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a
    decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a
    ninguem.

    Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio
    social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do
    dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a
    cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

    De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado,
    casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás
    burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o
    abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a
    perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

    Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente
    algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição
    social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam
    por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de
    ficar ao pé d'ellas para toda a vida!

    Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces
    horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se
    d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr
    pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa
    alteza.

    Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres,
    aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento
    excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres
    da categoria a que nos estamos referindo ...

    (O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha
    incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar
    ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a
    _timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)

    A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se
    essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a
    alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de
    coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam
    jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos
    hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de
    Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe,
    os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.

    Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est
    des nôtres!_

    Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa
    alteza elle dissesse outro tanto.

    Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza,
    vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...

    Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!

    Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou
    obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a
    importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam,
    das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus
    similhantes.

    É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao
    ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno
    de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando
    tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico
    ou mais bello.

    Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra,
    impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a
    aspiração immortal do espirito do homem.

    É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.

    É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados
    pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela
    profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo
    sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma
    ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão
    da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset,
    Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura
    do vulgo, e ser um homem.

    Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!

    Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para
    outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção
    technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.

    Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um
    homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem,
    fica sempre um subalterno.

    No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as
    sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis
    mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens
    mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os
    moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza
    unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas
    trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente
    instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere
    como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!

    Portanto, e em conclusão:

    Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na
    sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á
    natureza um sadio e valente animal.

    A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é
    indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes
    deve:--desgostos!

    Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão
    dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr
    Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

    N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de
    vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós
    abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom
    senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma
    subscripção nacional.

    Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas
    que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.
    Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza
    põe em nosso lábio o sello da reserva.

    Faremos fervorosos a subscripção.

    O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e
    tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que
    Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro
    dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as
    revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós
    somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos
    descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe
    perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.

    _Ramalho Ortigão_.

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:05 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-11-12/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
    mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
    Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
    faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,--com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    --Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    --Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    --Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
    lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    --Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    --Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    --Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    --Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
    mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    --Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo.....

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar....

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
    propriamente--uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

    --Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!... amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
    fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
    _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
    dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?..._

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
    se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    --Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?...

    --Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava....

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    --Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?...

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?...

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    --Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
    templo!...

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
    outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:03 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1882-06-07/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    Aproximadamente 16.983 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 1

    JUNHO A JULHO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
    reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
    mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
    consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A
    arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
    resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de
    Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e
    do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
    para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
    acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
    secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
    Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
    outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
    aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da
    agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
    direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as
    actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
    Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A
    estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do
    cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
    para o outro.

    * * * * *

    Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
    rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro
    milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

    Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
    encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
    ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
    qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
    tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
    arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é
    exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
    sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
    esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
    liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

    Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
    a ideia.

    * * * * *

    Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
    portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
    constitue a nacionalidade de um povo.

    Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...

    Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
    n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
    Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
    amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

    As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
    Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
    d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
    pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

    * * * * *

    Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
    categorias diversas.

    Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
    alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
    esse fim.

    Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
    medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
    terra.

    Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
    qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
    e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
    se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.

    Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
    uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
    individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
    e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
    não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
    senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

    Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
    opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
    bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
    Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
    Baixa.

    Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
    agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
    Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
    do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
    benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
    desprestigiada e choca.

    Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
    dissidencias acrimoniosas de detalhe.

    Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
    Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
    engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
    feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
    desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
    desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
    crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
    commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
    arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
    desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
    á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
    bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

    Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
    cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
    hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

    A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
    tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
    que seja, deram o nome de _eterna essência._

    Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
    vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
    domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
    com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
    pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
    que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
    _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
    continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
    para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
    sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
    lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
    roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
    ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
    d'ella.

    Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
    ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
    desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
    muitas vezes a alliança da familia.

    * * * * *

    Passemos á politica.

    N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.

    Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
    Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
    desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
    modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
    desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
    navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
    condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
    emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
    intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
    davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
    preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
    espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
    desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
    e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
    licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
    mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
    reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
    para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
    Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
    enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
    ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
    joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
    governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
    sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
    sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
    importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
    se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

    Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
    poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
    absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
    representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
    e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

    Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
    d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
    para ahi é que elles não vão.

    Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
    atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
    exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

    São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer
    que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
    transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
    parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
    estéril.

    Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
    ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
    procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
    duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
    ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
    consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
    portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
    principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
    apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
    teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
    calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
    de cabellos tingidos.

    Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
    vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
    fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
    em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
    provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
    especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
    castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
    no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
    toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
    miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
    prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

    É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
    social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
    fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
    produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
    a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
    lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
    bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
    dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
    convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
    separação dos interesses operou a separação das energias.

    É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
    demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
    na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
    de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
    acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
    ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
    phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
    effeito de si proprio.

    Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
    basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
    affirmação em evidencia de facto.

    Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
    questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
    a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
    chama--_a questão da fazenda_.

    Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
    começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
    symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
    governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
    encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás
    desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não
    tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
    pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

    Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
    trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
    immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

    Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
    tem os outros dois!

    A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus
    privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
    e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
    imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
    citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
    anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
    chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
    por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

    Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
    decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
    credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
    calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
    emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
    mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

    Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
    pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
    atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
    interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha
    birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
    negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das
    contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
    emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

    Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
    ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
    traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
    divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
    quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
    alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
    divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
    passou no estado de consolidação para o saco de traz.

    A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
    dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
    vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
    de saco, ella cresce.

    Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
    boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
    collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
    pague.

    No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos
    encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da
    fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
    senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
    ligado aos progressos da industria.

    Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra
    vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
    facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
    qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
    governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga
    dos governados para o despreso convicto dos que governam.

    * * * * *

    Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
    seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
    á protuberancia de cada calo.

    Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e
    da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
    casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
    virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
    mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
    politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
    caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
    ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
    vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
    latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
    todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
    caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
    nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
    podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
    no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
    pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
    santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
    inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
    de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
    amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
    face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

    Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
    no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
    intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
    hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
    diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
    trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
    radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
    diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
    inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
    instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
    cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

    A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
    caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
    por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
    o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
    combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
    tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
    de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
    perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
    entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
    sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
    o interesse.

    Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
    compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
    imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
    aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

    O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
    propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
    transacções entre o homem e o infinito?

    Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
    naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
    determinadas pela constituição do meio.

    Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
    compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
    mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
    inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
    corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
    correlativamente as sympathias dos individuos.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
    fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
    que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

    Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
    para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
    do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
    constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
    liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
    padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
    que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
    banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
    d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o
    _stylo furriel dos batalhões da carta_.

    Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
    antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
    interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
    do publico?

    Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
    grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
    insubmissos e o grupo dos domesticados.

    Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
    laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
    governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
    Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
    pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
    desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
    respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
    depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
    teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
    fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
    simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

    Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
    republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
    para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
    com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
    mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
    luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
    Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
    escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
    combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
    _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
    vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
    andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
    pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
    e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

    Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
    apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
    razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
    paginas de poema, de romance ou d'historia.

    A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
    cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
    ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
    curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
    d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
    com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
    barrigas, todas postiças.

    Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
    que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
    _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

    Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
    vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
    desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
    poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
    marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
    da Baixa.

    Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
    aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
    fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
    tremem-lhes as pernas, e acocoram.

    Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
    profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
    e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

    Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
    monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
    Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
    estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
    Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
    pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
    culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

    Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
    cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
    limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
    perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
    ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
    hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
    nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
    casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
    elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
    vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
    conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
    cynico.

    Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que
    elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
    decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do
    Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
    sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
    retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
    incivis do gado vacum.

    O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
    que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
    regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
    humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

    Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
    obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
    _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
    profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
    de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
    de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
    anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
    escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

    Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
    nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
    profundas as nossas dissidencias estheticas.

    Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
    nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
    artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
    detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
    Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
    rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
    que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
    meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
    do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
    _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._

    Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
    periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez
    ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!

    * * * * *

    De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na
    arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
    sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
    desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
    cohesão da ideia portugueza.

    N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
    só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
    como gotas d'oleo n'um papel passento.

    No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
    um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
    vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
    do repositório.

    De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
    consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

    * * * * *

    Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
    esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
    dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a
    prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
    elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem
    receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
    antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da
    patria não movido de premio vil_.

    Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
    narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
    individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
    dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
    camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
    no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
    eslas linhas.

    Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
    centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
    ainda que immodestamente, o registam.

    Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção
    d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
    para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

    Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
    este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
    desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
    escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
    desprezo dos seus similhantes.

    As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
    Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
    mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
    respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
    carcere.

    Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
    gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
    irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
    mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
    possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
    et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
    marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

    Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza
    de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
    sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
    verdades em evidencia.

    Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
    que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
    a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
    sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
    um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
    um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
    uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
    pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
    beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
    intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
    dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
    estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
    já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
    preciso uma broca.

    As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
    indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
    uma vez participantes no movimento do seu tempo.

    Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
    publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
    durante trez dias com trez noites.

    --É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos
    chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
    nossos reis e nas estalagens.

    A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
    n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
    pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
    reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
    sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
    mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
    todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
    radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
    perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
    socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
    os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
    d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
    uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
    cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
    vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
    cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
    espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
    n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
    proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
    pela gargalhada as mandibulas do publico.

    Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
    governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
    cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
    bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

    Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
    possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
    cohesão social do espirito portuguez.

    Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
    como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
    genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
    portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
    nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
    direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
    poesia eterna.

    A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
    sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
    cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de
    energia e de revivescencia patriotica.

    Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
    verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
    historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
    documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
    dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
    evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
    rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

    Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
    espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
    o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
    soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
    delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
    constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
    cobarde.

    Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
    pbrase:

    _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
    arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
    philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
    historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara
    aguarda as determinações do governo.»

    A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
    nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
    centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
    pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
    massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

    * * * * *

    Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
    parecia poder-se deduzir:

    _Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
    pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
    nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle
    proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
    do muito que já brilhava pela inanidade.

    _Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
    instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

    _Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
    que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
    de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
    assim como a ordem social e a ordem economica.

    * * * * *

    Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:

    _Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando
    d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
    dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

    _Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
    bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
    elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
    de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

    _Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
    associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
    deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
    classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
    situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
    social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
    interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
    alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
    velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e
    fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
    _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

    * * * * *

    Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
    centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
    d'essas soluções?

    * * * * *

    Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
    associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
    escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
    individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
    philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
    Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
    ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
    hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
    dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
    e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
    um _troca-tintas,_ apenas.

    N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
    instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
    analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
    mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
    ventos do seculo.

    Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
    teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
    historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
    porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
    poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
    escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
    Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á
    gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
    cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

    Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
    especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
    intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
    pudicicia de vestal velha.

    Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
    approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
    luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
    geraes.

    Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
    ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

    Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
    paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
    principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
    separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
    sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
    o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
    Melpomone.

    * * * * *

    Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
    havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
    projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
    na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
    das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
    para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
    negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
    muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

    Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
    dentro.--Truz truz truz!

    --Quem é?

    --Está em casa o governo?

    --Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
    ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

    Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
    se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
    explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
    estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
    travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
    não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
    explique as coisas!

    Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
    desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
    celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
    alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
    explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
    Serpa.

    * * * * *

    Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
    congresso das associações confederadas.

    Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
    parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
    á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
    para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
    principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
    reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
    do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
    symptoma culminante e preciossimo.

    Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
    importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
    portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
    canonisado pelo enthusiasmo popular.

    * * * * *

    O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a
    mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

    Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
    que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
    insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
    bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
    os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
    interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
    compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
    os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
    foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
    constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
    dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
    civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
    os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
    geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
    criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na
    sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

    Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
    effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
    maquina politica.

    Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
    toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

    Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
    scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
    liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
    mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
    originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
    resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
    visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
    duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
    depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
    em que principiaria a ser necessaria.»

    Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
    de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
    social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
    empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
    resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
    baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
    mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
    defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
    E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
    sociedades.

    Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
    destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:

    «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
    consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
    Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
    cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
    d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
    porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
    indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
    cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
    promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
    principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
    excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
    sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
    seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
    _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
    thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são
    simplesmente os servos d'aquelles homens.»

    Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
    Spencer.

    Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
    o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
    simples trabalhadores.

    O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
    civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
    calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
    bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
    excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
    pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
    Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
    eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
    Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

    Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
    que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
    apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
    uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
    que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
    representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
    doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
    quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
    Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
    outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
    França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
    muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
    Napoleão.

    O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
    força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
    catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
    memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
    Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
    se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
    produzir trabalho.

    Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
    reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
    d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
    Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
    modesto professor como Adão Smith.

    Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
    anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
    d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
    triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
    cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
    os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
    effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
    carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
    da fauna do mundo moderno.

    Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
    representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
    seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
    governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
    da _Declaração dos direitos do homem_?

    Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
    precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
    solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
    social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
    negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
    acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
    restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
    proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
    cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
    reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
    de trabalho.

    A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
    representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
    revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
    o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
    dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
    o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

    Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
    regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
    ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
    um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
    unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
    numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
    communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
    approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
    lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
    os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
    cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

    Na Europa já não ha d'isso.

    Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
    governantes.

    A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
    religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
    artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
    bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
    celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
    transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
    impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
    segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
    más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
    precederam.

    A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
    seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
    Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
    psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
    tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
    primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
    poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
    O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
    actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
    são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
    familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
    de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
    aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
    aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
    terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
    philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
    Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
    Bernouilli, etc.

    Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
    anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
    creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

    * * * * *

    Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

    Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente
    passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
    rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
    supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
    tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
    detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
    a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
    extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
    dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
    suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
    convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
    agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
    riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
    arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
    contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
    auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
    punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
    principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
    Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
    e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
    estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
    expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
    Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
    Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
    Campomanes e Florida Blanca.

    D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
    Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
    uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
    deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
    carece de originalidade.

    Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
    geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
    reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
    annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
    D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
    sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
    estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
    no governo das monarchias modernas.

    As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
    sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
    d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

    O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
    mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
    reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
    que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._

    Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
    funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
    da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

    Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
    viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
    com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
    nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
    Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
    politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
    o penetraram inteiramente.

    A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
    politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
    salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
    a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
    Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
    desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
    alcovas.

    Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
    ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
    imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
    procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
    similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
    ministro na côrte de Lisboa.

    Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
    caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
    cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
    suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
    estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
    academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
    programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
    no seu paiz.

    Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
    politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
    Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
    as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
    ministrado.

    O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
    unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
    conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
    o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
    cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

    Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
    _tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
    Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
    e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
    tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
    transfere para os membros das academias e das universidades a censura
    até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
    direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
    funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
    finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
    tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
    annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
    aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
    direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

    Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
    Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
    systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
    resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
    V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
    Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
    boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
    estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
    hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
    não paga um _sou_.

    Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
    extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
    bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
    vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»

    A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
    que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
    baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
    mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
    individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
    bens, nem crenças, nem opiniões.

    O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
    obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
    roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
    serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
    troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
    principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
    privilegiada.

    Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
    superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
    uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
    todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
    na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
    riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
    poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
    abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
    o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
    direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
    productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
    salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
    desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
    produzem e aquelles que consommem.

    Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
    pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
    ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
    prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de
    Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
    atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
    depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
    importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
    suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
    liberdade.

    O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
    reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
    seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
    social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
    como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
    de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
    disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
    uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
    irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
    cidade.

    O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
    qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
    da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
    renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
    franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
    consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
    de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
    completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
    funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
    medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
    reclame.

    Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
    collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
    possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
    grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
    quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
    Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
    promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
    n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»

    Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o
    publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
    julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
    como se faz aos pudins.

    Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
    pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
    pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
    caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
    pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
    directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
    José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
    oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
    durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
    mundo civilisado.

    A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
    confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
    sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
    derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
    pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
    da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
    perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
    No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
    violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
    exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
    ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
    symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
    sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
    sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
    sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
    tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
    toda a área da ordem social.

    De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
    os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
    capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
    philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
    philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
    linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
    temperamento e a paixão.

    Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
    taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,--o arroz, o vinho, a
    manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
    particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
    a philosophia, a historia, a moral e a canella.

    A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
    duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
    praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
    vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
    pensar, de cebo para resistir.

    Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
    systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
    do principe e escarmento dos subditos.

    Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
    omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
    traição.

    O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
    Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
    historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
    critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
    reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

    Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
    a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
    é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
    e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
    que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
    assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
    titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
    luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
    e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
    no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
    convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
    Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
    duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
    perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
    morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
    de pé descalço.

    Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!

    Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
    janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
    immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
    d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
    tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
    assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
    familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
    dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
    brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
    pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
    e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
    cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
    pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
    que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
    mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
    desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
    amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
    um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
    meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
    um laço de fita.

    E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
    aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
    plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
    acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
    participado na aggressão ao principe.

    Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
    Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
    José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
    despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
    morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
    miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
    direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
    com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
    destruir.

    É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
    democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.

    Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
    egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
    o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
    liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
    escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
    completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
    isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
    cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
    No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
    ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
    de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
    aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
    e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
    Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
    formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
    como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
    commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
    Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
    Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
    peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
    Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
    foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
    assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
    dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
    vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
    a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
    alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
    incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
    n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
    espavoridos e cegos.

    Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
    nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
    especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
    Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
    perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
    nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
    palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
    cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
    Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
    coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
    provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
    força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
    o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
    Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
    amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
    d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
    unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
    por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
    intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
    o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
    estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
    Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
    Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.

    A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
    em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
    em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
    seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
    um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
    mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
    zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.

    Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
    militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
    equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
    suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
    Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.

    Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
    cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
    progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.

    A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
    nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
    resultado de um equivoco.

    Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
    ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
    de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
    desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
    discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
    immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
    principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
    elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
    consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
    politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
    o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
    pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
    minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
    fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
    por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.

    Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
    marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
    a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
    fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
    principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
    debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
    mesmos principios.

    Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
    tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
    mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
    considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
    revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
    abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
    destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
    retardar a queda_.

    A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
    progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
    Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
    retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
    tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
    artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
    fabrico.

    A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
    influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
    tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
    marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
    vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
    atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
    que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
    sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.

    Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
    na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
    mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
    espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
    do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
    cabeça.

    Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
    secularisado todo o seu programma de poder.

    Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
    ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
    acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
    Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
    peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
    Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
    theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
    _Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.

    Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
    principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
    quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
    de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
    elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
    lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.

    A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
    formas de jesuitismo applicado ao ensino.

    A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
    Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
    obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
    do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
    seus alumnos nos domingos e festas de guarda.

    Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
    legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
    casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
    propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
    regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
    especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
    cepa torta da intelligencia.

    Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
    phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
    experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.

    O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
    essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
    atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
    communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
    pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
    artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
    cada anno lectivo.

    Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
    maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
    menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
    livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
    coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
    ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
    maior será a confusão do seu cerebro.

    A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
    bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
    derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
    explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
    dogmatico ou metaphysico.

    A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
    ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
    o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
    dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.

    Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
    doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
    politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
    coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
    ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
    no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
    do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
    resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
    seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.

    Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
    jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
    secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
    civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
    desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.

    O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
    durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
    intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
    pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
    quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
    vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
    firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
    erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
    na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
    quadrado,--com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

    N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
    outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
    chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

    Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
    e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
    pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
    por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
    trambolho de chumbo que os afunde.

    As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
    n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

    O historiador snr Henri Marlin pergunta:

    «O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
    realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
    responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
    espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
    natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
    da verdade.»

    O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
    por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
    pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
    accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
    a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
    egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.

    A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
    offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
    incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
    dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

    Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
    sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
    Carvalho--feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
    cacete e uma espessura de baluarte--fez de Portugal á força de leis e de
    sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
    paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

    Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
    dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.

    O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
    dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
    casca.

    Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
    mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
    o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
    e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
    da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
    novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
    Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
    toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
    batina e a ovos molles.

    O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
    generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
    submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
    escorraçava-o e perseguia-o,--que é sempre assim que os reis pagam aos
    plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
    de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
    a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
    me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
    Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
    da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»

    O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
    qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
    produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme--a obediencia
    geral.

    Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
    liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
    obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
    obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.

    Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
    encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
    momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
    justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
    insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
    procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
    este personagem sem ideias nenhumas.

    Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
    contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece
    demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos
    contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
    José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
    estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
    explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
    que nos governou o marquez de Pombal.

    Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
    povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
    equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
    cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
    constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
    anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
    ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
    do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
    doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
    alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
    Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
    pacto constitucional.

    Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
    altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
    que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
    sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
    pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._

    A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
    coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
    _creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
    _liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
    commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

    Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
    excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
    Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
    acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
    de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
    governos como o de Pombal lhe opposeram.

    Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
    prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
    differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
    não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
    seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
    mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

    A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
    que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
    para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
    do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
    moral da humanidade.

    Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
    acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
    foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
    forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
    Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
    d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
    a salvação do povo_.

    A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
    envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
    teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
    consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
    Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
    celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
    que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
    deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
    postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
    que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
    que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
    degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
    desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
    o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
    organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
    ingenita.

    * * * * *

    Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
    e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
    preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
    vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
    Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
    terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
    que é necessario que a gente se colloque.

    Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
    em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
    tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
    vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
    seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
    com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
    sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

    Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
    centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
    fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
    senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
    mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
    charlatanismo dos seus tyrannos.

    O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
    peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
    honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
    abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
    merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
    amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
    deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
    dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
    exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
    ainda de talento que de pudor.

    Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
    se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
    Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
    cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
    animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
    n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
    uma charrua.

    Lisboa 10 de junho de 1882.

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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:27:01 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-02-05/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)

    Aproximadamente 16.638 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
    de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
    caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
    gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
    Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
    raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
    mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
    pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
    não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
    ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
    criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
    personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
    ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
    Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
    os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
    da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
    carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
    educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
    covardia, instituição publica, etc.

    Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
    pertencendo a duas classes distinctas:

    1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;

    2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
    Estados.

    Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
    absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
    isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
    intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
    organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
    convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
    os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
    civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
    ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
    communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

    Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
    periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
    toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
    tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
    nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
    regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
    vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
    collectivo.

    * * * * *

    A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
    demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

    Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
    repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
    punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
    distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
    feridos pela perpetração do delicto.

    É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
    unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
    commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
    interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
    ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
    pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
    arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
    conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
    vingança.

    Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
    forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
    muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
    politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
    crimes, são verdadeiros erros!»

    Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
    pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
    sancções penaes.

    * * * * *

    Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
    Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

    No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
    crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
    meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
    tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

    Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
    attentados e despedindo os reos em paz!

    No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
    falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
    recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
    oito annos de degredo para a costa ds Africa!

    O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
    sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.

    O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
    sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

    * * * * *

    Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
    co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
    o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
    iniquiedade monstruosa.

    O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
    oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
    regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
    do serviço militar.

    O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
    Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
    intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
    Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
    crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
    da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
    facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
    interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
    as sociedades teem em que deixe de haver militares.

    * * * * *

    O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
    punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
    estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
    analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
    civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
    militarismo e da guerra.

    Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
    punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
    ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

    Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
    vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
    mortos.

    Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
    todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

    Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
    substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
    alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
    convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
    instrumentos da perpetuidade da raça.

    * * * * *

    Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
    os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
    unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.

    * * * * *

    Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
    primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
    gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
    gymnastica tinha um caracter immoral.

    S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
    do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
    pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
    e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
    comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
    ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
    dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
    obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
    que medeia entre o tapete e o lustre.

    Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
    directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
    da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
    ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
    mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

    * * * * *

    Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
    orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
    nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
    dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
    mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
    escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
    racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
    chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
    correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
    s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.

    * * * * *

    O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
    gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
    mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
    frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
    conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
    acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
    sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
    à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
    depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
    dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
    procere um tão ligitimo horror.

    * * * * *

    A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
    perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
    organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
    mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
    todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
    manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
    exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

    Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
    hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
    sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

    Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
    phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
    loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
    mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
    apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
    que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
    revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
    para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
    actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
    todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
    cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
    circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
    alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
    Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
    de cura de alienados pela transfusão hypodermica.

    Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
    regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
    central, é a gymnastica.

    O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
    em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»

    * * * * *

    Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
    indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
    apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
    frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
    diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
    segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
    para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
    doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
    gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
    observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
    effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
    densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
    exercicio.

    * * * * *

    Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
    Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
    gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
    a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
    doutor Burq.

    * * * * *

    A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
    densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
    exercicios gymnasticos.

    * * * * *

    A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
    desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
    tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
    respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
    directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
    modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
    organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
    hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.

    * * * * *

    Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
    que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
    constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
    doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
    exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
    jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
    methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
    equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.

    * * * * *

    Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
    favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
    senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
    mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
    assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
    constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
    ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
    de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
    nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
    gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
    obesidade e contra a idiotismo.

    * * * * *

    Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
    sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
    previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
    gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
    duas casas do parlamento.

    Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
    exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
    para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
    todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
    quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
    ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
    introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
    n'aquellas em que a gymnastica não existe.

    Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
    esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
    artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
    em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
    gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.

    O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
    obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
    que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
    presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
    mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
    pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
    felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
    nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
    d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
    erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
    desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
    seguintes movimentos:

    Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
    vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
    sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
    (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
    fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
    reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
    meditar sobre a felicidade da patria.

    No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
    perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
    mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
    não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
    reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
    sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
    indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
    seguintes:

    Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
    tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
    (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
    limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
    quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
    Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
    continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

    * * * * *

    Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
    n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
    gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
    Velar-lhe a face!

    * * * * *

    A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
    cego já vê, a paralytica já anda_.

    * * * * *

    Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
    nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
    esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
    cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
    foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
    que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
    reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
    os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
    obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

    A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
    collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
    restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
    indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
    lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
    locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
    auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
    resultados obtidos pela romagem.

    Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
    na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
    agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
    vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!

    Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
    enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
    que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
    locomotores com agua das latas?!

    E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
    para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
    chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
    largo de S. Roque?

    E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
    _andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
    trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
    correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
    maior do que as que levou!

    Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
    lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
    milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
    opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
    sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
    que visse tambem por outros membros.

    Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
    a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
    olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
    pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
    baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
    com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
    romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
    louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
    vemos que a paralytica nos sae pedrez!»

    Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
    ordem, porque os ha muitos maiores.

    * * * * *

    Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
    coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.

    O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
    das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
    balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
    duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
    demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
    pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
    Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
    exemplos.

    Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
    dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
    das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
    emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
    estado do satisfação ineffavel.

    O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
    escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
    os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
    illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
    essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

    No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
    das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
    o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
    citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)

    Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
    regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
    acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
    20.)

    Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
    consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
    obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
    pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
    o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
    resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)

    Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
    escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

    O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
    escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
    diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
    pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
    arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
    de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
    escapularios!

    As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
    IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

    O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
    para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
    perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
    arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
    facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
    por um oculo!

    O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
    nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
    da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
    prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
    Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
    voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
    dito padre Guglielmi.

    De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
    é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
    precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
    seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
    seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
    oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
    virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
    cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
    algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
    patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
    sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!

    Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
    d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
    para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
    alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
    debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
    fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
    de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
    unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?

    Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
    ... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
    esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
    Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!

    Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
    habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!

    Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
    proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...

    Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
    jornal! Cruzes, demonio!

    * * * * *

    Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
    de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
    termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
    satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
    fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
    todos?

    * * * * *

    Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
    esta--o _fadista_.

    Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
    constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
    dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
    feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
    fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
    toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
    beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
    frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
    com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
    nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
    os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
    os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
    adormecidos.

    Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
    capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
    do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
    interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
    em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
    conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
    divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
    navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
    mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
    um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
    seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
    sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
    despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
    fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
    que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
    que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
    uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
    tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
    com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
    combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
    biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
    antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
    espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
    vadiice, e tomou então o nome de--fadista.

    O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
    accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
    seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
    elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
    successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
    esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
    noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
    um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
    frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
    mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
    enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
    de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
    guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
    grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
    molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
    constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
    um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
    Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
    obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
    agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
    Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
    bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
    guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
    qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
    XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
    fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
    Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
    onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
    composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
    camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
    da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
    e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
    taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
    alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
    que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
    Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
    jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
    pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
    lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
    mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
    fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
    de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
    prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
    pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
    pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
    guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
    desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
    pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
    outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
    imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
    perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
    reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
    mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
    esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
    que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
    á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
    da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
    miseravel.

    De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
    meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
    na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
    o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
    convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
    especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
    restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
    todos os machos.

    * * * * *

    É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
    incorrigiveis da criminalidade.

    A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
    recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
    inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
    em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
    verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
    nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
    ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
    sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
    mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
    immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
    tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
    cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
    a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
    conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
    confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
    não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
    inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
    grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
    senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
    presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
    conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
    expediente seria a morte.

    É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:

    É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
    criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
    incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
    repetidos?

    A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:

    É.

    N'este caso pergunta-se:

    Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
    continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
    uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
    os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
    justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?

    Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
    que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
    irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
    sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
    abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
    manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

    Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
    sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
    inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
    instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

    Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
    supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
    Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
    trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
    cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

    * * * * *

    O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
    o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
    policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
    rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
    contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
    photographia no commisariado geral.

    Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
    de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
    aos fadistas.

    * * * * *

    Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
    do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
    contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
    esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
    açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
    viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
    lombares das musas.

    Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
    poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
    ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!

    * * * * *

    Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
    para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.

    O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
    encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
    annos.

    Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
    duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
    pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
    enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
    inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
    pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
    lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
    fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
    e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
    outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
    que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
    de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
    dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
    Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
    spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
    publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
    agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
    _Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
    Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
    concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
    ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
    da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
    _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
    agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
    finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
    De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
    encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
    insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
    era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
    fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
    e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
    poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
    costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
    Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
    achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
    chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
    retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
    as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
    choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
    seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
    tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
    servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
    estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
    Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
    altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
    mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
    poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
    conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
    Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
    Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
    entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
    condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
    ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
    porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
    exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
    suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

    Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
    communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
    Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
    com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
    ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
    onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.

    * * * * *

    Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
    vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
    que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
    engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
    pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
    se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
    ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
    superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
    nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
    presente.

    * * * * *

    _O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
    artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
    obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
    o que pertence aos dominios da pathologia social.

    * * * * *

    Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
    burguezes.

    O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
    burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
    mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
    No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
    apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
    ver porquê.

    Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
    desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
    representação da vida exterior e o systema da vida intima.

    Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
    do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
    religião--a familia!

    Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
    baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
    asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
    a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
    graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
    com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
    galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
    pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
    edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
    Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
    predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
    de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
    modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
    primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
    moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
    systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
    branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
    cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
    cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
    frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
    outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
    elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
    nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
    do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
    todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
    luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
    activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

    As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
    parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
    verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
    com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
    das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
    rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
    queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.

    É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
    _Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.

    Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
    recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:

    «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
    não ha creanças.»

    Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
    bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
    balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
    desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
    musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
    musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
    ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
    largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
    effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
    encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
    sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
    preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
    com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
    seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
    fresco.

    Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
    frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
    creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
    proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
    intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
    rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
    instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
    menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
    indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
    houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
    para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
    quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
    instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
    infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
    e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
    flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
    jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
    Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
    da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
    aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
    ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
    appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
    linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
    diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
    funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
    suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
    jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
    Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
    não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
    Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

    Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
    completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
    phenomenos.

    Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
    assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
    nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
    das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
    actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
    moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
    gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
    essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
    retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
    casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
    que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
    possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
    onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
    respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
    borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

    Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
    a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
    elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
    no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
    de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
    preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
    do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
    orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
    couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
    desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
    ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
    bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
    e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
    Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
    _coupés_ magnificos da piedade escolhida.

    Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
    seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
    Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
    arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
    tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
    desdem.

    Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
    theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
    contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
    dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
    theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
    resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
    sociedades corruptas:--o socego.

    Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
    ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
    os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
    região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
    do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
    raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
    da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
    um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
    cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
    medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
    cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
    alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
    aguadeiro, ralhando com o marido.

    Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
    domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
    quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
    infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
    cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
    caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
    inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
    arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
    retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
    de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
    meio dos cortinados.

    Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
    decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
    similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
    Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
    nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
    á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
    mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
    se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
    a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
    que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
    que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
    ou do luxo que não usa.

    Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
    romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
    lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
    tornar encantadora a familia.

    Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
    predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
    da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
    Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
    serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
    perfeita educação.

    Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
    superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
    processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
    simplicidade tragica.

    O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
    dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
    apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
    pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
    penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
    uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
    espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
    exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
    alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
    seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
    aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
    jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
    se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
    desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
    segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
    mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
    _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

    Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
    refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
    tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
    França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
    essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
    um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
    obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
    _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
    suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
    seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
    caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
    ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
    espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
    do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
    nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
    gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
    suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
    encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
    attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
    Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
    cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
    saberá negar.

    * * * * *

    Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
    medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
    Bazilio_, romance realista.

    Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
    esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
    senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
    espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
    supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
    1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
    cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
    de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
    gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
    da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
    da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
    Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
    atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
    phylanthropos.

    A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
    sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
    pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
    Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
    pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
    convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
    problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
    mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
    leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
    que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
    phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
    integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
    prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

    N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
    que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
    dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
    em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
    zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
    dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
    trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
    mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
    risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
    e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
    caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
    sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
    verba_.

    Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
    se tirou a designação _realismo_.

    Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
    é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
    numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
    simplesmente lyrica.

    O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
    facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
    do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
    uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
    Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
    dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
    que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
    afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
    negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
    morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
    cartas.

    A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
    queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.

    Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
    comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
    mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
    estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
    sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
    philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
    hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
    critica dos costumes, na propria critica da arte.

    Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
    vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
    dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
    _Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
    modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
    as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
    burgueza.

    De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
    contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
    rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
    insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
    companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
    filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
    apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:

    «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
    uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
    honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
    ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
    minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
    fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
    problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
    com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
    romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
    alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
    elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
    asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
    meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
    pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
    em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
    elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
    proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
    pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
    um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
    convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
    concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
    influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
    amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
    em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
    compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
    demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
    reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
    fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
    maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
    applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
    finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
    como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
    these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
    da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»

    Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
    compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
    teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
    artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
    funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
    gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
    religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
    como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
    indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
    se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
    e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
    ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
    a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.

    Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
    _Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
    uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
    gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
    seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
    observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
    biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
    que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
    divina revelação de um novo mundo.

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
    Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

    «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
    de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
    desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
    exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
    Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
    _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._

    Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
    historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
    montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
    carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
    de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
    a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
    que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
    Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
    cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
    Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
    Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
    Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
    Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
    da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?

    Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
    tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
    sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
    quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
    dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
    dizeres?

    Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

    Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
    effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
    convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
    suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
    jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
    phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
    abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
    os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
    que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
    patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!

    * * * * *

    Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
    ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
    seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
    especial:

    1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

    2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
    viajante.

    3.º Não ter dado pateada a um lente.

    4.º Parecer constrangido a dar lição.

    5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

    * * * * *

    Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
    appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
    expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.

    Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
    necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
    teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
    universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
    mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
    legislador mediocre.

    * * * * *

    Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
    aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
    absolvidos pelos tribunaes civis.

    N'esta conjunctura perguntamos:

    É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
    de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
    uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
    julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
    uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
    tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
    contrarias?

    Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
    especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?

    Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
    trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

    Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
    sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

    Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
    quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
    não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

    Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
    d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
    covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
    que ainda possa haver na mocidade portugueza.

    Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
    physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
    com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
    corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
    especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.

    * * * * *

    Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
    sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
    systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
    honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
    força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

    Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
    cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
    sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
    côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
    atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
    naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
    velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
    proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
    escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

    * * * * *

    No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
    Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
    seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
    Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
    para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
    Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
    presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
    seguintes:

    «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
    das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
    livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
    fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
    perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
    abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
    exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
    assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
    medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
    desconheceriamos o dever.

    «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
    conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
    _Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
    ethica da regeição dos dogmas.

    «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
    christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
    senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.

    «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
    espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
    varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
    muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
    produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
    frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
    procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
    insufficiente para nivelar.

    «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
    homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
    e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
    moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
    d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.

    «Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
    aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
    comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
    em si um caracter offensivo.

    «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
    sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
    eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
    cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
    atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
    morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
    celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
    zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
    emprego dos seus ultimos momentos.»

    Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
    é christão, o outro não.

    O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
    religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
    perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
    dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
    peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
    comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
    delicada flor da cavalleria.

    O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
    theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
    agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
    Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
    caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
    é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
    verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»

    * * * * *

    Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
    verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
    de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
    exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
    intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
    moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
    para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
    presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
    em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
    necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
    fundamental da conciliação das consciencias!

    * * * * *

    Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
    mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
    Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
    determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
    tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
    escravisados pelos poderes clericaes.

    Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
    aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
    crescem. Crescem em virtude de que lei?

    Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
    respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
    noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
    fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
    embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
    ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
    operario acrescenta:

    «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
    desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
    de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
    crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
    Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
    amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
    dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
    as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
    coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
    vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
    para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
    Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

    «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
    sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
    Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
    certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
    deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
    sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
    gerações.

    «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
    tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
    legislação humana e a moral universal.»

    * * * * *

    Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
    do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
    principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
    Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
    convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
    perigosas e banidas das discussões publicas.

    Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
    que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
    garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
    das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
    evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
    principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
    reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
    de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
    methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
    que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
    de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
    como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
    os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
    esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

    Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.

    Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
    mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
    nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

    Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
    manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
    cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
    todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
    vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
    morto.

    Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
    expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
    physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
    facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
    theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
    a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
    tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
    resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
    publicos.

    Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
    professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
    vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
    que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
    d'ella:--por falta de inspecção e de policia.

    Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
    solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
    não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
    intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
    armam.

    Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
    dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!

    Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
    mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

    «_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
    _Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
    instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
    de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
    para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
    Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
    Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
    tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
    proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
    e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
    mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
    maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
    portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
    isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
    d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
    religiosa.»_

    A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
    prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
    estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
    quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
    não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
    deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
    ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
    portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
    foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

    Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
    quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
    compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

    D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
    litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
    Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
    para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
    vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
    artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
    Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
    portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
    em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
    vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

    Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
    bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
    Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
    partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
    mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
    Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
    ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
    navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
    mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
    sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
    senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
    Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
    hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
    nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
    onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
    feitos na rua dos Correeiros.

    Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
    Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
    Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
    exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
    Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
    escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
    de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
    mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
    hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
    apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
    official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
    que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
    secretaria.

    No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
    instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
    propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
    dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
    soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
    confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
    Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
    de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
    fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
    tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
    mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
    litteratura de uma nação.

    A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
    instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
    prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
    accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
    instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
    seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
    mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
    discutindo:

    _O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
    ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
    á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
    artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
    tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
    podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
    professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

    Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
    proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
    respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
    tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
    instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
    de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
    religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
    profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
    dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
    entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
    reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
    e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
    que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
    desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
    aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
    sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
    interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
    Maior para lh'o provar.

    Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
    universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
    que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
    é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
    o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
    ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
    formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
    A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
    heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
    emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
    responda pelo erro.

    Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
    a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
    em uma instituição do Estado.

    Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
    lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
    disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
    apagou-lhe a lanterna.

    Quem foi que deixou no mundo esta lição?

    Foi o theologo.

    Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
    legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
    de Rio Maior.

    * * * * *

    Notemos porém um facto consolador:

    O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
    sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
    de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
    cerebro é uma idéa que se extingue.

    Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
    para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
    do professor e o processo pelos tribunaes civis.

    Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!

    Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
    negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
    fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
    pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
    argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
    as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
    tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
    amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
    leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
    pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
    tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
    methodos porque se mortificam os impetos da carne.

    Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
    os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
    a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

    Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
    negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
    cartilha de Padre Mestre Ignacio.

    E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
    uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
    instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
    sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
    portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
    ensino publico de uma nação!

    * * * * *

    Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
    aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:

    _Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_

    O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
    instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
    oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
    _Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:26:59 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1878-01/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

    Aproximadamente 17.486 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
    Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
    d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
    fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
    litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos
    sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
    A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
    cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
    Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
    civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
    situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
    partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.

    No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
    pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
    Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
    Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.

    Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
    imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
    sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
    grande alma do povo.

    Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
    profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
    descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
    póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
    microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
    da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
    que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
    suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
    Ville a Republica de 48.

    Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
    physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
    socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
    economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
    profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
    das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
    instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
    judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
    caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
    favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
    todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
    diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
    os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
    estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
    dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
    isolamento austero da independencia o do sacrificio.

    Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
    e do Bernardo Palissy.

    A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
    resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
    do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
    homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.

    Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
    academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
    rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
    que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
    em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
    phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
    cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
    todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»

    [Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
    cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
    desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
    crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]

    É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
    egualmente o braço constantemente pronto para resistir.

    Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
    mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
    carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
    theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
    verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
    dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
    condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
    liberdade de pensamento!

    O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
    trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
    força do trabalho; Littré, a força da philosophia.

    D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
    fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
    são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
    exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
    nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
    as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
    raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
    mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
    jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
    tem partido.

    Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
    coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
    sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
    calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
    similhantes!

    Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
    repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
    deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
    consciencia e pela verdade!

    * * * * *

    Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
    idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
    instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
    derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
    pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
    empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
    para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
    symbolo ultrajante para a dignidade humana.

    A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
    palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
    olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
    principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
    artista.

    Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
    soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
    puerilmente que se deve ser

    _Fier d'être français
    Quand on regarde la colonne!_

    Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
    comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
    obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
    distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
    Grande!!_

    Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
    republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
    municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
    estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
    que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
    dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
    das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
    aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
    nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
    direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
    cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.

    A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
    um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
    da geração actual o sol de Austerlitz.

    Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
    que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
    ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
    pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
    remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
    maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
    será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
    que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
    pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.

    * * * * *

    Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
    de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
    espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
    elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
    terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
    realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
    alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
    fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
    dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
    mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
    atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
    altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
    encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
    Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
    attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
    contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
    Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.

    Feliz homem!

    * * * * *

    A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
    representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
    notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
    pensadores.

    Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
    annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
    organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
    novo elemento social--o povo.

    José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
    poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
    synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
    decide da sorte dos imperios.

    Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
    celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
    procedera da roda dos expostos.

    Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
    trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
    da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
    azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
    fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
    senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
    que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
    reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
    inimigos.»

    * * * * *

    Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
    consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
    amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
    natureza essencialmente desgraçada.

    Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
    em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
    collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
    nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
    melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
    nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
    jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
    texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
    portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
    tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
    incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
    consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
    direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
    da lingua.

    Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
    generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
    funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
    motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
    instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
    concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
    estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
    repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
    aggravada por uma falsa educação.

    Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
    de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
    caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
    infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
    sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
    da sua inquieta o attribulada existencia.

    A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
    O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
    conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
    dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
    vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
    precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
    para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
    crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
    palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
    vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
    virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
    para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
    no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
    social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás
    mulheres nervosas.

    Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
    suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
    sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
    pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
    Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
    lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
    sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
    de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
    caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
    physicas.

    Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
    obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
    andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
    camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
    Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
    quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
    tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
    philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
    preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
    nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
    assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
    imperfeitamente orientado.

    Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
    da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
    alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
    estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
    ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
    nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
    canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
    descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
    outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
    clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
    bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
    aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
    negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
    voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
    maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
    estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
    sitio amado, uma velha canção querida.

    Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
    que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
    sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
    sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.

    Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
    dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
    aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
    parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
    madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
    biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
    Inutilmente. Elle estava morto.

    Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
    Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
    acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
    traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
    o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
    O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
    e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
    illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
    qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
    quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
    maledicencia.

    * * * * *

    Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_
    o folhetim seguinte:

    _Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de
    ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das
    mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
    estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
    caldo_.

    Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
    deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
    Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
    de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
    paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
    ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
    por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
    tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
    que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
    nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
    responsabilidade.

    Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
    contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
    escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
    espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
    que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
    caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
    depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
    substancia.

    Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
    sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
    esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
    deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
    vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.

    Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
    faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
    proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
    sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
    classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
    nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
    agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
    idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
    comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
    portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
    Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
    á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
    lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
    nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
    heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
    incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
    todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
    supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
    os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
    terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
    preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
    rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.

    A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
    homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles
    teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
    quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
    consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
    todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
    portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
    das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
    brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
    de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
    chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
    educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.

    Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
    passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
    chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
    lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
    familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
    braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
    crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
    seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
    gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
    pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.

    O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
    a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
    collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
    frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
    boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
    recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.

    Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
    todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
    se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
    fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
    viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
    differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
    mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
    considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
    suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
    falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

    Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
    as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
    sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
    a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
    convicção.

    Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
    profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
    lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
    seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
    sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
    horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
    energicos e audaciosos.

    Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
    n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
    que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
    sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o
    chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
    tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
    e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.

    Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
    alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
    vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
    casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.

    Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
    forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
    exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
    guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
    maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
    realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

    A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
    mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
    necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
    reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
    conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
    respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
    da esposa.

    Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
    inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.

    Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
    physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos
    ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
    isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
    acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
    reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
    mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
    encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

    Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
    como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
    civilizadas da Europa.

    Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
    irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
    intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
    sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
    de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
    que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
    circos o trabalho de fazer rir o publico.

    Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
    esse importantissimo.

    Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
    sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
    seus.

    Sua

    _Irmã de Caridade_

    * * * * *

    Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
    effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
    é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
    já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
    retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
    espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
    acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
    phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
    lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
    apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
    prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
    queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

    Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
    processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
    mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
    não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
    mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

    O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
    imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
    philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
    temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
    os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
    Revêde-vos na vossa obra.

    Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
    de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
    recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
    _cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

    Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
    raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
    intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
    encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
    vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
    presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
    racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
    de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
    Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
    mesmo pelo que lhe ensinastes.

    * * * * *

    Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
    interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

    O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?

    As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em
    artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
    constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
    reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
    criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
    violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
    dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
    flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
    indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
    dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
    e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
    pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
    negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
    aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
    ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
    collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
    indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
    ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
    superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
    palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
    amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
    filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
    cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
    dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
    presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
    systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é
    claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
    das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
    mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
    suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

    Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
    uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
    o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
    portuguezas:

    «Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
    trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»

    Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
    Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
    senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente
    formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
    considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
    Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
    qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
    tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
    nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
    da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
    mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
    talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
    lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
    entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
    cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
    recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
    qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
    lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
    seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

    Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
    e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
    deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
    Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

    Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
    compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
    chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
    effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
    sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
    é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
    estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
    excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
    nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
    da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
    mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
    pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
    força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
    sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
    caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
    eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
    pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
    pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
    substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
    alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
    sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
    srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
    Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
    excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
    tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
    um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
    seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

    A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
    assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
    nos adversarios senão admiração e respeito.

    É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
    dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
    seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
    hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
    muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
    individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
    analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
    dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
    pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
    nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
    campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
    alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
    pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
    operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
    qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
    por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
    nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
    historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
    simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
    tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
    cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
    nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
    nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
    melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
    dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
    economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
    philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
    de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
    resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
    quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
    illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
    similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
    empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

    Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
    de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
    supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
    respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
    Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
    travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
    uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
    vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.

    Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
    reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
    affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
    perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
    imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
    vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
    mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
    offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
    Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
    virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
    enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!

    Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
    meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
    licores para os botequins?

    As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
    ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
    agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
    unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
    poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
    idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
    vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
    lá buscar.

    * * * * *

    Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
    segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
    Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
    d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
    encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
    arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
    para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
    pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
    da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
    pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
    conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
    trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
    conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
    a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_

    Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
    excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
    bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
    _abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)

    O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
    promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
    algemas!

    Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
    excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
    jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
    constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
    poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.

    * * * * *

    O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
    robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
    licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:

    Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
    linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
    Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
    homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
    a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
    excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
    me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
    que não tomei ease chá.

    Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
    courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
    mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
    para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal,
    que eu ingeria em grandes dozes.

    A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
    não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
    tinha pia.

    A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
    grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
    primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
    terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
    dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
    instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
    Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
    casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
    economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
    piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
    fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
    desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
    cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
    dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
    esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
    modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo
    defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
    perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
    cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
    onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
    agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
    masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
    fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
    em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
    com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
    efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
    do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
    escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
    sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.

    Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
    suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
    honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
    contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
    familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
    braças de solo cobertas por esse velho tecto.

    A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
    os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
    poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
    fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
    havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
    modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
    educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
    saudade eterna dos seus netos.

    A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
    minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
    que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
    robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
    nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
    das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
    vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
    folhetins dos periodicos.

    * * * * *

    Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
    escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
    Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
    chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.

    * * * * *

    Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
    telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.

    Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
    que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!

    Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
    Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
    Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
    Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
    arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.

    A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
    as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
    a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.

    Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
    accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
    parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.

    Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
    coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
    conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.

    Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
    O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
    verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
    vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
    sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
    chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
    trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.

    Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
    incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
    contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
    faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
    ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
    hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
    ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
    remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
    sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
    presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
    instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
    tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
    cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_

    E a posteridade nos abençoará.

    * * * * *

    Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
    hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
    politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
    manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
    uns aos outros:

    --Não viram por ahi a hydra?

    Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
    entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
    Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
    dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
    imperfeito do verbo Mexer.

    * * * * *

    N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
    presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
    hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
    suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
    de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.

    Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
    salvar a situação da falta da hydra:

    * * * * *

    O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
    Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
    pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
    seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
    haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
    questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
    exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
    como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
    que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
    d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
    Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
    esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
    podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
    enterrado.

    N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
    determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
    que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
    municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
    discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
    alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.

    * * * * *

    Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
    de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
    triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
    cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
    uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
    rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
    arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
    auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
    uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
    cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
    o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
    triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
    theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
    lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
    phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
    e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
    estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
    ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.

    * * * * *

    Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
    canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
    montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
    philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
    morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
    rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
    vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
    hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
    ainda parece pouco.

    O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
    fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
    aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
    romana.

    * * * * *

    Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
    dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
    cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
    consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
    infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
    cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
    Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
    mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
    campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
    discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
    eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
    amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
    orbe pela larga benção incondicional de Jesus.

    Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
    pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
    recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
    podridões privilegiadas.

    Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
    ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
    pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
    as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
    pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
    no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
    terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
    sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
    resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
    dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
    chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
    bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.

    Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
    do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
    grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
    do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
    nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
    o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
    teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
    usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
    canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
    sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
    humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
    sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
    És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
    para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
    te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
    o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
    distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
    sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
    chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
    poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
    outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
    e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
    doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
    te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
    horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
    homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
    padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
    dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
    filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
    entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
    suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
    tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
    dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
    enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
    cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
    bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
    vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
    preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
    mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
    cidade inteira.

    E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
    inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
    que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
    te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:

    No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
    canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
    anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
    para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
    os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
    catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
    Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
    somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
    ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
    como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
    com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
    ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
    condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
    tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
    justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
    elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
    interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
    dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
    voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
    Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
    baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
    Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
    cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
    esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
    para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
    um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
    o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
    sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
    eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.

    Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
    Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
    mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
    mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
    Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
    Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
    que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
    cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
    os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
    collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
    resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
    primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
    pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
    impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
    sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
    fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
    contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.

    * * * * *

    Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
    ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
    por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
    muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
    esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
    n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
    pretendemos consultar s. exª:

    * * * * *

    Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
    não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
    por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
    entretendo.

    N'esta hypothese pergunta-se:

    Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
    o capricho de descartar-me?

    Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
    indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
    escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
    impios e locomotores.

    A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
    direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
    Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
    baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
    lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
    aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
    este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
    as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
    parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
    carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
    padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
    tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
    resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
    varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
    crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
    compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
    todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
    contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
    por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
    e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
    paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
    dos atheus.

    * * * * *

    Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
    funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
    resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:

    Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
    communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
    não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
    uma affirmação civil.

    Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
    facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
    ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
    substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
    perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
    o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
    demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
    attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
    sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
    não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
    exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
    na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
    póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
    póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!

    A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
    antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
    pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.

    Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
    nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
    igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
    dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
    pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
    igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
    de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
    minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
    eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
    espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
    deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
    era--a perna da igreja.

    Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
    perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
    catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
    recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
    direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
    ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
    anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
    de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
    religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
    religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
    baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.

    Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
    Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
    separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
    obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
    dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
    sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
    estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
    designar a sepultura sagrada.

    Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
    outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
    pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
    effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
    de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
    e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
    contrario.

    Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
    encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
    perna.

    Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
    creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
    de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
    padre, morrer sem padre.

    * * * * *

    Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
    cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
    esquina do Laranjal

    Porto

    Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
    pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
    todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
    inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

    Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
    tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
    comparecer.

    Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
    reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
    pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
    comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
    ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
    presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
    certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!

    Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
    uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
    n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
    violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
    encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
    maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
    levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
    Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
    Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
    caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
    de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
    Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
    da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
    _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
    reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
    fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
    ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
    com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
    trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
    abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
    os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
    murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
    freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
    de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
    torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
    venezianamente na agua.

    Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
    ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
    proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
    humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
    os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
    os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
    tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
    Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
    paiz estavam ahi reunidos. Para que?

    Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
    mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
    phenomeno! que revolução!

    Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
    determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
    de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
    iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
    casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
    domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
    os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
    mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
    longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
    caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
    plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

    Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
    pessoal.

    Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
    o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
    exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
    funccionalidade diversa.

    Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
    politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
    por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
    irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
    nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
    espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

    A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
    symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
    mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
    que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
    tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
    que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
    todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
    de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
    A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
    convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
    individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
    o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
    progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
    revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
    acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
    cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
    outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
    tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
    episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
    conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
    sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
    força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
    bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
    vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
    aperfeiçoamento e para a felicidade.

    Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
    os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
    dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
    elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
    remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
    determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
    das sociedades.

    A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
    victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
    paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
    sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
    progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
    instituições.

    Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
    estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
    um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
    reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
    nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
    com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
    debatida entre dois principes.

    A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
    progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
    milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
    affirmação d'esse progresso.

    A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
    principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
    especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

    Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
    seu novo hospede? Não lhe apparecendo!

    V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
    irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
    satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
    que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
    pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
    do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
    chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
    ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
    agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
    extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
    cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

    Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
    completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
    democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
    abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
    portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

    É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
    contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
    com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
    patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
    o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
    forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
    nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
    sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
    telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
    teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
    resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

    Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
    como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

    * * * * *

    Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
    de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
    os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

    Eis o que ao depois occorreu:

    * * * * *

    A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
    choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
    Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
    estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
    suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?

    --Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
    mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

    Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
    bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
    aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:

    --Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

    E deixaram-o ir.

    * * * * *

    Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
    com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
    estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
    orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
    deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
    adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
    homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
    perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
    abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
    redea.

    * * * * *

    Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
    cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
    retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
    saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
    moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
    officiaes!

    * * * * *

    Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
    do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
    dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
    circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
    sr. José Dias Ferreira.

    Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
    o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:

    --A mim, rapazes!

    E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.

    * * * * *

    Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
    assim elle mesmo?

    Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
    burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!

    Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
    sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

    * * * * *

    O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
    do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
    Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
    rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
    depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
    seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
    cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
    para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
    dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
    nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
    como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
    estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
    Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
    commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
    delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
    abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
    de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
    ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
    auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
    azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!

    Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
    da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
    causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
    durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
    intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
    bolsa do alforge ministerial.

    Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
    enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

    * * * * *

    E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
    logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
    nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
    arnica o seu galo.

    * * * * *

    Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
    jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
    eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
    Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

    O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
    como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
    estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
    kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª

    * * * * *

    Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
    deputados:

    * * * * *

    Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
    funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
    os parapeitos até ao tecto.

    Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
    o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

    Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
    individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
    resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
    publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
    dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

    Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
    encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
    feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
    com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
    calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

    No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
    coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

    Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

    Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
    amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
    O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
    Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.

    Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
    mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
    sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
    descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
    cahidas do systema que felizmente nos rege.

    No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
    inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
    dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
    sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
    inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

    --Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
    lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

    Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
    estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
    cabeça.

    Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
    vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
    estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
    resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
    mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
    a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
    submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
    face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
    resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
    sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
    constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
    extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
    lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
    moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
    botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
    trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
    ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
    da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
    constitucional.

    Diz mais o orador:

    --«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
    pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
    investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
    inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
    isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
    aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
    porque elles serão consolados».

    E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
    camara:--«Muito bem! muito bem!»

    Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
    Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
    e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
    victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
    questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
    desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
    srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
    Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
    ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
    Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
    Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
    alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
    dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
    d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
    crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
    queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
    moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
    nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
    collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
    meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

    E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
    applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

    A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
    como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
    Kant, de Hegel e de Hartman.

    Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
    philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
    precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
    grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
    indisciplina mental.

    Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
    philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

    Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
    definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
    para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
    triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
    filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

    Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
    peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
    pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
    o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
    politico do imperador Guilherme?

    Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
    senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
    arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?

    Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
    vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
    preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
    ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
    peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
    certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
    pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
    philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
    contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
    pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
    linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
    elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
    actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.

    Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
    experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
    humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
    maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
    indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
    sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
    noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»

    A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
    esphacelamento cerebral.

    Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
    caturras?--É unicamente o que perguntamos.

    * * * * *

    O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
    governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
    coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
    social.

    A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
    fazer.

    A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
    o principio em que se funda.

    A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

    Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
    uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
    Turquia está muito adeante de nós.

    Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
    destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
    dissolvem-se na banalidade.

    As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
    personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
    camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
    mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

    Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
    assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
    exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
    burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
    moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
    cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
    similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

    Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
    circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
    do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
    funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?

    * * * * *

    Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
    catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
    militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
    electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
    quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
    permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
    de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
    governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
    uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
    de cordas, uma photographa, etc.

    Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
    disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
    pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
    opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
    partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
    conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
    evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
    industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
    das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
    universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
    magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
    governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
    distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
    a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

    A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
    não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
    e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
    partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
    perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
    a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
    pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
    partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

    Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
    mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
    completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
    constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
    vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
    digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

    * * * * *

    Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
    converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

    O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
    corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
    appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
    appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
    compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
    diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
    favor da urna.

    O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
    todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
    expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
    consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
    commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!

    Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
    competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
    de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
    moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
    a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
    preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
    é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
    deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
    e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
    aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
    insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

    Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
    como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
    _compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
    ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
    correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
    apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
    compadre, vou para o partido d'elle.

    O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
    machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
    governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
    o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
    que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
    como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
    engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
    tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

    A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
    contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
    esse poder é unicamente--o da comadre.

    A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
    dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
    rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
    unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
    real; compadrice, comadrice--eis tudo.

    * * * * *

    Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
    decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
    ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
    miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
    remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
    quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
    socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
    sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
    e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
    philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
    que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
    resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
    reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
    concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
    revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
    conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
    actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
    mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

    * * * * *

    Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
    sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
    pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
    que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
    caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum
    sepulchrum_!

    ]]>
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    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06) https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-05-06/ https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-05-06/#respond Wed, 21 Oct 2026 12:26:57 +0000 https://blog.mabo.cc/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-1877-05-06/

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06)

    Aproximadamente 19.222 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO IX

    Maio a Junho 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A burra do Estado. Porque motivo o ministerio Fontes se deitou abaixo
    d'essa burra, e do mais que então passou. A queda do dente. Elogio do
    dente pelo sr. Assumpção. O dente embrulhado n'um papel. O dente aos pés
    do throno. O dente demittido. Pede-se um dente novo.--O drama _Leonor de
    Bragança_ e a caixa do Poder Moderador. Parallelo da peça do sr. Luiz de
    Campos e da do sr. Alfredo Ansúr. Os caracteres em cada uma das duas
    peças, a lingoagem, o stylo, a cortezania, a intenção moral. Conclusões
    do referido estudo: requisita-se para o sr. Ansúr a commenda do lagarto
    ou metade da caixa conferida pelo Poder ao sr. Campos.--As corridas de
    cavallos--O premio do Jockey-Club e o premio da Academia--O progresso em
    Lisboa durante o ultimo semestre. A sociedade affirma o seu movimento
    ascendente na civilisação por meio de dois novos estancos e de uma
    ourivesaria. Philosophia de uma vitrine de joias--A peregrinação a Roma.
    Os preparativos. A partida. A prescripção da _toilette_. A chegada a
    Lourdes. Aspecto pittoresco e elegante do milagre: o _restaurant_, o
    trem de Paris, as _parties fines_ sobre a relva, o Champagne e as
    bilhinhas da agoa. Em Roma. As offerendas. O dinheiro de S. Pedro. A
    applicação d'esta receita. O album dos peregrinos e o que n'elle se
    contém. A nossa allocução. O primeiro e o ultimo jubileu. Pio IX e
    Bonifacio VIII. A antiga fé. Os peregrinos em 1300. A fé actual e os
    peregrinos d'hoje. O conflicto da sciencia e da fé. O Deus de Darwin. Os
    novos poderes espirituaes. De como ninguem quer o ceu do Padre
    Marnoco--A primeira communhão de sua alteza o principe--A civilisação
    africana e as conferencias academicas. Uma conferencia que se não faz:
    _Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores_.

    * * * * *

    Era em uma bella manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor
    e da brisa--como diria o sr. Antonio de Serpa se as conveniencias
    partidarias lhe permittissem ainda dedilhar a theorba sob o lyrico
    balcão de D. Mafalda--tinha estendido sobre as campinas o seu manto de
    esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz
    animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no
    chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da
    hortaliça de que se exhalam emanações appetitosas de cuentro e de
    pimpinella, no tic-tic do passo miudo e zeloso dos jumentos saloios
    ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A agua das
    regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos
    favaes. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das
    quintas, de pateo ajardinado, sahia em calidas baforadas o perfume dos
    limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os
    caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tepida e
    balsamica cahia do ceu azul e envolvia n'um doce torpor voluptuoso e
    suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou
    desembarcando na gare de Santa Apolonia.

    * * * * *

    Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da
    natureza, que o sr. Fontes Pereira de Mello deliberou deitar-se abaixo
    do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos
    que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que elle cavalgara
    em cinco annos de choito glorioso atravez das _diversas provincias da
    publica administração_.

    Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus collegas do ministerio
    e os seus mais intimos amigos politicos, lhes fallara d'esta arte:

    Senhores! Achando-me esta manhã á janella do meu quarto, fazendo algumas
    considerações philosophicas e a barba, deliberei apear-me por algum
    tempo da azemola do poder.

    _Vozes de amigos intimos desapontados_.--Oh! oh! Não o cremos!... Não o
    podemos crer!... É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra
    do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S.
    ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico
    deixar-nos n'este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos,
    para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um
    pretexto, haja uma razão!

    _O sr. presidente proseguindo_: Quereis uma razão? Eu vol-a dou. Acho-me
    impossibilitado de proseguir provincias da publica administração além. Á
    força de meditar nos altos negocios do estado acaba de me cahir um
    dente...

    _Vozes_--Dê o dente para ordem do dia!

    _O sr. presidente (tirando o dente da algibeira e collocando-o na
    discussão)_--Ahi tendes o dente. Abri sobre elle os mais largos e
    rasgados debates, e julgae-o como vos approuver. É um queixal. Nada mais
    acrescento. Sobre este ponto considerações de melindre pessoal me
    inhibem de continuar. Farei apenas sentir aos meus amigos politicos e
    aos meus collegas do gabinete que nem a camara nem o paiz nem a corôa
    poderão, segundo penso, exigir da minha fidelidade partidaria que eu
    sacrifique á investigação dos negocios os dentes que o meu ardente
    patriotismo me impõe a obrigação de reservar para os inimigos da patria.
    Tenho dito.

    (_Vozes:_--Muito bem! Muito bem!)

    * * * * *

    O sr. Manuel da Assumpção, havida então venia para fallar, consta que
    estendera a dextra sobre o dente, e proferira com ardor e enthusiasmo as
    seguintes palavras:

    «Meus senhores! Este dente é a pagina mais gloriosa da nossa historia. É
    effectivamente um queixal, como s. ex.ª muito bem disse na sua phrase
    tersa, de uma energia e de uma concisão dignas de Tacito. Ha oito dias
    que os jornaes que nos guerreiam lançaram este dente na tela da
    discussão, procurando fazer acreditar ao paiz e ás nações extrangeiras,
    por meio de insinuações malevolas, que elle é canino. Mandando o dente
    para a meza o sr. presidente acaba de confundir de uma vez para sempre
    os seus adversarios. Queixal! Longa foi a tua carreira gloriosa.
    Enraizado no queixo de s. ex.ª atravessaste com elle as mais duras
    provações de uma carreira brilhante. Roeste o pão negro do ostrocismo.
    Atolaste-te na lampreia d'ovos das doces illusões. Mascaste a cabedella
    dos terriveis desenganos. Depois de cada um d'esses estadios na senda
    dos progressos materiaes e moraes, s. ex.ª, com mão decisiva,
    palitava-te. Um dia porém, á meza do orçamento, no grande banquete da
    civilisação, n'esse campo de batalha onde se travam os combates
    incruentes do progresso e onde o talher de s. ex.ª por muitas vezes
    fulgurou desembainhado ao sol das victorias, tu, depois de uma violenta
    refrega, com umas amendoas torradas de exercicios lindos, com uns
    biscoutos de gerencias anteriores, e com algumas outras verdades duras
    de tragar, appareceste furado. No dia seguinte s. ex.ª chamava ás armas
    a reserva e um dentista, e tu, ó dente, recebias como os bravos o
    baptismo do chumbo. A bala inimiga....

    _O sr. Presidente_--Tomo a liberdade de interromper o illustre deputado
    e meu nobre amigo para lhe fazer notar que o dente não recebeu o
    baptismo do chumbo sob a forma de bala, mas simplesmente sob a forma de
    pingo.

    _O orador_--Do mesmo modo então que um fundo de chaleira?

    _O sr. Presidente_--Precisamente do mesmo modo.

    _O orador_--Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da
    prestar-me, e, se s. ex.ª m'o permitte prosigo, pondo de pane a piada
    relativa á bala do inimigo...

    Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caracter de um triumpho, pois
    não cahiste arrancado por uma opposição accintosa e malevola; cahiste
    porque tinhas os teus dias cheios e um pouco tambem porque estavas
    podre.

    Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?...

    _O sr. Presidente_--Peço perdão para ainda uma vez interromper o
    illustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do
    dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que apparece
    em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o
    justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém
    habilitado para satisfazer a curiosidade do illustre deputado em quanto
    ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.

    _O orador_--Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente
    que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a
    nenhum dos seus queixaes pergunta alguma para que deseje resposta. As
    minhas interrogações são puramente rhetoricas. O silencio com que fui
    escutado pelo dente não sómente me não escandalisa mas antes pelo
    contrario me penhora como um testemunho de benevolencia a que não
    ousava aspirar.

    Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado
    respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder
    moderador, para que sua magestade haja por bem resolver como lhe
    approuver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do
    conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»

    * * * * *

    Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr.
    Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos
    emolientes emquanto o resto do ministerio partia para o Paço a levar ao
    soberano o dente resignatario.

    Constou pelos jornaes quo apenas recebera o dente sua magestade se
    dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma
    entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa
    em procurar reintegrar, pelas suas proprias mãos, o dente caído na
    maxilla do illustre estadista.

    Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotára, para consolidar o dente
    caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as
    disposições do codigo fundamental da monarchia. Sua magestade tentára
    fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre,
    com pez, com gomma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.

    O dente reagiu a todas as reaes instancias: o excelso politico, em cujo
    queixo inferior elle se firmára durante cinco annos de gerencia
    governativa não queria mais a confiança da corôa, queria unicamente
    cosimento de malvas.

    O monarcha lavrou então o decreto mandando o seu antigo ministerio
    bochechar, e encarregou o sr. marquez de Avila e Bolama de reunir com os
    seus amigos o numero de dentes necessarios para formar uma gerencia
    duradoura e firme.

    D'este encargo se desempenhou o sr. marquez com o zelo que o
    caracterisa, e o actual ministerio nasceu.

    * * * * *

    Um dos nossos mais distinctos amadores, o sr. Luiz de Campos, acaba de
    dotar o theatro de D. Maria com um drama, cujo exito constitue o maior
    triumpho modernamente alcançado pelas letras portuguezas.

    Não só os jornaes todos consagraram a esta obra louvores emittidos com
    uma energia desusada, mas até a alta sociedade, de ordinario tão
    parcimoniosa de curiosidade dispendida com a arte, patrocinou com
    especial favor esta peça. O auctor teve a gloria de ver os seus finaes
    d'acto applaudidos do fundo dos primeiros camarotes pelas mãos mais
    aristocraticas. Nas situações patheticas do seu assumpto lagrimas
    illustres sulcaram o pó d'arroz com que se perfumam os brazões das mais
    nobres e distinctas familias. Finalmente no fim do espectaculo o Poder
    Moderador, que assistira á representação em companhia da sua familia,
    expediu um dos seus camareiros, o qual foi ao palco cumprimentar o
    laureado dramaturgo, pedir-lhe desculpa de lhe não pingar do alto do
    throno sobre o peito da casaca a commenda de S. Thiago, e entregar-lhe
    em vez das insignias d'essa ordem excelsa e em nome do referido Poder um
    cofre com uma pedra preciosa, que os jornaes do outro dia pela manhã
    almotaçaram em 1:500$000 réis.

    * * * * *

    O drama do sr. Luiz de Campos intitula-se _Leonar de Bragança_ e encerra
    a historia d'aquella desditosa, cuja mocidade e belleza feneceram de
    subito, surprehendidas no ventre por trez facadas com que a brindou seu
    esposo, o mui nobre e poderoso duque de Bragança, um dos antepassados do
    Poder que hoje nos rege, e ao qual, bem como á sua familia, acima
    tivemos a honra de reportar-nos submissa e respeitosamente.

    O pretexto sob o qual D. Jayme damnificou com instrumento perfurante o
    abdomen de sua mulher foram os amores d'esta com o pagem Antonio
    Alcoforado.

    Existiram effectivamente esses amores? Era a duqueza realmente culpada
    de uma fraqueza anormal pelos pagens? Era Alcoforado um honesto e leal
    servidor do principe D. Theodosio, ou era uma ratoeira vil de duquezas
    incautas?

    * * * * *

    Ha duas opiniões ácerca do modo de considerar no theatro a natureza
    d'este facto.

    Na sua _Leonor de Bragança_, escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos
    entende que a duqueza é innocente. Na sua _Leonor de Bragança_, escripta
    em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.

    Os fados, que tão propicios foram á obra do festejado sr. Campos,
    trataram adversamente a obra não menos estimavel do malogrado sr. Ansúr.
    Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em
    cotejo as duas composições a que deu origem a tragica aventura de
    Leonor.

    * * * * *

    No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho
    perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em
    _haver o pagem um coração_. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente
    _haver_ em logar de _ter_, não só nos casos em que esse verbo é usado
    como auxiliar mas ainda quando se toma na accepção de possuir. Acatamos
    discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado
    este cavalheiro a cortar as suas relações pessoaes com o verbo _ter_. O
    simples depoimento do verbo _haver_, conjugado com tanta lealdade,
    cravado no discurso com tanta firmeza como aquella que se admira em
    todas as locubrações litterarias d'este auctor, basta para nos convencer
    da innocencia de Leonor.

    Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso d'esta peça são de
    um caracter fortuito absolutamente illibado.

    A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo
    bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no
    momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor
    á direita para o segundo bastidor á esquerda. Elles veem ambos meditando
    no verbo _haver_, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas
    cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:

    _Duqueza_--Houveste alfim volvido?

    _Pagem_--Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?

    _Duqueza_--Nada hei.

    _Pagem_--Hão, quiçá, offendido-vos outra vez?

    _Duqueza_--Não hão. Pagem, havereis de volver a casa do sr. D.
    Theodosio.

    _Pagem_--Visto que não heis de mim de, senhora minha, haja de se cumprir
    vossa vontade! Haverei força, haverei de havel-a... Manhã, ao toque de
    prima, serei partido. De nada mais heis mister?

    _Duqueza_--De nada mais hei, pagem; e a Deus prasa que jámais haja de
    haver! Idevos presto a D. Theodosio, consoante-vos hei di-lo pouco ha.

    _Pagem_--Em mim havei fé, minha senhora ama: eu me vou.

    _(Saem ambos, cada um por seu lado, meditabundos.)_

    A entrevista que dá causa á vingança do duque não a tem Alcoforado com a
    duqueza mas sim com uma das suas damas. Em toda a peça, finalmente, a
    duqueza, nem por carta, nem de viva voz, nem de simples ôlho, tem para
    Antonio uma palavra, um aceno, um gesto, em que se presinta de leve que
    seja a exhalação da perfidia.

    * * * * *

    O sr. Ansúr é menos complacente com os seus personagens, como vamos ver.

    BEATRIZ ANNES

    _Grande mal, grande mal, senhor Fernão!_

    FERNÃO RODRIGUES

    _Que mal?_

    BEATRIZ ANNES

    _Homem em casa._

    FERNÃO RODRIGUES

    _Com a aia?_

    BEATRIZ ANNES

    _Não._

    FERNÃO RODRIGUES

    _Com quem pois?_

    BEATRIZ ANNES

    _Com nossa ama._

    O fogoso e pittoresco sr. Ansúr vae mais longe ainda: colloca o pagem
    aos pés da duqueza e põe na bocca de um e outro estas palavras:

    PAGEM

    _Que enthusiasmo sinto! Arfa-me o seio
    Em vertigem de amor! Sinto a poesia
    Na mente distillar grata ambrosia.
    Ó senhora duqueza! Minha vida!
    Como vos amo!_

    LEONOR

    _Antonio! alma querida..._

    PAGEM

    _Longe de vós a vida é-me desterro...
    Perdoar-me-heis do coração este erro?_

    LEONOR

    _Sim._

    PAGEM

    _Sem vos escutar e sem vos ver
    Não podia, senhora, mais viver!
    Meu peito abrasa._

    LEONOR

    _Doce pensamento,
    Longe de ti é egual o meu tormento._

    E a duqueza prosegue exaltando-se n'uma gradação rhetorica perfeitamente
    calculada pelo sr. Ansúr até o ponto de lhe dizer o Alcoforado:

    _Calae-vos por piedade! Tende imperio
    Sobre a imaginação._

    Em outra scena da peça depois de uma entrevista secreta com o pagem, á
    hora da meia noite, a duqueza profere uma palavra physiologica, de um
    sentido decisivo:

    _Como evitar que o duque venha, e veja
    Aqui tua presença que me peja?_

    PAGEM

    _Meu Deus!_

    LEONOR

    _Jesus! esconde-te!_

    Ao que o pagem, com o temerario valor que só os altos sentimentos
    persuadem, replica energicamente:

    _Fujamos!_

    LEONOR

    _Por onde oh! ceus?_

    PAGEM

    _Por esta porta._

    LEONOR

    _Vamos._

    Sendo tanto a _Leonor de Bragança_ do sr. Luiz de Campos como a _Leonor
    de Bragança_ do sr. Alfredo Ansúr peças offerecidas pelos seus auctores
    a sua magestade el-rei o sr. D. Luiz I, é claro que ellas devem ser
    consideradas pela critica não como livres producções litterarias mas
    como especiaes mimos dedicados á familia de Bragança. Ora sob este ponto
    de vista--não hesitamos em dizel-o--a obra do sr. Ansúr parece-nos muito
    mais completa e perfeita que a do sr. Luiz de Campos.

    Pomos de parte a questão da investigação historica, que foi egualmente
    aprofundada pelos dois auctores. O sr. Luiz de Campos reforça-se com o
    testemunho dos documentos que manuseou: _A historia genealogica, As
    Decadas_ de Couto e de Barros, a _Chronica de D. Manuel_ por Damião de
    Goes e o _Auto de inquirição e devassa_ existente na Torre do Tombo. O
    sr. Alfredo Ansúr fortifica-se exactamente com os mesmos documentos por
    elle compulsados.

    Para suas excellencias, armados de eguaes argumentos pró e contra a
    duqueza, a escolha do papel que tem de lhe ser dado n'este drama é pois
    uma questão de gosto. O sr. Ansúr, emquanto a nós, escolheu melhor, e
    fez a sua magestade el-rei uma dadiva mais delicada.

    Segundo o sr. Ansúr o duque de Bragança D. Jayme é um cavalheiro infeliz
    em familia, ao qual succede--como muito bem diz Menelau na Bella
    Helena--uma fatalidade. O duque deteriora a região intestinal da
    duqueza, mas deteriora-a em legitimo desforço da sua dignidade offendida
    e ao abrigo das leis do reino.

    Segundo o sr. Luiz de Campos, dada a innocencia da esposa, o duque não
    passa de um sanguinario estupido, que envolve o seu brasão de familia e
    a futura tradição dynastica n'um ignobil e affrontoso chouriço de sangue
    innocente. O acto de mandar desossar pelo cosinheiro o pagem Alcoforado,
    com o mesmo facalhão com que se picam os bifes, é um facto indecente
    que, posto o criterio do sr. Luiz de Campos, estabelece um precedente
    que pode levar os servidores da casa de Bragança a não distinguirem
    inteiramente a differença que ha em ir para o paço e em ir para a
    salgadeira.

    Eliminada a circumstancia do adulterio o duque é um facinora vulgar sem
    nenhum apoio na jurisprudencia ou na legislação. Depois da leitura da
    peça do sr. Luiz de Campos, um jury sensato que houvesse de julgar D.
    Jayme, mandal-o-hia degradado por toda a vida para a Costa de Africa.
    Só assim se poria uma sociedade culta ao abrigo de um principe que faz
    das esposas e dos vassalos um consumo que se não justifica pelas
    necessidades ordinarias da vida exterior.

    * * * * *

    Parece-nos ser um serviço em extremo subalterno prestado a alguem o
    publicar a historia de um dos seus antepassados á luz de uma critica
    cujas derradeiras consequencias são, como no drama do sr. Campos, a
    condemnação do mesmo antepassado a um genero de glorificação e de
    apotheose que elle só pode remir com a prisão correcional perpetua.

    Na peça do sr. Ansúr o antepassado do alto personagem a quem elle a
    offerece e consagra apparece-nos satisfactoriamente levado ao crime por
    uma provocação cheia de solicitude e de cortezia. «Ha homem em casa. Com
    a creada? Não. Com a patrôa.» Este grito sublime de clareza e de
    concisão esparge no facto um raio de luz juridica e lança um immenso
    clarão de legalidade e de justiça sobre o chifarote brigantino destinado
    á perfuração das damas.

    Nada mais tocante do que a situação do duque ao receber o fatal
    desengano:

    _Horror! Infamia! Anathema! Vergonha!
    .......................................
    Rompe-se-me do ser toda a harmonia,
    Passa-se-me na mente extranha orgia!
    Estalam-me no corpo algumas fibras!
    Meu pobre espirito, que assim te libras
    Do desespero na mortal esphera,
    Não te consumas tanto! Acalma! Espera!
    .........................................
    Mofina dor me roe, me despedaça!
    Emquanto descuidoso andara á caça,
    Tu deliravas... tu... oh! que villeza!_

    E depois dirigindo-se ao pagem:

    _Arrepende-te dos teus peccados
    Que os fios da tua vida estão contados!_

    PAGEM

    _Perdão! piedade!_

    DUQUE

    _Soffre com valor
    Que mais soffreu par nós o Redemptor!
    .....................................
    .........................Alfim
    Com o manchil Domingos cortará
    A cabeça do pagem. Morrerá._

    A duqueza intervem com esta conceituosa
    mas intempestiva maxima:

    _Jamais decepes com manchil odioso
    A cabeça de um justo. É horroroso!_

    O duque não precisa que lhe ensinem a resposta...

    _Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
    O descendente, como pune o ultraje,
    Que lhe fizeste, Leonor! Apage._

    Não são estes porém os unicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á
    clareza justificativa dos factos e ao esplendor immarcessivel da casa de
    Bragança. A peça d'este benemerito cavalheiro abunda em conceitos e em
    noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que,
    presando-se de amar o rei e a patria, deixará de ler sem uma commoção
    profunda as seguintes palavras que o auctor põe na bocca da mãe de D.
    Manuel, por occasião do advento d'este monarcha ao regio solio?

    _Omnipotente Deus! quiz o destino
    Dar existencia ao throno manuelino!
    Quem predissera tal, filho cadete,
    Quando surgiste á luz em Alcochete?!_

    Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da
    casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr.
    Ansúr celebra os antigos privilegios heraldicos de tão distincta
    familia:

    _A não ser o real, não ha poder,
    Que possa hoje nos reinos exceder
    O de nosso senhor! Póde D. Jayme
    (Ó fóros brigantinos inspirae-me)
    Nas salas dos seus paços ter doceis
    E sitiaes nas egrejas dos fieis.
    Forrada com arminhos, rica, larga
    Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
    Ante si leva estoque, segundo acho,
    Com o extremo voltado para baixo,
    Distinctivo dos reis, que é para cima._

    Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em
    cujo throno se acha uma familia que antes de reinar tinha o direito de
    levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar
    estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos
    acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!

    A unica coisa que se nos offerece reprehender na peça do sr. Ansúr, por
    innumeros titulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não
    tivesse accrescentado com mais um acto, no qual, para completa
    rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos apparecesse
    resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que
    consumiu até o ultimo dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Villa
    Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que
    se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o
    nobre duque se mettia em agua, durante uma hora por dia, para desaggravo
    e remissão de suas culpas. O illustre heroe tão devéras se arrependeu
    que chegou a mortificar-se d'esta maneira insolita e sem
    precedentes--tomando banho!

    Seria um bello melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a
    completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado
    pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas
    carnes ultrajadas e viuvas pelo contacto expurgante de um sabão.

    * * * * *

    Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque
    motivo não caiu do alto da regia munificencia sobre o peito inspirado do
    sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do merito artistico e
    litterario, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poeticas do
    sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino
    como o do seu collega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia n'esta creação
    litteraria? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ella
    escripta em bellas parelhas de versos de dez syllabas, em vez de o ser
    em prosa villôa como a do seu competidor?

    O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber
    mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima
    referido de 1:500$000 réis.

    Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade annexa ao mandato
    popular, porque não se lhe confere a commenda da nobre ordem ou, quando
    menos, a sua equivalencia em cofre com pedra preciosa no valor de réis
    1:500$000?

    Grave e inexplicavel injustiça! Se a nossa debil voz póde chegar até ás
    orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:

    Senhor! A vossa protecção ás letras patrias não se tem até hoje
    desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os
    dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas teem
    colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido collocado em
    uma _avant-scène_, durante uma ou duas representações das suas peças, o
    vosso real perfil, que outros não possuem senão collocado nas moedas de
    5$000 réis, coisa miseravel e vil. Acabado o espectaculo vós enfiaes o
    vosso paletot, accendeis o vosso charuto, retomaes o vosso sceptro no
    bengaleiro, e ides para casa recolher as commoções da noite sob o
    agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na
    ponta. O genio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa
    munificencia manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que
    deliberastes inaugurar a éra do galardão litterario, dae a Alfredo
    Ansúr a commenda que Luiz de Campos não pôde acceitar. Dae-lh'a quanto
    antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do
    remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, elle vos brade nos
    silencios da noite:

    «Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto,
    Barbadão!»

    Se o throno for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de
    Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho
    cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!

    Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do
    brinde que lhe lhe compete.

    * * * * *

    Hoje, 7 de maio, corridas de cavallos no hippodromo de Belem.

    Um premio foi disputado por quatro cavallos, um foi disputado por tres,
    outro por dois, e o ultimo finalmente por um cavallo só. Este cavallo
    partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal
    ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos
    applausos geraes, passando adiante de si proprio!

    Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de
    el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça
    cavallar:--quanto mais premios se distribuem menos cavallos ha.

    Se a instituição se mantem por dois ou tres annos mais, é-nos licito
    acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavallo nenhum,
    e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos _sportmen_ que figuram no
    programma da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por
    percorrer a pista montado no seu telescopio.

    * * * * *

    E no entanto o campo das corridas é o mais bello sitio dos contornos de
    Lisboa, o mais aprazivel ponto de passeio de carruagem, a cavallo ou a
    pé nas tardes de verão, e é susceptivel de ser explorado pelo
    Jockey-Club com sufficiente lucro da associação e com grande vantagem do
    publico. Bastaria para utilisar e aformosear o campo circumdal-o por
    fora da pista com uma rua de arvores intermeadas de bancos de jardim;
    estabelecer no centro do hippodromo um jogo do _Cricket_ para os membros
    de um _Cricket-Club_ addido ao _Jockey-Club_; organisar um tiro ao alvo,
    um _Croquet_ para as senhoras, alguns jogos gymnasticos para o povo e
    para as creanças; promover nos domingos da primavera e de verão no
    recinto do campo pequenos certames agricolas e industriaes, concursos de
    vaccas, de carneiros, de gallinhas, de porcos gordos, exposições de
    flores, de fructas, de legumes, de queijos, de instrumentos de
    agricultura e de jardinagem, etc.

    Lisboa carece vergonhosamente de uma instituição d'este genero que reuna
    com as condições de recreio os desenvolvimentos de actividade e de
    educação. Visto que nem o governo nem a municipalidade se occupam d'essa
    questão, o _Jockey-Club_ prestaria um serviço relevante procurando
    resolvel-a.

    * * * * *

    Mas de modo algum pretendemos forçar o _Jockey-Club_ a acceitar esse
    encargo. O _Jockey-Club_ fará o que entender, e nós acharemos sempre que
    entendeu bem; a unica coisa que lhe rogamos é que reflicta no futuro que
    o espera continuando na senda assustadora em que principia a resvalar. O
    club achou ainda um meio de resolver o problema do concurso diante da
    simples unidade: queremos saber o que fará quando vier a apparecer a
    fracção, e a quem se dará o premio de el-rei, quando para o anno
    concorrer unicamente a disputal-o--um selim!

    * * * * *

    Ao mesmo passo que o _Jockey-Club_, sob a protecção de suas magestades o
    sr. D. Luiz e o sr. D. Fernando confere premios no valor de tres contos
    de réis annuaes ás bestas velozes, a Academia Real das Sciencias, sob a
    presidencia e sob a protecção dos mesmos augustos principes, confere
    apenas 50$000 réis de premio aos sabios extenuados.

    Um cavallo que percorre a galope uma distancia de mil e quinhentos
    metros ganha réis 1:500$000. Os sabios do paiz inteiro ganharão 50$000
    réis satisfazendo entre varios outros os seguintes pontos do programma
    da Academia para o anno de 1877:

    Em mechanica: Apresentar um trabalho sobre o movimento dos fluidos;
    achar o melhor systema de obras a eslabelecer nas margens do Tejo a fim
    de satisfazer simultaneamente as condições de salubridade, irrigação e
    segurança das propriedades adjacentes. Em physica: estudar a capacidade
    calorifica dos atomos nos corpos simples; indicar a construcção da pilha
    de effeito mais constante e mais propria para ser applicada á
    telegraphia; apresentar a synthese dos alcaloides organicos; estudar a
    composição chimica das principaes aguas sulfureas e alcalinas de
    Portugal. Nas sciencias historico-naturaes: Fazer a descripção
    ampelographica das principaes castas de uvas portuguezas e determinar o
    melhor processo para o fabrico dos vinhos genuinos; fazer um ensaio
    monographico da fauna portugueza. Nas sciencias medicas: Determinar as
    alterações da saude e as doenças devidas ás principaes industrias do
    paiz e indicar os meios efficazes de as prevenir; fazer um estudo
    critico do systema de esgoto e saneamento da capital, que satisfaça a
    todas as condições prescriptas pela hygiene, apresentando o modo da sua
    realisação; estudar a mortalidade de Lisboa, suas causas e meios de as
    attenuar. Em litteratura: Fazer um romance historico, fazer um poema,
    fazer um glossario das palavras e locuções hoje obsoletas ou antiquadas
    que se leem nos antigos cancioneiros portuguezes acompanhando esse
    vocabulario de observações linguisticas e philologicas. Nas sciencias
    economicas e administrativas: Memorias ácerca da descentralisação em
    Portugal e do melhor systema de circulação fiduciaria. Em historia e
    archeologia: Estudo ácerca do estado da sociedade portugueza ao tempo da
    morte de D. João V; determinar e caracterisar as relações artisticas de
    Portugal nos seculos XV e XVI no tocante á architectura, esculptura,
    pintura, musica e artes industriaes, indicando os meios officiaes e
    extra-officiaes que facilitaram essas relações pondo os resultados em
    parallelo com a historia da arte em geral, etc., etc., etc.

    * * * * *

    Se nós fossemos sabios preferiamos ao trabalho de responder a qualquer
    dos alludidos quesitos pela somma de 50$000 réis, o trabalho de
    percorrer á desfilada a pista do hipodromo de Belem--de graça.

    * * * * *

    Durante o semestre que finda este mez Lisboa não produziu nem um só
    livro util, nem uma só notavel obra d'arte na pintura, na musica, na
    poesia.

    Não se fez nem uma prelecção nem uma conferencia litteraria ou
    scientifica. A estação toda passou-se como a estação anterior, como as
    estações precedentes, sem que esta sociedade em marasmo désse um unico
    signal de vida intelligente.

    Lisboa é hoje a unica capital da Europa em que isto succede. Não
    queremos dar-lhe em parallelo Paris, Berlim, Bruxellas, Londres, S.
    Petersburgo, qualquer das grandes cidades da Italia ou da Hollanda.
    Apontaremos apenas Madrid, e não citaremos senão um dos seus institutos
    particulares, o _Atheneu_, sociedade da natureza do _Gremio Litterario_
    em Lisboa. No _Atheneu_ os cursos publicos, livres, gratuitos,
    abriram-se no mez de outubro, tendo havido desde o dia da abertura
    prelecções, conferencias ou debates em todas as noites. Teem-se
    ventilado as mais interessantes questões da philosophia e da sciencia
    social no ponto de vista de espiritos altamente cultos.

    Em Lisboa o progresso social, o movimento ascendente da civilisação
    manifestou-se unicamente pela apparição de tres estancos novos no
    Chiado e de uma ourivesaria no largo das Duas Egrejas. Como á falta de
    objecto para outros interesses mais elevados, nós occupavamos os nossos
    ocios encostando-nos ás humbreiras das tabacarias a ver dispersar-se no
    ar o fumo dos nossos charutos, as tabacarias comprehenderam que este
    estado geral dos espiritos deveria começar a fatigar os habitantes de
    Lisboa, e dotaram-os com sofás. Para o anno os estancos requintarão
    ainda as condições de commodidade e havemos de ver os estanqueiros
    sairem ao encontro dos desejos do publico com colchões. Chegaremos á
    Casa Havaneza, despir-nos-hemos, poremos a camisa de dormir e fumaremos
    os nossos _carvajales_ deitados em camas, á porta.

    * * * * *

    A ourivesaria do largo das Duas Egrejas teve o successo de uma
    instituição. Ella é como um templo ao luxo, como um altar ao deus Ouro,
    tal como o conceberiam, erigido com todo o esplendor do culto, os
    Pharaós da Rua dos Capellistas. A armação interior da loja é feita em
    Paris segundo os elegantes modelos das joalherias da rua de la Paix ou
    do Palais Royal. Armarios da mais verosimil imitação de ebano sobre um
    parquet brunido. Tecto de um azul idealisado, representando um trecho de
    ceu coberto de creme.

    Nas vitrines, de um só cristal immaculado, desdobram-se em degraus, como
    n'um throno de lausperenne, as prateleiras de veludo cor de cereja, de
    cuja suavidade macia e ardente destacam em vigoroso relevo as joias em
    exposição. A um lado pendem em meada as correntes de relogio exhibidas
    como o corpo de delicto de uma quadrilha de pick-pocket apanhados com o
    roubo. Suspensos nas extremidades das correntes pousam em baixo os
    breloques, n'um grande molho confuso, como se adornassem um collete
    monstro sobre o estomago collectivo e proeminente do capital.

    Nos logares mais proximos de quem olha estão os miudos objectos
    preciosos, as finas pedras raras, os olhos de gato castanhos e amarellos
    em pequenas elypses cujo grande eixo é indicado por uma linha que separa
    nitidamente as duas côres; as perolas negras de um tom profundo, que não
    é o preto, é o infinitamente escuro, como a noite; as perolas côr de
    rosa sobresaindo em cercaduras de brilhantes como capsulas cabalisticas
    feitas de substancias extraidas de uma cristalisação mimosa de beijos
    ternos e de perfumes castos.

    No segundo plano apparecem os ornamentos de mais vulto: os broches
    tremelusentes e vivos como esparrinhaduras de diamantes e de rubis
    chispando no ar; as flores imaginosas de petalas de aljofar ou de
    saphira, orvalhadas de pulverisações de esmeralda; os medalhões em
    camafeus preciosos sobre pedras de tres côres nos tres planos da
    esculptura; as eflorescencias phantasticas das onix, das granadas, das
    malaquites, das opalas; em raios como estrellas, em sobreposições como
    pinhas, listradas, rajadas, mosquetadas, affestoadas, zebradas com todas
    as scintillações do prisma.

    Mais longe offerecem-se os braceletes nos seus estojos côr de lilaz. Uns
    são fortes e duros como os violentos desejos, outros vaporosos e finos
    como aspirações platonicas. Nas suas variadas formas teem physionomias,
    revelam temperamentos. Ha-os lascivos e ardentes, colleados em quatro
    roscas de um ouro fulvo, terminando n'uma cabeça de cobra esmagada por
    um esbraseamento de rubi. Ha-os contemplativos e ingenuos, de uma côr
    limphatica, salpicados de frias e innocentes turquezas. Tambem os ha
    trasbordantes de uma vida farta e victoriosa, largos, rendilhados,
    superabundantes de cores, expansivos e triumphaes como orchestras,
    soprando hymnos de um enthusiasmo sanguineo, vermelho, despotico.

    Em outra vitrine está a exposição das pratas: os centros de mesa
    representando palmeiras, á sombra das quaes se empinam cavallos em
    pello, que deverão parecer relinchar de amor no meio das sobremesas,
    entre as frutas empilhadas geometricamente em pyramide sobre taças de
    filigrana e os gelados transparentes impregnados de luz, tremulos, côr
    de topasio; as bacias de mãos, de desenhos bysantinos _repoussés_; os
    jarros de forma etrusca; os assucareiros graves e concentrados como
    vasos de particulas sagradas; e os grossos bules barrigudos e polidos,
    nos quaes se espelham os rostos em caricatura monstruosa, com bochechas
    obscenas, narizes que incham como focinhos de vitela e bocas que riem
    até as nucas.

    * * * * *

    Ao accender das luzes, ás oito horas e pouco depois, magotes compactos
    de espectadores estacionam defronte da vitrine das joias. Demoram-se
    mais as mulheres: mulheres de amanuenses e de pequenos empregados,
    costureiras das modistas, que saem a essa hora das officinas quando não
    ha serão.

    Candieiros de gaz com fortes reflectores não só alumiam intensamente os
    objectos expostos nas vitrines, mas alumiam tambem pedaços de
    espectadores, em que se podem fazer exames minuciosos, de microscopio.

    As mulheres magras, pallidas, que olham, teem as faces oleosas da
    transpiração do trabalho de 14 horas em pequenos gabinetes abafados,
    cheios de exhalações mornas de roupa suja. Na mão esquerda o dedo que
    aponta para um colar de mil libras tem uma nodoa escura, esfarpada,
    produzida pelas picaduras da agulha, e o dedo polegar mostra uma unha
    curta atrophiada no habito de esmagar costuras. Os chapeus adornam-se
    com velhas flores em terceira mão, desbotadas e tristes; e das cuias,
    caidas sobre a mancha gordorosa que tem entre as espaduas a alpaca poida
    dos vestidos, sae um cheiro acido de cabellos humidos e embrulhados, em
    fermentação.

    Dentro da loja uma bella mulher risonha que se apeou de um coupé,
    embrulhada em fina renda branca, debruça-se no mostrador e aproxima da
    mão do caixeiro que lhe segura um brinco a polpa aveludada da sua orelha
    carnuda, sensual, de comilona feliz.

    Os espelhos dos angulos da sala e os que forram as vitrines reproduzem
    infinitamente para todas as direcções essa cabeça bonita envolta em
    renda, e mostrada ao mesmo tempo de todos os lados, de frente, de
    perfil, de tres quartos, acompanhada sempre da mão que enfia o brinco.

    As macilentas Margaridas de olhos pisados vão ver em cada noite esse
    espectaculo de tentação, em quanto na esquina fronteira, na Casa
    Havaneza, os Doutores Faustos accendem os seus charutos, e muitos
    diabinhos invisiveis volitam no ar dizendo segredos, deitando de fóra
    impudentemente as linguinhas de chamma e coçando os seus piqueninos
    chavelhos com freneticas contracções aduncas, como quem se sente
    inteiramente cheio de phosphoro e de alacridade.

    * * * * *

    A peregrinação a Roma foi promovida pelos chefes do partido clerical com
    um zelo fervoroso, que acabamos de ver coroado com o mais prospero
    exito.

    Suas excellencias annunciáram com a devida antecedencia a celebração do
    jubileu pontificio; facilitaram a romagem com esclarecimentos que fariam
    a gloria do _Guide Joanne_; conseguiram o estabelecimento de comboyos de
    recreio, ida e volta, preços reduzidos, de Lisboa a Roma, com escala por
    Nossa Senhora de Lourdes; deram os preços dos hoteis e dos restaurantes
    romanos, a regimen de peixe ou de carne, para as grandes bolsas, para as
    bolsas medias e para as pequenas bolsas; fixaram finalmente a
    _toilette_, explicando que as senhoras deveriam apresentar-se com
    vestidos de seda preta e véos de renda, e os homens de uniforme ou de
    casaca preta e gravata branca.

    Porque--suas excellencias o explicáram--o santissimo padre não recebe
    senão senhoras de rendas e homens de casaca. Os peregrinos vestidos de
    sacco e burel, as peregrinas cingidas pela estamenha e pela corda de
    esparto, não sobem a escada do Vaticano. Os pés privilegiados para
    pisarem os tapetes do Vigario de Christo na terra são os pés mimosos e
    aristocraticos, calçados em escarpins de setim ou de polimento. Os
    sapatos ferrados dos caminheiros plebeus, as sandalias espalmadas das
    peccadoras que não vem de passeiar em _victoria_ ou em caleche á
    Daumont, de volta do Corso ou do Pincio, mas que chegam das escabrosas
    veredas da miseria; as alpagartas dos penitentes que vieram trilhando
    abrolhos sangrentos no aclive da via dolorosa, são generos de calçado
    expulsos pelos enxota-cães, e expulsos com os respectivos pés, porque
    tambem se não entra descalço no Vaticano como se entra no templo em
    Jerusalem, ou na mesquita de Santa Sophia em Constantinopla.

    Facultados tão interessantes esclarecimentos muitas pessoas partiram a
    receber as bençãos paternaes offerecidas pelo pontifice ás rendas e ás
    casacas pretas do orbe christão.

    * * * * *

    Alguns episodios d'essa piedosa viagem são já do dominio da imprensa. Da
    estação do caminho de ferro de Braga sairam os romeiros entre
    acclamações sympathicas e vivas enthusiasticos á santa religião e ao
    summo pontifice Pio IX. Em compensação na gare do Porto foram os mesmos
    romeiros acolhidos aos gritos não menos enthusiasticos de «Fóra os
    hypocritas! fóra os patifes!» Por este ultimo successo damos a suas
    excellencias os nossos cordeaes parabens, porque suppomos que elles
    viajam com um fim de humildade e mortificação, e que lhes serão
    agradaveis todas as manifestações publicas tendentes a exacerbar-lhes o
    pungimento expurgante das duras penitencias.

    Em Lourdes, refere o telegramma de um sacerdote ao jornal _A Nação_, que
    á vista da gruta toda a romagem rompera em pranto e se prostrára em
    joelhos. Devemos crêr que esta prostração fosse passageira, não só
    porque um telegramma subsequente nos annuncia a chegada dos peregrinos á
    cidade eterna, mas ainda porque em Lourdes a belleza da paisagem, a
    exuberancia da vegetação, o rumor das aguas, as perspectivas sombrias e
    flexuosas da floresta, a clara alegria do restaurante, de gelosias
    abertas, de _stores_ desdobrados ao sol, com a sua grande taboleta _Á
    Notre Dame de Lourdes_, e os seus subtitulos em caracteres appetitosos
    _Diners à la carte et déjeuners à la fourchette,--gras et maigre_, tudo
    convida os espiritos ascetas a uma conciliação amavel com a carnalidade
    mundana.

    Além do aspecto das coisas, as exterioridades das pessoas contribuem
    tambem poderosamente para arrancar os adventicios ás attitudes
    prostradas e contemplativas.

    Os comboyos de Paris chegam e partem cheios de alegres _touristes_ de um
    e outro sexo.

    São graciosas peccadoras com adoraveis _toilettes_ de viagem; chapeus de
    grossa palha de fôrma aguda e aba estreita derrubada sobre os olhos,
    descobrindo a nuca, em que se enrolam as tranças loiras, e a nascença do
    cabello junto do pescoço, com os seus flocosinhos de pennugem crespa e
    doirada penetrada de luz; os vestidos decotados no collo em linhas
    quadradas como os colletes dos devotos bretões; as saias curtas deixando
    ver as meias de seda listradas de azul, e os sapatos de pelle de gamo
    atacados com correntes de aço, que telintam ao andar. Estas gentis
    romeiras abordoam-se a cajados rusticos comprados no _boulevard_ dos
    Italianos, trazem ao tiracollo os grandes rosarios de contas de madeira,
    grossas como bugalhos, terminando em uma cruz egualmente de madeira que
    chega á barra do vestido,--ornato local de um pittoresco picante.

    São os homens de nickerbockar de flanella alvadia e capacetes de sabugo
    envoltos em véos turcos, com uma flor de madresilva na _boutonière_,
    fazendo gelar o champagne e preparando debaixo das arvores os seus
    jantares em _partie fine_, emquanto padres solicitos vendem a agua
    milagrosa, ou aos copos á bica da gruta, ou em bilhinhas de lata
    devidamente lacradas e selladas authenticamente, facultando na igreja
    recantos reservados e escusos para as applicações em banhos parciaes, ou
    em compressas, a orgãos enfermos que as devotas desejem submeter á cura
    nos proprios logares benzidos e sagrados.

    * * * * *

    Em cem contos é calculada a somma dos donativos em dinheiro levada
    pelos peregrinos portuguezes ao Santo Padre.

    É valiosa na occasião presente essa contribuição, porque a historia do
    dinheiro de S. Pedro teve sob a gerencia do cardeal Antonelli episodios
    devastadores. Procurando ha annos o governo de Victor Manuel realisar
    uma operação bancaria destinada a equilibrar as finanças da Italia, o
    cardeal Antonelli, como fino rabula e zeloso ultramontano, concebeu o
    plano de um _coup de bourse_ destinado a combater as intenções do
    governo italiano provocando uma descida que impossibilitasse a emissão
    de novos fundos. Para este fim o astuto financeiro vendeu em massa, pela
    baixa, os titulos da divida italiana que a Santa Sé possuia e que
    representavam o dinheiro de S. Pedro. É porém perigoso, mesmo para um
    italiano, jogar as peras com outro italiano. Na Italia todo o homem
    habil deve estar preparado para encontrar um mais habil que o logre. Foi
    o que succedeu a Antonelli. O seu plano foi estrategicamente
    contraminado pelo governo de Victor Manuel, organisando-se um syndicado
    de banqueiros que despedaçou a armadilha do illustre cardeal.

    O dinheiro de S. Pedro convertido outra vez em metal pela operação
    malograda nos seus effeitos, foi então convertido em fundos turcos,
    operação arrojada mas tão lucrativa que promettia duplicar, em poucos
    annos, o capital empregado, a não ser que um caso, então imprevisto,
    prejudicasse o exito da transacção fazendo estalar no Oriente uma guerra
    inesperada.

    Foi, como se sabe, o que veiu a succeder desgraçadamente para os bens do
    Papa. De sorte que o dinheiro de S. Pedro, piedosamente accumulado pelos
    catholicos para o esplendor da Igreja, achou-se, pela mais estranha das
    coincidencias, consumido em polvora por uma potencia chamada ao fogo
    como perseguidora dos christãos!

    * * * * *

    Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os
    peregrinos levaram, para offerecer a Sua Santidade, um grande album, em
    que vae inserida uma declaração de principios assignada por todos os
    romeiros. Os jornaes que nos transmittem essa noticia não nos dão o
    texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o
    que suas excellencias dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:

    * * * * *

    Santissimo Padre

    Ha hoje quinhentos e setenta e sete annos que o primeira jubileu da
    Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos
    predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.

    Esta solemnidade não tinha por fim, como o anno jubilario do Mosaismo,
    dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos
    seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em
    cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a
    familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo
    que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_
    chamava simplesmente a--_santificação do quinquagesimo anno_.

    O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_),
    preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a
    remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante
    trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um
    dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma
    solemnidade unica na historia--a reunião em Roma do genero humano
    prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo
    final, no valle de Josaphat.

    N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero
    dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar
    cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente
    como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os
    alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para
    albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as
    igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos
    alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma
    fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam
    mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de
    fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a
    sagrada collina.

    Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que
    até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso,
    Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião
    da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho
    de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha
    brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é
    que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»

    Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas
    palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis
    e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para
    arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em
    seu nome e segundo a sua doutrina_.»

    No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de
    prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das
    portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou
    pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si
    a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia
    universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas.
    Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»

    Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos,
    cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon,
    os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das
    suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados
    para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos
    collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo
    ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade
    imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam
    apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada
    a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta
    campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos
    obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no
    _Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com
    as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento
    collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil
    espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada
    de sangue de um gladiador ou de um martyr.

    Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como
    aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam
    desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na
    esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o
    mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os
    homens eram isto?

    Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama
    endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em
    fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de
    Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e
    outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de
    couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de
    palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome
    augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do
    pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era
    já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e
    comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda,
    desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as
    promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as
    vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas
    sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta
    Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador;
    onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas
    guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas
    de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um
    relicario um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo
    determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam
    os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e
    enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.

    N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço
    enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á
    humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores
    revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu
    Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo
    sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com
    a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_

    Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções
    successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem,
    cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando
    sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de
    puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico
    procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus
    exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha
    o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus
    carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os
    seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o
    borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os
    musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno
    que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso
    espremido.

    E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem
    haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem
    uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se
    aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um
    simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas
    deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.

    Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem
    procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O
    que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o
    movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da
    humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu
    de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma
    unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda
    de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de
    paz, de liberdade e de justiça.

    Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na
    zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E
    cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios
    que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia
    caminha.

    É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos
    offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto
    campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas
    superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão
    ser tragados pela vaga.

    Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido
    Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido
    todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova
    comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem
    se quer tenta lutar!

    O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia
    Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e
    promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e
    do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta
    pela existencia.

    Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se
    modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na
    economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na
    poesia, na arte, na moral e na propria religião.

    Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma
    tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a
    noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores
    ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um
    universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um
    dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma
    esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana,
    experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios
    analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus
    não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como
    fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do
    Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios
    de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.

    As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra
    como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda
    edição.

    Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção,
    deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou
    empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por
    exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de
    milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se
    tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo
    estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um
    descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso
    organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia
    de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin,
    basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da
    creação sem quebra da infalibilidade suprema.

    Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o
    unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino,
    porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas,
    reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a
    vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula
    primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que
    se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não
    descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera,
    porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o
    infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.

    Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder
    temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da
    consciencia na comprehensão da solidariedade humana.

    Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o
    genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos
    logares!

    Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós
    outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de
    emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a
    preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e
    pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto
    pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de
    Bulhões.

    Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o
    menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo
    vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa
    pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim
    não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil
    novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a
    indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas
    eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em
    segunda classe!

    Porque elles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo
    Officio deixou de afervoral-os--que não é facil despir os peccados como
    se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as
    chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se
    pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma
    viagem a Roma.

    Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se
    elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o
    padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe
    ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e
    Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as
    indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe
    sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.

    Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da
    auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de
    franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto--o
    poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens
    divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis
    penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e
    inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.

    Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á
    mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque
    obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda
    fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America,
    que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda
    consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela
    porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da
    historia, mas sem a benção dos papas.

    Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a
    este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,--como
    seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma
    confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas
    convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as
    convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das
    occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região
    do globo.

    E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e
    precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa
    era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de
    justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam
    prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.

    Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado,
    perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que
    seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que
    dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o
    vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança,
    vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver
    desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia
    unificada.

    Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam
    os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se
    não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não
    se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de
    victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella
    se distingue do erro e da mentira.

    Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais
    sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os
    sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros
    tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a
    dieta!

    Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só
    os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por
    uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo
    exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exercitos.

    Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os
    diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.

    Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa
    benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos
    concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é,
    como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que
    trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos
    principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.

    * * * * *

    Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de
    tomar a primeira communhão.

    Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza
    a theoria do resgate da culpa pela penitencia.

    A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem
    ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na
    terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo,
    alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da
    benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo
    nas almas dos principes devidamente desobrigados.

    Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente
    esse augusto espectaculo.

    * * * * *

    Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado
    expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.

    Parece-nos--comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente
    timida--que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez
    mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não
    fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma
    distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como
    os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu
    parocho.

    Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão
    as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_
    applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha
    parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas
    suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram
    penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram
    tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar
    que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o
    principe da pureza mystica do manjar.

    A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais
    efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr.
    D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus
    famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.

    Porque--acreditem-o--não é com a presença do illustre e correcto bispo
    portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos,
    com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet
    de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente
    limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar
    á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por
    emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.

    * * * * *

    Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos
    nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á
    mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do
    serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os
    passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e
    quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do
    commandante!

    * * * * *

    Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido
    no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero.
    Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro
    sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a
    condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!

    * * * * *

    A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente
    africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte
    questão:

    O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o
    dominio das nossas colonias?

    Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é
    crear faculdades dominantes.

    Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.

    A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da
    força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma
    conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o
    argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um
    simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a
    sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle
    parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do
    auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.

    Deante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que
    explica o successo de uma empreza difficil e perigosa pela decisão e
    pela firmeza do que a emprehende. A physionomia um pouco espessa e dura
    de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros
    athleticos são para a consideração de todos os inglezes os mais bellos
    attributos de raça, o mais apreciavel caracteristico de uma distincção
    privilegiada. Porque na educação ingleza a saude, o vigor muscular, a
    força physica são o objecto de um culto.

    Nos collegios Eton, Rugby, Harrow, os jogos athleticos, a pella, o
    exercicio do remo, a carreira, o _foot ball_, o _cricket_ occupam todos
    os dias algumas horas de applicação. Duas vezes por semana, quando
    menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercicios
    physicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, deante
    de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate,
    que amparam o vencido, que lhe refrescam com agua as contusões, porque
    estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores
    ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por
    um dos socos do adversario. Toda a creança que se exhime a liquidar n'um
    combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus
    camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jámais um verdadeiro
    _gentleman_.

    Do collegio passam os alumnos creados n'este regimen durante a
    adolescencia para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um
    regimen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as
    equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os
    estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavallo,
    caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e
    dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta annos,
    outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as
    mais severas prescripções hygienicas, submettem-se a uma alimentação
    especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento
    systematico da musculatura. Os principaes divertimentos nacionaes são os
    exercicios de agilidade e de força. Ha _crickters_ que teem ido jogar
    partidas solemnes de Londres á Australia.

    Em Lisboa vivem dois inglezes que vão frequentemente a Cintra a pé,
    levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e
    regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a
    qual teem batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré.
    Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club
    d'aquella cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia
    uma partida de _cricket_. Um dos inglezes a que nos referimos
    sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo.
    Dois officiaes a bordo de um dos navios da ultima esquadra que esteve no
    Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata,
    percorrem todo o enorme edificio do convento, almoçam um bife e voltam a
    pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora
    fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de _soirée_
    e uma rosa de Mafra na casa da farda.

    D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo
    enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por
    emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da
    civilisação africana, poderia intitular-se: _Da influencia do «sport» no
    caracter dos povos exploradores_.

    * * * * *

    A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais
    superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez
    inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores
    inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha
    duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas
    objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a
    si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao
    passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se
    distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes
    extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto
    de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os
    srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os
    srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um
    poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da
    doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos
    simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de
    pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente
    e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil
    encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios
    abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.

    Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos
    nossos descobrimentes e das nossas conquistas:

    Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos
    desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos
    devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque--diz João de
    Barros--_como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava
    em cama, quando mais não podia_. Albuquerque que em saude reunia á força
    physica a grande força moral da alegria--_era homem de muitas graças e
    motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava
    muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,_--assim tocado de morte
    por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães,
    nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da
    administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de
    hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do
    Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus
    navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias
    com o direito por via da conhecida phrase: _mal com o rei por amor dos
    homens, mal com os homens por amor do rei_.

    O infante D. Henrique--segundo o mesmo João de Barros--_tinha largos e
    fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada,
    em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos
    algum tanto alevantados, e o acatamento_ (_por a gravidade de sua
    pessoa_) _um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento._

    Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de
    Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de
    Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em
    carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na
    falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem
    festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e
    representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça,
    _mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes
    trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver,
    porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os
    buscava_. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em
    outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do
    berço usara o officio das armas.»

    Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a
    photographia moderna de um _sportman_ da Grã-Bretanha.

    Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si
    mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um
    sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia
    tornavam-o _proprio para o commando_.»

    O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, _viajou as sete
    partidas do mundo_, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do
    seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e
    pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que
    infundia terror».

    Os corações eram de uma tempera inquebrantavel, hostil á
    sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer,
    Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu
    fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu
    proprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz
    lhe pergunta como viverão d'ahi em diante, Tavora responde-lhe
    duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalavel.

    Os que eram dados ao galanteio das damas commoviam-as mais pela asperesa
    varonil do aspecto do que pela suavidade effeminada das formas.

    Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do
    Palacio, o Magriço diz á loura _miss_ que depois do combate ia
    deitar-lhe agua ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as
    tenho assim tão grosseiras e cabelludas, poderão ser-vos molestas e temo
    que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa ingleza replica fazendo sentir
    ao calejado e cabelludo cavalleiro que a bella mão de um homem é a que
    denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias molles, mas sim aos
    fortes trabalhos que teem como fim a honra e como premio o amor.

    O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D.
    Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o commando
    da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia
    sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquelle o que vá
    descobrir-lhe a India.

    O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta
    para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os
    homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa
    de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e
    espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se
    regresse á patria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do
    motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe
    entreguem «quantas cousas tinham da arte de navegar» sob pena de os
    enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na
    volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres
    nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos
    encommendae e pedi misericordia, e a mim de hoje ávante ninguem me diga
    que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que
    venho buscar, não voltarei nunca mais.»

    Ao que a guarnição se submetteu com a docilidade de quem não tinha senão
    dois caminhos que escolher n'aquella viagem:--o da India ou o da morte.

    O proprio Camões, o immortalisador das façanhas d'essa velha raça, era
    elle mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus
    costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na
    India conflictos arriscados, de cujas ameaças elle sorria dizendo: que
    só era vulneravel pelas solas dos pés e que estas ninguem lh'as vira nem
    havia de ver.

    Em todas as altas figuras do nosso grande seculo se patenteia o typo
    expressivamente caracteristico de uma forte raça privilegiada, hoje
    extincta.

    A Europa sahia apenas do regimen feudal. Conservavam-se vivas no coração
    de todos os fidalgos as tradições da cavallaria. Os besteiros de conto
    eram apenas uma debil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os
    nossos exercitos permanentes.

    Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos
    prasos em que não serviam o rei e a patria batendo-se com inimigos
    extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas.
    Quando não combatiam monteavam.

    Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das
    duras privações.

    Os divertimentos publicos eram ainda os jogos guerreiros: o _tavlado_,
    um exercicio de força, e as _canas_, um exercicio de destreza.

    * * * * *

    A moderna educação portugueza esterilisou a sociedade para o fim de
    gerar homens proprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes
    em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as
    febres dos rios podres.

    Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito
    sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento physico que não só não
    podem levar a sua influencia e a sua dominação intellectual ao interior
    da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascaes se lhes suprimirem
    as facilidades do rebocador ou do carrão.

    Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de
    poucos individuos, e não uma feição do paiz.

    Na Inglaterra pelo contrario o _sport_ está na mesma alma da nação,
    completa o caracter do paiz.

    O principe de Galles readquiriu depois da sua ultima viagem a
    popularidade que antes d'ella tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter
    penetrado na India e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é
    um dos seus mais poderosos titulos á estima publica. O _sport_ é na
    Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a
    Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a
    gloria incomparavel de o poder referir ás sociedades sabias de
    geographia, de zoologia, de botanica, de meteorologia, de anthropologia,
    aos differentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da
    Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de
    curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os
    Pyreneus.

    Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme ecco na opinião e na
    popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de
    explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insufficientes para
    esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geographicas, das
    academias e de todas as agregações artificiaes de alguns individuos; é
    preciso que o grande impulso parta do genio collectivo do povo.

    * * * * *

    O povo pertuguez não está creado para esses movimentos energicos. Era
    uma raça audaz, enthusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos annos de
    uma educação dogmatica e de uma disciplina fradesca.

    Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pae
    fazia navios e em que elle para sustentar a fabrica tem de brandir um
    machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é
    um anemico, que não pode com a sua _badine_. O que ha de fazer?
    Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o
    Martinho.

    * * * * *

    Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo
    o paiz protestam--o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e
    meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo
    livrarias, enegrecem-se com prosa official resmas de papel da Abelheira,
    abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,--tudo para dar
    a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo
    continua nas condições de abatimento em que estava, as quaes não podem
    tornal-o proprio para o dominio, mas sim para a servidão.

    Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o
    espectaculo correspondente na nossa organisação social.

    Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos collegios de
    educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e
    enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com
    falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que
    differença dos collegiaes inglezes, com os seus chapeus de palha, a
    blusa de flanella, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos
    campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade,
    entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus actos, conscientes do seu
    direito e do seu dever como pequenos republicos!

    Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas,
    sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa;
    um joven racional de dez ou doze annos, dos quaes cinco de escola sob a
    pressão dos compendios do sr. João Felix, não aprendeu nada d'isso, e
    precisa de um padre ou d'um aguadeiro que o leve pela mão para
    atravessar a rua!

    Essa miseravel creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não
    quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça,
    que o não deixa metter-se na agua fria para que não se constipe. Era
    melhor que elle tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado
    a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezeseis, e houvesse
    aprendido assim a ser um principio d'homem, do que não ter passado por
    nenhum d'esses desares e ser unicamente um lamentavel boneco, medroso e
    covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade
    que elle tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e
    estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos
    membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de
    mergulho ao ribeiro, apezar dos perigos previstos pela mãe do molestado.

    O primeiro acto da vida civil d'esse sujeitinho consiste em metter
    empenhos para ser approvado em instrucção primaria.

    A primeira gloria da sua existencia consiste em se considerar tão
    importante personagem que sahiu approvado com dez valores, apezar de ter
    passado a metter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse
    orgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas
    do sr. Felix.

    No anno seguinte começa a estudar as linguas e a fumar cigarros ás
    escondidas.

    Penetra finalmente na rhetorica e na leitura dos romances, em que passam
    visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.

    Chega da côr de uma cidra ao fim do curso dos lyceus, tendo, além de
    todos os preparatorios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha
    torcida, algum tedio da vida e muita caspa.

    Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e
    o primeiro effeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é
    augmentar-lhe a caspa.

    Depois a vida academica absorve-o e elle percorre toda a escala das
    nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piugas,
    toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas
    canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e
    regressa a Lisboa bacharel formado.

    Tem vinte annos e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a
    tres individuos;--pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente,
    inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga
    assustada, sorrindo com um agrado pusilanime:--Sr. doutor, imploro
    submissamente a valiosa protecção de v. ex.ª!... Sr. doutor, criado de
    v. ex.ª!... Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor...

    O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do
    pretendente do Terreiro do Paço.

    O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de
    nome: «--Sr. ministro, imploro submissamente a protecção de v. ex.ª...
    Criado de v. ex.ª, sr. ministro... Ex.mo sr. ministro, humilde servo de
    v. ex.ª...» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos
    gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão pelludo ao
    emergir da agua, com o seu velho sorriso deploravel, anediando a copa do
    chapéo com o canhão da sobrecasaca.

    Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos
    passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que
    deseja. Um ministro despacha-o--para se ver livre d'elle. Consegue ser
    empregado publico ou candidato governamental por um circulo do
    continente ou do ultramar.

    Desde então as engrenagens do machinismo official apoderam-se d'elle
    para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade.
    Pertence á grande legião. Vae para onde ella for, diz o que ella disser,
    pensa o que ella pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia
    prefixa do cepo a que o amarraram.

    É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a
    classe dirigente vivem d'este cuidado unico: O cuidado de se não
    comprometterem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas
    opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta official. Se
    alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dyspepsia moral lhes vem á
    bocca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta
    prohibida.

    Como pelo desdem do trabalho vivem n'uma estreiteza pecuniaria visinha
    da miseria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de
    ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e
    acceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia,
    estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem methodo, sem a dignidade
    do conforto e do aceio domestico,--a viva negação de todas as condições
    que tornam a casa feliz e a familia amavel.

    É d'esses consorcios sem idealidade e sem amor, contraidos fóra da mutua
    dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro
    individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os
    filhos dissolutos, os jovens cynicos, desdenhosos das affeições
    honestas, hostis a todos os sentimentos de familia, cujos nobres
    encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.

    D'esses consorcios procedem tambem as meninas futeis e pretenciosas,
    frageis entes inuteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da
    dignidade da mulher--a comprehensão do _ménage_, o culto do santuario
    domestico. Ellas refugiam-se da convivencia antipathica da sua familia,
    constituida sem bases organicas, na religião, ou, para que o digamos no
    termo mais preciso, na _igrejice_, e na leitura dos romances
    sentimentaes. A _igrejice_ e o romance são os dois pólos da sua vida
    moral.

    Como qualquer d'essas meninas desconhece completamente a arte de
    cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caracter, um
    instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao
    cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimavel
    fetichismo dissipador da moda.

    Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da
    felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa
    tradição se aprendem: a arte de se fazer bella pelo simples modo de atar
    uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de
    se sentar n'um _fauteuil_, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte
    de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua
    chimica a alegria e a saude dos seus commensaes; a arte de arranjar a
    casa, de lhe dar physionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir
    idéas, a ter quasi conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos
    armarios as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da
    casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das
    canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e
    solicitarem-nos a permanecer a côr dos cortinados, o tom dos estofos, o
    assumpto dos quadros, a collocação dos moveis, a graduação da luz, a
    frescura do ar, a nitidez geral do aceio e a sabia disposição dos livros
    e dos jornaes sobre o panno da mesa.

    A menina em similhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou
    se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações
    romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua
    melhor maneira de ter um fim, porque, emquanto a ser mãe, prohibe-lh'o
    physica e moralmente a accumulada estreiteza do coração e dos ossos.

    Taes são, no caracter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da
    educação portugueza na classe mais preponderante da sociedade, aquella
    que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com
    similhante estado é irreconciliavel o genio explorador, a tendencia para
    as viagens entre póvos barbaros e finalmente o poder de dirigir e de
    dominar.

    * * * * *

    Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos
    europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se
    com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto
    d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra
    baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.

    Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica
    principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é
    insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que
    se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de
    altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez
    physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e
    desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas
    e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.

    * * * * *

    Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da
    nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.

    Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em
    que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A
    Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria
    piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções
    mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje
    florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com
    grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da
    baleia ao cabo de Finisterra.

    As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do
    bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas
    com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos
    tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes
    pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.

    O governo francez protege, com grandes subsidios na armação dos navios e
    com avultados premios sobre o pescado importado, as suas pescas do
    bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos
    alimenticios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á somma de 17
    milhões por anno. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12
    mil marinheiros.

    Um facto bem notavel e digno de ser ponderado pelos legisladores
    portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França teem sido
    marcado, como a temperatura em um termometro, pelo desenvolvimento ou
    pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação
    communal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a
    corrupção monarchica do regimen despotico; revive deante das medidas
    legisladas pela Revolução.

    Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal
    que os pescadores francezes nos compram com destino ao seu bacalhau. Os
    navios francezes que veem ao nosso porto fornecer-se d'esse genero fazem
    fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o consul
    francez remette ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em
    Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto
    d'onde o navio partiu pelo proprietario responsavel por este imposto.
    D'este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os
    direitos estão pagos na razão de 50 centimos por cem kilogrammas. Quando
    porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado
    nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos
    anteriormente percebidos, não já na razão de 50 centimos por cada cem
    kilogrammas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de
    bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano
    de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.

    Portugal possue no mar dos Açores, segundo a asseveração de varios
    navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra
    Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E
    deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de
    um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as linguas
    constituem um artigo especial presadissimo dos _gourmets_; dos
    intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o oleo
    importantissimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se
    com grande vantagem na pesca da sardinha.

    Apezar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau,
    pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal
    que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar,
    o nosso governo despresa este importantissimo ramo da actividade
    commercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos
    nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca tambem é para
    nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos
    cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos
    na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser
    prohibidas, despovoando as aguas de pequenos peixes insignificantes, que
    pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo
    alimenticio, se tivessemos estudado os nossos apparelhos de pesca e
    soubessemos legislar sobre a dimensão permittida ás malhas das redes. O
    governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração
    colonial, um só instante de attenção.

    O parlamento nomeia em cada anno uma commissão de pescas, que ainda não
    serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de
    peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura
    não tem sido objecto de maiores disvellos que a ictyologia: nem uma só
    medida tomada pelo Estado para repovoar as aguas das nossas costas e dos
    nossos rios principaes; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os
    apparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que
    elle nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.

    Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto
    de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as
    instancias feitas para este fim teem sido inuteis.

    Ha cerca de seis annos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por
    um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano
    prometteu aos pescadores que ia ser concluido o paredão. Até hoje ainda
    se não accrescentou uma pedra áquelle monumento unico do desleixo
    nacional!

    E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr.
    marquez de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua
    eloquente e erudita conferencia ácerca da escola de Sagres, está ali
    vivo ao pé d'esse paredão em ruinas. Ha ahi tres mil homens que em cada
    dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa
    jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais
    robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemiterio da
    freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela
    inclemencia das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas
    mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o
    quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em
    terra um bairro infecto e miseravel. Os cações escalados, destinados á
    alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas.
    Cheios de _vermine_, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo
    quarto, n'uma promiscuidade horrorosa. A terra da patria dá-lhes apenas
    um farol, que elles illuminam á sua custa, e um barco de salva-vidas,
    que elles mesmos tripulam. E é para isso que elles, desgraçados, quasi
    mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto
    annual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo
    fisco.

    Imagine-se como elles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida
    terra da patria!

    A unica vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que
    tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só
    homem para o recrutamento maritimo. Não ha meio algum de os obrigar a
    fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir taes
    amos.

    E eis ahi está o ultimo capitulo na provincia do Minho da historia,
    feita pelo sr. marquez de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes
    fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!

    Como a administração das nossas colonias depende directamente da
    organisação da nossa marinha, como a importancia da nossa marinha
    depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á
    civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando
    conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil
    vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista
    adjunto do museu zoologico, para ir estudar ao longo do nosso littoral a
    industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.

    Comtudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que
    applaudiu como um notavel beneficio patriotico a iniciativa das
    conferencias--um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de
    applauso para a missão do sr. Capello--o primeiro passo para atacar o
    mal na sua verdadeira origem!

    * * * * *

    Do estado verdadeiramente deploravel em que se acha a nossa força
    maritima póde-se ter uma idéa pela recente medida tomada pelo governo de
    convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na
    folha official todas as praças de infanteria ou de caçadores que para
    esse fim se apresentem! O governo tem de um marinheiro esta
    comprehensão:--que elle se fabrica por meio do abono de quatrocentos
    réis por dia dados a um soldado de caçadores!

    Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma
    escolha baseada na côr dos olhos ou na fórma do nariz, que razões podiam
    ter levado o governo a alistar na arma de caçadores um dos seus
    recrutas? Suppomos que estas razões devem ser tiradas das condições em
    que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as
    montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a
    luta com os terrenos escabrosos nas visinhanças das serras. Ora, sendo
    assim, como querem sujeitar á vida sedentaria do mar e á familiaridade
    das ondas esse montanhez, que nunca pegou n'um remo, que chegou das
    Alturas de Barroso, do Marão ou da Serra da Estrella e que sente as
    pernas enferrujadas e o pulmão opprimido desde que não anda mais de uma
    legua por dia trepando saudosamente ás colinas que cercam o logar do seu
    quartel?

    Outro facto não menos expressivo é o que ha pouco tempo se deu com
    alguns guarda-marinhas do nosso conhecimento em estação em Loanda.

    Sabe-se que não ha plantas dos nossos portos da Africa, cuja navegação
    se faz por meio de cartas inglezas.

    Os jovens marinheiros a que nos referimos, impellidos por esta vergonha
    da nossa marinha, quizeram levantar a planta do porto de Loanda.
    Empregaram todos os esforços para obter os necessarios instrumentos, não
    puderam conseguir senão unicamente a offerta de um bote, unico elemento
    de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr á disposição
    d'esses extravagantes. Elles comprehenderam então que não tinham senão
    uma coisa que consagrar aos destinos da patria; não era o talento, não
    era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saude. E foram
    immolar o figado á administração nacional para bordo do seu navio, como
    patos de engorda pregados pelos pés á respectiva capoeira.

    Quando os nossos officiaes teem conseguido arruinar completamente as
    suas visceras na inanição official das nossas estações de Africa, voltam
    doentes á metropole e concluem a missão civilisadora que o paiz lhes
    incumbiu tomando as aguas alcalinas de Vidago.

    As aguas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar.

    * * * * *

    Emquanto estas coisas se passam os inglezes, com um poder creador que
    faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada
    dia pretextos novos para intervirem com o _seu protectorado
    humanitario_ nos negocios do interior africano, e dilatam a pouco e
    pouco a sua occupação e o seu dominio manso sobre o nosso territorio.

    * * * * *

    Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do
    capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as
    auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos
    escravos, que ainda ali vigora.

    Como é que nós respondemos á denuncia d'este facto? Respondemos negando
    a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.

    Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não
    permittido, vejamos quem é o homem que nos acusa.

    Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente
    atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa occidental,
    levado por um intuito exclusivamente scientifico. D'esta viagem, que
    durou quatro annos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do
    oriente com a do occidente por meio da navegação fluvial, aproveitando
    as relações hydrographicas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos
    quaes desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado opposto, ao sul de
    Moçambique.

    Durante esses quatro annos passados entre selvagens, o capitão Cameron
    parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o
    paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o
    mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens
    do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros
    de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem--o doutor
    Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem
    seguil-o a mais do começo d'essa longa e perigosa expedição. Adoecem
    successivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe
    apparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadaver do explorador
    que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos,
    desistem de continuar essa immensa viagem e regressam com o corpo de
    Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.

    Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma
    clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando
    atravez de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortifero,
    deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um
    dos primeiros estadios da sua portentosa peregrinação.

    Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admittimos que saisse da
    Inglaterra com a educação commum de um simples tenente da armada
    britanica. Mas dizemos que uma viagem como a que elle fez, e nas
    condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um
    caracter. Um tal homem não mente. N'elle a mentira seria a refutação de
    todos os principios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas
    as leis da natureza humana.

    Nada mais lastimosamente ridiculo do que a indignação patriotica de
    qualquer dos nossos politicos, chupando auctoritariamente um cigarro no
    Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosphera com balas
    de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo
    para nos informar do que se passa em Africa!

    O que Cameron disse ácerca da escravatura africana na conferencia feita
    em Londres foi o seguinte:

    «Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos
    retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos
    fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro
    dizendo-nos: _Não partaes; Kouaroumba vae chegar com os seus escravos_.
    Depois do meio dia chegou effectivamente Kouaroumba com uma fila de
    cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa,
    trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam
    pelo menos a ruina e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a
    matança d'aquelles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram
    refugiar-se nos juncaes para ali viverem como podessem ou morrerem de
    fome. É para mim fóra de duvida que estas cincoenta ou sessenta escravas
    representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou
    acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham
    presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente
    atadas. Quando ellas affrouxavam na marcha, batiam-lhes
    desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são
    muito brutaes; os arabes pelo contrario tratam geralmente bem os
    escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa
    não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por
    varios motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São
    vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»

    Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.

    Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da
    Africa o trafico dos escravos. Emquanto se não provar manifestamente o
    contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já
    anteriormente ennunciada pelo viajante francez o sr. Jocolliot,
    confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em
    Lisboa em uma carta publicada no _Progresso_ pelo sr. Pinheiro Bayão,
    que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.

    Para factos d'esta ordem os protestos de toda a imprensa[1] e de todo o
    parlamento, por mais unanimes que elles sejam, não teem a natureza de
    uma refutação nem o caracter de uma resposta, são uma pura evasiva
    compacta.

    [Nota 1: Um unico periodico, de que tenhamos noticia, o _Seculo_, de
    Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente
    escripto pelo sr. Correia Barata.]

    A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de
    uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Sciencias
    pelo fallecido naturalista o dr. Bernardino Antonio Gomes. O resultado
    d'essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á
    civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente
    Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a
    contribuição valiosissima com que elle tinha cooperado para o progresso
    da sociedade humana.

    O governo, deliberando tomar officialmente conhecimento dos factos
    referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que
    dar-lhe:--nomear uma commissão de inquerito que syndicasse
    rigorosamente da cumplicidade dos funccionarios portuguezes no
    menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.

    Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ella teria
    procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriotico
    com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido
    o exemplo que lhe fôra dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao
    sr. Cameron as informações que este lhe prestára.

    D'esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do _Times_
    a mais dura e humilhante lição que por via da penna de um jornalista se
    pode inflingir a uma sociedade.

    O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos
    sociaes sempre que elle nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião
    publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais
    sacrilego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a
    politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos
    caracteres publicos em testemunhar a verdade. Todo aquelle que por meio
    da sua palavra ou por meio da sua penna não tem o preciso valor para
    ennunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um
    perigoso inimigo do genero humano. Não queremos para a nossa
    consciencia de escriptor o remorso d'essa voluntaria culpa, e é por isso
    que dizemos aos srs. deputados:

    A verdade, meus senhores, é o que vos disse o _Times_. «A questão, como
    diz o referido periodico, não é se Portugal prestou serviços á causa do
    progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na
    sua linguagem tratando com uma nação alliada e amiga; a questão é se os
    factos são ou não são como recentes viajantes affirmaram que eram. Que o
    commercio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por
    negociantes portuguezes e sob a protecção da bandeira portugueza é
    accusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação
    ficticia ou real, não por patrioticas reminiscencias, nem por uma
    referencia a cumprimentos diplomaticos, mas sim deixando-se de permittir
    que haja materia para que a accusação continue. Sabemos quanto Portugal
    tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos tambem o
    pouco effeito que as suas energicas declarações produziram.»

    Os quatro milhões de vozes de que o paiz inteiro pode dispor, a
    protestarem todas perante o universo, não poderão convencer um só homem
    de que a verdade seja differente do que é. A declamação n'este ponto é
    completamente inutil com outro qualquer fim que não seja um puro
    exercicio de eloquencia nacional.

    Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilisação.
    Vós contribuis apenas para o _Peculio de Oradores_, do sr. João Felix.

    ]]>
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  • As Farpas,1882-11_12

    As Farpas,1882-11_12

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes–Anjos e reprobos–As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza–A egreja e as
    mulheres–Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala–Os clubs e as sacristias–O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_–Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre–Novas applicações da mobilia á critica litteraria–A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina–O jornalismo em Braga–O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas–Sampaio o
    Saraiva de Carvalho–A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac–Tragico fim de um gato d'esse anjo–Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade–A urna e a corveta Stephania–Os commendadores e os cães de
    faiança—Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado….
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,–papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães–Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,–se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,–um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,–o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos–e mui judiciosamente segundo se nos affigura–que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.—Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é–em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,–com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica–disse elle–os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos–disse Montalembert–se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:–o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,–cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    –Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    –Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    –Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,–uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal–, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    –Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    –Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    –Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca–a não ser no sigillo do sanctuario–o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo–pedimos licença para
    lh'o dizer–está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,–convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,–uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,–julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:–é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama–_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,–a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que–tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,–sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas–como muito bem acrescenta a portaria–apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    –Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    –Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte–eu o confesso–não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,–somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico … não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    –Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!–explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    –Como assim!–lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?… Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    –Cão!–disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    –Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei…..Não sei se o snr m'o viu matar?… Matei-o como quem
    mata um pôrco…..Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    –Pois olhe–exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo–dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia….

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo…..

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?…

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar….

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam–mais
    propriamente–uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;–coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:–aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,–digo–o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    –Ora, para que queres tu o ôlho?… Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas….

    –Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!… Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!… amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna–como consta por pessoas
    fidedignas–se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo–dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque–comprehendem bem esta
    _nuance_–agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!… Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro–dizemos–acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!–dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!–a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos–especialidade em que somos completamente leigos–desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo–abria o meu seio incauto aos persevejos … quero
    dizer, aos bispos … da, _Nação_!… Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar…. Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_….–Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus…. Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_…–

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?…_

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    –Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão–operação a que
    se procede cosendo-o–o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?…

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto–com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum–não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim … de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    –Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos–por um acaso–descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    –Como assim!?–volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.–Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?…

    –Perdão…—interrompe o ecclesiastico–eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava….

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!… Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar–e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia–que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_–repito-o–é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    –Mas então,–obtemperou o sacerdote romano–o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _–Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _–Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!… Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!…
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:–Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?… Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?…
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!… E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_–segredam as vozes familiares da burocracia–_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos–dizem-o todos os textos canonicos–são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?…

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?…

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    –Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:–para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão–por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    –Guarde-vos Deus, bons rusticos!–disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio–E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    –Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?–Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?–Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    –Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    –Corramos prestes ao templo!–bradou s.ex.ª–Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!… Ao templo! ao
    templo!…

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou–por
    outra–que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,–vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar–para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

  • As Farpas, 1873-01_02

    As Farpas, 1873-01_02

    Aproximadamente 16.329 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS–R. ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Janeiro a Fevereiro de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
    partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
    Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
    governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
    portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
    virtude, o nosso direito á liberdade–Reforma do exercito e dos
    estribos–As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento–O
    enterro da senhora duqueza de Bragança.–Um conselho á força
    armada.–Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
    cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
    personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
    sobre as botas de s.ex.ª–Resposta áquelle que jurou assassinar-me.–Os
    srs bispos do ultramar–O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
    A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade–Joseph Prudhome
    e Pickuick.

    Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
    se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
    Esta discussão partindo de um ponto–a approvação do projecto–, para
    findar exactamente no mesmo ponto de que partiu–a approvação do dito
    projecto–, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
    egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
    immobilidade oriental.

    Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
    tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
    assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
    paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

    Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
    affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
    que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
    podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
    alargar-se d'estes termos.

    _Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»

    _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»

    Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo–e é immoral.

    * * * * *

    Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
    collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
    confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
    reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
    provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
    effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

    As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
    que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
    interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
    d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e–o que é peior que
    tudo–preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
    maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
    dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
    decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
    luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

    Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
    segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
    desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
    seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
    operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
    pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
    onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
    precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
    assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
    sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
    estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
    sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
    lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
    distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
    suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
    surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
    riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
    rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
    descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

    E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
    tem de aprender a ser digno e honrado!

    * * * * *

    Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
    negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
    administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
    correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
    todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

    Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
    cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
    nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
    para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
    constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
    quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
    da Companhia.

    Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
    erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
    definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:

    «Os partidos são cinco–regeneradores, historicos, reformistas,
    avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
    revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
    senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
    que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
    se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»

    Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
    srs. deputados votariam calados.

    Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
    que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
    Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
    sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
    propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

    Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
    discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
    republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
    todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
    é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
    bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

    Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
    constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
    interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
    tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
    povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
    distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
    parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
    fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
    symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
    trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
    problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
    parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
    em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
    defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
    tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
    especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
    em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
    constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
    é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
    ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
    pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
    declararem que lhes appetece roer:–«Meus senhores, o leão pede
    viveres.»

    Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
    obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
    fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
    governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
    aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
    catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
    absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
    o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
    e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
    esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
    por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
    quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
    tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
    depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
    fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
    Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
    socego e da ordem.

    Hoje porém:

    Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
    vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

    Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
    mesmas;

    Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
    transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
    a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

    Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
    impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
    via da eleição representem a vontade popular:

    Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
    póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
    considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
    de poder que ellas asseguram ao povo.

    Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
    uma monarchia parlamentar.

    A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
    por chefe do poder executivo–um presidente eleito.

    A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
    povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
    executivo–um rei hereditario.

    O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
    republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
    monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
    responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
    dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
    liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
    para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
    tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
    tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
    suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
    N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
    grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
    monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
    de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
    reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
    de juizo para governar.

    Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
    das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
    nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
    Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
    monarchia representativa.

    A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
    de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
    politica. A fórma do governo na egreja–o mais despotico governo de
    quantos se possam imaginar–é a fórma republicana. O papa é um
    presidente eleito.

    O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
    funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
    affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
    soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
    Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
    ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
    d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
    que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
    expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
    para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
    França poderia introduzir na organisação do trabalho.

    A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
    vantagem–a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
    defeito:–a republica suscita as grandes ambições, que o
    constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
    nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

    Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
    que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
    escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
    relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
    distincção: um e outro affirmam um governo livre.

    A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
    é:

    Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
    verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

    Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

    Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
    a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
    pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
    dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
    guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
    Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
    a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
    reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
    physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
    pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
    Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
    manifeste o intuito partidario–de lançar-se nos braços de um valido. Os
    unicos convivas extra-officiaes do principe–os tenores e os baritonos
    de _primo-cartello_–estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
    não seja–a de desafinarem.

    Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
    de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
    livre sob a monarchia portugueza.

    Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
    correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
    dizem que a republica–com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
    ou ser um imperfeito governo segundo outros–não póde por emquanto
    existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
    para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
    deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
    elle encerra….

    E que digamos a suas excellencias:

    Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
    egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
    verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
    governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
    eleitos.

    Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
    o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
    governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
    mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
    constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
    mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
    eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
    monarchia parlamentar.

    Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
    republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
    regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
    monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
    exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
    exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
    portuguez?

    Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
    republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
    por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
    Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
    moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
    tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
    representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
    da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
    independente e pensante–emquanto houver um rei. No momento em que o
    monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
    srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
    sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
    voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
    pedirá–herva.

    * * * * *

    Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
    deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
    camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
    suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
    as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
    á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
    onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
    onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
    fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
    que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
    effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
    capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
    republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
    complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
    excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
    representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
    não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
    representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
    dois governos livres–republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
    os legitimos representantes do povo não prestam, teremos–a anarchia na
    republica, e teremos–a escravidão na monarchia.

    * * * * *

    Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
    uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
    patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
    e não se esclarece nem se desaffronta,–o que prova que não tem sciencia
    e que parece não ter caracter.

    Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
    parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
    arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
    elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
    cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
    sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
    tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
    na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
    quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
    _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
    essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

    Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
    D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
    corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
    o machinismo constitucional.

    Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
    liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
    todo ha um surdo descontentamento geral.

    Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
    prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
    como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
    grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
    que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
    differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
    a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

    Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
    divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
    paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
    entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
    convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
    elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
    seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
    que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
    seccas.

    Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
    perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
    na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
    maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
    governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
    promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
    de fadiga, apupado e corrido.

    Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
    constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
    poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
    alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
    burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
    amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
    crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
    satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

    O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
    altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
    estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
    militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
    da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
    que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
    paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

    A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
    direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
    sentimental,–o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
    direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
    obreiros–jornalistas e oradores–a pedirem mais descanços para
    discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

    O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
    hypothecada.

    Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
    instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

    Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
    ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
    riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
    dando dinheiro e recebendo papeis.

    A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
    seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
    agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
    bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
    qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
    muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
    laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
    dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
    elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
    suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
    o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
    finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
    dignidade verdadeira e segura–o trabalho pessoal e livre. A mocidade
    tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
    justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
    sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
    ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
    necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
    simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
    nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
    sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
    tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
    typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
    e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

    * * * * *

    A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
    despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
    pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
    ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
    religião–mais clerical que divina–penetrando-nos completamente,
    dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
    assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
    lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
    lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
    mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
    e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
    similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
    consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
    religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
    se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
    delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
    eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
    que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
    responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
    o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
    sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
    liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

    Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
    interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
    noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
    elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
    conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
    rebaixa.

    * * * * *

    Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
    bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
    tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
    servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos–sermos victimas;
    faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
    e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
    proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
    passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
    então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
    interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

    Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
    apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
    mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
    baixeza. Temos do constitucionalismo–esgotado–tudo o que elle tinha da
    mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
    grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
    a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
    sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
    a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
    para o reles, para o chinfrim … Vêde a camara dos deputados: não é só a
    precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
    a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
    maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
    discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
    _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

    Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
    regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
    Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
    na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
    sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
    novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
    se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
    a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
    saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
    perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

    * * * * *

    O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
    republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
    nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
    norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
    necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
    que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
    não seja para nós um irremediavel perigo.

    Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
    immediatamente de manter os abusos.

    Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
    melhor politica.

    Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
    longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
    é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
    reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

    Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
    politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
    inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
    como se é homem de bem.

    Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
    e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
    d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
    partido,–isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
    governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
    possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
    opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
    oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
    falta da virtude.

    Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

    Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
    probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
    publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
    que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
    homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
    poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
    corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
    que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram–Cesar e Bonaparte
    pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

    Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
    desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
    gangrena e a dissolução latente do estado.

    Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
    virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
    popular, e que consiste resumidamente em preferir–o dever á
    conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

    De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
    de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
    comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
    liberdade.

    Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
    nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
    acreditava em Deus e acreditava na justiça–a imagem immortal da
    perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
    entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
    actos que a homem algum foi ainda permittido commetter–dar a liberdade
    aos negros e dar a paz á America.

    * * * * *

    Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
    fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
    influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
    mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
    se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
    prudente e justo.

    No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
    conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
    livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
    despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
    nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
    geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
    sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
    mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
    condição essencial–intrinseca–da vida, a garantia do trabalho e a
    segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
    sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
    facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
    jantar?… É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
    social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
    demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
    Theagenes em Megara.

    O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
    ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
    Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
    que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

    Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
    constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
    desfallecimento e a morte.

    Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
    forma politica–no governo–, a primeira obrigação do povo é manter esse
    principio sob a sua forma philosophica–na razão.

    * * * * *

    O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
    colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
    intelligentemente armadas e equipadas da Europa….

    A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
    ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
    gabinetes de repouso suspensos de uns loros–coisa tão confortavel que
    as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
    depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
    o jornal e tomar o café–para os estribos.

    O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
    acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
    desde hoje e para todo sempre invenciveis.

    Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
    dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
    soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
    artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
    com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
    freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
    scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
    nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa–molhavam os
    pés!

    De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
    branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
    abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
    saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
    pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria–mudasse
    de piugas.

    * * * * *

    Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
    que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
    do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
    infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida–ter os
    pés quentes!

    Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
    sola, a infanteria seja egualmente dotada–com galochas de borracha.

    Depois do que,–adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
    estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
    sapato de ourello e do cobertor de papa–tendo o exercito os seus pés
    quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições–elle será feroz!

    * * * * *

    Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
    de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
    qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
    Tavira_.

    Que nos perdôe s.ex.ª–e Tavira!

    Eis a moção:

    «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
    dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
    manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
    ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

    Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
    os srs. deputados.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

    «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
    noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
    independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
    está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
    constitucional.»

    Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
    juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
    qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
    garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
    ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
    Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
    apparecer.

    E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
    illibados.

    * * * * *

    Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
    referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
    desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
    destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
    ha dois annos.»

    Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
    tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
    queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
    da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
    illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
    collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

    «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
    criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
    espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
    independencia, e passa á ordem do dia.»

    Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

    Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
    Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

    * * * * *

    Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
    Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
    Palhés e a villa de Mangualde.»

    Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

    «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
    desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
    passa á ordem do dia–e a abotoar-se.»

    * * * * *

    Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
    ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
    ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
    crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
    tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
    crimes, cujos cumplices estão processados–d'aqui, inutil–e affirma o
    que não é–pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

    * * * * *

    Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
    Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

    No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
    que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado–não
    certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

    O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
    moção:

    «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
    tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
    instituições e contra a dynastia … Esses perigos não posso occultar á
    camara que existem … Extranho que o poder moderador não convocasse a
    camara … pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
    as instituições.»

    Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
    correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
    independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
    camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
    instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

    O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
    conspirações continuadas.

    O partido historico caiu victima de uma conspiração.

    O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
    Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
    ao mais a que se podia chegar_.»

    Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
    partidos se reunirem e votarem unanimemente–que ninguem conspira!

    * * * * *

    Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
    luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
    espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
    Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
    artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
    Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
    pombinha branca, de assucar–tão casta!–das lampreias d'ovos.

    * * * * *

    Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
    funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
    Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
    faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
    conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
    senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
    povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
    trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
    estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
    funeral.

    Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
    longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
    imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
    entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
    multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

    Dizia-se fallando-se d'ella:

    «Deixou pouco.»

    «Que fez ella ao que tinha?»

    «Que miseravel! que mesquinha!»

    E um jornal catholico escreveu:

    «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
    cautellas de vinte e cinco.»

    Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
    homens deseguaes.

    Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
    acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
    pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
    deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

    Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
    levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
    silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
    flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
    passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
    suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
    o descanço eterno.

    E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
    que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
    nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
    encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

    As imperatrizes–coitadas!–teem de resignar-se á sua triste condição de
    imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
    interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
    ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
    de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
    escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
    ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
    soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
    lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
    ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
    triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
    similhantes condições e com eguaes amarguras!

    Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
    suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
    descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
    gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
    devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
    considerar-se menos que quaesquer outros.

    * * * * *

    É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
    mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
    sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
    circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
    alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
    proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
    Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
    illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
    pela mulher digna e virtuosa que morreu.

    * * * * *

    Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
    perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
    reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
    insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
    feridos e dois mortos.

    Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
    programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
    ninguem era ferido.

    Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
    levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
    algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
    de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
    illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
    acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
    satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
    recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
    sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
    jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
    preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
    multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
    a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
    para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição–ao piano.

    Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
    usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
    perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
    desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
    delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
    delicto? _«Por abuso de defesa»_.

    Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
    caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
    atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico–por _abuso de
    defeza_.

    * * * * *

    Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
    clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
    armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
    Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
    desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
    pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
    contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
    Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
    por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
    espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
    Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
    rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
    barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
    momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
    musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
    diga assim:–«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
    uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
    d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

    E se o povo ainda assim resistir–diacho … então, que o exercito fuja!

    Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o …

    Mas se não foge, o ministerio publico querela-o …

    Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
    energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
    nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
    Melicio vela!

    * * * * *

    A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
    politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
    gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
    vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
    para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
    de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
    meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo–uma figura de
    rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
    de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara–uma funda.

    * * * * *

    Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
    patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
    governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
    entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
    provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
    phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
    alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
    verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
    ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
    Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
    Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
    rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

    O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
    encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
    sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
    barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
    deputado, com voz pausada e firme disse:

    «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
    espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
    a quem verdadeiramente podemos chamar …»

    Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
    bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
    bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
    momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
    multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
    tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
    um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

    O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo–«Aquelle a quem
    verdadeiramente podemos chamar»–_O sol no occaso!_ (Prolongados
    apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
    Vozes: Muito bem! muito bem!)

    * * * * *

    Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
    presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
    quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
    das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
    eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

    Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
    provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
    arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
    commum…. O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
    vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
    espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro … O senso commum com
    que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
    vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
    á beira dos golphos innundados de azul …

    Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
    a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
    monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
    Escuta-o, ó principe! Tu és–_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
    tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
    occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
    _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
    deuses immortaes, os deuses–guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
    prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
    ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
    por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
    com brisa fresca!_

    * * * * *

    Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
    vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
    camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
    evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
    que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
    phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
    proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
    nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
    modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
    seguintes:

    Sol no occaso … como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
    inspirada voz!

    Sol no occaso … qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
    assembléa, labio tão selecto como attico!

    Sol no occaso … só me é licito empregar a phrase penetrante que não
    ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
    amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

    Sol no occaso … segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
    por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
    immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

    (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
    estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
    monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

    Sol no occaso … direi pela segunda vez, se a camara permitte que
    comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já …

    (Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
    Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
    outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
    d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
    são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
    porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
    interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
    malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
    emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
    badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
    luminosamente–uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
    mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
    commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
    amigo fiel, Melicio–o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
    desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
    um desconhecido).

    * * * * *

    _Áquelle que jurou assassinar-me_

    Meu senhor–Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
    obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
    a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
    prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
    posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
    consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
    regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

    «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
    sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
    Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia…… de
    …… d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
    manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
    fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
    cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

    Omitto n'este extracto o dia e o mez–os quaes o meu amigo fixa com a
    mais amavel pontualidade–porque, sendo um negocio inteiramente
    particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
    indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
    desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
    de occupar-se do caso.

    Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
    que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas …
    Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
    de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
    pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
    o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
    momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
    atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

    Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
    poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
    assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
    viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

    Meu amigo–Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
    sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
    opinião:

    Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
    obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
    uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
    concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
    convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
    me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
    empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
    o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
    momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
    conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
    Brazil–onde custa tudo tão caro!–o barato que ha de sair ao meu amigo
    o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
    barateza que nem costumo levar nada–por me achar em casa!

    Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
    apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
    vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
    ordinariamente comsigo.

    Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
    da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
    fecha o discurso.

    Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
    assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
    que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
    que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
    violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
    e o jornalista Courrier.

    Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
    dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
    de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
    obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
    trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

    Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
    coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
    mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
    pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,–tão
    correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
    felizes,–irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
    implacaveis da desgraça!

    No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
    inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
    o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
    uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

    Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
    completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
    affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
    sentia a displicencia, a melancholia.

    Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?…

    Vermes!

    O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
    existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
    começava a nutrir–de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
    com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
    aziaticos, que o que eu tenho é–o meu amigo. Considero-o já como uma
    parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
    como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
    a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
    mezes, e todavia–como é commodo isto!–o meu amigo não me obriga a
    tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
    golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
    é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
    vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

    Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
    allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

    E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
    o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
    de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
    ventura me amam … vou descansar para debaixo dos cyprestes–bastante
    para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
    que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
    terra, que me não expulsarão nunca–elles!–da sua convivencia gulosa,
    mas discreta.

    A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será–que
    elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
    mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
    um scirrho no estomago; eu terei apenas tido–o meu amigo! o meu amigo
    que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
    caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:–ausente!

    Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
    zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

    –Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

    –Sabem … era aquelle com quem nós embirravamos …

    –O que trazia o bigode assim?…

    –Esse mesmo!

    –Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume …

    E algumas outras coisas doces e impereciveis.

    E do meu amigo dirão apenas:

    «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

    Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
    agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
    tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
    isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
    Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
    consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
    designadamente a minha … Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
    directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
    os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete–com feijão
    branco.

    * * * * *

    Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
    encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
    promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
    soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
    civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

    Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
    de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
    perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
    sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
    os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
    nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
    redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
    emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
    mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
    na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
    figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
    selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
    encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
    instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
    ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
    de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos–com
    o vate:

    _Aos infieis, senhores, aos infieis!_

    * * * * *

    D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
    resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
    individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
    ministro do reino.

    O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
    ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
    ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
    camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
    pasta para ir adoptar o seu livro.»

    O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
    aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
    pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
    de membro do actual gabinete.

    É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
    elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
    represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
    para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
    poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
    colloca-se assim na logica que leva a consideral-a–pelos effeitos
    passivos da sua inanidade–como uma especie de virtude.

    O processo d'aquelle que por uma causa qualquer–boa ou má, justa ou
    iniqua–arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
    ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
    fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
    o chão.

    Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
    ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
    guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
    papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
    que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
    era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

    Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão … Quantas
    mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
    amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
    sorrisos, com a malevolencia das allusões?

    Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
    de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
    amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
    desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

    Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
    que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
    covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
    respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
    salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
    de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
    contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
    bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
    que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
    domestica.

    A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
    fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
    _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
    publica da sua virtude.

    Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
    reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
    a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
    As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
    ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

    Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
    paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
    ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
    Porque em verdade ser apenas um ministro–unico estado social que nos
    dispensa de sermos alguma outra coisa–não é propriamente um destino.
    Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
    marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
    eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte–pela coragem,
    pelo sacrificio ou pelo talento–que são as tres maximas constellações
    do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

    Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
    interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
    inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
    viveu.

    Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
    passado no mundo.

    O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
    venturosas–com um ganso,–o sr. Jayme Moniz.

    * * * * *

    Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
    luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
    _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
    periodicos portuguezes são–anonymos.

    * * * * *

    Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
    que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:–que possa
    alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
    escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
    que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
    este:–não assignar.

    Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
    assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
    Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
    declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
    responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
    effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
    as antipathias que tenha podido suscitar.

    Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
    portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
    mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
    tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

    * * * * *

    A primeira razão por que se não assigna é esta:

    A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
    convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
    de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
    machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
    lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
    eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
    muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
    N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
    dignidade e da razão.

    Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
    perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
    firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
    transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
    necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
    _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
    resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
    imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
    opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
    catastrophe para a justiça.

    Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
    apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
    sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
    entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
    naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
    dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
    que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
    quanto mais se lê peor se escreve.

    Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
    assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
    immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

    Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
    publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
    Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
    durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
    que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
    dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
    jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

    Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
    que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
    apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
    quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
    que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
    me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
    _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
    foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
    salchicheiro.

    Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
    respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
    socialistas ou muito auctoritarios–tudo isto com a expressa condição de
    que nunca hei de saber quem elles são–dão-me exactamente aquelle
    receio:–medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
    magnezia.

    * * * * *

    Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
    Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
    representativo nacional.

    Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
    abalisam uma época, enquadram um seculo.

    Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

    «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
    sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
    determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
    respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
    para o seculo attonito uma torcida,–e a luz foi feita. Os homens, os
    principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
    geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
    frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
    isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes–ai de
    nós!–o empanaram e entenebreceram, é porque elles–o discreto Pickuick
    e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
    mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
    detinham,–geniaes, assombrosos e tremendos–para se espevitarem.»

    * * * * *

    O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
    teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
    historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
    posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
    fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
    Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
    contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
    guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
    historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
    actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
    varões extraordinarios!

    No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
    vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
    pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
    scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:–Barros
    ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
    estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
    barrete de algodão branco–casto symbolo dos sonhos immaculados–e a
    nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
    publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

    Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
    espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
    as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos–outrora tão puros!–quando
    se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
    destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
    esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
    correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
    suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
    ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
    nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
    solo e dizia-se em um documento hispanhol–a _Peninsula Iberica_, ao que
    Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
    nunca!»

    Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
    geographia–e á canalha!

    Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
    cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
    unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
    Peninsula Iberica?… Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
    isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
    pecego. Mas peninsula!… Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
    tola?… Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
    perra vil!

    E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
    os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
    devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

    Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
    benevolencia do imperador Guilherme … Pudera! aquelle que acabou com as
    peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
    congressos … Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
    a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
    cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
    tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

    Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?… Que venham! Cada fita
    de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
    botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte–de
    ôlho de perdiz!

    Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio–o
    extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria–e das
    peninsulas!

    * * * * *

    Agora–Barros.

    Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
    Brazil–grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
    consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
    o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
    phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

    Como o explica, como o justifica elle?

    Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
    occorrido a ninguem …–Pelo precedente das andorinhas!

    * * * * *

    Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
    attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
    sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
    magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia–por
    dentro,–nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

    «Elle tem alguma coisa na cabeça!»

    Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
    excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
    celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
    parisiense de Champfleury!

    Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
    um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
    é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
    trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
    intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

    Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
    simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
    o povo–e o passarinho!

    Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
    conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
    civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
    arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
    pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
    Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
    que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

    Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
    como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
    sacrosanto em que a idéa lhe veiu!…

    Estamos em que não poderia deixar de ter sido–no campo! O sabio no
    bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
    lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
    toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
    portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
    laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
    suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
    tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
    corucheu da velha ermida em ruinas— ellas, as duas, as mysticas
    amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar–a andorinha e a
    questão social–batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
    amplidões do azul em phantasticos arabescos….

    E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
    magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
    que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
    andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
    evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
    carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
    que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
    paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

    Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
    Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
    Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

    * * * * *

    Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
    homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

    Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
    profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
    e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
    manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
    comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

    O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
    recebia successivamente em tres botes tres visitas–a do porto, a da
    saude e da alfandega–cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

    Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
    visitas n'um só bote!

    E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
    discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

    * * * * *

    Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
    menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
    homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
    portentoso que pretendeu economisar á patria–dois botes!

    Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
    Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
    simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
    extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
    elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
    pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
    para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
    elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
    maiores!

    O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
    heroe–sr. Barros e Cunha–com este outro–sr. Barros e Sá. Porque–ó
    ilusão!–elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
    parecem–dois coelhos,–dois porta-machados–ou dois pretos.

    * * * * *

    No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto–um
    caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

    Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
    fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
    um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
    charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
    algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
    extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
    novos ceus, novas floras e novas faunas.

    Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

    Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
    oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
    pessoas.

    Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
    nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
    com a Russia européa.

    Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
    felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
    deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

    Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
    thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
    gelados nove mezes por anno.

    Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
    Strelitz.

    Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
    Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
    caravanas do chá….

    E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
    comeremos ninhos de andorinhas–uma especie de letria insipida, cara
    como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!–mas se
    soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
    letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
    litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
    no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
    subditos do grande Filho do Ceu.

    E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
    espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
    caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
    expresso_–o heroe do poeta Campoamor–, que devora o espaço e o tempo,
    fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
    galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
    baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

    E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
    Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
    atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
    barril immundo para um fino cristal facetado!

    * * * * *

    A camara dos srs. deputados….

    Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
    deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
    encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
    se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim–nós estamos
    como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
    cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
    freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
    apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
    permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
    desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
    aceno–tão profundamente triste para os que partem–de um lenço branco
    que palpita, ao longe!

    E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
    abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
    estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna….

    A camara pois–diziamos–querendo collocar-se ao par do que a
    civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
    leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
    realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
    um phenomeno–mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

    Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
    barril, uma pipa ou um tonel!

    E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
    problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
    camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
    revista, a celebre e immortal lei–_do engarrafamento das vasilhas_, na
    qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

    «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
    antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
    vasilhas.»

    Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
    a camara–intemerata e altiva–se acha habilitada para proceder á face
    da Europa a este milagre:

    _Engarrafar vasilhas_.

    * * * * *

    E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
    parlamentar–onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
    uma mosca caida sobre uma taça de creme–para o refugio inviolavel da
    vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
    das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
    aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
    bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
    perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
    camoeza!

    Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

    Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
    coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
    d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
    seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
    um capitalista ou um sabio.

    Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

    Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

    Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
    leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
    habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,–é não as fazer.

    Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
    grande.

    Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
    grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
    no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
    meio de não ser ridiculo:–é ficar em casa.

    Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
    trinchado por ella…. Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
    teu voltarete.

    Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
    se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
    um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
    si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
    outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
    suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
    narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
    barejes…. Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
    cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
    triste representação–de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
    veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
    verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
    das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso–porque
    elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
    orthographia, nem mão de redea!

    O que estes são–na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
    como o foste–na politica! Não tornes cá.

    Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
    beijo, desculpa…. É que nós temos razões para desconfiar,–pelas tuas
    moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
    discursos,–que tu usas _patchouly_ e comes alho.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08 09)

    Aproximadamente 16.210 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO X

    Agosto a Setembro 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P. J. Proudhon

    SUMMARIO

    Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
    critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
    influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
    mestres O monumento da imprensa.–A recente viagem de suas magestades e
    altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
    d'essa excursão.–Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
    d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
    cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.–Algumas producções
    musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
    valsa.–Algumas palavras aos srs. advogados.–Os exames das meninas no
    Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
    feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
    estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
    afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.

    O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
    pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
    14 de setembro de 1877.

    Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
    de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
    terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.

    Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
    inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
    do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
    o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
    inimitavel mestre.

    O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
    Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.

    * * * * *

    Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
    existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
    espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
    d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
    passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
    rhethorica dos noticiarios–o _solitario illustre!_

    * * * * *

    Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
    Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
    importante collecção dos modernos trabalhos litterarios–o _Panorama_;
    enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
    o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
    o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
    denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
    dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
    d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
    admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
    nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
    ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
    hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
    do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
    aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
    época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
    sociedades vivas a elaboração do progresso.

    * * * * *

    Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
    sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
    genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
    sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
    universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
    sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
    projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
    em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
    prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
    seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

    O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
    solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
    vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
    multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
    traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
    sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
    aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
    sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
    de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
    divina verdade.

    * * * * *

    A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
    comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
    das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
    auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
    reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
    naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
    tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
    uma catastrophe para a geração moderna.

    Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
    alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

    Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
    firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
    expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
    enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
    deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
    prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

    A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
    ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
    tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
    cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
    batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
    da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
    o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
    patifes, com os seus pés miseraveis.

    A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
    socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
    impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
    cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
    d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
    chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
    depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
    recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
    este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
    constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

    A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
    que a devia prender estreitamente á grande alma popular.

    A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
    e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

    Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
    Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
    movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
    importantemente o nosso estado social.

    Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
    poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos–o
    partido conservador e o partido revolucionario,–de cuja controversia
    depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
    portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.

    Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
    instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
    propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
    convivencia e pela cultura da historia.

    Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
    tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
    inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.

    Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
    fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
    sentimento nacional.

    * * * * *

    Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
    missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
    seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
    intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
    seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
    dotára.

    Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
    todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
    social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
    mão.

    Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
    combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
    muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
    tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
    longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
    de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
    dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
    de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
    todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
    pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
    poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
    sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
    poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.

    Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
    decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
    lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
    d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
    na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
    similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
    peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
    invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
    profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
    admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.

    Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
    d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
    todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
    cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
    dirigentes, não tem esse direito.

    A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
    cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
    devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
    dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
    condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
    linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.

    E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
    têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
    sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
    submetter-se aquelles que estão vivos.

    A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
    a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
    estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
    confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
    de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
    isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
    social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.

    O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
    não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

    Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
    consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
    trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
    vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
    humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
    desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
    instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
    com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
    desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
    dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
    dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
    de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
    sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
    indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
    arduo e penoso rumo do dever.

    * * * * *

    Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
    fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
    admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
    monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
    está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.

    Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
    como um de seus membros, eis o que proporiamos.

    * * * * *

    A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
    _Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
    quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.

    Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
    deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
    portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
    philosopho e na obra do artista:–a negação do milagre d'Ourique e das
    côrtes de Lamego.

    O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
    aspecto,–o aspecto das nossas superstições.

    As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
    da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
    suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

    De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
    nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
    profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
    tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
    e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
    estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
    do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

    Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
    Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
    qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
    scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
    historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
    leis fundamentaes da nossa evolução social.

    A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
    publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
    perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
    Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
    desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
    seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
    dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
    mortalha em que desceu envolto para o tumulo–a mortalha do desprezo.
    Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.

    * * * * *

    Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
    os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
    mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.

    CAPITULO I

    Bussaco… d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
    secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
    passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
    companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

    CAPITULO II

    Bussaco… d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
    serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
    afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
    Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
    medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

    CAPITULO III

    Bussaco… agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
    secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
    infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
    Quatorze e por Cysne innarravel.

    CAPITULO IV

    Bussaco… d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
    comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
    Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
    Jubilo povo augmenta.

    CAPITULO V

    Bussaco… d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
    petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
    momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
    _touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
    meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

    CAPITULO VI

    Bussaco… d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
    Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
    Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
    povo.

    CAPITULO VII

    Vidago… d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
    phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
    maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
    povo.

    CAPITULO VIII

    Vidago… d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
    tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
    acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
    monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
    fôr.

    CAPITULO IX

    Vidago… d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
    rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
    pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
    zenith.

    CAPITULO X

    Vidago… d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
    phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
    excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
    impossivel descrever palavras humanas.

    CAPITULO XI

    Porto… d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
    liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
    Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
    delirante.

    CAPITULO XII

    Porto… d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
    que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.

    CAPITULO XIII

    Porto… d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
    passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.

    CAPITULO XIV

    Porto… d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
    atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
    da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
    Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
    são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
    pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
    vertiginoso.

    CAPITULO XV

    Porto… d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
    augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
    Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
    defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.

    CAPITULO XVI

    Porto… d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
    Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
    precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
    vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.

    CAPITULO XVII

    Porto… d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
    Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
    bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
    adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
    medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.

    NOTAS

    AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

    A

    _Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
    Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
    explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
    reproduzidas.

    Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
    dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
    magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
    que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
    matta.

    Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
    e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
    dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.

    O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
    immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
    do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
    residencias de suas magestades.

    Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
    bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
    no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
    perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
    praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
    facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
    nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
    solução d'este problema:

    Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
    Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
    Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
    quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
    lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
    de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
    tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
    vezes sem se destapar o tacho;

    Pergunta-se:

    Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
    Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
    faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
    e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

    Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
    reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
    Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
    queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
    d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
    em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
    publicas o sr. estofador Alcobia.

    O melhor talvez–permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
    ideia–seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
    com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
    excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
    forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
    especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
    peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.

    E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
    da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

    B

    _Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
    liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
    detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

    El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
    dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
    magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
    vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
    de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
    ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
    adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
    pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
    honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
    encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
    em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
    precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
    se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
    deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
    referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
    asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

    Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
    dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
    de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
    magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
    de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
    encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
    um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
    se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
    E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

    –Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
    de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
    lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
    seus sicarios?… E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
    Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!… Em que escola
    aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?… O que tu merecias é que
    eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
    blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
    tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
    confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
    trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
    homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
    como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
    obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
    fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
    e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
    conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
    cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
    qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
    a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
    dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
    fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
    mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
    mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
    reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
    pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
    te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
    pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
    trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
    sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
    és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
    immunda.

    Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
    rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
    praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
    cerrado e os bicos dos nossos sapatos–de tres solas repregados de
    terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
    moscardos–concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
    rapazes onde era a escola.

    Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
    apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

    Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
    habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
    serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
    rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.

    São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
    ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
    successivo das cadeias e dos hospitaes.

    Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
    embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
    pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
    uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
    forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
    medas ou a debulhar o milho.

    Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
    dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
    chamar:–o premio Monthyon da malandrice.

    * * * * *

    Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
    acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
    da corôa, o sr. Barros e Cunha.

    Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
    respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
    phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
    pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

    Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
    intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
    do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
    inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
    desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
    com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
    Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.

    * * * * *

    Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
    antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.

    Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
    pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
    a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
    na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
    sabia inglez.

    Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
    declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
    camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
    tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
    a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
    determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
    litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
    sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
    ex.ª.

    Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
    legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
    da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
    sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
    palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
    como a de quem falla por um nariz de assucar.

    No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
    partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
    acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
    roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
    signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
    seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
    irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
    incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
    os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
    passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
    beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
    do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
    carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
    das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
    todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
    lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
    ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
    fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

    Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
    carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
    colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
    quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
    no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
    adormecida.

    Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
    circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
    indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
    Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.

    Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
    parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
    com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
    vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
    consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.

    * * * * *

    Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
    novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
    «caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
    tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
    servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
    adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
    corôa.

    Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
    commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
    obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
    mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
    popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.

    Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
    imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
    Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
    dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
    houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
    e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.

    No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
    actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
    a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
    momento–tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
    cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro–em
    liberdade.

    Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
    zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
    conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
    hebdomadarias:

    S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
    Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
    hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
    madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
    á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
    lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
    A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
    momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
    hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
    ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
    barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
    estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
    dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
    recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
    A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
    familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
    na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
    hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
    real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
    pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.

    * * * * *

    Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
    collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
    Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
    digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
    pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
    ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
    de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
    espinha de cebo.

    Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
    vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
    35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
    progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
    concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
    parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
    não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
    de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
    fardamento, uma calva e uma nodoa.

    Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
    do seu zelo como novo aulico.

    Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
    arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
    mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
    expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
    magestade a rainha para ella passar a estação calmosa–nas casas dos
    outros.

    Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
    absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
    donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
    reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
    monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
    mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
    modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
    Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
    passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
    acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
    com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
    segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.

    Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
    determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
    manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
    importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
    em um dos lanços da estrada alludida.

    * * * * *

    Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
    cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
    conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
    algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
    e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
    no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
    começamos por transcrever:

    «Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
    contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
    obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
    fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
    considerando:

    «1.° Que esse contrato se encontra viciado;

    «2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
    regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

    «3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
    a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
    empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;

    «4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
    adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
    governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
    condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:

    «Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
    procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
    observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
    para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.

    «O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
    districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
    officio datado de 26 de junho ultimo.

    «Paço, em 3 de julho de 1877.–_João Gualberto de Barros e Cunha._

    «Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».

    * * * * *

    Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
    contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
    governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
    ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
    Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.

    O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
    contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
    Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
    contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
    governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
    contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
    juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
    portaria, um contracto de similhante natureza:

    O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:

    _Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
    constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
    governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
    que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
    os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
    Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
    praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
    contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
    outro que o prejudica.

    A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
    intervenção do sr. Burnay.

    A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
    porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
    os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
    perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
    fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
    estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
    contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
    d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

    As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
    como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
    da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
    réis é uma calumnia.

    Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
    deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
    sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
    ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
    fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
    mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
    que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
    que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
    não do individuo com quem elle contractou?

    Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
    similhante arbitrio?

    Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
    interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
    governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
    contractado?

    Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
    ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
    governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
    delicto egual ao da camara?

    Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
    industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
    portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
    apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
    governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
    tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
    fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
    petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
    calumniosa, e infamante.

    É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
    arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
    cidadãos.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.

    A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
    commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
    poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
    liberdade e contra a propriedade de um cidadão.

    Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
    reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,–contra o
    direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

    A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
    não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
    elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
    calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

    «A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
    o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
    submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
    do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
    consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
    omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
    satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

    Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
    responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
    perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.

    * * * * *

    Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
    não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
    simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
    primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
    cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
    elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
    Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
    pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
    preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
    modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
    elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
    centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
    lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
    mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
    que os estados se moralisam e se enriquecem.

    Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
    impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
    aspirações–a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
    constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
    exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
    exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
    coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
    outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
    governa.

    * * * * *

    Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
    producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
    maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
    offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
    suas faculdades não lhe permittirão defender-se.

    D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
    deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
    trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
    mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
    nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
    pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
    violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
    explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
    condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
    de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
    feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,–de jacaré. A
    logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
    ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
    ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
    ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
    pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
    tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
    baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
    de zabumba em theatro de feira.

    E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
    destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
    Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
    util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
    ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
    commercio e industria.

    Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
    modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
    para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.

    Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
    mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
    anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
    desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
    seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
    extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
    elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
    por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
    sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
    s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
    um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
    precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

    A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
    ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
    preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
    tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
    coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
    piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
    das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
    forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
    mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
    satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
    querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.

    Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
    desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
    não fizeram senão prejudical-a.

    Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
    differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
    o mesmo.

    * * * * *

    O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
    periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
    mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
    attenção que lhe é devida.

    * * * * *

    _As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
    principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
    as fontes da inspiração artística.

    Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
    orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
    aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:–a
    força da pancadaria.

    Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
    fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
    são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
    passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
    juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
    policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
    respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

    Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
    acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
    que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
    policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
    conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
    quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
    onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
    essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
    suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
    transformar o paiz n'uma almondega.

    Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
    clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
    regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
    vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
    publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
    com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
    cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
    Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
    render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.

    As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
    insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
    canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
    suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
    victimas.

    Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
    popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
    polka.

    Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
    propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
    e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
    o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
    legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
    o caso em musica e em dansa de roda!

    Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
    ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
    rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
    simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
    soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
    actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
    pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
    presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
    tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
    uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
    todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
    o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
    nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

    Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
    chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
    mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
    primeira!

    Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
    cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!

    Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
    não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
    que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
    sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
    tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
    arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
    terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
    delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
    philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
    Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
    tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula–_levar para a
    musica_.

    Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
    costume, despicaste-te com uma polka especial.

    As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
    indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
    santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
    de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
    Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
    que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
    expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
    Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
    essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
    campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
    habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
    semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
    polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

    O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
    appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
    instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
    vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
    democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
    clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
    tyrannia a vindicta dos povos.

    Emquanto á dignidade humana… lalarilolé… e emquanto á liberdade,
    ao direito e á civilisação… lariléliló… que nos importa isso?…
    Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
    panno adesivado…lólaró… e fios… trolarilolé!

    Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
    terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol… e dó!_

    * * * * *

    O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
    operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
    partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
    peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
    ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo–_Vamos a
    ellas_!

    Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
    Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

    Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
    perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
    caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
    não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

    Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
    as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
    interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
    Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
    seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
    spartito em punho, fosse directamente com a sua batina–para a sacristia
    das Mercês.

    * * * * *

    _A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
    periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
    piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_

    Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
    penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
    comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
    Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
    cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
    alliança da religião e do _chic_.

    Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
    completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
    inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

    –Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
    impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

    E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
    os olhos ao céu.

    –Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

    E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
    deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
    o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
    mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
    chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
    exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
    pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
    e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
    conversaremos:

    –Como a religião é boa! como é ineffavel!… Eu sinto a voz do meu
    coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

    –E começa a ter crenças?

    –Oh! sim!… com impaciência! com frenesi! com delirio!…
    Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!…
    Tu, minha candida pomba da arca!… Tu, minha estrella dos Magos!… Tu,
    meu anjo da guarda!…

    –Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
    indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
    uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
    Pontifice, não acredita?

    –Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
    coração bate?… É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
    Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
    seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
    Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
    mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
    disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
    perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
    blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes…

    –Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
    nos seguem… Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

    –Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
    joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
    cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!… Elle bebe-a ao almoço…

    –Deus do céu!

    –Entre a costelleta e a omelette…

    –Virgem Maria!

    –Misturada com vinho de Pauillac…

    –Santos e Santas da côrte celeste!

    –Em partes eguaes, metade vinho, metade agua…

    –Mas vae para o inferno essa alma!

    –Está claro que sim. E é bem feito!

    –Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

    –Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
    todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
    amargal-as, que ha de ser um consolo–para nós!

    –Amen! Amen, Jesus Maria José!

    Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
    Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
    ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
    entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
    nossas soirées ao divino.

    * * * * *

    Aos srs. advogados

    Meus caros senhores.–Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
    onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
    Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
    mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
    ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
    pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
    aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
    da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e–coisa que lhe
    perguntei antes de o vir habitar–não toca piano.

    De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
    cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
    cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

    Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
    de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
    metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
    embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
    meu varapau.

    Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
    velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
    adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

    Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
    obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
    postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
    para o outro dia.

    É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
    os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
    regras.

    * * * * *

    Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
    mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
    familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
    srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
    machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
    elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
    como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
    advogado para que este o illucide.

    Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
    ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
    mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
    especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
    elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
    chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
    que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
    da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
    do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
    policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
    desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
    o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

    –Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
    papel official.

    –Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
    nos olhos, atando as mãos na cabeça.

    –Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
    apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
    tinha alma de lhe beber o sangue!

    Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
    a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
    filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
    administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
    pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
    fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
    com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
    para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
    mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
    pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
    tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
    custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
    as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.

    Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
    emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
    letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
    medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
    que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
    egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
    desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
    hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
    inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
    ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
    defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
    maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
    O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
    dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
    advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
    para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
    que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
    por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.

    Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
    nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
    os que tyrannisam o orphão.

    Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
    defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
    contraria.

    Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
    com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
    conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
    que deseja pagar.

    Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
    punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
    se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

    O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
    espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
    tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
    mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
    esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
    réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
    cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
    defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
    selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
    crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
    defensor.

    * * * * *

    Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
    restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
    introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
    poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
    por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
    lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
    ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.

    * * * * *

    Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
    mais ou menos do teor seguinte:

    * * * * *

    «Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
    directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
    Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
    esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
    dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
    referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
    jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
    carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
    consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»

    * * * * *

    A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
    nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
    collegios de Lisboa.

    A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
    as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
    classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
    _réclames_ das suas distribuições de premios.

    Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
    o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
    egual exito com relação á lingua ingleza.

    O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
    dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
    recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
    professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
    Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
    Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
    consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
    uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
    com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
    um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
    data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
    bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

    _Elvira Fernandez me fecit._

    * * * * *

    Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
    quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
    um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
    Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
    porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
    palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
    conhecimentos theoricos da formação das palavras.

    Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
    _Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
    os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
    almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
    poltronas.

    Polycarpo reconhecerá então–demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
    d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»–que D. Elvira possue, no
    estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
    quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
    versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
    sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
    esposa, e finalmente como mãe.

    * * * * *

    De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
    absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
    vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
    desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
    incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
    chamada na familia.

    * * * * *

    Entendemos portanto que–desde o momento em que Fernandes é bastante
    obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
    filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
    mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,–ao
    Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
    Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
    Jeronyma o direito de a levarem a exame.

    * * * * *

    _Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
    da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
    do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
    mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se–o
    espirito virginal de uma menina,–ao
    interrogatorio official de um mestre que durante
    vinte minutos vae exercer sobre aquella
    alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
    tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
    na educação de um rapaz, para quem
    o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
    civil; na educação de uma menina portugueza
    similhante prova é inadmissivel e equivale
    a uma amputação do decoro.

    Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
    a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
    mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
    tornar mais educada.

    Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
    primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
    feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
    maioridade e de emancipação legal.

    * * * * *

    Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
    dialogo:

    _O examinador_–Que faz a menina quando se vae deitar?

    _A examinanda_–Quando me vou deitar…

    _O examinador_–Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

    _A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
    olhos)–Quando me vou deitar… dispo-me.

    _O examinador_–E depois de se despir?… Responda! Depois de se despir
    o que faz?… A menina não ouve?… Ou finge que não ouve?… O que faz
    depois de se despir?

    _A examinanda_–Tenho vergonha…

    _O examinador_–Não tenha vergonha. Responda para diante!

    _A examinanda_–Depois de me despir o que eu faço é…

    E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
    com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
    annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
    innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
    as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
    emittere_.

    O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
    presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

    É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
    sabem ou não «civilidade».

    * * * * *

    Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
    de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
    restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

    A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
    que a da instrucção dos homens.

    As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
    conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

    Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
    educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

    1.° Curso de aceio e de arranjo;

    2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).

    3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.

    * * * * *

    No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
    juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
    idéas, as seguintes noções praticas:

    Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
    branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
    esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
    domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
    melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
    arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
    de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
    de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
    Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
    escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
    se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
    bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
    inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
    mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
    pequenos jantares.

    Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
    differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
    mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
    vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
    vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.

    No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
    aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

    O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
    caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
    caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
    boa digestão.

    Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
    dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
    senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
    nacional.

    Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
    affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
    physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
    que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
    preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
    não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
    por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
    liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
    condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
    quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
    não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
    perfeitamente transparente.

    Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
    suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
    Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
    no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
    _substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
    não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
    _substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
    papão!

    Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
    Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
    demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
    no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
    civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
    entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
    povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
    É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
    governa o mundo e determina o destino das sociedades.

    Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
    chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
    iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
    regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
    cozinhas dos differentes póvos, etc.

    A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
    as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
    compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
    obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
    habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
    publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
    numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
    de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
    estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
    cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
    meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
    inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
    competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
    descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
    ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

    Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
    economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
    divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
    teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
    meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
    que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
    semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
    obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
    inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
    conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

    O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
    praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
    das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
    ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
    o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
    o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
    anno em que elles houverem de ser feitos.

    * * * * *

    No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
    deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
    familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
    mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
    balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
    os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
    differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
    reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
    despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_–verba essencial,
    indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
    sabiamente dirigida.

    * * * * *

    Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
    a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
    verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
    mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
    equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
    invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
    seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
    que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
    dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
    methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
    baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
    protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
    domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
    feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
    fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
    doce refugio.

    Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
    dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
    engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
    factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
    em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
    casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
    uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
    portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
    esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
    economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
    dotar-se a mulher.

    * * * * *

    Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
    mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
    de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
    reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
    aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
    graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
    cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
    das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
    não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
    nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
    meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
    instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
    livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
    rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

    Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
    das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
    senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
    mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
    esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
    poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
    meteorologia nas obras dos arabes.

    Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
    desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

    Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
    das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
    ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
    Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.

    * * * * *

    A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
    na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
    escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
    por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
    póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
    noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
    estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
    previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
    primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

    O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
    como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
    depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
    impõe.

    Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
    ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
    são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

    Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
    de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
    posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
    contemporaneas.

    Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
    Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
    Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
    qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
    do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
    collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres–sentimos
    dizel-o–não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
    conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
    tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
    contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
    pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
    foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
    publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
    versos–não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
    publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
    profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
    sedenta de verdade e de justiça,–mas sim trovas d'uma sentimentalidade
    de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
    Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
    personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
    dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
    garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
    simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
    fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
    honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
    _ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
    acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
    creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
    na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
    permanentes.

    Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
    collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
    educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
    litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

    O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
    profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

    Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
    de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
    physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
    de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
    praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
    réclame de modas.

    Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
    publicados nas _Transactions of international association for the
    promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:

    _Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;

    _Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
    inferiores_, por Mary Carpenter;

    _Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;

    _Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;

    _A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
    Bessie Parkes;

    _A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
    Remand;

    _Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
    Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
    mulheres,_ por Jone Crowe, etc..

    Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
    amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
    uma vida extremamente simples e retirada.

    Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
    produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
    educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
    nem dá literatas.

    Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?…

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)

    Aproximadamente 15.283 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    Lisboa–Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira–Editora

    5–PATEO DO ALJUBE–5

    EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883

    LISBOA

    EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA–EDITORA

    Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em
    nome do rei.

    SUMARIO

    Rasão d'esta carta–Projecto de partida de sua alteza–Pessoas que o
    acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel
    parallelo–As instituições nacionaes e _As Farpas_–A educação do
    príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos–A instrucção de
    sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas
    convivencias. O seu theor de vida–Intervenção de sua magestade a rainha
    na direcção intellectual de seu augusto filho–O príncipe, o homem, o
    cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado–A
    viagem–Crise pedagogica–A renovação mental de sua alteza–De como o
    príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao
    throno, á familia, á sociedade e á natureza–Sua alteza porém fará o que
    for servido.

    LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

    SENHOR!

    E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos
    traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.

    O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia
    garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o
    Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de
    usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em
    que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente
    do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey
    nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.

    Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos
    deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio
    da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,
    correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.
    D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

    Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas
    pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar
    vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e
    das coisas da civilisação entre gentes extranhas.

    Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada
    pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois
    abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As
    Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica
    e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se
    tratava.

    Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,
    atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,
    quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para
    encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento
    presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que
    vemos?… Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa
    acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação
    remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar
    dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques
    debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa
    alteza.

    Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as
    instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade
    Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria
    Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,
    quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,
    que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria
    do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.

    Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas
    o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.
    Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do
    trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos
    pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os
    Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As
    academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão
    nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as
    pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes
    oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo
    com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:

    –O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe
    seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o
    immortalisarem no eterno jubilo das gentes!

    E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da
    sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta
    perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra
    cathedralesca.

    Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

    Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso
    dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da
    educação d'alguem que seja n'este mundo?

    Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!

    Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente
    fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual
    Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e
    porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para
    o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da
    _Delphina do mal_.

    Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se
    achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se
    lhe teriam permittido a leitura d'esse debate …

    Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!

    Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,
    sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e
    em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes
    ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador
    berrava:

    –Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa
    com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do
    que os rapazes precisam para ir para leis!

    Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem
    religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho
    d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de
    Deus,–de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira
    do predio.

    Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos
    lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois
    é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação
    capaz.

    Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a
    mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,
    _que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!

    E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou
    enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,
    que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro
    ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!

    Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar
    no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;
    mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro
    das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito
    de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de
    magica no theatro de D. Maria.

    Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles
    pegaram n'uma questão d'arte?!…

    Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual
    reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção
    d'arte com _quatro potes etruscos_.

    Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira
    parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram
    por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa
    presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças
    familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde
    muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.

    Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes
    exprimiram com unanimidade:

    –Oh! sim!… os potes etruscos … conhecemos perfeitissimamente!

    –O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão
    inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus
    extrangeiros!…

    –Appoiado! appoiado!–opinou o snr presidente do conselho, convicto e
    subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em
    potes.

    E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito
    supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte
    nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,
    nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual
    a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra
    de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por
    quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!… por quatro potes, que uns
    dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas
    antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo
    que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,
    só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de
    compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!

    Tal é a camara, ó serenissimo principe!

    E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia
    corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.
    Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de
    assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva
    em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a
    deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação
    nacional é o boi gordo.

    Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o
    trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros
    e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.

    Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.

    Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,
    considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso
    foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com
    prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino–disse em
    portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de
    instrucção–o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e
    applauso geral dos doutos.

    Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.

    Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros
    e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo
    que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_
    presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade
    geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados
    e iam a ministros.

    A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica
    portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo
    _odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres
    entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.

    De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o
    entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola
    pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.

    A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da
    sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos
    fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a
    amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.

    Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa
    alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o
    primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos
    desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e
    muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

    Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus
    illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam
    com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje
    de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.

    De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario
    publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,
    jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e
    luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava
    dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.
    Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.

    _As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que
    vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio
    dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que
    vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um
    cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura
    nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por
    um simples phyloxera.

    _As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de
    flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem
    luvas.

    Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o
    decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de
    vossa alteza, se nós, seus criticos.

    Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção
    secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de
    hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica
    e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse
    sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que
    era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr
    defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,
    pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na
    Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a
    explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim
    o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.

    Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os
    dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe
    acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio
    pão.

    Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem
    ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema
    nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o
    estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu
    mestre.

    Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,
    do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a
    educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica
    Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos
    bar-baças aposentados da magistratura e da academia.

    Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os
    pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da
    natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,
    cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas
    sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás
    engommadeiras virtuosas.

    Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?
    Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos
    principes como o proprio livro de Machiavel.

    Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a
    tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

    É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha
    agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo
    da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,
    applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se
    apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real
    banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na
    caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se
    retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da
    regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,
    mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de
    gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural
    affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e
    metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o
    vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar
    os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava
    escripturado.

    Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se
    ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos
    duros encargos da publica governação espreitando um momento pela
    fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza
    Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,
    apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de
    chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que
    dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e
    cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira
    por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com
    o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.

    –Que faz você aqui, seu estupido?–lhe perguntou o monarcha com voz
    acre.

    –Eu nano–respondeu o principe sorridente e doce.–Como a princeza
    Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não
    tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

    –Chamem os mestres de sua alteza!–bradou o rei iracundo, com um gallo
    na testa e com os braços cruzados no peito.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    –Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!… Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo
    tres perus gordos e emborrachados!

    Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito
    pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se
    lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos
    _deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.

    Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos
    seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,
    que a pena ultima lhes seja commutada.

    Piedade, principe, piedade!

    Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As
    Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio
    de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a
    sua familia, com a sua côrte?…

    Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento
    encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as
    maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do
    palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos
    cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das
    caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

    Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa
    alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos
    _louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?

    Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha
    cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da
    rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e
    de peixe frito?…

    Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom
    gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto
    de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do
    recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente
    e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da
    Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.

    Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os
    individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de
    instrucção.

    Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto
    d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas
    linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:

    _Eça de Queiroz–Lawrence's Hotel–Cintra. Diga se recebeu rei convite
    ir extrangeiro principes, e se vae._

    E recebemos a seguinte resposta:

    _Ramalho Ortigão–Caetanos–Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir
    Collares burros, e não vou._

    Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo … Maldição e prudencia!

    O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a
    honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o
    detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de
    sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao
    feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos
    nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás
    ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá
    licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á
    vontade, que o bebe por conta do lavrador.

    Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!

    Nós porém, senhor,–como se diz na «Vie Parisienne»–_não somos esse
    major_.

    Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os
    derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,
    para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos
    reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,
    sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos
    dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o
    abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando
    chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.

    Fomos vilmente preteridos–é certo–por esse cavalheiro … Um chimico,
    senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um
    troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além
    d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos
    que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham
    o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa
    satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á
    avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain
    d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á
    França:–_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai
    seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!

    E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com
    malicia, terá de acrescentar:

    –_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_

    Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu …

    E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que
    ha que ver por esse mundo!

    Um olheiro, de galochas de borracha na vista!

    Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão
    até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o
    seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno
    incognoscivel!

    Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos
    sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
    cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que
    dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida
    nenhuma que vae perfeito!

    E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
    algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,
    quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café
    Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
    responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é
    precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão
    alguma, a do bissulfato de potassa.

    Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
    criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
    consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa
    alteza vae concluir na sua proxima viagem.

    Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
    d'essa educação no seguinte quadro:

    _«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,
    hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
    humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
    historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
    naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
    constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
    disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
    mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

    Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
    para o estudo superior da philosophia do direito.

    Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
    systematica da philosophia.

    Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da
    philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
    interno e politico;–direito constitucional portuguez; e historia tanto
    antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da
    administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
    explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

    Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas
    e analyse de seu systema eleitoral.

    Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo
    sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
    a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte
    Lagueronière.

    Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
    organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
    até a actualidade.

    Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de
    Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
    grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
    pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

    Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
    Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
    d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;
    tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
    commercio d'este mesmo anno.

    Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
    ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua
    alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
    introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
    do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
    especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._

    Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.

    Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do
    direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
    especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
    (1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
    fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,
    como meios economicos.

    Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de
    fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
    applicação á organisação de Portugal.

    Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
    adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
    continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.

    Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem
    podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

    Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»

    É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o
    comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem
    detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em
    frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

    Analysemol-o.

    Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu
    cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda
    a intelligencia.

    Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está
    redigida esta exposição.

    Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza
    rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
    pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou
    pelo estudo aprofundado … Depois começou os estudos de philosophia …
    Começou em seguida o estudo do direito … Parallelamente seguiu o
    estudo systematico … seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
    não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que
    vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

    Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás
    escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
    fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que
    o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade
    d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
    adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
    politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
    conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por
    objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do
    universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
    categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
    do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
    todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa
    investigação ás seis ordens seguintes:

    1.–Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,
    ou phenomenos _mathematicos_.

    2.–Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas
    distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

    3.–Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
    acustica, ou phenomenos _physicos_.

    4.–Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos
    _chimicos_.

    5.–Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

    6.–Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
    _sociaes_.

    Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de
    dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos
    da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª
    sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

    Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções
    mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.
    Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
    synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina
    scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

    As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
    nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
    fundamentaes.

    Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo
    e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
    Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da
    astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da
    chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
    biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a
    _observação critica_ e a _filiação historica_.

    A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
    Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
    mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas
    grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e
    tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais
    segura das chaves para a coordenação das ideias.

    Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:

    «Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma
    verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
    desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
    homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a
    contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
    progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
    do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não
    sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
    cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
    relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr
    senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
    desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a
    funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar
    primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente
    accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na
    especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é
    tambem no conjuncto.»

    Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
    modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na
    ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A
    genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da
    genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
    Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
    positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos
    conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
    cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis
    biographicas e á vida historica da especie.

    Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
    regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de
    ministrar-lhe.

    _Sua alteza_–diz a informação que analysamos–_começou pelo estudo
    aprofundado da philosophia_.

    Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance
    pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
    tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.

    Principiar pela philosophia!!

    Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
    um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
    dogmatismo dos mestres.

    O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo
    espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos
    phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
    prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino
    do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?

    Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
    instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
    correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
    sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
    abstracção psychologica de fim e de origem?

    O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino
    é–como já vimos–que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
    particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
    applicação.

    Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o
    conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
    factos particulares?

    Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão
    extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
    sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos
    numeros?…

    É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de
    Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke
    ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o
    scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É
    o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o
    idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de
    Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de
    Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o
    evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?

    A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á
    redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
    esta cruel duvida.

    Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
    é a _philosophia racional e moral_.

    Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
    negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
    _objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo
    que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
    mas que não é d'essas que se trata.

    Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a
    philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
    philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É
    triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa
    que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
    _desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de
    virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

    O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta
    que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo
    superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em
    seguida o estudo do direito natural_.

    Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
    os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até
    os nossos dias.

    Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias
    pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
    annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
    funerario_ e do _Livro dos mortos_.

    Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço
    da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

    Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
    deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas
    indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da
    Syria.

    Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo
    quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a
    respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

    Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,
    Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
    escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
    epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
    materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os
    _Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,
    comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
    desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
    até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um
    anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

    Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas
    investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
    a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros
    sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
    mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
    philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
    como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos
    conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

    O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
    preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a
    reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
    philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
    ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

    Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
    deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

    Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em
    Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
    em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma
    manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se
    conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
    as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
    sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente
    porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque
    seja um ideal innato á natureza do homem.

    O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os
    philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam
    recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos
    processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a
    natureza é immoral e é iniqua.

    A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
    agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o
    estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma
    eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?
    Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e
    expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A
    theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
    sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
    os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»

    Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
    o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
    equitativa distribuição dos bens.

    O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma
    reacção contra essa lei.

    A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a
    protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela
    vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

    Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
    dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em
    conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao
    paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom
    divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

    Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de
    cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
    seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
    está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.

    Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
    vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o
    direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
    grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
    _nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

    Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de
    ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
    antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos
    idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
    no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
    Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

    Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um
    facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,
    no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só
    palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
    das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.

    Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a
    qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
    economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de
    redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
    conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,
    a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
    industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
    transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
    de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
    do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o
    milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é
    o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um
    menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
    fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
    uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
    vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
    todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino
    emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á
    tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que
    ha–naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
    internacionaes,–só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho
    que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
    kilo da carne ou o litro do azeite!

    Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
    é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção
    intellectual do homem.

    É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de
    vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas
    publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não
    vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
    espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
    companheiros.

    É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da
    mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a
    primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade
    humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
    final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais
    perfeita do individuo á communidade.

    E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
    regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as
    curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
    transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a
    que pertencemos.

    Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
    aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado
    atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
    reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão
    prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a
    responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem
    agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as
    «companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do
    caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
    filhos.

    O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
    vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
    quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
    Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
    si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas
    ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
    lhe respondera:–não. «Senti-me então desfallecer,–diz elle;–todas as
    fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
    de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr
    apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
    força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,
    revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe
    communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração
    palpitante de uma mulher que elle amou–elle o sabio, o philosopho, o
    reformador frio e implacavel–com o amor illimitado, enthusiastico,
    cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
    amantes celebres.

    A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se
    ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o
    não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se
    fazer um homem.

    Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr
    Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,
    abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina
    haurida nos compendios do snr José Garnier.

    Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões
    feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia
    que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver
    opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que
    teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se
    adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel
    conhecer e tratar.

    É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca
    da educação dos seus filhos.

    Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos
    burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.

    O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de
    Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma
    universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,
    filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram
    em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais
    estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,
    irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,
    beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e
    cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em
    Heisterbach.

    O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,
    fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

    O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é
    alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

    O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de
    Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.

    O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é
    egualmente formado em Bonn.

    O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da
    conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um
    curso de economia politica.

    O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em
    Paris, no lyceu Louis-le-Grand.

    Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de
    Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe
    imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros
    são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa
    alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em
    tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão
    cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação
    dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na
    convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á
    desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em
    capacidade, entre os homens eguaes em condição.

    Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na
    Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta
    republica helvetica.

    O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe
    Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas
    publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e
    de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu
    valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam
    finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e
    constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.

    Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,
    conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o
    seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus
    affectos desempregados.

    Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa
    alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:

    _Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir
    dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos
    seus filhos._

    Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante
    intervenção!

    É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do
    encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem
    devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.

    A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos
    quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos
    que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos
    quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.

    As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções
    physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que
    nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como
    nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.

    Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades
    intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o
    d'ella.

    Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de
    que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues
    e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de
    couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta
    verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua
    meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do
    amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas
    cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.

    Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja
    convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas
    faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.

    A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a
    honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique
    para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós
    arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o
    fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.

    O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade
    scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,
    cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada
    das suas azas desdobradas e pendentes.

    E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do
    coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente
    doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das
    amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração
    no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,
    escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou
    sobre a nossa infancia a perola da candura.

    Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou
    já a fructificar.

    Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias
    ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um
    amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.

    Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em
    periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a
    vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu
    peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos
    beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,
    feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo
    Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e
    confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da
    Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial
    mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os
    anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

    Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida
    que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está
    destinada.

    A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão
    acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre
    mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que
    praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que
    delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa
    alguma.

    É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos
    tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com
    tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da
    responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.

    E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a
    universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma
    mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no
    conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa
    alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas
    tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza
    em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.

    Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,
    conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos
    seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que
    cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua
    immobilidade mental ás gerações mortas.

    Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe
    venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,
    antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a
    mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para
    que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe
    servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa
    alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome
    do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da
    Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar
    simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a
    Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.

    Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,
    e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a
    excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos
    Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como
    quem vae preso para o calabouço.

    Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder
    executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que
    assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações
    de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas
    lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza
    saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,
    e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza
    tem por missão deslindal-os.

    Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações
    internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa
    alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é
    substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza
    corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom
    conselheiro.

    Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é
    segundo tenente da armada.

    É summamente extranhavel–não o esconderemos–que honrando a carreira
    das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in
    absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,
    dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e
    litterarias.

    Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito
    doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com
    vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial
    da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.

    Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario
    natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da
    faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e
    progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é
    alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia
    muito hem–creia-o–ser socio effectivo da Academia e bacharel formado
    em direito.

    Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das
    quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de
    devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente
    eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos
    seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e
    logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar
    significados.

    Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o
    seu proprio capellão … Vossa alteza é extremamente bom e amavel em
    sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito
    sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não
    é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.

    Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o
    obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar
    livre dentro de uma estufa pôdre.

    Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen
    no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

    Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os
    reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,
    mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente
    á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço
    constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a
    luz.

    Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos
    principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da
    educação de vossa alteza se resume n'isto:

    Que o libertem!

    Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é
    preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos
    bastardos–sem pae e sem padrinho.

    Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos
    homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos
    camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.

    Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:
    o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do
    throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia
    do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada
    uncção como a da santa chrisma.

    Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes
    e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

    Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou
    chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a
    educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se
    atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua
    unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de
    um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por
    aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou
    por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir
    a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como
    official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também
    não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã
    e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no
    governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na
    lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade
    individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como
    o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de
    Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de
    Washington, como o de Lincoln.

    Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua
    vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção
    inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação
    nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na
    Suecia.

    A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa
    resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da
    obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como
    um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr
    Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

    E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição
    isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e
    fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de
    todas as outras lições funestas que lhe teem dado.

    É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma
    vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,
    para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para
    cima, quer de si para baixo,–que o regimen da obediencia é o systema da
    negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,
    perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser
    um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que
    se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,
    porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.

    Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre
    um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para
    ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de
    um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.

    Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza
    o destinou–um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,
    inrelligente e honrado.

    Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões
    officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a
    fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente
    aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:–subjugal-os á sua unica
    e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.

    Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.

    A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente
    intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a
    humanidade.

    Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a
    educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens
    de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo
    elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos
    paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó
    do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha
    sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que
    affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a
    educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos
    Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais
    veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,
    a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no
    escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento
    singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito
    encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos
    parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e
    de confiança illimitada.

    Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,
    quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle
    mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos
    estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão
    viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do
    violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e
    extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,
    docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia
    que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,
    espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.

    Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por
    meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua
    mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para
    Paris com o seu preceptor.

    Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem
    verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O
    menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus,
    parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de
    um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e
    pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando
    o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em
    dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se
    repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final
    uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um
    perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o
    cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde
    o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do
    cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.
    Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario
    para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma
    mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias
    positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de
    proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no
    conhecimento do occorrido.

    O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne
    n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE
    d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître
    d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por
    um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal,
    deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á
    traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou
    unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e
    implacavel bigode.

    Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não
    enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou,
    fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas
    indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora
    marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido
    miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu
    filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem
    perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer
    parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.

    E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e
    acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um
    theatro que os escripturou como violinos.

    Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica
    que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu
    braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura
    se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam
    juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos
    boulevards.

    Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A
    nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum
    instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que
    exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte,
    e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o
    arnez theologico do seu amavel aio.

    E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem,
    para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa
    no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos
    _gentlemen_.

    Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real
    senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são
    insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.

    Resta pois a vossa alteza um unico recurso:–a fuga.

    Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão!
    Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples
    d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter
    uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de
    si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

    Tudo mais é simples detalhe.

    Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho
    de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á
    linha, um cavallo pronto e ligeiro.

    Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e
    _Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps,
    o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante,
    immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas,
    redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

    Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando
    ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés,
    prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.

    Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!

    Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que
    rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para
    a banda! a etiqueta que estoire!

    A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.

    Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?

    Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou
    á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.

    Todos os pavilhões dos paizes livres,–da França, da Suissa, da
    Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América–subirão
    desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de
    toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade
    sacrosanta de _touriste_.

    Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe
    prestar defesa e homenagem.

    Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a
    coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o
    defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o
    habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de
    noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á
    sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus
    inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia
    Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.

    Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem
    impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto,
    chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

    –Deixem circular, meus senhores! deixem circular!–tal é a palavra da
    força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo
    civilisado.

    Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe
    herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que
    se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não
    houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu
    reino.

    A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon
    esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a
    commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer
    coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,–um pouco mais
    fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente,
    como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém
    de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um
    antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara
    familia de Nassau.

    Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem
    violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a
    demover jamais de Paris a sua mala grande.

    Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam
    algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as
    convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no
    foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho
    pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

    –O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a
    Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a
    minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.
    Acceite os meus parabens.

    Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:

    –Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já …

    Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu
    herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz
    na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser
    um _viveur_ morto do que um rei vivo.

    Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um
    _entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o
    Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de
    litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que
    devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

    Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no
    mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista,
    para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o
    snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o
    introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda,
    tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o
    levar ao mundo onde a gente se diverte.

    Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em
    Paris.

    Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas
    suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples!
    Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a
    gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se
    instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo
    em que entra lhe mostrar que não sabe.

    Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da
    manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com
    agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo
    irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de
    Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em
    seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de
    França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de
    Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao
    Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a
    volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five
    o'clock_.

    A' noite–como se não é principe impunemente–as conveniencias exigem a
    toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e
    a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer
    que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os
    prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.

    Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de
    conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena
    theatro.

    Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que
    seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de
    Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o
    snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a
    explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios
    antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!

    De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber
    cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro
    branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a
    um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida
    provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.

    Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro
    tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a
    chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a
    decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a
    ninguem.

    Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio
    social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do
    dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a
    cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

    De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado,
    casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás
    burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o
    abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a
    perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

    Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente
    algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição
    social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam
    por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de
    ficar ao pé d'ellas para toda a vida!

    Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces
    horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se
    d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr
    pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa
    alteza.

    Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres,
    aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento
    excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres
    da categoria a que nos estamos referindo …

    (O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha
    incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar
    ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a
    _timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)

    A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se
    essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a
    alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de
    coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam
    jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos
    hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de
    Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe,
    os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.

    Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:–_Elle est
    des nôtres!_

    Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa
    alteza elle dissesse outro tanto.

    Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza,
    vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos …

    Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!

    Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou
    obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a
    importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam,
    das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus
    similhantes.

    É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao
    ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno
    de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando
    tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico
    ou mais bello.

    Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra,
    impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a
    aspiração immortal do espirito do homem.

    É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.

    É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados
    pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela
    profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo
    sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma
    ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão
    da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset,
    Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura
    do vulgo, e ser um homem.

    Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!

    Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para
    outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção
    technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.

    Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um
    homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem,
    fica sempre um subalterno.

    No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as
    sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis
    mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens
    mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os
    moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza
    unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas
    trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente
    instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere
    como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!

    Portanto, e em conclusão:

    Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na
    sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á
    natureza um sadio e valente animal.

    A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é
    indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes
    deve:–desgostos!

    Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão
    dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr
    Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

    N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de
    vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós
    abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom
    senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma
    subscripção nacional.

    Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas
    que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.
    Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza
    põe em nosso lábio o sello da reserva.

    Faremos fervorosos a subscripção.

    O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e
    tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que
    Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro
    dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as
    revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós
    somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos
    descobriram esse mesmo Congo, e–como vossa alteza sabe
    perfeitamente–nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.

    _Ramalho Ortigão_.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11 12)

    Aproximadamente 16.287 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 2

    NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    Congressos catholicos e ideias clericaes–Anjos e reprobos–As
    influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza–A egreja e as
    mulheres–Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
    sala–Os clubs e as sacristias–O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
    rei de copas, a rusga, a _vacca_–Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
    illustre–Novas applicações da mobilia á critica litteraria–A moderna
    arte portugueza e as escamas da corvina–O jornalismo em Braga–O
    partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas–Sampaio o
    Saraiva de Carvalho–A augusta princeza anjo da caridade e do
    bric-à-brac–Tragico fim de um gato d'esse anjo–Fausto e jocundo
    desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
    Santidade–A urna e a corveta Stephania–Os commendadores e os cães de
    faiança—Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

    * * * * *

    «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado….
    Está approvado.»

    Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
    qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
    muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
    gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
    divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
    cavalheiros,–papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
    sacristães–Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
    sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
    assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

    * * * * *

    Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
    que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

    O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
    prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
    almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
    irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
    espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
    Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
    seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
    com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
    ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
    o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
    pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
    venia e diz:

    «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
    frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
    honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,–se minha debil voz,
    digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
    arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
    prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
    nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

    E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
    intitulada obsecração,–um dos mais arrojados e vehementes de todos os
    tropos,–o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
    lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
    elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
    perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
    ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
    mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
    nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
    esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
    Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
    quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

    * * * * *

    Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
    oratoria sacra.

    Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
    persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
    redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
    divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
    para este effeito invisivel.

    Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
    tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
    clerigos–e mui judiciosamente segundo se nos affigura–que é inutil
    estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
    com as marionettes.

    N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

    «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
    manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
    accordo.»

    Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
    para approvar.

    * * * * *

    Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
    notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
    approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
    numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

    É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
    sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
    do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
    com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
    cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

    Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
    por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
    mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
    fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
    ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
    de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
    o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
    herva crescer.

    * * * * *

    Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
    chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
    sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
    perigos, apertando-se de mais com o fiado.

    Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
    posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
    áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
    ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

    Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
    provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
    de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
    nossas intimidades com o Divino.

    É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
    consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
    devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
    invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
    fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
    divino.

    Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
    deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
    Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
    D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
    Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
    no espaço,

    Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
    principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
    n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

    Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
    ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
    apoplexia.

    Acontecem d'estas ás vezes!

    Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
    pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
    Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
    a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
    terrestre.

    * * * * *

    O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
    pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
    pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
    grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
    sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
    temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
    d'hostias quotidianas.

    Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
    agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
    dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
    exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
    uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
    principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

    * * * * *

    Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
    sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
    um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
    do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
    liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
    preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

    Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
    abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
    opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
    esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
    amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
    pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
    perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
    liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
    litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
    consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
    espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
    por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
    a outra.—Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
    caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
    sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

    * * * * *

    O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
    a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
    estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
    fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
    seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
    redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
    concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
    por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
    de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
    o Chiado como o atravessam os perus, isto é–em pennas. A natural
    pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
    vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
    cherubins no gallinheiro celeste.

    * * * * *

    O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
    occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
    pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
    parte do snr. França Neto.

    Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
    chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
    outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
    panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
    assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
    ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
    simples ciprestal sentado,–com defluxo.

    Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
    resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
    universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
    sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
    ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
    mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
    sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
    succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
    Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
    que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
    governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
    e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
    religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

    * * * * *

    Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
    algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
    dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
    sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

    No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
    1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
    Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
    d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
    para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
    empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
    enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
    coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
    destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
    brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
    grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
    lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
    clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
    por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
    cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
    de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
    sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
    com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

    Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
    do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
    livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
    de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
    do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
    rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

    «Em toda a parte excepto na Belgica–disse elle–os catholicos são
    inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
    não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
    sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
    catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
    por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
    ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
    a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
    politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
    lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
    condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
    morto, e nunca mais resuscitará.»

    Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
    cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
    ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
    tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
    espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
    contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
    tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

    A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
    predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
    representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
    religião.

    Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
    a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
    do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
    religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
    consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
    decretos ou por castigos humanos.

    «Catholicos–disse Montalembert–se quereis a liberdade para vós,
    entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
    e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
    tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
    deem em toda a parte onde fordes escravos.»

    Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
    levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
    resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
    todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
    quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
    creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

    * * * * *

    Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
    de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
    liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
    seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
    historia das ideias clericaes.

    O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
    abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
    fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
    liberdade.

    Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
    baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
    continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
    com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
    resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
    quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
    que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
    ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
    _liberdade da sciencia_.

    Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
    obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
    Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
    Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
    sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
    liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
    _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
    illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
    civilisação.

    Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
    resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
    do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
    vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
    manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
    gremio da egreja.

    N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

    Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

    Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
    barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
    liberaes, julgaram impossivel transpôr.

    * * * * *

    Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
    demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
    obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
    prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
    Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
    o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

    Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
    emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
    congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
    ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
    querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

    * * * * *

    A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
    de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
    senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
    todas as sessões.

    Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
    as adhesões da mulher?

    Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
    tres especies distinctas de padres:–o padre das missões, o padre
    d'aldeia e o padre de sala.

    * * * * *

    Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
    aventureiros e os mysticos.

    Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
    temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
    mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
    quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
    centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,–cerimonia
    tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
    justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
    civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
    pretos do que elles são.

    Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
    martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
    fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
    sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
    canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
    dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
    Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
    inhospitas e selvagens.

    Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
    o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
    sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
    par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
    dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
    o outro:

    –Saboroso padre! benza-o Manipanso!

    * * * * *

    O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

    A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
    enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
    estonteadores.

    As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
    religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
    espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
    missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
    sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
    arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
    no arraial.

    Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
    da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

    Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
    rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
    artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
    chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
    podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
    passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

    Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
    latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
    cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
    saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
    perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
    para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
    hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
    jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

    * * * * *

    O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
    casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
    onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
    boleeiro, o creado de farda e a preta.

    As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
    tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
    para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
    caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
    serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
    entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
    raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
    dos seminarios.

    É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
    matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
    _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
    e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
    paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
    bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

    Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
    aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
    ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
    noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
    terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
    outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
    para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

    Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
    mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
    Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
    torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

    –Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
    para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
    chão!

    E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
    inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

    –Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

    Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
    emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
    Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

    «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
    d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
    dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

    Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
    posto na escada com a respectiva bagagem,–uma camisa, um pente, dois
    pares de piugas embrulhadas n'um jornal–, e uma pontuada de bengala nos
    rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

    Alguém á noite pergunta:

    –Que é feito do padre João?

    E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
    responde lentamente:

    -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
    para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
    meio de uma ligeira admoestação corporea.

    –Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

    –Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
    pelo lado _cunhos_.

    * * * * *

    De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
    casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
    para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
    dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

    O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
    haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
    applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
    estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
    com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
    misturar nunca–a não ser no sigillo do sanctuario–o bacalhau norueguez
    do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
    pecaminosa.

    Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
    lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
    Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
    foram manufacturados.

    * * * * *

    Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
    vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
    tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
    apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
    oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
    manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

    Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

    Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
    de Castello Melhor. Que contraste!

    Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
    vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
    reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
    Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
    encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
    revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
    os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

    A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
    por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
    levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
    discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
    monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
    heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
    triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

    A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
    trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
    o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
    e a pratica da devoção.

    O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
    de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
    vae para padre, isto é, por simples estupidez.

    Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
    mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
    tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

    Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
    sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

    As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
    como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
    Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
    Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
    inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
    fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

    O erro dos padres nas suas relações com o seculo–pedimos licença para
    lh'o dizer–está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
    em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
    ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
    mortas,–convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
    consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

    * * * * *

    Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
    os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
    extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
    verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
    ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
    debalde, transformal-as em obras.

    Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
    lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
    substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

    Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
    perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
    inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
    aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
    alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
    agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
    renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
    que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
    grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
    aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
    infestam, sevandijam e conspurcam.

    Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
    um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
    Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
    escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
    politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
    de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
    vigentes.

    O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
    sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

    No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
    para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
    de pistola.

    Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
    portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
    por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
    delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
    dos seus compatriotas.

    Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

    _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
    «bis» ao tenor Gayarre,–uma e outra coisa devida ao estado de
    consternação em que todos se achavam_.

    E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
    enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
    profunda de tão excelso quão sensivel principe.

    * * * * *

    Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
    se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
    manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
    ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

    Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
    têem os povos egualmente?

    Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
    testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
    do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
    ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
    museu da Via Lactea,–julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
    lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
    como os reis choram pelos seus bons subditos?

    Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
    grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
    a queda de um honrado cidadão que morre?

    Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:–é
    perfeitamente a mesma coisa!

    Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
    acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

    Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
    quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
    gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
    quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
    proclama–_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,–a alma do povo
    póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
    fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
    turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
    das proezas do tiro ao alvo.

    * * * * *

    Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que–tendo em vista,
    os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
    tanto no coração do povo, como no coração dos principes,–sua magestade
    se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
    occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
    das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

    * * * * *

    A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
    vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
    casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

    Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

    A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
    Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
    apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
    banca e o dos parceiros.

    O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
    louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
    elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
    mas–como muito bem acrescenta a portaria–apprehendendo outro sim
    _algum dinheiro e mobilia._

    Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
    intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
    redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
    acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
    surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
    e desapercebidos.

    No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
    nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
    as jogatinas.

    Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
    sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
    auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
    jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
    discutir com ellas sobre esta questão.

    * * * * *

    O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
    S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

    A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
    Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
    Senhora da Luz.

    No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
    mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
    achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
    provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
    sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
    circulos concentricos.

    A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
    adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
    uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
    das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
    apostas.

    Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
    cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
    egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
    particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
    que scintillava um olho de gato e um rubi.

    Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
    que tinha mais proximo de mim.

    Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
    finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
    trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
    para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
    preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
    segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
    cartas que em seguida sahia do baralho.

    Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
    expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
    mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
    Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
    administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
    ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
    lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
    cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

    De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
    profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
    100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
    trez de espadas que se achava na mesa.

    Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
    direita ou para a esquerda das cartas.

    O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
    pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

    –Mata o rei?

    Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

    –Mato-o, sim senhor!

    Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
    silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
    e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
    cartas 3$000 que tinha posto.

    O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
    principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
    que comprimia nos dedos.

    A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

    Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
    illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
    parada egual á minha.

    Esta decisão da sorte–eu o confesso–não me regosijou senão de um modo
    bem caracteristicamente mediocre.

    Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
    consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
    de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,–somma
    recebida n'esse mesmo dia.

    Fiquei na batota até pela manhã.

    Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
    entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
    e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
    em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
    primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
    da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
    pautava luminosamente d'azul.

    Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
    noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
    cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

    O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
    saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
    raivosamente pelos pontos.

    O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
    o collarinho esverdinhado de transpiração.

    O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
    depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
    de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
    escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
    as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
    convulsões da bronchite.

    A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
    de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
    banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
    ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
    polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
    Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
    d'ali embora sosinho.

    Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
    Chico … não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
    filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
    no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

    Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
    misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

    A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
    um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
    melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
    tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
    atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
    palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
    fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
    elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

    Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
    cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
    um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
    no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
    antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
    moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
    doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
    sovaco.

    –Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!–explicou-me elle com voz
    estrangulada.

    E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
    alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
    bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

    –Como assim!–lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
    inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
    que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?… Saiamos
    lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
    me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
    progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
    tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
    os olhos torvos!

    –Cão!–disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
    parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
    porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
    cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
    janella.

    E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

    –Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
    agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
    para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
    e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
    rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
    pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
    diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
    para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
    presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
    justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
    partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
    mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
    noite o rei…..Não sei se o snr m'o viu matar?… Matei-o como quem
    mata um pôrco…..Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
    regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
    luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
    semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
    doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

    –Pois olhe–exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
    de um repentino jubilo–dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
    modo que me está a appetecer isso, a mim!

    E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
    remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

    Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
    vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
    encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
    entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
    ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
    vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

    Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
    pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
    Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
    taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
    vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
    natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
    sempre velados pelo mysterio.

    * * * * *

    Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
    batota!

    Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
    que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

    Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
    de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
    castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
    lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
    aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
    impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
    solto.

    E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
    de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
    assalta e sequéstra as batotas!

    Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
    teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
    para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
    outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
    policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
    lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
    chalaça!

    * * * * *

    Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
    jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
    _Frei Bandalho_.

    Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
    bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
    Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
    vulgarisação da litteratura jornalistica.

    Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
    ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
    cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
    pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
    preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
    braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
    _Bisborria_ e o _Pulha_.

    A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
    intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
    esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
    educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
    com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
    borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

    * * * * *

    S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
    Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
    _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

    Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
    s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
    portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

    Inclinemo-nos com reverencia!

    Elle poz-lhe o nome de Rosalia….

    Tornemos a inclinar-nos!

    E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
    meiados do decimo setimo seculo…..

    Prostremo-nos por terra!

    * * * * *

    D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
    n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

    «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
    boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
    impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
    por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
    aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
    semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
    luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
    das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
    pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
    sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?…

    «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
    conde de Sabugosa.»

    É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
    D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
    um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
    pena de experimentar….

    De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
    preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
    differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
    os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
    os gostos d'horta ou de capoeira.

    O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
    massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
    a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

    Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
    longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
    musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
    duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

    Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
    da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
    jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

    * * * * *

    Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
    noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
    Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
    devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
    de escamas de corvina.

    Tambem folgamos muito com isto.

    Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
    artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
    notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
    lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
    se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
    esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
    genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
    prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
    artes do desenho.

    Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
    peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
    suas boas mestras!

    Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
    processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
    perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
    apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
    faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
    escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
    Leopoldo!

    Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
    artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
    critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
    que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
    nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
    organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
    estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

    * * * * *

    Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
    assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
    aprehendidos.

    O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
    se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
    visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
    no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
    Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
    reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
    batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
    empalmou do bolo.

    A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
    policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
    para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

    E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
    diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

    Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
    chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam–mais
    propriamente–uma _vacca_.

    * * * * *

    Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;–coisa que
    naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
    mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
    Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

    Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
    dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
    implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
    outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
    baralhos.

    Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
    tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

    O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
    esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
    gracejo_.

    O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
    inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:–aquelle a
    quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
    licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

    O movel do crime,–digo–o movel da pilheria, de que o innocente é
    accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

    Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
    chamado a resolver questões d'olhos.

    Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
    ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
    que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

    O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
    luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
    que entre esses dois amantes se passou!

    O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
    mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

    Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
    ironica:

    –Ora, para que queres tu o ôlho?… Importas-te tu bem com o meu ôlho!
    se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
    Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas….

    –Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
    para um berloque?!… Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

    E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
    transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
    delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

    Oh! amor!… amor!

    Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
    breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
    um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
    jornal o serafim a que nos reportamos.

    Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
    patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
    collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
    juizo.

    Diz o jurado:

    _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
    ôlho á queixosa?_

    Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
    Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
    XVII pelas damas illustres.

    Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
    que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
    obrigação d'este é por-se de rôjos.

    * * * * *

    Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
    cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
    terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
    e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
    essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
    Bragança Junior.

    Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
    severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
    da patria.»

    Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
    de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
    bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna–como consta por pessoas
    fidedignas–se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
    a descobrir que ella era unicamente um lenço.

    Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
    attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
    venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
    correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
    crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
    servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
    cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
    I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
    o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
    outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

    * * * * *

    Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
    moveis artisticos.

    Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
    portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
    sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
    licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
    magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
    senhora.

    O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
    desafogo de alguns commentarios.

    * * * * *

    A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
    de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
    antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
    Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
    restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
    dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
    armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
    das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
    roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
    guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
    sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
    as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
    João v.

    Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
    gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo–dos
    ferros-velhos.

    * * * * *

    É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
    artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
    resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
    modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
    linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
    o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
    não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
    cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
    o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
    convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
    a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
    rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

    Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
    obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
    preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
    dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
    fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

    O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
    proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
    fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

    Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

    Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
    consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
    immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
    alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
    progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
    elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

    * * * * *

    Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
    nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
    mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
    mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
    proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
    melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
    influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
    quanto talvez ephemera.

    Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
    quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
    sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
    definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
    sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
    fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

    Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
    e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
    ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
    bem dissolvente!

    Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
    a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque–comprehendem bem esta
    _nuance_–agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
    aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
    do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
    Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
    esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
    mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
    Agostinho, da rua do Alecrim!… Oh! minha senhora! minha senhora!

    * * * * *

    Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
    nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
    foi victima o mais bello gato de sua magestade!

    Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
    competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
    de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
    contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
    real camara a raparem-o á escovinha.

    Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
    ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
    dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
    dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
    destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
    versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
    sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
    pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
    a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
    com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
    no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

    O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
    mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
    abstinentes e mais respeitosos, o camareiro–dizemos–acceso em zelo
    pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
    costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
    pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
    que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
    entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
    caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

    * * * * *

    Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
    unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
    espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
    soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
    promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
    reconhecel-o e a lamental-o.

    * * * * *

    Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
    o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
    representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

    O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
    diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
    menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

    Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
    liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
    classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
    n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
    que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
    morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
    archeologicas.

    * * * * *

    «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
    com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
    arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!–dizem as
    folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
    o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
    augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
    d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
    Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
    Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
    hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
    fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
    arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
    Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
    nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
    religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
    nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!–a nossa sublime
    religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
    vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
    Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
    nação portuguesa!»

    * * * * *

    Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
    d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
    offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

    O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
    do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
    á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
    por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
    bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
    pé outra vez.

    Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
    se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
    a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
    unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
    tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

    Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
    primeiro repente gostamos d'elle.

    Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
    geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
    bispos–especialidade em que somos completamente leigos–desde que ella
    affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
    nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
    ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
    em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

    Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
    n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
    conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
    estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
    bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
    os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

    Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
    desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
    preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
    a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
    ninguem.

    Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
    a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
    peiores de todos!

    Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
    prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
    o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
    e o arcebispo de Bragança.

    O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
    que é fazenda.

    Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
    bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

    O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
    gallinha!

    Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
    _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
    exercito das trevas_.

    Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
    melros. Rua, que é a sala dos cães!

    Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
    escusa-se de bispos.

    Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
    que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
    pouco pellada no lombo–abria o meu seio incauto aos persevejos … quero
    dizer, aos bispos … da, _Nação_!… Que tal estava a rascada, heim?

    E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar…. Vamos nós
    agora que o proprio _Diario da Manhã_….–Não queremos melindrar
    ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
    de Deus…. Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
    Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_…–

    Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
    tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
    melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
    incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
    _Nação?…_

    Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
    que ha pouco demos á nossa cosinheira:

    –Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

    * * * * *

    Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
    governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

    O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
    representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
    impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
    cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

    No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
    estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
    propicio para cardinalisar Masella.

    Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão–operação a que
    se procede cosendo-o–o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
    encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
    ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
    propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
    a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
    que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?…

    Oh! não.

    Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
    exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
    distribuição dos barretes phrygios.

    O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
    symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
    sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
    de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
    então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
    borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

    Outro tanto–com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum–não
    temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
    de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
    a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
    pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
    tostões e meio.

    De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
    barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
    critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
    traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
    mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
    balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
    instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
    do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
    seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
    affirma o mui culto Doutor Jardim … de S. Pedro d'Alcantara.

    Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
    presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
    seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
    direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
    dizer em tal conjuntura:

    –Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
    esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
    sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
    turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
    agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
    e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

    * * * * *

    Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
    dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
    emfim conseguimos–por um acaso–descobrir os elementos do conflicto
    entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

    Eis o caso:

    * * * * *

    Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
    franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
    a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
    propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

    Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
    benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
    pessimos alguns dos bispos propostos.

    –Como assim!?–volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
    humanas.–Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
    amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
    desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
    que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
    precisamente opposta á que eu tenho!?…

    –Perdão…—interrompe o ecclesiastico–eu pensei que, desde que v.
    ex.ª me consultava….

    -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!… Não me force Vossa
    Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
    cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
    ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
    gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
    por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
    baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
    fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
    sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
    toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar–e para isto
    chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia–que, toda a vez que
    um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
    principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
    do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
    _quaesguer que elles sejam_–repito-o–é abundarem approvativamente e
    jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
    as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
    liberrimo governo da nação portugueza.

    –Mas então,–obtemperou o sacerdote romano–o systema governativo, de
    cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
    mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
    da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
    e snr, agora, o vereis!

    _–Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
    rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _–Farça!_ O
    forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
    monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
    chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
    Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!… Cuidará
    então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
    pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
    ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
    carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
    incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
    carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!…
    Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
    d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
    sua famosa _vinha do senhor:–Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
    vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
    porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
    bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
    a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
    efectivamente persuadidos de que são sal?… Vive o snr, por exemplo, na
    convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
    sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
    sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
    snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
    abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
    pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
    sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
    assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?…
    Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
    para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
    Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
    literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
    coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
    da crusta terrachea?!… E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
    sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

    Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
    que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
    perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
    o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
    experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
    drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

    * * * * *

    Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
    dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
    ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
    passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
    se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
    folha:

    _O nuncio desacatou sua excellencia_.

    Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
    periodicos ministeriaes.

    _Sua excelencia_–segredam as vozes familiares da burocracia–_apanhou
    um calor_.

    * * * * *

    Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
    nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
    causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
    occasião d'este jubiloso successo.

    * * * * *

    E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
    compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
    nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

    Os bispos–dizem-o todos os textos canonicos–são os pastores das almas,
    incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
    que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
    confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
    considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
    Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
    ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
    de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

    Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
    interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
    bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
    de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
    o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

    * * * * *

    Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
    Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
    que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
    pensadores?…

    Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

    Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
    ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
    livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
    prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
    fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
    irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

    Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
    pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

    Vejamos, sinceramente:

    Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
    querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
    confessar mulheres?…

    Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
    a fallar n'isso.

    Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
    que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

    Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

    –Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
    republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
    bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
    bispos.

    Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
    governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
    Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
    governo:–para ver se o governo aprende a não ser tolo!

    * * * * *

    A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
    beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

    Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
    empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
    que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
    republicano de opposição ao governo.

    Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
    que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
    do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

    Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
    pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
    estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
    para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

    Parabens a sua excellencia!

    * * * * *

    Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
    passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
    da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
    Carnaxide.

    Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
    inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
    presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
    pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
    bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
    gorgeios.

    Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
    fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
    lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
    o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

    Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
    presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
    Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
    magestoso acima do narravel.

    Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
    quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
    de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
    horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
    vida em direcção á faia virente.

    Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
    ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão–por não ter porco
    ao lado.

    Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
    Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
    as nuvens, exclamou:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
    negocios do reino.

    Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

    –Guarde-vos Deus, bons rusticos!–disse s.ex.ª acommodando o stylo á
    rude e acanhada comprehensão do auditorio–E que a senhora Santa Rosa de
    Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

    E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
    campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
    exprimir-se em prosa:

    –Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?–Trazeis comvosco a
    vossa avena, Melibeu?–Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

    Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
    facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
    nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
    lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
    penna e de governação.

    Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
    matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
    brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

    –Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
    quebrada da serra?

    E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
    Nossa Senhora Apparecida,

    –Corramos prestes ao templo!–bradou s.ex.ª–Dirijamo-nos pressurosos a
    elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
    d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
    _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
    Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!… Ao templo! ao
    templo!…

    Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
    Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
    infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
    a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
    patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
    feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
    para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
    Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
    publica:

    D. Miguel foi á Sé,
    Sentou-se n'uma cadeira,
    E disso para os malhados:
    Esta perna está inteira!

    Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
    que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
    governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
    Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou–por
    outra–que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
    Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
    segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

    Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
    milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
    submissos em giolhos.

    E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
    viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
    repetir aos montes e ás hervinhas:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

    que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
    a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
    honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
    Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
    de nunca ter visto Lisboa.

    Gloria pois a s.ex.ª!

    * * * * *

    Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
    pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
    desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
    na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
    minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
    molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

    A patria explorava-o e ria-se d'elle.

    Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
    papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
    Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
    agraciou a regia munificencia.

    Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
    dos cães,–vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
    extrangeiro.

    Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
    embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
    Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
    instruida e forte, que vae chegar–para se rir.

    Lisboa 15 de dezembro de 1882.

    _Ramalho Ortigão._

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    Aproximadamente 16.983 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 1

    JUNHO A JULHO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
    reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
    mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
    consta–Presente estado das ideias–A religião–A politica–A moral–A
    arte–Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
    resultados–Dois annos depois–A celebração do centenario do Marquez de
    Pombal considerada como symptoma psychologico–Do estadista em geral e
    do Marquez em particular–Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
    para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
    acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
    secundario na classe dos estadistas–Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
    Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
    outros–Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
    aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama–Coerção da
    agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
    direitos civis, coerção do pensamento–Arruamento geral de todas as
    actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
    Baixa.–Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez–A
    estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço–Parallelo do
    cavallo e do cavalleiro–Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
    para o outro.

    * * * * *

    Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
    rigor definir-se do seguinte modo:–Ajuntamento fortuito de quatro
    milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

    Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
    encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
    ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
    qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
    tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
    arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_–e é
    exactamente o que é–mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
    sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
    esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
    liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

    Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
    a ideia.

    * * * * *

    Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
    portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
    constitue a nacionalidade de um povo.

    Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?…

    Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
    n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
    Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
    amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

    As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
    Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
    d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
    pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

    * * * * *

    Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
    categorias diversas.

    Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
    alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
    esse fim.

    Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
    medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
    terra.

    Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
    qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
    e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
    se manifesta sob a forma de dedo,–o bem conbecido _dedo de Deus_.

    Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
    uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
    individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
    e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
    não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
    senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

    Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
    opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
    bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
    Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
    Baixa.

    Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
    agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
    Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
    do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
    benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
    desprestigiada e choca.

    Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
    dissidencias acrimoniosas de detalhe.

    Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
    Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
    engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
    feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
    desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
    desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
    crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
    commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
    arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
    desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
    á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
    bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

    Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
    cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
    hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

    A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
    tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
    que seja, deram o nome de _eterna essência._

    Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
    vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
    domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
    com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
    pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
    que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
    _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
    continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
    para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
    sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
    lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
    roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
    ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
    d'ella.

    Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
    ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
    desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
    muitas vezes a alliança da familia.

    * * * * *

    Passemos á politica.

    N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,–é evidente.

    Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
    Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
    desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
    modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
    desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
    navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
    condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
    emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
    intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
    davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
    preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
    espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
    desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
    e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
    licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
    mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
    reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
    para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
    Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
    enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
    ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
    joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
    governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
    sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
    sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
    importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
    se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

    Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
    poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
    absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
    representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
    e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

    Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
    d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
    para ahi é que elles não vão.

    Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
    atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
    exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

    São ainda–affirma-se geralmente–habeis parlamentares, o que quer dizer
    que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
    transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
    parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
    estéril.

    Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
    ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
    procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
    duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
    ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
    consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
    portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
    principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
    apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
    teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
    calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
    de cabellos tingidos.

    Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
    vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
    fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
    em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
    provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
    especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
    castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
    no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
    toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
    miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
    prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

    É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
    social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
    fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
    produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
    a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
    lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
    bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
    dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
    convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
    separação dos interesses operou a separação das energias.

    É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
    demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
    na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
    de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
    acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
    ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
    phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
    effeito de si proprio.

    Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
    basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
    affirmação em evidencia de facto.

    Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
    questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
    a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
    chama–_a questão da fazenda_.

    Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
    começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
    symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
    governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
    encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia–aliás
    desagradavel, cumpre dizel-o–mas de que elle, governo em exercicio, não
    tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
    pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

    Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
    trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
    immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

    Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
    tem os outros dois!

    A corôa pela sua parte–e é este o mais augusto do todos os seus
    privilegios–é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
    e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
    imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
    citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
    anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
    chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
    por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

    Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
    decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
    credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
    calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
    emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
    mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

    Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
    pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
    atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
    interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit–por uma extranha
    birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
    negativo, em uma não existencia,–augmenta sempre atravez das
    contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
    emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

    Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
    ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
    traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
    divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
    quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
    alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
    divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
    passou no estado de consolidação para o saco de traz.

    A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
    dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
    vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
    de saco, ella cresce.

    Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
    boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
    collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
    pague.

    No emtanto o problema de augmentar a riqueza–unico meio de prover aos
    encargos–é considerado como absolutamente extranho á _questão da
    fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
    senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
    ligado aos progressos da industria.

    Ora emquanto á industria … Mas este novo ponto pode ficar para outra
    vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
    facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
    qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
    governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:–a liga
    dos governados para o despreso convicto dos que governam.

    * * * * *

    Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
    seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
    á protuberancia de cada calo.

    Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs–da moral publica e
    da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
    casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
    virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
    mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
    politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
    caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
    ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
    vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
    latitudinaria–a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
    todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
    caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
    nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
    podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
    no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
    pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
    santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
    inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
    de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
    amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
    face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

    Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
    no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
    intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
    hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
    diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
    trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
    radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
    diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
    inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
    instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
    cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

    A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
    caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
    por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
    o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
    combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
    tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
    de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
    perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
    entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
    sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
    o interesse.

    Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
    compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
    imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
    aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

    O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
    propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
    transacções entre o homem e o infinito?

    Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
    naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
    determinadas pela constituição do meio.

    Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
    compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
    mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
    inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
    corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
    correlativamente as sympathias dos individuos.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    –Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!… Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
    fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
    que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

    Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
    para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
    do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
    constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
    liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
    padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
    que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
    banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
    d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração–o
    _stylo furriel dos batalhões da carta_.

    Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
    antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
    interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
    do publico?

    Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
    grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
    insubmissos e o grupo dos domesticados.

    Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
    laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
    governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
    Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
    pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
    desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
    respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
    depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
    teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
    fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
    simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

    Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
    republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
    para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
    com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
    mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
    luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
    Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
    escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
    combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
    _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
    vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
    andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
    pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
    e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

    Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
    apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
    razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
    paginas de poema, de romance ou d'historia.

    A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
    cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
    ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
    curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
    d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
    com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
    barrigas, todas postiças.

    Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
    que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
    _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

    Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
    vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
    desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
    poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
    marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
    da Baixa.

    Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
    aventuras de telhado,–pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
    fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
    tremem-lhes as pernas, e acocoram.

    Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
    profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
    e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

    Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
    monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
    Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
    estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
    Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
    pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
    culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

    Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
    cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
    limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
    perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
    ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
    hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
    nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
    casta–_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
    elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
    vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
    conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
    cynico.

    Em compensação ha outros termos–os termos proprios de sociedade, que
    elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
    decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre–_do
    Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
    sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
    retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
    incivis do gado vacum.

    O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
    que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
    regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
    humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

    Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
    obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
    _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
    profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
    de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
    de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
    anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
    escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

    Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
    nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
    profundas as nossas dissidencias estheticas.

    Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
    nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
    artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
    detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
    Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
    rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
    que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
    meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
    do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
    _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._

    Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
    periodicidade, o burguez em espectativa exclama;–A canalha d'esta vez
    ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!

    * * * * *

    De cima abaixo, como vêem,–na religião, na politica, na moral, na
    arte–esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
    sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
    desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
    cohesão da ideia portugueza.

    N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
    só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
    como gotas d'oleo n'um papel passento.

    No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
    um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
    vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
    do repositório.

    De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
    consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

    * * * * *

    Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
    esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
    dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.–_E'a
    prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
    elle ainda respira ou não_–disseram então esses homens ingenuos. E, sem
    receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
    antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:–_Vereis amor da
    patria não movido de premio vil_.

    Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
    narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
    individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
    dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
    camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
    no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
    eslas linhas.

    Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
    centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
    ainda que immodestamente, o registam.

    Foi essa a primeira vez–será provavelmente a ultima–que a redacção
    d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
    para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

    Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
    este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
    desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
    escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
    desprezo dos seus similhantes.

    As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
    Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
    mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
    respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
    carcere.

    Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
    gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
    irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
    mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
    possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
    et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
    marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

    Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,–a tristeza
    de ser só,–na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
    sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
    verdades em evidencia.

    Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
    que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
    a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
    sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
    um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
    um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
    uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
    pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
    beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
    intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
    dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
    estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
    já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
    preciso uma broca.

    As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
    indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
    uma vez participantes no movimento do seu tempo.

    Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
    publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
    durante trez dias com trez noites.

    –É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?–perguntava-se aos
    chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
    nossos reis e nas estalagens.

    A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
    n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
    pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
    reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
    sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
    mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
    todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
    radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
    perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
    socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
    os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
    d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
    uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
    cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
    vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
    cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
    espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
    n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
    proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
    pela gargalhada as mandibulas do publico.

    Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
    governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
    cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
    bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

    Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
    possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
    cohesão social do espirito portuguez.

    Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
    como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
    genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
    portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
    nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
    direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
    poesia eterna.

    A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
    sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
    cidadãos nas crises de decadencia nacional,–um estimulo supremo de
    energia e de revivescencia patriotica.

    Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
    verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
    historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
    documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
    dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
    evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
    rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

    Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
    espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
    o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
    soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
    delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
    constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
    cobarde.

    Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
    pbrase:

    _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
    arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
    philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
    historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:–«A camara
    aguarda as determinações do governo.»

    A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
    nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
    centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
    pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
    massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

    * * * * *

    Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
    parecia poder-se deduzir:

    _Primeiro_–Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
    pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
    nação, perdera por esse facto a rasão de ser,–o que de resto elle
    proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
    do muito que já brilhava pela inanidade.

    _Segundo_–Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
    instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

    _Terceiro_–Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
    que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
    de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
    assim como a ordem social e a ordem economica.

    * * * * *

    Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:

    _Primeiro_–Em minar systematicamente as instituições, approximando
    d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
    dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

    _Segundo_—Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
    bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
    elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
    de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

    _Terceiro_–Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
    associados—duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
    deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
    classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
    situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
    social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
    interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
    alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
    velho regimen de auctoridade inutil,–especie de iniciação pacifica e
    fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
    _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

    * * * * *

    Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
    centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
    d'essas soluções?

    * * * * *

    Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
    associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
    escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
    individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
    philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
    Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
    ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
    hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
    dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
    e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
    um _troca-tintas,_ apenas.

    N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
    instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
    analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
    mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
    ventos do seculo.

    Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
    teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
    historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
    porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
    poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
    escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
    Protectora dos Portuguezes,_–nova coisa que os do Porto abriram agora á
    gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
    cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

    Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
    especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
    intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
    pudicicia de vestal velha.

    Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
    approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
    luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
    geraes.

    Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
    ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

    Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
    paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
    principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
    separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
    sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
    o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
    Melpomone.

    * * * * *

    Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
    havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
    projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
    na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
    das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
    para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
    negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
    muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

    Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
    dentro.–Truz truz truz!

    –Quem é?

    –Está em casa o governo?

    –Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
    ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

    Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
    se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
    explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
    estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
    travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
    não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
    explique as coisas!

    Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
    desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
    celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
    alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
    explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
    Serpa.

    * * * * *

    Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
    congresso das associações confederadas.

    Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
    parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
    á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
    para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
    principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
    reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
    do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
    symptoma culminante e preciossimo.

    Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
    importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
    portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
    canonisado pelo enthusiasmo popular.

    * * * * *

    O marquez de Pombal é um estadista, um governante,–o que quer dizer–a
    mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

    Buckle…–pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
    que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
    insuspeitos–Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
    bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
    os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
    interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
    compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
    os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
    foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
    constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
    dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
    civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
    os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
    geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
    criminoso perante a historia.–Não somos nós que o dizemos é Bukle na
    sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

    Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
    effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
    maquina politica.

    Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
    toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

    Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
    scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
    liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
    mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
    originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
    resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
    visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
    duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
    depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
    em que principiaria a ser necessaria.»

    Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
    de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
    social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
    empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
    resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
    baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
    mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
    defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
    E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
    sociedades.

    Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
    destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:

    «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
    consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
    Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
    cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
    d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
    porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
    indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
    cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
    promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
    principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
    excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
    sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
    seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
    _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
    thronos e os que compõem os gabinetes–toda a gente o sabe–são
    simplesmente os servos d'aquelles homens.»

    Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
    Spencer.

    Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
    o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
    simples trabalhadores.

    O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
    civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
    calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
    bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
    excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
    pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
    Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
    eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
    Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

    Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
    que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
    apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
    uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
    que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
    representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
    doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
    quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
    Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
    outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
    França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
    muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
    Napoleão.

    O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
    força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
    catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
    memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
    Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
    se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
    produzir trabalho.

    Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
    reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
    d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
    Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
    modesto professor como Adão Smith.

    Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
    anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
    d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
    triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
    cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
    os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
    effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
    carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
    da fauna do mundo moderno.

    Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
    representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
    seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
    governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
    da _Declaração dos direitos do homem_?

    Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
    precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
    solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
    social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
    negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
    acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
    restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
    proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
    cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
    reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
    de trabalho.

    A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
    representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
    revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
    o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
    dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
    o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

    Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
    regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
    ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
    um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
    unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
    numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
    communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
    approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
    lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
    os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
    cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

    Na Europa já não ha d'isso.

    Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
    governantes.

    A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
    religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
    artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
    bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
    celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
    transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
    impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
    segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
    más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
    precederam.

    A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
    seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
    Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
    psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
    tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
    primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
    poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
    O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
    actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
    são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
    familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
    de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
    aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
    aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
    terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
    philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
    Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
    Bernouilli, etc.

    Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
    anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
    creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

    * * * * *

    Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

    Durante o seculo XVIII–diz Michel Chevalier–vemos successivamente
    passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
    rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
    supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
    tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
    detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
    a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
    extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
    dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
    suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
    convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
    agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
    riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
    arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
    contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
    auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
    punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
    principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
    Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
    e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
    estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
    expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
    Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
    Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
    Campomanes e Florida Blanca.

    D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
    Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
    uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
    deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
    carece de originalidade.

    Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
    geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
    reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
    annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
    D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
    sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
    estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
    no governo das monarchias modernas.

    As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
    sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
    d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

    O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
    mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
    reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
    que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._

    Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
    funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
    da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

    Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
    viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
    com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
    nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
    Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
    politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
    o penetraram inteiramente.

    A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
    politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
    salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
    a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
    Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
    desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
    alcovas.

    Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
    ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
    imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
    procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
    similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
    ministro na côrte de Lisboa.

    Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
    caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
    cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
    suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
    estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
    academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
    programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
    no seu paiz.

    Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
    politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
    Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
    as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
    ministrado.

    O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
    unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
    conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
    o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
    cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

    Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
    _tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
    Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
    e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
    tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
    transfere para os membros das academias e das universidades a censura
    até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
    direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
    funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
    finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
    tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
    annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
    aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
    direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

    Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
    Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
    systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
    resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
    V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
    Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
    boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
    estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
    hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
    não paga um _sou_.

    Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
    extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
    bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
    vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»

    A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
    que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
    baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
    mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
    individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
    bens, nem crenças, nem opiniões.

    O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
    obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
    roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
    serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
    troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
    principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
    privilegiada.

    Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
    superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
    uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
    todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
    na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
    riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
    poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
    abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
    o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
    direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
    productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
    salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
    desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
    produzem e aquelles que consommem.

    Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
    pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
    ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
    prosperidade ou na riqueza, publica,–a companhia do Maranhão, a de
    Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
    atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
    depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
    importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
    suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
    liberdade.

    O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
    reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
    seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
    social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
    como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
    de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
    disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
    uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
    irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
    cidade.

    O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
    qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
    da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
    renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
    franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
    consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
    de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
    completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
    funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
    medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
    reclame.

    Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
    collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
    possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
    grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
    quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
    Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
    promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
    n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»

    Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião–a d'lle, e o
    publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
    julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
    como se faz aos pudins.

    Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
    pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
    pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
    caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
    pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
    directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
    José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
    oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
    durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
    mundo civilisado.

    A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
    confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
    sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
    derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
    pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
    da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
    perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
    No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
    violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
    exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
    ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
    symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
    sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
    sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
    sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
    tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
    toda a área da ordem social.

    De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
    os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
    capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
    philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
    philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
    linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
    temperamento e a paixão.

    Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
    taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,–o arroz, o vinho, a
    manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
    particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
    a philosophia, a historia, a moral e a canella.

    A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
    duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
    praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
    vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
    pensar, de cebo para resistir.

    Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
    systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
    do principe e escarmento dos subditos.

    Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
    omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
    traição.

    O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
    Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
    historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
    critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
    reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

    Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
    a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
    é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
    e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
    que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
    assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
    titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
    luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
    e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
    no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
    convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
    Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
    duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
    perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
    morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
    de pé descalço.

    Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!

    Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
    janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
    immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
    d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
    tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
    assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
    familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
    dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
    brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
    pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
    e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
    cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
    pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
    que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
    mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
    desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
    amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
    um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
    meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
    um laço de fita.

    E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
    aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
    plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
    acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
    participado na aggressão ao principe.

    Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
    Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
    José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
    despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
    morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
    miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
    direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
    com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
    destruir.

    É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
    democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.

    Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
    egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
    o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
    liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
    escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
    completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
    isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
    cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
    No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
    ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
    de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
    aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
    e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
    Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
    formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
    como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
    commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
    Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
    Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
    peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
    Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
    foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
    assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
    dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
    vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
    a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
    alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
    incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
    n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
    espavoridos e cegos.

    Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
    nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
    especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
    Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
    perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
    nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
    palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
    cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
    Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
    coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
    provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
    força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
    o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
    Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
    amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
    d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
    unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
    por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
    intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
    o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
    estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
    Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
    Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.

    A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
    em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
    em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
    seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
    um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
    mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
    zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.

    Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
    militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
    equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
    suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
    Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.

    Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
    cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
    progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.

    A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
    nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
    resultado de um equivoco.

    Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
    ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
    de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
    desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
    discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
    immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
    principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
    elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
    consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
    politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
    o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
    pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
    minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
    fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
    por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.

    Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
    marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
    a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
    fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
    principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
    debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
    mesmos principios.

    Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
    tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
    mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
    considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
    revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
    abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
    destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
    retardar a queda_.

    A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
    progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
    Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
    retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
    tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
    artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
    fabrico.

    A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
    influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
    tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
    marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
    vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
    atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
    que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
    sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.

    Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
    na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
    mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
    espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
    do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
    cabeça.

    Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
    secularisado todo o seu programma de poder.

    Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
    ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
    acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
    Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
    peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
    Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
    theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
    _Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.

    Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
    principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
    quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
    de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
    elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
    lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.

    A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
    formas de jesuitismo applicado ao ensino.

    A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
    Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
    obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
    do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
    seus alumnos nos domingos e festas de guarda.

    Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
    legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
    casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
    propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
    regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
    especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
    cepa torta da intelligencia.

    Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
    phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
    experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.

    O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
    essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
    atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
    communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
    pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
    artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
    cada anno lectivo.

    Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
    maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
    menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
    livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
    coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
    ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
    maior será a confusão do seu cerebro.

    A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
    bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
    derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
    explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
    dogmatico ou metaphysico.

    A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
    ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
    o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
    dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.

    Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
    doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
    politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
    coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
    ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
    no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
    do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
    resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
    seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.

    Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
    jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
    secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
    civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
    desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.

    O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
    durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
    intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
    pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
    quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
    vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
    firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
    erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
    na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
    quadrado,–com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

    N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
    outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
    chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

    Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
    e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
    pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
    por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
    trambolho de chumbo que os afunde.

    As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
    n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

    O historiador snr Henri Marlin pergunta:

    «O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
    realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
    responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
    espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
    natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
    da verdade.»

    O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
    por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
    pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
    accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
    a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
    egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.

    A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
    offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
    incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
    dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

    Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
    sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
    Carvalho–feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
    cacete e uma espessura de baluarte–fez de Portugal á força de leis e de
    sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
    paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

    Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
    dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.

    O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
    dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
    casca.

    Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
    mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
    o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
    e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
    da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
    novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
    Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
    toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
    batina e a ovos molles.

    O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
    generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
    submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
    escorraçava-o e perseguia-o,–que é sempre assim que os reis pagam aos
    plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
    de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
    a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
    me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
    Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
    da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»

    O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
    qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
    produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme–a obediencia
    geral.

    Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
    liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
    obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
    obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.

    Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
    encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
    momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
    justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
    insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
    procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
    este personagem sem ideias nenhumas.

    Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
    contemporaneo do marquez de Pombal–o que aliás a chronologia parece
    demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel–nós permittir-nos-hemos
    contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
    José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
    estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
    explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
    que nos governou o marquez de Pombal.

    Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
    povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
    equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
    cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
    constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
    anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
    ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
    do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
    doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
    alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
    Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
    pacto constitucional.

    Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
    altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
    que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
    sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
    pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._

    A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
    coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
    _creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
    _liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
    commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

    Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
    excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
    Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
    acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
    de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
    governos como o de Pombal lhe opposeram.

    Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
    prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
    differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
    não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
    seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
    mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

    A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
    que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
    para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
    do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
    moral da humanidade.

    Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
    acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
    foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
    forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
    Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
    d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
    a salvação do povo_.

    A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
    envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
    teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
    consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
    Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
    celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
    que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
    deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
    postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
    que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
    que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
    degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
    desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
    o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
    organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
    ingenita.

    * * * * *

    Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
    e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
    preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
    vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
    Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
    terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
    que é necessario que a gente se colloque.

    Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
    em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
    tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
    vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
    seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
    com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
    sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

    Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
    centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
    fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
    senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
    mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
    charlatanismo dos seus tyrannos.

    O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
    peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
    honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
    abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
    merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
    amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
    deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
    dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
    exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
    ainda de talento que de pudor.

    Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
    se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
    Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
    cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
    animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
    n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
    uma charrua.

    Lisboa 10 de junho de 1882.